Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Anúncios

Eficiente, adulta e guilhotina

nurse ratched

Já aceitei que talvez seja inevitável que a Dúnia precise usar o cone da vergonha uma vez por ano, no verão. Mesmo com o anti-pulgas, talvez por ela viver fora de casa, algum bicho a morde e ela não deixa a ferida cicatrizar. Eu me sentia tão mal em colocar o cone que a mimava mais, e ela em pouco tempo percebia e começava a ficar manhosa, me deixava totalmente sem autoridade. Como não se derreter com um cachorro que fica o tempo todo acertando sua perna com um plástico duro porque sempre tenta chegar perto, roça o cone na parede e no chão quando se movimenta, precisa ficar com a casinha sem teto senão não dá pra entrar. Eu também acabava tirando o cone antes do tempo, quando não estava totalmente cicatrizado, o que fazia com que ela voltasse a abrir a ferida, e eu tinha que colocar o cone de novo. Uma vez de tanto colocar e tirar acabei estendendo a situação por um mês, ela ia passear e andava ondulando, estava até com a percepção espacial alterada. Agora não: enfio a mão nos pelos da ferida, mesmo ela se esquivando. Cortei a parte dura, onde está o sangue coagulado e casquinha, verifiquei que ainda tem mais o que cicatrizar. Tudo com precisão, apesar dos protestos dela, apesar de ser chato, apesar de morrer de dó. Estou como uma enfermeira ultra-experiente que não se comove mais. Sempre achei tão bonito e procurei ser uma pessoa em contato com seus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que amadurecer é ficar implacável, ser capaz de ignorar o primeiro impulso e se preciso infligir dor, a si mesmo e/ou no outro, em nome do correto. Como se a gente fosse bisturi. Ou como quando você fica sabendo que a guilhotina foi considerada extremamente humanizadora na sua época, porque matava de maneira rápida e eficiente. Ou como quando você percebe que é mais fácil nem começar a chorar. Como endurecer por fora e continuar suave por dentro, como adultecer apenas o suficiente para não se partir em mil pedaços em contato com o mundo?

Hidráulica

hidráulica

Sabe quando você está tão cansada que não consegue descansar, e tão irritada e querendo esquecer que não consegue pensar em outra coisa? O registro do banheiro jamais fechou; quando eu tive problema com a mangueira da descarga, ela inundou tudo até esgotar a caixa d´água. O encanador, quando resolveu o pinga-pinga da torneira, disse que era uma peça que estava quebrada lá dentro. Ele desmontaria, pegaria e pela pra comprar outra igual e voltaria. Disse que ele poderia vir lá pelas 10h manhã e veio às 9h. Logo depois de ligar pra ele combinando, descobri que torneira do outro banheiro, que eu pedi pra ele arrumar preventivamente, estava vertendo água do lado que não abre (!?) e encharcou uns dez rolos de papel higiênico. Para encurtar: ele saiu daqui 19:30h. Teve que passar em lojas duas vezes. Todos os metais da casa são de marca desconhecida e fora de linha. Pelas variadas foram trocadas. Tudo precisou de veda rosca. Cada ora era preciso fechar um registro diferente – e eu não sabia que havia tantos – porque nenhuma saída de água fazia sentido. Está comprovado as torneiras do banheiros realmente tem que abrir a esquerda de um e direita de outro, porque foram instalados invertidos. O encanamento da caixa d´água vai direto para as torneiras, o que quer dizer que ele é diferente do da privada e do chuveiro. No fim, foi preciso criar três minis registros no banheiro. O chuveiro e a privada ainda são assuntos pendentes. “Eu estou ficando até com medo de mexer nos teus encanamentos, porque em cada lugar surge um problema”. Eu trabalho com a hipótese de que o achamos que é registro do banheiro na verdade é apenas cenográfico, uma torneira falsa que o pedreiro colocou na parede só pra entregar a obra. Ainda abrirei aquela parede – não por gosto e sim para corrigir a posição do chuveiro, que é meio absurda – e descobrirei. O que tem aqui não é hidráulica e sim Pegadinha do Malandro.

