As pernas

Era um casal tão simpático, mas tão simpático, que eles conseguiram fazer amizade com a minha avó e a minha mãe, as pessoas menos dadas a conhecer estranhos que eu conheço. Foi no curto período que as duas moraram no mesmo prédio. Seu Ricardo e Dona Marlene eram de Pernambuco e só estavam aqui passando frio porque as filhas vieram pro sul. Eram casados há mais de quarenta anos. Na sala de estar deles, de frente para tv, havia duas poltronas idênticas, extremamente confortáveis, daquelas que reclinam, tem apoio para os pés e para a cabeça. As poltronas eram individuais, mas ficavam uma grudada na outra. 

Um dia estavam os quatro – Seu Ricardo, Dona Marlene, minha mãe e minha avó – na casa deles, à mesa, tomando um lanche da tarde. Quando eles começavam a falar não paravam mais. O assunto em algum momento foi parar em vaidade, mudanças, coisas da juventude, algo assim. Dona Marlene falou que durante anos teve complexo por causa das suas pernas, que achava que elas eram feias. Pleno calor nordestino e ela escondia as pernas, só usava calça. Um dia cansou dessa besteira e resolveu mostrar as pernas assim mesmo, porque eram as únicas que ela tinha. Aí Seu Ricardo completou: “E eu me interessei por ela justamente pelas pernas”.

Difícil foi segurar a vontade de colocar a cabeça debaixo da mesa e dar uma conferida.

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Dinheiro

O dinheiro é algo que sentimos que sempre nos falta, mesmo que não nos falte. Se não gastamos imediatamente é porque está destinado à outra coisa, nem que essa coisa seja o medo de uma eventual emergência. Quem ganha mil ou quem ganha quinze mil está sempre cheio de gastos, de compras, de padrões a manter. Eu era pouco mais do que uma criança quando começou o período negro da vida financeira da minha mãe e de certa forma eu tinha raiva em perceber todos tão ricos na família e nós não. Seria tão fácil para alguns parentes simplesmente pagar a nossa dívida de uma vez. Algo que nos torturava tanto podia ser resolvido rapidamente por eles ou por alguns deles, eu tenho certeza que eles teriam meios. Mas eles se viam como sem dinheiro, apesar de ganharem três vezes ou até dez vezes mais. Sem dinheiro éramos nós, que nunca comíamos fora, nunca viajávamos, nunca comprávamos roupa. O dinheiro poderia vir, eu pensava, se houvesse vontade.

O que eu não sabia era a maneira como as regras que regulam as relações monetárias protegem tanto o dinheiro que é como se ele não pudesse ser distribuído. O que poderia nos acontecer seria ganhar na loteria, achar dinheiro no chão, ganhar um BBB ou outras formas impessoais de se ver subitamente na frente de uma grande soma. Ninguém poderia fazer isso por nós, nem se quisesse – isso nos humilharia de uma maneira grande demais. Não dá para encarar quem te ajuda assim. Para ajudar um amigo é possível dar caronas, comprar um produto que ele venda, fazer umas comprinhas quando vai visitá-lo. E só. Embora todas essas coisas ajudem, há momentos que a pessoa precisa de dinheiro de verdade, sem paliativos. Eu ainda estava vivendo essa época difícil quando apareceu no atelier um dos professores/artistas que sempre ficavam por lá. Ele era um funcionário, pouco mais do que um peão. O atelier que eu frequentava ficava aberto em horário comercial, de terça a sexta. Então, os alunos eram aposentados, donas de casa sustentadas pelo marido ou pessoas com boas fontes de renda. Os que tinham outros perfis não conseguiam ficar muito tempo, acabavam saindo pra trabalhar. Eu era recém-formada e claramente uma exceção – enquanto tinha quem chegasse de Volvo, eu pegava ônibus e só almoçava um sanduíche de atum. O artista estava desesperado, organizando uma vaquinha pra arrecadar dinheiro para procurar pelo filho adolescente que estava sumido há dias, provavelmente pra consumir crack. Todos se mobilizaram. Ele colocava o nome de cada um numa lista e anotava o valor da contribuição pra pagar depois. Eu não pude ajudar porque sempre estava com o dinheiro justo.

