Novembro geminiano

Gosto de ler a Susan Miller assim que o mês começa. Na vida em paralelo que ela me apresenta, eu viajo para o exterior, tenho editores me procurando, dou entrevistas, recebo heranças, compro coisas lindas para minha casa. Para novembro, ela prometeu aos geminianos encontrar o seu amor verdadeiro. Não pude nem me preocupar com isso. Ou melhor: que bom que esse setor da minha vida está mesmo desativado, uma coisa a menos com que me preocupar. Este novembro foi um mês tão difícil – no qual Aguinaldo foi apenas uma terça parte – que tudo o que estou pedindo é que os problemas que surgiram nele acabem.

Enquanto fomos amigos

 

Eu estava na rua, numa dessas minhas caminhadas que qualquer outra pessoa consideraria muito longa, e lembrei de você. Nem era sobre algo que vivemos juntos – lembrei de um causo que me contaram sobre você, e ri de ser algo tão tipicamente teu. Sempre adorei o teu senso de humor, acho que essa era a parte que mais nos unia. Lembrei e lamentei não ter mais acesso a ele. Você me diria que não, que esse afastamento não passa de mais uma das minhas bobagens e exageros; bastaria te desbloquear de tudo, me reaproximar, e você se deixaria entrar na minha vida com a mesma naturalidade de antes. Me deixaria te mandar os piores links, trabalhar ao teu lado cantarolando o que toca no rádio. Passearíamos, veríamos TV juntos. Mas esse, pensei, é o grande problema. A proximidade tão grande de um lado e a impossibilidade de outro. As coisas que despertamos um no outro. O meu afeto tão disponível, o teu recheado de promessas quebradas. Você reconhece que eu não entendo, porque sou “um alien”, o que te encanta e te convida a se aproveitar. Chamar de acidente e negar algo que foi premeditado é tão ofensivo. A capacidade imensa que você tem de me magoar. Doeu tanto. Os piores cafajestes são sempre os mais amigos, os mais legais e você é tão as duas coisas. As coisas que você fez por mim, a tua generosidade, o teu carinho. Há certas coisas que eu não sei como teria passado sem você. Amo o teu senso de humor, invejo quem pode desfrutar dele sem ambiguidades. Como disse na nossa última conversa, que sei que nem parecia a última: foi muito bom enquanto fomos amigos.

Associações, Aguinaldo, oremos

As associações que a mente da gente faz. Lembrei de uma história da Pobre Menininha – se você não lia Luluzinha, perdeu o melhor da infância, ok? – em que a Bruxa Má deixou a sua tábua de lavar roupas toda lisa. Aí ela chorou desesperada, porque era lavadeira e não tinha como lavar roupas numa tábua lisa. Enquanto olhava para a parede de coração acelerado e sem conseguir me concentrar em mais nada, me senti o próprio ratinho do desamparo aprendido. Meus amigos começaram a achar que eu estava sofrendo na mão de algum cafa chamado Aguinaldo, porque todo dia tinha tuíte falando que estava atrás dele, esperando por ele, ligando para ele. Sem conseguir nem olhar, pensando em largar tudo, com calafrios só de pensar em costurar de novo, pensei no quão frágil é o ego. E quando me ocorreu este post, me perguntei se talvez não devesse, que seria precipitado, ou em português claro, que colocar por escrito que finalmente meu sofrimento acabou poderia me dar azar.
Assim: minha máquina de costura. Conserta, quebra, conserta quebra. Na primeira vez foi por um motivo, depois foi por outro. Aguinaldo, o técnico, às vezes nem me atendendo, às vezes um santo. Funcionava com o Aguinaldo e quebrava agulha dupla só comigo. Meus dias tomados por isso, telefonemas, vai e volta, suplica, espera. Três semanas. Aguinaldo desconfiado de que eu não sei costurar e fazia alguma barbaridade. Dois dias de plantão e ele veio no terceiro, no final da tarde. Não é barbaridade minha, ele viu que não é. Será que agora foi? Corri pra costurar os atrasados, pés e as mãos tremendo. Oremos.

