A conquista do campo

Num réveillon que nem lembro qual, eu estava vendo TV tediosamente e encontrei uma série sobre brinquedos que marcaram nossa infância. Parecia aqueles apanhados nostálgicos que sempre aparecem nas redes sociais: a pessoa junta hits dos anos 80, coloca poucos minutos de cada, nos sentimos velhos e acabou. Então, quando vi que havia uma série sobre Brinquedos Que Marcam Época na Netflix, achei que fosse aquela e não me interessei muito. Não é. Cada programa tem um brinquedo famoso como tema – Transformers, Lego, Barbie, Hello Kit, etc – e conta a história dele. O programa entrevista os criadores, fãs, conta como foi lançar no mercado, as estratégias, as mudanças, os percalços. É muito interessante ver que no início se vendeu até tanques com a franquia Star Trek, bastava colocar um adesivo. De como se chegou na Hello Kit, do porquê a Barbie ter aquelas medidas.

Numa relação não tão evidente, havia um outro documentário na Netflix (acabo de consultar e acho que foi retirado de catálogo) sobre A Mente de Einstein. Além de explicar os conceitos, ele mostrava o trabalho que houve para consolidar a teoria no campo. Hoje, dá a impressão de que bastou Einstein publicar e no momento seguinte já estava tirando foto com a língua de fora. Além das dúvidas, havia a dificuldade em provar, o desafio pessoal de desenvolver os próprios cálculos e até mesmo fazer isso antes de alguém que já pegou a teoria lançada e precisava apenas provar.

É sempre bom relembrar que nada nasce pronto, quem olha o resultado final não adivinha o trabalho que teve por detrás, etc.

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O próximo best-seller

best seller

Algumas pessoas já me disseram que têm uma coleção de histórias ou uma história pra um livro. Até aí, muito normal. O anormal é a expressão que elas fazem, a maneira como perscrutam meu olhar em busca de alguma irritação ou inveja. Há várias ideias por detrás disto: eu sou uma pessoa que escreve há tanto tempo, já tentei escrever e mandar livros e nunca consegui, não sou boa o suficiente na escrita pra ter um romance. Já ela tem dentro dela dados que são um tesouro, que quando saírem para a luz, gerarão um livro muito interessante. Só que o que a pessoa encontra é um encorajamento sincero. Eu realmente quero que todos os que têm grandes livros na cabeça realmente comecem.

Eu sempre achei que somos o país do futebol porque todo brasileiro, pelo menos do sexo masculino, um dia jogou futebol. Por ter tentado, por conhecer seu desempenho, ele é capaz de ver um profissional fazer um drible bem feito e chutar uma bola no ângulo e valorizar. É diferente saber em teoria e realmente ter tentado. Eu só passei a realmente admirar um bailarino que dá vinte fouettés quando descobri a tontura que é dar dois giros. Sempre fui uma leitora meio enjoada, do tipo que hesita muito em pegar best sellers e livros mais fáceis. Depois que passei a tentar eu mesma escrever um livro, minha antiga atitude de desprezinho pelas mesas cheias de livros descartáveis virou pura admiração. Olha só duzentas páginas de letras, ações e descrições, que artista!

Por isso, quero muito que escrevam. Quero que descubram que a ideia fabulosa, de várias páginas, se transforma em poucos parágrafos quando você senta pra digitar. Que por escrito o impacto é diferente do causo contado entre amigos. Que algumas coisas fluem e falamos do que nos é muito próximo, e outras não, mas para ficar bom ninguém deve notar uma coisa e outra, e pra isso é muito tempo em cima até corrigir. Enfim, não vou me dedicar a listar às particularidades da escrita, até porque nem todo mundo – levei tempo pra descobrir – quer realmente escrever um grande livro, alguns só querem poder dizer: escrevi um livro. Escrevam sim. Façam de tudo para transportar para um arquivo aquilo que está só na sua mente. Procurem uma editora. Depois se abracem também aos prantos diante de qualquer livro de ator global, admirada com a grandeza do projeto.