Eu fiquei com muita pena dele e pedi dinheiro pra minha mãe. Ela disse que não dava pra emprestar dinheiro, porque ele obviamente não poderia pagar. Então ela me deu uma nota (cujo valor eu não lembro, não era muito) e que esse dinheiro era para dar, sem esperar retribuição. O artista reapareceu no atelier na semana seguinte, devolveu o dinheiro a todos e disse que foi alarme falso, que o filho tinha apenas passado o fim de semana na casa de um amigo. Pelo cheiro do menino e o olhar perdido, percebi que a história não era verdadeira. Eu chamei o artista num canto e lhe estendi a nota, dizendo que queria lhe dar aquele dinheiro, era um presente. Vi como ele hesitou e olhou para a minha mão com o olhar faminto. Eu insisti, argumentei, e ele fez um esforço grande e negou. Eu quis tanto que ele ficasse com aquele dinheiro! Eu sabia como era, que uma nota daquelas podia ajudar tantas despesas pequenas insuperáveis, enormes. Eu sabia que os tais trocados podem fazer muita falta. Às vezes na faculdade alguém me pedia um xerox, ou esquecia de me devolver umas moedas, e aquilo doía porque era pouco para cobrar mas a mim fazia falta. Ainda hoje conheço os sintomas, e é tão ruim não poder estender uma nota a uma pessoa querida sem que isso a humilhe. Maldita convenção, maldita a relação que temos com o dinheiro. Eu lembro do olhar daquele artista, daquele pai. Éramos conhecidos, posso dizer que éramos amigos, e ele não aceitou o dinheiro apenas para não perder valor diante dos meus olhos.

Música sem palavras

Não sou tão culta e tão boa ouvinte de música clássica como eu gostaria. Gostava muito na adolescência, frequentei o meio de música na época da faculdade e quando me afastei não soube manter essa chama sozinha. Nesse sentido, vejo que teria sido muito beneficiada se tivesse tido um amigo que também gostasse, que ouvisse comigo ou me ensinasse. Só que o destino sempre me colocou ao lado de pessoas que não gostam ou que são tão ignorantes como eu. Minha ignorância e minha admiração me fizeram ter durante muitos anos a seguinte teoria: assim como a leitura, gostar de música clássica era apenas uma questão de ser apresentado à obra certa. Tive a chance de fazer essa experiência com um livro. Meu irmão mais velho dizia que detestava ler. Ele assistia muitos filmes de terror e tinha um poster do Freddy Kruguer no quarto. Disse que sabia de um livro que o interessaria e ele duvidou. Eu lhe presenteei com O Exorcista e o livro foi devorado em apenas um dia.

Hoje não acredito mais nisso com relação à música clássica. A nossa sensibilidade tem se alterado e é difícil pedir para alguém que foi criado com músicas de no máximo três minutos ouvir algo de meia hora. A música clássica exige mais do seu ouvinte, ele precisa estar mais presente. Enquanto o último sucesso do Latino nos invade, se impõe e quase nos estupra, pra ouvir uma sinfonia você precisa ir atrás da música, é preciso se concentrar nela. Hoje passo tanto tempo sem ouvir um clássico que me pergunto se eu mesma ainda tenho essa capacidade. Meu gosto parou no tempo e ainda gosto dos mesmos Lizst e Chopin que ouvia na adolescência (e com os mesmos CDs). Brahms tem me conquistado aos poucos, e conta com o Milton como grande aliado. O que me faz buscar a música clássica é tão básico que me pergunto como todos não se sentem assim em algum momento: eu gosto da música clássica porque ela não tem palavras. Há dias que não quero cantar a alegria do dia ensolarado, ou o encontro com o meu amor, ou qualquer coisa que possa ser definida em palavras. As palavras me saturam de tal maneira que não quero ninguém pronunciando nada. Cantarolar a melodia não resolve, porque as palavras ainda estão lá, subentendidas. Quero sentir coisas que de tão sutis não podem ser definidas. Não quero que essas coisas fiquem sujas com essas criaturas grosseiras que reduzem uma imensa gama de vôos, apertos e cosquinhas a conceitos acabados. Que ninguém fale, ninguém estrague, nem mesmo eu. Nesses momentos, só os clássicos me confortam.

