Arrelia (também serve Tiririca)

Um autor, claro. Daquele que com a sua aldeia consegue descrever o mundo, um retrato da sua época e atemporal ao mesmo tempo. Se não pudesse ser um grande autor, pelo menos alguém que passa a sua vida cercado de muitos deles, pelo que produziram. Um professor universitário. Um pesquisador. Ou quem sabe um advogado, profissão que também se cerca de livros, linguagem, códigos. Se for para dar as costas para tudo isso, em viagens por lugares exóticos, com línguas que jamais soariam familiares, ser transportado num olhar a outra realidade. Projetar realidades, construções, arquiteturas, influenciar a pessoa sem que ela sinta, com a mágica da combinação de cores e móveis. Desenhar o trivial e transformar em algo novo e surpreendente, um novo jeito de se sentar ou de se vestir. Salvar vidas, o que pode ser tanto num sentido biológico como simbólico, salvar a alma da ignorância ou dos seus próprios medos. Sendo nos sonhos as profissões tão grandes e tão nobres, eu não entendia quando via a entrevistas de palhaços – Arrelia quando eu era criança e o Tiririca quando eu já era maior – que diziam que escolheram ser palhaços porque não conseguiam imaginar algo mais bacana do que viver de fazer as pessoas rirem.

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Sobre a tirinha: Macanudo é uma expressão argentina antiga, algo como “supimpa”. O autor, Liniers, batizou com esse nome apenas para colocar Supimpa no meio do jornal.

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O desafio do pão

Documentário Massimo Bottura: Teatro da Vida (Netflix) mostra um teatro reformado para servir de refeitório. No letreiro: NO MORE EXCUSES. Das mesas às pessoas que recebem, tudo é pensado para oferecer o melhor. Chefs do mundo inteiro que oferecem seu trabalho e conhecimento para servir gente que não teria condições de pagar. Os ingredientes? Comida que seria descartada. Por isso, e por estarem na Itália, sempre tem muito pão e todo ele é amanhecido. Mas nem um único chef serve o pão seco e duro. A cada chef, vemos soluções diferentes: colocar num caldo de cebola e cúrcuma para depois secar no forno, pudim de pão, como parte de uma massa. Dava para fazer um livro de receitas de pães amanhecidos. O que é encantador no projeto é a maneira como se oferece do melhor, sem a mentalidade de que se é caridade qualquer coisa serve. É uma visão contrária, de querer fazer um extra, de oferecer a quem se encontra numa situação de fragilidade um carinho a mais.

Ao invés de enfrentar burocracia, armazenar, separar e pensar sobre, não é mais prático pegar o resto de comida, moer, transformar em pelotas desidratadas e pronto? É sim. Mas quando se pensa em gente e em comida, não se deveria pensar tão facilmente em praticidade. Comer é uma das necessidades mais básicas do ser humano e partilhar o alimento sempre foi uma das mais sagradas. Quem não se sente reconfortado pelo cheiro da comida quente, seja ela um feijão caseiro ou até mesmo o carrinho de cachorro quente de madrugada? Pegar uma comida e sentir que ela tem textura, sabor, cheiro, temperatura, que ela pode brincar na boca, descer gostosinho e ser saboreada é ser reconhecido como gente. Pedir comida já é humilhante o suficiente, a carga de sofrimento e abandono das pessoas não precisa ser aumentada. Se preparar comida dá mais trabalho, ok, é um trabalho que precisa ser feito.

Azul

Era como se eu tivesse acordado de madrugada pra fazer xixi. Olhei para o espelho e estava azul, muito azul, no mesmo tom de azul daqueles caras da propaganda da Tim (ou Tobias, do Arrested Development). Lembro de me olhar no espelho e me ver azul e querer tirar aquilo. Aí olho pro pulso direito e começo a sumir. Volto correndo pra cama antes que fique pior e me cubro.

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Todo mundo aqui já viu X-men e o meu preferido é aqueles que eles estão “jovens”. Tem a cena linda que a Mystica espera o Magneto na cama e ele a prefere azul. Ele lhe diz, em outro momento do filme, que ela desperdiçava uma tremenda energia ao se mostrar não-azul. Ser boazinha e adaptada é ser Mystica cor da pele.