Curtas dos problemas

galinha correndo

Tem várias coisinhas que eu achava que só resolveria quando voltasse a ter um homem do meu lado. Um homem, não necessariamente um marido, quem sabe até mesmo um parente. Muitos motivos: só vão respeitar um homem, um homem é que entenderia disso, o homem terá força física, um homem terá dinheiro, um homem me dará carona, um homem saberá o que fazer, um homem pode segurar minha mão. E, UMA A UMA, a vida tem me obrigado a resolver cada questão sozinha.

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Depois a gente entra numas de não precisar de homem e fica radical. Pra que uma mulher continue a querer um homem de todo jeito do seu lado, impeça-a de matar a primeira barata.

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Daqueles problemas de cobranças abusivas, que a gente não sabe até quanto pode apelar ou terá que pagar chorando. Um lado meu quer lutar até o fim, porque é de uma injustiça tremenda e essas malditas multinacionais lucram com a nossa ignorância. O outro não quer ligar, dinheiro é só dinheiro, pago de uma vez só pra voltar a viver em paz.

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Esbarrei numas postagens antigas e, mais do que estava escrito, me comovi com quem éramos na época que tudo foi escrito. Fui transportada pra lá, para as preocupações de anos atrás, para o que vivíamos, nossas perspectivas de futuro. Éramos tão mais felizes e relaxados. Agora eu me sinto exausta, é como se estivéssemos numa guerra civil.

O futuro nos filhos

olhar bebê

Sobre ter filhos, fiquei muito aliviada quando vi que no meu mapa astral há um aspecto que: “é possível que não queria. Ou que queira e tenha problemas de fertilidade. Se tiver, que tragam problemas. Os filhos serão um fardo pesado, por eles terem problemas de desenvolvimento, comportamento rebelde ou que não haja amor no relacionamento com eles. Pode ser que crie os filhos dos outros. Se for para ter filhos, melhor ter só depois do quarenta.” Como ler isso e não ficar aliviada por nunca ter desejado ser mãe?

Lembro de ter ouvido o meu pai dizer diversas vezes que os filhos dele teriam que se virar. Ele sempre foi contra esse modelo que os pais enriquecem e dão tudo aos filhos, estragam com excesso de riqueza. Por isso, meu pai tratou de gastar todo seu dinheiro ele mesmo. Hoje os amigos dele invejam seus filhos cheios de iniciativa e razonabilidade, enquanto os dos outros são encostados e irresponsáveis. Eu acho, apenas acho, que quando ele fez esse cálculo sobre não estragar, ele não poderia prever o que aconteceria com o Brasil. Ele vem de uma época que aos quarenta a pessoa com diploma já poderia ter casa, carro e casa na praia. Hoje, nossas pós-graduações não nos ajudam nem a arranjar emprego. Queria poder me dar ao luxo de ser um tiquinho irresponsável, como os filhos dos amigos dele são. A minha responsabilidade e a dos meus irmãos vêm da aguda consciência de que, se você cair, terá que não apenas se levantar sozinho como pode ser pisoteado pela multidão.

Eu vejo o fim da aposentadoria, os ataques à educação e a precarização do trabalho de uma posição mais confortável do que a maioria da população, apesar de não ser confortável a ponto de não me deixar afetar. Mas vou te dizer que não ter descendentes, saber que me preocupo apenas comigo, diminui muito essa preocupação. Eu tenho que garantir o meu e as pessoas mais importantes pra mim vão morrer antes ou mais ou menos na mesma época que eu. Gerações que virão com poucos e mal remunerados empregos, com pouca inteligência corporal e capacidade de concentração, tudo soa tenebroso mas não estarei aqui durante muito tempo para ver. Já sou um ser humano formado e boa parte do meu caminho já foi traçado.

