A curva

curva normal

Eu tive um professor na faculdade que é um sujeito importante na área dele, e por coincidência ele foi orientador de pós-graduação do meu ex. Por causa disso, ao longo dos anos, de vez em quando eu encontrava com ele. Sempre que eu o reencontrava, me dava aquela sensação de “como está velho, da última vez…” . Eu sabia que a cada reencontro eu não estava pior. Um dia, numa aula de dança, a professora falou algo que fica meio óbvio depois que alguém explica: existe uma curva no nosso corpo, que sobe até os trinta anos, fica pouco tempo estacionada ali e cai lentamente até o fim da vida. Eu estava subindo a curva e meu professor descendo. Agora que estou do outro lado da curva, sei que a cada reencontro meus amigos novinhos se surpreenderão em ver como estou cada dia mais velha, da última vez…

Agora pensem comigo: se a curva sobe apenas até os trinta e o resto é queda, e a expectativa de vida a cada dia que passa torna mais fácil ultrapassar os oitenta, mais da metade da nossa vida será na queda. Não estamos mais na Idade Média, a vida está longa. Achar que só o corpo jovem é bonito, que só as características jovens são qualidades, valorizar a mão de obra apenas do jovem… bem. No mínimo não é muito esperto. Da minha parte, acho que deveríamos aprender a gostar de rugas e corpos mais pesados. Junte-se a mim.

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Defeito

Eu estava disposta a crushzar meu crush à distância até a morte, mas minhas amigas não se conformaram e queriam a todo custo me aproximar dele. O plano era mostrar a ele um dos meus textos, ele ia achar o máximo, iria atrás do meu perfil, descobriria que eu sou eu, me adicionaria e então eu poderia falar com ele sem parecer uma desesperada. Aí quiseram deixar o meu Facebook mais interessante, colocar uma foto bonitona. Eu nunca entendi muito a lógica de foto bonitona diante de um homem que já nos viu ou verá, só pra ele pensar que uma boa maquiagem e o ângulo certo são capazes de milagres. Enfim, mas eu sou eu, uma tonta que se conforma em jamais se declarar. Minha amiga veio aqui, me fez colocar uma roupa que mostrava o colo, me mandou segurar livro, jogar a cabeça para trás como se estivesse gargalhando, me postar diante do espelho, olhar pra cima, olhar pra baixo, colocar a mão aqui e ali. Eu estava me sentindo desconfortável, mas eu ficar desconfortável em foto é o meu normal. Depois de várias poses e fotos e nenhuma parecer estar boa, ela me falou que eu sei que ela é super sincera mesmo e sinceramente meus cabelos brancos me deixam com uma baita cara de velha e ela estava tentando disfarçar. Assim que ela falou, vi que ela fez uma cara de quem se arrependeu, provavelmente porque eu fiz uma cara de quem se magoou. Meu cabelo fica realmente estranho, tenho fotos onde ele está totalmente branco e em outras é como se ele fosse castanho. Então, eu entendi que há verdade no que ela disse. Mas ao mesmo tempo, se um dia quiser uma foto bonitona minha, já sei que temos concepções diferentes. Se eu achasse que meu cabelo é algo a se envergonhar, a ser disfarçado e escondido, eu pintaria. É a diferença de quem vai tirar foto de uma mulher gorda e manda ela ficar de lado, de preto e ângulos de cima pra disfarçar ou coloca um biquíni e tira foto na praia. Eu sei que a primeira opção é mais fácil de absorver. Eu tenho uma faixa branca, bem no meio da testa, e eu disfarçava usando sempre franja. Um dia puxei ela para trás na frente dos meus amigos Elson e Flávia e o Elson soltou um “que lindo” muito espontâneo. A Flávia recriou esse efeito com mecha o quanto pode, até detonou o cabelo. Por ironia da natureza, eu e ela temos a mesma idade e a Flávia que quase não tem cabelo branco adoraria ter porque acha a coisa mais linda. Se eu me acho linda? Quando me olho no espelho, me sinto de novo com cabelo cheio de mechas, o que fiz apenas uma vez na vida – poucas semanas depois pintei tudo, parecia cabelo branco… Levei um tempão pra absorver, tenho dias e dias, mas hoje quando me dá na telha prendo a franja para trás, exibo mesmo. Feio ou bonito, é o que me convém hoje. É meio:

ser aceito e popular

Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Un manoir à Neufchatel, ce n’est pas pour moi

