Uma vantagem linguística na matemática

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Li recentemente um livro fantástico, chamado Outliers. Ainda estou tentando organizar na minha cabeça para escrever uma crítica à altura no outro blog. Há um pedaço que fala de matemática que certamente vai ficar fora da crítica, porque é apenas parte do raciocínio, mas achei tão massa que tenho que dividir com o mundo:

Existe também uma grande diferença em como os sistemas de nomeação de números das línguas ocidentais e asiáticas são estruturados. No nosso sistema, dizemos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove. Seria de esperar, portanto, que disséssemos “dezeum”, “dezedois”, “dezetrês”, etc. Mas não fazemos isso, usamos uma forma distinta: onze, doze, treze… Na maioria dos números a dezena vem primeiro e a unidade depois: dez(e)sete, vinte e sete, trinta e sete, porém os números de onze a quinze não seguem a mesma lógica. Não é estranho? Isso não acontece na China, no Japão e na Coréia. Eles dispõem de um sistema de contagem lógico: onze é “dez-um”, doze é “dez-dois”, vinte e quatro é “dois dez quatro”, e assim por diante.

Essa diferença proporciona às crianças asiáticas duas vantagens. A primeira é que elas aprendem a contar com muito mais rapidez. As crianças chinesas de quatro anos sabem contar, em média, até 40, enquanto as americanas nessa idade contam apenas até 15 e só chegam aos 40 aos cinco anos. Ou seja, as crianças americanas de cinco anos já estão um ano atrás das asiáticas na habilidade matemática mais elementar.

A regularidade de seu sistema numérico também permite às crianças asiáticas realizar funções básicas, como a soma, com mais facilidade. Peça a uma criança ocidental de sete anos que some, de cabeça, trinta e sete mais vinte e dois. Ela terá que converter as palavras em números (37 = 22), para depois cuidar da matemática: 2 + 7 = 9 e 30 + 20 = 50, o que perfaz 59. Peça a uma criança asiática que some três-dez-sete e dois-dez-dois. A equação está implícita na frase. Não é preciso converter nada: cinco-dez-nove. (Parte II, Capítulo 8: Arrozais e testes de matemática)

Antes desse trecho havia a relação entre a língua e a memorização dos números e depois há da influência dessa confusão linguística na relação das crianças com a matemática. Sério, que livro massa.

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O (acho que) rato

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Era de noite, a porta dos fundos estava aberta como sempre e eu ouvi um barulho esquisito que vinha de fora. Apurei o ouvido e vinha do sifão, da parte debaixo. Durante o dia eu tinha usado o tanque e a água esparramou toda, o sifão estava desencaixado. Encaixei de volta e achei que era apenas porque estava ressecado. Ao ouvir aquele barulho, entendi que um bicho havia tirado ele do lugar e que estava tentando fazer de novo, naquele instante. Abri a torneira e deixei a água correr, o barulho parou. No dia seguinte tudo bem, mesmo assim joguei uma água sanitária antes de dormir, para dar o recado. Na manhã seguinte, o sifão todo para fora de novo. Pego uma imensa pedra redonda de jardim e coloco em cima do buraco, ou seja, fico sem tanque o dia todo. Estou bem tranquila à noite fazendo sopa e quando olho para o tanque a pedra estava longe. Foi aquela sensação de filme de terror, o bicho além de persistente é grande. Coloco a pedra de novo, agora com o reforço de enciclopédias (!!) para prendê-la à parede. Tenho medo de ter prendido o rato pra fora – ou para dentro, dependendo do ponto de vista – , mas como é que eu vou saber se ele foi e já voltou? Me desconcentro, não leio mais, não faço mais nada direito. Estou no sofá ouvindo a única trilha possível no momento – Life is Hard – e penso em não postar. Tem um ratão em algum lugar, lá embaixo.

