Especial

Numa dessas amizades monotemáticas, tive uma que consistia em ouvir as frustrações do final de semana de uma Loira. Defino-a pelo cabelo porque ela tinha se esforçado muito para ficar assim. De aniversário, ao invés de uma festa fabulosa, ela havia pedido para os seus pais investirem esse dinheiro no cabelo dela, que era comprido, cacheado e suponho que castanho escuro. Ela chegou no salão de manhã e passou lá o dia inteiro. Parece que a escova definitiva com o cabelo tingido exige muito cuidado, não sei. Além do cabelo perfeito, ela passava horas na esteira, todos os dias, pra tentar se livrar dos últimos dois quilos que a impediam de ter o corpo que ela queria. Quilos que, devo dizer, ninguém mais via. Ela já era muito bonita. Sua carreira perfeita – era jovem, ganhava bem e tinha convites para as melhores casas noturnas da cidade – a permitia sair durante todos os fins de semana. Eu entro na história às segundas, quando ela contava que tinha conhecido alguém e haviam trocado telefones. Poucas segundas depois, ele já tinha se mostrado um mentiroso, que ao invés de querer algo sério a tratava como as outras e sumia. Todo fim de semana – ela havia aprendido a investir em muitos – ela conhecia homens assim.

Ela queria muito, queria desesperadamente ter um namorado. Entre um partido perfeito e outro, o que ela mais desejava era se estabelecer com um. Ela não queria ser mais uma pra esses homens, ela queria ser a pessoa especial de alguém. Nada a afrontava mais do que ver mulheres gordinhas, feiosas, mal vestidas, inferiores a ela em todos os aspectos mas namorando. Por que todos conseguiam e ela não? Levantaram a hipótese de uma macumba. Eu apenas intuía o motivo, mas não tinha clareza. A verdade ficou clara no dia que nos despedimos, depois de mais de um ano de convívio: ela foi embora sem me dar um abraço ou ao menos fingir que queria meu telefone. Minha função havia acabado. Aqueles homens apenas correspondiam ao que ela mesma fazia; você não pode querer que os outros sintam por você o que você também não sente por eles.
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A grande Bahia

Não sou especialmente fã do Marcelo Nova, embora tenha crescido ouvindo as músicas dele porque meus irmãos adoravam. Não lembro onde e nem porquê vi essa entrevista dele, só sei o que ele disse ecoou na minha vida para sempre:

– Eu não gostava daquele ambiente pequeno, mesquinho, aquela coisa que existia na Bahia. Então eu saí da Bahia, quis conhecer outros ambientes, ir pra algo maior. Aí eu fui pra São Paulo, fiquei famoso, fiz sucesso. Só que lá eu percebi que o mundo é uma grande Bahia.

Tenho medo da Grande Bahia.

Normal

Eu detestava as festas de fim de ano na casa do meu pai. Porque ele tinha essa coisa de estar sempre de portas abertas para os amigos. E como ele mora num condomínio fechado, era literal. Os amigos apareciam lá sem avisar, sem hora marcada, quando lhes dava na telha. Ele achava o máximo; só agora, depois de velho, começou a pensar que estavam se aproveitando dele. Ou seja, levou uma vida inteira para concluir o que eu já sabia. Nos fins de semana, a coisa piorava e os amigos ficavam lá o dia inteiro. Não era incomum o pessoal ir entrado, me encontrar lá na sala, e eu informar que meu pai e minha madrasta haviam saído por algum motivo. As pessoas não se importavam e ficavam plantadas lá, até eles chegarem. Nas datas festivas, eram as mesmas caras de sempre, só que mais arrumadas e ávidas por comida. Então eu ia embora. No Natal, eu voltava para a virada porque tinha que esperar até meia noite para pegar meus presentes. No ano novo, qualquer coisa podia chamar minha atenção e era comum eu não estar lá pra contagem regressiva.

