A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

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Prazo

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Eu não queria ser atendida por ele, mas já que estava lá, tinha que inventar alguma demanda. Ele estava sentado num banco baixo, sem sapato e uma vela acesa enfiada entre os dedos do pé. Me envolveu com a sua capa, disse uma oração e perguntou o que eu queria.

-Eu estou esperando uma resposta. Foi uma carta que mandei no começo do ano.

Falei assim, carta, primeiro que é pra não dar muita pista e depois porque entidades não costumam entender os novos termos. Pois é, a gente duvida de um lado e acredita de outro.

Ele me deu papel e caneta, pediu pra eu escrever o meu nome. Olhou para o papel, soprou nele, passou numa vela, olhou. Tive esperança que ali ele me dissesse algo chocante, uma previsão, um tudo-vai-dar-certo.

-Em sete luas eu…

Fiz um cálculo rápido. Cada fase da lua dura uma semana, então sete luas cairiam em…

-Tudo isso???

Olha, pós-vida de exu também não é fácil.

Curtas de gostos peculiares

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Existem muitas características a serem consideradas numa calça jeans: o cavalo estar na posição correta, nem pra cima e indecente e nem pra baixo calça caindo; não gosto das cinturas que nunca mais subiram e o fiofó vive aparecendo e as costas ficam geladas; qual o índice de gordura corporal necessário para não ficar com o bacon pra cima com essas malditas cinturas baixas? Mais ou menos aquele que a mulher deixa de menstruar; detesto que o botão acima do zíper seja dourado; brilhos e apliques, proibidos. Ou seja:

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Claro que comprar calça jeans é sempre uma tortura, experimento dezenas delas, odeio todas, volto depois, me conformo com a menos pior e costumo andar com as calças sempre meio caindo, porque prefiro assim do que muito apertada. Ah, mencionei que não gosto delas afunilarem embaixo?

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Doce pra mim sempre foi chocolate e sofria se passava mais de alguns dias sem. Aí peguei o hábito de comprar coisas frescas da padaria, experimentando cada dia um doce diferente e agora me dá nojinho de chocolate, sei lá.

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Fiz, meio sem querer, uma quantidade absurda de manteiga com coentro. No fim acabou sendo bom, porque coloco na sopa como se fosse óleo e ela fica com um gostinho de coentro mesmo sem ter coentro. Sim, manteiga de coentro, sem querer.

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Decidi que gosto de séries inglesas e nunca mais recomendar a ninguém. Falei muito bem de uma de matemática pra amiga depois dizer que achou um porre. É que elas são um porre na medida certa: gosto de assistir algo enquanto escrevo. Prefiro que não seja totalmente ficção e que tenha muitas horas, uma continuidade. E se for interessante demais, atrapalha.

Curtas sobre inveja

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Eu tenho o livro da Coleção Plenos Pecados sobre Inveja. Tenho por motivos sentimentais, porque a história em si não me conquistou. Ela mistura dados estatísticos com uma história nada convincente. Nesses dados, eu lembro, fala do quanto a inveja é sempre um sentimento dos outros. Já Elena Ferrante faz quase um tratado sobre inveja e me pergunto se ela tinha consciência disso ao escrever.

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Tem umas santas informais em Curitiba, e um dia passou a história de uma delas, que era uma empregada maltratada pela patroa. A patroa era ruim com ela como madrasta de contos de fadas. E apesar de maltratar a menina de todas as formas, ela ainda lavava roupa cantando, o que enfurecia a patroa. Quando tenta tirar tudo de alguém, tudo o que está a seu alcance, o que o invejoso tenta é tirar a alegria.

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O que me faz voltar a frase mais fabulosa de todas, já falei dela aqui, do Kibe: o que querem é perceber que você sentiu o golpe.

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Obviedade não tão óbvia que me falaram: a inveja nunca é do ter e sim do ser. Realmente. Se fosse assim, só teria gente invejando quem tem Ferrari, não quem anda de ônibus, falando a grosso modo. O invejoso pode dizer para si mesmo que o problema é o emprego, sorte, beleza e etc que ele não tem, mas essa seria a segunda camada. Por ordem: achar que não tem inveja, achar que tem inveja de algo exterior, inveja do ser.