Uma bola de sorvete

pelourinho

Eu e o meu pai pegamos um ônibus comum, não o “frescão” que eu pegava quando ia visitá-lo, e fomos longe, até a cidade baixa. Paramos num terminal, quente a beça já de manhã. Andamos por ruas apertadas, lojinhas, comprando miudezas que ele precisava: um fio aqui, uma ampola e seringa ali. Eu adoro andar, e taí uma característica que não dá pra dizer de quem eu puxei, porque até onde eu saiba somos todos muito andarilhos – eu, meu pai, minha mãe, meu irmão. Andamos, andamos, andamos. Paramos num restaurante por quilo pra almoçar. A agenda já estava toda cumprida e ele me disse que me íamos até o Pelourinho, mas por cima, porque ninguém o obrigaria a subir aquela ladeira. Fui incontáveis vezes ao Pelourinho e jamais havia me dado conta que o caminho pra turista ver é sempre subindo. Naquele dia, ao descer, foi tão diferente que eu nem senti direito que estava no Pelourinho, só me senti realmente lá quando chegamos na praça perto da igreja. Talvez por isso tenha parado, pra realizar que estava no Pelourinho. Aí meu pai me perguntou: “Quer sorvete, filha?”. Não sei se é porque o meu pai conhece os meandros de Salvador como ninguém ou se é característico de todas as sorveterias da cidade, mas sempre que me foi oferecido sorvete lá, o “uma bola” correspondia a quase meio quilo de sorvete. Duas bolas, um almoço. Três, nunca arrisquei. Por isso quando ele me perguntou eu olhei pro horizonte com os olhos apertados, repetindo a cabeça pro meu cérebro e pras minhas vísceras – será que eu quero sorvete? Depois de alguns segundos, respondi: “Acho que sim”. Meu pai deu um meio sorriso, daqueles que acompanha um breve movimento de cabeça para os lados e me deu um beijo na testa. Se não fosse esse gesto dele, eu não teria percebido. Um gesto que dizia: típico. Hoje ele não tem dinheiro, mas já teve muito, e era sua filha querida. Sempre tive claro que poderia lhe pedir o céu, meu irmão me disse várias vezes que o pai atenderia a qualquer pedido que eu lhe fizesse, e eu não fiz. Deveria ter feito, acho que ele teria adorado ter a oportunidade de mostrar que me daria o céu. Mas eu era difícil e frustrante – bastava estar lá que andava o dia inteiro de chinelo e camiseta, o boné que me dessem. Ou estava deitada na rede e ou pra praia ali do lado, de camisetão cobrindo o biquíni, só pra visitar o mar. Eu não lhe pedia pra me comprar coisas porque não me ocorria nada pra pedir. Só naquele dia eu percebi que sempre fui assim.

Pelados na TV

maniquíes-articulados

Não vou dizer a conta porque ela já está tendo problemas sem eu anunciar. Tenho uma amiga que está em Portugal e ela descobriu, fascinada, um programa de namoro onde a pessoa escolhe seu parceiro através de anteparos. O programa é em inglês, mas veja bem, ele passa na TV aberta portuguesa. Detrás dos anteparos as pessoas estão nuas e vão sendo mostradas debaixo para cima, cada vez mostrando mais um pouco, à medida que se escolhe. Talvez até por birra porque alguém a denuncia toda vez que ela posta, uma noite dessas ela postou o programa inteiro e eu vi. Apenas que é sensacional, fiquei com vontade de mandar todo mundo ver. A gente vivendo uma onda assustadora de moralismo e Portugal, que para nós lembra muito senhoras católicas de preto, com uma atitude muito mais saudável em relação à nudez. O programa é sensacional pela tranquilidade de tudo. Tranquilidade de olhar para diferentes formatos e ver que nada ali é estranho, cada um é de um jeito e tem sua beleza. Gostei da tatuagem, não gostei porque achei grande, gostei porque me inspira confiança – nada errado. Quando o candidato é eliminado, o anteparo levanta e a pessoa caminha nua até o palco. Caminha nua, cumprimenta, ela está nua mas nada ali é erótico. No fim, quando sobram duas pessoas, a pessoa que estava selecionando que aparece nua. Quando sobra apenas um casal, eles verificam se continuarão gostando um do outro vestidos, num encontro. Fiquei boba, achei lindo. O programa me faz perceber quanto nos gabamos de ser liberais e na verdade somos extremamente retrógrados. E que expor o corpo não é o mesmo que encará-lo com naturalidade, a nossa exposição é muito sexualizada e julgadora.