Clichê

O mundo inteiro deve saber como é uma high school americana, de tanto os mesmos personagens aparecerem nos filmes: a loira gostosa e suas amigas gostosas, geralmente chefes de torcida, rainhas do baile, que são as mais populares e antipáticas da escola; seus respectivos namorados, riquinhos, violentos, bonitos, jogadores de futebol americanos; os losers, comumente seduzidos e humilhados por alguém do grupo anterior. Existem os clichês dos filmes policiais, com o policial branco e o negro e a máfia estrangeira; tem o clichê do homem e a mulher que se detestam e são radicalmente diferentes, mas quando o destino os obriga ao convívio descobrem um no outro o amor da sua vida, e por aí vai. E mesmo tendo clichês continuamos assistindo esses filmes, porque é muito difícil sair do clichê. Talvez porque a vida também seja cheia de clichês.

Não sei se foi a sociologia ou a idade que me deixaram assim, mas tenho visto o mundo em forma de clichês. Dito de outra forma, eu despersonalizo as coisas que me acontecem. Ao invés de achar que quem está me prejudicando é a Mariazinha, de vinte e poucos anos e usa camiseta rosa e mora no Batel, eu a vejo como parte de uma situação, como uma personagem. Assim como ela é representada pela Mariazinha, poderia ser outra pessoa. Os lugares têm a sua dinâmica e de certa forma isso é previsível. Em todo trabalho existe o piadista, existe a cobra, existe algum tipo de líder, tem aquele que está atulizado nas fofocas… De certa forma, a gente sempre está atuando em alguns desses papéis. Igual aquela piada que diz: Todo mundo conhece uma piranha, se você não conhece nenhuma é porque a piranha é você.

A consequência disso é que me pego sentindo menos raiva das pessoas, porque não estou levando à sério. Olho para a Mariazinha e sei que, talvez, numa outra circunstância, as coisas entre nós poderiam ser diferentes. Quem sabe se tivéssemos sido apresentadas numa festa, como seria? Onde e como conhecemos alguém faz muita diferença. Pode ser que tenhamos entrado na vida de alguém justo da pior forma, com nossa pior face. Não tenho ilusões: a Mariazinha no papel de vilã é apenas mais uma vilã, de todas as vilãs que aparecerão em toda minha vida – porque sempre há uma vilã. Aprender a lidar com ela me ajudará com todas as vilãs futuras.

Tudo sempre igual

Todo ano é a mesma coisa – a data do espetáculo vai se aproximando e a relação entre os bailarinos começa a azedar. A primeira escola onde eu dançava, dirigida por pessoas bacanas, não tinha espetáculo de fim de ano, pelo menos não enquanto eu estive lá. Era assim justamente porque eles sabiam o stress que isso gera e faziam questão de manter sempre um clima bom. Na outra, as coisas foram de mal à pior no segundo semestre, mas como o diretor artístico era uma pessoa ruim, eu atribuí grande parte do que estava acontecendo a ele. Hoje vejo que ele era sim uma pessoa ruim, mas de certa forma a sua maneira firme de dizer o que queria poupava algumas especulações. Depois fui para outros lugares e vi que a tensão também é proporcional ao lugar que você ocupa: quase nada quando se é principiante, de maneira muito intensa se você está próximo ao olho do furacão.

Eu tenho tão poucos anos de dança e já vejo isso, e me sinto cansada disso. Eu não sei como as pessoas se suportam. Não sei como todos os anos se deixam enlouquecer pelas expectativas. Como observam atentamente as outras tentando adivinhar futuros destaques ou favoritismos. Desgostar de uma pessoa que até ontem você não tinha nada contra porque ela pegou a coreografia mais rápido, e achar que isso quer dizer que ela é melhor e chamou atenção e pode ser que no futuro ganhe um lugar melhor no palco ou… Ao mesmo tempo, não posso dizer que não faço nada disso, que sou indiferente. Claro que prefiro dançar três coreografias e não apenas uma, que prefiro um lugar melhor no palco. Só que conseguir mais destaque é também atrair mais competição e mais raiva. Pra isso eu teria (ou terei) de estar ao lado de pessoas que fazem questão de mostrar, com grandes e pequenos gestos, que não me querem por perto. E pensar que ninguém está ganhando nada com isso, nem fama, nem dinheiro, nem prestígio, nada! São apenas alguns minutos num palco. Eu não quero competir e de repente me vejo na arena. Não quero me importar e se me distraio estou me importando. Mas pelo menos eu me vejo tentando não aumentar as coisas, tento não agir assim. E acho que todos seriam mais felizes se olhassem a burrice desse padrão e tentassem não repetí-lo espetáculo após espetáculo.