A Gorda

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Ela odiava a ex do marido, e o sentimento era recíproco. As filhas adolescentes dele haviam ficado com a mãe, morando e do lado dela, e o ódio mútuo era tal que chegou a virar caso de polícia, com direito a B.O. Como ela odiava aquela criatura, a Gorda, como ela chamava. Que morresse, ela com as filhas, senão de colesterol alto, problema de circulação, embolia ou entupida com um chocolate, podia ser mesmo de acidente, câncer ou facada. Odiava a gorda, odiava, noite e dia. Um dia foi numa gira e o Preto Velho advertiu: ela rogava tanta praga na Gorda que uma hora ia pegar. E quem ficaria morando com as filhas dela em casa era ela. A partir de então, incluiu a Gorda nas suas orações.

Os conselhos

Acho que não tem mesmo jeito – apesar da História, estamos condenados a cometer sempre os mesmos erros, enquanto espécie, até a autodestruição. Como mudar os grandes fatos se somos incapazes de mudar nossas pequenas trajetórias individuais. Um exemplo muito concreto é a série da Elena Ferrante*, com personagens que abraçam erros que o leitor percebe e sofre capítulos antes de acontecer. Quantos erros não cometemos nós também nas nossas vidas, apesar de serem tão claros para os outros, os que tentaram nos alertar, geralmente mais velhos? Mas não, quando é com a gente é sempre diferente: “ele me ama de verdade”, “chegando lá vai dar tudo certo”, “é porque nunca tinha aparecido alguém como eu”. Um erro alertado e cometido mostra dois lados: a estupidez juvenil doida para fazer o que bem entende; que no dia que formos o lado maduro, também seremos ignoradas, taxadas de invejosas e praguentas. Aprender com os erros sem dúvida é melhor do que ficar preso nele, num looping infinito – mas não nos ajuda em nada a poupar os outros. Seres humanos são muito apegados ao seu direito inalienável de cometer cagadas. Tenho chegado à conclusão que a única alegria que a experiência nos dá é a possibilidade de puxar a cadeira e esperar com calma, porque sabemos que vai explodir.

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*Juro que ainda vai sair texto no Caminhando por Fora. Semana puxada…

O frio está chegando

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“Já está frio?”. Eram cinco da manhã e me pareceu que não. Dormi mais, o alarme tocou e ainda não parecia frio. O termômetro do despertador marcava 15ºC, o que no meu quarto nem é frio. Tirei as cobertas e não estava frio enquanto me arrastei até o banheiro. Peguei o celular e lá marcava 12ºC, fiz outras coisas, vi de novo para ver como ele se atualizava. Teve dias que eu confiei na primeira olhada e ele atualizou para uns 5ºC a menos, mas hoje não. Fui para os fundos da casa, coloquei o braço para fora da janela – não estava frio. Dava para usar minha blusa nova, com mangas bufantes estilo medieval que não permite que eu use um casaco grande por cima. Para prevenir, uma blusa de algodão de manga comprida e uma camiseta por baixo. Que bom que não era clima de roupão, eu esperava, senão meu profe de natação me repreenderia, de novo, por ir para a beira da piscina apenas de sunquíni. É que eu plano era andar a manhã inteira e com roupão na bolsa fica muito pesado. Depois da aula, no banheiro com a única colega que veio, comentamos sobre o frio prometido. Abri meu whatsapp e já tinha três fotos – que não consegui carregar – de neve no Chile, dizendo ameaçadoramente que era a frente fria que vinha pra cá. “Por isso que eu fiz questão de vir hoje, pra garantir, porque se estiver mesmo zero grau na quarta eu não venho. Você vem, né?” Concordei com a cabeça, envergonhada porque na verdade não apenas iria quarta como já tinha combinado de ir também terça. Todo mundo sabe que eu nunca falto. Saí da aula com o já cabelo seco, com o sol na cara e dizendo para mim mesma que eu não poderia me queixar, aquele era o último dia. Na padaria, tirei a camiseta que estava por cima da manga comprida e embaixo da medieval. A moça avisou que o café com leite não estava muito quente e pedi pra deixar como estava, porque estava faminta, e não foi uma boa decisão. Passei na sapataria, comprei aplique de roupa e fita de cetim, depois bati perna com a sensação de que deveria comprar mais alguma coisa. Quase comprei várias coisas e só quando a Dúnia sentou em frente à porta eu me toquei: ossinhos. Coloquei todas as roupas para lavar e lavei toda louça, com o pensamento de que em breve qualquer contato com a água pode se tornar intolerável. Passeei com a Dúnia como se fosse o último sol, antes que ela precise ficar vestida quase o tempo todo, cheirando mal e o pelo cheio de caspa. Choveu. Jantei. Tirei o esmalte velho e coloquei novas cores, porque ainda dá pra esperar tudo secar sem meias. Me depilei, antes que doa mais e fique difícil expor a pele. Tomei banho também como se fosse o último, o último sem ter que ligar aquecedor, sem me colocar debaixo de uma água fervendo, ruim para entrar e mais ainda para sair. Ao pendurar a toalha no varal, verifiquei o grau de umidade das roupas. Estavam geladas. Mas ele ainda não chegou.