Todo mundo já foi lá, então não sabiam me indicar certinho o endereço. “É uma casa na frente do Parque Barigui”. A localização não é ótima apenas por ser um parque – morar na frente do Barigui significa morar, no mínimo, numa casa muito boa. Mais provavelmente numa mansão. Aí me deram umas indicações, fica no meu caminho quando passo de bicicleta, eu apenas não sei qual delas. Voltando da aula, com minha roupa de pedalada e mochila nas costas, passei reparando e achei. Pode ser uma casa enorme que fica à esquerda ou uma mansão estonteante que fica à direita. Só vai ser meio chatinho à noite, se ninguém me der carona. Cada vida tem suas características, seus desafios, e eu percebo que a minha me faz conviver com grupos muito diferentes. Há pessoas que dizem: “não conheço ninguém que voltou na Dilma”, ou “todos meus amigos são do mundo artístico”, ou “somos um grupinho dos que estudaram no Colégio Tal”. Eu nunca, sempre foi tudo muito misturado, tão misturado que jamais poderia colocar todo mundo no mesmo ambiente. Um dia ouço uma mulher falar do período que passava fome e no outro a que reclama de ter ir a Europa de novo. Olhei para a casa que ainda conhecerei, e lembrei de um amigo que reclamou que eu não o levava junto quando tinha convite high-society. Ele queria ir mesmo sem conhecer ninguém, via como oportunidade. Em compensação, tem outra que poderia e faz questão de não ir. Olhando as mansões de bicicleta, lembrei que muitos de lá dentro tem a mesma idade que eu, de carne o osso também, quem sabe até menos qualificados. Em algum lugar, quem sabe, eu devesse desejar estar lá, lutar para isso, não perder tão feio quando sou comparada aos meus primos. Deveria não estar tão feliz apenas montada numa bicicleta, com dinheiro contado e escrevendo coisas que caem sem efeito no mundo. Mas eu realmente nunca quis, nunca fiz por onde, é como se em algum momento tivessem dado o sinal de largada e eu não ouvi. Não sei se é porque nunca quis ter filhos e não tenho que deixar um legado. Talvez seja porque a gente aprende desde cedo a não sonhar com o que está longe demais – sou de humanas, curso de humanas não enriquece. Zaz, pensei. A moça que ganhava dinheiro cantando nas ruas. A música que me soou tão adolescente. Quem sabe também me diga respeito.

Assexuado

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Pela natureza dos exames eu adivinhei que o médico precisaria de alguma habilidade para tornar tudo o mais profissional possível. No primeiro, ele precisaria introduzir uma sonda em mim para verificar meu útero por dentro. Há muitos anos, quando eu havia ameaçado colocar DIU e acabei desistindo, fiz aquele mesmo exame. Uma enfermeira chegou do meu lado, vestiu uma camisinha na sonda, encheu de lubrificante e enfiou aquilo em mim numa velocidade e facilidade que eu fiquei me sentindo uma mulher da vida. O segundo exame do dia era um tipo de mamografia, e eu não fazia a menor ideia de como seria. Eu já havia feito aquele na máquina, o que aperta o peito e nos faz desejar colocar nela o saco do maldito que inventou aquela porcaria. Deve diminuir a vida útil do nossos peitos em alguns anos ter os coitados espremidos de cima e em diagonal daquele jeito. Como na sala do médico que faria meus dois exames não tinha aquele aparelho monstruoso e apenas uma cama ao lado de uma estação com computador, vi que aquele seria inédito.

