Três ofensas involuntárias

A primeira é bem antiga. Eu fazia piano numa escola e às vezes ficava lá de secretária. A dona da escola era jovem, fazia Belas Artes e os professores também eram todos jovens. Havia um professor de sax que eu achava gatinho. Claro que eu era muito tímida para arriscar qualquer coisa, ele nem devia saber que eu existia. Um dia eu estava na escola, na hora do almoço e ele apareceu na porta:

– Oi.
– Oi.
– Fulana (dona da escola) está aí?
– Não.
– Fulano? Beltrano?
– Não.
– Então não tem ninguém aí?

É, para ele eu realmente não existia.

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Minha vizinha é psicóloga, então estou acostumada a ter um monte de jovens e crianças aí do lado. Quando saiu um adolescente de um carro aqui na frente, achei que era mais um, e quando ele bateu palmas pra minha casa, achei que fosse engano. Acho que é filho do marido dela.

– Oi, você recebeu alguma carta da gente?
– Um monte, tenho sempre que…

– É que a gente está esperando uma carta e ela não vem. Não sabemos onde foi parar.
– Eu sempre coloco na caixa de correio de vocês. Aproveita e avisa pra informar o endereço completo nos lugares, especialmente no CRP, porque as cartas vem parar todas aqui.

Humpf.

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Eu, de carona no carro. Ela, uma advogada muito rica. Vejam bem, eu estava de carona. Sinal de que eu mais tarde voltaria, e não seria dentro de um carro.
– Minhas filhas no começo até me cobravam, queriam andar de ônibus. Hoje elas cresceram e pararam. Eu digo que não, eu proíbo. Primeiro porque é muito perigoso e depois porque elas não precisam. É um risco que eu não preciso correr. Uma vez, quando eu era jovem, eu estava no ônibus vazio e um sujeito baixou as calças. Se ele fosse um tarado e quisesse me agarrar…! Andar de ônibus é muito perigoso, eu e meu marido não queremos essa preocupação. Hoje elas esqueceram o assunto, nem querem mais. Não tem problema, elas nunca vão precisar.

Depois eu não me animo a postar certas posições políticas e ninguém entende o porquê.

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It’s been a long, cold, lonely winter

Existe um tipo de solidão que é incompartilhável. E eu a tenho aceitado. Antes eu precisava de gente, qualquer gente, conversa, qualquer conversa, barulho, qualquer barulho. Agora, se colocar um qualquer na minha vida, ele só vai provocar um contraste desagradável entre o que eu preciso e o que é. Então me mantenho só, ouço minhas músicas, olho pela janela e espero esse longo, frio e solitário inverno acabar.

Viagem de ego

Se me permitem um baita spoiler de um livro que ninguém lerá, tem um trecho do Os resíduos do dia que mostra direitinho uma coisa que eu chamo de “viagem de ego”. É daqueles conceitos que a gente tem de si para si, sabe como? Igual apelidos que damos pra estranhos e eles nunca vão ficar sabendo – “olha lá o Tartaruga Ninja”, “o Chef Gostosão não veio hoje”, etc. O que eu chamo de viagem de ego é quando a gente acha que tomou uma grande decisão, que está sendo disciplinado, controlado e/ou racional, mas na verdade está apenas fazendo uma grandissíssima besteira. Está pisando nos próprios sentimentos e se privando do que lhe seria mais caro. Mas faz, geralmente tendo como base um orgulho, uma crença de que somos melhores assim. É como se fosse um prazer masoquista de se fazer mal. Quem sabe o trecho do livro explique.