Astrologia e tudo mais

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Dia desses estava num bate papo animado on line, o assunto foi para signos e comecei a dar uns pitacos nos mapas das pessoas. Olhava o desenho e falava o que havia me chamado atenção. Foi a primeira vez na vida que li o mapa de outra pessoa – tudo o que sei de astrologia tenho usado para consumo próprio. Aqueles cujo mapa eu li se impressionaram com minha precisão e mesmo quem não foi analisado achou que sei muito. Uma me perguntou, reservadamente, se eu conhecia algum curso on line de astrologia. Eu lhe indiquei o livro que li a vida toda – Curso Básico de Astrologia. Em casa chamávamos de O Livro Rosa. Os aspectos de cada um estavam marcados com uma bola colorida no canto. Até hoje, quando releio, percebo que sei os trechos de cor. A pessoa que queria curso me perguntou, eu respondi, ela me agradeceu e o assunto encerrou. Mas o que eu teria a dizer, sobre qualquer livro ou curso, sobre astrologia ou misticismo, ou escrever, ou o que minha professora de flamenco fala sobre flamenco, ou quem sabe mais o que na vida e o que há sob o céu: a coisa vem com o tempo. Cresce com você, se mistura com quem você é, amadurece com a sua maturidade. Há o que você leu e só entende profundamente depois, há o que não está escrito e nunca estará escrito e vem, como uma verdade que se revela. Quando a gente descobre isso, deixa de sofrer e até mesmo gosta do que não vem de primeira.

Venha, sol!

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Li em algum lugar, acho que dito por Jung, de uma tribo que acreditava que toda manhã precisava pedir para o sol nascer e assim a vida prosseguir. Que de primeira ele achou idiota, depois achou bonito se colocar num lugar tão atuante com o mundo, uma afirmação diária de que o dia merecia amanhecer. Eu desenvolvi ao longo dos anos uma insônia que não me permite dormir sem ter postado. Criei uma disciplina pra um blog não remunerado e de pouco acesso e escrevo 1h da manhã sem que ninguém mande. Será que um dia um desses que precisa acordar o sol não perdeu o horário e quando viu o sol já estava lá e descobriu que o sol não se importava?

Curtas de etiqueta

Passei na loja no dia e horário mais agitado, e pretendia comprar meu produto escondida e sair correndo. O dono me viu e achei que ele colaboraria com meu intento, com a justificativa perfeita de que havia muita gente. Mas aí ele me acenou animado, como nos velhos tempos, me perguntou o que eu queria, pegou pessoalmente, terminou de me atender. Acho que lhe desejei Feliz Ano Novo, e ele disse que era muito cedo, eu não voltaria lá em um mês? Disse que provavelmente não, que… Então ele deu a volta no balcão e “então pra não correr o risco me dê agora o abraço” e lhe dei um abraço que me deixou com o perfume dele impregnado na roupa. Tive vontade de perguntar se ele enlouqueceu, se ele se lembrava do quanto foi frio nas últimas muitas vezes que passei lá. Vai ver que ele decidiu que depois de três anos eu não merecia mais ser punida pela separação. Vai ver o ex passou lá com a noiva. Vai ver que queria se mostrar pra alguém. Sei lá.

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Sigo por princípio esta citação de Hamlet:

Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade. (ato II, cena II)

… e tenho confundido as pessoas nesses nossos tempos rudes. Eu gosto de tratar bem, ouvir confidências, tenho uma memória de elefante a respeito do que as pessoas me contam, gosto que minhas interações sejam o mais leves e agradáveis para ambos. Aí quem reserva seu lado agradável apenas para quem ama, interpreta minhas atitudes como declaração de amor. Só se for amor pela humanidade.

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Sou uma fã nova de Bob Dylan, nova e solitária, porque passei a gostar sozinha lendo um livro. Então eu não sei se, como fã, eu tenho que gostar mais dele cantando do que qualquer outra pessoa. Se tenho, jamais serei alçada ao clube. Este desconhecido, por exemplo, que adorável!