É possível que o médico não tenha visto nem se eu sou loira ou morena, do tão pouco que ele fez questão de me olhar. Sua assistente me mandou tirar toda roupa no banheiro que tinha ao lado e vestir o avental que estaria num pacote lacrado. O tal avental é tão aberto e fininho que claramente é feito só pra constar, só pra gente não andar pelada por aí como se estivesse em casa. Aí eu me deitei na cama de joelhos dobrados e pernas afastadas. Sem nunca tirar os olhos da tela do computador, o médico me mostrou a sonda, que apesar de comprida e toda coberta por uma camisinha, iria entrar poucos centímetros em mim. Na parede oposta, uma TV mostrava o que a sonda filmava. Terminado esse, sempre em meio à uma conversinha social, ele me mandou aproximar mais e colocar o braço por detrás da cabeça – era o momento dos seios. Aí ele jogou uma quantidade enorme de KY no meio doseio, bem no centro, e passou sonda por cima de tudo. Repito: jogou uma quantidade enorme de KY em cada seio. Não sei se existem outros fins, mais puros, para o KY, mas pra mim aquilo tem cheiro de sexo. Não tem como sentir aquele cheiro e associar com Dostoiévski ou tarde de compras. Eu deitada, praticamente nua, braço apoiado atrás da cabeça e os seios cheios de KY. Se por acaso eu não tivesse notado todo profissionalismo do médico desde que coloquei os pés no consultório, qualquer fantasia teria se desfeito quando ele me falou:

– Para uma mulher da idade da senhora, os exames estão bastante bons.

Depois eu fui pro banheiro, sequei o excesso de KY, me vesti e saí na rua com meus exames na mão me sentindo meio… sei lá.

Entrevistas

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Uma vez eu disse pra um novinho (acho esse termo muito engraçado!) que nenhuma entrevista com gente com menos de quarenta anos de idade valia a pena. Quarenta sendo boazinha, nem todo quarenta, melhor ainda se a pessoa tiver pra lá dos sessenta. Ele não gostou, é claro, achou papo de gente velha que se valoriza, porque afinal eu estava mais perto dessa idade interessante do que ele. Estou realmente perto dos quarenta, e mesmo assim ainda acho que uma entrevista minha não vale a pena. Quem sabe daqui há uns vinte anos, se eu de lá pra cá eu conseguir superar esse marasmo.

Uma vez estava passando uma entrevista da Carolina Dickman com o Faustão. Não lembro se estava na casa de alguém ou se estava fazendo outra coisa no momento, só sei que eu não estava prestando atenção e a toda hora ouvia ela dizer “eu acho”. Foram tantos “eu acho” que fiquei com vontade de matar a criatura. Depois me dei conta que a culpa não era dela. Ela era uma novinha. Quando se é novo, tudo o que você pode dizer é o que você acha. Uma pessoa quando jovem não passa de um projeto. Ela tem muitas opiniões, faz generalizações, pretende muita coisa, mas tudo pro futuro – e esse futuro pode nunca se realizar. Interessante é entrevistar que não é projeto e sim quem já é. Essa pessoa vai não te falar o que ela acha, ela vai falar o aconteceu, qual sua participação, o que ficou ou o que mudou, as pessoas que estavam ao lado dela. A fase do “eu acho” é o início da régua e os desafios estão todos nelas: os caminhos disponíveis, que escolhas fará, que exemplos têm, o que consegue fazer no dia a dia. Mas para ouvir, vai por mim, a outra ponta é mais interessante.

Três curtas, três problemas

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Eu sempre achei exagerado quando as pessoas se queixavam dos pés gelados que nada resolve. Nos dias muito frios as minhas duas meias também ficavam meio inúteis, mas e daí? Não sei se é o frio recorde, a idade ou o quê, mas eu viciei em colocar bolsa de água quente nos pés. Meu receio é nunca mais voltar a ser uma pessoa normal.

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Outra: aqueles filmes que tem escritores, e eles se isolam dizendo que vão escrever, e não escrevem, a editora manda cartinha, eles inventam uma desculpa, mandam mais, mandam gente e o cara nada. “Nossa, que exagerado”. Então.