Por isso não foi nenhum motivo especial que me levou à casa da Manuela naquele reveillon. Eu ainda era criança. Sei disse porque antes da adolescencia brigamos de maneira irremediável. Provavelmente estavamos brincando, sim, estavamos brincando e os pais a chamaram pra entrar. Eu fui junto. Sentamos à mesa, as luzes estavam meio apagadas. Fizeram uma oração e falaram várias coisas que eu não prestei atenção. Eu só conseguia olhar para a mãe dela, que parecia estar passando mal. A cabeça pendia, e algumas vezes seu corpo chacoalhava como se estivesse com um soluço bem forte. Ninguém se incomodava. A coisa foi indo, foi indo, até que ela pareceu despertar. Com uma voz masculina e um jeito esquisito, ela começou a cumprimentar todos na mesa e dar bençãos. Eles passaram a chamá-la de Seu alguma-coisa. Lembro que quando me viu, ele/ela se surpreendeu com a pessoa nova e me abençoou também. Depois sentamos de novo e tudo passou. A família estava em festa e ficaram felizes de eu ter encarado com naturalidade a situação. Fui embora e não contei pro meu pai o que eu tinha acabado de viver. Então aquilo é que era receber espíritos, igual minha mãe falava e passava no programa Terceira Visão.

O Terceira Visão era um dos programas favoritos da minha mãe. Passava às terças, quase meia noite. Era apresentando pelo médium Luís Gasparetto. Lembro das operações do Dr. Fritz que ela nunca nos deixava ver. Eu cresci ouvindo histórias espíritas antes de dormir, sobre André Luís e Nosso Lar. Quando conto isso, os místicos ficam impressionados e consideram minha educação exemplar, superior. Da minha parte, posso garantir que os espíritas têm um conceito de si bastante alto… Lembro que eu e meu irmão gostavamos de brincar de médiuns, um era o Chico Xavier e o outro era o Gasparetto: tampavamos os olhos com as mãos, chachoalhavamos a cabeça enquanto faziamos desenhos desconexos num papel. Às vezes tentavamos desenhar com os pés, porque o Gasparetto fazia isso também. Depois, punhamos a assinatura de um pintor famoso. Minha mãe ficava louca da vida. Para nós, era muito engraçado.

A namorada

Dois adolescentes com o uniforme do Colégio Bom Jesus, dentro do ônibus:
– Cara, que é que você acha da minha namorada?

– Não sei, nunca conversei com ela…

– Então de longe, que é que você acha da minha namorada de longe?

– Não sei, parece ser legal…

– Então fica com ela pra você.

– Hã?

– Fica com ela pra você, eu tô pedindo.

– …? Mas por quê?

– Ela até que é legal, mas é que hoje ela fez uma coisa imperdoável, sem volta. Ela mexeu no meu mp3. Eu sou um músico, um profissional, eu preciso ouvir minhas músicas. Ninguém, ninguém pode tocar no meu IPod Shuffle.

Fica aí o alerta.

Hare-krishna e freira

Os hare-krishnas entoam sempre o maha mantra – que nada mais é do que aquela musiquinha que os tornam conhecidos – como uma forma de preparação para a hora da morte. Porque de acordo com suas crenças, o pensamento que você tem antes de morrer determina para onde a sua alma vai. Entoando o maha mantra, eles procuram garantir que seu último pensamento esteja em Krishna e que dessa forma eles passem a viver no planeta mais celestial, o da maior encarnação de Deus. À primeira vista, isto parece apenas um lembrete de que nunca saberemos a hora da nossa morte. Não apenas os moribundos estão sujeitos – uma pessoa saudável pode morrer dali a pouco, atravessando uma rua. Mas é mais do que isso: o último pensamento antes da hora da morte refletiria o que pensamos em vida, os valores mais profundos. Na hora derradeira, quando as aparências não importam, o pensamento escapa e o sujeito mostra quem ele realmente é.