Mimizenta

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Como começou quando eu me separei, posso afirmar com toda certeza que foi uma estratégia para lidar com a solidão, a falta de ter com quem falar. Você pode dizer que eu poderia ligar para um amigo, ou pro CVV, mas ligar é muito diferente de ter alguém. Porque quando se é casado ou mora com alguém, é só virar do lado e falar, num gesto impensado que quando percebe já foi. E um dos motivos mais frequentes de queixa era justamente esse,  o de estar sozinha. Na falta de ter com que reclamar eu reclamava falando pro alto e apontando, reclamava com Deus. Nunca achei que devesse ter qualquer pudor na hora de falar com Ele. Tenho ao meu favor toda literatura indiana: o hinduísmo considera de extrema importância o pensamento que se tem na hora da morte, que ele é determinante para a próxima encarnação. Os hare-krishna não cantam o dia inteiro para fazer banco de horas do bem ou obter favores, como os cristãos. A intenção deles é manter a mente disciplinada para que na hora derradeira eles pensem em Krishna e isso automaticamente os libertará. Pensar em Krishna é o que importa – mesmo os inimigos de Krishna, que morreram nas mãos dele e com ódio dele, foram parar em mundos superiores. A má administração Dele, o rigor, a extensão dos meus sofrimentos, tudo que eu achasse que merecesse queixa era devidamente reportado – “Tá vendo o que você fez? Não, não tá, nitidamente não tá vendo, ou não liga a mínima!”.  Até que um dia – crentes dirão que foi uma Luz – me bateu uma vergonha, não sei explicar. Percebi que quando parece que algo demora a chegar é porque não estou gostando do agora. Senão pediria para o tempo ser congelado. Ou estaria pedindo outra coisa, porque estaria em outro agora. Mas como ainda estava com um problema, olhei pra cima, perguntei se Ele viu e suspirei. “Continuo achando que do outro jeito seria mais fácil, Deus. Facilita aí”.

Disfuncional

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Ele foi uma das pessoas mais disfuncionais que eu conheci. Tão disfuncional, com o mundo e com ele mesmo, que se matou. Deixou tudo organizado e se atirou debaixo de um ônibus. Ele conseguia ser feio, ter cheiro desagradável, falar cuspindo e sem noção ao mesmo tempo. Era uma pessoa tão difícil que eu um dia o encontrei na rua e ele estava todo feliz, porque trabalhava num órgão público, desses que pagam uma fortuna, e deram para ele uma função que o permitia passar o dia inteiro fora. Pros teus colegas de trabalho preferirem que você ganhe praticamente sem aparecer é porque a coisa é feia. Eu o encontrava em dois ambientes de aula ao mesmo tempo e nos dois as pessoas se afastavam assim que ele chegava. Arranjava confusão, se achava mais qualificado do que gente quilômetros de distância melhor que ele. Do tipo que vira pra uma mulher e reclama: um bando de mulher de TPM! Só que no meio de tantas manias irritantes, de chegar perto demais, dos assuntos que não despertavam interesse, ele virava pra você e dizia coisas gentilíssimas. Do nada, ele percebia que te notou, valorizava quem você era e fazia, te fazia ganhar a semana. Nenhuma mentira, ele apenas pegava o que via de bom e devolvia, transformava em palavras o que estava no ar e presenteava. Essa estratégia me fazia pensar que, ao contrário do que parecia, ele percebia os efeitos que causava. Era disfuncional, consigo e com o mundo, pouca gente gostava dele, mas havia ali a capacidade de oferecer calor.

