Algumas recomendações

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Eu já ouvi falar que não se é mais jovem quando a gente olha pra um velho ciente de que vai ficar também. Antes disso, o que existe é um sentimento de juventude eterna e inabalável; lembro que eu dizia que acreditava na ciência, que até eu chegar à idade de decidir se faria reposição hormonal ou não, ela já não seria mais necessária. Talvez por já ter passado – ou alcançado – metade da régua da minha vida, hoje gosto da biografia olhada de trás para frente. Gosto de pensar em legado, no que fizemos com o que tínhamos. Como a Teoria do Fruto do Carvalho (o nome do livro é O código do ser), que diz que nossas experiências atendem a um anseio pré-existente, e não que somos moldados por ela. Ou, de uma maneira bem mais dura, quando Günter Grass, na sua autobiografia, se envergonha de ter sido da SS porque, quando jovem, aquilo representava apenas uma imagem de heroísmo e força; ele fez o que lhe pareceu conveniente sem pensar no peso que sua atitude geraria na consciência dele mesmo mais velho. A série Merlí (Netflix) também me fez pensar nessas questões, mas não avançarei nisso pra não dar spoiler – eu tenho uma teoria a respeito do fim dela, quem ouviu achou interessante. Tem o discurso de George Saunders sobre gentileza, que mandei pra tanta gente por ter me tocado de maneira praticamente religiosa.

O que me fez pensar em tudo isso foram as prateleiras vazias, porque as pessoas correram para comprar comida. Também cresci ouvindo falar que há muito não vivemos uma guerra, que ela molda o caráter. Deve ser verdade. É como a pessoa que, durante uma conversa sobre o efeito estufa, disse que se garantiu porque tem ar condicionado em todos os cômodos da casa. Lamento informar, mas ninguém conseguirá ser uma ilha fresquinha e bem alimentada em meio ao caos.

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Pulsões e as mães

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Não sei se foram em filmes ou desenhos, mas cresci sabendo que a premissa de qualquer Alcoólicos Anônimos – formato que se estende para qualquer grupo de auxilio para sair de vícios – é o reconhecimento. Nada pode ser feito enquanto o sujeito não assume que tem um problema ou que aquilo é um problema pra ele. Eu me peguei citando a psicanálise para uma amiga, teoria que cresci detestando por causa do machismo, mas que me parece a melhor forma de dizer: nem tudo o que consideramos felicidade é felicidade para o outro. Ou: pra ele a felicidade pode ser justamente aquilo que nos parece bárbaro e destrutivo. Freud chamou isso de pulsão de morte. Existe a de morte e a de vida, e achamos que o mais saudável é caminha em direção à vida. Mas nem todos acham. E se a pessoa acha que o bacana é caminhar até a auto-destruição, se essa é a pulsão dela, quase nada pode ser feito. A não ser que ela diga pra si mesma que isso é um problema e ela deve mudar, nos sentimos atrapalhando, como a pessoa que se coloca no caminho do apaixonado e seu objeto de desejo.

(Droga é mais complicado do que isso, entra a questão de dependência química, mas são apenas  reflexões, ok?)

O problema é que nenhum homem é uma ilha, não? De um lado, há o direito de buscar a felicidade na infelicidade, de outro existe o fato de que somos todos parte de um tecido, que nada nos afeta isoladamente. Afeta o emprego, afeta os vizinhos, afeta o cônjuge, afeta os filhos. E mesmo que a pessoa corte todos esses laços, ela é filha de alguém. Sempre que vejo defenderem que alguém merece mesmo morrer porque é bandido ou que só pessoas ruins foram torturadas naquele período histórico recente, penso nas mães que percorrem IMLs, passam por exames íntimos em presídios, exibem fotos dos filhos a estranhos enquanto contam suas histórias. “Eles” podem até ter feito por merecer à medida que danificaram ou professaram crenças erradas (!?), mas as suas mães não.

Eu estava no último ano de faculdade e durante algumas semanas fui muito amiga de um psicanalista argentino. Lembro de ter lhe dito que não sabia muito o que fazer, que como poderia ser psicóloga, que não tinha nada a dizer para as pessoas porque eu mesma não sabia de nada. Ele respondeu que achava que eu seria uma boa psicóloga justamente por isso. Mas eu não me tornei psicóloga.

escada na sombra

Ela se sentou ao meu lado e me disse coisas tão difíceis, que eu não imaginei que ouviria. Eu gostaria de ter podido dizer alguma coisa. Mas acho que ela me procurou porque sabia que eu não diria.

