Limpeza

Jogar fora a minha sapatilha de ponta – uma Giseli número 8 – não foi difícil. Assim como a saia azul cortada que eu usei pra dançar na Ópera de Arame e o que restou do espetáculo infantil de contemporâneo. A roupa de marinhera do Musical fica, como uma fantasia. O vestido de malvada-recalcada do espetáculo de moderno vai ser reformada e virar um lindo pretinho básico. Porque eu não estou jogando fora o meu passado com dança, ele apenas está sendo substituído. Eu finalmente encontrei meu caminho, e essas coisas não são necessárias num espetáculo de flamenco. Essa é a grande questão das limpezas – a gente só consegue jogar fora quando algumas coisas ficaram muito claras.

 

Apenas quando comecei a fazer sociologia eu pude jogar fora todo o meu material de psicologia. Até então, cada ano eu arriscava um pouquinho, jogava fora as coisas menos prováveis. A psicóloga só foi enterrada quando nasceu a socióloga. E hoje, passo pela mesma coisa com o material de sociologia – cada vez um pouquinho. Já joguei fora o material de ciência política, inclusive uns textos sobre escolha racional e instituições italianas que eu gostava muito. Mas tenho consciência de que não tenho temperamento pra energia que o debate político provoca. Por isso, servirão apenas como aprendizagem pessoal e não precisam fazer parte do meu material de consulta. O restante do meu imenso material está sendo digitalizado. Não deixa de ser uma maneira de jogar fora, quando vejo a quantidade de pastas que consegui que foram embora.

 

A parte mais importante e emocionalmente difícil da limpeza das últimas semanas tem sido o que se refere à escultura. Eu estou cansada de saber que deu tudo errado e que eu fiz tudo errado. Que professor não é apenas aquele que dá a técnica, a gente faz parte de uma escola e é através dela que somos apresentados ao meio. Eu não tive nada disso, fui largada. Daí não soube me posicionar, não gostava e não conhecia as regras do mundo artístico. Na prática, minha carreira foi muito virtual, algo que não nasceu direito. Mesmo assim, as coisas estavam todas aqui: meu macacão, meus flyers, certificados, portfolios, material de trabalho (até mesmo um saco de 40 kg de gesso com a validade vencida!), as peças. Ah, as peças! São como filhas para mim e, ao mesmo tempo, pelo fato de atravancarem a minha sala, um atestado de fracasso. Nesses últimos dias tenho revisto e jogado fora tudo isso. Sim, até esculturas eu joguei no lixo. Acredito que estão ornando casas de catadores de papel.
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Separação

As mulheres esperaram muito tempo pelo direito de se divorciarem. Pelo direito legal, pelo reconhecimento de que elas podem não gostar de estar naquele casamento e irem – sem terem que provar para os outros que estavam sofrendo, sem nem ao menos sofrerem danos visíveis pra justificar essa saída. Minha mãe e minhas tias usaram amplamente esse direito, para desgosto da minha vó que viu filha após filha voltar sem marido e com filhos. E como elas aprenderam, os filhos delas presenciaram que a separação empobrece os conjuges. Especialmente quando a mulher não trabalho, o que hoje ficou menos comum. Quando o casal não tem muito patrimônio, o padrão pode baixar de maneira irreversível. A mulher separada geralmente mora com os filhos, o que cria mais uma dificuldade para casar de novo. Lembro que eu li uma entrevista com Zilda Arns, em que lhe perguntaram se ela não quis se casar depois que o marido morreu. Acho que esperavam uma resposta santificada, de que ela fez da Pastoral da Criança e do amor ao próximo o seu casamento. Mas ela disse que não foi propriamente uma escolha, e sim é que é difícil se casar de novo quando se tem seis filhos.