Fio vermelho

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A palestrante nos mostrou a caixinha de acrílico onde nossos fiozinhos vermelhos ficaram durante não sei quantos dias, com uma palavra protetora grudada, debaixo de uma piramide. O fiozinho vermelho, de algodão, deve ser colocado no pulso esquerdo, primeiro com um nózinho seguido de outros seis, e com a recitação conjunta da oração, em língua oriental, por alguém que amamos. Nesse momento, abaixei a cabeça e disse “me fudi”, o mais discretamente que eu pude. Mas na falta de um amor, podia ser o coleguinha do lado. Eu havia conhecido meu colega do lado, o Henrique – perguntei logo depois da oração, só pra ficar menos casual – poucas horas antes, quando eu lhe ofereci para colocar a bolsa dele na cadeira que puxei exclusivamente para colocar a minha, algo que mais ninguém tinha feito. Depois, como eu ficava me inclinando na hora de copiar as projeções, ele me disse para ficar à vontade para me sentar ao lado dele, o que eu acabei não fazendo. Ou seja, já era quase amor. O problema é que o fiozinho era comprido, pensado tanto para pulsos femininos e como masculinos e no meu dava quase para dar duas voltas. Eu conseguiria dar os nós com duas voltas, mas é porque sou boa nisso; como eu sei que homem raramente tem uma boa coordenação fina (tente pedir pra um ajudar como ganchinho do colar pra ver), estendi meu braço pro Henrique com uma volta só. Sobrou fiozinho vermelho pra caramba. Olhei para aquele fio escorrido no meu braço e fiquei imediatamente incomodada. “Pode cortar, né?”. Henrique ficou na dúvida. Eu olhei de novo pro meu pulso e pensei alto novamente (vergonha!) que no dia seguinte nadaria e aquilo ficaria balançando na água. Na hora o Henrique me perguntou “Essa é a razão do cabelo curto?” e eu fiquei sem graça. A moça da frente, que também tinha cabelo curto, entrou na conversa. Eu disse que ia cortar a sobra do fiozinho pra não me dar vontade de cortar tudo, e que também não suportaria cortaria caso ele durasse muito tempo e ficasse nojentinho igual fita do Senhor do Bonfim. Ela foi procurar a professora para perguntar do fio e o Henrique elogiou a minha resolução, pois “é melhor se propor a fazer algo possível” – leitor amigo, o Henrique estava dando em cima de mim? Aí a moça voltou com o tom satisfeito e nos informou a regra: não podia cortar o fiozinhos, era pra enrolar a sobra nele mesmo. Eu disse: “Ahn… Tá” enquanto enrolava inutilmente o troço. Se eu reencontrar o Henrique, será que o fiozinho dele também tem um cotoco na ponta?

Un manoir à Neufchatel, ce n’est pas pour moi

Todo mundo já foi lá, então não sabiam me indicar certinho o endereço. “É uma casa na frente do Parque Barigui”. A localização não é ótima apenas por ser um parque – morar na frente do Barigui significa morar, no mínimo, numa casa muito boa. Mais provavelmente numa mansão. Aí me deram umas indicações, fica no meu caminho quando passo de bicicleta, eu apenas não sei qual delas. Voltando da aula, com minha roupa de pedalada e mochila nas costas, passei reparando e achei. Pode ser uma casa enorme que fica à esquerda ou uma mansão estonteante que fica à direita. Só vai ser meio chatinho à noite, se ninguém me der carona. Cada vida tem suas características, seus desafios, e eu percebo que a minha me faz conviver com grupos muito diferentes. Há pessoas que dizem: “não conheço ninguém que voltou na Dilma”, ou “todos meus amigos são do mundo artístico”, ou “somos um grupinho dos que estudaram no Colégio Tal”. Eu nunca, sempre foi tudo muito misturado, tão misturado que jamais poderia colocar todo mundo no mesmo ambiente. Um dia ouço uma mulher falar do período que passava fome e no outro a que reclama de ter ir a Europa de novo. Olhei para a casa que ainda conhecerei, e lembrei de um amigo que reclamou que eu não o levava junto quando tinha convite high-society. Ele queria ir mesmo sem conhecer ninguém, via como oportunidade. Em compensação, tem outra que poderia e faz questão de não ir. Olhando as mansões de bicicleta, lembrei que muitos de lá dentro tem a mesma idade que eu, de carne o osso também, quem sabe até menos qualificados. Em algum lugar, quem sabe, eu devesse desejar estar lá, lutar para isso, não perder tão feio quando sou comparada aos meus primos. Deveria não estar tão feliz apenas montada numa bicicleta, com dinheiro contado e escrevendo coisas que caem sem efeito no mundo. Mas eu realmente nunca quis, nunca fiz por onde, é como se em algum momento tivessem dado o sinal de largada e eu não ouvi. Não sei se é porque nunca quis ter filhos e não tenho que deixar um legado. Talvez seja porque a gente aprende desde cedo a não sonhar com o que está longe demais – sou de humanas, curso de humanas não enriquece. Zaz, pensei. A moça que ganhava dinheiro cantando nas ruas. A música que me soou tão adolescente. Quem sabe também me diga respeito.