Mas meu irmão cedeu ao imperativo biológico de reproduzir a espécie, a alegria de se ver perpetuado num outro ser, e inventou de ter uma filha. Agora ele está preso ao futuro de uma maneira que nunca estarei e decidirá da mesma forma que nosso pai um dia decidiu. Este não é o mundo que eu gostaria de deixar para alguém que eu amo.

As portas

escada na sombra

Nosso psiquismo tem portas. Quem já passou por elas olha para os que não as conhecem e percebem. A arrogância e o descrédito que os mais velhos têm em relação aos mais novos têm razão de ser. Existem dores, desde que nascemos vivemos em meio a dores. Cada dor, quando inédita, parece enorme – o fim do primeiro amor, a primeira traição, a primeira frustração, a primeira responsabilidade. Para todas as dores, até um nível, chorar é um bom caminho. Chore, alivie-se. Mas para além de todas as dores pessoais, há uma que abre uma porta diferente. Quando se abre essa porta, o sujeito se vê diante de um cenário muito maior do que ele. A sensação é a de entrar no pântano de todas as dores da humanidade. É uma dor ancestral, atávica, genética. É uma dor tão grande que não é possível ser chorada, porque uma pessoa sozinha não consegue dar vazão a tanta dor. Ao contrário da dor pessoal que se cura com alguns instantes de entrega, para esta não é possível se entregar; não pode chorar, não pode entrar, sob o risco de não conseguir sair vivo. Diante da última porta da dor, só é possível fugir. São meses ou até mesmo anos sem perspectiva de alegria, por isso é muito difícil não criar ainda mais dificuldade no processo. Há de se fazer de tudo para tentar fechar de novo a porta, mesmo em meio a erros. Melhor seria não abrir, mas ninguém chega lá por vontade própria. E, uma vez que tenha vivido o que há lá atrás, nunca esquecerá essa porta.

 

Baixas expectativas

cade o lapis

Nós demoramos para chegar no sonho burguês. Eu nem acreditei direito quando me disseram que o meu irmão mais velho estava apaixonado. Só acreditei porque vi. Não propriamente porque ele não pudesse se apaixonar e sim que não pudesse levar adiante o que pessoas normais fazem quando se apaixonam. Não sei explicar, sempre vi meu irmão como uma espécie de artista. Eu acharia mais provável ele morrer devorado por leões ou fugir com um circo do que casar e viver o sonho burguês. Mas ele fez: casou e me deu minha primeira sobrinha.

Tem um casal que eu conheço de longe, os dois com vinte anos. Ela vive atrás dele; literalmente, o sujeito trabalhando e ela atrás. Soube que rolou uma pressão para que ele comprasse o terreno e fosse viver atrás da sogra. Um lado meu sentiu um desprezo imediato pela moça. Vinte e poucos anos e tudo o que quer é fisgar o namorado, quem sabe ser mãe logo. Mas depois me corrigi – nós que demoramos pra chegar no sonho burguês. Nós, membros da minha família. Agora mesmo, eu descubro o prazer de ter a fachada da casa com tinta nova. Simples assim. Nem estou vendo – deve ser a mesma sensação de quem faz tatuagem nas costas -, mas penso no assunto e fico feliz.

Agora não sei mais se eles sabiam o sentido da vida antes de nós, ou se existe uma inteligência por detrás da adesão tardia – só nós podemos viver o sonho burguês com verdadeiro desfrute. Provavelmente éramos apenas ignorantes. O que eu sei é que me tornei a pessoa que gosta de conversar na padaria, curte passar o sábado pintando parede e admira muito quem oferece conteúdos profundos na internet, sem ter a menor pretensão de ser um deles.