 

O livro está melhor apresentado no meu outro blog. Nesta cena que representa a viagem de ego, o mordomo narra como, só pra variar, os acontecimentos dramáticos da vida dele acontecem no meio de acontecimentos profissionalmente importantes. Então ao invés de cuidar das coisas dele, ele fica tendo que se alternar e acaba sempre escolhendo ser um bom profissional. Um exemplo é quando o pai dele morre e o sujeito não apenas não está perto como nem se permite chorar para servir os convidados. Outro momento, Miss Kenton fala para ele que vai se casar. A única mulher que esse homem amou. Ela dá as deixas, diz que estava na dúvida, e ele nada. Aí ela lhe diz que vai casar sim, e ainda o provoca, diz que imitá-lo lhe rende muitas risadas junto ao noivo. Ele nada, de novo. Depois ela pede desculpas, ela se tranca no quarto, ele fica parado no corredor com vontade de bater na porta e a certeza de que ela estava chorando. Aí você pensa que o cara vai lamentar o que não volta jamais, a chance de ficar com a mulher que ama, e o que o filho da mãe escreve? Uma baita viagem de ego.

 

Atravessando o hall de novo, retomei minha posição usual, debaixo do arco, e durante a hora seguinte – ou seja, até os cavalheiros finalmente irem embora – não aconteceu nada que me obrigasse a deixar meu posto. Mesmo assim, aquela hora que passei ali ficou viva em minha mente ao longo dos anos. Primeiro, meu espírito estava – não me importa admitir – um tanto abatido. Mas, permanecendo ali parado, uma coisa curiosa começou a acontecer; isto é, uma profunda sensação de triunfo começou a brotar dentro de mim. Não consigo me lembrar de até que ponto analisei aquele sentimento à época, mas hoje, olhando para trás, não me parece difícil de entender. Eu havia, afinal de contas, encerrado uma noite extremamente exigente, ao longo da qual havia conseguido preservar uma “dignidade condizente com minha posição”, e o fizera, além disso, de um jeito que teria deixado meu pai orgulhoso. E ali, do outro lado do hall, atrás daquelas portas sobre as quais pousava meu olhar, dentro da sala onde eu havia acabado de realizar minhas tarefas, os cavalheiros mais poderosos da Europa estavam conferenciando sobre o destino do nosso continente. Quem haveria de duvidar, naquele momento, que eu de fato chegara tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar? Acho, portanto, que ali parado, ponderando sobre os acontecimentos da noite – os que haviam se desenrolado e os que ainda estavam por acontecer-, eles me pareceram uma espécie de resumo de tudo o que eu havia conquistado até então em minha vida. Não encontro outras explicações para a sensação de triunfo que me elevou aquela noite*.

IDIOTA!!!!

*ISHIGURO, Kazuo. Os resíduos do dia, seguido de “Depois do anoitecer”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.248

Abismo II

Meu amigo, você está tão tão ferrado.
Você passeia nas margens, caminha, namora a borda. Sente o vento com cheiro de águas profundas e fecha os olhos, se perguntando qual a temperatura lá debaixo. E quando olha, oh meu Deus, o quanto e como olha!
O que torna o humano um ser tão previsível, máquina: a sua incapacidade de ouvir conselhos quando está cheio de desejo ou a vontade de fazer do próprio desejo e seu desastre iminente uma escolha?

Dois curtas de plateia

Não é sempre que estou na plateia de um espetáculo de flamenco do início ao fim; geralmente, eu danço um pedaço e depois assisto. Descobri que faz uma diferença imensa. Estar na plateia me fez sentir o que a gente acaba perdendo quando só vai se apresentar: subimos num palco com medo, como quem está na frente de muitos juízes, e quando é o contrário. A plateia, salvo exceções, está lá com a melhor das intenções. As pessoas não saem de casa na torcida pra que o som não funcione, o músico com os dedos machucados e que os bailaores tenham brancos, tremam, saiam chorando. A gente quer que eles estejam na sua melhor disposição, inspirados e que mostrem tudo o que sabem. Porque assim é melhor pra quem assiste. Quando a pessoa estava claramente nervosa, me dava vontade de falar – Ei, calma, não faz assim! Dá cá um abraço, relaxa!