Você sabe e só você não sabe

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Tem uma daquelas pavorosas frases machistas, que diz: “quando chegar em casa, bata na sua mulher. Você não sabe porque está batendo, mas ela sabe porque está apanhando”. Eu tenho para comigo que somos, ao mesmo tempo, o homem e a mulher desta frase, que que somos tanto a parte que sabe quanto aquela que ignora. Estudamos o tempo todo que a consciência é só a pontinha do iceberg, mas realmente não levamos isso à sério. Quem leu a Série Napolitana viu que a Lenu, diante de certas situações, vivia tendo ímpetos de mandar da outra embora, se ferrar, deixá-la em paz, mas logo dizia “claro que eu não fiz isso, não seria adequado, então eu perguntei como ela estava, consolei, etc”. Aí você pensa, que sempre tão auto-controlada, adequada e abnegada, ela era a melhor amiga do mundo, que Lila jamais desconfiaria da agressividade que havia por detrás. E não é assim, vemos Lila se afastar, se esconder, ser superficial, enfim, se proteger de uma agressividade que não é exposta. Ou seja, ela sabe. Talvez seja uma leitura gestual inconsciente, talvez chegue pelos poros, pela energia, o fato é que chega. E o último a ficar sabendo é o consciente. Você não sente vontade de ir, não quer falar, sente taquicardia, seu corpo e seus sentimentos dizendo que não, enquanto a mente diz que não está acontecendo nada, Fulano me adora, vamos ali tomar um café.

25 anos

A grosso modo a não ser que minhas lembranças estejam me confundindo muito ou que a neurologia tenha mudado nos últimos anos – o cérebro funciona num grau de complexidade crescente. É possível localizar zonas primárias, que são mais estritamente ligadas às funções mais físicas, as secundárias e as terciárias. Estas, localizadas nos lobos frontais, são responsáveis pelo raciocínio mais simbólico. O cérebro amadurece gradualmente e a zona terciária só atinge a plenitude das suas funções por volta dos 25 anos de idade. “Por isso que ninguém deveria se casar antes dos vinte e cinco”, brincou o professor Romanelli, e a única colega da classe (estávamos no segundo ano de faculdade) casada se encolheu na cadeira, sob risos. Poucos anos depois ela se separaria.

No tristíssimo documentário sobre a Amy Winehouse, Tony Bennet lamenta que ela tenha ido tão cedo, que se a Amy tivesse tido um pouco mais de tempo, teria visto que a gente aprende a lidar com o viver. Tá, eu sei que ela não morreu antes dos 25 anos, o tal amadurecimento não é acordar na manhã do seu aniversário completamente controlado e sábio. Existem muitas formas de abordar o assunto, podemos explicar por experiência, amadurecimento cerebral, etc. O fato é que a gente realmente vai acostumando. Lembro de um clássico ocultista que li na adolescência, Zanoni, que o sujeito se propunha a fazer uma iniciação e rolou o velho “tá vendo isso aqui? Nunca abra!” e o cara foi lá e abriu e libertou um monstro horrível. O sujeito foge assustado e volta mais pro final do livro e conta que foi fugindo continuamente, fez besteira atrás de besteira e o tal monstro não sumia. Mas ele acostumou. Viver é assim.

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Embrace

Uma das coisas que me afastou da psicologia foi quando percebi que há uma personalização de problemas que são coletivos. Se a mulher vai para o consultório com problemas de auto-estima porque se acha gorda, e quase todas as mulheres do mundo estão se achando gordas, fazendo plásticas e dietas porque se acham gordas, tanto as que fazem parte das estatísticas crescentes de obesidade quanto as que estão abaixo do peso, temos aqui um problema que não é apenas da mulher que vai no consultório. É um problema de todas nós. Ao mesmo tempo, a psicologia existe porque existe um problema que, para a pessoa, pouco importa se é pessoal ou coletivo: é algo que a impede de ter qualidade de vida e ela quer mudar.