Tendo em vista tudo isso, na minha geração, conheço quem prefira não se separar. Digo prefira porque o motivo já surgiu. Não que seja tudo bem que ele teve outra, outras. Não que ela acredite quando ele diz que não vai se repetir, não que ele se proponha a mudar. Elas não se separam porque separar dá muito trabalho. Separar empobrece. Ironicamente, as que mais temem a pobreza são as de maior patrimônio. Não estou falando de aluguel atrasado. Separar vai obrigar a comprar na loja popular ao invés de comprar as roupas lindas das grifes preferidas. Separar vai obrigar a fazer contas, saber o gasto mensal da gasolina, calcular imposto de renda e outras coisas chatas que os maridos geralmente assumem. E, principalmente, separar obrigará a mulher a cair novamente no “mercado”, e está cada vez mais difícil arranjar um homem. Quando uma mulher se separa, pode ser que ela nunca mais gaste como antes, ou que nunca mais se case. Ou não. Mas é tão difícil e incerto que elas preferem ficar, não arriscar.

Eu não acho errado, apenas acho triste. Como quem desiste antes de lutar. Ou confia tão pouco nas mudanças – de ares, de pessoas, de perspectivas, de valores – que se conforma. Entenderia ficar por amor, ou até mesmo por vingança; mas por isso?

Convite

Uma vez eu estava conversando com um cara que ia fazer doutorado na Alemanha. Eu perguntei o que ele achava da fama de grossos que os alemães têm. Ele disse que não encarava como grosseria no mau sentido, e sim como uma sinceridade que não estamos acostumados.

– Por exemplo, se eu convidar você pra sair daqui e tomar um chopp comigo, você vai dizer que quem sabe um dia, que hoje você tem um compromisso… sendo que na verdade você sabe que nunca vai sair comigo. Já se fosse uma alemã, ela simplesmente responderia não. É mais grosseiro? Na hora pode ter aquele impacto, mas você sabe com quem está lidando.

Eu senti muito essa nossa tendência a evitar um não quando tentava comemorar meu aniversário com uma festa. No primeiro momento, ao receber o convite, as pessoas quase sempre reagiam com um “Nossa, que legal, claro que eu vou!” Poucas pessoas diziam que não, geralmente quem tinha um motivo muito sólido, como uma viagem. O sucesso era tanto que dava a impressão que minha festa teria uma centena de pessoas, e começava a me preocupar em encomendar um bolo enorme e comprar pratos. Mas à medida em que a data se aproximava, as pessoas começavam a me procurar com todo tipo de problemas – a bisavó está nas últimas, o cachorro comeu uma planta venenosa, o professor resolveu marcar uma prova sábado à noite, etc. Era tanta gente se desculpando e desmarcando que horas antes do aniversário eu me convencia de que não ia ninguém (como já me aconteceu). Eu me pergunto quantas dessas já não sabiam desde o primeiro instante que elas não iriam. Quase todas, provavelmente.

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Depois de escrever este post, quis saber de alguém que realmente conhece os alemães se a coisa era mesmo como falei. Então procurei a Frau Glaeser, que me mandou um e-mail interessantíssimo sobre a cultura alemã. Transcrevo com a autorização dela:

Oi Caminhante,

antes de conhecer “meu” alemao, eu morria de preconceito – alemaes sao frios, nao demonstram sentimentos, a língua é um horror, blablabla.

Na primeira visita, antes de casar, tive contato com alguns alemaes e me choquei com algumas coisas, como a apatia das criancinhas nos ônibus, fiquei chocada ao ver pirralhinhos de 4 anos de idade sentados, conversando baixo, como se adultos fossem. Vi um molequinho de 3 anos fechar a cara e perguntar pra mae pq eu estava acenando pra ele. E entendi menos ainda quando vi alemaes fazerem festinha pra cachorro, mas fecharem a cara pra criancinhas…

Logo no comeco do relacionamento offline com meu alemao, percebi o quanto ele ficava chateado se eu pedisse alguma coisa pra ele e nao falasse “por favor”. Pra mim era evidente que eu pedia um favor, pra ele era uma tremenda falta de educacao, como se eu estivesse dando uma ordem a ele. E percebi, em outras situacoes, o quanto um “por favor” muda as coisas. Alemao é uma língua gutural, a melodia é descendente, ao contrário do português, em que a mudanca de entonacao transforma uma ordem numa pergunta… Teste dizendo “Traz um copo de água pra mim.” e “Traz um copo de água pra mim?” em português, a entonacao faz a pergunta. Em alemao, nao. Soa igual, a nao ser que vc coloque um “Bitte” no final.