 

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O pessoal pessimista de Frankfurt tem suas razões quando diz que há uma emoção no ao vivo que se perde muito na hora da reprodução. Eu senti algo tão interessante que quero contar. Duas apresentações de flamenco, com duas grandes bailaoras e as duas foram ótimas. Só que com a primeira, eu me senti exausta. Virei para as amigas que estavam comigo e disse que no dia seguinte iria me inscrever na aula de dança do ventre, que aquele negócio de flamenco não é comigo. Elas também, disseram que iam dançar outras coisas. Aquela bailaora com seus passos complicados, sua facilidade, seus pés limpos, e até mesmo sua juventude e beleza, deixou muito claro o quando somos pobres mortais, que nunca chegaremos aos pés de tudo o que ela é e faz. Depois entrou outra. Dançou bem, difícil e tudo mais, mas o efeito sobre nós foi oposto. A nossa sensação não era de esmagamento, e sim de estar junto, era como se cada um estivesse naquele palco também. Quando terminou estávamos todas felizes, pra cima, o dia havia recomeçado. Nada foi dito em palavras, nada havia de diferente em termos de domínio de palco ou técnica. Mas arte é assim, ela passa por um lugar diferente e mais poderoso do que a mente.
Adoro La Lupi, acho ela muito figura. Se você fica impaciente com o cante, ela entra em 2:59.

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

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Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

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Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

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Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.

Quatro dias e meio na merda

Passar quatro dias e meio na merda por causa de alguém que te faz passar pelo menos sete em depressão não é lá isso tudo. (“Se essa pessoa te faz tão mal, por que você não se afastou antes?” Pois é.) Foram dias que eu arrastei a mim mesma e nada convencia o meu coração de que a vida não era pesada de se viver. E talvez tivesse durado mais tempo, se o dia não tivesse amanhecido feliz e ensolarado. Não sei se com todo mundo é assim ou se é pessoal. Descobri que as dores do (meu) coração são iguais às outras dores do corpo: a gente luta, toma cuidados, fortalece o organismo, faz o que pode, mas não vê resultado enquanto o ciclo não se cumpre.

Pois é, o ciclo. No meio dele, com a cara inchada e um sarcasmo exagerado pra tentar parecer bem, minhas amigas comentaram de um tal remédio que estimula a produção de serotonina. Todo mundo anotando o nome e eu fiz questão de esquecer. Tenho esse radicalismo pessoal, de mesmo na merda me recusar a tomar remédios que poderiam me deixar “feliz”. Investigo a causa profunda e acho que ela está na minha descrença pela alopatia: eu sempre acho que esses remédios, pra arrumar uma coisinha, estragam dez. Então prefiro lutar eu mesma, só com a reflexão. E esperar. 
(Em tempo: não estou fazendo apologia à nada, viu? Quem quiser e precisar de remédio alopático, que queira e tome!)

Um mistério insolúvel por ser real

 

Eu estava no tubo. Em Curitiba é assim, pelo menos por enquanto: as estações tubo ficam frente à frente. De uns tempos pra cá, alguém começou a achar que isso é ruim, que os dois ônibus se encontram e trancam a rua, e de vez em quando pode ser que uma ambulância queira passar nas ruas exclusivas, ou um ônibus precise desviar, aí é ruim que eles fiquem emparelhados. Então, em alguns lugares da cidade, estão desemparelhando as estações tubo, e quem sabe chegue o dia que essa informação que eu coloquei aqui se torne vintage. Mas eu estava na estação tubo, diante de outra estação tubo, na que tomo ônibus com frequência. Eu estava de pé em frente à porta, que estava aberta. É comum elas ficarem abertas, ok? Aí parou um ônibus na estação tubo da frente, indo para a outra direção. De dentro do tubo, bem na minha frente, eu vi um casal dentro do ônibus. Eram adolescentes e conversavam. Aí a moça, sabe lá Deus porquê, olha para trás e me vê. Aí ela vira para o namorado, fala alguma coisa pra ele, aponta, ele olha para trás e me procura com o olhar. E fala alguma coisa para ela. Ou seja, ela me mostrou para ele e começaram a falar de mim. Eu arregalei os olhos e tive vontade de gritar de lá do tubo “Ei, o que é que tem eu!?”. Consultei meu arquivo mental e não faço a menor ideia de quem eram. Será que ela estuda no colégio que tem no caminho, será que ela me conhecia de algum lugar, será que o assunto era unicamente sobre o que eu estava vestindo ou fazendo? – eu consultei minha roupa e minha pose com o olhar e não encontrei nada demais em ambos. Aí o ônibus partiu. Morrerei sem saber. (A não ser que você, moça que me mostrou pro namorado, seja leitora do blog. Por favor, dê notícias, manda um e-mail!)