Na rua

Por duas vezes tentei escrever um texto dizendo que eu acredito no estar na rua. Que às vezes não parece prudente ou que valha a pena, ou o lucro nem vai ser tão grande e as pessoas desinteressantes. Eu defendia que mesmo assim é preciso sair, porque é assim que as coisas acontecem, quando a gente se coloca à disposição. Aí por duas vezes eu fiquei sem terminar, porque me dei conta que essa rua não necessariamente existe mais. Não basta que você esteja fisicamente fora de casa; é preciso estar de corpo e alma, olhar para os lados, sentir os cheiros, prestar atenção nos estranhos, mudar de programação dependendo do imprevisto. Então me vi concordando com aquele – como diria a Dani – velho ranzinza, o Bauman. Por causa de tecnologia, é possível estar na rua sem nunca estar na rua, levar nosso mundo para onde formos. Aí não vale. Porque a magia de estar na rua só acontece ao sair um pouco de si.

Armadilhas

Ela quer ser mãe. Mas a biologia está dizendo que lhe resta pouco tempo. Homens costumam ser muito fáceis – sei de vários casos de mulheres que arranjaram doadores involuntários. Um pouco de sexo no dia certo e ela estaria grávida. Mas o seu sonho inclui não apenas marido como até igreja. Isso torna o seu tempo ainda menor: é preciso conhecer um homem, casar com ele e só depois engravidar.

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Ele quer acreditar. Quer ter uma crença e dela conseguir rumo e consolo. Outras pessoas da sua família conseguem e é bom pra elas. Já leu de tudo, passeou por várias filosofias, conheceu comunidades. Mas, ao mesmo tempo que um lado seu acredita, o outro começa a duvidar. Por ter lido de tudo, as coisas começam a ficar iguais. Por já ter visto muito, duvida das afirmações categóricas. Mesmo quando sente que toca o sagrado, depois se pergunta se não foi apenas uma impressão.

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Ela quer companhia. Também quer estar junto, dar risada, chegar num lugar e todos saberem o seu nome. Ainda mais num lugar onde todos são calorosos e apenas ela parece não ter amigos. Mas é uma pessoa ultra competente, inteligente, pega as coisas rápido. Sua dedicação é total e ela não tem tempo a perder. Quando alguém menos do que isso chega perto, ela não consegue disfarçar sua impaciência. As pessoas notam e se sentem tensas.

Eu era a confidente e consolo para as amigas com seus empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Eu estava sempre bem e elas não; elas ainda estavam em busca e eu casada, estabelecida, vida ganha.
Aí me separei. Eu não estava separada nem há um mês quando reencontrei uma amiga. Ela tinha levado o fora do noivo, um cara que morava em outra cidade e eles se viam a cada quinze dias. “Estamos passando pela mesma coisa, estou sofrendo igualzinho você.”
Agora estou separada e sem namorado, e minhas amigas me fazem de confidente e consolo de seus problemas com empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Afinal, estou sozinha e estável, já elas têm que ficar administrando relacionamentos.

 

Be more cat

(Adoro este vídeo, Be more dog)

Quando conheci a Claudia e a achei bonita careca, me lembrei de uma coisa que a Tere, que tem gatos, me disse: “Nós deveríamos ser mais gatos. O gato é tão ele, tão irritantemente ele, faz tudo sempre do jeito que ele quer, que a gente acaba se conformando e se adapta a ele”. Eu acho que a beleza também tem disso. De ao invés de aderir correndo a um padrão, teimar um pouco mais. Quando a gente ama alguém, não se pega amando seus cacoetes, suas pintinhas, as rugas dos cantos dos olhos quando sorri? Acho que quando a pessoa teima em ser ela, pode acontecer justamente o mesmo processo dos gatos – o mundo é que se adapta à nossa estética.

 

Ando com os meus cabelos brancos por aí e muita gente acha ele lindo. Vou confessar: eu não acho. Eu tenho aquela auto-imagem de ter o cabelo castanho bem escuro, quase preto, então eu não vejo o meu cabelo como “quase luzes” ou diferente, eu vejo cabelos brancos mesmo. Sempre me estranho nas fotos. Mas mesmo assim eu não pinto. Aceito que agora ele é mais branco e pronto. Meu corpo mudou e o meu cabelo também. Eu envelheci; fora o meu cabelo, acho que a juventude tem até feito uma hora extra em mim, então não vou pedir mais. O tempo, dinheiro e preocupação de pintar o cabelo são investidos em outras coisas. Ou quem sabe eu até pinte, só de que rosa, azul ou outra cor absurda. Tinha vontade de fazer isso aos trinta e me achava muito velha; agora, com quase quarenta, me sinto pronta. Be more cat.