Pomada

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Ela atendia os pacientes em casa. Uma moça chegou por indicação, parente de uma cliente assídua. A moça precisava de ajuda porque estressada, em fase de mudanças. O atendimento acontecia na sala de estar mesmo, já organizada para esse fim. O banheiro disponível era o seu banheiro mesmo, o único do pequeno apartamento. Na pia, apenas um sabonete líquido para os clientes. No armário apertado atrás do espelho, pasta de dentes, escova, fio dental e uma pomada que ela passava toda noite. Era uma pomada de tuia, feita em farmácia de manipulação, uma embalagem de 5g dentro de uma caixinha. Ela tinha umas pequenas verrugas no rosto que queria tratar sem fazer cicatriz, então passava a pomada todas as noites para ver se as verrugas regrediam (regrediram). Como o combinado, a moça chegou, foi atendida, tudo transcorreu normalmente. No fim do atendimento, a moça pediu para usar o banheiro. Ficou poucos minutos lá dentro e foi embora. Naquela mesma noite, antes de dormir, ela foi passar a pomada no rosto e a caixinha estava vazia. Depois a parente da moça ficou sem graça com a descontinuidade do tratamento – a moça ficava de ligar e não ligava, sempre sem tempo e estressada. Os atendimentos eram justamente para ajudá-la nisso.

Teve outra que deixou de vir para não devolver uma sombrinha.

Uma historinha oriental

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Gosto muito de histórias antigas, parábolas orientais, não sei nem dizer onde eu lia tantas. Nelas, um homem anda distraído e fazia um gesto qualquer – dá esmola, ajuda a velhinha a atravessar a rua, deixa o faminto ficar com metade do seu sanduíche – sem saber que exatamente naquele momento estava passando por um teste. O mendigo era na verdade enviado de Deus. Só que para as coisas não serem tão simples, o sujeito da história não é realmente bom; a ajuda que ele dá é feita mais por convenção e preguiça, o sujeito deu sorte deu sorte e no fundo não merecia a dádiva – ou seja, o teste divino tinha mais de uma camada, e o anjo era apenas aparentemente ingênuo ao distribuir suas bençãos. Só pra não deixar tudo no ar, cito uma dessas histórias: o sujeito deu uma esmola pra um mendigo, que era na verdade o Arcanjo Miguel, que em agradecimento eu a ele o direito de passar 5 min com o Livro do Destino. O livro era como um grande catálogo telefônico, com o nome de todas as pessoas da terra e tudo o que lhes aconteceu e acontecerá. Do lado, lápis e borracha. Era pro fulano procurar o seu próprio nome e reescrever sua vida como quisesse. Só que ao invés de fazer isso, ele procura os desafetos e se dedica a estragar as vidas deles. Depois de ferrar com todo mundo, quando finalmente vê o próprio nome, fulano descobre que coisas horríveis o aguardavam e não consegue apagar porque o tempo acaba. Acho o detalhe dele chegar a ler um requinte de crueldade.