***

Uma das coisas que lamentei quando vi o filme Os Miseráveis foram alguns personagens que têm um papel pequeno, mas que foram caracterizados com carinho por Victor Hugo. Um deles é uma freira. Ela entra na história pra unicamente pra descrever uma das perseguições de Javert a Jean Valjean. Victor Hugo dedica algumas páginas para descrevê-la, e dizer que ela era famosa por jamais mentir. Esse era o seu voto, a característica que a santificava diante dos demais. Eis que diante de Javert, ela tem a escolha de entregar ou não Jean Valjean à polícia. Javert conhece sua fama e está disposto a acreditar no que ela lhe disser. Ela conhece Jean Valjean e acredita na sua bondade. Javert lhe pressiona a responder, sim ou não, se Jean Valjean estava com ela. Diante desse dilema, ela mente. Javert sabia que ela nunca mentia e vai embora. Essa mentira, sua única mentira, permite que um homem inocente tenha tempo pra fugir.

Animal Planet

Depois de uma fase assistindo Acumuladores, meu mais novo vício é o Animal Planet. Quase toda noite assistimos Cesar Millan, o maravilhoso Encantador de Cães. Bem que já tinham comentado que o Dr. Pet não era pareo para o Encantador de Cães. Enquanto o Dr. Pet chega lá cheio de proteção e deixa disso, o Cesar adora cães furiosos e os acalma só no olhar (e na unha!). Isso sem falar que ele tem sua própria matilha – algumas pessoas ou cães precisam de um tratamento especial e vão no Centro de Psicologia Canina, onde Cesar mantém de vinte a quarenta cães. Dá pra perceber que ele tem toda uma filosofia com os cachorros, de que eles sentem a energia de quem se aproxima deles, de que precisam ver nos donos os seus líderes para se sentirem em paz e que não podem ultrapassar certo limite que perdem a cabeça e a capacidade de aprender. É um tal calma e submissão pra lá, e estado calmo e submisso pra cá, que eu e o Luiz já ficamos repetindo isso pro outro. O problema é decidir quem é o líder da matilha…

Outro programa muito interessante é o Atrações Fatais, que mostra pessoas que começam a criar animais grandes e selvagens: tigres, lobos, ursos, etc. Mostrou o caso de um que vivia no Harlem num apartamento de cem metros quadrados com um tigre de duzentos quilos. Era como se fosse um segredo familiar. O sujeito passava o dia inteiro no apartamento com o seu tigre, e dizia que eles tinham uma conexão espiritual forte. A ligação dessas pessoas com animais perigosos desenvolvem é tão forte, tão irracional, tão difícil de compreender que acho que chega a ser um transtorno psiquiátrico específico. Uma estava passeando com seu leopardo, escorregou no gelo e o leopardo a arranhou no pescoço. O que ela fez? Passou a usar gola rolê. Na maior parte desses casos, as pessoas acabam virando comida de seus próprios bichos de estimação. Dá pra perceber que os bichos nem fazem essas coisas por mal, e sim que eles são fortes e instintivos demais. Quando está tudo sob controle, brincam e reconhecem a pessoa que o alimenta. Mas basta um instante de distração ou um movimento brusco pra que eles se distraiam também e vejam a pessoa como presa. Sou mais o Cesar Millan, nada como o bom e velho cachorro…

Eu lembro de um caso que o Luiz ouviu, de um cara que tinha uma panificadora na praia, perto do mato. Como lindos macaquinhos estavam sempre por lá, ele passou a dar a eles algumas sobras. O primeiro macaquinho gostou e apareceu com amigos, e outros amigos… O sujeito achava fofo e continuava alimentando-os. Assim foi indo. Num fim de semana ele teve que se ausentar e deixou o restaurante fechado. Quando ele voltou, a cozinha estava completamente destruída – vidros arrebentados, embalagens pelo chão, geladeira aberta, restos de comida por todos os cantos. Foram os macacos que chegaram lá e resolveram buscar o que já consideravam de direito.