Em alemao fica muito claro o grau de intimidade entre interlocutores – existem pronomes diferentes e as regras de quando usá-los sao bem claras. Sie pra quem eu nao conheco, Du pra quem é família ou amigo do peito, ou pra quem nao liga muito pra convencoes. Interessante que criancas sao sempre Du, mas na adolescência passam a ser chamadas de Sie pelos professores na escola… Outra coisa que eu aprendi e acho muito interessante é que crianca é vista como um indivíduo, que merece respeito. Nao me lembro de ter visto adultos falando com voz diferente com criancas, ainda que pequenas. E os pais falam – e muito – com os pequenos, explicam os mais variados assuntos, em palavras simples mas nao imbecis. Já vi um telejornal para criancas, muito bem-feito, por sinal. E a Der Spiegel, maior revista daqui, tem uma versao infantil. E existem vários programas explicando o funcionamento de tudo o que se possa imaginar. Num domingo de manha vi como era fabricado o poliéster.

Por conta do respeito ao indivíduo, existe o direito a opiniao. E eu, sinceramente, precisei me acostumar a isso. As pessoas perguntam e realmente se interessam pela resposta, debatem o que concordam/discordam e, principalmente, nao se ofendem com o simples fato de vc ter uma opiniao diferente da delas. Pra quem passou a vida inteira fazendo malabarismos mentais e verbais ao ser confrontada com alguém que se ofendia com o fato de eu pensar diferente, foi um choque daqueles… Os alemaes sao beeeem diretos, o que pode ser confundido com grosseria, mas funcionam de uma maneira diferente. Se vc convidar um alemao pra ir à sua casa, ele vai ter perguntar dia e horário. E vai aparecer, ou pelo menos te avisar, com antecedência, caso nao possa. E vai se lembrar do seu aniversário, vai te mandar um email/sms/cartao/telefonar, vai te mostrar de alguma maneira que lembrou de você. E, dependendo do grau de intimidade, vai lembrar do seu aniversário de casamento, por exemplo. Ou te mandar um cartao postal a cada viagem.

Claro que sempre existe alguém sem-nocao que abusa do direito de emitir sua opiniao e fala o que nao deve. Ou de alguém que interpreta isso de maneira errada, mas, no geral, é menos complicado viver aqui. Um exemplo disso foi a festa de casamento no Brasil – convidei umas 80 pessoas, apareceram 60. Ao completar um ano de casados, fizemos uma outra festa, em Frankfurt, pros amigos alemaes que nao puderam ir. Foi uma festa super íntima, 25 pessoas. E dos convidados, apenas um nao pode ir, pq o filho pequeno tava doente e era algo contagioso. Bacana, né?

Por favor nao entenda isso como uma elegia aos alemaes, apenas o quanto me sinto aliviada por nao ter que me virar do avesso e tentar nao ofender alguém a cada meia hora…

Mais algumas coisas que admiro muito nos alemaes: a fidelidade aos princípios (isso vale pros abracadores de árvores, pros políticos, pras criancinhas escoteiras, pros membros dos clubes de carnaval, que fabricam suas fantasias e vao desfilar num frio de zero grau, só pelo prazer de desfilar), a eterna curiosidade sobre o mundo e seu funcionamento (todo telejornal tem pelo menos 30% de notícias sobre países estrangeiros, sempre; existem vários programas de ciências que mostram de maneira interessante o funcionamento de tudo o que se possa imaginar, como a eficácia de truques domésticos pro leite nao derramar ao ser fervido, p.ex.), o amor pelo debate (meu marido assiste mesa redonda de debate político fora de época de eleicao, dá pra acreditar?), mas o que eu mais admiro é o fato de saberem que seriedade nao se confunde com sisudez.