Não vou falar o óbvio sobre a lição de moral. O que me chama atenção é outra coisa, não sei nem se consigo explicar. Eu vejo que tendemos a achar que a vida vai funcionar como um espetáculo: tem uma data marcada lá no fundo, o grande dia especial e, até lá, tudo vai ser de brincadeirinha, nada sério. Vamos repetir mil vezes, cometer todos os erros que devem ser cometidos, pra chegar no momento realmente importante e arrasar. Só que as coisas quase nunca funcionam assim, nem existe O Dia. A vida nos pega de surpresa, no meio do caminho, tal como o anjo do teste. A namorada que era pra ser um casinho engravida, o curso que se faz por fazer vira ganha pão, os móveis das Casas Bahia que eram só pra quebrar um galho ficam vinte anos na sala. “Essa mulher/ ocupação/ mesa brega que está aí não me representa, o que combina comigo é algo melhor, eu caí numa armadilha!”. Lamento, não caiu não.

Entrincheirados

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Longe de mim querer tirar sarro dos japoneses, não é nada disso. Está registrado, é fato histórico, que muitos anos depois de terminada a guerra ainda existiam alguns soldados japoneses que continuavam nos seus postos. Isolados, sem saber que o Japão já havia sido derrotado e se rendido, eles se mantinham firmes nas suas posições. Sem saber, realizavam o papel patético de continuar lutando com um inimigo que havia se retirado. “Alá, um soldado japonês”, eu tenho vontade de dizer em certas ocasiões.

A árvore que cai na floresta vazia

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Antes de mais nada: a atitude mais antifilosófica que pode existir é a resposta imediata. Este é um dos grandes males do nosso mundo hoje, talvez a origem: a necessidade de responder de uma vez que sim ou que não. O zen – pelo menos o zen com que sonhei a minha vida inteira através dos livros – trabalha justamente com a atitude contrária. Ele tem os chamados koans, que são perguntas que podem não fazer muito sentido e que servem de objeto de meditação para o discípulo. Num deles, se perguntava se Buda realmente existiu. Acho forte pedir para alguém que largou tudo e se propôs a uma vida monástica colocar em dúvida se o ser que teria dado origem à sua religião. Aqui, do lado cristão, as pessoas agem como se Deus fosse ficar ofendido.

Depois de anos sem ler sobre o zen, me pego com este koan dançando na mente:

Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém lá para ouvir, será que ela faz barulho?

Eu vi e testemunhei momentos lindos. Tive uma professora de balé que quando se aproximava da barra para mostrar um exercício modificava a ar à sua volta de uma forma que céu e terra se encaixavam. Conheci uma recepcionista com um bom humor invencível e que conseguia tirar o melhor de quase todo mundo que cruzava seu caminho. Eu vi carinho e generosidade de quem não tem nada ou quase nada, vi lágrimas de amor em ponto de ônibus, desconhecidos que se ajudam na rua cientes de que nunca mais se verão. Eu me pergunto sobre performances artísticas com energia de mudar o mundo e que tiveram meia dúzia de parentes como público. Eu já vivi, como tantos outros já viveram, estalos internos e arrebatamentos que não podem ser descritos em palavras. As estrelas olham para nós e eventualmente olhamos para elas no mesmo momento. Amazônias inteiras. Como, aonde?

Frustração, frustração e Chico

Eu descobri uma vez um escritor frustrado, que era amigo de outro escritor frustrado. Era – pouco tempo depois da descoberta, eles devem ter tido alguma briga e se bloquearam no face. Tanto que depois não descobri mais o Fulano, porque o nome era comum e eu contava com o outro para encontrá-lo. O fato é que ele tinha algumas coisinhas publicadas no mural, e na impossibilidade de julgar a qualidade delas, coloquei num grupo de amigos, sem qualquer introdução. De primeira, gostaram, acharam que embora escatológico era interessante e bem escrito. Na segunda – “é o cara do cocô de novo? Já deu!”. Não sei o que pensa um escritor da Finlândia, eu sei que aqui é muito fácil dizer que a culpa das edições pagas com o próprio bolso não venderem é de temos um pouco inculto, que mal abre um livro, etc. Tenho muito medo de ficar assim, de verdade.