Esse é um buraco tão profundo, um caminho tão difícil a ser seguido. Conheço gente que usa PP e acha gordura em si mesma, que diz que gostaria de serrar parte do quadril; também conheço quem quase não consiga comprar roupas e se sinta julgada o tempo todo por causa do peso. E existe sofrimento em ambas. Então eu quero, de coração, indicar este documentário (Netflix) pra ser uma pedrinha em meio a tantas mensagens que nos levam à insatisfação todos os dias. Que ele te emocione e te faça refletir também.

O bom de chopp

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Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

Buraco

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“Ela só estava interessada no meu dinheiro“, e a palavra dinheiro foi dita com tanta dor que eu entendi: o ex-marido, aquele interesseiro, dos homens que buzinavam apenas porque ela estava num carrão, as mulheres que se avaliam através de sobrenomes e roupas. Fiquei com medo de eu mesma falar alguma coisa e soar dinheirista. Foi a primeira vez eu percebi o buraco numa outra pessoa. Só que não são buracos onde caímos, aqueles no chão – eles estão mais  para buracos negros, com o poder de sugar tudo à sua volta. O buraco não apenas atrai situações semelhantes, como também faz com que situações neutras ou que poderiam ser interpretadas de várias formas soem como mais do mesmo. A questão do dinheiro era atraída, batia, doía, confirmava. E nada poderia convencê-la do contrário.

Self

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Soa bastante místico, mas não precisa ser. Para mim é perfeitamente explicável se pensamos que o nosso consciente é uma parte muito pequena, justamente a menor de quem somos. Enquanto o consciente – aquela pequena ponta do iceberg – está preocupado com seus pequenos discursos, o inconsciente está registrando e reagindo a tudo. A cada dia que passa, me convenço mais de que, num primeiro contato, sabemos tudo o que queremos de alguém. As palavras que trocamos tocam apenas um nível muito superficial; antes mesmo das coisas serem ditas, as energias foram trocadas e cada um já sabe o que precisa. Isso explica o porque de às vezes alguém nos dizer tudo certo, recitar a nossa cartilha de gostos e lugares preferidos direitinho, e mesmo assim não acontecer nada. Outros, ao contrário, podem enunciar os gostos e opiniões mais estranhos e mesmo assim dali sai um afeto. E quando olhamos para trás, nos nossos relacionamentos errados, os encaixes neuróticos, as pessoas que amamos e nos feriram – não se pode alegar inocência em nenhum deles. Apenas o consciente comprou as mentiras e as explicações fraudulentas. Em algum lugar, a gente sabia. Sabia que não era amor, que iria nos fazer mal, sabia que ia quebrar a cara. A gente sabia e viveu o que queria viver.

Em busca do céu

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A ansiedade vinha tão forte, de baixo para cima, que parecia um vômito, e ao invés de sair pela garganta se plantava no coração e parecia que a única saída era morrer. Continuar vivendo nos próximos minutos era insuportável, o que dirá uma vida inteira. Porque a não ser que eu tivesse a sorte (!) de sofrer um acidente fatal, pelo menos mais uns quarenta anos mais eu viveria. Qualquer coisa que eu pensasse me parecia angustiante demais. Como ir adiante, como acordar cedo na manhã seguinte, como levantar da cama, como falar com as pessoas, como fazer coisas? Tudo tinha o sabor de cinza, nada era capaz de me dar prazer. Só então eu realmente entendi o que é depressão, crise de pânico, transtornos psiquiátricos. Eu não tomei nenhum remédio, só floral, mas entendo perfeitamente quem toma. Não tomei porque dentro de mim havia a lembrança de quem eu era, e eu sabia que podia voltar a ser aquela pessoa. Mas nem tudo foi coragem o tempo todo. O que me impediu nos momentos de desespero foi saber que tarja preta leva pelo menos uns quinze dias para começar a fazer efeito. “Eu preciso agora, quero parar de sofrer neste minuto, quero uma paulada na cabeça. Daqui há quinze dias já vai ter passado. Lembro especialmente de uma crise que me deu no terminal, voltando da aula de flamenco, tarde da noite. Eu não apenas me sentia sozinha, eu estava sozinha. Naquela hora, mesmo com toda boa vontade, eu não conseguiria um amigo pra me ajudar. “Calma, está tudo bem. Respira”, eu tive que dizer pra mim mesma. Olhei à minha volta, olhei para o céu. “Está tudo calmo. Não importa o que aconteceu antes, não importa o que vai acontecer depois. Você está no terminal, de pé, a noite está agradável”. Naquele período eu percebi que olhava sempre para baixo, ou nem ao menos realmente olhava para o que estava olhando. “Você não tem nenhum problema. Não agora, não neste momento. Você está apenas de pé no terminal. Esquece o resto”. Eu descobri que quando vinham as crises, eu nunca estava onde realmente estava, meus pensamentos estavam em outros lugares. Para estar mais presente, eu passei a me obrigar a olhar para cima. “Olha que vento gostoso, olha como ele balança aquelas folhas”. Simbolicamente é tão simples e eu senti na carne: olhar para baixo e para si, o pequeno, o sem perspectiva; olhar para o horizonte, o longe, amplo e cheio de possibilidades. “Olhe à sua volta. Está tudo bem”. Naquela noite, antes que o ônibus chegasse, eu já havia conseguido me acalmar. Outras crises vieram, em intervalos de tempo cada vez maiores e com cada vez menos força. E como não quero sentir aquilo nunca mais, estou sempre olhando pro céu.