“Perfection”

 

Multiversos

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Dizem que há multiversos, realidades paralelas, e nas nossas outras vidas paralelas fizemos de tudo. Cada alternativa possível, a da direita, da esquerda, do meio e para trás, foram todas vivenciadas, ou seja, em algum lugar existem versões nossas que conjugam o verbo na primeira pessoa do plural. Mas essa informação, na prática, não adianta nada, porque se não tenho consciência das outras realidades, elas são tão inexistentes quanto a minha imaginação. O pior, você sabe, que de todas as alternativas possíveis, eu prefiro exatamente a que estou – estamos – agora. Eu a criei, eu a escolhi, muito mais eu do que qualquer outra pessoa. O que eu vislumbrava podia ser tanto um fósforo riscado quanto uma bomba, em todas uma quantidade de dor acima do tolerável. Sou adulta – somos – e como toda adulta já tenho dores e culpas o suficiente na bagagem para aceitar mais dor e culpa como se nada fosse. O desejo que me restou, do alto da minha limpeza de caráter – porque me consolo de tudo isso dizendo a mim mesma que fiz o que havia de mais correto – é muito simples. Muito mais simples do que o teu, tenho certeza. Imagino que um dia a gente se encontre por aí, num corredor, e você estará no meio de amigos que eu sempre disse que não são os meus, eu poderei cumprimentar os presentes, me aproximar de você,  e te abraçar. Um abraço longo, daqueles que suspende o tempo, envolve o corpo e a alma. E com ele te faria sentir que tudo mais é pequeno diante da gratidão e amor imensos que sinto por você.

Do meio pro fim

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Harari cita umas experiências que indicam que o nosso cérebro não consegue avaliar uma experiência na sua totalidade. O que ele faz, na verdade, é dar pouco peso ao começo e fazer uma média do meio pro final. Segundo ele, esta tendência explicaria porque, apesar de reconhecer que a dor do parto é uma das piores que tem, as mulheres continuam parindo; elas dão pouca importância à dor e se fixam na que é a emoção de segurar seu bebê, etc. Isto também mostra que a gente reclama e acha eleitoreiro, mas os políticos que decidem trabalhar em véspera de eleição sabem mesmo o que fazem. Quantos filmes que pareciam bons enquanto assistíamos foram arruinados pelo final, ou vice-versa? As pessoas se casam, tem filhos, constroem uma vida juntas e, quando termina, o outro vira um monstro que só lhe fez mal. A média final de um casamento, com o terrível processo de divórcio, é o oposto da contabilidade que uma mulher faz quando pari… Caso você tente dizer que “um dia deve ter sido bom, senão vocês não teriam ficado tanto tempo juntos”, a pessoa vai bater no peito e dizer: É sim, foi péssimo, desde sempre, eu sofri muito!

Ok, é a tendência natural do cérebro, entendi. Mas existe um caminho menos imediato, de não sujar a história toda por causa do final. Conheci uma moça dançando, antes dela entrar na faculdade. Era daquelas adolescentes que passavam o tempo todo se queixando que era encalhada e feia. Passou num curso disputado, conheceu um veterano, namoraram quase até se formarem. Acompanhei de Facebook: fotos sorridentes em passeios, com os amigos, com a família, tinha até charge dela vestida de noiva. Quando a reencontrei: “Nossa, você não sabe o que eu passei, me livrei, aquilo foi um atraso na minha vida, um castigo!”. Eu me pergunto do que ela se queixaria caso tivesse ficado completamente sozinha durante esse período… Vejo que quem não joga sobre a sua história toda mágoa do meio-final se sente mais feliz. O que seria isso, uma reprogramação cerebral?

José falava francês

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… e inglês também. Ele fazia engenharia na UFRJ, ótimo em cálculo, um grande futuro pela frente. Mas os comunas ingenuamente pensavam que podiam falar francês pelo telefone que a tigrada não ia rastrear. Um dia parou uma viatura em frente de casa, os policiais levaram José. Ele sabia francês e o Serviço Nacional de Informação precisava de gente que ouvisse telefonemas em francês. Ele tinha que ouvir, transcrever, dizer onde eram os encontros. Não era um convite. A qualquer hora do dia ou da noite eles apareciam e levavam José. Ele passou a ver olhares assustados, ouvia os gritos por detrás de portas entreabertas, corpos sendo carregados. Tinha uma sala que a pessoa dava um passo para entrar e já caía numa piscina imunda e se ficava horas no escuro, trancada, gelada. Todo dia alguém apanhava, quer precisasse ou não, porque eles precisavam, estavam viciados. José se sentia muito mal, não queria fazer parte daquilo e pediu para que o liberassem, jurou que não abriria a boca. Logo nos primeiros dias da nova liberdade estava com a sua noiva na rua, um carro surgiu do nada e foi com tudo pra cima dela. Ela não conseguiu se salvar. Isso sem falar no carro parado em frente de casa, gente seguindo a mãe, telefonemas sem ninguém na linha. José voltou.