 

Este é Serafa, o mito, um dos gatos da Suzi.

Sem cafeína

Eu estava na loja daquela cafeteira chique e cara que eu tive. Naquela época, já tinha me livrado dela, o que me trouxe não apenas economia com as cápsulas como até baixou a minha conta de luz. Mesmo assim eu ainda frequentava a loja, que se descreve como um “clube” – os donos de cafeteiras têm direito de irem lá e degustar quantos cafés quiserem. Os vendedores me conheciam e eu tenho o cartão de “membro”, então ia lá na maior cara-de… naturalidade.

Estava no balcão tomando o meu café e um vendedor chegou para fazer café para outro cliente. De rabo de olho, vi que era gatinho. Minha faixa etária, um visual mais pra moderninho, também gostava de café… Vieram conversando:

– … novas versões descafeinadas. Os cafés continuam com o mesmo sabor e a mesma intensidade, a ausência da cafeína não altera nenhuma dessas características. Algumas pessoas acham que ficou mais suave. Um arpeggio descafeinado? Aqui está.

O sujeito bebe um gole e fala com convicção:
– Ficou mais suave sim, eu senti a diferença!

“AHÃ, SEI!”, eu pensei enquanto riscava mentalmente o sujeito da minha lista de paqueráveis e escrevia ao lado: idiota que se acha gourmet. E tenho certeza que o vendedor

– Ah, então o senhor é um dos que sentem a diferença…

pensou a mesmíssima coisa.

Corrigindo à exaustão

Eu escrevi um troço aí. Terminei no fim do ano, quase no réveillon. Mandei pra um amigo – que me pediu expressamente para nunca ter seu nome divulgado, com medo de ter que repetir o gesto – que se deu ao trabalho de corrigir com minúcia. Aquela minúcia cruel, de dizer de verdade o que está ruim. Eu entendi o gesto e vi nisso uma prova de confiança e amizade imensas. Uma vez um outro amigo me pediu para ler um texto dele e eu sei o quanto sofri para levantar uma única objeção. Aí, depois do que o meu amigo corrigiu, modifiquei toda estrutura – cortei capítulos inteiros, excluí trechos, remanejei a apresentação dos fatos. Achei que tinha ficado redondinho, pronto para ser publicado e o novo best seller mundial.

 

Obs 1: Vi uma vez um gráfico de expectativas de alunos de pós-graduação. Era mais ao menos assim: começava com o aluno imaginado que vai ganhar o prêmio Nobel, depois ele acha que vai virar livro, que vai virar artigo numa importante revista internacional, depois que vire artigo em algum lugar e no último item se ele conseguir terminar de escrever está bom. Tentar escrever um livro é a mesma coisa.

 

Agora, quase um ano depois, tive a coragem de reler. Para corrigir uma ou outra coisinha, problemas de concordância e uns plurais que eu sabia que haviam escapado. Aí sim, ele estaria pronto para ser publicado. Resultado: estou reescrevendo tudo. Meu sentimento ao reler cada parágrafo é este:

 

Cada trecho é um desgosto, um xingão, uma pergunta de como posso ser tão ruim. Aí saio, inconformada, tomo um ar, me acalmo, releio, fico nervosa de novo. Vou no computador, apago uma frase, levo um tempo e mudo uma palavra, mais um tempo e a frase que está embaixo vai pra cima… Tenho achado tudo muito redundante, chato, quem é que leria uma merda dessas? Devo ter levado um mês para terminar de corrigir o capítulo 1. Inicialmente ele tinha quatro páginas, agora está com três páginas e um parágrafo.

 

Obs 2: Percebam que a cada correção o arquivo fica menor. Escrever Guerra e Paz nem pensar. O Grande Gatsby, um conto borgeano? Acho que no final do processo terei conseguido bolar um tuíte.