Música

O nome do post era pra ser “música flamenca”, mas achei que vocês se desinteressariam na hora e nem se dariam ao trabalho de abrir o link. Porque é fácil gostar de flamenco, mas gostar de música flamenca é outra história. Tem violões (guitarra flamenca) muito bonitos, o som do cajón também é envolvente, mas aquelas palmas todas acabam enchendo e o cante… é uma gemeção e limpação de garganta que fica difícil. O flamenco não é apenas uma dança, é toda uma cultura. A dança nasceu junto com o canto, com o pessoal em volta da mesa – um bate palmas, outro canta, o que tem violão toca, alguém levanta pra dançar, e às vezes os papéis se invertem. Então quem dança tem também a obrigação de treinar o ouvido, saber a diferença entre os vários ritmos e estilos (os palos), bater palmas e desenvolver toda a sensibilidade e espírito flamenco.

 

Foi imbuída em todos esses propósitos que minha amiga Viviane decidiu colocar numa rádio flamenca enquanto estava trabalhando. Ela havia feito nas noites anteriores um curso, onde um dos maiores guitarristas flamencos do país passou um pouco do seu conhecimento e estimulou os alunos a se aprofundarem nessa cultura riquíssima. Ela colocou na rádio, num volume possível no ambiente de trabalho, e quando podia se propunha a identificar os ritmos, entender as palmas. Lá pelas tantas, um relatório que ela tinha que escrever parecia cada vez mais difícil. Aquela irritação foi crescendo, uma falta de concentração… até que ela perceber: “Ah, é essa maldita música que está me atrapalhando!” Ela desligou a rádio e finalmente conseguiu trabalhar em paz.

 

Eu também já fiz a minha tentativa. Uma vez coloquei um CD flamenco – tenho vários – e deixei lá enquanto realizava minhas tarefas domésticas. Aquela palma e gemidos estavam me irritando, mas decidi ser forte e deixar, quem sabe o ouvido acostumava. Deixei o volume meio baixo para não me atrapalhar tanto. No final da tarde o Luiz chegou e depois de me cumprimentar parou na sala e me fez ficar em silêncio. “Tá ouvindo?” “Ouvindo o quê?” “Os vizinhos, eles estão brigando de novo”. Era a música flamenca.

Por hora vou ficar só com a Choncha Buika mesmo.

Alergia

É engraçado como saber que estamos certos é tão importante, mesmo que não resolva nada. Eu andava meio desesperada, porque fui colecionando ao longo dos últimos dois ou três anos uma longa lista de coisas que estariam me dando alergia. Desde a adolescência eu sei que sou alérgica a sabão, mesmo os neutros ou de côco. Estou acostumada a ter um estoque de luvas em casa. Nunca tive o hábito de usar cremes e quando tentei fazê-lo, descobri que era alérgica também. Uma vez ganhei um Victoria Secret e usei apenas umas gotinhas no lábio, porque estava ressecados. Minha boca inchou de tal maneira que quando fui ao médico ele nem precisou levantar da cadeira para perceber que eles estavam com bolhas e enormes. Os cremes neutros apenas demoram mais para causar alguma coisa, mas não consigo usar durante muitos dias seguidos. Foi só começar a usar perfumes todos os dias para aparecerem coceiras incuráveis. Mencionei que mesmo os desodorantes suaves estavam me provocando coceiras terríveis? É como se eu fosse alérgica a qualquer coisa pastosa, porque mesmo o que na embalagem se dizia hipoalergênico me fazia coçar. Com tudo isso, intuía que se fosse tentar fazer tatuagem não daria certo. Mas o mais triste de tudo foi me descobrir alérgica a chocolate. E quanto mais puro pior.

Depois de colecionar coceiras e me achar a pessoa com mais micoses no mundo, finalmente fiz um teste alérgico. Pra se submeter a ele tem que estar bem motivado: dura uma semana e nesse período a pessoa não pode lavar as costas. Ou seja, nada de banho completo. Tem que aplicar umas bolinhas num dia, tirar as bolinhas dois dias depois e só depois de mais dois dias sai o resultado. Nesse meio tempo, as substâncias alérgicas começam a fazer efeito e as costas pinicam. Nem preciso dizer que também não é pra cutucar. A compensação é saber de uma vez o que é o que; tudo se ilumina, tudo passa a fazer sentido. Não é que eu seja alérgica a tudo, e sim a quatro substâncias que estão em coisas que a gente não adivinha. Quase todas as coisas que eu mencionei são por causa do Bálsamo do Peru. E tem irritações que eu nunca pensei que fossem alergia: casca de frutas cítricas, cola de esparadrapo, vernizes, objetos cromados. E, como eu havia adivinhado, tatuagem nem pensar.