Caio e me levanto

Júlio Cortázar, La vuelta aluno día en ochenta mundos

 

Ninguém pode duvidar de que as coisas recaem. Um senhor adoece, de repente numa quarta-feira recai. Um lápis na mesa recai seguido. As mulheres, como recaem! Teoricamente não ocorreria a nada ou a ninguém recair, mas dá na mesma, está sujeito a isso, principalmente porque recai sem consciência, recai como se nunca antes. Um jasmim, para dar um exemplo perfumado. Essa brancura, de onde vem sua penosa amizade com o amarelo? O simples permanecer é recaída: o jasmim, então. E não falemos das palavras, essas recaientes deploráveis, nem dos bolinhos de chuva frios, que são a recaída em pessoa.

 

Contra o que acontece se impõe pacientemente a reabilitação. Nos mais recaídos sempre há algo que luta por se reabilitar, no cogumelo pisoteado, no relógio sem corda, nos poemas de Pérez, em Pérez. Todo recaiente já tem em si um reabilitante, mas o problema, para nós que pensamos nossa vida, é confuso e quase infinito. Um caracol segrega e uma nuvem aspira; certamente recairão, mas uma compensação alheia a eles os reabilita, os faz subir pouco a pouco ao melhor de si mesmos antes da recaída inevitável. Mas nós, tia, como faremos? Como nos daremos conta de que recaímos se pela manhã estávamos tão bem, tão café com leite, e não podemos medir até onde recaímos durante o sono ou o banho? E se suspeitamos do reacaiente de nosso estado, como nos reabilitaremos? Há os que recaem ao chegar ao topo de uma montanha, ao terminar sua obra-prima, ao se barbear sem um cortezinho; nem toda recaída é de cima pra baixo, porque em cima e embaixo não quer dizer grande coisa quando já não se sabe onde se está. Provavelmente Ícaro acreditava tocar o céu quando afundou no mar epônimo, e Deus te livre de um mergulho tão mal calculado. Tia, como nos reabilitaremos?

 

Há quem tenha afirmado que a reabilitação só é possível se alterando, mas esqueceu que toda recaída é uma desalteração, uma volta ao barro da culpa. O melhor que somos, somos porque nos alteramos, porque saímos do barro em busca da felicidade e da consciência e dos pés limpos. Um recaiente é então um desalterante, de onde se deduz que ninguém se reabilita sem se alterar. Mas pretender a reabilitação se alterando é uma triste redundância: nossa condição é a recaída e a desalteração, e eu acho que um recaiente deveria se reabilitar de outra maneira, que por sinal ignoro. Não apenas ignoro isso como jamais soube em que momento minha tia ou eu recaímos. Com o nos reabilitar, então, se talvez não recaímos e a reabilitação nos encontra já reabilitados? Tia, não será essa a resposta, agora que penso? Vamos fazer uma coisa: você se reabilita e eu a observo. Vários dias seguidos, digamos uma reabilitação contínua, você está o tempo todo se reabilitando e eu a observo. Ou o contrário, se prefere, mas eu gostaria que você começasse, porque sou modesto e bom observador. Dessa maneira, se eu recaio nos intervalos de minha reabilitação, enquanto você não dá tempo à recaída e se reabilita como num filme ininterrupto, em pouco nossa diferença será enorme, você estará tão por cima que será uma beleza. Então eu saberei que o sistema funcionou e começarei a me reabilitar furiosamente, porei o despertador para as três da madrugada, suspenderei minha vida conjugal e as demais recaídas que conheço para que só fiquem as que não conheço, e vai ver que pouco a pouco um dia estaremos outra vez juntos, tia, e será tão bonito dizer: “Agora vamos ao centro e compraremos um sorvete, o meu de morango e o seu com chocolate e um biscoitinho”.
(Obrigada de novo, Ernani)