Pega sim

rogar praga

Acredito que, fora os Jogos Olímpicos da vida, o que alimenta o esporte são os entusiastas. Não estou falando do jovem que ainda pode ser atleta, estou falando de adultos. Tem os que realmente disputam os primeiros lugares, que submetem todo seu tempo, alimentação e rotina para serem os melhores. São pessoas que só de olhar pra eles dá pra saber, têm o físico moldado. Fora essa meia dúzia, as outras centenas que estão competindo querem mais é superar a si mesmas, um pretexto pra viajar e boas lembranças. São pessoas que tiram do próprio bolso para pagar passagem, comprar equipamentos especiais, as roupas, as taxas de inscrição, hotéis, e a única coisa que ganham é a oportunidade de tirar fotos. A moça dessa história é uma delas. Imaginem o susto: uma mulher que ela não faz ideia de quem era, competindo com ela, começou a desejar em voz alta que ela iria “se machucar e se arrebentar”. “Mas não pegou em mim, graças a Deus!”. Pegou sim, disse nossa amiga em comum. “Mas minha terapeuta de constelação disse que se eu me mantenho positiva não pega!”. Não conheço um que me convença que essa tal de constelação é boa, impressionante. “Pegou sim”, disse a amiga, “tanto pegou que você está pensando em parar de competir”. Minha teoria sobre o que pega e o que não pega: não é à toa que a praga é sempre uma frase afirmativa dita em voz alta. Praga que se preze é dita na cara da pessoa. Pega porque entra pelo ouvido, vira lembrança, é mastigada. Não teria pegado se:

-E aquela louca na competição, que ficou desejando que você se machucasse?

-Desejando que eu…? Ah, verdade. Doida. Tinha esquecido.

Pitacos sobre utopias, Lennon e Moro

Eu não faço a menor ideia de que idade tinha quando ouvi Imagine pela primeira vez. Lembro que, mesmo criança, quando ouvi a tradução, achei de uma ingenuidade tão grande. Tão impossível que alguém pudesse ter pensado e colocado aquilo em palavras. A segunda reação é pensar – e por que não, não seria realmente ótimo um mundo sem fronteiras, com amor, etc? Gosto muito de utopias. Talvez uma das coisas que me atraia na literatura de ficção científica é que, muitas delas, nada mais são do que utopias. Numa maneira que é difícil mensurar, elas tornam o mundo um lugar diferente, depois que são compartilhadas e fazem parte dos pensamentos das pessoas.

Acho que não vou surpreender ninguém ao dizer que tenho me alegrado com as denúncias do Intercept. A figura do Moro sempre me causou antipatia. Em meio a tudo o que está acontecendo, ouvi há poucos dias: os atos do dia 30 haviam sido um sucesso, Moro inspira a juventude e quem sabe ele se torne nosso próximo presidente. Olha, projetos assim, acho que nem a mãe dele mais. Eu sei que hoje qualquer fama é melhor do que nenhuma, mas o mais provável é que Moro seja abandonado pela história, como tantos antes dele.

Não tive vontade de tripudiar. O fim do Moro é o fim de uma utopia também. Está forte o schadenfreude. De herói, agora se pede cadeia. No fundo, os dois pedidos talvez sejam a mesma coisa, a tendência a personalizar papéis históricos. Depois dos magoados que declaram “PT nunca mais”, teremos os magoados pelo atual presidente, os magoados que um dia acreditaram em um super ministro. Joguemos nossos ideais mais acima do solo, vamos pensar em mundo, pessoas, bondade, ausência de motivos para matar ou morrer.

Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.

Bauman na arara de promoção da C&A

Hanger for clothes

Eu li, acho que no livro da Glória Kalil, que pra saber o valor da roupa é só dividi-la pelo número de vezes que você usou. Essa conta é pra dizer que a peça cara que resiste a muitas modas e se torna essencial no seu guarda-roupa pode ter saído mais barato do que a blusinha vagabunda. Só que eu fiquei cismada em perceber que algumas peças minhas saíam quase de graça, porque acabo favoritando peças que comprei em promoção. Uma calça jeans que usei até esburacar e que, à primeira vista, me pareceu muito roqueira pra mim. Tem uma blusa de moletom, e além de eu não ser chegada em moletom, é rosa.  Tento me livrar dela e não consigo. Ambas estavam naquelas araras da C&A de últimas peças, quase de graça. Fiquei cismada que tipo de coincidência ou masoquismo é esse, e percebi que talvez o que melhor explique isso seja Bauman (!!!).

