Curtas sobre o sistema de caixa acoplada

caixa acoplada

Estou ficando boa nessa história de ser adulta, de pensar o que uma pessoa sensata faria no meu lugar e fingir que sou ela. Uma das lições essenciais para agir sensatamente é: abrace o prejuízo. Já deu errado, você vai ter que sair correndo, comprar o que não tinha planejado, pagar o que o cara te pedir, entrar no cheque especial. É assim mesmo.

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Eu ouvi um barulho estranho e tentei ajustar a válvula da descarga à noite. Uma mangueirinha se soltou e ficou dentro d´água. Na manhã seguinte, fez mais barulho, fui ajustar a válvula, ela quebrou na minha mão, a água começou a espirrar sem parar. “Por que, meu Deus, que infelicidade, que inesperado!”. Bem, fora o fato que eu não uso aquela privada há mais de um ano porque ela tem um vazamento incurável …

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Conclusão: sempre me achei das espertas que se antecipa aos problemas. Esse povo que não faz terapia, que procrastina, que isso, que aquilo, eu não, minha ansiedade e perfeccionismo nem deixam. Quem sabe até seja verdade que eu me antecipo aos problemas, apenas não quando eles são hidráulicos.

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O sujeito não vinha voando como eu gostaria, e muito sensatamente aproveitei aquelas horas para comprar um sistema novo. Sensatamente desliguei o registro. No que pareceu um excesso de cuidado, comprei um sistema novo inteiro de uma vez, para não correr o risco de comprar a peça errada. Depois, o cara me disse que fui muito sensata, porque a peça que deu problema justamente é aquela que não vendem separado. Sensatamente, eu tinha um dinheirinho comigo e não precisei ir ao banco. Eu mereço uma estrelinha por tanta sensatez junta, mas entrei no cheque especial e minha futura conta de água…

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“Nossa, você comprou o kit todo, custa uma fortuna e tem peça separada”. Mas olha o que aconteceu: eu contei pra ele que o sistema foi mudado inúmeras vezes e a descarga sempre vazou. Por causa disso ele decidiu desmontar a caixa inteira. Ele me mostrou a peça desgastada e meu banheiro ficou com cheiro de mofo como nunca antes. Deu trabalho e o cara me cobrou bem. Concluo que todas as outras vezes que trocaram o sistema, as pessoas fingiram trocar tudo e não tiraram a peça principal porque a porcelana nunca havia sido mexida. Comprei kits e paguei pessoas à toa durante todos esses anos.

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Outra conclusão adulta: prejuízo que resolve o problema de verdade não é prejuízo.

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Cachorros e crianças

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Eu tenho duas amigas que tiveram uma fobia por cachorros que agora está se transformando gradualmente numa tolerância. Elas sofrem muito. A minha vizinhança tem pelo menos três cachorros de rua e alguns que são criados meio soltos – hábito que me deixa com medo quando passeio com a Dúnia, mas sou obrigada a compreender porque meu cachorro durante a infância, o Flock, também era desses. Mas o que eu acho mais chato por elas é a pecha de pessoa cruel que quem não gosta de cachorros pode ter. Eu não as julgo dessa maneira porque tenho o mesmo problema por não ser fã de crianças. Acabo desenvolvendo um carinho muito grande pelos filhos dos meus amigos; quando imagino se um dia uma criança possa ser uma versão de um dos meus irmãos, já amo só de pensar. Mas meu amor por criança é assim, condicional. Sento o mais longe que posso perto delas em lugar público, julgo severamente os pais que levam crianças pequenas para espetáculo e não se retiram quando elas estão chorando. Eu só entendi o amor imediato que algumas pessoas sentem por criança com o amor por cachorros que a Dúnia abriu no meu coração. Estávamos passeando e o vizinho estava com um cachorro de seis meses, do tamanho da Dúnia, e fiquei doida com a cara de bebezão que ele tinha. Já fui de gostar de cachorro pequeno, os que lembram pelúcias, hoje adoro cachorro com cara de cachorro mesmo. Assim como os doidos por criança, quanto mais eles são eles mesmos, mais legal eu acho. Me mostra vídeo de cachorro uivando, batendo as patinhas no chão de ansiedade, apoiando-se nas patas da frente com a bunda empinada para trás, pegando a bolinha, enfim, qualquer gesto bem normal de cachorro, e eu vejo tudo e me derreto. Cachorro pintado de rosa, andando em triciclo ou imitando um humano ao andar de pé sobre as patas traseiras – detesto. Essas coisas podem fazer mal a eles e bonito é cachorro sendo ele mesmo. Hoje eu sei entender a profunda sabedoria que tem na umbanda ter uma linha de crianças, e que ela é a mais poderosa para limpar ambientes: coloca uma criança (ou um cachorro) num lugar e veja ele ficar automaticamente mais leve.

Limpinho e correto

constelações

Eu falei dos ashwinis no último post porque tem a conclusão bacana da parte do meu irmão; se a minha intenção fosse apresentar a astrologia védica, aquele seria minha última escolha. Porque o que eu acho muito legal da história dos nakshatras é justamente eles não serem limpinhos e equilibrados como na astrologia ocidental. Mesmo sem perceber, aplicamos a ela aquela lógica de final feliz de filmes americanos, onde cada ponta solta gera uma resposta. Acho que Ashwini é o que tem a melhor descrição de todos, melhor no sentido de positiva. Mitologia indiana é muito antiga e muito pra lá de politicamente incorreto. Eles não têm a preocupação de dizer que todo signo é igualmente bom e ruim – alguns nakshatras tem descrições tão negativas que você decide que nunca gostaria de cruzar com uma pessoa dessas na sua frente, ou, caso você o tenha, que nunca vai poder dizer pra um indiano que aquele nakshatra aparece no seu mapa, sob o risco dele lhe virar a cara. Na história do Krittika, as coitadas das Plêiades foram expulsas por um adultério que não cometeram e ninguém se deu ao trabalho de desmentir. Tem nakshatra que fala que a vida vai ser muito difícil, de puxa-sacos manipuladores, de bem-sucedidos incapazes de ternura, que predispõe a incesto. Assim como há, quando se vai pensar em mapas para casais, três tipos de pessoas: as que beneficiam e fazem bem a quem quer que esteja do seu lado, as que tem uma troca regular e, por fim, aqueles que se aproveitam e prejudicam o parceiro.

O pressuposto básico da astrologia que uma pessoa é seu local e horário de nascimento, é altamente contestável – mas sabemos que os indianos têm razão, o mundo e as pessoas são mais do que defeitos e qualidades igualmente distribuídos numa balança. Os melhores astrólogos que tenho visto falam a mesma coisa, que a graça não é querer fazer previsões e dizer que é assim ou assado e sim aprender com essas metáforas, entender o que os nossos ancestrais tentaram nos falar, o que temos em comum com pessoas que viveram em outras épocas e também amavam, sofriam e pensavam sobre a vida. Existe algo de atraente nos nakshatras, nos Irmãos Grimm, nas Fábulas Italianas do Calvino; é mais humano do que um autor qualquer possa criar, elas transmitem muito mais do que a nossa mente cheia de tabus é capaz de reproduzir. Tenho me refugiado nos nakshatras porque encontro neles verdade, variedade e tempero, enquanto o mundo lá fora busca a pasteurização, odeia a variedade, nega o diferente.

Ashwinis

ashwini

(Vocês não sabem a dificuldade que tem sido não falar sobre política o tempo todo. Seguimos)

Finalmente consegui baixar um livro que estava a fim de ler faz tempo, sobre nakshatras. Eu tenho uma maneira caótica de estudar, sou obsessiva e consumo tudo, indo e voltando pros assuntos, o que faz com que eu não entenda nada e entenda tudo ao mesmo tempo. Comigo funciona. Algumas coisas que a astrologia védica que eu ao meu respeito são tão dolorosas – e devo reconhecer que acertaram na mosca – que acho que jamais terei coragem de ler um mapa védico pra alguém, caso um dia consiga. Sobre os 27 nakshatras, embora já tenha lido sobre todos, retomo e tento personalizar. É muito mais fácil prestar atenção quando ele fala de você ou de alguém que você conhece. Então o primeiro de todos, o Ashwini, é bastante fácil pra mim porque meu irmão tem a lua em ashwini (o que torna esse nakshatra o seu signo védico, digamos assim) e eu tenho marte e vênus lá.

Um pouco do nakshatra: ele é simbolizado por dois cavalos. A esposa do sol precisava de um tempo, porque o marido dela era literalmente muito quente, e fez uma cópia de si mesma para que ele não notasse sua ausência. Mas ele notou, quando a sua clone tratou mal um dos filhos deles. O sol foi atrás da esposa pela floresta, que se transformou numa égua, e ele se transformou num cavalo, e da união deles nesse estado nasceram os gêmeos Ashwinis. Numa das histórias, para descobrir o néctar da imortalidade, eles substituem a cabeça do sábio que tem a receita, porque um deus disse que cortaria se ele revelasse o segredo. Ele revelou, a cabeça foi cortada, mas era a cabeça de um cavalo e os Ashwinis colocaram a cabeça original no lugar depois. Por causa disso, esse nakshatra tem ligação com medicina, cirurgia, dons de cura. Em outra história, os aswinis quiseram casar com uma princesa que havia estourado sem querer, pensando que eram besouros, os olhos de um sábio, e foi viver com ele na floresta. Os Ashwinis eram fortes, jovens e bonitos, enquanto o marido dela era velho e cego, e mesmo assim ela não aceitou. Eles então ofereceram tornar o marido dela jovem e recuperar a visão, mas a princesa teria que escolher um dos três para se casar e eles estariam muito parecidos. O casal topou e a mulher, muito virtuosa, conseguiu saber qual era o marido dela. Essa história fala dos outros dons dos Ashwinis: restaurar a visão (há outra história com o mesmo tema), beleza, juventude e correção de caráter (por terem cumprido a promessa. No mundo das lendas védicas tem cada uma…). Quando um nakshatra é simbolizado por uma animal, conhecer o comportamento do animal é conhecer a natureza do nakshatra. Por serem representados por cavalos, os ashwinis são rápidos, fortes, inteligentes, dóceis e gostam de espaços amplos.

Eu tinha visto várias referências que diziam que era comum que irmãos gêmeos tenham esse nakshatra. Nunca dei importância, porque não sou. Hoje descobri que é possível que a pessoa tenha como se fosse um falso gêmeo, um outro muito parecido com ela. Aí pensei no meu irmão, e a maneira como nos achavam gêmeos durante boa parte da nossa vida, apesar de termos um ano de diferença. Pensei em nós dois de mãos dadas no recreio do colégio na nova escola e me emocionei. Ele é ashwini, eu também, somos mesmo gêmeos um do outro. Aí fiquei emocionada.

Curtas de necessidades

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Aquele dia que você passa no supermercado sem saber muito o porquê. Passa pelas prateleiras, revisa mentalmente o que tem na geladeira, lembra que fez feira há poucos dias e se decide por um suco e um docinho. Quando chega em casa, descobre que precisa comprar arroz e óleo.

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Meu super poder x-men: empatia. Me pego falando de cachorro com a mocinha do caixa, recomendando kindle pro verdureiro, falando de corrupção com outro verdureiro. Ouço a confidência sobre o homem casado, recebo mensagem de uma inconsolável com uma injustiça. Na hora parece tudo normal, mas depois fico sabendo que foi só comigo. É sem querer.

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Não é de hoje que pensei isso, e talvez soe meio triste: meus blogs suprem a necessidade que tenho de compartilhar coisas que no mundo real não consigo. Quero que vocês assistam Atypical, quero que vocês leiam a biografia do Churchill, quero que mais alguém goste de nakshatras. Quando consigo influenciar uma única vivalma, fico tão feliz.

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“Já perdemos essa eleição”, me disse uma amiga bem desanimada esses dias, “pra que continuar lutando?” Eu lhe disse que temos obrigação. Nem que seja apenas para, no futuro, não se envergonhar. Pelo menos nós não nos omitimos.

Matérias do coração

Enquanto o país se mobilizava com o ataque sofrido por Bolsonaro, eu mal conseguia prestar atenção. O desastre do dia foi a Dúnia não conseguir apoiar a pata no chão. Ela havia passeado normalmente e duas horas depois estava trípede. Já era final da tarde de véspera de feriado e eu teria que esperar até o dia seguinte. Quis entrar em contato com o ex, que ele me acalmasse, instruísse, enfim, que dividisse esse peso comigo. Ele já está casado e eu não gostaria que o meu marido tivesse uma ex que liga em véspera de feriado desesperada com o cachorro. Usei o método de imaginar o que ele faria, a voz da razão que internalizei depois de tantos anos de convívio. Ele não apenas me mandaria dormir, como tomar um bom café da manhã para não passar fome durante ou depois da consulta. No fim deu tudo certo e ganhei mais uma estrelinha de vida adulta. Foi só sair de manhã, entrar em táxi, ver a veterinária e ser cutucada que a Dúnia já estava correndo como um filhote. O diagnóstico foi: frio e velhice. Além do anti-inflamatório, ela vai ter que tomar reposição de cartilagem pro resto da vida; como é meio impossível dar remédio para a Dúnia, isso lhe garantirá um pedacinho de salsicha pro resto da vida também.

Lembrei desta música do Miguel Araújo. Na introdução a ela no DVD do Cinco Dias e Meio, ele diz: “Se há um grande desastre, uma terremoto ou um maremoto na China, morrem milhares de pessoas e a pessoa fica um pouco incomodada; se há uma epidemia, uma doença qualquer na Espanha, e morrem dez, já é um pouco mais; e se morre um vizinho do lado, aí sim o acontecimento fica trágico”.

 

 

Nodo faminto

rahu

Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?

A fita poderosa

fita cassete

Eu não tenho mais a fita pelo motivo simples que há muito não se usa fita. Ela chegou até mim através de um colega de atelier, que me falou dela como um verdadeiro milagre. Tinha um som repetitivo de fundo, como um metrônomo, que através de estudos científicos que mostravam que uma determinada frequência sonora fazia maravilhas com o cérebro. Começava com um relaxamento e depois o locutor dizia coisas que avançados estudos científicos mostravam que o cérebro ficava reprogramado e a vida da pessoa mudava. Tudo naquela fita era super avançado. A fita pertencia a uma organização secreta e avançada, não se achava pra vender, mas ele faria uma cópia de presente para mim porque éramos amigos e ele confiava no meu discernimento. Cheguei em casa curiosíssima, me tranquei no quarto e deitei para ouvir a fita, conforme as instruções. Ela começava com aquele relaxamento que manda a gente se concentrar em cada parte do corpo. Depois de relaxar cada pedaço, nos pedia para colocar o cérebro num estado tranquilo. No fim, falava umas frases positivas. Isso. Era só um lado, meia hora, terminava com o sujeito dizendo que a gente podia acordar. No dia seguinte eu contei que ouvi a fita, ele perguntou o que eu senti e eu narrei tudo isso que escrevi acima. Meu amigo ficou impressionado: “Você tem um grande poder mental, geralmente a pessoa dorme nos primeiros minutos!” Fiquei orgulhosa do elogio e nunca mais o mereci: depois que eu já sabia o que tinha dentro, o cara mal começava a falar pra se concentrar no dedo dos pés e eu já estava roncando.

Todas as manhãs

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…você chama o seu cachorro pra lhe fazer um carinho, mas chega uma manhã que ele, com a cara já toda branca, prefere permanecer deitado. Na padaria do bairro, de novo, uma funcionária some e nunca se saberá o motivo. Na festa de encontros de ex-colegas de faculdade, além da exibição das rugas e barriguinhas, um casamento não vai bem colide com um coração que está livre. Os tapumes e a sujeira da calçada somem e, como mágica, se transformam em mais um arranha-céu. Na turma da academia, cheia de pessoas da terceira idade, é a jovem que está com câncer. Uma área inteira da cidade, um trajeto de ônibus e um lojinha somem da sua vida, deixam de existir no mapa, porque o motivo pra ir até ali não existe mais. Ser chamada de “senhora” se torna tão corriqueiro que deixa de ser ruim. A peça que estava à venda e já esquecida no meio da decoração da loja finalmente sai e rende um dinheirinho. A filha que nunca passava em medicina finalmente passa no vestibular, ou decide fazer outro curso, mora num apartamento e tem namorado. O calendário ideal, com espacinhos para escrever todos os compromissos do mês, no próximo ano não vai ter mais. Grandes amigos do passado e grandes ódios do passado desbotam e ficam quase iguais. A alça pra abrir a porta do guarda-roupa se solta. O irmão que era galinha se casa, o irmão mais amado não dá notícias. A longa estadia no exterior já foi e já voltou. A comida que era apenas para “se virar” se torna boa. A morte que parecia insuperável se mistura na rotina. Eu prossigo, vocês insistem em mudar.

Não existe mais o Museu Nacional do Rio de Janeiro

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Grande parte da nossa população não entende o peso da perda de um museu. É só pensar na histeria em torno na exposição Queer e a tal performance “incestuosa”. E a parte do país que entende, é elitista demais pra querer educar a outra parte – mais do que isso, tem feito de tudo para reduzi-la à subsistência. Tem dias que é duro demais.

Vai lá, vota em candidato que não quer ter nem Ministério da Cultura.

Curtas de uma mente exausta

Eu queria um sabonete líquido específico, que é sempre tão fácil de achar. Mas, parando pra pensar, eu nunca o comprava naquele supermercado. Olhei fixamente para a prateleira dos sabonetes líquidos, dos sabonetes íntimos, dos sabonetes, fui até a sessão de xampu, voltei para os sabonetes líquidos, fiquei olhando fixamente. Ele não estava escondido e não saltou da prateleira. Um funcionário não apareceu lá pra repor. Foi negação pura.

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Em poucos meses, do time “não sei inglês, nem me mostre”, passei a assistir vídeos sem legenda o dia inteiro e fazer minha primeira tentativa séria de ler um livro em inglês. Tudo por causa da minha curiosidade insaciável pelos nakashatras e a dificuldade de encontrar bons materiais em português. Uma coisa que a astrologia védica acerta e nunca achei uma boa explicação na astrologia ocidental é dizer que sou muito virginiana. O perfeccionismo quase (quase?) doentio sempre foi minha marca registrada.

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Aquele dia que você acorda decidida: cansei de ser forte, a vida é uma merda, vou me entregar mesmo, o próximo mês vai ser só na auto-comiseração. Aí você encontra com a pessoa que está vivendo uma das situações mais dolorosas da vida humana pela segunda vez.

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Este vídeo, tão lindo, mostra a órbita do planeta Vênus. Diz que numa divisão no tempo que Vênus leva ao redor do Sol com ao redor da Terra – ou algo do gênero -, chegamos no número aúreo. Quem estiver com a mente em perfeito estado, pode pesquisar as orbitas e fazer as contas. Mentes prejudicadas podem apenas olhar pro vídeo e ser hipnotizado também.

A voz dos selvagens

selvagem

A antropologia surgiu quando os europeus conheceram novos mundos e se depararam com os “selvagens”. Primeiro através do relato de pessoas que comercializavam direto com eles, depois pela iniciativa de alguns corajosos, foram levantadas as informações sobre esse novo tipo de gente, que se vestia, tinha lendas, línguas, tudo tão exótico. Fizeram muitas teorias sobre eles, que essencialmente diziam que havia uma linha evolutiva que começava com a selvageria e barbárie dos primitivos e terminava na civilização européia; começava com a magia e religião e terminava com o pensamento científico. Não havia nenhum valor no que vinha “deles”, um estágio substituía o outro – um raciocínio que ainda hoje é difícil de abandonar. Era possível ser “antropólogo de gabinete”, pegar os diversos relatos sobre um povo e com esse material formular teorias sobre eles. Há uma história famosa e bem ilustrativa que diz que James Frazer, autor do influente O Ramo de Ouro (1890), quando questionado se gostaria de conhecer um dos seus selvagens, respondia: Deus me livre! De lá pra cá as coisas mudaram de tal forma, que não apenas não é possível ser antropólogo sem ir a campo, como o seu objeto de estudo hoje provavelmente sabe ler e escrever, e pode aparecer no dia da defesa e dizer: “está errado, não é isso que eu penso, você não entendeu nada”. Era muito mais fácil antes.

Uma vez uma pessoa – que já adianto que tinha curso superior e todos os requisitos necessários para ser levada a sério – disse, ao voltar da sua viagem à Africa do Sul, que lá havia mais brancos do que negros. Foi uma dessas viagens de excursão, naqueles hotéis magníficos e programação toda fechada – e em todos esses lugares, falando inglês com os turistas, estavam funcionários brancos. Quando eu e as outras pessoas presentes tentamos dizer que não era verdade, que ela havia ido para a Á-fri-ca, ela reafirmou. Na África do Sul havia mais brancos do que negros, ela viu.

É fácil entender a lógica desse raciocínio, que coloca os próprios sentidos acima de qualquer outra informação. Acabo de ler no meu facebook uma discussão que relaciona minorias com os governos de esquerda e termina com: “o Brasil e nós não aguentamos mais a falta de políticas públicas sérias que busquem a reforma do Estado e afastamento desses vícios“. No mundo das minhas lembranças e mais ainda nas lembranças de pessoas mais velhas do que eu, não existiam tantas minorias. Vá lá, havia sempre algum tio esquisito e que morreu solteirão, a empregada negra que era “quase da família”, a Roberta Close. Nós literalmente não víamos as diferenças, elas não frequentavam os clubes e as igrejas. Muita gente quer voltar a esse mundo – se um dia ele foi assim, por que não pode ser de volta? – sem se dar conta que não é uma questão de um governo ou outro e sim parte de uma mudança maior, um equilíbrio nas relações de poder. Elas se perguntam porque os gays de hoje não podem ser discretos como o tio esquisito, sem se perguntar se o tio esquisito gostava de se esconder. As minorias querem mais do que assistir e dizer que está errado, querem estar na mesa e apresentar teses também. Antigamente era mais fácil – mas pra quem?

Leão no apartamento

leão

Parece Cortázar mas é Animal Planet. Lembrei e fiquei com vontade de contar.

Era uma série que só falava de casos de pessoas que adotaram grandes felinos (na sua maioria) e acabaram morrendo por isso. Não sei se o recorte do programa dava uma impressão errada, vai ver que fora os casos descritos existem milhares de pessoas com leões, onças e jaguares de estimação e que vivem muito felizes com elas; no programa, todos os retratados tinham uma relação tão apegada com os bichos que era algo doentio, como se o felino o dominasse. Se ter um gatinho doméstico em casa já deixa as pessoas meio servos deles, imagino que um gato de toneladas tenha um poder que enlouqueça um pouco. Essas pessoas ficavam cada dia mais fechadas no mundo delas, faziam tudo em função do bicho e com o tempo ficavam muito imprudentes – se aproximavam de fêmea furiosa no cio, de bichos famintos, etc. Aí um dia o bicho perdia a cabeça e atacava. Era só um rompante, igual memória curta de cachorro, mas como o animal era forte demais, um simples rompante desses era fatal.

O caso mais interessante que eu vi eram de dois irmãos que, não sei como, arranjaram um filhote de leão e levaram pra um apartamento. Se não me falha a memória o apartamento ficava no Bronx, era um lugar bem central. Um dos irmãos ficou com o leãozinho e o outro ajudou a guardar segredo. Claro que o lindo filhotinho foi crescendo, passou a comer muitos quilos de carne crua por dia, a ter uma pata do tamanho de uma cabeça e se sentia meio confinado. Mostraram imagens das paredes arranhadas de cima abaixo. O rapaz passou a viver em função do leão – ele não trabalhava e mal saída de casa, praticamente só saía para comprar comida. Os vizinhos só o viam de vez em quando no elevador. O outro irmão nem ia mais para o apartamento, mandava dinheiro e deixava coisas na porta. Eu fico imaginando a existência estranha de uma pessoa num apartamento submetida, apaixonada e hipnotizada por um leão. O leão esparramado pela sala, enorme, com o peito subindo e descendo suavemente a cada respiração. Passar uma escova na linda juba do leão. O leão deitar a cabeça no seu colo na hora do jornal. Pelos de leão pela casa. Dar banho no leão. Olhar para o leão estraçalhar com facilidade grandes pedaços de carne crua.

O que causou o fim do relacionamento foi quando apareceu um gato – desta vez um normal, doméstico – no corredor do prédio e o rapaz resolveu adotá-lo também. Tadinho do gato. O leão não viu ali um parente. O rapaz notou que desde o primeiro instante o leão olhava estranho para o gato e ele ficou de olho no leão olhando para o gato. Aconteceu o esperado: o leão tentou comer o gato, e quando o rapaz viu o que estava pra acontecer, tentou evitar o bote. O leão amava mesmo o rapaz, porque ele se meteu entre um leão e a sua caça e saiu vivo. O leão apenas o afastou, o que fez o rapaz voar longe e quebrar vários ossos. Ele ligou pro irmão pedindo ajuda. No hospital, com aqueles ferimentos, eles tiveram que se explicar para os médicos. Aí o programa mostrava imagens reais da fachada do prédio, vizinhos consternados, uma multidão acompanhando. Atiradores entraram no apartamento com tranquilizantes. Imagina a sensação de invadir um apartamento com um leão dentro. O leão foi levado para um zoológico e os irmãos foram punidos.