Infância comum

Não era aquele um bom momento para nascer. Os pais eram novos, ainda queriam curtir. Ou a situação financeira estava ruim. Já tinham o outro filho. Haviam perdido eles mesmos alguém e estava de luto. Estavam em crise, quase se separando. Não, era um bom momento. Mas queriam um menino ao invés de uma menina. Aí veio você, fraca, insuficiente, sem levar o nome adiante. Ou você, fraco, insuficiente, sem as grandes qualidades másculas que o seu pai valoriza. Que você fosse a extroversão, ao invés de ser a introversão em pessoa. Que fosse a encarnação da beleza e popularidade, ao invés de um bicho esquisito e arredio. E com graus maiores ou menores de crueldade, a infância seguiu. Com uma mãe que deixava a sogra ou a empregada cuidando do bebê choroso, ou o pai que estava sempre nas festas ou no trabalho em outras cidades. Ou com uma mãe trancada em casa cheia de rancor, olhares críticos, insatisfeita. Um pai que, pelamor, cada vez que ele chegava o ar se tornava pedra. A comparação sempre negativa com irmãos ou primos, as palavras rudes, a incapacidade do carinho. E aquele sentimento constante de inadequação, de falta. Quem sabe o amor dos seus pais, entre eles, fosse um clube exclusivo onde não cabia mais ninguém, ou a relação soltasse tanta faísca que todos à volta ficavam machucados, a ou falta de um deles fosse irremediável. Crianças que foram amadas na infância se melhores em qualquer coisa, em tudo o que fazem, em tudo o que tocam. Crescem por aí com seus dentes perfeitos, estrelas entre os muitos amigos. Elas se propõem e fazem com tanta segurança e imediatismo que é quase como se o universo colocasse uma almofadinha debaixo dos seus pés. Mas esse não é você, claro. Nunca será, nunca foi, ser com um rombo no peito. Você, que nasceu na família, país e época errada. Você, comum.

O que a vida pede

Passei o feriado inteiro meio doente e o dia ficou quase o tempo todo chuvoso. Mas eu precisava ir no supermercado de qualquer maneira. Fui com casacão, cachecol, guarda-chuva e voltei encalorada, equilibrando as compras pesadas junto com o guarda-chuva, desviando das poças. Eu gosto de andar, gosto de fazer compras, gosto até de chuva, mas naquele instante os carros que passavam por mim pareciam bem mais confortáveis. Posso não comprar todos os sonhos burgueses e não estar disposta a todos os sacrifícios necessários por eles, mas não sou imune. O Ernani me fez pensar na maravilhosa entrevista que deu para o Cândido:
Acordar o mesmo, não um inseto monstruoso, não é só uma brincadeira com A metamorfose, do Kafka, um dos poucos livros que considero perfeito. Muitos livros e filmes começam com uma mudança brusca na vida do personagem, uma separação, a morte de um filho, essas coisas. Só que o drama da maior parte das pessoas é não haver mudança nenhuma, é o sujeito continuar o mesmo, preso na mesma circunstância.
Eu também, como todo mundo, olho pro céu e me pergunto se isto – as sacolas de compras pesadas que carrego na mão até a minha casa – é a minha definição, a minha realidade, se a vida não me reservará algo novo e inacreditável. O quanto eu amo, ou o quanto eu aceito, ou até quando eu amarei tudo isso? Dependendo do olhar, não passo de uma pobre coitada. Não precisa ser muito observador pra perceber que levo uma vida simples e que tento obter dela o máximo de felicidade. Minha realidade vai até poucas quadras mesmo, pelo menos por enquanto. O que sei é o que o Farinatti colocou como legenda nesta foto:

A vida pede alegria e um pouco de boa vontade.