A solução para as alergias é evitar, coisa que eu já havia fazendo. Nunca poderei ser uma pessoa perfumada e nem sensualizar em cima do tecido verde da mesa de bilhar (juro que tem isso na lista)… Meu alívio é saber que não sou louca e o que devo evitar. Recomendo.

Concha Buika

As músicas que ouvimos nos aquecimentos da aula de flamenco sempre são misturadas, todas em espanhol. Elas não seguem ordem, tema ou intérprete, misturam coisas atuais com estritamente flamencas. Por isso, todos se acostumaram a ouvir e achar que não dá pra encontrar as músicas. Numa aula estava tocando uma música bonita, com uma letra difícil de entender e cheia de palmas, e disseram – Eu quero essa música. Cheguei em casa cismada em achar, e procurei pelo que parecia ser o refrão: Culpa Mía. Achei a música, e com ela achei Buika e sua voz fantástica. Eu fico arrepiada de ouvir, faz cosquinha no coração. Achei tão grandiosamente linda que não pude deixar de compartilhar a descoberta, talvez vocês se apaixonem por ela também.

Matemática

Hoje a ciência reconhece que existem uns dez tipos de inteligência. A pessoa que vai bem nos esportes tem um tipo de inteligência, a que sabe compreender o sentimento dos outros tem a sua inteligência e acho até que quem sabe misturar temperos e fazer comida gostosa tem outro. Antes não era assim, ou você era inteligente ou você era burro. E ser considerado inteligente ou burro tinha tudo a ver com o desempenho na escola, especialmente com a matemática. Eu era a CDF que passava de ano no terceiro bimestre – menos em matemática. No início era só uma defasagem, nada que comprometesse minhas notas. Como a mente é um troço esquisito, eu gostava muito de logaritmos e trigonometria, coisas que poucos gostam. Quando comecei a ter Física a coisa ficou triste e descobri o que é fazer provas inteiras no chute, sem entender nada de nada. Sou incapaz de calcular qualquer coisa diferente de um carro numa reta em velocidade constante.

 

É difícil a vida de quem não tem mente matemática. Fiz um esforço supremo pra passar no vestibular pra nunca mais precisar dela, e consegui. Desde então, minha capacidade de calcular tem diminuído dia a dia. Depois que descobri que o Google faz cálculos, me acomodei ainda mais. Me manda duas dezenas pra somar e lá estou eu digitando elas no Google. Quando vou pagar o ônibus e não estou com o dinheiro certo, preciso calcular de antemão – antemão mesmo, porque preciso olhar e tocar nos meus dedos pra calcular. Na época do vale transporte eu me atrapalhava toda. Eu ia com o troco todo calculado, aí o cobrador falava – “Posso te pagar com um vale transporte?” e lá se ia todo trabalho pro lixo. Eu fazia cara de má quando ele contava as notas, pra fingir que estava conferindo o troco. Só dentro do ônibus que eu conseguia concluir os cálculos e saber se fui roubada ou não, mas aí já era tarde demais.

 

Uma vez uma amiga contou uma história. Problemas que nós, ruins em matemática, temos. Ela estava numa pastelaria, com uma amiga. Cada uma comeu um pastel. Digamos que o pastel custava 2,50. A amiga teve que ir embora mais cedo e não tinha troco, então deu 5 reais pra ela. Minha amiga comeu o pastel e separou o dinheiro. Ela chegou para a moça no caixa de mostrou:
– Esse daqui (mão esquerda segurando 2,50) é pelo pastel que eu comi e esse daqui (mão direita segurando 5 reais) é pelo pastel que a minha amiga comeu e tem troco.
A caixa olhou para ela um instante e lhe devolveu os 2,50, dizendo que dava na mesma. Só então ela percebeu o que fez. O problema é que a caixa disse isso com um desdém tão grande que minha amiga nunca mais teve coragem de comer pastel lá.

Eu teria feito tudo igualzinho.

A numerologia da data

A Biblioteca Pública tem um sistema de alarme nos livros que precisa ser desativado assim que a gente sai. Então depois de emprestar os livros a pessoa vai até um segurança sentado com um computador, que passa os livros pela leitora de códigos de barra e depois esfrega os livros num negócio que desativa o alarme. Quando entreguei o Apanhador no Campo de Centeio, a segurança viu que a data de entrega dele era dia 11 de setembro. 