Dever

Eu tive um professor de história, o Floriano, que adorava contar causos nas aulas. Eu era uma das poucas pessoas que o ouvia. Lembro da história de um profeta – não sei se tem isso na Bíblia ou não – que recebeu de Deus a ordem de pregar numa determinada cidade. Era uma cidade que o profeta não gostava, e ele ainda tentou argumentar de que não adiantaria nada, que era um bando de descrentes, que ninguém o ouviria. Deus foi firme e o mandou ir lá do mesmo jeito. Eu imagino o profeta chegando na cidade com a maior má vontade, colocando um caixote no chão e dizendo o que tinha que dizer só pra constar. É assim que eu me sinto muitas vezes. Pessoas são complicadas, e não é incomum levar uma patada quando você quer apenas ajudar. Mesmo assim continuo devolvendo troco errado, ofereço lugar para as velhinhas no ônibus e dou informação a quem precisa. Com patada e tudo. Acredito piamente numa frase de Hamlet que já citei aqui: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Faço em nome da minha ética pessoal, do meu dever com o resto da humanidade. Isso não quer dizer que seja fácil. É como uma vez me disse um amigo, nesses arroubos de sinceridade que nunca ficam bonitos em público: se eu fosse o único perto de alguém se afogando, é claro que pularia na água pra salvar. Mas também pensaria – que droga, tinha que se afogar perto de mim, vou me molhar e ficar com a roupa toda amassada…

Prazer

Alguém uma vez disse que ninguém é hipócrita nos seus prazeres.

Durante meus quase dez anos de vida universitária, sempre tive problemas com semanas acadêmicas, palestras, encontros, eventos, etc. Enquanto as pessoas a minha volta achavam o máximo, eu tinha horror. Mesmo se fosse um evento de apenas um dia. Viajar pra isso? Nem pensar. Não havia tema interessante o bastante pra que eu não me sentisse fazendo um sacrifício. Achava péssima a idéia de passar o dia inteiro sentada; tinha certeza de que nada seria tão interessante assim. Já me entediava e me aborrecia de antemão pelos atrasos, professores ruins, os conteúdos inúteis e os loucos de palestra. Esses eventos pra mim sempre foram sinônimo de cansaço, desconforto, fome, vida lá fora desperdiçada. Minha casa, meu sofá, minha louça pra lavar, qualquer coisa me parecia mais interessante nessas horas.

Durante uma época eu pensei que meu problema era com a primeira faculdade, cuja profundidade teórica era risível. Na sociologia eu tinha tudo pra dar certo, já que quase tudo – assuntos, abordagens, autores, relatos – é muito interessante. Só que nada mudou. Continuei odiando eventos, fugindo de tudo o que pude, preferindo sacrificar meu currículo pra passar as minhas horas fazendo qualquer outra coisa. Para as poucas palestras que fui, sempre foi com o máximo de má vontade.

No flamenco: estou assistindo a minha aula e umas aulas extras na turma adiantada. Fiz um workshop puxado semana passada e vai ter outro semana que vem. Resultado: estou no céu.


(a morena bonita que aparece no começo do video é Gladis, uma das alunas da Cris que foi dançar na Espanha)

Desimportante

Os melhores amigos sempre são os que não dão muita bola pra gente. Aqueles que não reparam quando você passa muito tempo sem ligar, ou se reparam não se importam a ponto de te dar uma bronca e achar que merecem explicações. Eles têm outros amigos, e quem sabe com eles a relação seja mais possessiva. Você, por não ser importante, fica com o bom humor, as histórias engraçadas, o tratamento mais educado. Os sumiços deles, por outro lado, nunca serão interpretados por você como vingança ou inimizade, ou sinal de que eles estão chorando por algo que você fez – será apenas porque eles estão fazendo outras coisas, vivendo. Não são as pessoas importantes que conseguem transferência ou férias nas melhores datas, por mais que mereçam. O funcionário encostado, ou mala sem alça, consegue sair sempre que ele quer, nem que seja apenas para todos se livrarem da sua presença. Já a pessoa importante tem dificuldade para conseguir permissão pra sair um dia e repor, nem que seja pra fazer uma pós. Todo mundo sabe que o anfitrião é quem mesmo curte a festa e que só escreve o que quer quem não recebe pra isso. O importante nunca pode esquecer que tem um nome a zelar. O desimportante pode ser incoerente, politicamente incorreto e largado. Ninguém estará nem aí, nem ele mesmo. Ele pode ir a padaria de crocs e voltar comendo os pedaços de pão quentinho enquanto caminha de volta. Se dentro dele existe um corrupto ou um fraco, jamais saberemos, porque ele não será colocado à prova em grandes questões. O desimportante não aprova orçamentos, não constrói hospitais, não é responsável pelo desemprego de milhares de pessoas. Ele pode ser marcante pra mim ou pra você, jamais para a humanidade. E quase ninguém será, nem os que se acham muito importantes.