Védico e sideral

Nakshatra wheel

A ideia de gostar de um outro país e tê-lo como sua cultura do coração sempre me pareceu meio boba. Sempre tive simpatia pelos argentinos, mas eu sei que diante de um argentino de verdade eu nada mais sou do que uma brasileira, e por aí vai. Então, eu mesma fiquei surpresa quando comecei a ler sobre os nakshatras e sentir uma euforia no coração. Não tenho como explicar, apenas adoro coisas relativas à Ìndia. Passei a adolescência inteira lendo sobre yoga e parei de comer carne por isso, sonhava em ir pra um ashram, ouvia as músicas, enfim, seguia toda cartilha mística.

Em linhas gerais, é assim: existem duas grandes correntes na astrologia. A que se pratica aqui é a tropical e a que se pratica no oriente é a sideral. Sem entrar em detalhes, a diferença de cálculo é porque na tropical a mudança dos signos está ligada às estações do ano, na sideral às constelações. Os pressupostos de uma e outra são diferentes, e querer transportar automaticamente o conceito de uma para outra é igual quando a gente acha que sabe espanhol e se depara com falsos cognatos. Os signos da astrologia védica são quase um signo inteiro para trás. Aqui é signo é determinado pelo sol e lá pela lua. Exemplo: no mapa ocidental, eu tenho o sol em gêmeos e a lua em touro, o que me torna geminiana; no oriental, eu tenho o sol em touro e a lua em áries, o que me torna ariana.

Aqui um signo é sempre igual nos seus trinta graus. Tem os quadrantes, mas na prática ninguém diz que alguém que nasceu no início de um signo é diferente de quem nasceu no fim. Lá, os signos são divididos a cada 13 graus e 20 minutos, que são os nakshatras. E cada nakshatra tem 4 subdivisões, os padas. Cada nakshatra corresponde a um símbolo, um modo de energia, estrelas, deuses. As histórias indianas me fascinam pelos caminhos inesperados, algo que uma mente ocidental jamais conseguiria produzir. Olha que legal esta história (resumida), que corresponde a um nakshatra que fica em câncer sideral.

O grande sábio Kashyapa , o filho nascido em desejos do Senhor Brahma , era casado com as duas filhas Kadru e Vinata . Ambas as irmãs eram de grande beleza e inveja uma da outra. Kashyapa ficou extremamente satisfeito com os dois e ofereceu a cada um deles uma benção.

Kadru disse: “Que mil filhos de incomparável força e valor nascem para mim!” E para Kadru nasceu a raça das serpentes, um total de milhares delas, dotadas de grande força. Quando chegou a sua vez de escolher seu benefício, Vinata disse: “Que dois filhos sejam nascidos para mim, os quais eclipsarão os filhos de minha irmã em força, valor e fama”. Vinata colocou dois ovos. Quinhentos anos se passaram, mas os ovos não nasceram.

As irmãs Kadru e Vinata se envolveram em uma discussão. Kadru perguntou a sua irmã: “Irmã, qual é a cor do cavalo divino Uchaishravas que pertence a Indra ?”

Sua irmã respondeu: “É de uma cor branca impecável, desde o nariz até a cauda magnífica”.

Kadru disse: “Você está errada. Embora seja verdade que seu rosto e seu corpo são de uma cor branca impecável, eu acho que sua cauda só é uma cor preta brilhante. Diga-lhe uma coisa, vamos apostar neste tópico.” Se você estiver certa, eu me tornarei seu escrava. Se eu estiver certa, você deve se tornar meu escrava. “

Vinata aceitou a aposta. Kadru sabia que o cavalo era branco de um lado para o outro, então ela arquitetou um plano. Ela chamou seus filhos e disse: “Eu aposto com sua tia que o cavalo Uchaishravas possui um rabo preto. Você deve fazer as minhas palavras se tornar realidade. Vá em frente e enrosque-se em torno de sua cauda e dê uma aparência preta.”