– Onze de setembro, uma data importante…

Eu nem queria falar sobre o atentado e disse que ele me ajudava a lembrar da data de aniversário de duas pessoas. Uma quem com não tenho mais contato e o Farinatti. Sou péssima pra datas, mas lembro dessas só por causa disso. Mas ela queria continuar o assunto:
– … dia dos atentados às Torres Gêmeas. Você sabe que a escolha da data foi importante, não foi uma data qualquer.

Aí eu me interessei:
– Não? E como é que escolheram?

– Minha filha viu um documentário e disse que tem a ver com as crenças deles. Porque Deus é dez, então eles atacaram as torres no onze, pra mostrar que ninguém é maior do que Deus, nem as Torres Gêmeas.

A proposta

O que dizem do primeiro filho, dele ser um desbravador, pode ser dito também do João, como o primeiro namorado. Ela era a caçula, a xodó de uma família ultra-católica. Era a filhinha que pegou o período de prosperidade de uma família que um dia foi muito pobre. Além dessa sorte, ela havia sido premiada com os melhores genes e era a mais bonita, ruiva natural, em nada parecida com seus dois irmãos mais velhos. Quando ela apareceu com o João, quase dez anos mais velho, meio “moreno” e sem curso superior, foi uma comoção. Eles o acusaram de interesseiro, e que ela só poderia estar fazendo aquilo para afrontar a família. Por causa dele, ela não ganhou o prometido carro por ter entrado na faculdade, tudo para que ele percebesse que não conseguiria arrancar um tostão da namorada rica.

Os dois se conheceram dançando, e como geralmente acontece na dança de salão, a química na pista acabou se estendendo para outras coisas. O João está sempre sorrindo nas minhas lembranças. Os dois formavam daqueles casais que estão sempre brincando um com o outro. Antes de conhecê-la ele nunca havia namorado sério, nunca havia se preocupado com o futuro. Criado num orfanato, sempre achou que trabalhar em loja de produtos eletrônicos e dividir apartamento com amigos era tudo o que se podia ambicionar. A família dela pensava diferente e os enchia o quanto podia. Ele teve paciência com os horários restritos, com os olhares tortos e as muitas exigências. Ela enfrentou a família e aguentou mais de quatro anos de reclamações, mas com o tempo acabou repassando para ele as queixas – que estudasse, que se formasse, que arranjasse um emprego melhor. Ele se dispôs a tudo isso, talvez um pouco tarde demais. Ele fez tudo o que ela pediu e não adiantou – o que me fez dizer que ela estava agindo igual aquela música do Premê. Nos últimos tempos eles viviam terminando. Assim como antes eles tinham longas despedidas ao telefone (“desliga você, amor” “ah, desliga você!”), eles passaram a fazer longas despedidas e conversas de adeus. Estava difícil romper o laço.

Eles se tornaram amigos. Ele arranjou um emprego melhor, se formou numa dessas faculdades novas e arrumou uma namorada. Ela também se formou e namorou várias vezes – com caras ainda mais velhos, ainda mais morenos e com ainda menos instrução. E nenhum com a paciência do João pra aguentar uma família tão conservadora e cheia de achaques. A cada namoro ela parecia se superar, e a vida sentimental dela se tornou um problema tão grande que a própria família se arrependeu – deveriam ter deixado ela ficar com o João, ah se eles soubessem! Como amiga, o que sei que com nenhum outro ela sorria tanto. Ele foi sempre a referência dela, e perto do que viveram nenhum outro fazia com que ela se sentisse tão amada. Às vezes ela sonhava que os dois ainda namoravam ou que dormiam juntos.

Um dia o João quis marcar uma conversa com ela, logo após ela ter terminado um namoro. Ele disse que sabia que ela estava sozinha e disse que estava sozinho também. Ele lhe pediu para voltar, pediu para que se casasse com ele. Ela não respondeu na hora, mas voltou para casa muito tentada. Depois, não sei como, descobriu que na verdade o João ainda estava namorando. Ele não negou: ainda estava namorando, mas não amava a namorada como sempre a amou. Se ela dissesse que sim, ele terminaria o namoro na hora; se dissesse que não, tudo ficaria como está. Ela ficou muito indignada, achou o que ele fez reprovável, desonesto, mentiroso. Eu disse a ela que não achava o que ele fez tão ruim, que homens são assim mesmo… Ela não me deu ouvidos e não voltou para ele só por causa da situação. Para o seu senso de honestidade e justiça, a atitude dele foi imperdoável.