Verdadeiramente de repente

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Posso lhe fazer uma observação? Você sempre usa verdadeira ou verdadeiramente, tanto falando quanto escrevendo. Ou então dizer: de repente. Mas desde quando as pessoas falam verdadeiramente e desde quando as coisas acontecem de repente? Você sabe melhor do que eu que tudo é uma grande confusão, que uma coisa acontece depois de outra e de mais outra. Eu não faço mais nada verdadeiramente, Lenu. E aprendi a prestar atenção às coisas, só os idiotas acreditam que elas acontecem de repente.

Elena Ferrante/ História de quem foge e de quem fica

Às vezes acho Elena Ferrante horrível. Sai voando sobre os fatos, poucas passagens dignas de recitar, irregularidades, uma constrangedora revelação biográfica. E a protagonista me dá nos nervos pela sua insistência obsessiva sobre a amiga de infância. Mas cá estou, largada de todo resto, sufocada e rendida pela série Napolitana.  Ao lado da crocs, é algo que se alguém me mostrasse e perguntasse sobre o potencial, eu diria: esquece, ninguém vai querer perder tempo com isso!

No sangue

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Tomei coragem e finalmente levei um dos meus sapatos de flamenco para colocar borracha nova no sapateiro. Sapatos de flamenco são caros, especialíssimos, e já ouvi mais de uma história do sapato nunca mais voltar o mesmo depois de tentarem arrumar. É só colocar uma borracha, mas mesmo assim fui com medo. Cheguei na mulher que atendia e expliquei bem, disse que era só naquele pedaço, que era importante, que é mais do que andar, que é de flamenco, que eu danço com ele. Aí ela me disse que conhece bem flamenco, que gosta muito dessa dança, que sempre tinha nas festas de família, que não sei quem da família do ex-marido tocava uma baita castanhola, que eles eram espanhóis. Eu fui concordando, dizendo que lindo, então ela sabia como era, curtia, até me tocar de que ela tinha dito que era ex-marido. “Ou não, pode ser que você não goste mais, é ex-marido”.

“A gente não conhece um homem quando está dormindo com ele, conhece quando se separa”. Fico sempre sem graça quando o papo recai sobre ex-marido, porque o normal é reclamar e não tenho nada contra o meu. “Depois que nós nos separamos, ele resolveu esquecer que temos três filhos juntos”. Ela me contou então que os espanhóis são frios. A terapeuta até tentou argumentar, mas é da natureza deles. Que eles não apenas são como nós, latinos, mas também não são como os italianos. Ela, como descendente de italianos, era muito família, muito calorosa. Ele não, não estava nem aí, que os espanhóis são assim. De novo, fiquei sem palavras, nunca convivi com espanhóis. “Eu casei de novo e tive mais filhos. Meu filho puxou o lado espanhol do pai, me liga só uma vez por mês, e eu desligo na cara. Eu o criei, ele tem obrigação de me ligar e me liga só uma vez por mês”. Minha consciência pesou na hora. Entrou uma cliente, eu e ela hesitamos, ela perguntou no que poderia ajudar, a moça disse que poderíamos terminar o assunto. “Eu estudei história. De todos os povos que conquistaram os outros, seja pra onde for, pra América ou para a África, os únicos que onde quer que iam dizimavam a população local eram os espanhóis”. E arrematou, alisando o antebraço esquerdo no sentido das veias – “Está no sangue”.

Depois eu precisei tomar um pouco de ar.