Retirado daqui.

Só duas cobras não aceitaram fazer parte disso, e são essas duas nagas que fazem parte do nakshatra de Ashlesha.

 

O ciclista, o dono e a florzinha

flor cabelo

O ciclista pelado: É através do ciclista pelado que eu sei se estou atrasada ou não. No horário ideal, ele está passando na frente da minha casa quando estou saindo. Algumas dessas vezes, eu também estou ciclista. Claro que ele não anda literalmente pelado, não é o Oil Man – pra quem não é daqui, informo que o Oil Man circula pelo centro. O ciclista pelado é um rapaz comum, de barba, na faixa dos seus vinte anos que passa por aqui todos os dias, acredito que a caminho do trabalho. Eu me refiro a ele como pelado porque muitas vezes a temperatura está abaixo dos dez graus, eu mesma pedalando com duas calças, casacos, corta-vento e balaclava, e o sujeito está de bermuda. Pelado.

O dono de pet que odeia falar de cachorro: Antes eu comprava ossinhos pra Dúnia numa loja no centro, mais barata, mas como não passo por ali com frequencia suficiente, tive que me contentar com uma pet um pouco mais cara aqui da região. Circulando por ali, ficam sempre três lindos pastores alemães entediados. Outra coisa muito característica é que sempre tem um problema na conexão, no computador ou sei lá o que, então ele precisa anotar meu cpf na mão. Talvez seja pelo fato de ouvir as mesmas coisas o dia inteiro, mas sempre tentei falar qualquer coisa sobre cachorro -nada sério, papo de balcão- , o cara não apenas me ignorou com só faltou fazer cara de tédio.

A senhora sorridente que gostava de acessórios no meu cabelo: Essa me fez perceber o quanto somos influenciáveis pelos elogios. É a loja onde gosto de comprar a granel. Tinha duas funcionárias, e a mais velha era uma senhora simpática que ficava muito feliz em me ver. Conversávamos sempre. Um dia fui com uma fivela de uma florzinha branca no cabelo e ela ficou encantada, me achou linda. Outro dia também, com uma flor vermelha; na terceira vez não estava usando nada, ela não me elogiou. Quando me dei conta, eu me programava pra sempre colocar um acessório no cabelo quando passava na loja. Um dia fui lá, de flor no cabelo, estava a outra funcionária e duas adolescentes em treinamento. A senhora sorridente se aposentou. Nunca mais passei lá de florzinha.

Um episódio machista

atelier

Já falei algumas vezes aqui que fui escultora. Eu tinha vinte e poucos anos. O atelier é público e fica no Parque São Lourenço, na base de um monte, digamos assim. Conto isso pra vocês saberem que era quente. Trabalhar lá era muito sujo, então eu comprei um macacão jeans grosso, igual aqueles de mecânico. Tem foto minha neste post usando ele. Uma vez eu estava lixando uma peça à mão, no verão; lixar já é um trabalho braçal, então imagine num lugar quente e usando um macacão jeans. Peguei a peça e saí do atelier, sentei num banco meio isolado que tem perto da entrada. Cabelo preso, macacão sujo, lixa e escultura.

Acho que não aguentei nem trinta minutos e voltei para dentro, furiosa. No pequeno período que eu passei lá, fui abordada por três homens, em separado. Eu trabalhando e do nada surgia um homem e se sentava na minha frente e começava a me cantar. O primeiro eu até me dei ao trabalho de responder secamente, mas depois veio outro e outro, e senti tanto ódio que não conseguia nem falar. Porque eu percebi bem o que estava acontecendo: como eu estava com aquele macacão sujo, concluíram que eu era uma funcionária, uma trabalhadora braçal – mas novinha e bonitinha. Então, eles acharam que tinham todo direito de tentar alguma coisa. Quem sabe eu até deveria me sentir honrada, porque eu era uma pobre coitada e eles estavam dispostos a dormir comigo mesmo assim. Sabe aquele pensamento senhor de engenho com as escravas, patrão com a empregada?

Saí do atelier há mais de uma década, nunca mais lixei nada e não cheguei nem perto de vestir um macacão sujo, por isso achei que nunca mais passaria por nada semelhante. Até que eu me divorciei.