Vendas de humanas

calculadora

– E temos estes lençóis aqui, em promoção.

Olho para a pequena tabela em cima dos lençóis. Nela mostra que o preço antigo era R$ 169,00 e estava custando R$ 139,00. Ficamos naquela de “olha esse”, “tem esse outro”. Duas estampas bem diferentes tocam meu coração.

-Mas, não estou conseguindo pensar direito… de quanto é essa promoção?

-Está R$ 139,00.

-Digo, a porcentagem…

-Então, era R$ 169,00.

-…quanto isso é de desconto.

-Trinta reais.

– De desconto?

-Trinta reais a menos. Era 169,00.

Ficamos alguns segundos nos olhando em silêncio, numa guerra de quem tinha mais grilos na cabeça e bolas de feno enquanto fingíamos ser capazes de calcular de cabeça. Eu cheguei até o “multiplicar os 30 por 100 e depois dividir por 169″, mas eu vi que ela nem isso. Por algum motivo, adoro essas porcentagens nos descontos; se for dez, nem acho que realmente descontaram, e quando é 50%, mesmo que seja de R$ 5,00, acho que estou fazendo um baita negócio. Ela começou a olhar para o vazio, ao invés de tentar loucamente obter a informação, que era o que eu gostaria que ela tivesse feito. Quem mandou ser uma pessoa de humanas que não consegue saber se 30 a menos é barato o suficiente ou não.

(É quase 20%. Também sou contra darem desconto quebrado.)

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Pequenos ódios

dogbert karma

Sacos de lixo também precisam ser de qualidade. Já apareceu meu lixo todo esparramado na frente da casa, eu desconfiei que foi alguma forma de protesto de vizinhos, e no fim era apenas saco vagabundo que arrebentava embaixo. Investi em sacos melhores. Mas olha o problema: o caminhão passa sempre na mesma direção, claro. Ele pega o lixo da casa da esquerda, da minha, corre pro caminhão. Com mais frequência do que eu gostaria, o saco da minha vizinha arrebenta e cai lixo dela na frente da minha casa. Dias desses catei, cheia de ódio, um vidrinho minúsculo. Além de tudo não separa o lixo. Pensei em falar com ela, mas é justamente a vizinha maluca. Depois pensei em apenas jogar o lixo na frente da casa dela, o que ainda cogito fazer, aí lembrei de um dia que estava chegando em casa e ela me perguntou se eu vi quem ficou de madrugada perto da lixeira dela, porque a câmera não pega muito bem aquele pedaço. Ou seja, louca do jeito que é deve olhar todo fim de semana o que acontece na frente da casa dela. E até o cachorro dela é louco, é do tipo que passa alguém na frente e ele passa mais de minutos latindo. No fim, recolhi o vidrinho. Sabe o Dogbert, do Dilbert? Tem uma historinha que ele vai se tornando chefe apenas por mandar as pessoas saírem dos seus lugares e ninguém o enfrenta. Funciona mesmo.

Aceitação 100%

Eu sou uma grande fã do Ru Paul´s Drag Race. Eu lembro quando um amigo com quem não falo muito me mandou uma mensagem privada dizendo que eu precisava ver, que eu adoraria. A princípio, um reality de drags não me disse nada. Mas, como meu amigo mesmo disse: conhecer aquele universo nos faz vê-las de outra forma, o tremendo talento, empenho, paixão e autoconhecimento que há por detrás. Outra coisa que eu amo é saber que nenhum participante realmente perde – só de colocar os pés no programa, aquilo já gera mais cachê, fama, fãs clubes.

MAS não consigo transmitir a minha paixão do reality para os outros, mesmo entre amigos que não têm nada contra gays. Eu sei que se dessem uma chance, se assistissem um único episódio, entenderiam minha admiração pelo trabalho. E se vissem um pouco mais, veriam quando elas contam suas histórias e suas dores. Inevitavelmente, o público do Ru Paul´s é levado a pensar: você pode não entender, pode não desejar isso para si e para os seus filhos, mas tem que reconhecer que são pessoas que encontram nessa atividade um equilíbrio e um acolhimento que não conseguiriam de outra forma. Não é preciso querer o mesmo, basta respeitar.

Nesse sentido, talvez o Queer Eye consiga atingir muito mais o coração resistente à causa LGBT, até porque os gays são agentes de mudança e não a história central. Ao contrário de realitys de moda que primeiro destroem a pessoa ao criticar tudo o que ela vestia para depois reconstruir, os Cinco Fabulosos partem de amor e aceitação logo de início. E não sei como a produção do programa acerta tanto na seleção das pessoas, porque terminamos amando todo mundo. Não é apenas moda: tem a redecoração da casa toda, a alimentação, o coach para a área da vida que precisa de uma força, a mobilização da família e amigos. O objetivo é ser agente de mudança para a vida inteira.