 

Como não sei se um dia na vida conseguirei terminar o que estou escrevendo e muito menos publicar, e sei que essas minhas queixas soam abstratas pra quem nunca tentou escrever, decidi colar um trecho de Antes e Depois da correção. Só pra vocês entenderem um pouquinho o que Capote quis dizer quando contou que “um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação” (Música para Camaleões). Não sei ainda se cheguei na forma definitiva, mas as diferenças falarão por si.

Como era:

O telefonema foi um convite a retomar antigas ambições e a primeira sensação foi de desconforto. Susana estava frustrada, sim, mas estava acostumada. Ela havia criado teorias e defesas que garantiam a tranquilidade do seu dia a dia. Bastava não pedir mais do que já tinha. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais tão jovem pra fracassar. Ao mesmo tempo. Susana não se sentia  capaz de assumir o seu comodismo a ponto de dizer não a uma chance. Seria embaraçoso demais ter que assumir sua covardia em voz alta. Ela precisaria arranjar uma boa justificativa para Josiane e principalmente para si mesma, para explicar no que um emprego estável num jornal que ninguém lê a impedia de se lançar num novo projeto. O empurrão de César que levou Susana a aceitar, quando se entusiasmou e disse que qualquer oportunidade era melhor que seu emprego atual. Se fosse o caso, ele a sustentaria até achar outro emprego, se o Quatro Um não desse certo.

 

Como ficou:
As grandes mudanças da vida, ao contrário do que aparece nos filmes, nunca chegam acompanhadas de uma luz ou música especial. Susana estava almoçando no shopping com o marido e as conversas e talheres quase não a deixavam ouvir quando Josiane lhe telefonou. Enquanto ouvia falar de oportunidade, emprego, novidade, internet e inovação, a primeira sensação de Susana foi de desconforto. Havia ali um convite para retomar suas antigas ambições, o que evidenciava o quanto ela havia se acostumado ao pouco que tinha. Frustrada sim, mas tranquila – bastava não pedir da vida nada diferente, não querer voar alto demais. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais uma recém formada, não se sentia mais tão jovem pra fracassar e recomeçar. Quem se entusiasmou e abraçou a ideia logo de cara foi César. O jornal impresso estava acabando, a internet já não era nem mais o futuro e sim o presente, ela cresceria junto com o site. Caso o Quatro Um fracassasse, ele lhe daria suporte financeiro. Aquela oportunidade era mesmo um presente, ele tinha razão. O comodismo e os receios de Susana era tão injustificáveis que ela não teve coragem nem de colocá-los em voz alta.

Li em algum lugar que um livro nunca fica pronto, e sim que o escritor cansa de corrigir. Também faz sentido. Para publicar este post, corrigi o trecho corrigido mais três vezes.

Ao lado do homem que nos interessa

 

Quase certeza que foi a Mônica Martelli que disse isso numa entrevista, mas faz tanto tempo que pode não ser. Ela contou que estava solteira, e saiu com um grupo de amigos gays. No meio desses amigos tinha um cara que ela não conhecia, mas todo mundo gay, e ela concluiu que ele também era. Saíram todos e como estava entre amigos, sem a menor preocupação em agradar, ela passou a noite inteira falando palavrão, contando piadas sujas, dizendo um monte de besteiras, tudo aquilo que a gente nunca tem coragem de fazer quando se programa para agradar. Pois bem, o tal sujeito não era gay e ficou apaixonado por ela. Acho que casaram. Ela concluiu a história dizendo que só deu certo porque ela não pensou em conquistar.

 

Teve um que me dizia que uma das coisas que ele mais gostava era de me alimentar. Ele falava nesses termos mesmo, “adoro te alimentar”. Ele dizia que achava o máximo eu ser tão gulosa, ter tanto apetite, que eu sou quase um avestruz. Claro que eu só mostrei o meu lado avestruz pro sujeito porque jamais pensei que rolaria.

 

Então a receita é: ao lado do homem que nos interessa, contar todas as piadas sujas e não se preocupar em completar o lanche em casa depois? Ah, na hora que a insegurança bate, quem é capaz de ser tão confiante?