Dicas pra arranjar emprego

Quando nos conhecemos, eu estudava psicologia e ele já era psicólogo. Nossa diferença de idade nem era tão grande, mas as nossas realidades eram: enquanto eu lutava pra conseguir me formar, ele era filho de um médico conceituado, tinha pós, carro e trabalhava numa empresa da mesma especialidade dele e do pai – sexualidade. Ele era o que deu certo e eu a que tinha potencial. Ele dizia que se eu não fosse tão marxista, seria uma excelente analista de RH. Não entendi direito se esse SE era um elogio, mas de fato eu não gostava da idéia da trabalhar numa empresa. Simpatizava com ONGs ou com o atendimento clínico. O que tínhamos era amor, amizade, um tiquinho de sexo e uma intensa admiração intelectual pelo senso de humor e a cultura inútil um do outro. Ele adorava minha teoria sobre a futura simplificação do vestuário no ambiente de trabalho – a prova disso era o fato de todos estarem sempre de pijama em Star Trek. À medida em que meu curso chegava ao fim, o tema trabalho começou a ficar cada vez mais presente. Durante a faculdade a gente acha que quer trabalhar numa área e não na outra; quando a água começa a bater na bunda, tudo o que a gente quer é ser empregado, em qualquer lugar.

Eu me formei e comecei a receber de todo mundo recortes e dicas de como arranjar emprego. Como se portar na entrevista, o que escrever no currículo, o que vestir no ambiente de trabalho, como fazer network, essas coisas. Para minha frustração, meu amigo psicólogo também passava longos períodos no telefone me dizendo o que fazer. Nas nossas ligações regulares, eu era obrigada a dizer que nada tinha surgido e ele se sentia na obrigação de me dar uma luz. Lembro que ele me contou o caso de um que passou meses aparecendo na empresa onde ele trabalha, até que um dia a vaga abriu e nem pensaram em outro nome. Eu levava muito à sério as coisas que ele me falava, por mais que não conseguisse colocar em prática – eu nem ao menos era chamada para entrevistas. Depois de muitas dicas, um dia quis que ele me falasse de sua experiência pessoal – como é que ele tinha ido trabalhar lá, como ele ficou sabendo da vaga, como é que foi a entrevista, enfim, que lições eu poderia tirar. Ele ficou muito sem graça e acabou respondendo:

– Na verdade foi o meu pai que me indicou. Você sabe, ele é médico especialista na área e pediram pra ele dar um nome… Mas ele só fez isso quando eu estava preparado, eu estudei muito antes!

Foi a última vez que ele me deu dicas.

Lalá

Alguns diziam que ela levava alegria por onde passava. Acredito que a maior parte das pessoas se irritavam, inclusive as que a chamavam de alegria. Porque Lalá chegava literalmente gritando. Ela gritava, corria, beijava, abraçava, ria, fazia tudo alto e de maneira espalhafatosa, como uma criança. Ela convencia tanto com esses gestos, que eu só fui ter real dimensão da idade da Lalá quando ela me revelou a data de nascimento, e percebi que é a mesma idade da minha mãe. Não que não dê pra perceber que existe uma vovó ali, olhando o seu rosto. Mas o seu corpo durinho, magro e bem cuidado de quem cavalgava pelo interior do Rio Grande, dançou ballet nos Estados Unidos, fez apresentações de patinação artística e hoje joga tênis, deixavam-na em algum lugar indeterminado- mais jovem e ativa do que a turma que deveria ser a dela, mais velha do que a maneira como se vê. Quando Lalá começou a costurar e mostrar para todos o seu trabalho, uma mudança estava em curso. Uma mudança tão sutil quanto os próprios acabamentos das costuras, que foram ficando cada vez mais caprichados e complexos. Embora continue espalhafatosa, reparando bem, ela parou de gritar. A mulher que estava por baixo, que pra falar sério precisava ser praticamente invocada, está mais fácil de acessar. Sentamos para conversar com um pouco mais de tempo e Lalá me contou que o marido dela fez uma besteira financeira muito grande. Algo que só de pensar a mata de raiva. E uma mulher como ela, que sempre teve de tudo, às portas de fazer sessenta anos, tem que vender costuras pra pagar o que a mantém feliz.