25 anos

A grosso modo a não ser que minhas lembranças estejam me confundindo muito ou que a neurologia tenha mudado nos últimos anos – o cérebro funciona num grau de complexidade crescente. É possível localizar zonas primárias, que são mais estritamente ligadas às funções mais físicas, as secundárias e as terciárias. Estas, localizadas nos lobos frontais, são responsáveis pelo raciocínio mais simbólico. O cérebro amadurece gradualmente e a zona terciária só atinge a plenitude das suas funções por volta dos 25 anos de idade. “Por isso que ninguém deveria se casar antes dos vinte e cinco”, brincou o professor Romanelli, e a única colega da classe (estávamos no segundo ano de faculdade) casada se encolheu na cadeira, sob risos. Poucos anos depois ela se separaria.

No tristíssimo documentário sobre a Amy Winehouse, Tony Bennet lamenta que ela tenha ido tão cedo, que se a Amy tivesse tido um pouco mais de tempo, teria visto que a gente aprende a lidar com o viver. Tá, eu sei que ela não morreu antes dos 25 anos, o tal amadurecimento não é acordar na manhã do seu aniversário completamente controlado e sábio. Existem muitas formas de abordar o assunto, podemos explicar por experiência, amadurecimento cerebral, etc. O fato é que a gente realmente vai acostumando. Lembro de um clássico ocultista que li na adolescência, Zanoni, que o sujeito se propunha a fazer uma iniciação e rolou o velho “tá vendo isso aqui? Nunca abra!” e o cara foi lá e abriu e libertou um monstro horrível. O sujeito foge assustado e volta mais pro final do livro e conta que foi fugindo continuamente, fez besteira atrás de besteira e o tal monstro não sumia. Mas ele acostumou. Viver é assim.

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A amiga mediana

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Eu sinto falta dela, e talvez não seja de forma elogiosa. Lembro que vi uma  vez uma matéria de uma menina que era consultora oficial de uma grande empresa de brinquedos. O Walt Disney da tal empresa a descobriu por acaso, uma filha da vizinha, e era tiro e queda, que tudo o que ela gostava virava sucesso de vendas e se ela não se entusiasmava o brinquedo não vendia. Essa tal amiga, de quem eu sinto falta, era como essa menina pra mim. Se eu queria saber a opinião do senso comum, a opinião das ruas, o que a maior parte das pessoas julga sobre uma situação, até mesmo se as pessoas consideravam tal assunto relevante, era só perguntar pra ela. Um dos casos impressionantes foi quando ela me disse que viu um prêmio importante, com as pessoas muito chiques, e a Marisa Monte disse que estava usando roupa de brechó – não brechó chique, brecho dérreau. Eu achei aquilo muito legal e ela ficou mortalmente ofendida, nunca mais gostou da Marisa Monte, porque achou um desrespeito com as pessoas que haviam gastado bastante. Eu jamais teria chegado àquela conclusão sozinha. Com ela eu estava sempre a par do que se pensavam das celebridades e do quanto elas são “importantes”, dos sonhos de consumo nas novelas, do peso de certos símbolos de status presentes em e festas, do que se deve ou não fazer nas horas livres. Eu a ouvia com interesse e contava em casa o novo mundo que ela me apresentava, porque ela também me fez ver o quanto eu era esquisita e fora da média. Nunca consegui substituí-la, nunca mais consegui alguém que encarnasse o comum em todos os gestos e opiniões; tenho que ficar imaginando, tenho aqui e ali pessoas que me mostram o que pensam grupos específicos. Acho que a primeira pergunta que eu lhe faria se a reencontrasse é o que ela pensa sobre o Bolsonaro.

23:30

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É raro que eu escreva de dia, mais raro ainda que seja com antecedência. Não adianta tentar me antecipar; eu passo o dia fazendo as minhas coisas, e por volta das 21:30, independente de como foi o meu dia, me dá um sono mortal. Meu organismo sem dúvida foi feito para dormir esse horário e acordar de madrugada para arar um campo. Superado esse sono mortal, faço as minhas coisas, leio, navego na internet, fico com sono de novo e estou quase indo pra cama e lembro – hoje é dia de post. Solto um gemido de insatisfação, começo a andar pela casa, sento no sofá, espremo cravos na frente do espelho e não paro de repetir para mim mesma: “preciso de um post, preciso de um post, preciso de um post”. Passo em revista vários pensamentos do dia à procura de algo escrevível. Adquiri inclusive o requinte de olhar os últimos textos do blog para tentar não me repetir, em tema ou forma de escrever. O post finalmente vem, nunca antes das 23:30 e me sento para escrever, o que me tira completamente o sono e me leva para a cama depois das 24h, me revirando em pensamentos provavelmente até 1h da madrugada.