Um conselho sobre uma paixão no divã

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De acordo com ela, o psi se entregou porque numa sessão ela comentou de uma música obscura de uma banda mais obscura ainda, e na sessão seguinte ele citou uma outra música da mesma banda, o que mostrou que ele anotou, pesquisou em casa e também ouviu. Foi a demonstração que faltava para se convencer de que o psi estava interessado nela. O que eu faço, ela me perguntou. Eu tenho uma teoria sobre ser confidente (e, por consequência, conselheira): o bom confidente é aquele que não gosta de ouvir confidências. Nunca pergunto, e depois que sei, nunca me interesso em voltar ao assunto e nem ouvir o final da história. Eu não quero ouvir segredos e os segredos que pulam na minha frente. Mas já que fui colocada nessa posição, tive que perguntar se, caso sim, o que ela sentia por ele. Sua resposta foi um vago “ele é legal, bonitinho, a idade regula”. Meu conselho foi algo que hoje faz com que eu me sinta meio Violet Crawley, mas fez sentido pra ela, que me agradeceu e disse que foi mesmo a melhor escolha. Eu lhe disse: então não vá. Porque um cara legal e bonitinho pra ter um caso você encontra facilmente, já um bom psicólogo…

Associações, Aguinaldo, oremos

As associações que a mente da gente faz. Lembrei de uma história da Pobre Menininha – se você não lia Luluzinha, perdeu o melhor da infância, ok? – em que a Bruxa Má deixou a sua tábua de lavar roupas toda lisa. Aí ela chorou desesperada, porque era lavadeira e não tinha como lavar roupas numa tábua lisa. Enquanto olhava para a parede de coração acelerado e sem conseguir me concentrar em mais nada, me senti o próprio ratinho do desamparo aprendido. Meus amigos começaram a achar que eu estava sofrendo na mão de algum cafa chamado Aguinaldo, porque todo dia tinha tuíte falando que estava atrás dele, esperando por ele, ligando para ele. Sem conseguir nem olhar, pensando em largar tudo, com calafrios só de pensar em costurar de novo, pensei no quão frágil é o ego. E quando me ocorreu este post, me perguntei se talvez não devesse, que seria precipitado, ou em português claro, que colocar por escrito que finalmente meu sofrimento acabou poderia me dar azar.
Assim: minha máquina de costura. Conserta, quebra, conserta quebra. Na primeira vez foi por um motivo, depois foi por outro. Aguinaldo, o técnico, às vezes nem me atendendo, às vezes um santo. Funcionava com o Aguinaldo e quebrava agulha dupla só comigo. Meus dias tomados por isso, telefonemas, vai e volta, suplica, espera. Três semanas. Aguinaldo desconfiado de que eu não sei costurar e fazia alguma barbaridade. Dois dias de plantão e ele veio no terceiro, no final da tarde. Não é barbaridade minha, ele viu que não é. Será que agora foi? Corri pra costurar os atrasados, pés e as mãos tremendo. Oremos.