Cantar

Se tem uma coisa que me mata de admiração é quem canta. Acho de uma exposição gigantesca, mais ainda do que dançar. É você, é a sua voz, olhando para o seu público. Tentando fazer com que ela chegue aos ouvidos até aquela outra pessoa lá do fundo. Se eu danço e a pessoa fecha os olhos, já não posso fazer mais nada; a voz se impõe. Acho que existem várias implicações psicológicas nisso, na meu problema em soltar a voz, então tentei fazer aula de canto. Rolou uma empatia imediata, então eu e a Isabel nos tornamos amigas. Tadinha – ela vivia tendo que “discutir a relação” comigo – que eu tinha feito aquele agudo agora há pouco, que visualizasse minha voz alcançando lá longe, que minha voz era bonita, esse tipo de coisa. Porque eu ia bem nos exercícios e empacava na hora de cantar. Sempre. Eu sabia que não tinha lá muita potência e a certeza veio de forma cruel: no dia em que deixei a escola, as maldosas secretárias deram a entender que eu ficava a aula inteira batendo papo, porque elas nunca tinham ouvido minha voz…

Também por influência da Isabel, tentei entrar no Coral da UFPR. Porque admiro muito o trabalho deles e porque acho que cantando no meio de um monte de gente eu me soltaria. Ela me disse que o teste era bem simples, que era só imitar umas escalas no piano. Coisa que eu fazia nas aulas. O problema era como era feito o teste. Eu chegava lá e tinha sempre muita gente na sala – umas trabalhando, outras batiam papo, algumas esperavam o horário da sua própria aula. Aí o professor sentava na frente do piano e já ia tocando, o teste rolava sem maiores cerimônias. Eu tinha vontade de perguntar: “Mas não vai nem rolar um beijinho antes?”. Porque cantar sempre me pareceu uma exposição, uma nudez. E eu não conseguia fazer isso no meio daquela gente, sem a menor intimidade. Precisando me despir psicologicamente, não deu outra: não passei no teste por dois anos seguidos. Esse limite vou ter que deixar como está.

Um pequeno detalhe

Eu gosto de ambientes bonitos, sabe? Tanto que tive assinatura de Casa Claudia durante anos, na ilusão de que isso me tornaria capaz de ter uma casa casa feito pelo Rosenbaum só de visitar a Leroy Merlin e praticar bricolagem. Aí eu percebi que tudo ficava lindo diante de um janelão com vista para um jardim temático, e passei a me interessar por revistas de Arquitetura & Construção. Adoro lojas de material de construção, adoro ver porcelanas. Passeio por esses lugares e escolho linhas de metais para banheiros que jamais usarei. Já fiz vários projetos mirabolantes para a minha própria casa, e todos ficaram lindos na minha imaginação. Essas coisas todas me fazem dizer que farei faculdade de arquitetura. Minha terceira faculdade, o que é que tem?

– E como é que você vai fazer com cálculo diferencial?

Responde meu marido estraga prazeres. Só porque eu não consigo calcular nem o troco do ônibus se não olho para os meus próprios dedos. Digo que não posso fazer decoração, simplesmente, pelo mesmo motivo alegado pelo meu irmão (que é arquiteto, mas da área de urbanismo) “Se você é decorador, vão perguntar se você também faz cafezinho. Se você diz que é arquiteto, aí sim as pessoas vão respeitar”. Por que minha genialidade tem que estar limitada a esses pequenos detalhes numéricos? Proponho a volta aos moldes antigos da arquitetura, de como era antes da descoberta da perspectiva – farei maquetes do que eu pensei e a gente faz mais ou menos o que está lá… (descobri isso vendo History Channel)

– Oras, você calcula pra mim. Pra que serve casar com um engenheiro?

Meu sonho é ser Niemeyer. Eu direi – “Ó, tive a idéia de fazer uma grande construção em forma de olho, em cima de uma base amarela fininha. Calcula aí, Luiz!”