Testimonial

Já me queixei várias vezes da falta que sinto dos Testimonials do Orkut. Acho o Facebook ótimo, mas isso falta. Dá vontade de lançar uma daquelas petições on line – tem pra tanta coisa! – e mandar pro Zuc. Pra mim os Testimonials são a mesma coisa que as dedicatórias dos livros da minha amiga Suzi. Ela tem uns livros com umas dedicatórias lindas, cheguei a ler algumas. As dedicatórias falam de amor e de amizade, revelam um pouco de quem escreve e de quem recebe. Nos momentos difíceis, a Suzi se presenteia com aquelas dedicatórias. É como um “em caso de emergência, quebre o vidro”. Percebo que também é disso que eu tanto sinto falta nos Testimonials. Alguém no mundo registrou quem somos e nos impede de esquecer. Com o coração arrebentado e o mundo dizendo não, fica difícil não cair e começar a pensar: será que é isso mesmo, deixei algo de bom no meu caminho? O escrito é diferente de estar na memória, está materializado. Ano passado, no meu aniversário, meus amigos Marcela e Ânderson capricharam nas mensagens que deixaram no meu mural no Facebook. Eles sabiam que eu estava fragilizada e quiseram me dar – ainda que à distância – um pouco do amor que eu precisava. Chorei muito diante do que ambos escreveram, eles ajudaram mais do que sou capaz de agradecer. Como sabia que com o tempo os recados seriam enterrados (se fossem Testimonials…), fiz meu próprio “em caso de emergência”: copiei num papelzinho e deixei ao lado do meu monitor.

Obrigada de novo, queridos!

 

Pequena

Venho me sentindo pequena. Tenho me sentindo uma pobre mulher, uma pobre divorciada, uma pobre solitária e pobre mulher. Tenho desejado um homem, sim, aquela frase – quem dera tivesse agora um homem pra ir lá e cuidar disso pra mim. Um homem com sua força arquetípica de homem, uma voz trovejante e uma agressividade natural. Tudo o que em mim é vontade de chorar, nele seria força para agir. Porque tem horas que ser frágil e feminina nada mais são do que defeitos. Eu sou tão pequena, tão mulherzinha, tão só. Preciso do oposto, onde ele está? Quero me enrolar como semente e voltar para terra enquanto um homem briga por mim.

Curtas de lama e chuva

Meus amigos deram risada ao me ver nesta foto. Se perguntaram que apagão foi esse, como era possível eu totalmente desprovida de vaidade e num lugar cheio de lama. Eu ri e me senti muito querida de terem notado. E a sujeira estava apenas começando.

 

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Conheci a amiga do Alessandro, Claudia. Quem acompanha o Alessandro sabe que ambos têm uma atitude libertária diante da vida, dos relacionamentos e do sexo. O que eu sabia dela é que era uma mulher careca que não curtia se depilar e tirava fotos em poses dominadoras. Aí a encontrei, em carne e osso, igualzinha às fotos e às descrições. Ela é uma dessas pessoas que parece estar muito confortável dentro da pele. Não, ela não seria mais bonita cabeluda ou depilada, simplesmente porque não seria ela.

 

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Alias, fui convidada pra fazer parte da comunidade que eles pretender ter. Quarto e banheiro privativo, o resto comunal. Mal e mal sei se consigo casar de novo, então acho que não é pra qualquer um ser convidado pra viver junto numa comunidade nascente. Fiquei lisonjeada. E disse não.

 

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Não deu pra encaixar no post anterior: esqueci o repelente e meu pé foi cruelmente atacado por pulgas. Fiquei preocupada com a calça que usei no curso e o que está mesmo quase dando PT (Perda Total) é o meu pé. Pensei em postar uma foto disso também, mas ia ser algo tão aviso em maço de cigarros…

 

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Aconteceu uma coisa chata no curso: um dos locais deu em cima de mim. E em cima de outra, conforme soube na volta. Foi rápido e sutil, com ambas. Ele estava no mesmo quarto que eu, e a partir daquele momento eu fiquei receosa. Dormi mal, então tenho certeza de que nada aconteceu. Não deve ser má pessoa e ele mesmo não deve ter visto nada de errado na sua atitude, muito pelo contrário. Mas o mundo é um lugar tão perigoso para as mulheres e os homens às vezes não se dão conta disso.