De acordo com Bauman, o nosso excesso de opções não nos deixa felizes e sim eternamente insatisfeitos. Porque nunca conseguimos provar tudo para ter certeza antes de escolher. Então, temos as tais relações líquidas, sempre na expectativa de que a próxima será melhor, porque a certeza de ter feito a melhor escolha é impossível. Quando você não tem escolha, simplesmente aceita. Como os casamentos antigos, onde no máximo você escolhia entre o vizinho e o sujeito que frequenta a sua igreja. Minhas peças em promoção me tiram a ansiedade da escolha perfeita, faço mais esforço para me adaptar do que normalmente faria e, como resultado, somos felizes. Isso me lembra quando eu herdava roupas das minhas primas. Quem era rico o suficiente pra nunca herdar roupa não sabe o que é esperar numa peça escolhida por outra pessoa a renovada no guarda-roupa que não poderia acontecer de outra forma. E o quanto isso às vezes é muito legal.

Brilho solitário

latas de tinta

Não que seja um bom momento pra isso, mas já sei que talvez nunca seja, então finalmente vou retocar a fachada da minha casa. Meus vizinhos já pintaram várias vezes e sou a única que nunca. Não sei se é a crise, ou se, como ele mesmo disse, é por ser aposentado, aparentado da vizinha e pegar só coisa rápida, mas o orçamento foi três vezes menor do que me fizeram há uns meses. E passou num crivo dificílimo: a Dúnia gostou dele. Pensar em mantê-la o dia inteiro presa ou até mais para quem alguém pudesse pintar a casa sempre me partiu o coração de dona de cachorro. Com ele, ela vai poder ficar solta, certamente rodeando tudo, alternando pedir carinho e apenas observar e – tenho certeza – no fim do dia terá umas gotas de tinta no pelo. Recebi minha pequena lista de materiais e tive que mandar fazer a tinta, porque pronta só tem branca e uns tons de bege. Peguei o catálogo Suvinil, aquele bolo de cores com mais tons do que o olho humano é capaz de registrar, e tentei achar um tom conciliasse desejo de cor mais vibrante versus parco orçamento. Não posso mudar minha fachada porque sempre baseio a descrição do endereço na cor, nunca localizam só número. Peguei as folhinhas e fiquei: quando é essa, e essa, e se mudar pra essa o quanto mais caro fica. Por fim, mandei fazer uma lata de “brilho solitário”. Escolhi daquele jeito que descrevi, mas me identifiquei e amei tanto, que abracei a lata e também estaria dizendo a verdade se dissesse: escolhi pelo nome. A cor da casa descreve a dona dela.

Amor demais

Comecei um festival Beatles na Netflix. Acho que só me falta ver um dos cinco que tem lá. Além deles, recomendo o do Canal NostalgiaA ironia é que eu nem me considero uma fã dos Beatles. Quem realmente era fã era o meu irmão, e se conheço todas as músicas deles e uma boa parte das de carreira solo do John, se deve ao fato de morar na mesma casa e não ter como fugir.

Tem trocentos estudos e teorias sobre o que torna os Beatles tão inesquecíveis. Uma das coisas que me toca, é a maneira como todos parecem ser pessoas bacanas. Quando jovens, eles são alegres e espirituosos; mais velhos, eles tentam tornar o mundo um lugar melhor. Dá impressão de que seriam ótimas pessoas para se ter como amigos. E que, se eles surgissem hoje, também fariam sucesso.

