3. Expedito conta como, através da irmã, eles entraram em contato com os ciganos

No último encontro entre Dona Laura e Yara, ela estava disposta a tratar a mãe adotiva e ex-patroa com raiva, e havia passado dias ensaiando as respostas que daria. Mas Dona Laura entrou lá e muito rapidamente os seus olhos varreram a pobreza das acomodações, perguntou se Yara precisava de alguma coisa e fez um carinho muito de leve em Estela. Quando Dona Laura foi embora, sem agredir ou pedir para que Yara voltasse para casa, o que tornou o encontro muito mais triste e humilhante do que qualquer coisa que pudesse ter dito. Agora Yara entendia o que as pessoas queriam dizer quando falavam em se sentir no fundo do poço. Quando ela saiu de casa para ficar com Francisco, era pra ter uma vida melhor e não pra viver daquela maneira.

A casinha era maior que o quarto que Yara vivia antes e era bom não ter que pedir permissão cada vez que punha os pés para fora ou opinião sobre o que fazer. Mas, por outro lado, do que valia essa liberdade toda se ela não tinha para onde ir, sempre ocupada com bebê e sem ter com quem deixar. Ela nunca havia vivido também a situação de ter que se preocupar com o dinheiro da comida. Por pior que Dona Laura fosse, comida nunca faltou. Yara nunca havia vivido uma realidade onde era preciso economizar na comida, não atender o corpo o tanto que ele precisasse. Já Francisco, apesar de ganhar mal, se sentia rico vivendo ali. Ele adorou não ter que puxar o saco de moradores e ter que se preocupar em ficar arrumado. Como porteiro, ele precisava fazer a barba todos os dias e andar de calça social e camisa; agora estava sempre de roupas velhas, barba e cabelos crescidos. Trabalhava ao ar livre, não tinha horário certo, tinha muitos amigos. Dava até pra beber e jogar cartas durante o expediente. Mesmo o trabalho braçal era divertido às vezes.

Francisco passava em casa de vez em quando, dava um beijo em Yara, deixava um troco na mesa e sumia de novo. Uma vez se meteu num navio de carga e foi até os Estados Unidos, passou semanas fora. Yara não podia contar com o marido pra nada, nem contra as ratazanas enormes que passavam correndo pelo teto de madrugada. A casa tinha frestas invisíveis, provavelmente feita pelos ratos, porque dava pra sentir o vento frio mesmo com a única janela fechada. Yara morria de medo de um rato pegar as crianças, limpava o boquinha deles constantemente pra não ter nenhum resto de comida, qualquer pacote de bolacha que ela abrisse tinha que ir pra um potinho. Francisco fazia pouco caso, colocava ratoeira e veneno, mas só faltava os ratos darem risada. Eles eram invencíveis, morria um e surgiam cinco, e provavelmente já moravam ali muito antes deles. Yara e as crianças é que eram os intrusos e tinham que ir embora.

Quem ajudou Yara foi tia Cidão, uma amiga da época do orfanato que nunca foi adotada. Ela também trabalhava no porto, mas com contrato assinado, era operadora de empilhadeira. Quando Yara se mudou com os dois filhos para casa de Cidão, Francisco disse que a mulher havia “virado de lado”, que ele iria mostrar para as duas o que era bom, que apareceria na casa e pegaria seus filhos de volta, que aquilo era um golpe para exigir pensão – mas disse isso no bar, pra quem estava lá na hora, nunca chegou a dizer nada pra elas e também nunca visitou os filhos.

Foi tia Cidão quem não se conformou com Estela ficar o dia inteiro deitada, que foi atrás de muletinha de criança pra ela, que fez questão que ela também estudasse. Estela floresceu depois que foram morar com tia Cidão. Estela em pouco tempo começou a se destacar na escola, ela acordava sozinha, antes dos outros, e chorava se por acaso não pudesse ir. Estela era boa até em matemática. Tia Cidão arrumava o cabelo dela com lacinhos, e a menina começou a usar vestidos e querer estar bonita. A maior vaidade dela era o cabelo, quase liso, bem preto e volumoso. Enquanto Expedito era um menino comum, que dava trabalho pra mãe por gostar de gazear aula pra jogar futebol com os amigos, a irmã era madura, sempre atenta ao que os outros diziam, e sempre sabia parecer dizer o que a pessoa que estava triste precisava ouvir. Era a única que gostava de umas músicas só com instrumento, musicas superiores, e ela sempre estava lendo alguma coisa. De pequena dizia que não queria casar, porque homem só atrapalhava a vida da mulher e ela não queria repetir os erros da mãe. Em casa, todos tinham orgulho da Estela.

– Desde pequena Estela falava que tinha uma amiga, uma amiga que ninguém via. A amiga dela se chamava Madalena e tinha um lenço na cabeça. Só que ela dizia que o lenço na cabeça da Madalena não era igual os que a mãe usava, que os da Madalena tinham umas moedinhas penduradas. Como é que a criança ia saber disso sozinha? Ninguém em casa tinha como saber de cigano, foi a Estela que levou a gente pra aquele caminho.

Quando Estela completou 15 anos, tudo pareceu ir por água abaixo. Ela não conseguia estudar, sair da cama, não queria falar com ninguém. Era como se tivesse voltado a ser uma criança. Yara e Cidão levaram a menina ao posto de saúde e os médicos não apenas disseram que ela não tinha nada, como duvidaram quando a família disse que ela era normal e estudava. Estela estava como que apagando, ela só queria ficar encostada, não tinha prazer em falar ou fazer qualquer coisa. Desde bebê Estela ficava sorrindo e olhando para o vazio. Como diz tia Cidão, não era porque ela era boba e sim porque era especial, via dimensões que outras pessoas não viam. Se por um lado, Deus e a pobreza haviam lhe tirado a normalidade da perna direita, por outro era uma menina linda e cheia de dons espirituais.

Dentre as casas que Yara limpava, estava a de Dona Teresinha, uma senhora de mais de oitenta anos que dividia o tempo dela em Paranaguá e na casa dos filhos na capital. Yara conhecia o filho da Dona Teresinha de vista, porque ele estava sempre por ali. Quando Estela estava daquele jeito, um dia Yara foi trabalhar muito triste e Dona Teresinha perguntou o que estava acontecendo, e ela contou. Só então Dona Teresinha disse que o filho dela tinha um terreiro e perguntou se Yara queria ir, quem sabe a causa do que estava acontecendo com Estela fosse espiritual ou, mesmo que não fosse, uma ajuda espiritual nunca era ruim. Quando Yara comentou em casa que iria para Curitiba pra visitar um terreiro, pela primeira vez em muito tempo Estela manifestou uma vontade: ela queria ir junto.

O ritual começava no final da tarde de sábado e elas chegaram em Curitiba pouco depois do almoço. Pai Gil concordou em fazer o Cigano Pepe descer antes, para atendê-las. Desde que ouviu falar em ir pra Curitiba, Estela estava mudada, estava animada, Yara ficou até com medo de passar por mentirosa quando chegasse lá. Mas Dom Pepe não precisou de explicações, ele sabia de tudo só de olhar. Ele disse que Estela estava sofrendo de influência espiritual, que era a inveja no ambiente de trabalho de Cidão. Como Estela era a mais sensível da casa, pegou nela. Ele perguntou quantos anos ela tinha, e quando lhe disseram que tinha acabado de completar 15, ele disse que estava explicado também pela idade. Aquela era uma idade muito importante para quem era médium, uma idade limite. Ela podia seguir o caminho da mediunidade, assim como poderia fechar os seus canais, e aquela era a idade mais adequada. As más influências que vieram do trabalho de Cidão estavam se aproveitando disso, tentando tornar ela médium à força pra ficar a serviço de coisas ruins, mas como ela era um espírito bom, estava resistindo, por isso o cansaço constante, ela estava vivendo uma verdadeira batalha no campo espiritual. Dom Pepe e a equipe dele se encarregariam de afastar as más influências e, depois, elas poderiam conversar com o cavalo dele – Pai Gil – para marcar um dia para fazer o trancamento, que tinha que se na cruz que fica no meio do cemitério. Mas aí, quando estavam todos satisfeitos com a explicação, se sentindo protegidos pelos ciganos do centro e a menina havia tomado passe de caboclos durante a gira, Estela avisou a família: não trancaria mediunidade nenhuma.

2. Expedito conta a história da mãe e da irmã

– Pra falar do Dom Pepe eu tenho que contar da minha irmã, Estela. Ela teve poliomielite e a doença foi uma benção da gente.

Yara, a mãe deles, não gostava de falar do assunto, mas ela contava que foi adotada ainda criança por uma mulher da alta sociedade de Paranaguá chamada Laura. Como criança de orfanato, ela sabia que o tempo corria contra ela. Pra piorar, Yara sempre foi meio grande, sempre pareceu mais velha, com os olhos pequenos e as sobrancelhas cerradas, uma expressão de índia triste. Se ela fosse pequena e frágil, havia mais chance de ficarem com pena. Quando Laura apareceu no orfanato, Yara estava no parquinho com as outras crianças.  Quando chegavam adultos, geralmente casais, as crianças ficavam imediatamente atentas e agitadas. A brincadeira não era mais uma simples brincadeira, poderia ser o momento mais importante das suas vidas.

Não foi exatamente como Yara imaginava. A mulher chegou chique e não chegou a se sentar, quem sabe banco de cimento não fosse o suficiente para ela. Olhou para todas as crianças e fixou o olhar em Yara, que gelou. Não era bem isso que se esperava sentir, “gelar”. Yara lembrava de ter ouvido o termo “escurinha”. Depois daquilo a mulher nunca mais apareceu, Yara achou que a história não ia dar em nada. Até que numa manhã lhe disseram para fazer as malas porque ela havia sido adotada. Era aquela mulher chique que chamou ela de escurinha.

A estranha a esperava na porta e recebeu o abraço que Yara correu para lhe dar de forma desajeitada. Os pertences de Yara cabiam todos na mochila, que ela carregou sozinha. Laura a levou para um prédio, subiram pela escada que ficava junto da garagem, entraram pela porta da cozinha e na parte da lavanderia havia um quarto com muitas caixas de papelão e uma cama. Havia também um pequeno banheiro, com um chuveiro em cima da privada. Era ali o espaço reservado a Yara. Não era o que Yara sonhava, mas era uma casa – e com esse pensamento e a expectativa de que aquilo seria apenas o começo, ela se acomodou e tentou encarar da melhor forma possível. Yara não entendia direito o que ela era, pelo menos no começo. Depois da primeira semana que passou lá, quando Dona Laura ensinou pacientemente tudo o que esperava de Yara, ela ficou feliz quando recebeu um dinheiro para comprar doces. Quando ganhava as roupas usadas ou sorvete, achava Dona Laura a pessoa mais generosa do mundo. Mesmo quando começou a ouvir das outras crianças que ela “não passava de uma empregada”, aquilo lhe soava tão abstrato – ela realmente limpava a casa e fazia comida, mas também vivia com a família, saía junto, tinha suas coisas. Dona Laura dizia que Yara era parte da família e era assim que ela se sentia também.

Dona Laura tinha um casal de filhos e o pai das crianças viajava a semana inteira e só ficava lá nos finais de semana. Como as crianças estudavam de manhã, Yara acordava às 6h, para comprar pão fresquinho e leite e deixar tudo pronto na mesa antes de irem para a escola. Aproveitava a manhã para fazer o básico: arrumar as camas, limpar os banheiros, passar o aspirador e tirar o pó. Depois ia pra cozinha, pra deixar tudo pronto, com arroz, feijão, carne e saladas, quando dona Laura e as crianças chegassem. Depois Dona Laura partia com elas de novo, às vezes para o balé e judô, outras vezes para o inglês e terapia. Yara sempre tinha muito o que fazer, porque dona Laura não admitia que aparecesse um escurinho no rejunte, uma sujeira acumulada nas esquadrias, qualquer coisa que tivesse muito contato com mão, como maçanetas, deveria ser limpado com álcool hospitalar toda semana, sem falar nos muitos tapetes da casa, a coleção de bichinhos de cristal, as capas das almofadas. Cada vez que Yara passava pela sala, ia catando os brinquedos das crianças, pouca coisa mais novos do que ela; eles gritavam por Yara pra tudo, cresceram acostumados a não se responsabilizar por nada dentro de casa. Yara não tinha hora exata pra parar, era como se o expediente dela fosse rareando quando o sol se punha, e sua última obrigação mesmo era deixar tudo ajeitado depois do jantar. Aí ela ia pro seu quarto ver novela, na TV que ganhou de Natal – era a da sala, que eles trocaram por uma melhor. Mas como ela estava ali mesmo, se precisassem de um leitinho ou passar uma roupa que seria usada na manhã seguinte, ninguém se constrangia em aparecer na área de serviço e gritar por ela. Os finais de semana eram iguais, só que um pouco mais leve, porque não tinha mais que acordar tão tarde e a família passava quase o dia todo fora.

Na versão da Dona Laura, foi o pai do Expedito o culpado, ele que fez a cabeça da Yara contra ela. Francisco era porteiro do prédio e Yara tinha apenas dezesseis anos. No fim de ano Yara tinha comido muito panetone, as crianças e Dona Laura não gostavam dos que tinham frutas cristalizadas e deram todos pra ela. Depois de um tempo, ela estranhou que vomitava e a barriga dos panetones não diminuía. Foram quase quatro meses até que descobrisse que os encontros secretos – quase todos os dias, na escada entre os andares quando Yara ia fazer as compras, no apartamento dos porteiros quando tinham mais tempo – geraram um fruto. Um dia Yara se deitou de bruços e sentiu um segundo coração batendo dentro de si.

Dona Laura ficou louca da vida quando soube da gravidez, passou o dia gritando com todos que apareciam na sua frente, tomou aquilo como uma ofensa pessoal. Primeiro, exigiu que Yara tirasse a criança; depois voltou atrás porque a gravidez já estava muito adiantada pra um aborto. Francisco desde o começo queria assumir a mãe e a criança, Dona Laura não aceitava. Ela dizia que Yara, sua filha – bastava ver a certidão de nascimento -, tinha sido uma vítima, o nome daquilo era estupro e ela, Laura, não merecia pagar pelo resto da vida por aquele erro. Depois de nascida, a criança seria colocada pra adoção e pronto, tudo voltava ao normal.

Dona Laura nem disse isso diretamente a Yara, ela falou com Francisco que falou com Yara. O clima já estava péssimo antes, mas ela continuava trabalhando normalmente. Naquela tarde, a raiva era tanta que Yara perdeu o controle e falou tudo o que estava guardado há anos. Ela se abraçou na sua barriga, gritou, esperneou, xingou, ameaçou, tudo. Ninguém ia fazer ela abandonar uma criança, ela teria aquele filho nem que fosse para morrer de fome junto com ele. Foi para o quarto e passou a noite trancada, sem conseguir dormir e nem parar quieta, pronta para partir na manhã seguinte. As coisas de Yara já estavam todas empacotadas em duas mochilas, uma caixa de papelão e um saco de lixo, quando Dona Laura bateu no seu quarto e disse que ela poderia ter a criança, bastava não descuidar da casa. Foi pensando na criança que Yara aceitou temporariamente a oferta, mas assim que Estela nasceu, as duas e Francisco foram pra uma casinha no Porto de Paranaguá.

A casinha não ficava perto ou ao lado do Porto, ela ficava realmente no porto, quase em cima da água. Estava abandonada antes da chegada deles; antes era um antigo escritório ou ponto de venda, Yara não sabia direito, foi Francisco quem arranjou. Ele largou o emprego no prédio e agora trabalhava no porto sem ser registrado, ajudava a carregar carga, consertava coisas, serviços gerais. Não pagavam aluguel, eles viviam lá meio de favor, como uma espécie de caseiro. Yara tinha certeza que foi a proximidade do porto que fez Estela pegar a doença.

– Mas como é que a menina ficar com poliomelite pode ser uma benção?

– Porque Laura localizou os dois. Ia usar os papéis para provar que era a mãe adotiva da Yara, ia botar meu pai na cadeia e tudo mais. Não fez quando soube que a menina tinha ficado doente, e não ia servir pra ser empregada também. Aí ela sumiu da vida da minha mãe, pra sempre.

-Então foi essa a benção, ter se livrado do risco da cadeia?

-Também, senhor Paulo. É que a minha irmã é uma pessoa muito espiritualizada, um anjo que veio do céu. Foi ela que nos colocou em contato com os ciganos.

 

Paulo Coelho e o pacto

  1. Paulo Coelho recebe uma visita

-Senhor Paulo, eu gostaria que o senhor me pusesse em contato com o seu diabo, pra fazer um pacto. Também quero ser escritor.

Paulo Coelho ficou tão indignado que lhe faltaram palavras. Eram tantas reclamações que ele tinha a fazer ao mesmo tempo: como era possível que aquele desconhecido tenha conseguido rastrear o endereço dele na Suíça, o indiscreto que deu acesso à informação seria punido sumariamente; uma vez de posse do endereço, como alguém se atreve a bater na casa dele às 7h numa manhã fria de sábado, e o flagra de pijama de flanela listrada, roupão marrom, meias de lã e pantufas; como o sujeito tinha tanta certeza de um pacto que vinha lhe perguntar isso na maior cara de pau, e pior, lhe pedindo indicação. Se por um lado tudo isso tornava mais do que justo que Paulo Coelho o escorraçasse em maiores justificativas, o moço na sua frente lhe disse isso com tanta sinceridade, com um olhar tão canino, com os dentes batendo de frio na soleira da sua porta e uma boina ridícula apertada entre os dedos, que a cena era também enternecedora e Paulo Coelho disse: entre.

De qualquer maneira, seria um causo interessante. Enquanto o estranho adentrava a sala em passos curtos, pedindo mil desculpas e olhava para o interior da casa como quem se vê hospedado num grande hotel cinco estrelas, Paulo Coelho arrastou as pantufas até a cozinha e perguntou se ele queria chá, sem esperar pela resposta. “Também quero ser escritor”, como não se reconhecer nessa frase, nesse sentimento. Paulo Coelho depositou com todo carinho o anis estrelado mais inteiro na xícara do rapaz. Depois do chá, quem sabe uma selfie, alguns conselhos e ele poderia dispensar o garoto e seu sábado voltaria ao normal.

A sala tinha duas poltronas, quase uma de frente para a outra; as duas ficavam um pouco na diagonal, diante de uma maravilhosa vista dos Alpes. A intenção era que as pessoas se sentissem à vontade para conversar frente a frente, mas que a qualquer momento a falação pudesse ser abandonada para apreciar a paisagem. Como homem de letras, Paulo Coelho às vezes se via farto delas, da eterna luta de encontrar o termo mais correto para comunicar algo, e a cada dia se via mais e mais apegado a cenários, a música clássica, a prazeres sensoriais simples, tais como a recém-adquirida habilidade de misturar sabores no chá.

O rapaz escolheu a poltrona que ficava de costas para a porta, bem como deveria. Continuava segurando a boina entre os dedos. Era moreno, e de cima dava para ver que também seria careca quando a idade chegasse. Vestia uma japona bastante fofa, de um tom vibrante de vermelho. Estava sentado na ponta da poltrona, ainda tenso, mas o olhar havia abandonado a expressão de cachorro arrependido. Olhava para as montanhas com um ar tenso de quem não estava aproveitando nada.

– Você é o…

-Expedito.

Expedido pegou a sua xícara e a abraçou com as mãos, para esquentar. Paulo Coelho acomodou-se na outra poltrona e também segurou a xícara com as duas mãos. O perfume de anis e canela que invadia a sala. Contemplou a vista das montanhas – que nunca o cansava – em silêncio. Ele se perguntou quanto tempo aquele silêncio duraria. Não era um silêncio tranquilo – a ansiedade do rapaz magnetizava o ar e, mesmo de canto, o olhar dele queimava. Por sua vez, Paulo Coelho também usava sua visão periférica e experiência de vida para analisar a sua visita: o conjunto casaco-luva-touca descombinados o fazia pensar que o rapaz não tinha muitas opções de roupas quentes no guarda-roupa. Sendo assim, talvez aquela fosse sua primeira viagem internacional, quem sabe a primeira de avião, o que tornava aquele encontro ainda mais estranho. Não era alguém que estava passeando na Europa e resolveu fechar um contrato com o diabo, ele deve ter viajado especialmente para fazer aquela visita. Depois que ficou famoso, Paulo Coelho se tornou um verdadeiro imã de loucos; pedidos de favores, invasões de espaço, chantagens emocionais e todo tipo de gente já apareceram diante dele; se ele embarcasse em metade do que queriam dele, já não estaria nem vivo. Ainda assim, algumas vezes era difícil colocar limites e provavelmente aquela seria uma dessas ocasiões.

-Você gosta de Borges?

-Q-Quem?

-Começamos mal.

-Senhor?

-Borges, Jorge Luís Borges, escritor argentino. No Aleph, um dos meus livros preferidos dele, a primeira história, O Imortal, ele conta a história de um conquistador que buscava a vida eterna e era ajudado por criaturas bárbaras que mal falavam. Depois descobriu que elas eram o povo imortal que ele buscava. Para quem já havia provado todos os sabores e visto todos os cenários, não havia mais o que buscava e vaidades necessárias…

– Mas… não foi o senhor que escreveu Aleph?

-Sim e não. – aquela ignorância era comum, ele mesmo havia causado aquilo, mas um ignorante em Borges sempre o irritava. Ainda mais querendo ser escritor. – Vamos ao que interessa. Expedito, né? Como foi que você encontrou meu endereço, com quem você falou?

-Com os seus vizinhos.

-Como é que é?

– Eu fui andando. Perguntei da região no hotel e vim até aqui. Depois foi andando na rua e perguntando onde morava o escritor brasileiro. – tirou de dentro do casaco um exemplar de O Alquimista, todo maltratado. Paulo Coelho olhou para sua foto de mais de mais de vinte anos e ficou satisfeito em saber que ainda se parecia com ela – As pessoas me apontaram a casa e eu vim.

Era tão absurdo que só poderia ser verdade.

-E como você veio parar aqui, na Suíça?

-Foi com o dinheiro da venda. Da-da venda do livro, o que eu fiz.

-Ah, você tem um livro. Você não me disse que precisa de um pacto para ser escritor?

-É que… não foi um livro que eu inventei. Eu só contei a história do cigano Pepe. Ele me deixou contar a história dele pra ter dinheiro para procurar pelo senhor.

Em um mês, o mundo inteiro mudou

O mundo era outro quando eu decidi tirar férias deste blog. Eu estava fazendo minha aula de flamenco, preocupada com o fato de uma viagem em família coincidir com uma apresentação, e estava preocupada em remarcar a passagem. Agora não há mais classe de flamenco, viagem, apresentação e ninguém sabe quando qualquer uma dessas coisas será possível de novo, e até mesmo o que será possível de novo.

Minha esperança, ao deixar de escrever no blog, era reencontrar meu entusiasmo para escrever. De repente, me vi em vontade de compartilhar nada aqui, porque o próprio ato de contar uma história estava perdendo sentido pra mim. Eu sempre fui à favor do esforço continuado e acreditava que ele, por si só, é capaz de grandes realizações. Bem, sem esforço sem dúvida as realizações não são possíveis, mas comecei a duvidar de qualquer capacidade que eu pessoalmente tenha pra isso. Não acredito mais que eu possua, dentro de mim, o necessário para escrever um livro interessante. Vocês podem me dizer: nem todos precisam escrever um grande livro, pequenas histórias de blog também têm o seu lugar. Durante mais de dez anos isso foi suficiente, mas agora eu realmente cansei.

Escrevi uns contos e, se nada mudar, eles são a última manifestação da minha ambição em escrever coisas interessantes. Sabe que até pra mandar conto pra amigos e querer que eles leiam é complicado? A gente quase perde o amigo, é uma saia justa enorme pra ele, que se vê entre a necessidade de me agradar e a exigência de dizer a verdade.

Há um desses contos, em especial, que gosto muito e sei que editora nenhuma toparia publicar, porque o personagem principal é uma pessoa famosa e ainda viva. É uma homenagem, acho que se um dia a tal pessoa lesse, iria curtir muito, mas não vai acontecer, ninguém vai topar e pronto. Então decidi publicar aqui, um capítulo de cada vez. Assim, sacio a vontade de vocês de lerem algo meu e vamos ver o que será de mim quando eu chegar no fim do 29º capítulo. Isso se até lá não surgirem queixas e eu tenha que apagar tudo…

Pela primeira vez… férias!

Estou sempre aqui, dia sim dia não, faça chuva ou sol. Mas estava cansada, meio pensando no que fazer, se continuaria ou não o blog, e aí recebi uma notificação do FB me punindo com um mês sem poder postar. “Mas o que tem a ver com o blog“, você dirá, mas tem que lembrar que o post vai parar lá e é parte dos meus parcos acessos. Parar de postar sempre me deixou com medo, aquela história de não se afastar para não perceberem que você não faz a menor falta… Mas tenho andando meio enlouquecida na vida real e vai ser bom pra mim dedicar minha energia a ela. Não sei o que será de mim em trinta dias. Espero que vocês sintam a minha falta. Beijo!

O farol

farol

Eu me via como o único habitante de uma ilha que tem apenas um farol. Podia fazer o que quisesse durante o dia – embora as opções sejam poucas e solitárias – mas sempre com o compromisso de, aconteça o que aconteça, acender a luz à noite. Uma luz solitária no alto de uma torre pra se manter sempre acesa e avisar pessoas que nunca vejo e nem ao menos sei quem são. Às vezes olho para o mar negro e penso ter visto algo na água, e fantasio que alguém passou por ali e viu aquela luz, e que foi importante, e com essa impressão me aqueço nos meus dias. Mas na maior parte do tempo o mar é tão vasto e o silêncio tão grande que nem disso consigo me convencer. São noites e noites que, olhando para trás, eu poderia não ter vindo – mas eu vim. Com chuva, com sol, com machucado, feliz ou infeliz, sem nenhum patrão pra cobrar minhas faltas ou elogiar minha constância, tenho subido na torre e acendido a luz, apenas por entender que é o papel que me cabe num mundo onde muitos viajam de navio, enquanto eu estou sempre aqui.

Mas se crer um acendedor de farol ainda é muita coisa, é pretensão demais. Eu sou apenas um louco com uma vela trancado no quarto. O único navio que vê aquela luz é o que tem dentro dos meus olhos. E estou ficando sem fósforos.

Uma imagem de sucesso

black-mirror

Eu havia passado meses conversando com ele e finalmente nos encontraríamos pessoalmente, na feirinha da Benedito Calixto. Meio que de forma automática eu mudei quando ele chegou, assumi uma persona de mulher que queria ser interessante. Andamos pela feira, mostrei coisas que me chamaram atenção, fiz observações cultas, ri civilizadamente. Depois fomos almoçar e já haviam se passado algumas horas e acho que esgotei meu repertório. Até que num momento que eu estava rindo, ele falou que “agora sim”, que aquela era quem ele tinha vindo conhecer. Ele me disse que me achou uma pessoa tão chata enquanto estávamos na feira que já havia inventado uma desculpa para fugir depois do almoço. E eu entendi porque parecia estragar tudo quando decidia conquistar alguém.

Acho que a noção de que é preciso projetar uma imagem de sucesso vai até sumir com o tempo, de tão cotidiana que vai se tornar, faz parte do viver virtual. Eu sou de outra geração e condeno mentalmente quando vejo pessoas postando roupas que nunca vestem, fazendo caras e bocas, falando como se fosse um sucesso um trabalho que elas praticamente pagam pra fazer. O problema com a imagem, me parece, é que só controlamos a emissão – acho que a maioria das pessoas faz tanto sucesso quanto eu tentando jogar charme.

Balança desregulada

No post passado eu levei tanto tempo construindo o argumento astrológico que depois não consegui chegar no que eu queria dizer, que é a questão da tomada de decisões. Todos nós, de certa forma, somos como balanças desreguladas e o grande tchans da maturidade é conhecer esses limites e saber lidar com eles. Podemos chegar a isso de uma maneira astrológica, como por exemplo dizer que a pessoa tem um Saturno que influencia fortemente a Lua, o que lhe dá pessimismo e tendência a encarar tudo como desamor; mas também é possível chegar analisando os próprios padrões e como a nossa história coloriu a lente com que olhamos o mundo. Há poucos dias eu soube de uma recém formada, filha de uma conhecida, que passou na primeira etapa de uma seleção de emprego disputadíssima. Eu a conheço e pensei: claro que passou. Eles tinham diante de si uma jovem que teve acesso não apenas ao de melhor em termos de educação e do que o dinheiro pode comprar, mas também de amor, suporte, oportunidade de errar. A quantidade de fantasmas e dores que eu (e a maioria da população) tinha quando me sentava diante de uma avaliação dessas pesava de uma maneira que os próprios contratantes não tinham noção.

Quando novos, somos todo instinto e como a situação nos parece. Tudo dizia que não era uma boa hora de falar, mas você não se segurou e foi lá e disse tudo; tudo indicava que era melhor aguardar o desenrolar dos acontecimentos, mas você vai lá e precipitou uma situação só porque não suportou a incerteza, e por aí vai. A maturidade vem quando você percebe que não é porque você está sentindo que é o certo ou a melhor coisa a se fazer. Eu diria pra pessoa de Saturno/Marte que ela sempre vai sofrer decidindo, ou seja, não é porque ela não se sente segura que está errado; diria pra pessoa Saturno/Lua que ela provavelmente está interpretando a atitude do outro de uma perspectiva mais pessimista do que real. Se você, como eu, ia nas entrevistas suada porque pegou ônibus, desconfortável porque precisou vestir algo mais caro do que o seu normal, se sentindo despreparada porque não pode fazer curso de línguas quando era criança e nem as especializações que queria, ansiosa porque cada fracasso correspondia a mais um mês de contas apertadas, ou seja, se a balança que dentro de você não têm o equilíbrio perfeito para o sucesso, a única saída para a felicidade é agir apesar de você.

vai com medo

Should I stay or should I go?

mars

De um certo ponto de vista, Saturno e Marte representam energias opostas no mapa: Saturno diz não vá e Marte nem dá tempo para dizer nada. Em geral, tendemos a detestar a energia de Saturno, que nos torna tão prudentes e temerários que arrisca nunca sairmos do lugar, porque nunca é o momento certo, nunca está bom o suficiente. Mas, ao mesmo tempo que Marte dá coragem e iniciativa, o que nos dá sensação de juventude e otimismo, também é possível fazer isso de maneira tão despreparada que estraga as oportunidades e vira puro desperdício de energia. As duas energias são tão necessárias que Marte encontra sua melhor expressão em Capricórnio, signo governado por Saturno. Estrutura com energia é a melhor combinação possível.

(Posts astrológicos: estou falando de mim e não quero dar na vista. Seguimos.)

Sabe outra coisa que combina estrutura e energia? Esportes. Na astrologia védica qualquer relação entre os dois planetas demonstra afinidade com atividade física – claro que para afirmar que a pessoa pode ser um atleta profissional é preciso levar em conta outros fatos, como a sexta casa por exemplo. No esporte, você tem um conjunto rígido de regras, limites que te dizem o que fazer e até onde ir (Saturno), e daí vence o que consegue colocar a maior habilidade, força, energia (Marte) no seu desempenho.

Em astrologia nada é puro, nenhum aspecto dá 100% de resultados desejáveis ou indesejáveis. Os mesmo aspectos que podem gerar uma tremenda vida profissional podem ser os que estragam a vida amorosa ou a saúde. Essa história de uma energia que quer ir e outra que puxa o freio de mão acaba sendo difícil nas tomadas de decisão. A pessoa não fica em paz com seus impulsos, fica culpada se vai, culpada se fica, ela se perde em duas tendências e não sabe qual o seu timming. Às vezes a vida é sobre saber ouvir seu próprio coração, mas em outras é se dar conta de que aquele processo é demais pra ele e que os seus impulsos são confusos.

Festa da turma

festa idosos

Eu nunca fui numa festa de ex-formandos, nem quando foi logo em seguida de termos nos formado, ou seja, nem quando ainda não havia se transformado num evento potencialmente depressivo. Aí quando recebi o convite para ir na próxima de vinte anos de formada (mas já?), eu quis mostrar que sou uma pessoa melhor. Tudo dentro de mim disse que não queria ir, mas eu me deixei adicionar no grupo de whats (oh lord, mais um grupo) e ver no que ia dar. Quando vi a fotinho e mensagens novas, já me incomodei. Aí fui olhar as fotos dos membros e juro que não reconheci pelo menos as cinco primeiras fotos, podia jurar que nunca vi na vida. Uma delas provavelmente nem a mãe conhece mais depois de tanto botox e preenchimento. Depois reconheci: alá, aquela que logo no primeiro ano tentou me ferrar num trabalho em grupo porque não me passou os dados; alá, aquela que eu achava super legal de longe e na primeira vez que eu lhe dirigi a palavra foi um nojo comigo; olha, essa eu até gostava, mas não lembro do nome; Fulana, ok; alá, aquela que era da turma descolada e abortou… Mas embora ver as fotos de pessoas que eu gostaria de jamais ter me lembrado não tenha me feito bem, também me questionei: sou um ser humano tão ruim assim, que só se fixa nas piores lembranças? Aí apareceu gente comemorando, que bom vê-los, etc. Que bom por que, sen or, iluminai-me. Surgiu lista de contatos. Aí alguém falou mais uma frase alegre sobre ser bom ver todo mundo de volta e um corajoso com DDD de São Paulo saiu logo em seguida. Achei afrontoso e segui o exemplo.

Por todos os poros

bitch you ok

Comentei por alto que deixei de tomar refrigerante. A decisão era apenas o refrigerante, mas sem querer entrei de dieta também. Eu tomava junto com as refeições e cortei qualquer bebida, porque na realidade o ideal é não beber quando se come. Como resultado, minha fome diminuiu. Também estou fazendo uma limpa profunda em casa, com direito até a me desfazer das últimas esculturas, mexer em coisas que estão aqui desde a época que me mudei. Também tomei umas decisões, tudo meio amarrado ainda, mas só de decidir já passei dias terríveis. Sabe quando você tem até sonhos terríveis? No da noite passada a minha mãe me dizia que eu devia ir embora, que na natação todo mundo me detesta, aí eu chegava perto das pessoas e todos me detestavam mesmo. Enfim, chegou um ponto que eu já não sei o que é falta de açúcar, crise dos quarenta, energias mexidas, governo bosta, medos justificáveis. Só sei que está duríssimo e já nem tento entender o motivo das lágrimas quando elas vêm.

A engrenagem

Uma vez eu vi uma frase que dizia que o grande mal da humanidade é a sua incapacidade de mudar o rumo das coisas, e acho que é verdade. Enquanto está no começo e somos inconscientes, tudo bem, mas depois nos tornamos o Nostradamus português da piada que olha a casca de banana no chão e decreta que irá escorregar. Somos o carro que vai em direção ao muro e as pessoas discutem dentro dele, ao invés de simplesmente puxar o freio ou rodar o volante. Os exemplos são inúmeros durante a história e basta ver a nossa incapacidade de interromper a destruição do planeta. Uma vez que a engrenagem é posta em movimento, ao invés de interromper o ciclo, vivemos todo tipo de desgraça até que a energia se esgote. Os que tentam alertar e cortar o caminho, ou seja, trazer de volta à normalidade, são punidos. Depois que tudo passa, as pessoas olham para trás e dizem: como isso foi acontecer, era tão óbvio!

É disso que fala o documentário O Assassino Confesso (Netflix). Um homem com problemas mentais começa a confessar tudo quanto é assassinato e vira o maior serial killer dos EUA. É criada uma força tarefa, casos do país inteiro procuram a confirmação dele, reportagens de TV, estudos de caso. O que é mentira, o que é verdade, o que é má fé, o que é incompetência– nada fica claro. Psis vão adorar, mas é imperdível pra qualquer um que goste de uma boa história.

Curtas de conclusão de conversinhas

conversinhas

Estava cedo, quente, mas ao mesmo tempo com nuvens e eu e o cobrador do tubo começamos a falar do tempo. Do tempo, fomos para crise hídrica. Ele me disse que, apesar de ter chovido bastante das últimas semanas, os reservatórios estão secos. Provavelmente – concluímos – um acumulado de tantos anos que estamos beirando seca e ela nunca chega a se tornar racionamento. Ele:

-Eu tenho uma passageira que passa lá por cima, por… como é mesmo no nome daquele rio, que é usado pra desovar corpos? Passaúna!

.oOo.

Parei de tomar refrigerante há poucas semanas e, invariavelmente, as pessoas me recomendam água com gás para aplacar a vontade. Aí eu digo que desta vez estou sendo rigorosa, porque já fui viciada em coca e fui pro matte leão, pra me libertar do matte leão, fui pra gengibirra e… quando chega nesse ponto da conversa, sempre sou interrompida com:

-Hum, gengibirra! Mas é que gengibirra é uma delícia mesmo.

.oOo.

Passei na frente de uma loja que anunciava ter filtro de barro. Quis saber do vendedor que tinha na frente se havia vela, e é claro que tinha. Ele me mostrou dois tipos na prateleira, o tradicional que custava R$ 9,90 e a de carvão ativado, super ultra-blaster filtrante, por R$ 19,90.

-Me dá a tradicional mesmo. Não precisa de tudo isso, eu pretendo usar água da torneira e não da poça d´água.

Quando eu comecei a dançar…

desfocada

… aquilo pra mim era tão forte, como um chamado, que a vida universitária se tornou imediatamente insuportável. Havia nascido e me criado ali, e de repente ficar sentado tempo demais incomodava, aquele amontoado de citações não fazia sentido, ler dava preguiça. Dei as costas a um lugar onde sabia exatamente como me mover e me destacar pra entrar num mundo onde eu era inexperiente e velha ao mesmo tempo. Mas era tão forte e tão apaixonado que eu só podia ter um talento muito especial que me faria superar todos os obstáculos. Às vezes os obstáculos me pareciam ser meus próprios professores, que não superavam políticas internas para me defender e me dar o destaque que eu merecia. Demorei muito tempo para parar de me sentir injustiçada e entender que um chamado forte não quer dizer que você será um grande talento naquilo.

Eu não sei porque a vida me levou até a dança. Penso isso muitas vezes enquanto olho meus colegas, gente que chegou a menos tempo e me ultrapassa, gente que se identifica com as fotos de quando está de figurino, gente que se torna uma versão muito maior de si mesmo quando a música começa. É estranho pensar que às vezes estamos numa atividade em função de todo entorno e não da atividade em si. Perdi as contas de quantas vezes aquela aula me salvou. Eu danço porque a vida me deu esse presente, porque se eu realmente tivesse talento ele se converteria na minha obrigação. Eu acho que a vida me queria pegando aquele ônibus, aquele horário, e que encontre a cobradora que vende docinho no tubo. A vida acha que eu devo estar no meio daquelas pessoas caladas e cansadas enquanto o ônibus faz curva em ruas escuras. As ruas por onde eu ando e jamais andaria, as pessoas que eu conheço e jamais cruzariam o meu caminho. Eu visto figurino apenas para servir de mágica e conseguir assistir aos espetáculos por dentro. Foi a vida quem quis assim, só não sei o porquê.

Eu do futuro

futuro

Eu confiei na mulher forte que eu seria no futuro. A Eu do Futuro lidaria com as situações difíceis tais como elas se apresentam. Saberia lidar com prestadores de serviços e suas respostas ambíguas, sua necessidade de sempre renegociar e os imprevistos de cabeça fria. Não ficaria de mau humor com a simples ideia de passar num cartório, já teria superado a sensação de que são lugares sufocantes e associados a situações infelizes. A Eu do Futuro vive num apartamento antigo, janelas ensolaradas e decoração personalíssima, de um bom gosto todo seu – só não sei como e onde ela foi parar lá. A Eu do Futuro tem fé nas suas capacidades, sabe que dias difíceis não duram para sempre e que, por mais sem saída que a situação se apresente, ela será forte o suficiente para dar a volta por cima. Minha Eu do Futuro aprendeu a pedir ajuda, por mais que também saiba que no fundo somos todos sozinhos. A Eu do Futuro é tão sábia quanto algumas pessoas que ela teve o privilégio de conhecer e se faz digna dessa linhagem.

Eu só não sei onde está essa mulher, esse futuro está sempre recuando – era aos vinte quando eu era adolescente, aos trinta quando cheguei aos vinte, etc. A do presente chora de pavor diante das mudanças inevitáveis, arrasta decisões até o último minuto na esperança de que as coisas sumam ou se resolvam sozinha, espera milagres que nunca vêm. A do presente aceitaria de bom grado que um Ser Divino ou uma mala de dinheiro resolvesse todos os seus problemas num passe de mágica. A do presente não viu nenhuma das promessas de futuro brilhante se realizar. No presente, eu só gostaria de ficar com a cabeça debaixo das cobertas até toda tempestade passar.

The Good Place

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O único defeito de The Good Place é que não se pode dizer direito o porquê se deve assistir. Eu pedi no meu twitter a indicação de uma série leve, estava esgotada com a época das eleições. Me mandaram vê-la e achei que ver um pouco sobre um lugar bom era tudo o que eu precisava. Olha que cenário, que ideia bacana, que bobinha, foi ficando. Mas já a recomendei para gente que não está com o mesmo espírito e desistiram logo nos primeiros. Mas as pessoas que não desistiram, que cederam à minha insistência de dar uma chance à série, se tornaram fãs tão apaixonados quanto eu. Tenho muitas séries no meu currículo e odeio fazer podiuns, mas ela certamente está entre aquelas que classifico como ter uma experiência. Minha preocupação era que o autor tivesse se colocado desafios tão grandes que depois não conseguisse continuar à altura. Mas valeu cada minuto, ela só fica melhor, melhor, melhor. E terminou lindamente. Levarei The Good Place comigo para sempre.