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Privadas com caixa acoplada são ecologicamente mais corretas, mas tenho vontade de jogar as minhas pela janela. A mais recente questão – se for contar tudo o que já passei dava um livro, etc. – é que uma delas precisa que eu dê uma leve ajeitada na tampa para não ficar vazando água por dentro. Mas não vaza sempre e nem é imediatamente. Então me pego como marido traído, abrindo a porta do banheiro de repente pra ver se flagro algum barulho.

Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Na minha idade

Uma vez me disseram que eu tenho Complexo de Peter Pan. Fiquei chocada e concordei. Nunca pensei em mim mesma como alguém que faz um esforço deliberado para não crescer. Ao contrário, em certas coisas me sinto uma verdadeira sexagenária. Mas tenho que reconhecer que pra outras ainda estou no jardim de infância. O argumento que a pessoa usou foi o que meu problema em seguir uma carreira é justamente o complexo. Começo, mudo de área, recomeço, nunca me firmo, porque se firmar numa profissão é uma coisa bem adulta.

 

Várias vezes achei que me tornaria professora universitária, e várias vezes investi em roupas mais sérias pensando nas minhas futuras aulas. E, invariavelmente, essas roupas ficavam paradas no guarda-roupa sem uso, até serem doadas. Calças sociais, blazers, sedas. Há poucos dias desabafei no meu facebook sobre o assunto:

 

Às vezes eu penso se não deveria me vestir de forma mais compatível com a minha idade. Mas, afinal, o que as mulheres da minha idade usam?

 

Os amigos vieram em meu socorro, dizer que uma mulher deve vestir o que quiser, o que for adequado ao seu estado de espírito. Há os que perguntaram afinal como é que eu me visto, e eu acho que me visto igual a uma universitária – coisa que não sou há mais de dez anos! Claro que, sendo meus amigos, apareceu conselhos de que o que me falta é um xale. Pra combinar com a cadeira de balanço.

Eis que de manhãzinha estava saindo cedo de casa, com a minha bike, e encontrei a vizinha. Ela tem mais ou menos a minha idade e é psicóloga. Olhei para ela e descobri o que uma mulher com meu físico na minha faixa etária usa: camisa branca, calça social bege, salto agulha e yorkshire.

Duas historinhas contraditórias sobre meu envelhecimento

Detesto serviço de banco, por isso mesmo que quem cuida da minha conta é uma amiga. Os serviços de banco ficavam todos na mão do Luiz, eu mal e mal sei usar caixa eletrônico. Já sabendo disso, a Rafa abriu a conta, entende minhas dúvidas estúpidas e faz o que pode sem que eu tenha que passar na agência. Mas para mudar o meu nome na conta não teve jeito, eu tive que finalmente ir lá. Tenho uma má sorte com cartões e documentos que só ser exceção estatística explica. Sempre caio naqueles casos em não sei quantos mil, até em remédio. Então não fiquei surpresa em saber que a Receita Federal não tinha feito a mudança do meu nome, mesmo eu já mexido com isso antes de viajar. A mudança do nome na agência foi meio na gambiarra. Conversa daqui e conversa dali, ela me pede o meu RG. Ainda é antigo, porque consegui agendar pra daqui há alguns dias. A Rafa olha para a minha foto, tirada quando eu tinha vinte e cinco anos e solta:
– Você casou bem novinha, né?
Pior que ela nem percebeu que me chamou de acabada.
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Para ir à praia, eu só colocava biquíni, chinelo e um camisetão. Se o sol estava forte, boné e óculos escuros. Qualquer coisa a mais só aumentariam minhas chances de ser assaltada. Depois de poucos minutos de caminhada eu chegava na praia, segurava o chinelo nas mãos e andava com água até os joelhos. Quando queria entrar na água, encontrava alguém pra cuidar das minhas coisas para mim. Naquele fim de tarde um adolescente de bermuda se aproximou de mim e se ofereceu para segurar as minhas coisas. Achei muito estranho e não aceitei. Depois, ele se aproximou de mim e começou a puxar papo. Tive vinte e um anos a criatura. Ele quis puxar papo e eu não estava disposta a conversar, mas ao mesmo tempo não sei simplesmente ignorar alguém. Respondia com monossilábicos. Isso não o impediu de, poucas perguntas depois, me cantar da maneira baiana, que soa tão agressiva aos olhos sulistas que a gente fica com vontade de chamar a polícia – “você quer me beijar?” “vamos ficar nus na praia” “quer fazer amor comigo?”.
No início da conversa, quando eu ainda não desconfiava do que viria a seguir, ele perguntou a minha idade. Eu não vi motivos para mentir e respondi o que realmente é, que tenho trinta e sete anos. A reação sincera dele foi o elogio mais grosseiro e sem noção que eu já ouvi na minha vida. Vou até transcrever:
– Quantos anos você tem?
– Trinta e sete.
– Você fumou, é?
Hahahahahahaha! Obrigada, adolescente tarado das praias soteropolitanas.