MAS, também acho muito triste a maneira como é o próprio sucesso que enche o saco e os destrói. O último que eu terminei foi sobre John e Yoko. Num certo ponto um dos entrevistados diz que era muito difícil ser (ex)Beatle, que todas as pessoas que olhavam para eles – dos fãs isolados e histéricos a quem fazia sua segurança, atendia seu quarto – queriam alguma coisa, estavam famintos. Lembrei da Amy Winehouse, que também foi devorada pelo sucesso. Ela decepcionou os fãs num show que se sentou no palco e se recusou a cantar. Os fãs ficaram magoados, mas aquela foi a única maneira que Amy conseguiu de parar aquela máquina que girava em torno dela. No do John, fala que ele estava tão péssimo sozinho, que a Yoko o fez tão feliz, que ele mudou tanto. E fã, por “amor”, se sentiu magoado porque ela não era o que se esperava para ele, era estranha, era feia, teria separado o grupo. John era só um homem, só uma pessoa tentando tocar a vida e ser feliz, é um absurdo que as pessoas tenham se sentido no direito de julgar isso.

Não tenho nenhuma conclusão sobre isso. Artista quer atenção, quer que seu trabalho toque as pessoas e faça parte do seu mundo. Eu também olharia para qualquer um deles com um olhar faminto. Harrison (se não me engano) falou num trecho: “Eu sempre tive pena do Elvis. Ele era um só. Havia muita gente trabalhando para ele, mas só um era o Elvis. Nós tínhamos uns aos outros”. Devia haver uma maneira de amar profundamente e não sufocar os nossos ídolos.

 

O cérebro de Dick

crumb

Philip Dick me foi altamente recomendado. Eu lembro que o Ernani Ssó me disse que as adaptações pro cinema (Blade Runner, Minory Report) o empobreciam muito. Lembro dele ter me dito da ilusão dentro da ilusão que havia no Vingador do Futuro e eu nem guardei, talvez porque a primeira parte já não tivesse feito sentido pra mim: empobreciam? Quando finalmente o li, lembro de ter sentido um desconforto, não ter realmente gostado. Era, sem dúvida, genial, inigualável. Mas era muito diferente do que eu esperava de ficção científica. Asimov, Clark e Sagan, minhas grandes referências da época, me faziam pensar num mundo além, em uma Humanidade com H maiúsculo, nas grandes questões. Dick era… intimista.

O livro de Dick que mais me impressionou foi Ubik. Aí o Ernani me disse que Os três estigmas de Palmer Endrich eram nessa linha de tão bom quanto. Resultado: levei uns quatro anos pra ter coragem de ler. Porque Ubik me traumatizou, não tem outra palavra. O mundo de Dick é um mundo onde não podemos confiar nas nossas percepções, onde nossos cérebros estão corrompidos. O dele deveria ser assim. Dick morreu novo – com 53 anos – e com alucinações e construções tão geniais quanto seus livros. Passem lá na wiki sobre ele e leiam o item “Paranormalidade e problemas mentais”. E se vocês digitarem o nome dele acrescido de Crumb, verão essa história em forma de quadrinhos.

O Dick me serve de lembrança para algo que parece muito óbvio mas não é, a julgar de como agimos: que a mente é apenas uma consequência física do cérebro. Durante a faculdade, um dos meus amigos mais próximos, que era músico, começou a fumar maconha. Éramos amigos desde o segundo grau e ele me acusou de quadrada, se afastou, o normal de quando ficamos diferente dos amigos. Depois soube que ele teve um surto. Depois voltamos a nos falar, ele ia para um psiquiatra, mas jamais teve coragem de me contar, acho que até hoje deve pensar que eu não sei. Não sei como e porquê ele surtou, vai da estrutura de cada um. Oliver Sacks, no seu livro A Mente Assombrada, conta suas próprias experiências com drogas, que ele usava pela “necessidade” (aspas dadas por ele mesmo) de conhecer os fenômenos que aconteciam com seus pacientes.

Cuidado com o teu cérebro. Meio moralista da minha parte, eu sei. Eu morro de medo de quebrar alguma coisa aqui dentro. Dick tinha algum fio solto e acho que eu não gostaria de ter sido ele, mesmo com toda genialidade.