Doçura

Tenho sentido uma falta imensa de doçura, imensa. Apelo para doçura nas maiores doses que posso e sinto que ela adere em mim com um hidratante numa pele muito ressecada, que afina pouco e pede mais e mais. Um lado sente que precisa salvar o mundo do desmoronamento, outro que suas liberdades correm o risco de serem podadas antes mesmo de criarem raízes, e os dois se sentem perdedores. E se armam. Na minha busca por doçura, tenho ouvido muita música portuguesa, de quem sempre ouvi que desprezamos as raízes mas de quem herdamos o coração bom. Ouço a música deles e acredito.

Tempestade

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Depois de um mês de estiagem choveu muito, choveu, finalmente parou e a previsão é recomeçar. Mas o dia passou seco, roupa secando no varal, a noite silenciosa, talvez até mais silenciosa do que o normal, e a previsão de chuva parecia ser mais um erro. Mas os sites não param de noticiar e o Milton posta sobre palco caindo e quer tranquilizar as pessoas. Ponho varal pra dentro e me encastelo toda. Desde que passei a morar em casa, a chuva deixou de ser um ruído na janela que ajudava a relaxar pra ser algo que me acorda de madrugada. A porta da frente, na posição original, deixava entrar muita água, apesar daquela borracha instalada embaixo, e depois de qualquer chuva era certo que a sala inundaria. Também tem a corrida na madrugada pra tirar as roupas da pequena cobertura lá atrás. A Dúnia que tem comportamento estranho em dia de chuva forte, ora deprimida e querendo entrar em casa, ora se colocando num cantinho praticamente descoberto e se molhando toda. Mas, principalmente, começo a pensar em notícias de casas destelhadas, árvores, lugares que inundam enquanto estou quentinha. Morar em casa realmente nos deixa mais próximos da terra, com todo simbolismo que isso tem. Já repararam no quanto as músicas antigamente falavam de fenômenos meteorológicos? Era sunny day, here comes the sun, crying in the rain, long and cold winter…

O Popular

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Tem uma crônica do Veríssimo com esse nome, que não quer dizer um sujeito muito amado e sim o cidadão que sai nas notícias, “populares cercaram o local”, etc. Aí Veríssimo vai indo, diz que o sujeito está segurando um pacote, que aparece no canto das fotos, que se um dia tentam pegar o popular ele escapa, o verdadeiro Popular é o outro que está assistindo o primeiro ser preso. É uma crítica, na verdade, da multidão passiva que não se posiciona. Independente da crítica, talvez por ter lido a crônica muito jovem, sempre mantive a figura do Popular com seu pacote na minha cabeça e enxergo procuro por ele no plano de fundo dos entrevistados na rua.

Tempos desses assisti sem querer um ritual importante, e quando fui parabenizar a pessoa que, digamos assim, ganhou o cargo, ela me perguntou quando é que eu me juntaria a eles. Eu sorri e disse que não me juntaria. No post retrasado lembrei do meu histórico de visitante de igrejas. Fui à várias, na esperança de ver coisas diferentes, e quando me convenci que era tudo meio igual perdeu a graça. Ganhava livro sagrado, me punham em listas, me chamavam pra festas, grupos de jovens, todo tipo de pressão sutil ou não sutil e jamais conseguiram. Sorria, desconversava, fingia que não percebia. Mais antigo ainda, lembro quando minha vizinha tinha com mais duas amigas um grupo que ensaiava coreografia da Xuxa para apresentar nas festas da família. Os ensaios eram secretos, para manter o suspense. A única exceção era eu, que podia assistir todos.

Cara, eu sou O Popular.