Carne de frango

Como vocês podem imaginar, existem muitas coisas que eu só falo pessoalmente. Nem tudo fica bom por escrito ou pode ser dito sem consequencias. Vou contar estas coisas mais por desencargo de consciência, porque sei que nem todo mundo se preocupa com alimentação da mesma forma que eu. Cada um leve à sério se quiser, continue comendo como quiser. Minha obrigação de alertar eu já terei cumprido.

Lembram daquela mulher de quem falei que provavelmente estava com câncer no seio? Foi com ela que a história começou, pelo menos para mim. Todos sabemos da grande quantidade de hormônios da carne de frango. Ouvi durante uma aula que 100% desses frangos morrem de câncer se não são abatidos no tempo certo. A maioria das pessoas quando opta por reduzir o consumo de carne, o faz apenas da carne vermelha – porco e gado. Pra compensar, consomem mais frango, e esse era o caso dessa mulher. Quando surgiu o cisto no seio, ela começou a desconfiar que era culpa do hormônio do frango, porque era uma pessoa de hábitos muito saudáveis e sem histórico no família.

Um dia estava conversando com outras amigas, que não possuem relação com esse caso. Uma delas tem uma filha de menos de dez anos. Ela me disse que parou de comer carne de frango com medo de que a carne afetasse o desenvolvimento da menina. “Durante uma época apareceu um cisto no meu seio, e quando cortei a carne de frango ele sumiu”. Mais um indício.

Semanas mais tarde estava no restaurante vegetariano onde eu sempre almoçava, e enquanto esperava na fila o proprietário trocava receitas com outra pessoa. Comentei que era uma bela receita, mas que era uma pena que ela tinha frango. E contei os dois casos acima. Aí o proprietário me contou uma terceira história: de que um dos clientes do restaurante dele é um delegado, e uma vez eles estavam investigando uma denúncia de um padrasto que teria abusado da enteada de nove anos. Nas investigações, após um grande constrangimento da família, eles ficaram sabendo que a menina mestruava desde os sete anos. Coincidência ou não, a família comia asinha de frango quase diariamente. Justamente o local onde o hormônio mais se deposita.

Esses hormônios têm feito a festa de produtores de frango nas últimas décadas. Quando eu era criança, a carne de frango não era barata do jeito que é agora. O crescimento rápido dos frangos é muito lucrativo, mas ninguém parece ter se perguntado que efeitos isso causa em quem consome a carne. Pode ser que no futuro digam alguma coisa, que pesquisem, que limitem o uso. Até lá, eu não gostaria que o meu corpo ou o corpo de alguém que eu gosto servisse de cobaia.

Um gesto

Não sei se serei capaz de escrever sobre De Profundis algo que não pareça irrelevante. Queria dividir com vocês um trecho que dispensa maiores explicações:

Onde quer que haja sofrimento, o terreno é sagrado: algum dia as pessoas entenderão o significado dessas palavras – não conhecerão nada na vida até que o façam. Robbie e outros iguais a ele são capazes de entender. Quando me trouxeram da prisão para a Corte de Falências, entre dois policiais, Robbie ficou esperando naquele longo e sombrio corredor e, diante da multidão que um ato tão simples e doce fez emudecer, levantou gravemente o chapéu quando passei diante dele, algemado e de cabeça baixa. Por muito menos do que isso muitos homens já foram para o céu. Era com esse espírito e com esse dom de amor que os santos se ajoelhavam para lavar os pés dos mendigos ou inclinavam-se para beijar a face dos leprosos. Nunca lhe disse uma só palavra sobre o que ele fez. Até hoje não sei se soube que eu percebera o seu gesto. Não é uma coisa que se possa agradecer com palavras formais, mas é algo que guardo no cofre do meu coração como uma dívida secreta que, alegra-me pensar, jamais conseguirei pagar. Uma dívida preservada do esquecimento e conservada em toda sua doçura pela mirra e a cássia de muitas lágrimas derramadas. Quando a sabedoria me foi inútil, a filosofia estéril e os provérbios e frases daqueles que procuravam consolar -me sabiam a pó e cinzas na minha boca, a lembrança daquele pequeno, adorável e silencioso ato de amor fez com que o deserto florecesse como uma rosa, abriu para mim todas as fontes da piedade. Transportou-me da amargura de um exílio solitário para junto da harmonia do ferido, partido e enorme coração do mundo. Quando as pessoas puderem entender não apenas quão belo foi o gesto de Robbie, mas porque ele significou tanto e sempre significará tanto para mim, então talvez possam entender como, e com que espírito, deveriam se aproximar de mim…
Oscar Wilde

A verdade dos números

Uma vez eu recebi o pedido pra recomendar aqui o blog de uma amiga. Ela achava o blog dela tão pequeno e o meu tão visitado (!?) que não custaria nada. Quando lhe disse que não faria isso assim, por fazer, que cito blogs quando a postagem deles tem a ver com a minha, ela se aborreceu. Deve ter achando egoísmo. Com um certo tempo de blogosfera a gente aprende que certas coisas não se pedem e existem muitos posts falando sobre isso. Eu poderia simplesmente ter copiado um desses links e passado pra ela, mas achei mais gentil explicar nas minhas próprias palavras. Não adiantou.

Não vejo essa questão de recomendar links pelo lado da educação e sim pelo fato de que não adianta muita coisa. Fazer alguém entrar no nosso site é fácil, difícil é fazer a pessoa voltar. De certa forma, cada um tem os acessos que merece. Antes de entrar na vida virtual, é possível alimentar algumas ilusões. A pessoa pode se achar um gênio, um grande escritor, alguém que tem muito o que dizer. Ou um stand up ambulante, com tiradas geniais para as situações cotidianas. Tem uns que se acham grandes exemplos de beleza que as agências de modelo não contratam por uma visão tacanha de mercado. Aí se monta um blog com o material do futuro livro, um perfil engraçadinho no twitter, fotos lindas pro orkut ou facebook. O número de acessos vai gradualmente subindo, surge um fã aqui e outro ali… mas a coisa não vai muito longe, ela não consegue milhares de acessos, nunca.

Eu vi várias coisas viralizarem. Eu vi A Banda Mais Bonita da Cidade, eu vi Nair Bello e Hugo Gloss deixarem de serem perfis misteriosos, passei a seguir o blog do Di Vasca porque chorei de rir com o post do gatinho. Por outro lado, quantos links meus não apareceram por aí? Falei da Clara Averbuck e ela mesma me leu. O Alessandro e o Milton sempre me deram a maior força, me recomendam aqui e ali toda hora. Meu número de acessos sobe quando essas coisas acontecem, e alguns leitores que chegam aqui por acaso acabam ficando. Mas o que escrevo nunca despertou tanto interesse a ponto de ser repassado o dia inteiro. O leitor concorda, pode dar um sorriso, mas não é algo “você tem que ler isso!” de centenas de pessoas. Acho bastante improvável que um dia isso aconteça, não é característico do que escrevo.

Acaba que a net nos diz de maneira clara o que somos, qual nosso nível de inovação, de que maneira atingimos o público. Não dá mais pra culpar as grandes corporações, achar que alguém maldosamente te impede de fazer sucesso, te esconde do grande público. Aqui não tem intermediários. O número de visitas, se não é proporcional, é sempre bem próximo da realidade que você representa. A partir dessas disso é possível tomar duas posições: mudar para conquistar mais público ou assumir que esse é o seu limite. Nem tudo nasce para se tornar uma potência e não há nada de errado nisso. O que não dá é se achar gênio incompreendido.