Lute como uma menina

Eu vi passar um vídeo na minha TL de uma moça com um cartaz numa mesa que dizia que ela era anti-feminismo, e quem quisesse podia tentar convertê-la. Não vi tudo, vi algumas mulheres que sentaram e tentaram seus melhores argumentos, enquanto a fulana ouvia tudo de braços cruzados, feliz na sua teimosia. Pensei para comigo que o que realmente a convenceria seria um homem qualquer passar lá e aplaudi-la, falar que é isso mesmo, que ela é bem comível e levanta daí e me faz um café. Como aquele sujeito que elegeram que se referiu a um gay como “aquela menina” para desmerecê-lo. Eu gosto de conhecer todos os argumentos, e uma mulher independente e religiosa que eu conheço uma vez falou sobre a mulher não conseguir se manter no lugar dela porque os homens falharam com seu papel primeiro – como exigir da mulher um papel passivo-feminino enquanto aquele que deveria lhe proteger se torna seu abusador?

Quero recomendar o desenho A Ganha Pão (Netflix). Fala em desenho e já penso em personagens felizes, mas não é o caso. No mundo ideal de um tipo fundamentalismo árabe, a mulher não pode sair na rua desacompanhada. Mas como fazer quando não há nenhum homem disponível para o papel? O desenho é lindíssimo, com tantas camadas. É uma declaração de amor, mas também é um sofrimento tão difícil de assistir – por que criar uma situação onde todos saem perdendo? Eu não acho que o que tem faltado aos teimosos felizes de braços cruzados é argumento e sim pele, empatia, experiência, carinho.

Monstros

olhos de crocodilo

Pouca gente no mundo consideraria a possibilidade de prender uma idosa no carro e arrastá-la na rua. Pouquíssimas. E dessas pouquíssimas pessoas, não tenho dúvidas que NÃO está o homem que de fato fez isso, o dono da Mercedez-Benz. Tenho certeza que ele repudiaria se visse no noticiário alguém que arrastou uma velhinha. Mas ele fez. Ele diria que não faria isso, jamais, que respeita idosos, seres humanos, que tem dinheiro o suficiente para comprar o balão que quisesse. Mas arrastou. Ele não se via como um monstro, mas agiu como um monstro. Não é à toa que no Direito existe a diferença entre culposo e doloso, porque consideramos muito pior planejar o mal do que se ver, sob algum tipo de pressão, fazendo o mal. Mas ele não é uma boa pessoa, vocês dirão, e eu concordo. Eu tenho certeza de que no dia a dia, em muitos detalhes, ele não era uma pessoa legal. Duvido que tratasse bem o garçom, o manobrista, a faxineira. Deve perguntar muito se a pessoa “sabe com quem está falando”, deve ter votado-em-sabemos-quem. Se pegarmos sua lista de amigos, duvido que não seja um grupo escolhido com base nos que podem lhe trazer vantagens financeiras. Aposto que é contra cotas, bolsa família, direitos LGBT, SUS, tudo o que favoreça gente que não faz parte do seu círculo. Eu arriscaria ainda mais longe e diria que usa o termo “feminazi”, que aproveita da sua posição de poder para intimidar empregados e faz cara de nojo pra quem está vestido de maneira simples. Acho que não erro se digo que ele tem mau hálito e suor desagradável, odores mal disfarçados com as melhores pastas de dente, enxaguantes bucais e perfumes importados. Mas não era, apesar de tudo, um monstro. Agora foragido, ele deve acordar de manhã, repassar o que aconteceu naquele dia e se perguntar em que momento poderia ter feito diferente, o que era monstruosidade e o que foi distração, até que ponto foi inevitável, má sorte ou castigo. Na sua imaginação, em algum momento ele desvia o olhar dos balões, pensa que aquilo não serve pra nada, ele não pechincha, ele não liga o carro, ele freia antes. Deve doer demais não poder mudar e ter que assumir: eu sou um monstro. A consciência tenta se proteger, e talvez ele não o diga com essas palavras, mas em algum lugar do seu inconsciente está assumido e registrado. Isso é o que me dá medo nessa história de monstros: um conjunto de comportamentos maus, que isoladamente não querem dizer nada, um dia podem se juntar, e o cidadão comum pode se ver fazendo algo que ele mesmo condenaria muito no outro. 