Cabelo ativista

Voltei a ter cabelo curto há menos de um mês. Não que o meu cabelo fosse dessa comprideza toda, mas dava pra fazer um rabinho. E eu era apegada àquele rabinho, me sentia super cabeluda com ele. Achei que quando cortasse ia ficar exposta, o crânio à vista, radical, ia ser aquele escândalo. As pessoas com quem conversei também pareciam pensar assim, porque não tive reações tão boas quanto esperava à ideia de diminui-lo – “Ah, mas o seu cabelo é tão bonito!” De onde eu concluí que só obteria autorização pra cortar se começasse a deixar de lavar o cabelo, ele nascesse despontado, queimasse tudo com chapinha, fizesse uma descoloração barata, coisas desse nível. Parei de comentar e cortei. Pronto. Poucas reações. Silêncio quase que total. Aí minha profe de costura (Ah, não contei que agora estou aprendendo a costurar? Então, estou aprendendo a costurar) me perguntou, toda feliz: “Você cortou o cabelo, né? Ah, viu como eu reparo!?” Se precisava ser tão observador pra botar reparo que eu cortei o cabelo, é sinal de que o rabinho não fazia toda essa diferença.

 

 Aí a Fal conta: moço me explicou que só feministas — palavra pronunciada com cara de nojo — têm cabelo curto. É? Não vou discutir. Comecei a cortar o meu cabelo curto aos quinze anos, e ele pra mim significa tanta coisa. Na minha fase atual, é nitidamente um retorno. É como se eu tivesse voltado no tempo, voltado a ser quem eu era há mais de dez anos e ficar com medo de corte de cabelo me pareceu sem sentido. Porque antes eu era assim, me encantava com um corte e fazia. Me preocupar em como seria depois se eu mudasse de ideia ou se me achariam masculinizada nem me passavam pela cabeça. Eu não tinha medo de mudar, era da filosofia que cabelo cresce e pronto. Quero voltar à coragem que eu tinha naquela época, àquela moça que cada dia admiro mais. A confiança no futuro que ela (eu) tinha era baseada apenas em si (mim) mesma.

 

Quem me conhece pessoalmente também sabe que tenho muitos cabelos grisalhos e não os escondo, não passo nenhuma tinta. Agora os meus grisalhos aparecem ainda mais, por causa do corte. Antes eu pintava o cabelo, mas era relapsa. Ao invés de pintar o cabelo a cada quinze dias, levava pelo menos um mês. Quando a cor da tinta ainda era forte, as pessoas olhavam com indiferença. À medida que ela ia saindo e meu cabelo desbotava, vinham os elogios. Me perguntavam o que fiz, se eram luzes, diziam que o meu cabelo estava muito bonito. Depois de pintar muito e ouvir muito, decidi unir o útil ao agradável de deixar de pintar de uma vez. Tem um resto de tinta no banheiro, mofando.