Estímulo

Por causa do ódio que eu tinha das aulas de ballet quando criança, bailarinos não em despertavam nenhum tipo de inveja. Não achava nada demais nas habilidades de alguém num palco, que fazia questão de nem prestigiar. Quando ao físico, achava que essa gente precisava ganhar uma pãozinho com manteiga. As coisas começaram a mudar dentro de mim de uma maneira muito sutil, graças à Janine. Ela sempre me elogiou como aluna de pilates, a maneira como eu era concentrada, como aprendia rápido, como tinha boa consciência corporal. Mas ela nunca me confundiu com uma bailarina e nunca me disse que eu seria uma boa bailarina. Percebi que comecei a sentir ciúmes do quanto ela dava importância a isso, passei a ter raiva cada vez que um bailarino aparecia e ela logo percebia “quando vi o pé, a postura”. Passei a desejar que ela me falasse pra fazer ballet, que dissesse que eu levo jeito. Mas ela nunca disse. Hoje eu entendo, porque ballet é muito difícil e é uma tremenda responsabilidade falar isso para as pessoas. Algumas acham que você é fiadora delas para sempre.

Minha energia para ser escultora estava no fim e me recomendaram o programa de um banco, que teria um site de vendas internacionais. Essencialmente, a única coisa que precisava era ter conta lá e pedir pra entrar no programa. Na época, eu tinha uma amiga de orkut, que estava na mesma situação que eu: desempregada, querendo vender seu trabalho (bijoux) e não conseguia. Quando me falaram do programa, fiquei entusiasmada e contei pra ela. Vocês não imaginam a dor de cabeça que isso foi. Ela me enchia de perguntas, não apenas quando eu contei – toda semana ela vinha me encher o saco. No início respondia, depois mandei ela se informar no site mas nada adiantava. Ela queria saber se dava certo, se era garantido, se eu estava vendendo, o que estava acontecendo, ela não ia entrar no escuro, etc. Percebi que o fato de ser sugestão minha, na cabeça da criatura, me tornou responsável. Se ela entrasse, se não desse certo, se gastasse muito ou se a unha quebrasse, a culpa seria toda minha, pra sempre (e se desse certo seria obrigada e benção, claro). Como se não bastassem as minhas próprias dúvidas, tinha que aguentar as dela. No fim, o site e a amizade acabaram. E eu passei a pensar mil vezes antes de sugerir coisas para as pessoas.

Algumas pessoas nascem de bunda pra lua. Elas são apadrinhadas, oferecem emprego pra elas, substituem uma pessoa importante que já estava com toda a clientela feita, olheiros a convidam pra fazer parte de algo super legal. Conheço vários casos e nenhum deles me envolve… As pessoas não apenas não me deram emprego como nem ao menos me sugeriram um caminho. Então, tive que desenvolver uma regra pra mim mesma: quando eu quero muito que alguém me sugira, é porque eu devo ir. Na falta de alguém de fora me dizer, digo eu mesma: VÁ. Porque se for esperar isso do mundo, continuarei deitada na minha cama.

Caderno de citações

Eu tenho caderno de citações porque não grifo livros. E, mesmo se o fizesse, leio muitos livros da biblioteca. Então a vontade de ter certas coisas guardadas me obriga a anotá-las. Tenho trechos enormes de várias obras, assim como alguns livros não mereceram um risquinho. É interessante folhear o meu caderno e ver registradas neles as minhas mudanças de interesse, as coisas que me chamavam atenção, que livros e em que ordem que eu os li. Nem tudo que está anotado faz sentido e com algumas coisas nem eu concordo – mas estão lá porque me encantaram de alguma forma, porque sua escrita me disse algo. É através do meu caderno que vejo que sempre gostei de alternar a leitura, principalmente com dois livros – alternei entre Os miseráveis com A insustentável leveza do ser, Rumo à estação Finlância com Orientalismo. Já as anotações de O Tempo e o Vento são mais contínuas, o que demonstra que eu estive bastante absorvida na leitura. Guimarães Rosa é de um jeito que sou obrigada a ler com o caderno do lado, de tanto que eu paro e anoto. O primeiro caderno está cheio de citações de psicologia e muito misticismo. Este segundo, que está no fim, tem muita coisa de sociologia. É como se fosse um diário, feito de frases de efeitos dos outros.