Dois curtas do inconsciente

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Eu não devia ter nem 10 anos quando as crianças que brincavam comigo em Salvador disseram que sabiam umas palavras em inglês. Cadê era “queidi”, o que dá pra adivinhar que pode vir de uma pronúncia americanizada. A expressão mais importante era aquela que tinha um sentido de “toma!”, “se ferrou”, “bem feito”, que era CHÉPO. Não faço a menor ideia de onde veio isso. Só sei que até hoje, quando me dá aquela alegria schadenfreude, me soa de novo aos ouvidos: CHÉPO! CHÉPO com coca-cola!

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Estava costurando e do nada lembrei de um sonho que tive há dias. Nele, eu era amante de um sujeito com quem simpatizo mas não cheguei a trocar nem dez palavras na vida. Não é que eu esteja omitindo a parte caliente – era assim, um fato consumado, éramos amantes. Não acontecia nada, eu apenas tinha aquela informação íntima, daquelas que às vezes a gente chega a se perguntar se é realidade. Agora fico me perguntando: eu o desejo e não sei? Ele me deseja e eu só li isso inconscientemente? Se não é tesão, de onde meu inconsciente resolveu inventar essa história?

Encontrar a sua Drag

Em primeiro lugar: Ru Paul´s Drag Race é o máximo. Netflix.

Antes eu pensava que o objetivo de toda drag era ser uma grande diva. De certa forma é, mas não dá forma que eu imaginava. Não é escolher Cher ou Beyonce ou qualquer outra e querer ser igual a ela. Para algumas é realmente ficar o mais parecida o possível com uma modelo, com as impressionantes drags deste (meio desatualizado) vídeo – a número 1 é linda num nível de dar ódio. Mas existem físicos de todos os tipos por detrás das drags, assim como personalidades e gostos. Nem todas ficariam bem tentando enganar que nasceram mulheres e o que vejo nas Drags é um profundo conhecimento de si mesmas. Têm as que amam glamour da Hollywood dos anos 50, têm as que gostam de algo meio creepy, as engraçadas, as nerds, as fashionistas… E a graça do programa é que, mesmo não se montando, a gente se identifica tanto com elas. Eu vejo essa busca da “minha drag” muito clara dançando, porque depois de algum tempo a gente percebe que não basta ver um vídeo e escolher a sua bailaora preferida, que há uma maneira própria de cada um se mover e o que é preciso é achar a maneira mais bela de fazer o que você já faz – e ficar pelo menos aceitável no que você não faz. E mais pra baixo do dançando, vejo isso como mulher, quando procuro a maneira de ser mais bonita com o físico que tenho, com o que desejo que os outros vejam em mim, com a minha vida e quem eu sou. Pras drags é uma jornada descobrir as suas divas, como dar tridimensionalidade na hora de se maquiar, como andar de salto, que cabelo fica melhor… e pra nós também.  E como pessoa, me pergunto: o que eu tenho, o que me torna única? No meio dessa mistura de experiências, temperamento, objetivos, visão de mundo, defeitos, qual sabor prevalece, para onde caminhar, para que lado fica mais memorávellegendário?

Abaixo a minha drag preferida: a poderosa e hilária Bianca del Rio.

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Curtas meio fashions

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Eu e a Dúnia chegamos num nível tal de sofisticação que eu coloco uma roupinha mais leve nela quando a tarde cai e troco por outra mais quente quando realmente esfria à noite. Não é gosto não, é cachorro chorão mesmo.

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Eu não apenas vejo Ru Paul´s Drag Race torcendo sempre para as drags mais velhas: eu consigo ver (ou acho que consigo) no que elas conseguem se sair melhor do que as mais novas por uma simples questão de vivência. Em outras palavras: eu sou uma drag velha.

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Estou de cabelo curtinho e é estranho que isso seja novidade para quem está à minha volta. É o corte que usei minha adolescência inteira, parte da faculdade, no início do casamento. Eu me sinto uma versão vintage de mim mesma.

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Num documentário sobre Cauby, descobri Liberace. Já tinha ouvido o nome, mas jamais havia visto. Acreditem, é pra ver.