Cara pra foto

Eu me detesto em fotos. Os anos usando aparelho foram piores ainda, porque eu tentava dar um meio sorriso sem mostrar os dentes e ficava ainda pior. Por uma questão de idade e vergonha na cara, não tenho paciência pra ficar tirando auto-fotos. Aquele braço esticado e olhar meio de lado são adolescentes demais pra uma senhora de respeito, passada dos trinta, ficar praticando. Fotos espontâneas então, puff, pior ainda! Saio com expressões bizarras em todas.

Um dia estava entre amigos, e na hora da foto fiz o meu tradicional muxoxo de não gostar de tirar fotos. O fotógrafo da ocasião, que também era fotógrafo, me deu um conselho muito prático:
– O que você tem fazer é descobrir qual o seu melhor ângulo. Uma vez que você descobrir qual é, invista nele cada vez que alguém for bater uma foto sua. É assim que as celebridades fazem.

E não é que é mesmo? Repara no Gianecchini, Jonas Brothers, Juju Panicat e vários outros, é sempre a mesma cara. Vi esse mesmo conselho de descobrir os seus ângulos no America´s Next Top Model. O problema é que eu ainda não descobri a minha. Desconfio que seja alguma coisa sorrindo.

Mantra

Em cada época da vida tem uma frase que a gente acredita ou fala muito, pra si ou pros outros. Muitas vezes mais pra si do que pros outros, com um significado profundo que pode não ser entendido por mais ninguém. É como um mantra pessoal. O do meu irmão é “quer fazer? Então vai fundo“. À primeira vista parece apenas é uma permissão para os outros fazerem o que querem. É mais do que isso: meu irmão não acredita muito em sublimação. Quem não vai atrás dos seus desejos acaba se tornando amargo e tenta boicotar os que não agem como ele. Melhor do que reprimir é conferir. Se tem vontade faça, vá fundo. O ir fundo implica em assumir o que se quer, abraçar vantagens e desvantagens, olhar suas questões de frente.

Durante a adolescência eu dizia muito “agora foi“. Lembro que meu namorado da época ficava enfurecido, dizia que era o cúmulo do fatalismo quando eu dizia isso. Pra mim, era uma maneira de me acalmar. Eu estava sempre preocupada em fazer a coisa certa, em não magoar ninguém, a tomar a melhor atitude diante das circunstâncias. Ser assim é viver culpado, é se torturar por variáveis que ninguém controla. Então quando eu dizia que já foi, estava dizendo pra mim que o controle das consequencias já não estava comigo. Eu tinha feito a minha parte, da maneira mais escrupulosa o possível. Dali em diante, as coisas se encaminhariam por si só e eu não deveria mais pensar no assunto.

Hoje me vejo repetindo “a vida é mais do que isso“, pra me lembrar da essência das coisas. Alguns problemas do dia a dia se tornam grandes demais, fazem perder o sono e na verdade não são tudo isso. Ou às vezes é necessário tomar uma posição, e algumas vantagens não são tão vantajosas assim quando pensadas em termos de vida – é esse tipo de pessoa que eu quero ser, é isso que eu quero pra minha vida? Então digo pra mim que a vida é mais, que tem tanta coisa lá na frente. Se esse mantra me faz recuar em algumas decisões, existe um quase oposto, que me obriga me manter depois que já dei o primeiro passo: se não aguenta, por que veio? Essa expressão é o nome de um blog, que me soou bem a primeira vez que li. Às vezes eu me meto a fazer umas coisas, e quando chego lá acho que não dou conta. Eu fico ansiosa facilmente e perco a perspectiva, o que antes me parecia claro deixa de ser. Quando calma, tenho vontade sair de fininho, mas o meu normal é querer sair gritando com os braços pra cima. Nessas horas eu me obrigo a ficar, porque eu já me comprometi. Entendo que fugir é pior do que ficar e fazer o possível, mesmo que ruim. É um mantra difícil por ser um mantra bem adulto.