A última anotação que eu fiz (até agora) foi:

Para uma criança a cidade é um lugar sem alegrias. Mais tarde, quando se é mais velho e se está apaixonado, é a dupla visão de compartilhar que dá à experiência textura, forma e significação. Viajar sozinho é percorrer terras devastadas. Mas quando se ama o bastante, às vezes é possível ver por si mesmo e por mais alguém também. Foi assim também com Selma. Eu via tudo duplamente: a primeira neve, os patinadores deslizando no parque, os belos casacos de pele de meninos alegres e friorentos, a montanha russa em Coney Island, máquinas de chiclete nos subterrâneos, o mágico restaurante automático, as ilhas do rio e o brilho das pontes no crepúsculo, os sons de uma banda subindo no ar azul, o homem que todo dia no pátio cantava as mesmas canções foufentas e dissonantes, o conto de fadas de uma lojinha de dez cents onde se passava depois da escola para furtar coisas.

Trumam Capote/ Os cães ladram

Capote e ex-amigos

Capote se propôs a escrever um novo Em busca do tempo perdido. A sangue frio o tornou um escritor notório e o permitiu fazer um contrato milionário pelo Suplicas atendidas. Ele escreveu os primeiros capítulos dessa que seria a sua obra prima, e os publicou no jornal, para atrair atenção sobre o livro. O problema é que o livro fala das muitas pessoas da alta sociedade com quem ele convive, e elas não gostam de se verem retratadas daquela forma. Quase todos seus amigos deixam de falar com ele. Capote jura que a depressão que teve nessa época foi uma crise criativa, que não teve nada a ver com o fato de ter caído no ostracismo no seu círculo de amizades, mas a verdade é que ele se importou sim.

Confesso, me identifiquei muito com essa atitude dele. Eu o imagino nas festas, bebendo e rindo com todo mundo, e ao mesmo tempo dizendo para si mesmo que não era daquele mundo. Um lado dele se divertia e estava integrado, outro lado observava a todos com um sorriso irônico. Ao contrário dos ricos e famosos que cresceram em meio ao luxo, Capote chegou lá por seu imenso talento. Então ele olhava aquelas pessoas como diferentes dele. Aquele não era o mundo em que ele fora criado, a única realidade que ele conhecia. Ele se via como um escritor talentoso com atitudes futeis, jamais como uma pessoa futil. Elas eram futeis, ele não. Aquilo não era ele, ele seria capaz de viver outra coisa, a qualquer momento. Aquelas pessoas, pelas circunstâncias, compartilhavam apenas uma faceta dele, que nem ao menos era a mais importante.

Eu já me senti assim tantas vezes! Achava que muitas das minhas amizades eram encontros fortuitos, que eu não tinha nada em comum com aquelas pessoas. Como se, de certa forma, eu jamais tivesse encontrado a minha turma. Eu teria publicado com capítulo as expondo, e acreditaria piamente que ficar sem amigos não me afetaria. Mas hoje sei que nunca foi verdade. Por mais que eu me visse melhor do que meus amigos, eles sempre foram na medida exata pra mim.

Através dos meus olhos

Vou falar de uma cena da que, pra mim, é a melhor série de todas as séries já filmadas: Six Feet Under. Pode ler sem medo, nem vou revelar a história.