Na fazenda ou numa casinha de sapê

… pelos campos, a poucos metros da vaca, por dois motivos: primeiro, porque eu tenho medo de vacas. Nunca fiquei perto de uma, vai que ela me dá um coice ou algo assim. Depois que é pra não intimidar e atrapalhar seu longo processo digestivo. Ou seja, dar uma privacidade. Eu não faço a menor ideia de quantas vezes por dia elas defecam. Então eu estaria perseguindo-a discretamente, a uns metros de distância. Levaria comigo um livro, um não muito bom (Ulisses não, muito pesado), que é pra entreter mas não demais. Aí, em um determina momento, pelo cantos dos olhos – e também pela audição e o olfato – ela perceberia que ela fez cocô. Rapidamente descalçaria minha bota, minha meia e correria em direção a ela (espero que vacas, tal como os cães, se afastem imediatamente da sua bosta assim que as produzem) e PLOF, enfiaria o pé com gosto. Até cavocaria com os dedinhos, na intenção de que penetrasse mais profundamente.

Este foi o pedaço do post que pensei, de madrugada, na fazenda, enquanto estava insone. Fui parar lá porque o Alessandro comentou que ia aprender construir casa com as próprias mãos, num curso que incluía yoga e comida; achei a programação duca e me inscrevi impulsivamente. Além do mais, seria no feriado, e costumo detestar feriados. Só depois me ocorreu que eu poderia ficar meio deslocada, já que ia de gaiata com um grupo de amigos que eu desconhecia e pra um tema que não ter nada a ver comigo. Mas, enfim, já era. Naquela madrugada, eu havia acordado com a burocrática vontade de fazer xixi, o que em casa não é nada demais, e lá adquiriu contornos dramáticos. Tinha dois banheiros coletivos, usados indistintamente pelos homens e mulheres da casa e com portas que davam para a área comum. O mais longe era mais arrumadinho; mas em ambos o chuveiro molhava tudo em volta. Tomar banho era atravessar a grande área comum da varanda, tomar cuidado na hora de tirar e colocar a calça pra não molhar a barra, apoiar tudo o que podia nos pregos das portas. E de madrugada, além de pegar um banheiro que havia sido muito usado, ainda tem os bichos. A madrugada é deles, qualquer um sabe disso. Na primeira noite, abri a porta do banheiro com toda cautela e, assim que tentei fechar, uma rã bateu com tudo no meu tórax. Claro que eu gritei e saí correndo, e tive que mijar no mato. Na segunda noite, essa que descrevi no início, tentei segurar e por isso não conseguia dormir. Aí fiquei pensando no que escreveria assim que chegasse em Curitiba. Porque escrever foi a primeira coisa que senti falta quando estava lá. Foi como estar desconectada, como não saber o que estava sentindo. Nem levar um caderno teria resolvido, porque eu preciso digitar. Quando ouvi dizerem que esterco é muito bom para micose a minha imaginação voou, apesar de eu nem ter micose. Quis descrever a cena, pensei em como dar um efeito cômico, que termos usar,. A relação desse pessoal de fazenda com esterco é bem diferente da nossa: “vou aproveitar que a gente vai misturar a terra com esterco e pisar descalço, que aí já me cura de qualquer coisa que eu tenho no pé”. Esterco limpa o organismo, serve de repelente natural para as construções, ajuda a fazer massa. Tudibom. Vou confessar a vocês: ajudei a erguer parede com terra, grama e esterco, e me diverti muito. O cheiro nem é mais incômodo depois de um tempo. Achei tão bom que até quis saber se cocô de cachorro tem o mesmo efeito. A resposta é não.
Depois a vontade ficou forte demais e tive que acabar fazendo o xixi. Com a mente aliviada, passei a achar que não valia a pena escrever o post do Tratamento para micose (esse seria o título) porque não tinha tanta graça assim. Foram poucos mas intensos os dias de imersão na vida da fazenda: dormi em quarto coletivo com beliches, andei de bota entre os matos, estive no meio de estranhos o tempo todo, abri mão da vaidade e usei sempre as mesmas roupas enlameadas, ajudei a levantar paredes com a terra, comi muito e bem. E trouxe comigo uma descoberta muito importante a meu próprio respeito: banheiro coletivo não dá.