Hoje cada qual está casado, com outros.

Pedido

A situação era muito simples: formou-se um grupo de amigos que se reuniam. Grupos de amigos são coisas estranhas. Às vezes você está no meio de gente que gosta muito e aquilo não vira uma amizade de grupo. Outras vezes você simpatiza com algumas pessoas e tem sérias restrições com relação às outras, mas quando vê todo mundo entra no mesmo grupo de amigos. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Só que uma dessas pessoas levou a restrição que ela tinha às outras pessoas mais à sério, e resolveu sair do grupo. Surgiu uma outra reuniãozinha e ela disse “Não vou nessa, não vou mais, não adianta insistir”. Eu a conhecia bem, até mesmo compartilhava e concordava com as suas restrições, então respeitei. Mas tem sempre aqueles – acho que os grupos se mantém à custa disso – que acreditam profundamente no grupo, no amor do grupo e querem fazer de tudo para manter o grupo unido. Mesmo sendo a outra teimosa e irredutível, a pessoa decidiu insistir para que ela mudasse de idéia. Foi lá, pediu por favoooor, usou de toda sua influência, argumentos e chantagem emocional. Ela continuou não indo, e nunca mais foi, e a pessoa que pediu ficou com raiva. 

De certa forma, pedir as coisas assim é uma humilhação. É colocar o outro como muito importante, como quem deve algo para você. Se ele se nega, está dizendo que você não é tão importante assim. Mas, ao mesmo tempo, se ele cede, era sinal de que não estava realmente convicto. Cedeu só porque pediram, só porque pressionaram. Isso também cria um precedente perigoso – não é uma pessoa que vai espontaneamente, de bom grado, e sim uma que precisa de uma deferência toda especial. Nas duas situações dá uma certa raiva. Quando eu lembro desse caso, tento me controlar e aceitar o primeiro não. Porque era isso que deveria ter acontecido, a outra ter dito não e terem deixado pra lá, respeitado o direito. Tento pedir ou convidar apenas enquanto aquilo não me custa. Sei que se eu tiver que fazer esforço, se eu tiver que insistir, as chances de eu sentir que me humilhei são grandes – aí já estragou tudo, seja qual for a resposta. É uma medida difícil de achar.

Reflexões sobre o fim do mundo

Não sei quanto a vocês, mas eu recebo e-mails sobre o fim do mundo, o que está previsto para dezembro deste ano. Como sou um espírito fraco e impressionável, me pego pensando sobre o assunto: então quer dizer que a apresentação do fim do ano é a última da minha vida, que nunca chegarei à turma do avançado no flamenco? Então eu nunca mais publicarei outro livro? E o sofá novo, compro ou não compro? Por outro lado, a idéia do mundo acabar logo me dá algumas idéias consoladoras: nunca envelhecerei, nunca terei que lidar com a dor de ver as minhas carnes caindo e a beleza ir embora. Não terei um longo passado para olhar para trás e ver que não fui nada de importante na vida. Ter feito de tudo um pouco, sem me preocupar com meu futuro e minha carreira será a melhor coisa pra uma vida tão curta. E o melhor de tudo: não terei de lidar com a morte dos que eu amo, porque todos morreremos juntos.

Só que essas mensagens fazem questão de ressaltar que não será um fim do mundo imediato, como uma grande explosão. Será apenas uma mudança, o fim de uma era. Ao invés da explosão, teremos erupções solares e alinhamento dos pólos, que destruirão a nossa tecnologia e nos deixarão na mais completa escuridão durante 72 horas. Aí eu sou obrigada a concordar com eles e dizer que isso realmente promoveria uma mudança: deixaríamos de ser civilização e voltaríamos para idade da pedra. Eu prefiro morrer a viver essas coisas. Sem alguém que plante, que colha, que venda e revenda e deixe a comida no supermercado pra eu comprar com meu cartão de crédito, não tenho como sobreviver. Preciso de água saindo da torneira e de fogão com gás. Por mais antiecológico que seja, meu modo de vida está inteiramente ligado à tecnologia e à divisão de trabalho, sem eles eu sou inútil. Somos, então, aconselhados a armazenar enlatados, velas e fósforos, o suficiente pra sobreviver sozinhos. Tenho que ter isso para quanto tempo, uns trinta anos?