Inimigos ocultos

inimigo oculto

Sempre achei meio paranoico existir um pedaço do mapa astral (eu sei que vocês odeiam quando eu falo de astrologia, calma que já acabou) que trata dos inimigos ocultos. Nem todos têm inimigos, muito menos ocultos, porque nem todo mundo tem uma vida pra isso, eu pensava. Se você ocupa um cargo importante, disputa comissões e etc, tudo bem, mas se você é uma velhinha que frequenta apenas a igreja perto de casa? Pois bem. Um dia encontrei na rua uma senhora cuja história eu já havia contado aqui, ela e seu cachorrinho. Eu passei por eles, ela ofereceu o cachorro pra eu fazer carinho e ele se esquivou. Ela ficou sem graça. Eu também sou dona de cachorro e sei bem como é. “Ele não era assim, ele se dava bem com todo mundo!”. Eu lhe disse que era assim mesmo, que no começo eles eram todos chegados e depois iam escolhendo seus humanos preferidos e que um dia ele iria gostar apenas dela. Os olhos dela brilharam quando eu disse isso. Aí ela me contou toda a rotina dos dois, que se mistura desde o despertar e vai até à noite. Eu passo na frente da casa dela e a vejo falando, brigando, o cachorro late de volta, aquele grude. Eu tive que dar a ela a dica de que é possível sim pegar táxi com o cachorro, que basta ligar pro número do táxi e especificar que vai com um. Que eu precisei fazer isso com a minha. Isso porque ela havia acabado de me fazer descobrir que é possível sim ter inimigos ocultos sendo uma velhinha que só vai pra igreja: uma vez ela encontrou o cachorro comendo alguma coisa estranha que achou no quintal. Ela desconfiou e quis tirar dele. Minutos depois o cachorro estava morrendo, havia sido envenenado. Ela não tinha como levar o cachorro por ser sozinha (por isso a dica) e a veterinária lhe deu todas as indicações por telefone.

Naquele dia ela estava justamente saindo da missa, roupas muito simples e um terço enfeitando o pescoço. É uma paróquia relativamente grande e me parece que sou uma das poucas pessoas da região que não vai. Outras pessoas saiam da igreja, conversavam, a cumprimentavam de longe. Nós nos despedimos e eu não conseguia pensar que alguém ali era o inimigo oculto de uma velhinha que tem num cachorro a sua única fonte de afeto.

Pequenos momentos de reveião

supermerado_caixa

O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

.oOo.

Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

.oOo.

Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.