 

Então imaginem o que o mocinho da Fal pensaria de mim, a ativista em pessoa. Aí eu me pergunto: fazer as coisas por preguiça, vale? Talvez valha. Talvez, em algum momento, eu devesse ter pensado: “os homens preferem cabelos longos” ou “só posso cortar curto se for garantido que vou ficar linda”. Mais: “anota na agenda, paga salão, usa shampoo tonalizante, mas não deixa de pintar esse cabelo. Coisa mais desleixada!”. Nunca decidi isso, nunca pensei em fazer do meu cabelo bandeira para qualquer coisa. Minha única questão é que se enquadrar dá tão mais trabalho…
(Juro que eu tentei colocar uma foto minha pra ilustrar o post, mas não achei nenhuma que desse pra ver…)

Aos contrários

Não sei porque escrever livros que mostram o quão geniais alguns foram muito novos. De nada me ajuda saber que tem gente que aos sete anos já compunha sinfonias, que aos vinte já escrevia obras primas ou que aos trinta já tinha mudado a história do pensamento ocidental. Nada posso fazer a respeito do meu passado; enquanto alguns entravam para a história, eu perdi meu tempo me achando gorda, pegando ônibus, brigando com algum prestador de serviço ou simplesmente usufruindo do fruto da genialidade alheia. 

Estimulante mesmo é começarem a dar voz ao contrário: casais que se encontram e descobrem o amor aos oitenta, que publicam seu primeiro livro aos setenta, que começam a estudar música aos sessenta, que mudaram de profissão aos cinquenta e por aí vai. Nesse time eu ainda posso entrar.

Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.

Auto escola

Resolvi aprender a dirigir. Quis aprender assim que tinha idade pra tirar carteira, mas não tinha dinheiro. Depois casei e passei a ter dinheiro e não ter tempo. Passei muito tempo alternando falta de dinheiro e de tempo, até que quando os dois puderam andar juntos, eu já não queria mais. Eu comparo essa vontade de aprender a dirigir à mesma vontade louca de entrar em balada e filmes para maiores de dezoito quando não temos dezoito: passamos anos aguardando aquele momento, invejando que pode, fazendo planos… e quando finalmente chega, não é nada demais. Pra mim, dirigir não é nada demais. Fui criada pegando ônibus, andando, aproveitando carona. Sempre vi o carro como uma exceção e não como um direito. Depois que meu irmão sofreu acidente de carro, passei a ter antipatia. Não consigo achar normal tantos carros, cada dia maiores, transportando um (1) fulano dentro, enquanto o trânsito fica cada vez mais caótico e perigoso. Se pra essa questão do carro o coletivo e o bom senso fossem minimamente levados em conta… enfim, deixa pra lá.

 

Mas, como as pessoas sempre ressaltaram, é bom que eu saiba dirigir. É isso que eu pretendo, saber. Às vezes não saber dirigir nos leva a arranjos burros aqui em casa. A região onde eu moro é insegura de noite e fico igual um bebê que precisa ser transportado. Muitas mulheres me disseram que passaram a dirigir só por causa dos filhos. Não sabemos o dia de amanhã e sempre tem a possibilidade de uma emergência. Foi esse tipo de raciocínio que me levou à auto escola. Uma decisão consciente e de bom senso. Porque ter desejo de dirigir eu não tenho.

 

Iniciei o “processo” há semanas. É realmente um processo. Liguei pra uma auto escola, que disse tão resumidamente o que eu tinha que fazer, que fui lá muito alegre e feliz sem ter o suficiente pra matrícula. Porque só então soube que primeiro tem que entrar com a papelada, pagar escola, marcar foto, pagar DETRAN, falar com a escola, marcar exames… Imagino como deve ser aflitivo pra quem sonha em dirigir. Pra mim, só tem dado tempo de observar ainda mais o trânsito, agora com olhos de – “esses motoristas serão os meus colegas”. Olha, que terror.

 

Não duvido nada de eu chegar, quando chegar, nas aulas práticas, eu seja daquelas com pânico. Antes, pensar em gente que senta pra dirigir e se sente impossibilitada me parecia totalmente fora da realidade. Aposto que chegaria no DETRAN cheia de gás e de coragem, se tivesse feito isso aos dezoito. Eu não teria medo, simplesmente porque me parecia estúpido ter medo. Isso me leva a outras reflexões – de perceber que o tempo passou, de que não sou mais aquela. Será que essa é uma regra inevitável, de sempre ficar cada vez mais medroso com o tempo? Será que a partir de agora, sempre que eu me arriscar, terei que fazer passando por cima das minhas inseguranças?