Dizem que o diabo nunca se apresenta como tal. Assim como tantos, eu posso estar encontrando justificativas plausíveis para vários atos reprováveis pequenos. E, cercada de pessoas de erros e justificativas semelhantes, nos justificamos juntos e assim nos sentimos santos. Eu tenho medo de virar monstro e acho que você também deveria. Sabe uma coisa que gera muita monstruosidade? A certeza de ser um representante do bem. 

As dificuldades

dificuldades

A vida na internet me colocou em contato com muita gente que escreve bem. Nós não sabíamos, mas estávamos todos naquela idade das possibilidades. Ou talvez um deles soubesse, quando me dizia: “você sabe que o que eu invejo não é o que você escreve, e sim você continuar escrevendo”. Porque ele, na verdade, foi um dos que eu conheci pós-escrita. Ele foi dono de um site delicioso, que teve muitos fãs e lhe permitiu “comer muita gente” (palavras dele). Eu acreditei piamente que um dia todos nós estaríamos num cocktail, comentando nossas críticas, dizendo por debaixo dos panos que Fulano ou Beltrano nem é tudo isso, que a literatura brasileira anda mesmo bastante decadente. Eu pensava, como na tirinha do Liniers, que a gente lutava contra os nossos fantasmas, contra o fato do que o que pareceu lindo na imaginação, praticamente um livro inteiro, se transformar em poucas linhas medíocres quando finalmente sentamos para escrever. Mas estes entraves – sei agora – são o de menos. O problema são os vazamentos do Intercept. Eu fico doida, não consigo pensar em mais nada. Clico em cada paródia, tenho que dividir todos os memes. Fui atrás do filme do Snowden (Netflix), ainda não tinha visto. Vi o David Miranda dançando e agora quero formar um trisal com Glenn e David (mas me conformo com um jantar). Quando o que me invejava-porque-ainda-escrevo me falou isso, eu lhe respondi que ainda escrevia porque não conseguia parar. Na expressão dele vi que isso soou muito invejável, mas talvez isso seja apenas um atestado da minha falta de saúde psíquica. Eu poderia ter lhe dito que ele se diverte em comer gente, em se envolver com as questões dos filhos, em frequentar bons restaurantes e eu não tenho nada disso. Até já tive, mas hoje estou sem restaurante, sem dinheiro, sem companhia, sem nada. Passo dias sem interagir com nenhum outro ser humano que não seja atendente da padaria. Uma pessoa mais normal se angustiaria; já eu acostumei e gosto. Até minha mãe se angustia pela minha recusa em conhecer gente. Meu mundo praticamente se resume a escrever e, sob este ponto de vista, eu sou extremamente incompetente. De todos os amigos escritores que eu imaginava um dia discutir, um deles ganhador do Nobel, o outro autor de crônicas, eu aparecendo disfarçada de personagem no livro de alguém, aquele que realmente conseguiu escrever foi um que não fazia alarde. Mais inteligente, ele não se propôs a nenhuma revolução, ouviu muitos conselhos e surpreendeu a todos com livro bacana, editado, recomendável; comparado com a nossa empáfia e publicidade, ele foi um verdadeiro um azarão. Conseguiu porque é professor, vida estável e disciplinado. A nossa culpa, dos que não escrevemos os famosos livros, é do Intercept, do divórcio, dos vídeos de gatinhos, dos app, dos astros. Pelo menos uns dez anos se passaram e estamos numa idade “ih, daí não sai mais nada”. Ou será que ainda sai?