Planetas maléficos e gente malvada

sun malefic

A astrologia ocidental, talvez contaminada pelo politicamente correto, tem abandonado os termos como “maléfico”, “detrimento”, “exílio”, “queda” para falar das posições dos planetas porque as pessoas ficam aborrecidas e nem sempre entendem o que quer dizer. A “queda” do Sol é em libra, ou seja, de todos os nascidos mais ou menos entre 21 de setembro a 21 de outubro; Júpiter está em “detrimento” em gêmeos, ou seja, ruim? Nos termos abandonados, Júpiter é o “grande benéfico” e Vênus “pequeno benéfico”, enquanto Saturno é o “grande maléfico” e Marte o “pequeno maléfico”. Para a astrologia védica, saber o que é maléfico ou benéfico é essencial. Já vi a metáfora que é ter amigos x inimigos, e que eles sejam poderosos x sem poder. A melhor combinação é amigo poderoso; se for para ser seu inimigo, melhor que seja sem poder; amigos sem poder até torcem por você, mas poucos podem ajudar; inimigos poderosos te fazem pensar duas vezes antes de sair de casa. Na astrologia védica: Mercúrio é neutro; Júpiter, Vênus e Lua benéficos; Saturno, Marte e Sol maléficos. Os planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão – não são levados em conta. Os benéficos são assim chamados porque te trazem coisas boas, de qualquer maneira e em qualquer posição; os maléficos também podem trazer bons resultados, mas mesmo quando estão “do seu lado”, os bons resultados só virão através de mérito, de esforço. Enquanto Júpiter é o queridinho de todos que expande tudo, às vezes a pessoa se torna otimista demais e não recebe tanto quanto imaginou; já o que vem de Saturno é garantido, seguro, gravado na pedra – o problema é que ele sempre demora pra entregar, é preciso trabalhar muito duro. E se a pessoa faltar com a ética, leva tapão.

Eu estava pensando nessa história de ter méritos para receber coisas boas. A primeira coisa que pensei é que ninguém se garante – se não pelo que fazemos agora, sabe-se-lá o que nossos ancestrais fizeram ou o que fizermos numa outra existência. A experiência nos mostra que ninguém sai da vida incólume. Lembrei dos vídeos e mensagens que eu tanta gente compartilhamos, todos os dias, com “lições”, com “pensamentos críticos”, querendo que as pessoas “acordem”. Num deles, que eu postei há poucos dias, um vídeo fala que as elites brasileiras não gostam de pobre e querem a manutenção da nossa imensa desigualdade social. Quando você usa o termo “elite”, que fala deles, é bem fácil; o difícil é ler e pensar “sou eu, elite brasileira, que não tenho feito nada para diminuir a pobreza”. Porque ninguém se vê assim, cada um se vê como uma pessoa que está tentando ser feliz, ficar bonito, formar uma família, ter uma carreira e ganhar um bom salário. Eu sei que as pessoas que eu penso quando posto um vídeo como aquele não se vêem assim.

O problema da tal falta de méritos, a mesma que não nos garante e nos faz levar pauladas da vida, é que nós não somos apenas o que fazemos e no que pensamos – o que não fazemos, não pensamos e não nos importamos talvez valha muito mais. O que não passa pela sua cabeça, as coisas para a qual você é cego porque não dá importância, o que você perpetua por ser cômodo e deixa as consequências pra lá – tudo isso também é maldade. Somos maus porque somos egoístas e somos egoístas por causa da nossa natureza. Somos egoístas porque temos um cérebro limitado, uma câmera interna que acompanha o nosso pequeno dia a dia e o de mais ninguém. Geramos consequências imprevistas o tempo todo. Por isso a vidinha simples de “quero apenas ser feliz e que os meus sejam felizes comigo” acaba sendo insuficiente. Levamos pancada e maléficos, e mesmo assim mal e mal olhamos pra fora do umbigo.

As desventuras de Rodolfo

fale com o motorista

Uma mulher conversando com o motorista do Inter 2:

Dava vontade de nunca mais pisar no bairro, mas a minha mãe não sai de lá. A gente conhece todo mundo. Mas depois do que aconteceu a minha mãe ficou derrubada, ela parou de andar. Agora que ela voltou a andar, está andando bem devagarzinho, mas ela ficou de cama, não conseguia mais levantar. Depois ele arranjou outra. Ele estava saindo com essa moça, ela separada, vivia junto com o marido. Aí ela apareceu grávida. Rodolfo disse que era dele, a moça disse que era dele, e o marido disse que era dele, mesmo a moça dizendo que era do Rodolfo. Ele tentou matar o Rodolfo três vez. Ele chegou tirando o revolver, eu jogava meu corpo em cima, dizia pra não fazer isso, um forfé na rua. Ele dava um monte de tiro e não acertava a gente, atirava pro alto. Depois que a criança nasceu, fizeram DNA e era dele mesmo. A mulher voltou pra ele, estão juntos até hoje. Depois o Rodolfo ficou amigo dele, hoje ele é amigo nosso. Agora ele tá na cadeia. Justo agora, que tinha se acertado, não estava usando nada, estava limpo, estava namorando. Ele tava namorando uma moça com duas crianças, nenhuma dele. As crianças me chamam até de vó. O Rodolfo conseguiu o indulto e quando nós fomos buscar ele, ele já tinha saído no dia anterior. Ele saiu e foi direto pra casa da namorada. Aí já estavam procurando ele, ele saiu com a tornozeleira e tem um perímetro de onde eles avisam que vão ficar. E de lá já estava se preparando pra ir pro litoral, passou na casa da mãe só pra pegar roupa. Já tinha tudo acertado com outra namorada esperando ele por lá. Não podia porque estava fora do perímetro, o advogado foi lá e tirou o indulto. Isso matou ele.

Pela parede

ouvir parede
Eu sei que faz um ano porque foi na véspera do natal, mas parece realmente que foi ontem. Eu estava me enrolando para dormir, sentada no sofá, quando os vizinhos do lado começar a brigar. O quebra-pau foi tão grande e durou tantas horas, que o pessoal que mora no lado oposto deve ter ouvido também. Basicamente, a mãe havia fuxicado o celular da filha e descobriu que a adolescente e o namorado tinham conversas picantes. Ela gritava, dizia que tinha vontade de quebrar a cara da menina, que ela tinha de lhe dizer tudo o que fez com o namorado. Eu morri de pena. Minha vontade foi gritar aqui da parede: “olha, já que estou ouvindo tudo, quero dar minha opinião também”. A mãe levou como uma ofensa pessoal a filha estar numa idade cheia de hormônios e sentindo desejo pelo namorado. Conversei com várias pessoas – fiquei muito tensa – e elas foram unanimes em dizer que é pior negar e proibir.

Aí, na véspera do réveillon, teve outro quebra pau. Este não foi tão claro, era um griteiro que incluía, pai, mãe e filho. Parece que a mulher mexeu nas coisas do filho, que já é um homem e ajudava nas contas. Olha, a mulher não é fácil, já falei dela mais de uma vez aqui. Eu sei que pouco tempo depois pai e filho foram embora. Não sei como ela está, eu sei que do meu ponto de vista de vizinha ficou melhor. Se ela fica em casa chorando, é baixinho.

Esta mesma vizinha me lançou o olhar mais maldoso de todos os tempos quando eu me separei. Vocês não fazem ideia, o ar de vitória com que ela me olhou. Entre uma coisa e outra deve ter o quê, quatro anos? Agora que ela se separou, de um casamento que sempre foi péssimo, sempre teve brigas; o meu era silencioso e terminou antes, pacificamente. Não sei se ela se lembra do dia que me encontrou logo depois e estava claro que eu estava sozinha. Claro que lembra, o olhar deve ter sido apenas a ponta de uma iceberg de opiniões e comentários.

Por isso que às vezes eu penso no futuro, me preocupo, depois paro e abandono. Você vai estar isso, você vai estar aquilo, vai ganhar tanto, vai trabalhar não sei quantas horas – são apenas rótulos. Ela se sentia vitoriosa pelo quê, por ter um marido? Hoje ela deve achar que perdeu tempo, que eu que sabia o que estava fazendo e estou quatro anos livre na frente. Não importa a situação e sim você, seu sentimento, dentro dela.

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

.oOo.

Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

.oOo.

Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

.oOo.

Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

2018, um ano sem firulas

eu interior

Eu lembro de um dos blogs que eu lia, do tempo que existiam apenas blogs para quem gostava de escrever, em que numa postagem o cara contava o quanto foi decepcionante quando se tornou pai. Ele não estava falando da paternidade em si, e sim do ritual da maternidade. A mulher dele teve as dores, eles foram juntos ao hospital, ele se sentou na sala de espera vazia e uma hora depois vieram avisá-lo que ele agora era pai. Ele falava da simplicidade da coisa, a falta até de uma música comovente e um close quando ele recebia a notícia. Meu 2018 foi assim. Um dia eu sentei diante do computador, como faço todos os dias, e decidi escrever algo totalmente diferente do que fiz durante anos. Fiz pra testar, achei bacana, e é isso. Pra mim foi um grande fato, mas não vim aqui dizer que uma editora aceitou e eu vou publicar e tal. Por enquanto foi só isso mesmo, a minha satisfação pessoal.

Outros fatos foram grandes pela sua ausência. A maneira como eu parei de surtar em resolver sozinha os problemas da casa. Por fora, nunca fui de grandes arroubos, mas por dentro era muito difícil; agora sei que com dinheiro e algum desconforto, tudo se resolve. Caminho a passos largos para virar uma Vulcana (estou falando do Spock de Star Trek) e achei bom. De tanto assistir histórias, minhas e dos outros, eu vi que sofrer por amor acaba sendo uma escolha, uma vontade de se sentir agente do destino. Se puder escolher passar um ano enrolada numa história com idas e voltas, noites de lágrimas, disputas, euforias e incertezas, ou passar o mesmo ano sem ver ninguém, mas com o humor e planos estáveis e precisos, qual você escolheria? Eu já descobri há algum tempo e neste ano pus largamente em prática que a sabedoria não é deixar de ter vontade de fazer certas coisas e sim decidir não fazer. É uma mistura de experiência, confiança no seu intelecto, mas também privação e auto-controle. Normalmente eu já leio e estudo muito; neste ano eu atingi altos patamares.

Como deu pra perceber, não foi um ano fácil. Mas foi o melhor com o que eu tinha em mãos.

Uma amizade com Marte

mars

Tudo começou quando Marte entrou em movimento retrógrado, no início do ano. Os astrólogos falando nisso, os grupos de whats falando nisso, explicações físicas e metafísicas. Fiquei sabendo que o planeta no movimento retrógrado – que é uma ilusão dada pelo ponto de vista da terra, porque nenhum planeta anda para trás – fica mais próximo da Terra, então seria mais fácil localizar Marte no céu. Eu o achei bem em cima da minha casa, olhando para cima quando estou na parte dos fundos, uma luz vermelha e imóvel no céu. Nos astrólogos: “Sabe porque está tão seco, sabe porque a agressividade no mundo? Marte”. Eu olhava para o céu todas as noites e pensava: você, hein. Depois me senti mal, ficar acusando uma luz bonita no céu. Conversamos. “E quando você se sentia só e deprimida, quando nada lhe dava prazer e mesmo assim você se levantava da cama e fazia tudo o que precisava ser feito, de onde vinha aquela força?” Aí eu entendi. o poder que a Astrologia descreve quando usa Marte no seu simbolismo.

Oh, rei! Marte excede na crueldade, é cortante como uma lâmina de cimitarra e vem tão furioso com qualquer que venha até ele com arrogância, que ele totalmente destrói a família desta pessoa e a prosperidade. Aqueles que vão até ele regularmente, com humildade, seguindo o ritual apropriado, ele abençoa com ganho de saúde e perda de doenças. O juramento de Marte alivia todas as dificuldades, especialmente essas de doenças, débitos e inimigos.

The Greatness of Saturn, cap.4: Mars

Na mesma época, eu soube que a noção de que a energia de Marte é o sujeito que vai no bar e bate em todo mundo é errada. Esta é uma forma de agressividade insegura, defensiva, como a do cachorro covarde que ataca. Um bom Marte é como pensar num samurai, alguém que tem um grande poder de destruição, tão certeiro que só é usado nos momentos precisos. Marte é força, se a humanidade se perde e não sabe o que fazer com ela, aí já é outra história.