Bem naquela época eu estava viciadinha nesta música do Chico. Tem aquela brincadeira que nenhuma mulher diria não pra ele, né? Ouvindo esta música, mergulhando nesta música, colocando história e rosto na música, pensei no quanto o Chico é doce. Talvez seja o momento que tenha me dado um Eureka. Cresci ouvindo Chico e às vezes um artista está tão sempre na nossa cara, tão dado e normal, que perdemos a dimensão da sua genialidade. O Chico é um doce. Uma música de fala de sexo de uma maneira intensamente terna. A gente se sente lá, naquele momento que depois pode não dar em nada, ou em crime, mas que é lindo, confuso, apaixonado e se carrega pela vida inteira. Pensei que era esse o problema do primeiro e do segundo escritor frustrado: um grande artista nos leva para o mundo dele. Queremos estar com ele, pulsar ele, ver com os olhos dele. Pra ficar no rame-rame ou pensar em cocô, ninguém precisa de ajuda.

O engenheiro de obras do Niemeyer

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Meu pai é engenheiro e meu irmão é arquiteto. Esse meu irmão me ensinou a apreciar o trabalho de Niemeyer, a radicalidade do seu trabalho que não se parece com mais nada, nem com seu entorno. Meu pai diz que a questão não é o Niemeyer e sim o engenheiro de obras do Niemeyer. O Niemeyer desenha a curva fabulosa e é o engenheiro que tem que fazer o cálculo de como tornar aquela curva viável, resistente, usável. Voltei esse comentário com o meu irmão, que rebateu:

É verdade. Mas se depender do engenheiro ele faz uma reta e pronto, faz tudo reto. É o Niemeyer que joga pra frente, que obriga a fazer o que de outra forma ele jamais faria na vida. Niemeyer lança o desafio e o engenheiro tem que correr atrás.

Vocês viram This is it? Viram documentários sobre o Darcy Ribeiro? Trabalhar com gente assim dói no lombo e é bão.

Curtas escritos nas estrelas

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Na busca por novos posts no blog, que quase sempre me atormenta quase à meia noite, hora que gosto de postar, comumente quero procurar outros blogs para ver do que eles estão falando e ver se me inspiro. Ultimamente, como era de se esperar, não há um único. Os que continuam vivos postam uma vez por bimestre, sei lá. Só eu continuo aqui. Insanidade, persistência?

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Sei umas coisas de astrologia e sempre usei para consumo próprio. Recentemente, numa conversa em grupo de whatsapp, me vi analisando três mapas. Assim, na brutalidade, olhava e falava o que me dava na telha. Num deles, necessidade de amigos, de contatos, de amor, de dividir, de… e me conscientizei do quanto o meu mapa é solitário. Tem arte, tem literatura, tem até amor universal, mas eu cá e vocês lá.

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O que me remete a amiga que me manda mensagens falando de amizades verdadeiras, duradouras, imagem de amigas bem velhinhas. Tenho vontade de avisar: você realmente não sabe com quem está lidando.

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A cada dia que passo, me pareço cada vez mais com o Touro Ferdinando. Já fui o Sapo Cantor, hoje sou Touro Ferdinando. Pro bem e pro mal, o tempo faz com que o importante se reduza a duas ou três coisinhas.

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Tive um sonho. Nele um ex-crush (uma história que eu me interessei, me aproximei, me encantei, descobri coisas e terminei tudo sozinha) escreveu (era como se fosse numa folha de almaço) que acompanhava vários blogs, cita uma amiga minha que trabalhava com internet e depois coloca um nome que parece Caminhante Diurno. Olho fixamente, a imagem está borrada, eu me esforço, aquela dificuldade dos sonhos. No fim, é um outro nome. Sinto uma dor profunda no coração: meu blog é desconhecido.