Horas preciosas

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Tem vezes que te acontece uma coisa que te estraga não apenas o dia inteiro mas também a semana. Pior ainda quando acontece na segunda, você ainda tem mais quatro dias pela frente e está com as energias totalmente esgotadas. Às vezes é uma bobagem, o cruzar com um idiota no Facebook, ler comentários dos sites de notícias. Não consola mas é totalmente justo naqueles dias que você mal coloca a bunda na cadeira, de tanta coisa que tem para resolver. Às vezes o resolver é ficar no telefone, em vários telefonemas ou apenas um longo repetir de dados para um telemarketing. Pode ser passar correndo no banco, porque não instalou o itoken ou descobre uma taxa de 17 reais por algo totalmente online e sem custo para eles. Quando não se acha vaga pra estacionar. Quando a loja fecha e com ela o único lugar da cidade que você sabia que vendia aquele produto. Ao encontrar um amigo que te pergunta o que você fez, e a resposta é: atendi o cara da net e fica parecendo que você não fez nada. Mas esperar, não ficar à vontade, prender o cachorro e ficar cuidando te consumiu horas. O problema que é hoje em dia quando se precisa de um correio. Os cartórios, as pessoas se demoram em caixas eletrônicos, o horário de rush na padaria e demais coisas do demo. Horas preciosas. A pessoa com problema no joelho que surge na sua frente bem quando você está com pressa. Ou ser a pessoa com problema no joelho. Dormir tarde já com o cálculo das horas de sono em a ver. A resposta que não chega nunca. Os astros que só acertam as previsões ruins. Errar de roupa, sair encalorado demais ou de menos, chegar em casa exausto e suado com qualquer um das duas. O dia de trocar toalhas e roupas de cama. As milhares de folhinhas de maço de coentro. As contas que se renovam, o cabelo que precisa de outro corte. Estar preocupado com alguém que você ama. Agora, quando.

Libertária, eu?

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Uma vez eu estava com um amigo e uma amiga, numa mesa, e os dois falaram que já haviam feito sexo à três. Outra vez, com duas amigas, que não tem nada a ver com os dois anteriores, falaram que já posaram nuas. São momentos que eu olho para as pessoas e me pergunto se tenho amigos muito arrojados ou eu que sou muito antiga. Pior que eu sei qual a resposta. Passei pela adolescência e faculdade sem que jamais tenham me oferecido droga, nem um reles cigarrinho, nem ao menos soube quem usava ou não. Era tão claramente perda de tempo que ninguém se deu ao trabalho. Se eu nem ao menos bebo – do melhor vinho do porto à mais docinha e suave sangria, pra tudo eu faço careta igual criança, acho horrível. Tudo em mim grita tanto bom comportamento, que pessoas que frequentam igreja sentem uma vontade irresistível de me levar pra elas. Durante muito tempo até aceitei os convites, movida por pura curiosidade antropológica. O cálculo deles é que eu já não bebia, fumava ou saía e já me visto de maneira comportada, então estar fisicamente numa igreja é o de menos. E sabe a loucura que dá depois da separação, a liberdade, as baladas, a idade da loba? Nadinha.

Eu poderia fazer uma lista do meu bom mocismo e comportamento recatado. Caso alguém tivesse vontade de me conhecer através do blog, fecharia a janela na hora e enterraria a ideia pra sempre, convencido de que sou uma mala sem alça – e quem disse que não? O que me surpreende é que alguém como eu se veja alçada à posição de libertária. Que seja a que defenda o descrito como chocante e destruidor da família brasileira. A favorável às vozes que nem deveriam existir. Que nessas alturas da vida tenha que defender coisas que nunca fiz e nem nunca vou fazer porque sei que o meu comportamento não deve pautar o dos outros.  Eu tenho todo perfil pra ser reacionária e não sei se vocês vão entender o que direi agora: estou ressentida de não poder ser. O libertário precisaria de pessoas melhores em suas fileiras. Mas sei que a culpa não é minha – o conservador que migrou para as raias do absurdo.

Minha Dudu

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Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Aquelas long neck

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Nunca contei essa história, que já deve fazer uns dois anos. Eu estava voltando no ônibus de sempre, tarde da noite como sempre e havia um mulher sentada atrás de mim falando no celular. Eu estava esparramada na cadeira, muito cansada. O ônibus estava silencioso e a conversa dela se misturava com as luzes dos postes. Do outro lado da linha, ele lhe disse que estava esperando e ela disse que ele deveria dormir, que não precisava. Ele acordaria cedo amanhã. Ele não apenas esperava por ela como tinha deixado um prato de comida separado. E ela tinha uns chocolates escondidos e contou onde estavam. Ela lhe disse que as cervejas long neck entraram em promoção no supermercado onde ela trabalhava. Naquele fim de semana eles podiam comprar, dividir, fazerem a festinha deles. Quando saí do ônibus não resisti em olhar para trás e vi uma mulher simples, meia idade, acima do peso, aparência cansada.

O que me impediu de contar até hoje e que se confirma quando leio o parágrafo acima é o fato de não conseguir expressar o quão doce era o tom daquela conversa, os gestos simples e carinhosos que se podia adivinhar de ambos. Penso nos dois com suas long neck como champanhes e o seu amor tão precioso.

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.