Eu fiz, então, as pazes com Marte. Toda noite o cumprimentava nos fundos de casa. Às vezes lembrava de algumas coisas e concluía: vivi muito tempo contando apenas e tão somente com ele. Sedução de Vênus, confiança do Sol, sentimentalismo da Lua, prosperidade e sorte de Júpiter? Não, Marte. Quando soube que ele havia saído do seu movimento retrógrado e não seria mais tão visível, fui lá fora lamentar. Eu disse a ele: sentirei saudades.

Marte não está mais tão visível no céu, mas isso é pra vocês. Pra mim ele está sempre lá. Às vezes volto à noite e – como quem está distraído e olha na direção de quem o olha – eu olho pra cima e o vejo, Marte. Há noites em que apenas Marte está visível no céu, só ele na escuridão azul, e horas depois a noite fica inteira encoberta. Foi apenas para Marte demonstrar que me cuida.

Ideias perigosas e sedutoras

Adolescentes e mini adultos são uma raça difícil de lidar. As mesmas crianças correm na sua direção pra ganhar um abraço, poucos anos depois estão no sofá e desejam que você nem olhe para a cara delas, porque elas não olharão para a tua. Os critérios deles pra gostar de alguém às vezes são tão misteriosos como códigos de erros no Windows. Mas, no entanto, contra tudo o que normalmente estes seres são – implicantes, independentes, resistentes, prevenidos contra qualquer tipo de autoridade -, bastam alguns autores malvados esquerdistas e eles estão seduzidos e dispostos a pegar em armas. Precisam ser protegidos de tão sedutoras palavras, caem direitinho na conversa, aderem rapidamente, se vêem prestando atenção e querendo mais.

Sério mesmo que este tipo de descrição estranha não te faz morrer de vontade pra ver o que diz o tal do Paulo Freire, o tal do Manifesto Comunista? Num mundo que reduz informações a memes, quando muito a um documentário, que canto da sereia é esse capaz de converter justamente os seres humanos na sua fase mais insuportável? Tem que ver isso aí, tem que eliminar os intermediários e provar também. Ou o medo é aderir também?

Obs: minha intenção era postar o Capítulo 2.1, que é tão bonito e profundo. Pretendia com isso quebrar a resistência e dar ao leitor a vontade de conhecer mais. Ao mesmo tempo, entendo que se proteja a sequência da série porque ela é um raciocínio que vai num crescendo. Mas fica minha sugestão.

 

 

Tigrada

Se a pessoa, de uma hora pra outra, vê como se fossem mosquinhas, ou luzes, ou perde um quadrante da visão, pode ser descolamento de retina. Neste caso, ela deve ir imediatamente para um hospital de olhos, de onde vai direto pra operação. Imediatamente mesmo, do tipo largar tudo. Se marcar consulta, dormir pra ver no dia seguinte, já era. Muita gente na pesquisa que fiz sobre cegueira perdeu a visão assim, porque marcou consulta, esperou, ou seja, fez o procedimento normal. No descolamento uma membrana no olho se rompe e o líquido invade onde não deveria, então imaginem com que rapidez acontece.

Pois. Fui na super oftalmo para afastar as nóias que de vez em quando me aparecem, apesar de ter um grau de miopia bem baixo. Tudo porque tenho histórico de descolamento de retina na família. E tem que ser ela e não um médico qualquer do plano. Quando eu estava com os olhos dilatados, a médica tirou foto do meu fundo de olho – “só porque eu sei que você está preocupada”. Ela me deu as fotos e me explicou: nenhum fundo de olho é igual ao outro, igual digital. A pessoa albina tem um fundo de olho claro. O fundo do meu olho esquerdo tem um várias linhas, é um “olho tigrado”. Isto quer dizer que lá atrás, de algum lugar que eu não conheço e ninguém nem sabe, eu tenho um ancestral negro.

fundo do olho esquerdo

Fundo do meu olho esquerdo. Olha que foto mais íntima, muito mais do que foto de biquíni.

Fiquei feliz. Que meu ancestral negro me garanta um olho forte e saudável, que me permita fazer tudo o que eu quiser na minha vida.