Se as circunstâncias forem essas, acho que não adianta estocar coisas em casa e querer viver com o resta da nossa civilização. As pessoas terão de assumir o fim e começar um novo modo de vida. Os vizinhos precisarão se unir, dividir o que têm, cultivar as terras e levar a vida como é possível. Uma vida comunitária, muito mais ecológica. Surgiria algo novo; a nossa cultura e progresso se tornariam apenas uma lenda ou algo a ser reconquistado num futuro muito distante. Seria uma vida dura, muito parecida com o nosso passado ou como dos povos que consideramos inferiores. Só que há um novo empecilho: de acordo com as teorias apocalípticas, nem todos precisarão passar por essas provações. Os melhores dentre nós, cerca de 15% da humanidade, serão retirados da Terra. Arrebatados na visão dos crentes, salvos pelos ETs na visão dos místicos. Justo no momento que a humanidade mais precisará de líderes e pessoas honestas elas vão embora? Aí fica difícil.

Tem quem esteja muito seguro e até feliz com a idéia do fim do mundo porque tem certeza que faz parte dessa elite. Eu nunca matei, nunca roubei, já cedi muito lugar pra velhinha no ônibus (algumas vezes porque elas me expulsaram), mas não tenho essa confiança. Se fosse um concurso com os 15% piores, eu me sentiria segura, mas entre os 15% melhores eu não acho que esteja. Sou uma pessoa que procura levar a vida corretamente, mas tem quem faça muito mais do que isso. Tem muita gente boa aí, que dá comida pros mendigos de madrugada, que se dedica aos outros. A mim só resta torcer para essas teorias estarem todas erradas, ou pelo menos esperarem que eu já não esteja aqui para ver.

Concorrência

Havia uma série no início dos anos 80, uma comédia, que tinha um policial loiro muito bronco. Não sei o nome*. A arma dele tinha um cano comprido e era uma 44. Eu era muito pequena e não entendia a maior parte das piadas. Lembro de um episódio que ele foi investigar o caso de assassinatos de sósias de Elvis Presley. No fim, ele descobre que quem estava matando os sósias era um sósia japonês. Eles iriam participar de um campeonato de sósias e o japonês quis matar os que teriam mais chances do que ele…

Eu acabo lembrando e citando esse episódio muitas vezes. Qualquer projeto de eliminação de concorrência é, essencialmente, isso.

* A Tina lembrava. O nome é Sledgehammer.

Climão

Eu parei de dançar lá porque achava o clima pesado demais. Pra começar pelos temas, quase sempre as coreografias falavam de sofrimento. Era gente apanhando, crianças tristes, almas escuras, consciências atormentadas, pessoas chorando ou vomitando. Como se não bastasse o clima ruim das coreografias, tinha o clima ruim pela competição interna – tão normal no meio – amplamente estimulada pelos professores. O clima de incerteza e de injustiça era geral. Todo mundo sabia que os méritos de frequencia nas aulas, técnica de dança e conhecimento da coreografia não eram nada diante de idiossincrasias como cor dos olhos, costelas aparecendo ou simples simpatias por parte dos coreógrafos. Poucos se sentiam seguros.

Estar entre os preferidos estava fora de cogitação pra mim. Eu estava mais pro grupo que podia perder sua posição a qualquer momento. Depois da aula, começamos a nos reunir. Eu e outras, da minha e de outra turma, mas todas vivendo aquilo. Eu reclamei, elas reclamaram, todo mundo falou o que percebia e eu me senti tão bem por ser compreendida. Então não era louca por ter certas opiniões, por me sentir injustiçada e não gostar de determinadas pessoas. Passamos a nos reunir, todos os dias depois da aula, para falar, imitar, colocar apelidos, supor, trocar informações. Não sei dizer em que momento o que era um alívio passou a ser algo ruim. Viramos um centro de fofocas, éramos mais uma panelinha. Eu me dei conta de que havia me transformado em mais uma que ajudava a tornar o clima daquele lugar pior. Mais uma pra não deixar nada barato; qualquer coisa que acontecesse diante de mim poderia se tornar um problema. Eu me ofendia, julgava e hostilizava. Ao invés de alívio, falar estava ajudando as coisas a se tornarem grandes e cada vez mais sufocantes. No fim, passei a chegar tarde e inventar compromissos pra sair cedo. Eu não me aguentava mais.

Ainda hoje eu ajudo a criar monstros e depois quero abandoná-los. Cada vez mais cedo (espero).