Costa Rica

“Eu tive que mandar uma carta pro meu pai, e no envelope escrevi – a cinquenta metros da igreja em direção norte, vira a esquerda para o oeste, casa de portão cinza”. Mais ou menos a mesma coisa para se pegar um ônibus, não tem um ponto. Foi assim que Costa Rica, que até então pra mim era apenas um nome, foi ganhando contorno nas palavras do professor. Tem terremotos? Sim, muitos, e quando ele falou aquilo ficamos com medo. “Mas aí você fica torcendo pra ficar mais forte, porque você é liberado do trabalho e volta mais cedo pra casa”. Talvez por isso não seja um país de grandes avenidas e construções. Mas quem se importa com isso sendo que “a nossa universidade está entre vigésima primeira em qualidade de toda América Latina, o índice educacional é muito alto”. Aí é pra abusar do meu coraçãozinho romântico – características de cidades pequenas e top em educação? “Por isso muitas empresas de tecnologia tem se instalado lá”. E tem o turismo, claro. Praias maravilhosas, de um lado banhadas pelo Pacífico e de outro o mar do Caribe. Vulcões, florestas, animais. E nos mostra perto de qual vulcão ele mora, que praias gosta, quais não gosta, as músicas, como surgiram esses boleros que dançam juntinhos em três. Não deve ser o máximo você poder conhecer todo o seu país? Pra nós é praticamente impossível.

 

Passei boa parte da vida imune ao desejo de sair do Brasil. Acho que a culpa era dos destinos que as pessoas buscam, do que elas queriam. Ir para os Estados Unidos virar faxineira não me atrai, sofrer preconceito na Europa também não. Não os considero tão importantes assim… O sentimento que eu tenho é que estamos aqui, no olho do furacão, e tem muito paraíso perdido por aí. Países pequenos, latinos, lugares de vida boa e tranquila.

Inverno interno

Hoje eu quero cabaninha de coberta. Daquelas que a gente deita de lado, com as pernas encolhidas e enfia todas as pontinhas debaixo do corpo. Gosto de cobrir a cabeça e deixar só os olhos e o nariz descobertos. Por dentro dela, estarei abraçada com o meu cachorro de pelúcia e vestirei meu pijama de flanela mais quentinho. Meus olhos podem estar abertos, mas posarão imóveis sobre qualquer coisa como se fechados estivessem. Essa noite eu não quero ter razão, não posso e nem quero adivinhar o sentido oculto das palavras. Quero a imobilidade dos móveis e suas sombras. Lá fora, o vento uiva frio e mau e desse mundo não quero nada. Hoje conto com o meu próprio colo e meu próprio abraço, porque deles eu não duvido. Que nessa noite eu possa apenas ficar quieta e ser deixada em paz.

Ainda sobre sermos máquinas

Não supero essa fase Gurdjieff, eu sei.

Aceitar que somos muito determinados, determinados em quase tudo é fácil, é fato. Mas a teoria de Gurd não estabelece essa estatística, ela diz que todos estamos dormindo mesmo. Ou se está ou não se está. Quem não está é outro nível, é Mestre; nós somos tudo Zé. Gugu diz que é essa reserva moral do “quase” que faz com que o homem não consiga lutar com todas as suas forças pra sair desse sono, porque no fundo ele acha que não dorme tanto assim. E é o sono que nos torna máquinas, sem a menor autonomia, vítima de tudo o que nos acontece ou nos determinou no passado.

“Eu errei, mas se pudesse voltar atrás, faria tudo da mesma forma”. Eu falo isso, eu sinto isso. Fiz cagadinhas e cagadas homéricas; algumas eu só descobri depois de um tempo, mas noutras eu me sentia um touro correndo em alta velocidade em direção a uma parede. Eu sabia o que ia acontecer, eu sabia que não era a melhor decisão, mas já tinha pegado velocidade. Dentro do contexto, do que estava acontecendo, do que eu sabia e quem eu era, não havia possibilidade de fazer diferente. Eu fiz o que tinha de ser feito. Sofro as consequencias, lamento minhas decisões, não gosto nem de pensar, mas sei tão profundamente que não poderia ter sido diferente. Pra isso eu precisaria ser diferente e eu só sei ser eu.

Se isso não é ser máquina e determinado, não sei o que mais é.