Viagem de ego

Se me permitem um baita spoiler de um livro que ninguém lerá, tem um trecho do Os resíduos do dia que mostra direitinho uma coisa que eu chamo de “viagem de ego”. É daqueles conceitos que a gente tem de si para si, sabe como? Igual apelidos que damos pra estranhos e eles nunca vão ficar sabendo – “olha lá o Tartaruga Ninja”, “o Chef Gostosão não veio hoje”, etc. O que eu chamo de viagem de ego é quando a gente acha que tomou uma grande decisão, que está sendo disciplinado, controlado e/ou racional, mas na verdade está apenas fazendo uma grandissíssima besteira. Está pisando nos próprios sentimentos e se privando do que lhe seria mais caro. Mas faz, geralmente tendo como base um orgulho, uma crença de que somos melhores assim. É como se fosse um prazer masoquista de se fazer mal. Quem sabe o trecho do livro explique.

 

O livro está melhor apresentado no meu outro blog. Nesta cena que representa a viagem de ego, o mordomo narra como, só pra variar, os acontecimentos dramáticos da vida dele acontecem no meio de acontecimentos profissionalmente importantes. Então ao invés de cuidar das coisas dele, ele fica tendo que se alternar e acaba sempre escolhendo ser um bom profissional. Um exemplo é quando o pai dele morre e o sujeito não apenas não está perto como nem se permite chorar para servir os convidados. Outro momento, Miss Kenton fala para ele que vai se casar. A única mulher que esse homem amou. Ela dá as deixas, diz que estava na dúvida, e ele nada. Aí ela lhe diz que vai casar sim, e ainda o provoca, diz que imitá-lo lhe rende muitas risadas junto ao noivo. Ele nada, de novo. Depois ela pede desculpas, ela se tranca no quarto, ele fica parado no corredor com vontade de bater na porta e a certeza de que ela estava chorando. Aí você pensa que o cara vai lamentar o que não volta jamais, a chance de ficar com a mulher que ama, e o que o filho da mãe escreve? Uma baita viagem de ego.

 

Atravessando o hall de novo, retomei minha posição usual, debaixo do arco, e durante a hora seguinte – ou seja, até os cavalheiros finalmente irem embora – não aconteceu nada que me obrigasse a deixar meu posto. Mesmo assim, aquela hora que passei ali ficou viva em minha mente ao longo dos anos. Primeiro, meu espírito estava – não me importa admitir – um tanto abatido. Mas, permanecendo ali parado, uma coisa curiosa começou a acontecer; isto é, uma profunda sensação de triunfo começou a brotar dentro de mim. Não consigo me lembrar de até que ponto analisei aquele sentimento à época, mas hoje, olhando para trás, não me parece difícil de entender. Eu havia, afinal de contas, encerrado uma noite extremamente exigente, ao longo da qual havia conseguido preservar uma “dignidade condizente com minha posição”, e o fizera, além disso, de um jeito que teria deixado meu pai orgulhoso. E ali, do outro lado do hall, atrás daquelas portas sobre as quais pousava meu olhar, dentro da sala onde eu havia acabado de realizar minhas tarefas, os cavalheiros mais poderosos da Europa estavam conferenciando sobre o destino do nosso continente. Quem haveria de duvidar, naquele momento, que eu de fato chegara tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar? Acho, portanto, que ali parado, ponderando sobre os acontecimentos da noite – os que haviam se desenrolado e os que ainda estavam por acontecer-, eles me pareceram uma espécie de resumo de tudo o que eu havia conquistado até então em minha vida. Não encontro outras explicações para a sensação de triunfo que me elevou aquela noite*.

IDIOTA!!!!

*ISHIGURO, Kazuo. Os resíduos do dia, seguido de “Depois do anoitecer”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.248

O velho Chico e o psiquismo

Atravessando o rio São Francisco num barquinho igual.
Nunca foi por realmente me ver como paulistana que em qualquer conversa sobre curitibanos chatos eu me safo com um “eu sou paulistana”. Não tenho lembranças de infância lá. Minha mãe saiu grávida de Manaus, ficou em Curitiba durante quase toda a gravidez, e depois meus pais foram pra São Paulo e ficaram tempo o suficiente pra nascer meu outro irmão, um ano mais novo. Não foi um desses nascimentos quando a pessoa está de passagem, mas foi quase. Vim morar em Curitiba aos cinco anos, então realmente sempre me vi como curitibana, por mais que tenha ouvido a vida inteira: Você não é daqui, né? Eu me lembrei disso quando estava em Juazeiro, cidade onde um amigo meu nasceu e foi embora com um ano. “Fotografa o rio pra mim!” e eu nem sabia que rio era, não fazia ideia do quanto o rio São Francisco é lindo. 