Idade

Somos três. Luiz é quatro anos mais velho do que eu e mora em Salvador. André é um ano mais novo do que eu e mora aqui em Curitiba mesmo, num apartamento no centro. Parece que foi ontem a época que seis horas de vôo separavam as duas cidades e nós dele. Naquela época a Varig existia, tinha travesseiros de pena, o lanche era servido numa linda maletinha de plástico e tinha talheres de metal com logomarca. Nessa época eu e o Luiz tínhamos brigas sempre homéricas e as pessoas achavam que eu e o André éramos gêmeos. A distância em quilômetros continua a mesma, mas antes não apenas não havia celular, como as ligações custavam muito caro. Pra ligar pra longe a gente tinha que esperar pra depois das 22h; se pudesse esperar pra depois das 24h era melhor ainda. Viajar de avião era coisa de rico – mas, olha, desde que eu me entendo por gente os vôos atrasam e eles nos deixam mofando nos aeroportos sem a menor dó. O mundo ficou mas perto só que a gente acaba esquecendo disso. No dia dos pais, Luiz resolveu arriscar o meu número de celular e deu certo. Os deuses foram favoráveis e foi a ligação mais clara que a TIM me proporcionou até hoje. Conversa vai, conversa vem, entramos no assunto colesterol. Herdamos, nós dois, o colesterol de papai; já o André herdou a tendência ao diabetes. Recebi do meu irmão a recomendação de comprar óleo de linhaça dourada e passar a usar no lugar da manteiga. O colesterol dele havia baixado dez pontos com esse óleo e o fim da batata frita.

– Luiz, que coisa mais de velho. Quem diria que um dia trocaríamos dicas para baixar o colesterol.

– É mesmo. Isso porque estou conversando com você. Se estivesse conversando com o André, falaríamos sobre calvície. E exame de próstata.

Dois anos

O pessoal do flamenco é tão light com relação a tipo físico e idade, que digo que passei umas poucas e boas com relação à dança e ninguém faz muita idéia. Hoje vejo que ter optado por fazer balé tornou meu caminho bem difícil no começo, me fez conhecer a dança pelo seu lado mais preconceituoso. Passei e ouvi coisas que hoje sei que foram desnecessárias. Uma delas foi quando decidi fazer dança moderna. Se consultar os arquivos do blog, acabo achando a data certinho, mas estou com preguiça. Eu tinha por volta de trinta e um anos de idade e dois de balé. Eu me animei justamente porque estava no balé. A dança moderna nasceu de uma crítica ao clássico, mas ela ainda tem muitos elementos dele, como a busca por linhas perfeitas e um apego ao tipo físico de pernas altas, esticadas, alongamento, etc. Fui fazer o teste sabendo que só tinha uma ou duas pessoas mais velhas na escola, que ela era formada basicamente por adolescentes. Para minha surpresa, logo depois do teste, o diretor artístico me chamou para uma conversa. O resultado sairia dali há alguns dias, mas ele veio me dizer que eu tinha ido bem, que eles queriam que eu viesse no dia seguinte para a possibilidade de ir para uma turma mais avançada. No meio dessa conversa elogiosa e cordial que nós tivemos, ele soltou um…

– Você está com trinta e um anos, então tem mais dois anos de palco pela frente…

Dois anos? Pois é. Aquilo me impactou assim que eu ouvi. Pensei que teria que aproveitar muito intensamente o pouco tempo de dança que me restava. Eu tinha começado a dançar tarde, tão tarde, muito tarde! Achei que dança era igual ginástica olímpica, de data de validade curtíssima e eu já estava quase lá. Só mais dois anos e eu nunca mais colocaria os pés no palco – como a vida é curta! É curta sim, mas nem tanto – continuo indo para os palcos sem previsão de parar. Nem preciso ir muito além da própria dança moderna pra desmentir o que ele me disse: