Já fui longe demais no meu caminho de destruição

O monge olhou para Angulimala como se ele uma pessoa íntegra e digna de respeito.

Angulimala perguntou: “Você é o monge Gautama?”.

O Buda consentiu.

Angulimala disse, “É uma pena não encontrei você antes.

Já fui longe demais no meu caminho de destruição.

Não é mais possível voltar atrás”.

Não é verdade que nunca é tarde para voltar atrás. Não é verdade nas leis da física – o conceito de Flecha do Tempo fala que o universo caminha de uma baixa entropia para uma alta entropia, por isso que os acontecimentos caminham sempre na mesma direção, a que chamamos de Futuro. Voltar no tempo seria como tentar pegar várias partes explodidas e tentar juntá-las de novo, a “bagunça” excederia o volume do objeto original. Voltar atrás tampouco é uma verdade orgânica. Biologicamente, o máximo que se pode fazer é tentar retardar o envelhecimento. Um órgão de uma pessoa de quarenta jamais voltará a ser o mesmo de quando tinha vinte anos, porque aos vinte estamos numa curva ascendente e depois dos trinta começamos a decair. O que se faz hoje é tentar diminuir a angulação dessa curva, tornar menos acentuada, mas sabemos que a direção inevitável é a decadência. Por fim, quanto mais velhos ficamos, mais difícil é a aprendizagem. É muito pequena a janela na infância onde tudo pode ser aprendido, desde a interpretação de estímulos luminosos serem transformados em imagens até habilidades muito especiais e refinadas, como tocar um instrumento musical. Não estou dizendo que, depois que essas janelas passam, é impossível e proibido aprender certas coisas, sempre existem os casos de pessoas que começaram tarde e se tornaram muito boas, etc. O que quero dizer que não é tudo na vida que você pode acordar, tenha trinta, quarenta ou sessenta anos de idade e dizer pra si mesmo: “nessa nova fase da minha vida, serei violinista. Nunca estudei música, mas basta contratar um bom professor e me dedicar bastante e tudo é possível.” Existe um discurso que diz que com força de vontade tudo é possível, e não é verdade.

O mundo adora os jovens, e mais ainda os prodígios. O próprio termo prodígio só se aplica a jovens, se você parar pra pensar. Um adulto que seja muito bom em algo, de certa forma, não faz mais do que a sua obrigação, porque se dedica a uma determinada atividade há muito tempo. E mesmo que ele se revele muito bom em algo que não fazia antes, vamos encontrar atividades correlatas que de forma indireta contribuíram para que ele tivesse um bom desempenho. Os jovens prodígios têm tantos feitos alardeados, que às vezes os feitos infantis se sobrepõem até mesmo ao que produziram de melhor, depois – porque o impressionante é fazer quando criança, depois de adultos era obrigação. Penso sempre em Mozart, que é tão famoso por ter sido prodígio, por ter composto a primeira não-sei-o-que na idade que nós ainda arrancávamos cabeça de boneco com os dentes. O que ele compôs naquela idade é completamente irrelevante, ninguém nem ouviu, as obras maduras de Mozart que são interessantes, mas gostamos muito de repetir a história da infância. A fixação nos prodígios faz com que nós, reles mortais, tenhamos sempre um sentimento de insuficiência. Os prodígios fizeram pelo menos dez anos antes o que você só começou a se interessar agora. Quem mandou demorar pra pensar, quem mandou querer namorar quando adolescente ou brincar quando criança, perdeu tempo!

Verdade seja dita, gostamos muito de pessoas mais velhas que voltam a estudar, talvez porque nem encaremos isso como uma volta. Conhecimento é sempre algo novo. Pensamos em pessoas que tiveram que se dedicar às famílias e ao trabalho e que só depois de tudo resolvido é que finalmente podem ir atrás do que deveria ter lhes pertencido por direito. Queremos pais e avós em universidade, que ter curso superior se torne comum. Eu adoro séries de arquitetura, como As casas mais extraordinárias do mundo e Grand Designs, e acho que não é à toa que nunca apareceu nenhuma casa brasileira por ali. Falta de milionários dispostos a ter casas fabulosas é que não deve ser, nem tudo é questão de dinheiro. Vejo nessas séries técnicas de construção e cálculos elaborados em várias etapas; aqui, o conhecimento é tão verticalizado que imagino que tremendo telefone sem fio seria conseguir fazer metade do que foi pensado pelo projetista chegar lá na outra ponta, na obra propriamente dita. Mas, para o nosso mercado de trabalho, parece que só fazer conta e ler instruções tá ótimo. É muito bonito alguém se formar já maduro, é um enriquecimento pessoal e etc., mas que ele pretenda usar o diploma que acabou de obter para entrar na profissão é outra história. Um recém-formado velho e sem experiência, o pior dos mundos.

As últimas eleições para presidente foram dominadas por fakenews transmitidas predominantemente por whatsapp, mas elas não são um fenômeno isolado, um “privilégio” brasileiro, elas estão relacionadas a um movimento anti-cientificista global. As pessoas não querem mais confiar em especialistas, que fazem afirmações baseadas em algo que só eles mesmos entendem. Por que devo confiar no que diz um livro sobre o formato da Terra se, quando olho para o horizonte, o que vejo é plano? Recomendo muito o documentário A Terra é Plana, da Netflix. Achar simplesmente é que é um bando de gente ignorante, burra e teimosa não ajuda em nada a entender o fenômeno. No documentário vemos que o terraplanismo – e podemos supor que as conclusões valem para teorias conspiratórios em geral – apenas aproveitou uma brecha que já existia na sociedade: pessoas com desajuste social e que encontram sentido de pertencimento em teorias fora do mainstream, com inteligência e espírito investigativo que não encontra meios de expressão no seu dia a dia. Como os próprios cientistas entrevistados no documentário refletem, a emergência das teorias conspiratórias também não deixa de ser um atestado de fracasso à nossa maneira de compartilhar o conhecimento científico, que de tão misterioso e isolado acaba se tornando quase mágico. E, crença por crença, o indivíduo pode se sentir mais empoderado em produzir a sua.

Acho que esta reportagem que saiu na BBC, sobre QAnon e teorias conspiratórias em geral, vai no cerne sobre o problema de se arrepender quando diz:

“Para as pessoas que estão totalmente envolvidas com uma teoria da conspiração, se o que está previsto para acontecer pela teoria não acontecer, não importa. Às vezes é aí que as pessoas se comprometem ainda mais fortemente com a própria conspiração. Isso porque, neste ponto, as pessoas investiram tanto tempo e energia nisso, danificaram suas relações pessoais em nome disso. Virar as costas à teoria da conspiração seria uma admissão de que o último ano, dois anos ou três anos de sua vida foram um desperdício”, explica Young.

O problema de voltar atrás é que nunca realmente se volta atrás, a Flecha do Tempo vai sempre para frente. Eu costumo imaginar a vida humana como uma régua, onde começamos no zero e vamos passando pelos números até chegar ao fim. Reconhecer que estamos errados é como estar lá pelo número trinta e riscar um zero em cima. Quantas vezes na vida conseguimos recomeçar a graduar no Zero sem que isso nos afete pessoalmente, sem o sentimento de vida jogada fora ou de fracasso? Em teoria, é possível reconhecer e apagar continuamente, inclusive é bastante raro que alguém não tome uma decisão que não foi a mais acertada pelo menos uma vez. Ao mesmo tempo, se tudo bem estudar uma graduação e depois trabalhar em outra coisa, se tudo bem ter um relacionamento longo e ele chegar ao fim, se tudo bem parar numa sala de aula com o dobro da idade de todos que estão lá… mas quantas vezes isso é viável? Quem suporta encher a régua da sua vida de zero, riscar aos vinte, aos trinta, aos sessenta, quantas vezes suportamos decidir, arrepender e mudar?

Meu pai bebia muito e a aposentadoria lhe deu tempo livre para beber o quanto quisesse, sem amarras. Aí ele dizia que tinha dificuldade de arranjar companhia, porque ninguém acompanhava o ritmo dele. Mesmo aqueles que, no passado, bebiam tanto quanto ele, já haviam se endireitado; os mais novos, que bebiam o tanto quanto, não viam a menor graça de ter um velho bêbado com eles. Eu lembro de mim mesma aos trinta, no meio de meninas de quinze, fazendo balé. As mães me lançavam olhares espantados e as professoras não sabiam direito o que fazer de mim, tanto que o último ato que me fez largar foi quando a Diretora nem ao menos me avaliou. Fizemos um dia inteiro de prova, fomos testadas de várias maneiras, algo bem rigoroso. Depois, tivemos uma conversa séria de avaliação, que continha não apenas as notas como comentários sobre o desempenho na prova e no ano inteiro, sugestões, perspectivas de futuro. Ouvi durante horas todas as avaliações das outras meninas, fui deixada por último. Quando finalmente chegou a minha vez, a Diretora disse: “não tem en dehors” e dispensou a turma. Não tinha, é biológico, e eu não tinha mais como desenvolver, não tinha corpo pra balé, pra quê perder meu tempo falando mais – foi isso o que ela disse sem dizer naquela frase curta. Entendo pessoalmente sobre começos e recomeços, então sei que até para se arrepender e se “endireitar” existem expectativas – sobre quem você é, quais as suas obrigações, quantos anos você tem. Depois de certa idade, não é mais pra passar vergonha bebendo ou querer fazer balé. A sociedade espera que determinadas mudanças de rumo aconteçam até certas fases; depois que “época certa” termina, deixa de achar interessante e passa a ver como ridículo, motivo de vergonha.

Ao mesmo tempo, o desejo de voltar atrás seja um dos sentimentos mais básicos, aqueles que nos tornam mais humanos. Não estamos sempre chafurdando a vida dos nossos ídolos através de biografias e/ou revistas de fofoca para descobrir seus pés de barro, que um grande talento por um lado também acompanha grandes problemas em outros setores, algo que também para o ídolo não foi tudo perfeito e em algum setor da vida ele diferente? Ou, dito de outro modo, alguém é capaz de acreditar na estrela que é rica, talentosa, boa pessoa, come rúcula, é feliz no amor e sempre amorosa com os filhos? Sabemos que ninguém passa incólume pela vida. Queremos descobrir as imperfeições não necessariamente para criticar, e sim para humanizar. O arrependimento é tão humano existe uma categoria especial de pessoa que faz qualquer tipo de atrocidade e nunca se arrepende: o psicopata. E a eles temos horror.

A existência de um sacramento como a Extrema Unção (que agora é chamado de Unção dos Enfermos) mostra que até o último minuto é possível se arrepender, e que mesmo sem a menor oportunidade de transformar o arrependimento em atitudes, ele tem valor. Angulimala virou monge, protegido por Buda, mas ainda assim teve que lidar com a fúria das pessoas pelo que fez. É a finitude da vida humana que tornam o voltar atrás ao mesmo tempo apavorante e bonito. Para Anne Rice, em Entrevista com Vampiro, a perspectiva de uma vida infinita literalmente matava os vampiros de depressão, porque depois de algum tempo o tédio era insuportável. Borges, em O Aleph, nos faz acompanhar um explorador em busca da fonte de juventude eterna, e ele por fim descobre que os bárbaros que estavam por ali eram os Imortais. Embrutecidos, imóveis e sem ambições, a eternidade era para eles uma maldição. “Encarados assim, todos os atos são justos, mas também indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. Homero compôs a Odisséia; postulado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias e mudanças, o impossível é não compor, nem uma única vez, a Odisséia”. (p.20). Nós só nos arrependemos porque agimos, só agimos porque vivemos; só nos arrependemos porque o tempo que nos resta é pouco, e é o pouco tempo que temos que torna a vida preciosa.

Enquanto os meus olhos vão à procura

Imagine a sensação de aparecer na sua vila, no seu bairro, um assassino tão cruel que as pessoas chegam a duvidar que seja um ser humano. Não é pra menos – além de ser extremamente grande e forte, o sujeito ainda faz questão de colecionar os dedos das pessoas que matou e usar todos unidos num cordão fedorento em volta do pescoço. Ele estaria em busca de um último dedo muito específico para tornar sua fama ainda mais amedrontadora: iria matar sua própria mãe. Com a possibilidade de encontrar esse sujeito na rua e morrer por pura bobagem, aí sim as pessoas praticaram isolamento social e não saíam de casa pra nada. Menos um forasteiro, um peregrino. Ele continuou seu caminho como se nada soubesse, e quando ouviu a voz retumbante do assassino que o mandava parar, respondeu:

-Eu já parei há muito tempo, Angulimala, você que ainda não parou.

Essa é uma história budista famosa e você a encontra facilmente no Google. O assassino veio ferozmente até Buda, que lhe falou de compaixão e perdão, até que Angulimala se converteu. Depois, já monge, Angulimala quase apanhou até a morte, por familiares de suas vítimas, e não revidou. Mas eu quis retirar a parte mítica da história porque eu acho que o que converteu Angulimala não foi nada do que Buda falou, e os budistas não gostam de vê-lo como uma espécie de deus com poderes. Se não foi pelo texto ou pela mágica, o que Buda fez de especial com Angulimala foi olhá-lo. Ele foi o único capaz de ver o ser-humano por debaixo do colar de dedos e se conectar com ele. Essa história me remete a outra, bem mundana, que Gilvan Moura, da Beatles School, contou em um dos seus vídeos (impossível saber qual, foi uma citação rápida). Numa discussão qualquer entre Paul McCartney e John Lennon, as coisas estavam cada vez mais tensas, até que John tirou os óculos e olhou bem nos olhos de Paul e disse: “Sou eu, John”. John, aquele que te conhece desde a adolescência, que sabe tudo a teu respeito e de quem você sabe tudo a respeito, frequentamos um a a casa do outro, brindamos juntos, sofremos juntos. Paul entendeu e se acalmou. Há, no olhar, uma capacidade mágica de trazer de volta, de nos aterrar.

Eu li uma vez – novamente citação sem referência, ter muita cultura inútil é assim – que na cadeia o criminoso mais temido era aquele que havia matado a facadas ou estrangulamento. Numa escala de mortes, até mesmo aquele que desvia merenda escolar ou recursos pra saúde é uma espécie de assassino. Existe quem contrate matador ou deixe o carro da vítima sem freio, mas de todas formas de matar, até mesmo se pensarmos em empurrar uma pessoa da escada ou dar um tiro, nenhuma exige tanto brio quanto ficar na distância de um braço; chegar perto, compartilhar do mesmo ar, sentir o atrito com o corpo, poucos conseguem. Mas acho que o que há de pior nessas mortes é enfrentar o olhar da vítima. Ler nos olhos dela a decepção, surpresa ou seja lá o que ela sentiu, e ler também refletido no olhar dela o seu próprio gesto e se encarar: ASSASSINO. Mesmo que segundos depois aquela consciência deixe de existir, alguém na terra carimbou com o olhar uma verdade que nunca poderá ser esquecida. Acho que ninguém consegue ser mais o mesmo depois de romper o tabu de tirar uma vida.

Nos meus maiores momentos de solidão, a música que mais me tocava era London London, do Caetano. Eu nunca tive vontade de morar fora e sempre tive a impressão de que quem sonha com isso viaja, na sua imaginação, direto para a casa de cerquinha branca e ruas tranquilas, reunido com família e amigos em volta da lareira. Eu não, eu penso nos primeiros meses, andando nas ruas que são tranquilas- todas ruas estrangeiras devem parecer muito seguras para brasileiros -, mas que não são as minhas ruas tranquilas. I cross the streets without fear/Everybody keeps the way clear/I know, I know no one here to say hello. Quando deixei de ser casada, eu descobri o quanto ter outra pessoa do seu lado é ter perspectiva. Outra pessoa é basicamente aquela companhia durante a viagem pra você apontar algo interessante e dizer: você viu? No casamento (e com as amizades muito antigas), os dois viram. Mesmo que nada seja dito em palavras, a existência de outra pessoa confirma a sua visão. E muitas das coisas que vocês viram juntos não existem mais fisicamente, seja porque todo entorno mudou ou até pessoas que foram levadas pela morte. Quanto mais avançamos no tempo, mais as coisas tendem a existir apenas nas nossas lembranças e pessoas que as compartilharam conosco ficam cada vez mais importantes.

Existem coisas que só vimos com poucos e íntimos, mas existem visões inteiras que são divididas culturalmente. Todas as pessoas que gostam dos Beatles, todas as pessoas que viram o show do Paul McCartney. Lembro de uma propaganda muito antiga onde se descobria um alien disfarçado no meio de astronautas do mundo inteiro porque a Coca-cola era uma referência em comum. A língua que compartilhamos cria uma identidade imediata. O que todos nós vimos por termos a mesma cultura, a mesma idade, as mesmas paixões? Eu lembro de estar numa balada na Espanha e tocar uma música específica que fazia todos cantarem com grandes gestos. Eu achei que fosse algum sucesso e descobri mais tarde que não, era uma música antiga e muito brega, então aquelas pessoas todas cantavam aquilo de forma irônica. É difícil não saber o básico, olhar e não ver porque, como aquela não é a sua história, você não consegue decodificar os símbolos. I choose no face to look at/ Choose no way/ I just happen to be here/ And it’s okay.

Quanto mais extrema a solidão, mais a gente percebe o quanto o olhar de reconhecimento é importante. Na falta do reconhecimento cheio de amor, serve ser conhecido de alguma forma, o importante é ser notado. Qualquer cachorro sabe que qualquer atenção é melhor do que nenhuma atenção e qualquer dono de cachorro descobre que precisa arranjar um jeito de punir seu filho peludo sem correr atrás ou gritar, porque isso apenas os estimula… Quando eu vi o filme A Rede, de 1995, que se pretendia futurista, logo achei o argumento básico furado. A personagem de Sandra Bullock é uma pessoa que trabalha online o tempo todo, então quando o governo a persegue e muda seus registros, não há ninguém que possa reconhecê-la porque nenhuma das suas interações era face a face. Hoje, ainda mais com a pandemia, é muito comum não precisar de nenhum contato face a face para trabalhar, pedir comida ou fazer amigos – mas nós fazemos questão. Nem que seja pedir comida sempre do mesmo delivery e encontrar sempre com o mesmo entregador, há uma necessidade humana de reconhecimento. Nós gostamos que o entregador veja a nossa cara, queremos ser tratados pelo nome, bilhetes escritos à mão em agradecimento nos comovem e nos fidelizam. As grandes empresas já descobriram que a melhor maneira de conquistar o consumidor é tratá-lo da mesma maneira que as pequenas, ou seja, de forma pessoal.

Mas, em termos de tempo conectados e possibilidades de falsear alguém, estamos ainda piores do que o filme poderia imaginar. Quando vejo os trabalhos de Bauman sobre relações e modernidade líquida, eles me lembram muito os trabalhos da Escola de Chicago (de sociologia e não aquela da economia) que descreviam a solidão nas grandes cidades. Tudo é muito familiar, a maneira como eles falam das pessoas andando na rua com olhares indiferentes, porque é muita gente e é cansativo e impossível ser pessoal. Há muito já encontramos diariamente mais pessoas do que um homem medieval via em toda sua vida, a novidade é o volume ainda maior de informação e contato virtual. O mundo descrito pela Escola de Chicago nos anos 20 já se estabeleceu, do mesmo modo que a liquidez descrita por Bauman, então não adianta mais lamentar o que perdemos. Então, já somos muito menos capazes de investir nas relações, nos faltam a paciência e maleabilidade das gerações anteriores que tinham duas opções de jeans na única loja do bairro – então bastava comprar um e o assunto estava resolvido, não havia outra opção possivelmente mais barata, vantajosa ou que manifestasse melhor o estilo pessoal. Para elas o casamento tinha que funcionar, os amigos precisavam ser perdoados, o emprego era aquilo mesmo, etc.

Enquanto todas as projeções apontavam para um mundo cada vez mais virtual, a pandemia deixou claro para todo mundo que imagens em tempo real e microfones são incapazes de substituir de maneira satisfatória o corpóreo. Podemos cometer a insanidade de achar que mil amigos no Facebook significa ter amigos, alimentar nossos egos através de Likes, mas a necessidade de encontrar pessoalmente não apenas não deixou de existir como se tornou um privilégio. Àqueles que queremos bem, não nos conformamos só com o virtual e queremos marcar encontros, e se for preciso até viajamos pra isso. E, sabemos, por experiência confirmada e reconfirmada, que milhares de mensagem de texto informam muito menos do que cinco minutos diante de alguém. Sabemos que digitar lindas mensagens e dizer que ama é fácil, mas que demonstrar com gestos e estar presente é outro patamar. Os videos de cachorros que latem furiosos quando separados e que se calam assim que o pequeno obstáculo é removido resume bem a internet. O anonimato e a possibilidade de ofender de maneira irresponsável têm exposto o que há de pior nas pessoas. É difícil conciliar que aquela tia de cabelo branquinho que faz blusas de tricô pros netos é a mesma que compartilha links preconceituosos de cheios de ódio. Apesar de parecer pura covardia, eu considero o fato de sermos tão mais ferozes no anônimo do que seríamos capazes pessoalmente é mínimo sinal de sanidade. Poucos de nós conseguem ser assassino à distância de um braço. Apesar de tudo, ainda é possível olhar fundo dos olhos de uma pessoa e fazê-la parar.

A vida é mesmo coisa muito frágil

Para quem é novinho e não viveu isso, o cantor Roberto Carlos teve uma esposa chamada Maria Rita, que morreu de câncer. Foi um assunto que mobilizou bastante as pessoas na época. Acho que quando alguém como ele – rico e famoso – perde alguém que ama dessa forma, todos nós lembramos o quanto a vida é frágil e que dinheiro e fama não conseguem resolver tudo. Ela morreu no final do ano e acredito que o especial do final daquele ano foi dedicado em memória dela. Até aquela data, eu não havia tido nenhuma perda significativa na minha vida. Aí me lembro que perto do meu aniversário, ou seja, no meio do ano, estava conversando com algumas pessoas, uma delas inclusive bastante fã do Rei. Ele fez alguma aparição na tevê e dedicou uma música à memória de Maria Rita. Lembro que as pessoas ao meu lado falaram: “mas ainda isso, não superou a morte dela ainda? Aí eu já acho doença”. Foi a primeira vez que eu lembro de ter reparado o quanto somos intolerantes ao luto.

Antigamente tinha aquele costume, o de vestir preto. Eu lembro que quando eu era criança ainda existiam umas remanescentes. A mulher ficava viúva e passava alguns anos só se vestindo de preto, sempre roupas muito fechadas. Era uma medida difícil de atingir: se a mulher passava muito tempo vestindo preto (algumas o faziam o resto da vida), o comentário é que ela era exagerada e tinha que seguir em frente; se a mulher passava pouco tempo de preto, era um irônico “já tirou o luto?”, como quem diz: “não sentiu nada a morte do marido e está doida pra arranjar outro homem”. Obrigar uma mulher a se vestir sem alegria pra se fazer notar à sociedade que ela havia sofrido uma grande perda – todo aquele processo me parecia meio medieval. Até aquela data, eu não havia tido nenhuma perda significativa na minha vida.

Off-topic: no livro “Quinta Avenida, 5 da manhã: Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o surgimento da mulher moderna“, de Sam Wasson, que discute os vários elementos do filme que o tornaram icônico, o autor diz que, na época em que Bonequinha de Luxo foi filmado, o vestido preto era vestimenta apenas de viúvas. Mulheres solteiras e casadas se vestiam com roupas coloridas. O preto passava uma dupla mensagem: de ser uma mulher enlutada, mas também sexualmente experiente. O filme teria inaugurado a associação que fazemos hoje de preto + luxo.

Pelamordedeus, não estou defendendo que devemos obrigar as mulheres que sofreram perdas a se vestirem de preto! O que quero dizer que, depois que sofremos uma perda muito grande, há um longo período em que tudo dói e que as pessoas deveriam ter mais paciência. Uma vez li em algum lugar que num país por aí, quando a pessoa tirou a carteira de motorista há poucos meses, ela anda com um enorme adesivo L na traseira do carro, que quer dizer Learning. Os outros motoristas vêem aquele L e já sabem que dali pode sair alguma besteira que não se espera de motoristas experientes. Acho que o motorista Learning fica mais tranquilo e os outros também. A pessoa em luto tem que fazer um esforço muito grande pra levantar da cama de manhã, tratar as pessoas com civilidade, não ter crises de choro constantes, até mesmo pra tentar sorrir e participar de um número infinito de ritos sociais inúteis que são ainda piores quando você não está bem. A pessoa em luto vai ficar mais chata, vai se irritar mais facilmente, vai ter menos paciência pra fingir que está tudo bem, enfim, não vai ser mais quem ela era durante muito tempo e seria muito bom que as outras pessoas se lembrassem disso e dessem um desconto.

A pessoa em luto precisa de tempo e paciência – justo os dois produtos mais escassos do mercado. Existe uma parte do luto que é orgânica, todo processo intenso de stress libera diversas substâncias que demoram algum tempo pra sair do corpo. Ficamos literalmente envenenados. Existem pessoas que reagem mal a acontecimentos traumáticos, que não se conformam, que não acreditam em melhoria, que não têm fé e vários outros fatores, mas mesmo para aquelas que realizam a parte que lhes cabe com o melhor otimismo possível, o orgânico também cobra seu preço – menor, mas cobra. Logo depois que eu me divorciei – não foi meu único luto desde então, mas sem dúvida foi o mais intenso -, ou melhor, alguns anos depois do meu divórcio, acordar se tornou o momento mais difícil do meu dia. Eu nunca acordava bem, a sensação podia variar de simples mal estar a total terror com a ideia de continuar viva. Depois eu saía da cama, tomava banho e começava o meu dia e gradualmente a sensação ia diminuindo, mas durante muito tempo eu só ia para a cama completamente exausta, nem pensar tirar soneca à tarde, e precisava de compromissos que me obrigassem a sair da cama correndo assim que o alarme tocasse. Com o tempo aquele terror foi passando, muito lentamente, tão lentamente que nem consigo determinar uma data. Lembro que o primeiro final de semana que o alarme tocou e decidi dormir mais um pouco, sentindo que gostoso era ficar entre os lençóis, foi uma grande vitória para mim.

O problema é que nenhum de nós tem tempo e equilíbrio nem pra si mesmo, quanto mais para sair doando por aí. Não quero fazer uma análise rasa aqui, mas estamos a toda no capitalismo e sempre nos sentimos para trás, a sensação é que se você parar um pouco ou se distrair, alguém toma o seu lugar – e isso não só em relação ao trabalho, vivemos essa pressão em tudo. Lembro de uma amiga, uma pessoa super determinada, que mal se separou e já começou a ir pra balada. Não estou dizendo “mal se separou” de uma maneira moralista, foi no final de semana seguinte e assim continuou até arranjar alguém. Nunca ouvi dela que o lugar era bacana, que ela gostava da vida noturna, que tinha uma turma ou gostava de dançar, ela ia porque tinha um objetivo. Um dia ela me perguntou aonde eu cortava o cabelo, porque queria aderir ao curto. A explicação foi: tem um monte de loiras de cabelo até os ombros na balada, eu quero me destacar. Ela fez todo um plano em como se recolocar no mercado de solteiras e me explicou que precisava agir assim porque era difícil, as novinhas estavam aí, se ela não arranjasse alguém logo ia ficar velha e quanto mais velha a mulher mais difícil… ufa! Mas ela também me disse chorava antes de dormir, o que eu não teria adivinhado apenas observando suas atitudes. Se eu mesma me sinto em falta e mal me sustentando em mim mesma, meu vizinho também, meu irmão também, se está todo mundo procurando um lugar no mundo, a pessoa que ainda por cima precisa de paciência acaba ficando pesada. Ei, não se pendura em mim que assim nos afogamos os dois! Mas, ainda assim, é preciso acolher. Somos humanos, precisamos uns dos outros, a própria continuidade da espécie só é possível se houver solidariedade.

Tem uma foto que circula de vez em quando na internet de um cachorro atravessando a rua e que leva a própria guia na boca. Nunca a salvei porque, apesar das legendas engraçadinhas, sempre achei a imagem meio dolorosa. Eu me identifico com aquele cachorro, acho que somos todos cachorros levando as próprias guias e se auto-passeando. Há uma porção da dor que não pode mais do que ser carregada e suportada, e apenas por nós mesmos. Feliz ou infelizmente, a nossa biologia em luto não está nem aí se existe capitalismo, se as estatísticas estão contra você ou se não parece racional, ela nos coloca pra sofrer e leva tempo. Depois que um braço quebrado sai do gesso, ele já passou pelo pior, mas ainda não está tão forte como o outro ou como era antes – e assim também somos por dentro. Acho que o único conselho possível ao luto foi o que eu recebi do meu amigo Milton Ribeiro: sobreviva. A tentativa é chegar na outra margem com alguma condição de continuar em frente, então é preciso evitar os excessos que vão impossibilitar reconstruir a vida depois que a dor passar, do tipo se tornar dependente de drogas ou ficar sem ter aonde morar. Alguns, pra conseguir chegar na outra margem, terão de tomar tarja preta, outros vão engordar, tem quem acabe comprando uma grande quantidade de sapatos pela internet, e eu acho que está tudo bem. Continue a nadar, apenas continue a nadar.

A humilhação da escrita

Eu tenho uma amiga que tenta há vários anos passar num desses concursos públicos muito disputados. A cada fracasso, ela me confessou ficar chateada não apenas por ela mesma, mas também por ter que admitir diante das pessoas que, mais uma vez, seus esforços deram em nada. Ela me disse que, para quem está de fora, é apenas uma sucessão de nadas, enquanto que para ela cada prova tem circunstâncias, histórias, progressos e regressos. Eu disse que sabia exatamente como ela se sentia, que escrever trazia o mesmo problema pra minha vida. Falei com sinceridade e só depois lembrei que ela era uma dessas pessoas que me falou que poderia escrever um livro ótimo sobre as muitas histórias amorosas que ela conhece, que basta um dia ela colocar se sentar diante do computador e colocar pra fora. Este “basta” é o que mata todo aspirante a escritor. Só quem tentou de verdade sabe que este “basta” contém tudo, e que quem acha que “basta” é porque nunca enfrentou o problema e nunca enfrentará. E por isso sempre olhará para o aspirante a escritor como um fracassado, porque como é possível existirem tantas histórias boas para serem contadas, que basta escrever, e diz você ter produzido muitas delas e ninguém quis publicar? Sinal de que o que você tem pra contar não é tão interessante assim, já no meu caso apenas bastaria que…

O penúltimo livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgaard, A Descoberta da Escrita é, sem dúvida, o mais interessante para qualquer um que sonhe em escrever. Ele me fez lembrar de outro livro: Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami. O próprio Murakami não é o caso do que citarei a seguir, porque ele pulou da vida de dono de bar de Jazz para escritor logo na sua primeira tentativa, que ocorreu quando ele tinha quarenta e dois anos. Depois de discorrer sobre a importância da disciplina necessárias para ser corredor e/ou escritor, Murakami diz que para alguns o talento é um lugar difícil de alcançar, e esse tipo de escritor é premiado pela sua persistência: depois de cavar muito, ele finalmente encontra o “petróleo” do próprio talento e a escrita fluir. O Karl Ove que conhecemos no Descoberta da Escrita é alguém que deseja desde sempre escrever e durante mais de dez anos é um sabido aspirante a escritor para todos o que o conhecem, desde a família até vizinhos. Ele até entra até num conceituado curso superior com outros escritores, todos pessoas maduras que já escrevem. O privilégio de estar cercado de tais pessoas acaba sendo muito doloroso, porque deixava claro o quanto ele era limitado. Karl Ove lê muito, aprende a teoria, passa fases da vida em que se dedica full time à escrita, noutras vira apenas um trabalhador comum, e no final nos confessa que levava dois anos pra produzir cerca de quatro páginas. Páginas lindas, revisadas, belamente escritas, mas apenas quatro trabalhosas e paridas à forceps páginas. Juntar um número suficiente de folhas para conseguir material para enviar para publicação era difícil, como vocês podem imaginar. E não dava certo.

Mas, claro, estou falando do incensado Karl Ove, e da série auto-biográfica que é considerada o novo Em busca do tempo perdido, o que mostra que no fim ele conseguiu superar tudo e o final é feliz. Quando, depois de dez anos de tentativas, ele finalmente consegue publicar, Karl Ove fica nas nuvens e liga pro irmão pra contar a novidade. A reação do outro lado da linha não é a festa e a surpresa que esperava, e o irmão responde algo como: “é que era meio óbvio que acabaria acontecendo, né?” NÃO ERA NÃO! – respondeu ele, respondo eu, responde a Cíntia, e tantos outros aspirantes a escritores pelo mundo afora.

Do lado de cá, tentamos arranjar falsas simetrias: há esperanças pra mim porque, como Karl Ove, eu levo anos pra produzir poucas páginas de qualidade, eu ainda acharei a minha fonte! Ou: eu acabarei me tornando uma grande escritora porque minha vida tem se tornado cada vez mais reduzida à vida interior, tal como aconteceu com Borges… Ou: sou um anônimo num emprego comum, como Bolaño; tenho a religiosidade de Tolstói; a feiura de Sartre; os tormentos de Virgínia Woolf; a timidez de Veríssimo, infelicidade no amor de Oscar Wilde; a dependência econômica de Marx… Queremos crer que a nossa infelicidade, impopularidade e limitações faz com que a vida nos deva, e queremos como pagamento que pelo menos ela nos permita a vaidade de ser um autor. Mas e os bonitões como Camus e Casares que faziam muito sucesso com as mulheres? Capote frequentou a alta sociedade, Suassuna era interessantíssimo, Jorge Amado tomava chopp com os amigos na praia, Voltaire era nobre, Vargas Llosa quase virou presidente. Ou seja, aquela minha amiga do concurso – que me disse aquilo em meio a uma das muitas caronas, porque ela tem carro e eu nem ao menos dirijo – pode um dia realmente sentar na frente do computador e sair dali um livro interessantíssimo. Ela pode passar no concurso e ganhar melhor ainda do que já ganha, publicar livro, trocar de carro, casar, e isso se somaria ao fato dela ser popular, bonita, inteligente, culta e viajada – e eu posso continuar na mesma. Procurar garantia na vida dos outros pra ver se vai dar certo na nossa é como aquelas estatísticas de futebol que dizem que o “time ganhou 69,5% das vezes que jogou em casa com o primeiro uniforme no inverno”, ou seja, não dá em nada. Daria pra terminar este texto aqui com uma constatação muito profunda e acertada: a vida é injusta.

Eu me pergunto o que seria de mim e de outros frust… aspirantes se fôssemos noruegueses ou até mesmo argentinos. Um dos nossos grandes problemas – e começo aqui a explicar o que há de tão difícil que as pessoas não entendem – é o fato de morarmos num país onde poucas pessoas leem. Publicar é uma atividade tão pouco lucrativa que o escritor brasileiro precisa ser ainda melhor para ser publicado, a seleção é extremamente difícil. As editoras precisam lucrar e para elas é mais garantido publicar autores como J. K. Rowling ou Elena Ferrante, ou atores globais, do que investir num desconhecido. Já é difícil para o brasileiro entrar numa livraria para comprar um livro clássico, quanto mais ver um João da Silva na capa e decidir levar. Existe também o regime de participação, onde o escritor banca uma boa porcentagem do custo da publicação. Na prática, todos os que fazem isso os fazem apenas para realizar seu desejo, porque é um investimento sem retorno – não vende o suficiente pra recuperar o dinheiro e ainda fica atravancando a casa. Por isso que quem escreve, seja em editora grande ou pequena, sempre se empenha na propaganda e acaba apelando para os amigos.

Existe também o problema da escrita em si, daquele diabo do Talento. Não existe nenhuma história que não tenha sido contada e recontada muitas vezes; se você acha que existe algo inédito a ser dito, e ainda por cima esse algo inédito está em você, lamento dizer mas isso é tão somente ignorância, falta de cultura. Existe livro sobre tudo que já existe, existiu ou existirá, tenha certeza. O grande segredo é a maneira de contar, a mágica de transformar algo muitas vezes banal numa narrativa que te faça abrir mão de tempo de vida para descobrir aonde aquela sequencia de palavras vai te levar. Que interesse poderia haver em ler as opiniões de um tuberculoso amargo que desprezava todos à sua volta como Thomas Bernhard, ou até o próprio Karl Ove, com seu padrão estúpido de estragar tudo com álcool e sexo? Por isso a lógica de vender livros de celebridades ou para amigos, porque metade do caminho é se interessar em saber o que o outro quer dizer. Mas a boa literatura é aquela que consegue gerar o desejo do zero, que um nome completamente desconhecido – de quem podemos ignorar a origem, que época viveu, até mesmo se é homem ou mulher – nos entusiasme apenas pelo que escreveu. Franz Lebowitz, na série sobre ela na Netflix (Faz de conta que NY é uma cidade) faz a definição perfeita do que seria um livro ruim: era aquele que ela começado a ler e, depois de ser interrompida com alguma tarefa banal, esquecia de retomar. E completa: “é muito pior do que fechar o livro, furiosa”. Saber escrever direitinho, com início-meio-fim, com frases que obedecem as regras gramaticais, enredo e personagens é apenas o muito básico. Pode ter certeza que todos nós que temos livros na gaveta sabemos fazer isso, não precisa nos recomendar livros de Como escrever uma história, Escrita criativa e afins. Não é pelo básico que as editoras nos rejeitam e sim pelo que escapa do controle: que o que escrevemos pareça fresco como algo que nunca foi dito e instigue o leitor.

Chego no final deste texto como Virgílio deixando Dante às portas do Paraíso. Pensei em falar da loucura que é querer tanto publicar um livro, sendo que isso não é sinônimo de vender e ser lido, menos ainda de se tornar uma pessoa relevante pra literatura. Quem sabe seja igual fazer aquele belo corte de cabelo e descobrir minutos depois que não estamos mais sedutoras e confiantes. Já imaginei várias vezes como seria receber o e-mail ou telefonema que diria que meu manuscrito foi aceito, pensei em lista de agradecimento e dedicatória, me perguntei se passaria a me apresentar como escritora cada vez que preenchesse uma ficha. Mesmo ignorada pelo mundo, imagino que algo dentro de mim realmente seria curado, tamanho poder simbólico que o meu próprio livro teria pra mim – mas aí já estou entrando em terreno desconhecido. Você chegou até aqui, mesmo sem se interessar em publicar? Então muito obrigada, porque é isso que eu busco o tempo todo.

Os mapas mais complicados

É sempre surpreendente pra mim quando certas pessoas me procuram querendo um mapa astral. Pessoas com quem não tenho muito contato, ou às vezes que até tenho mas que nunca pensei que me procurariam para falar sério. Nunca na minha vida estive tão próxima da minha primeira formação, em psicologia. Conheço algumas pessoas que teria conhecimento o suficiente para lerem mapas para estranhos, mas ler mapa astral tem muito a ver com aconselhamento e acaba sendo algo íntimo e muitas vezes pesado. Não apenas não dá pra sair comentando o que foi falado, como eu nem ao menos falo quem já fez mapa comigo. Eu vejo que o que me faz poder encarar o tranco é aquela formação que tive lá atrás, que de certa forma era um comprometimento em lidar com a parte pesada da vida pessoal, e o fato de eu mesma ter um mapa bem difícil. Nada a ver eu ficar falando do meu mapa por aí e só cito em atendimento se acho que vai contribuir em alguma coisa, então apenas confiem em mim quando digo que é difícil; meu mapa me faz ter a certeza de que mesmo com tudo errado, mesmo torto, mesmo esquisito, dá pra se viver. Ou melhor: tem que se viver.

Um dos astrólogos que eu tenho como referência e crush, Ryan Kurczak, é co-autor de um livro chamado “A Arte e Ciência de Astrologia Védica“. Acho o título perfeito, porque há muito de arte envolvida na interpretação de um mapa e é difícil explicar para quem é de fora. Eu lembro a primeira vez que fui num dentista e ele comentou a obturação que eu fiz com outro, e aquilo me pareceu muito estranho – obturação não era tudo igual, um buraco tampado com massa? Não, não é. Eu jamais poderei admirar o que foi feito na minha própria boca, mas há dentistas que são mais habilidosos, que preservam mais o desenho do dente e outros mistérios que eu nem alcanço. Com astrologia também é assim, é mais do que A + B = C. Antes eu adorava informações categóricas do tipo “regente da casa doze na casa sete é casamento com estrangeiro” ou “Vênus em conjunção com Marte gera muita sexualidade” e hoje sei que tudo fica muito mais complicado quando você tem o mapa de uma pessoa de verdade na sua frente. A leitura de um mapa é um daqueles eventos que a gente guarda para a vida, às vezes é a lembrança pra que você apela quando as coisas estão difíceis, então é preciso ter muito cuidado ao se fazer certas afirmações. Já disse antes que é íntimo e parece um pouco terapia? Pois é.

Os astrólogos recomendam: se você quer estudar o seu mapa, não vire astrólogo, contrate um. Eu vivo uma gangorra em relação aos meus aspectos: ora descubro que alguma coisa é péssima, e vou dar uma chorada no twitter, “que péssimo viver dessa maneira”; ora descubro uma coisa boa e fico feliz de novo. Eu estou envolvida demais pra conseguir mensurar – e é por isso que é preciso procurar seu astrólogo – o peso de uma coisa ou outra. O que sei dizer com certeza é que tenho um mapa intenso e quando/se o dólar baixar, se Vishnu permitir, vou me consultar com um dos astrólogos que eu admiro… Adoro a astrologia védica não ter papas na língua e dizer que sim, alguns aspectos são melhores do que os outros, algumas combinações planetárias, casas, graus, períodos, ascendentes, são melhores do que os outros e, em contrapartida, algumas combinações planetárias, casas, graus, períodos, ascendentes, acrescentam dificuldades à sua vida. Mas aí quando você lê a verdade nua e crua sobre o seu mapa, e percebe que você não está na classificação dos mapas de seres iluminados e talentosos, acaba sendo necessário dar uma pausa de horas ou até dias até assimilar.

Os donos dos melhores mapas provavelmente nunca procurarão um astrólogo – a pessoa simplesmente não precisa. Mesmo nós, reles mortais onde o ótimo e o péssimo se misturam, não queremos adivinhação nenhuma quando tudo vai bem. Dá medo, é como procurar uma cartomante em início de namoro, toda apaixonada. Vai que ao invés de dizer que tudo vai dar certo, ela diz: “e esse porcaria novo que você arrumou, hein? Já te contou do filho que fez na outra e abandonou?”. Então, se a pessoa se sentiu motivada o suficiente pra procurar alguém que faz mapa e pagar, é porque tem algum treta, nem que seja apenas interna.

Mas eu até me pergunto o que dizer para esses donos dos mapas fáceis que aparentemente encarnaram a passeio, é como gente que tem problemas por ser linda demais. Que coisa maravilhosa deve ser ter tudo o que se deseja, desconheço a sensação; o meu coração bate mais forte e se identifica com os mapas difíceis. A pessoa com mapa difícil é a pessoa que teve que se virar, é a versão astral de quem nasceu sem ser desejado, cresceu sem amor, estudou como deu, e agora enfrenta a vida adulta usando a mesma calça jeans e camisa que os outros candidatos a emprego, sem que saibam a luta que ela empreende para aparentar normalidade. Nem todo mundo tem uma Vênus super favorável, mas todos querem dinheiro, beleza e serem felizes no amor, então como é que faz? Alguns apelam pra lábia e amizade de Mercúrio, outros pra iniciativa de Marte, alguns se tornam sólidos e confiáveis como Saturno. Porque nenhum mapa é forte em tudo, mesmo mapas legendários das encarnações divinas (existem mapas de Krishna e Rama, isso sem falar em vários mestres de yoga) mostram que aspectos fortes também podem trazer problemas igualmente fortes.

Eu já fiz mapas de pessoas com certas posturas que, se tivessem perguntado a minha opinião, eu diria que não concordo. Mas aí quando vi o mapa, ele dizia que a pessoa estava certíssima, aquela era a essência dela. Já vi mapa com posições difíceis e a pessoa fez milagre diante do pouco que tinha. Nunca aconteceu com vocês de conhecer alguém que parecia ter um comportamento obviamente inadequado e você não sabia como ela não se corrigia, até que de alguma maneira você entra em contato com a origem dela (leiam “origem” em sentido amplo) e tudo passa a fazer sentido? Ler um mapa é uma experiência assim. Os mapas difíceis me dão uma vontade ainda maior de ajudar, de tentar achar um caminho pra fazer dar certo. Cada pessoa de mapa complicado que dá a volta por cima, sou eu que também posso dar a volta por cima; cada pessoa de mapa ruim que consegue ter uma vida boa é um exemplo que melhora a minha vida também.

Escrever para não ser lida

Quando eu clico numa postagem antiga do blog, em qualquer ano, eu fico assustada com o quanto de sinceridade auto-biográfica tem ali. “Meu Deus, eu falei disso com todas as letras na internet?”. Por isso eu não sei se consigo voltar a escrever aqui com a frequencia de antes. Olho para a maneira como o conto do Paulo Coelho ocupou muito espaço e fico feliz, acho que criou tipo uma tampa que me protege do que um monte de pessoas já fizeram: começaram a ler o texto mais recente por curiosidade e foram subindo e voltando no tempo. Já recebi e-mails falando disso, de gente que estava “há horas” maratonando o blog e descobrindo tudo a meu respeito.

Mas eu tirei férias apenas de escrever no blog. Embora pareça que tudo foi acontecendo espontaneamente, eu criei uma fórmula para escrever, baseada no que eu via em outros blogs. Eu via que não gostava nem quando as pessoas eram extremamente pessoais, do tipo “eu fui pra uma festa, eu encontrei Fulano, eu dancei e voltei pra casa”, assim como também não gostava quando as pessoas discutiam o sentido na vida, algo que elas pensaram, mas de maneira completamente abstrata. De tanto retirar o lado pessoal de como se chegou na conclusão, a postagem fica parecendo mais um apanhado de frases de auto-ajuda. Minha observação me fez pensar que minhas reflexões só ficaram interessantes se acompanhadas de pitadas de biografia. E sempre procurei deixar a reflexão em aberto, porque acho que dizer tim-tim por tim-tim o que eu queria expressar seria duvidar da inteligência do leitor.

Com o tempo, e com a consciência de que o blog foi se tornando uma grande biografia nem sempre lida por quem gosta de mim, a fórmula foi ficando cada vez mais sufocante. Embora a minha intenção nunca tenha sido criar um personagem, eu senti que a persona Caminhante foi se tornando muito característica. Eu lembro de uma amiga que colocou no blog pessoal um mini conto erótico, aí nos comentários apareceu gente reclamando de que ela estava sendo infiel ao marido, ou que era vagabunda, algo assim. Meu blog passou a ser um espaço onde apenas os temas da “Caminhante” poderiam entrar, com seu olhar melancólico-otimista, praticamente ignorando sexo, desviando de falar mal de alguém, etc. Percebi várias vezes que alguns homens se aproximaram de mim já cientes do que eu havia escrito e fingiam que não, que nunca leram nada meu, para assim poder usar o que sabiam à favor deles. Nada contra ler meu blog e saber muito a meu respeito (“estou ciente e quero continuar”), tudo contra tentar me manipular.

Eu escrevi muito durante a pandemia, todos os dias. Tenho escrevido contos e os tenho enviado para concursos e editoras. Como nos regulamentos diz que não podem participar contos que tenham sido publicados na internet, eu fico impossibilitada de colocar aqui para não perder o meu material. Acho que um lado meu sempre teve esperança de que o blog um dia chamaria a atenção de alguém e tal, que editora importante entraria em contato comigo dizendo que me queria, porque eu sei que isso existe. Nunca nem me enviaram livros para escrever, menos ainda que eu escrevesse um, assim como nunca me tornei uma blogueira famosa. Então, por mais satisfatório que o blog seja, de certa forma ele é um grande ralo de textos. O que for publicado aqui é perdido; publicar aqui nunca me deu nem ao menos prestígio, eu sou só uma que “faz uns posts legais”, então fui correr atrás de um pouco de resultados, amigos. Já estou entrando na idade que perde as esperanças e as sementes apodrecidas se tornam amargor.

Mas deixa eu contar que essa vida de escritora séria, que escreve com liberdade e com muitas páginas, tampouco está sendo fácil. Longe dos olhos de vocês, apenas eu e o computador, é tão difícil se manter confiante. Eu escrevo porque não sei mais viver de outra maneira, independente de qualquer resultado. O personagem de ficção com quem eu mais me identifico no momento é Geppetto. Passei a entender a história de dele de outra forma – enquanto todo mundo se fixa no boneco mágico que conta mentiras, eu penso no velho solitário que fabrica para si uma companhia. Escrever é isso para mim, é a minha companhia, sou como aqueles personagens de desenho animado antigos que estavam com fome e desenhavam uma comida no papel e comiam. Incapaz de ter um amor, eu escrevo sobre amor; em busca de um sentido, eu escrevo sobre sentido. Quando recebo os muitos nãos dos concursos e editoras e fico triste, eu escrevo sobre ser rejeitada e ficar triste.

Sobre crushs, devo confessar que é meio dose homem chegar perto de mim e ser bolsonarista (moro em Curitiba, praticamente todos os heteros são minions). Achei que seria tão lindo, tão Nothing Hill, um homem se interessar por mim apenas por me olhar e trocar algumas palavras comigo… aí eu me peguei quase anotando o endereço do blog e entregando pra ele ler e já se localizar antes de dizer alguma besteira. Um ano na internet é como uma década na vida real, então mesmo depois de escrever durante dez anos, eu me tornei ninguém por deixar de postar. Até escritora eu conheci e nem ao menos pude dizer que “eu também escrevo” porque abri mão da pequena vitrine que eu tinha – pequena, sem prestígio nenhum, desprezada como coisinha fácil, mas pelo menos era um espaço.

Por isso estou aqui, agora. Voltei pra ter um tiquinho de calor.

O óbvio

É uma semana inteira de meditação, mas o estalo que me deu foi logo na primeira que eu me sentei, nos primeiros minutos. Não foi um estalo – nunca é – ou uma sensação de uma grande descoberta. Foi algo tão ridiculamente óbvio que cheguei a mover a cabeça para os lados, inconformada. Lembrando que eu deveria me manter completamente imóvel nos próximos quarenta minutos, sentada de pernas cruzadas e olhando para a parede.

Eu comecei a meditar sozinha aos quinze anos, mesma idade que parei de comer carne, e as duas decisões não foram coincidência. Ávida leitora de livros de Yoga, eu queria seguir seriamente um caminho espiritual. Naquela época, calculei que começando tão mais cedo do que as outras pessoas, aos trinta já seria um ser tão meditativo e iluminado que já poderia ter contato com algum mestre, sem dúvida teria experiências como extases, sartoris, completo domínio dos meus pensamentos. Quase trinta anos depois, posso dizer: não tive nada. Se paro para pensar no assunto, me sinto a pior meditadora possível. Nunca tive estado nenhum, nunca consigo controlar nada. Faço lista de compras, penso no almoço, no que vou tuitar, no vizinho, cantarolo, conto o barulho dos segundos no relógio, tudo. Mas, de alguma maneira, minha mente parece gostar disso.

Comecei a frequentar o centro pouco antes da pandemia, porque meu irmão já ia. Eu queria incrementar minha meditação, depois de tantas décadas sem progresso e sem conseguir aumentar minha prática, achei que um grupo seria uma boa. Conheço várias pessoas que admiram muito a Monja Coen e eu nem ao menos sou uma delas. Não estou dizendo que desgosto, mas ver na minha TL gente dizendo que sente paz só de olhar para a foto dela é muito para mim. Assim como uma vez uma amiga desceu o pau nela, com argumentos da qual ela mesma se arrependeu mais tarde e ficou impressionada com a minha paciência: “Como eu pude falar mal da Coen justo pra você, que frequenta um centro dela! Era o caso de você ter me mandado tomar no cu.” Juro que não foi nenhuma bondade que me fez não mandar. Talvez eu devesse ser mais apegada a Coen; meu pensamento no momento que eu ouvi aquelas coisas foi de que minha amiga prejudicava apenas a si mesma – eu não iria deixar de frequentar, a Coen nem ia ficar sabendo, já ela ia deixar de ouvir voluntariamente algo que parecia estar lhe fazendo bem…

Poucos meses depois de eu começar a meditar com eles nos sábados, anunciaram um retiro de Carnaval. Eu estava muito mal naqueles dias e previa que ficar sozinha no Carnaval não seria bom pra mim. Teve uma vez que eu viajei pra uma fazenda com o Alessandro Martins, um daqueles rolês bem aleatórios, e minha motivação para o retiro foi basicamente a mesma daquela época: não quero ficar só. Então enfrentei dias de meditação, saía de casa de manhã e voltava à noite, completamente quebrada. Tem hora que a gente já sente o ciático doer só de olhar para a almofada. Decidi algumas vezes chorar e derramar minhas dores todas ali, o que fiz. Mas era tanta meditação que eu chorava, secava, ficava com o olho ardendo por causa do salgado das lágrimas e ainda estava sentada. É uma sensação bastante ridícula.

Foi no retiro que eu descobri que Buda não curtia astrologia. Repetimos várias vezes aquele que foi o último discurso dele antes de morrer e acreditam que uma das primeiras coisas da qual ele fala é que não é pra fazer mapa astral? Não nessas palavras, mas ele fala para não consultar as estrelas. Buda era indiano, várias coisas nos textos fazem referência ao hinduísmo e os budistas nem tem muita noção do que é. Falam de Indra, falam das cinco direções. Ter que repetir aquele discurso, aquele trecho, me deixava muito magoada. Se o Divino achava errado, por que me deixou sem opção? Um dos motivos para estar sentada em retiro, sentindo o coração em carne viva, era o fato de que tentei muitas coisas na vida e fracassei em todas. Estava naquela fase da vida cheia de talentos e experiências, mas incapaz de me manter, pressionada por ex-marido, sem amor, sem livro publicado, sem nada. Das minhas muitas paixões, a única que estava dando brotinhos era a astrologia, e esse pouco que o destino me permitia tinha que ser avacalhado constantemente pelo centro que eu ia? Eu não poderia fazer parte de uma crença que desprezava o que eu fazia. E é Kshatriya, que aportuguesam como Xaquiamuni. É a casta guerreira, a mesma da família Bharata, do Mahabharata.

Aí veio a pandemia. Não preciso explicar a pandemia, as muitas lives, as inúmeras reuniões de zoom, o que perdemos e o que ganhamos, disso falaremos o resto de nossas vidas. Eu já fazia parte do grupo de whats da sanga e o começo foi confuso, sem horário, tentando ver o que dava para fazer por zoom. No fim, de todas as atividades da pandemia, meditar pelo zoom é a única que eu realmente achei que funciona – talvez porque basicamente a gente já não se olha mesmo. Havia dias que meu único contato humano era a sala de meditação. De pessoa que ia lá só aos sábados, entrava muda e saía calada, acabei virando das mais participativas. Insisti num horário de meditação porque ele me era conveniente e, como apareci lá sem falhar todos os dias, o horário pegou. Meu professor começou a dizer que eu já meditava pra caramba, já havia feito retiro, participava de grupo de estudos, zoava as pessoas pelo whats, por que não assumir publicamente meu comprometimento e virar budista de uma vez? Eu dava risada, dizia que gostava muito de ser leiga, dizia que sabe-se lá que nome budista me dariam.

Agora volto a mim mesma sentada, no maior e mais importante retiro do ano do Budismo Soto-Zen, o da primeira semana de dezembro. É um retiro de uma semana, que faz referência a uma semana que Buda passou debaixo da árvore, determinado a alcançar a iluminação e só parou quando, ao ver a estrela da manhã no oitavo dia, declarou: “Eu, a grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho“. Como todos os retiros ao longo da pandemia, foi on line. Há algo de sagrado quando você senta sozinho porém junto, sem olhar para ninguém mais sabendo que estão lá, mais ainda quando há pessoas do mundo inteiro com você. Eu sentei sem ter qualquer questionamento em especial, pelo menos não na minha relação com o budismo ou a meditação. Eu gostava das pessoas da minha sanga, gostava de sentar em zazen e, nessa altura da vida, nem sonho em ter do sentar mais do que acalmar minha mente. Aí a obviedade fez plec e decidi fazer os votos.

Para contar a história de uma maneira gráfica, eu me imaginei no meio da sanga de São Paulo, que é grande. Eu me imaginei vestida de preto e todos vestidos de preto, como manda o figurino. Eu de rakusu, que é o símbolo de ter recebido os votos. Quando precisasse dizer qualquer coisa, o que somos, o que fazemos, no que acreditamos, eu saberia que não era como os outros, professores, ex-católicos, espíritas. Eu me sentiria estranha porque faço mapa astral védico. Veja bem, não é que eu fazia e acreditava, não era o meu passado sujo que abandonei porque virei budista, era o meu presente. E minha relação com isso só fazia aumentar, estudando noite e dia as histórias hindus, amando cada vez mais cada planeta, tendo deuses favoritos, tentando aplicar princípios de ayurveda e remédios astrológicos, absorvendo e sendo absorvida por isso cada vez mais na minha vida. Eu me sentiria mal, eu me sentiria estranha. Mas é claro, é ÓBVIO. Eu me sentiria estranha no meio dos budistas por fazer mapa. Mas se magicamente surgisse um grande emprego, se finalmente virasse escritora, se o destino tirasse a astrologia da minha vida, eu ainda assim me sentiria estranha. Seria por um outro motivo qualquer; como numa caixa de lenços que quando você tira um o debaixo salta pra fora, outro estranhamento surgiria na frente. Eu jamais me sentaria com aquelas pessoas todas de preto sem me sentir diferente, uma farsa, uma que chegou cedo ou tarde demais, impura numa quantidade de crenças e experiências variadas que nunca combinam totalmente com quem está do meu lado. Assim como me sentia assim do lado do pessoal do flamenco, sem jamais ficar tão alegre como eles cantando e dançando nos lugares públicos, sem achar que eu tenho talento, jurando que quando me convidam pra dançar é só porque conto piadas, jamais pela dança em si. E assim foi em toda a minha vida, em todos os grupos, com todas as pessoas, e assim seria no budismo também. Eu jamais me adaptaria a lugar nenhum, eu jamais deixaria de ser um bicho estranho.

E, no entanto, apesar de achar que não faço parte dos grupos, eles me viam como parte deles e me deixavam viver coisas maravilhosas com eles. Os lugares onde eu dancei, nadei, os bastidores, as reuniões, as confidências. O carinho das pessoas, elas me verem e dizerem o meu nome e me convidarem pra entrar. Apesar de tantos fracassos, há os que insistem em dizer que me acham talentosa. Eu nunca fui totalmente de grupo nenhum, mas a culpa jamais foi deles. Eu que sou esse bicho estranho, eu que sou Rahu, eu que sou alien, eu que sou esquisita em nível hard – e tenho desenhos que fizeram de mim, tenho conversas por escrito de amigos que jamais negaram que eu sou muito estranha, mas também jamais se negaram a estar comigo por isso. Então eu me tornaria budista sim, sabendo que jamais entrarei numa sala com eles e me sentirei à vontade, que jamais serei budista o suficiente, que a qualquer momento a vida pode me levar pra outra direção e eu vou largar o tal do rakusu num canto e nunca mais pegar, porque esses movimentos nunca dependeram de mim, eu sou apenas uma marionete. Mas aceitar o que eu estava vivendo naquele momento, com aquelas pessoas, com a sanga de Curitiba da qual eu já gostava tanto, me proporcionaria experiências maravilhosas, como todas as outras experiências que tive em grupos. Como pode alguém ser tão solitária e grupal ao mesmo tempo. Como pode eu ter sido assim a minha vida inteira e isso só se mostrar óbvio agora, quando eu já estou na segunda metade.

29. Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho conhecem uma mulher misteriosa

Eles se viram no meio da rua; talvez pela sonolência e a surpresa, nem atinavam onde estavam e para onde deveriam ir. Todos os planos de Christina Oiticica iam até a placa e resolver o problema, ela não quis nem pensar na possibilidade de não dar certo. A tristeza tomou conta deles, dos seus rostos, dos seus gestos, nos passos desanimados, nas sombras que projetavam na rua. As sombras que as ruínas projetavam eram sombras tristes, os ecos dos passos na rua eram perdidos, o ar da noite era de desesperança. Surgiu, eles não souberam localizar da onde, uma mulher muito velha e expressão bondosa. Sem dizer nada, ela fez um gesto com a mão pedindo para que eles a seguissem, e eles foram atrás dela por dentro de uma ruela escura.

A mulher virou uma ruína pra lá, uma escadinha medieval pra cá, entrou num beco e, numa rua sem saída, entrou numa portinha ao lado de uma loja de souvenires numa construção toda de pedra. Subiram um andar e a escada era de pedra e os degraus altos, desajeitados. Quando a porta da frente se abriu, deram de cara com a sala e uma ampla janela com vista para a praça. A lua estava cheia e a sala cheirava incenso. A mulher acendeu a luz, mas ela era tão fraca que foi quase como se não tivesse acendido. As paredes eram forradas de tecidos de cores intensas e detalhes bordados em dourado. Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho sentaram em volta da mesa redonda e aguardaram em silêncio enquanto ouviam a movimentação na cozinha. Pouco tempo depois a mulher surgiu com xícaras descombinadas cheias de café com leite e algumas bolachas.

O nome dela era Tâmara. Ela lhes perguntou pouca coisa, os seus nomes e de onde eram. Achou o Brasil “tão longe”. Ela não, nasceu e cresceu naquele lugar, naquela casa. Embora estivessem os três à mesa, Christina Oiticica percebeu que era como se ela não existisse – Tâmara se dirigia somente a Paulo Coelho, que lhe correspondia com um olhar hipnotizado, absorvido. Enquanto mexia vagarosamente o café e fazia a porcelana tilintar de maneira ritmada, Tâmara então começou a lhes contar da sua mãe, que usava uma saia volumosa que se arrastava pelo chão e mal lhe cobria os pés descalços. Que o corpo da mãe cheirava a incenso e curry. De que puxava a saia para chamar atenção da mãe, que lembrava das suas mãos presas na saia, tufos de tecido entre os nós dos dedos gordinhos. O braço bronzeado da mãe sobre a mesa, a mão forte que subia e descia com a tesoura quando ela fazia roupas para as duas. Daquela mesma janela, ela via o homem passava pela rua acendendo os lampiões. A casa tão quente com o forno à lenha, os adultos que apareciam na janela para chamar quem estava na rua. O pão com alecrim. Enquanto Tâmara falava, a lua se movia lentamente no céu, criava sombras estranhas e Christina sentia suas pálpebras pesarem. Jogar frutinha nos turistas em cima da árvore. O amor, ah, o amor. O calor quando via o moço bonito esperando ela passar pra pegar água. As roupas apertadas quando os seios começaram a despontar. A mão do vizinho por debaixo da blusa, no muro que fica logo ali. O vestido de casamento reformado de presente da vizinha. Partir um pão em quatorze pedaços pra ele durar a semana inteira. Tiros de madrugada, os soldados de Franco. A vida crescendo dentro dela. Os olhos da mãe se tornando azuis.

Quando a lua completou todo seu passeio e o sol surgiu no horizonte, rasgando o céu limpo e transformando em desenhos de elefantes miúdos, padrões geométricos e flores de lis o que até pouco tempo eram pequenas manchas nos tecidos, Christina Oiticica abriu os olhos e viu de novo onde estava. Piscou, e piscou novamente tentando ajustar o olhar, tentou espantar o sono e as visões. Mas não era o sono e nem visão: as linhas em torno dos olhos e da boca de Tâmara se desfaziam suavemente, exibindo um rosto forte de uma mulher morena de lábios carnudos, enquanto Paulo Coelho perdia seus cabelos, a gordura se acumulava na barriga e suas mãos exibiam manchas senis.

 

FIM

28. Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho tentam desfazer a magia cigana

O problema é que Dom Pepe havia dito que eles deveriam encontrar a placa, mas não o que fazer. Chegaram ali e nada aconteceu. Christina Oiticica chamou Paulo Coelho, que naquele instante estava fazendo um post no Instagram e lhe pediu para tocar a placa, se concentrar. Nada ainda. Ela pensou então em puxar uma oração, que também não adiantou. Ela socou a placa, chorou, apertou os olhos e fez força, tentando dirigir seu pensamento pra algum lugar. Christina Oiticica se sentia cada vez mais desesperada, afinal a pessoa que entendia de magia ali não era ela.  Depois dessas duas tentativas, ela queria continuar por ali, na esperança de ter alguma iluminação ou que algo acontecesse, e Paulo Coelho quis se afastar para continuar seu passeio. Ela lhe disse que ele não podia se afastar dali, ele não queria ficar, ela lhe disse que aquilo não era um pedido e eles começaram a discutir. Então ela foi obrigada a abrir o jogo, e dizer que eles estavam ali porque Dom Pepe lhe disse que era aquela a maneira de reverter o rejuvenescimento.

Christina Oiticica havia escondido a informação até aquele momento porque sempre viu o novo Paulo Coelho saltitante por aí, e acreditava que ele estava muito feliz com a nova condição. Mas, depois de lhe dizer a verdade, pela primeira vez desde que ele havia rejuvenescido, ela viu de novo o olhar do seu marido brilhar naqueles olhos. Ele lhe confessou que não estava feliz em estar jovem daquela maneira. Ele sentia que o raciocínio dele não chegava mais aonde chegava antes. Se por um lado sentia mais energia, não sabia mais o que fazer com ela. Terminou dizendo que sabia que ela não o amava mais e isso partia o seu coração, e começou a chorar. Realmente, seu marido estava se perdendo, chorar daquele jeito… Os dois se deram as mãos e rezaram juntos em voz alta, sem parar.

Foi ficando escuro e cada vez mais silencioso. Com pausas para descansar, Christina Oiticica e o novo Paulo Coelho insistiam. Eles tentaram de tudo um pouco, Paulo Coelho até mesmo bateu a cabeça contra a placa. Num desses intervalos, se sentaram e acabaram cochilando.

Eles foram acordados com chutes nos pés de um policial. Foi rápido: ninguém podia passar a noite ali. O policial não quis ouvir qualquer explicação e os tocou pra fora.

27. Christina Oiticica leva o novo Paulo Coelho para Sevilla

Quando falou para Paulo Coelho que os dois iriam viajar para Sevilla, Christina Oiticica estava pronta para lhe contar umas mentiras, mas não foi necessário – foi só falar em viagem que ele correu animado para o quarto e fez as malas. Por sorte, Sevilla não era tão grande e com as dicas que Pepe lhe forneceu – placa perto de ruínas – a busca não seria impossível.

Eles saíram cedo pela cidade, antes das 8h, e mesmo assim o calor já castigava com quase 30ºC. As ruínas mais famosas a serem visitadas eram as romanas; Christina Oiticica, àquela altura, não tinha a menor vontade de vê-las, mas era importante para manter diante do novo Paulo Coelho uma fachada de viagem turística. Entusiasmado, ele queria ver tudo, fotografar, conversar com as pessoas. Enquanto observava Paulo Coelho comprar uma coleção de lembrancinhas, Christina Oiticica percebia que, quanto mais o tempo passava, mais a sua mente se perdia e em breve Paulo Coelho deixaria de ser um homem que rejuvenesceu para se tornar apenas um homem jovem. Do ponto de vista dele, o casamento ia bem: faziam sexo em dias alternados, ele não sumia mais de madrugada, faziam as refeições juntos, passeavam. Já Christina Oiticica se percebia entediada ao lado do marido, pelas suas birras, as conclusões apressadas sobre todos os assuntos, a necessidade de ter sempre a última palavra, o egoísmo. Tudo agora precisava ser para ele e sobre ele, Paulo Coelho passava horas falando sobre si e mal perguntava a Christina Oiticica como ela estava. Por um lado, bastava afagar o ego e dar a entender que a idéia era dele, que o novo Paulo Coelho fazia qualquer coisa – mas não era esse o casamento que Christina queria ter, ela detestava se ver nesse papel.

Eles alugaram um carro e Christina Oiticica traçou um trajeto que começava na parte mais externa da cidade, quase fora de Sevilla e terminava próxima a Iglesia de los Gitanos. Enquanto Paulo Coelho se dedicava a tirar selfies, ela perguntava discretamente pros comerciantes locais que eles sabiam de alguma placa, se um dia houve ciganos por ali. Ninguém parecia ter ouvido falar de qualquer episódio importante e falavam que ela deveria ir para a Iglesia. Para agradar Paulo Coelho, foram para o Alcazar, Giralda, Bairro Judeu, comeram paella e churros. O sol já estava se pondo e os turistas também quando finalmente Christina se viu diante de uma placa de bronze que relatava um massacre de ciganos ocorrido no final do século XIX.

26. Christina Oiticica procura Dom Pepe

-Você tem certeza que quer ter um marido velho de volta? Eu tive uma vez uma cliente. Mônica o nome dela, chegou a atender aqui no centro, trabalhava com terapias alternativas, muito interessada em cultura cigana, tão interessada que eu tinha que dar umas chamadas nela, dizer que não era tudo isso, que cigano tem seus defeitos também. Casou novinha, um rapaz muito bonito e de boa família. Nunca tinha feito esforço na vida, boa pessoa mas um sonhador. Ele não tinha estabilidade, ganhava muito e gastava tudo, não ganhava nada e os pais acudiam. Ela tinha sangue árabe, uma parte de vendas muito forte, trabalhava numa loja e tirava uma fortuna como comissão. Brigava com ele, queria que ele mudasse, a mãe dela pressionava muito. Até que pediu pra separar. Eu falava “não faz isso filha, é assim mesmo, a gente ajuda”. Ela não quis, queria separar de todo jeito. Era orgulho. Ela era nova, não admitia aquilo, que ela fosse a mais forte que sustentava a casa, ele tinha que colocar o dinheiro dele. Já faz quinze anos isso. Acha que ela encontrou alguém pra casar com ela depois? Hoje em dia as pessoas só querem bagunça. Hoje ela fala “Dom Pepe, eu deveria ter ouvido você”. Ele casou de novo. Ela reconhece que não era nada demais, que hoje aceitaria um homem instável financeiramente e bom marido. (Dá de ombros). Quando eu estava encarnado, não tive ninguém pra me avisar, e acho que mesmo que tivessem me avisado, eu não teria feito nada diferente. Ou quem sabe, não sei. O que me entristece não foi o que aconteceu comigo, e sim com a minha tribo, que não merecia pagar pelos meus erros. Logo depois que eu morri, Esmeralda foi levada até a mãe dela e foi presa num barraca sem qualquer contato com de fora. Emalesca disse pra tribo dela que a filha estava com uma doença muito contagiosa, por isso que não podia ter contato com ninguém. Quando Esmeralda deu a luz à nossa filha, Emalesca envolveu a menina num pano e fugiu com ela à noite, até encontrar outros ciganos que estavam passando. Ela inventou uma história e deu a menina pra eles. A Esmeralda não aguentou mais, perder a liberdade, o nosso amor e depois a nossa filha e entrou em greve de fome. Ela morreu de tristeza e inanição. Vocês gadjes ficam muito tempo trancados, passam a vida num lugar só, isso pra um cigano é a morte. Um dia um fala – Vamos para Santa Marta, Cadíz, Valencia? Não precisava mais nada, arrumava as coisas e ia. E é isso, isso era bom, pelo menos pra maioria. Alguns tinham vontade de parar. Não era todo cigano que queria dinheiro, viver era o mais importante, eles não tinham apego ao lugar. Eles não estudavam, não sabiam ler, nem iam a igreja – nem deixariam eles entrar. O mundo era a pátria do cigano. O único local que eles se importavam de ir era para Sevilla durante a feira. Estar sempre de viagem, no carroção, é um trabalho, e ora era a roda que quebra, ora o cavalo ficava doente. Dava mais despesa que outra coisa. Então alguns ciganos paravam. Dalila montou uma loja com o que hoje chamamos de artesanato e parou. Ela fazia flores. Nós e o marido dela fomos embora e ela ficou. No fim, foi bom pra ela. Depois que a Esmeralda morreu, de tristeza e fome, o irmão dela, o Ramirez, ficou inconformado e decidiu se vingar na minha tribo. Foi uma chacina. Zoraide tinha duas tranças pretas, que foram amarradas num rabo de um cavalo e mandaram o cavalo correr. O couro cabeludo foi arrancado; Juanita viu eles chegarem, tentou correr até sua barraca. Jogaram uma adaga nas costas dela, já quase entrando; Soraia: pegou uma carroça e se mandou. Chegou ao litoral, para viver sozinha. Só que ela lá no litoral, passava um gadje e a achou bonita. De tanto passar lá, quis se meter com ela. Ele a agarrou, ela lutou com ele, então ele a estrangulou e afogou. Parece que cigano nasceu pra sofrer, é destino. As ciganas que abordam as pessoas na rua não sabem o futuro mesmo. Nem toda cigana tem o dom de ver, mas toda cigana é ensinada a sua mãe a respeito do que falar. A cigana fala a chamada Bona Dita, ela mente mesmo. Mas ciganos têm poder sim. As ciganas entendem muito de chás e ervas, coisas para a saúde, são muito boas para fazer remédios. O que aconteceu com seu marido é magia cigana. Depois do que fez com o meu povo o Carlos Ramirez cometeu suicídio. Numas ruínas de Sevilla há um busto com um cigano e uma placa que relembra um massacre de ciganos que houve por ali. Eles estavam desprevenidos, morreram todos, nem as crianças foram poupadas. Procure essa placa junto com o seu marido e só assim você vai conseguir ter ele de volta.

25. Christina Oiticica leva o novo Paulo Coelho para casa

Christina Oiticica não podia negar que seu marido estava um gato, ainda mais novo e bonito do que quando eles se conheceram. A primeira atitude dele quando chegaram em casa foi querer aproveitar a cama, e eles passaram dias ardentes nela e em outros cômodos da casa – foi como uma lua de mel tardia tão quente quanto a original. Christina andava de camisola pela casa, preparava o café, observava um novo homem que agora dormia bastante estirado na cama. O novo Paulo Coelho dedilhava canções de amor no violão feitas especialmente para ela. Os vinhos da adega, acumulados durante anos, foram consumidos rapidamente madrugadas adentro. A luz vermelha do fogo na lareira, a música no último volume, projetos loucos sobre mudar o mundo, tudo no novo Paulo Coelho tinha um frescor hippie.

O cheiro, o olhar e a voz continuavam os mesmos, e Christina tinha prazer em se sentar no colo de Paulo e enrolar os dedos no seu cabelo. Mas os gestos ganharam mais inquietação, e de um dia para o outro a lua de mel terminou, como se ele tivesse apenas enjoado. Christina Oiticica retomou as suas atividades e quando cruzava com Paulo Coelho pela casa, quase podia vê-lo soltando faíscas, numa agitação furiosa que às vezes o levava a escrever, a consertar algo, correr pelo bairro. Começaram a discutir também, sempre por bobagem, e ela tinha impressão que ele tinha necessidade de descontar nela a sua agressividade por conta do tédio. Paulo Coelho passou também a ter crises de desânimo, e sentar no sofá o dia inteiro, mudar de canais sem qualquer sentido, encher a sala de migalhas. Até tênis sujo no sofá ele colocava. Mas o pior mesmo foi Paulo Coelho ter voltado a fumar, quase dois maços por dia.

Um dia Christina chegou em casa depois das compras e Paulo Coelho havia sumido. Ela passou o dia preocupada, tentou discretamente encontrá-lo em casas de amigos, e já estava na cama quando o ouviu chegar. Que cena patética foi ver seu marido com os sapatos na mão, ziguezagueando pé ante pé na sala, achando que assim chegaria muito discreto. Nunca antes ela havia precisado fazer uma cena para saber por onde ele andou, nunca antes Paulo Coelho havia tentado lhe fazer de idiota com uma mentira qualquer. Christina Oiticica achou aquilo o fim, que eles tivessem se tornado esse tipo de casal. Na manhã seguinte fez suas malas e foi sozinha para o Brasil em busca de ajuda.

24. Termina a semana de Paulo e Expedito juntos

Christina Oiticica estava em frente à porta, pontualmente uma semana depois do seu marido se trancar lá dentro com Expedito. Ela não era a única: os seguranças, empregados da casa e os samoiedas, como nuvens branquinhas, também estavam lá. A porta se abriu e os dois homens saíram de lá conversando, como se nada tivesse acontecido. Christina correu para abraçar o seu marido e parou no meio do caminho, confusa, sem saber ao certo o que fazer: Paulo, magro, cabeleira preta e vasta, gestos ligeiros; Expedito careca, ombros caídos, barriga saliente. Paulo cinquenta anos mais moço e Expedito cinquenta anos mais velho.

23. Paulo Coelho passa a semana com Expedito

Primeiro, Paulo contou que gostava do verso “perguntas não vão lhe mostrar”, em Gita, talvez por ser despretensioso. Às vezes ele acha que é um verso seu, em outras que se apropriou do verso na lembrança, por desejo. Antigamente ele seria capaz de dizer quem colocou cada frase em Gita, e em todas as outras músicas dele com Raul. Agora ele é capaz de lembrar o cheiro do estúdio, do calor, das madrugadas, das cervejas quentes. É capaz de fechar os olhos e se transportar para lá, mas é como um filme mudo. As músicas que estão compondo debaixo do calor da janela aberta ou de casacos pesados e inverno se confundem. Ele se lembra de uma vez ter saído da casa de Raul numa madrugada, tão puto da vida, tão puto – depois de uma época, acontecia com frequência. Quis fumar e pegou a carteira vazia, pareceu um sinal. O que havia acontecido lhe parecia gravíssimo e que nunca mais quereria trabalhar com Raul na sua vida. Ficou a sensação das ruas vazias, a embalagem oca de cigarro que caiu perto quando ele jogou porque era leve, a irritação – já o motivo sumiu para sempre. Raul isso, Raul aquilo, era como se ele sempre estivesse um pouco mais para um lado ou outro do que deveria estar. Às vezes era como se eles se detestassem. Ele via a si mesmo como mais artista, tão artista que não precisava do reconhecimento público, de um figurino extravagante. Mas o que realmente importava em Gita, o “eu sou”, era impossível dizer de quem veio, porque Paulo e Raul liam as mesmas coisas, tinham a mesma visão de mundo. No fim das contas, os dois eram do meio artístico, fumantes, mais ou menos da mesma altura, magros, heteros, mesmos livros e crenças, muito parecidos até fisicamente. Hoje Paulo não se perguntaria mais sobre o talento, ele vê os dois como remos de um mesmo barco.

Segundo, no mapa astral de Paulo tem um stelium de plutão, saturno, mercúrio e vênus em leão na casa três. E sol na casa quatro. O stelium indica força, talento, necessidade, disciplina, uma vontade de brilhar com comunicação, e o sol, no ponto mais baixo do mapa, que o sucesso não viria antes da maturidade. Ele conhecia seu mapa astral, sua numerologia – tanto pitagórica quanto a cabalística -, as linhas das suas mãos. Tudo estava tão entranhado nele que, se fosse possível pegar os seus pensamentos como se fosse um pedaço de carne, e destrinchasse, possivelmente veria lá dentro todo tipo de informações mágicas guiando as suas ações, com cálculos rápidos de quanto dá a soma do armário com chave, afirmações que produzem efeitos na realidade, dias da semana mais adequados para realizar ações simples, prestar atenção em pontos cardeais. Paulo fez muitos rituais, que deveriam começar na lua certa, na hora exata, com os objetos de formatos específicos e as sentenças deveriam ser proferidas da maneira mais direta. Bebeu águas potencializadas por letras sagradas. Alguém de fora poderia dizer que tudo deu certo. Depois de dias de intensos estudos e ver sinais por todas as partes, chegava um momento que Paulo se sentia alienado e não queria mais nada, apenas a realidade. Às vezes o sinal vinha de um complicado jogo de cálculos e probabilidades, ou de alguém com contatos com outro mundo ou ele mesmo tinha um sonho, mas nenhum dos sinais era capaz de impressionar mais do que poucos dias. Depois a perspectiva deixava tudo menos mágico e ele tinha dúvidas – até o próximo sinal, o próximo cálculo. Com a maturidade, agora os objetos eram só objetos, ele não tinha mais paciência. Depois de muito buscar, um dia ele ultrapassou a fronteira das buscas, está além da arrebentação.

Terceiro, Paulo não saberia falar em nome das mulheres; sobre os homens, a grande motivação para serem ricos e famosos costuma ser bem simples: comer todas. Não era politicamente correto e nem maduro falar aquilo, mas Expedito também sabia. Mulheres dos sonhos, aquelas tão inacessíveis que de outra forma não se dariam ao trabalho nem de oferecer seu sorriso, quanto mais o resto. Mesmo antes de ser um escritor famoso, apenas por ser compositor e estar nos bastidores, Paulo já pôde aproveitar bastante. Ele era jovem no período hippie, que foi uma liberação em vários níveis, muito além do sexual. Aí veio a AIDS, como uma punição divina, como se os deuses tivessem invejoso dos humanos se divertirem livremente com seus corpos. O mundo se encheu de culpa e exigências na hora de fazer sexo. Hoje o sexo está em todos os discursos – as pessoas pensam mais e fazem menos. O da juventude dele não se era tão pervertido, tão exigente; uma conversa boa podia criar um clima e apenas acontecer. Sexo por alívio, por amor, descompromissado, animal, como meio de tentar alcançar o divino, com uma parceira ou mais de uma, até com alguém do mesmo sexo – se existir atração e desejo, por que não? O sexo não precisava ser escravizador e nem escravidão, podia ser apenas mais uma das muitas maneiras de experimentar a vida. O que se busca, o que se aprende e o significado do sexo não são os mesmos nas diversas fases da vida. Depois de buscar todas as mulheres e fantasias possíveis, ele percebeu que toda história seguia o mesmo curso e com o tempo se cansava das histórias antes mesmo de começar. Tal como o resto de nós, sexo amadurece.  Como tudo, talvez seja preciso viver intensamente, até o fim, para que não reste nenhum desejo insatisfeito e aí sim conseguir um equilíbrio.

Quarto, a praia preferida de Paulo não é nenhuma praia badalada, nem no Rio de Janeiro ou em qualquer outro paraíso turístico conhecido. Uma vez ele e Christina se perderam passeando em Natal, e se viram numa praia isolada e lá assistiram o pôr do sol e depois se deitaram na areia, diante de um céu deslumbrante. Eles sabem mais ou menos onde fica, como “se perder” até ela, mas fizeram questão de não pesquisar e não saber o nome. Aquele momento, sem que ele mesmo saiba explicar o motivo, se tornou uma das suas lembranças mais tocantes. Quando começou a viajar e conseguir frequentar os lugares mais caros, Paulo se pegou com saudades de coisas pequenas, geralmente aquelas que nem se capta de forma consciente, como cheiros de ruas ou azulejos coloridos, calçadas de pedras. Mas também dizer que tanto faz, que o simples é sempre o melhor, seria hipocrisia – claro que a toalha de fio egípcio aquecida no aparador é muito mais gostosa do que a toalha barata. Quando Paulo estava procurando um lugar para morar na Europa, até um castelo lhe foi oferecido. Com os meios que tinha, ele se viu apto a morar em qualquer lugar, qualquer tipo de casa, as decorações mais caras e excêntricas possíveis. Mas aí que algo muito profundo veio à tona, como uma necessidade física, uma coisa inconsciente, e o lugar que você se sente bem não é necessariamente o mais bonito ou o que coincide com o seu gosto. Quanto maior a possibilidade de escolha, mais essa necessidade grita, a vontade que o externo reflita um lugar que existe dentro do coração – ele mesmo se surpreendeu com o que o seu coração exigiu. A atual casa de Paulo, na Suíça, está de acordo com esse princípio. Vazios, silêncio, natureza, vastidão, cheiros, almofadas, objetos com histórias dele e de Christina, foi isso que seu coração exigiu.

Quinto, Paulo não pensou que a morte dos pais teria o impacto que teve sobre ele. Ele optou por não ser pai, quem sabe por ter sido ele mesmo um filho muito difícil. Os erros que os pais cometeram com ele, vistos em perspectiva, nem mereceram perdão – perdoar implica que a outra pessoa fez algo de errado que deve merecer um gesto superior de misericórdia, e os pais dele fizeram o melhor que podiam. Paulo entendeu. Para um casal tão normal, o seu comportamento contestador parecia (e era) auto destrutivo demais. As brigas, a internação compulsória e o clima de guerra eram consequência do desespero deles em lidar com o que não entendiam. O caminho mais fácil teria sido desistir e deixado Paulo seguir seu rumo sozinho, mas seus pais não se deram essa opção e assumiram a responsabilidade. Lidar com aqueles problemas era trazer para o mundo arrumado e burguês que seus pais escolheram viver um barulho insuportável – imagina o que é não poder sentar e fazer seus próprios planos porque o filho surge de repente e lhe arranca tanto a paz de espírito como o dinheiro. Há uma necessidade inegável de se mostrar vitorioso para os seus pais e os de Paulo viveram o suficiente para isso – aquele foi um bônus que a vida lhe deu, deve ser muito triste quando não acontece. Quando sua mãe morreu – o pai tinha ido antes -, Paulo recebeu a notícia, falou com os mais chegados, cumpriu todos os ritos sem maiores dramas e achou que tudo continuaria como antes. O peso chegou com os dias, com as semanas, crises de tristeza e choro. Sem os pais nos tornamos adultos demais, ninguém acima, nenhuma autoridade, ninguém que se lembre da sua infância e conte aquelas histórias por você. Dali, talvez, tenha nascido a necessidade de registrar, com biografia, com museu.

Sexto, a fama é algo estranho. Paulo a desejou ardentemente, desde que se lembra. Ele a desejava tanto, com tanta obsessão, que era como se ela fosse um direito seu; o direito de possuir a fama lhe era tão legítimo como quem tem saudades do corpo da mulher amada. Só que quando olhava para os lados, os outros também pareciam desejar muito, talvez mais do que ele, a se julgar o que eram capazes de fazer, então a intensidade do desejo talvez não possa ser usada como medida. Mas sonhar com a fama não quer dizer que a pessoa tenha noção do que ela realmente significa – se ele soubesse, quando O Diário de um Mago começou a vender tanto e os jornalistas não paravam de procurá-lo… Não que tivesse agido diferente, quem sabe tido menos pressa, menos ansiedade. Ironicamente, já famoso de verdade, ele se pegava olhando para trás: as pessoas que gostavam dele antes, sem saber mais nada e sem querer vantagem nenhuma; a impressão que causava ao entrar anonimamente nos lugares, as reações de homens e mulheres a ele, o atendimento nos lugares comuns. A fama criou um incontornável antes e depois: as pessoas do Antes lidavam com ele de fato, enquanto as pessoas do Depois querem tantas coisas, projetam tantas fantasias. A fama era uma espécie de sombra, um perfume, que o acompanhava em quase todos os momentos. Eram poucos os que olhavam para ele e realmente o viam, quase todo mundo era atingido pela sombra primeiro. Alguns queriam ficar perto dele, como se ele fosse um mestre cuja presença inspira – embora fosse uma grande demonstração de admiração, ele não gostava de estar com elas. Aquelas poucas que conseguiam evitar os extremos, entre a admiração e inveja, eram as que o conquistavam.

Sétimo, Paulo lhe falou que no fundo duvidava da inteligência de todo aquele que um dia não pensou seriamente em se matar. Algumas vezes desejou morrer por pura depressão, mas ele também já chegou ao tema suicídio de cabeça totalmente fria: nada vai para lugar nenhum, a vida é isso aí, depois de momentos de dor tudo se acaba. Quem tem uma crença religiosa diz que a vida não se acaba, mas até onde podemos alcançar, ela acaba sim. Só que, à medida que Paulo foi envelhecendo – ou seja, chegando cada vez mais perto da morte -, o assunto parou de vir à sua mente, até que um dia ele esqueceu totalmente qualquer vontade de morrer. Querer morrer é algo jovem, imaturo; a criança pequena chora diante de qualquer queda, muito mais pela surpresa do que pela dor. Paulo lembra das muitas vezes que pensou que a vida não lhe traria mais nenhuma novidade. E depois a vida mudava de rumo, ele pensava que era definitivo daquela vez, mudava de novo… Paulo sentiu medo em todas as mudanças, mas nunca se negou ao combate e ele, por assim dizer, foi ficando. Mais do que a vontade de viver, Paulo acha que o que realmente nos mantém aqui – mesmo quando os fatos parecem indicar que não vale a pena – é a curiosidade. Nem sempre essa curiosidade é otimista, pode ser uma curiosidade maldosa, que querer ver alguém receber o que merece. Quando se é jovem, falar para agir com ética, se esforçar, ter disciplina, cultivar bons hábitos, soam sempre como moralismo, porque só a passagem do tempo mostra o verdadeiro valor das ações. O tempo, ele sozinho, já pode ser o castigo: a solidão dos que nunca se preocuparam em cultivar as amizades, as consequências do abuso do corpo, a pobreza do que torrou todo dinheiro. A conclusão que ele chegava era: viver é ótimo, mesmo quando péssimo.

22. Paulo Coelho descobre as tentativas de Expedito

-Eu sei como é aceitar todas as oportunidades para se fazer mais vendável, algumas até mesmo ridículas. Falei com muito jornal de bairro, tirei muitas fotos de capa e segurando espada por ser o “mago Paulo Coelho”. Mas muita gente faz isso e nem por isso fica famoso. E você tem que admitir que conseguiu tudo rápido demais!

-Mas eu não fui na sua casa pra pedir pra ficar rico e famoso, eu pedi pra ser um escritor.

-Você pediu pra ser escritor porque imaginou que escritores fossem pessoas famosas que ganham rios de dinheiro, porque imaginou que eu

A expressão de Expedito ficou séria e ele mandou Paulo Coelho calar a boca. Ele lhes uma porta que dava para um escritório, discreto demais para ser notado diante do resto da casa. Havia apenas um sofazinho, um computador e uma estante. A estante estava cheia do que se adivinhava ser a mesma publicação, de lombada branca e com uma espessura fina. Expedido enfiou o dedo no meio de uma delas e entregou a Paulo Coelho. Era a história de Dom Pepe, o mesmo livro que Paulo Coelho havia lido numa improvisada cópia em Xerox, agora em versão encadernada com letras douradas. Expedido lhe mostrou diversas contas de e-mail, todas com nomes falsos e nelas haviam apenas e-mails de editoras. O conteúdo deles era basicamente o mesmo:

 

“Prezado João,

Nosso grupo de leitores avaliou a sua obra — Ciganos — e decidiu não indicar sua publicação pela Companhia das Letras.

Gostaríamos de lembrar que, conforme o procedimento da editora, os originais serão destruídos por uma empresa especializada, para segurança do autor. Quanto aos livros submetidos à reedição, esses serão doados a bibliotecas.

Agradecemos, de todo modo, a sua consulta.

Atenciosamente,

Departamento Editorial”

 

Na pasta do computador de nome LIVROS, havia mais de trinta arquivos diversos arquivos. Expedito contou que colocar a história de Dom Pepe no papel despertou algo dentro dele, uma vontade de falar das suas experiências para o mundo, a sua família, as coisas que via e pensava. Passou a escrever todos os dias, viciou, aquilo lhe ajudava a pensar. Expedito escreveu sobre a mãe, o pai, tia Cidão, a irmã, sua infância. Quando esse material se esgotou, escreveu sobre a cidade, as pessoas do Porto de Paranaguá, os frequentadores do centro onde a irmã atuava, e quando eles se esgotaram, passou a escrever histórias inventadas, coisas que ele adivinhava olhando para a cara das pessoas, misturadas com fragmentos de histórias que passavam na tevê. Escreveu sobre as festas que viu, as pessoas que bebiam, as prostitutas, a vida da família daquele cara que estava segurando o fuzil na frente da porta de casa. Expedito sabia que agora era temido e podia ser que uma editora aceitasse publicá-lo apenas por isso, mas pelo menos essa resposta sincera ele gostaria de ter, por isso que mandava os livros para as editoras sob pseudônimos. E as respostas que obteve sempre foram aquelas que ele mostrou, negativas. Ao tentar mandar livros para as editoras, descobriu que deveria ficar feliz quando elas se davam ao trabalho de dizer “não”, porque a maior parte das vezes elas nem respondiam. Aquelas edições encalhadas na estante foi uma das suas tentativas – ele foi parar numa editora picareta que lhe cobrou uma nota, prometeu distribuir o livro em livrarias e promover, e no final ele ficou sem dinheiro e cheio de livros que ninguém nunca leria. Como quem tem todas as suas forças sugadas num esforço, Expedido sentou deprimido e concluiu: “Por mais que eu me esforce, por mais que eu refaça, por mais que mude a história, nunca fica bom, nunca ficam satisfeitos.”

Paulo Coelho ficou sem saber o que dizer. Ele conhecia muito bem aquela sensação, e como conhecia. A vida inteira ele passara querendo também escrever e só aos quarenta conseguiu algo realmente bom. Mas o fato dele ter sonhado e finalmente conseguido aos quarenta não dizia nada sobre o processo de Expedito e o quanto ele conseguiria avançar com a escrita.

-Expedido, tem coisas que só a vivência traz. Você não tem dentro de si a bagagem que eu tenho e é justamente…

– Então eu passarei a ter. Durante uma semana você ficará preso comigo dentro deste escritório e você vai me falar da sua bagagem, do que os anos ensinam e eu não sei. No fim dessa semana, sua mulher pode vir aqui de volta pra te buscar. Até lá, seremos só nós dois.

21. Expedito conta o que viveu depois de ter conhecido Paulo Coelho

Quando o vídeo do V-Boy começou a viralizar, Expedido nem estava conectado. Ele estava no aeroporto, esperando o vôo para Curitiba. Sua preocupação com as malas, comer, não se perder, como faria quando chegasse em casa e etc. foi tanta que nem lhe ocorreu usar wi-fi do aeroporto. Na sua cabeça, ele estava sem crédito e pronto. Enquanto isso, Ian, um vizinho da rua debaixo com quem ele jogava futebol, passou na casa dele e foi falar com Isabel. A irmã não podia ver Ian que ficava toda derretida e o cara se aproveitava disso. Ian pediu pra Isabel repassar o vídeo do futebol pra ele. Isabel nem devia ter aquele vídeo mais, se fosse pela vontade de Expedito, mas ela tinha guardado por brincadeira, pra encher o saco do irmão de vez em quando. Ian passou para os grupos que participava, e esses grupos para os outros grupos e em poucas horas deu no que deu.

Expedito viajou e pegou ônibus de volta para casa sem desconfiar de nada. Quando chegou perto da porta da frente e o celular entrou na área do wi-fi, o aparelho começou a apitar sem parar, com notificações do facebook, Messenger, whatsapp. Em poucas horas, além das mensagens dos amigos que o reconheceram, suas redes sociais tinham centenas de novos seguidores e pedidos de amizade, até dos seus ídolos. A família o recebeu em festa. Havia pedidos de entrevistas de portais famosos na internet e já tinha lojas explorando a imagem dele em camisetas e canecas. Ele viu que seu momento havia chegado e resolveu aproveitar a onda – passou a usar suas redes sociais o tempo todo, postava tanto que às vezes nem era ele, alguém da sua família ficava encarregado de gerar conteúdo. Quando não tinha uma foto de torta para postar e dizer que estava comendo uma torta, arranjava uma foto pela internet. Procurava a todo custo interagir com pessoas com muitos seguidores para que eles prestassem atenção, e pra isso tanto fazia se era por bem ou por mal. Passou a cobrar para aparecer nos lugares; neles lhe pediam para recriar a cena do vídeo, então ele levava uma bola, fingia driblar, caía de costas no chão. Em Curitiba ainda dava para usar uma roupa almofadada por debaixo do moletom, mas no Rio de Janeiro a “roupa de cair” era uma camiseta fina de futebol, ele ficava todo machucado. Quando saiu de casa, sua única fonte de renda era ser garoto propaganda de um creme para micose, o resto era só imagem.

Foi no Rio de Janeiro que Expedito realmente descobriu o que era viver de glamour: que era possível “causar” sem ter um tostão no bolso. “Às vezes a graça de ir nas festas era para comer e economizar a janta mesmo”. Foi justamente por ir para as festas apenas para comer, e não beber – sua mãe proibia os filhos de beberam álcool, dizia foram as mulheres do porto e a cerveja que fez o pai dele se perder – que sua sorte mudou. Numa noite ele foi o único convidado masculino de uma festa de empresários, cantores e políticos. O entretenimento da noite eram ele e várias prostitutas. Depois que Expedito caiu todas as gargalhadas necessárias e os homens se fartaram das prostitutas até o limite das suas forças, a noite se tornou uma conversa de velhos bêbados. Só a mistura daquelas pessoas no mesmo ambiente – alguns posavam de inimigos declarados – já dava uma manchete. As moças são revistadas antes de entrar, não podem estar com celular ou qualquer outro aparelho que permita gravações. Mas ninguém deu a Expedito essa importância, confundiam ele com o V-Boy, achavam que, por ser uma figura engraçada, ele era idiota. De todas as informações que obteve ali, até hoje ele só precisou usar duas: pediu emprego pro político que tinha seu próprio laboratório de cocaína e se associou ao dono da fábrica de tubos que revendia armas ilegalmente.