No início da série, Claire é uma adolescente ainda. A família dela é dona de funerária e ela, ruiva natural, não tem aquela beleza típica. Ela não é a lider de torcida e nem a popular do colégio. Ou seja, ela é como quase todo mundo, quando adolescente: ela se acha a última das últimas, feia, desejeitada, esquisita e todos aqueles pequenos grandes dramas da fase. Seu irmão mais velho, Nate, tem uma namorada, Brenda, que por sua vez tem um irmão com quem ela é muito próxima, Billy. Cada vez que Billy aparece na tela, a platéia feminina suspira. Porque ele é louco (literalmente), sexy, apaixonado, artista, fora dos padrões. Seu olhar é ao mesmo tempo carente e perigoso, ele tem algo de felino e sensível. Na cena que eu adoro, a Claire adolescente-problema-desajeitada está conversando com Billy, cheia de dúvidas e problemas sobre quem ela é e o que fazer da vida. Inesperadamente, ele lhe diz:

– Se você pudesse se ver através dos meus olhos, saberia a mulher linda que é.

Às vezes eu acho que é isso que nos falta, como mulheres. Saber como um homem nos olha. Porque somos muito de cismar com uma parte do corpo, que não é tão carnuda ou é excessivamente carnuda, e achamos que essa parte nos define. Que quando um homem nos olha, nos reduz àquela parte “defeituosa”, exatamente como nós fazemos. E não é assim, não é necessariamente assim.

Estamos em março

… e a Borboleta tomou uma iniciativa muito bacana em colocar textos que falem sobre grandes mulheres no mês da mulher. Ela me convidou e me ofereceu muitos nomes interessantes: Brontë, Curie, George Sand… Mas eu não queria ter que falar de alguém distante, queria falar de uma grande mulher real. Ironicamente, a mulher real que escolhi foi uma personagem literária: Ana Terra. Tinha mais de um mês para escrever o post e o terminei em poucos dias. Ana Terra é daqueles personagens literários que nos marcam, da qual somos capazes de falar como quem cita uma lembrança. Me senti honrada em escrever sobre ela, dei vazão a um desejo antigo. Porque eu acredito que existem muitas Anas Terras por aí e porque… ah, vá lá e leia.

O futuro do pretérito

Ah, vocês sabem o que eu fiz da minha vida. Corri atrás de sonhos sem futuro, mudei mais de profissão do que muitos mudam de corte de cabelo. Me recusei a ser mãe. Me tornei uma pessoa capaz de dar pitacos em um monte de assuntos, que olha o Davi de Michelangelo e acha que ele errou o tamanho das pernas porque esculpir em grandes dimensões é difícil e que fala de Cisne Negro do ponto de vista de quem fez ballet, embora o tenha feito na idade errada. Convivi com adolescentes de uniforme que vêem Crepúsculo na mesma época que jurava que estaria dando aula, como uma mestre. Aproveitei a estabilidade do meu casamento e vivi muitas vidas em uma, eu sei. A mulher ambiciosa, que pensava a longo prazo e queria uma carreira nunca mais deu as caras depois de terminar a (primeira) faculdade. O que teria acontecido se eu tivesse sido normal, se tivesse esperado ao invés de ir mudando cada vez que os ventos me mostravam outros destinos?

Ano passado foi reunião de dez anos de formatura. Fiz questão de fingir que não soube, que não encontrei o grupo no yahoo, que não vi várias pessoas citando meu nome e jurando (!?) que não conseguem me localizar (sério, uma dessas pessoas é praticamente minha vizinha), que esqueci da data e local que uma das organizadoras me passou no ônibus. Não apenas lembrei como me dei ao trabalho de stalkear. Além do momento horror de ver o quanto as pessoas embarangaram, uma coisa leva à outra e acabei descobrindo o que elas fizeram da vida. Algumas pessoas constituiram família, outras viraram funcionárias públicas, umas tantas seguiram a carreira acadêmica. Ninguém foi pra ONU, ninguém ficou famoso, ninguém criou o Facebook. Dez anos se passaram e a vida só deixou todo mundo mais feio. Cadê o futuro brilhante – o meu, o deles? Não fui muito longe, e parece que se tivesse me esforçado em virar uma pessoa séria também não iria. Porque ninguém que eu conheço foi. O mundo igualou a todos; não fez a menor justiça aos gênios e não puniu os medíocres. Tem alguma coisa meio errada por aí…