Ir pra Salvador sempre mexe muito comigo. Passei grande parte da minha vida odiando a cidade com todas as minhas forças, atribuindo à baianidade toda infelicidade que já senti, renegando qualquer traço, influência e parentesco com aquele lugar. Mas eu chego lá e é aquela festa sensorial: o cheiro do mar, a areia fina no chinelo, o acarajé feito nas ruas, a maresia nas paredes, a sonoridade do sotaque, os rostos. Tudo familiar, tudo sempre esteve ali. Pra renegar é preciso conhecer, é preciso ter experimentado. Então, por mais que eu não tenha gostado, também sou eu. Como eu um dia pude pensar o contrário? Salvador faz parte das minhas lembranças e da minha história, está em mim de alguma maneira. Minhas células reconhecem a cidade e vibram diferente quando coloco os pés ali. E eu não seria quem sou sem ter vivido isso.

Lembrei do meu amigo porque comecei a pensar numa psicologia ambiental, quem sabe ecológica. De que é impossível que todos esses cheiros e sons diferentes das cidades não nos influenciem. Que alguém que lembra dos surubins nadando em volta de si enquanto está no colo da mãe, não pode ter dentro de si a mesma coisa de quem esteve no céu cinza de São Paulo ou comeu pinhões na infância. Que não somos só um pouco dos nossos parentes, mas também somos um pouco da nossa cidade, dos seus mares ou rios ou montanhas ou ventos ou chuvas.

TV no sertão

Hoje em dia essas reportagens não são comuns, mas eu já li várias que contavam, com grande alegria, da chegada da televisão em cidades onde as casas não tinham nem luz elétrica. Montava-se uma grande estrutura, vários metros de cabo, e colocavam a TV no meio da praça. As famílias iam todas pra lá, à noite, para assistir novela das oito. Essas reportagens não aparecem mais primeiro porque o sertão não é mais aquele, ainda bem. Segundo porque hoje já temos um tiquinho de noção de antropologia, e as pessoas já não acham mais que você está melhorando a vida das pessoas apenas em importar um item da sua sociedade e plantar no meio da delas. Eu ficava imaginando como seria uma sociedade bem tradicional, patriarcal, com acesso à tão pouca coisa, vendo os personagens das novelas. As casas, as roupas, o modo de falar, as relações – tudo acenaria para um mundo tão perto e tão longe, que eles nunca teriam acesso. Imagino os estragos que essas TVs não fizeram. Nesse sentido, eu até entendo (entender não quer dizer concordar, acatar, justificar, etc) o ódio que alguns grupos islâmicos têm da cultura ocidental. É distante demais, agressivo demais.

Não conheço ninguém que, na verdade, não seja mais do que um conjunto de equilíbrios instáveis. Alguns disfarçam melhor e outros pior. Mas mesmo os que disfarçam bem, os que parecem muito seguros, carregam na mochila um bom número de traumas de infância, incompreensões, pés na bunda, portas que não podem nunca ser abertas. Então, que ousadia e responsabilidade imensa é dizer pra alguém: “pode vir que eu te seguro”. Por isso que pra tudo hoje em dia a gente fala: “olha, acho que você devia procurar terapia”. É uma maneira de dizer: “eu vejo que tem uma coisa muito errada aí, mas não quero nem chegar perto com medo do que pode surgir”. Só gente muito louca faz psicologia, é de sair correndo. O buraco pode não ter fundo, ter mais buracos, pode ser que a pessoa nunca mais volte. Pode não ter monstro nenhum debaixo da cama, mas também pode ser que tenha… Acho que uma das características marcantes dos psicopatas (conheci mais de um, infelizmente) é justamente a coragem de dizer: “Pula!”. E que entusiasmo isso gera no outro, finalmente alguém que se compromete, que ama de verdade, que está disposto a ir até o fundo! Porque o normal é sentir medo, sair de fininho, mandar pro psicólogo. Pouca gente tem culhões pra mexer no buraco dos outros. O problema é que o psicopata fala “pula!” justamente porque nunca teve a intenção de mexer, ele sabe que não vai estar lá quando a pessoa pular de verdade. Ele mandou pular porque soava bem no momento, porque era útil. Quando a pessoa pular e se ver sozinha, ele já estará a quilômetros e o problema não será mais dele.