Na nova temporada (ainda não terminei), dois momentos me chamaram atenção, pela extrema sensibilidade: uma mulher, cuja queixa era não se sentir bem com sua feminilidade. O marido dizia que era linda, o irmão que morreu. Aí a colocam num com outras mulheres, para cada uma falar dos seus desafios. “Você tem ouvido a vida inteira os homens falarem da sua aparência, acho que você precisa ouvir mulheres”. Noutro caso, dentre o desleixo, pobreza e tristeza, o participante não era fã de tomar banho todos os dias. Quando vão comprar roupas e o assunto vem à tona, o sujeito se esconde. Não foi bronca, foi conselho: “Roupas de algodão absorvem o suor e ficam pesadas, prefira estes tecidos”. No fim, ele disse que há anos tentavam ajudá-lo com “bons conselhos”, o que só o deixava mais resistente. “Vocês realmente me aceitaram”.

É muito bonito, é muito amor. Impossível não se apaixonar pelos cinco.

 

Curtas sobre ser quem é

well

Há um ano, eu publiquei um ou dois textos falando sobre a Marielle. Ela me impressionou muito e, como quase todo mundo, eu só fiquei sabendo da sua história quando terminou. Ainda hoje me espanta como ela me parece tão grande, enquanto para outros era “aquela lésbica” ou “só mais uma pessoa”. O ano após a morte dela foi tão longo, parece muito mais do que um ano, e tão pior. O que dizer quando uma sociedade mata ou deixa morrer os seus melhores?

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Eu tenho um problema específico com o elogio “esforçada”, talvez por ter ouvido muito. Quem sabe numa outra sociedade, como a japonesa, em que o empenho e a disciplina ocupam um papel diferente, seja realmente um elogio. Eu acho que, aqui, ser chamado de esforçado é meio como ganhar o Miss Simpatia: todo mundo sabe que a Miss Simpatia nunca é a vencedora do concurso. O esforçado nunca é o talentoso, o best, o preferido, o melhor. Esforçado é aquele cujo único mérito é fazer tudo certo, mas sem alcançar um resultado digno de nota.

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Nunca fui da turma cuja sorte bate à porta, talvez por isso minha única opção seja mesmo o esforço. O que a vida tem feito comigo é – pela total falta de candidatos e alternativas – me transformar na pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado. Baratas, filtro d´água, manter as contas em dia, fazer manutenção de bicicleta, descobrir músicas novas, apagar todas as luzes, saber o que me cai bem, criticar e corrigir o que eu mesma escrevo. Mais recentemente, gravar vídeo com recomendação de coisas bacanas pra ver ou ler.  (Tá na minha página no FB, às quintas)

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Uma coisa ótima que ouvi sobre auto-estima. Falava de um aspecto específico no mapa astral, mas acho que serve pra todo mundo: “saiba que você tem esta voz dentro de você que sempre vai te colocar pra baixo. Pra sempre você vai ter a sensação de que não vai dar certo, não vale a pena, você não consegue. Se for esperar o dia que você se sentir preparado e confiante, você nunca fará nada na sua vida. Você deve viver e seguir em frente apesar dela.”

Ô, merda, eu sou mesmo muito esforçada.

Jeans e oráculos

Eu adoro comprar roupa online, especialmente da China. Antes (dólar baixo) era uma pechincha, saia quatro vezes mais barato do que ir numa loja. Depois de ser tão vantajoso e passei a comprar menos, mas continuei gostando. A ironia é que comprar em site é se basear em medidas e com base na foto tentar adivinhar como você ficaria. Justo eu, que quando preciso comprar um jeans sou capaz de experimentar vinte antes de me decidir por um – ou nenhum. Aí eu me dei conta de que talvez seja justamente por isso, porque no site eu me desobrigo e pessoalmente eu não posso não experimentar. Se eu não experimentar tudo, vou me condenar pelo resto do tempo, imaginando que um jeans muito mais perfeito estava à minha espera.

Bauman fala disso, outros autores falam disso, do quanto o excesso de escolhas acaba se tornando fonte de ansiedade. Aí estava pensando num meio atendimento que acabei fazendo com um amigo. Numa fase da vida dele, ele viajou para o exterior e que poderia ter acontecido algo extraordinário nesta viagem, que a vida dele poderia ter dado uma guinada. Eu fui determinista, disse que pelo mapa dele a viagem deu o que tinha que dar, que aquilo era um começo e não uma guinada. Lembro agora de um outro amigo que via cartas, e ele me disse que nove entre dez pessoas queriam saber de amor, os outros poucos tinham um problema específico de saúde ou queriam um emprego. Eu lhe perguntei se já apareceu gente que não iam arranjar um amor e ele disse que sim, e que falou para elas. Então, concluí que o que as pessoas iam lá ouvir que iam sim arranjar um amor, que apesar das aparências e da ansiedade havia alguém, era apenas uma questão de tempo.

Ninguém aqui nasce numa família de nobres ou servos e que lhe diz desde criança que você será nobre ou servo. Por mais que a mobilidade social não seja tão livre quanto se prega, crescemos com uma ideia de é tudo escolha nossa. Tudo o que eu sou e penso é fabricado a cada minuto e em cada gesto. Como se a vida hoje fosse um excesso de opções confuso e sempre escolhemos errado em algum lugar. Sempre, eternamente, nunca enxergamos o suficiente, nunca experimentamos o suficiente, era justamente o último jeans da loja que tinha o melhor caimento e mudaria nossas vidas. Procurar oráculos, mapas astrais, cartas, previsões é, no fundo, uma visão determinista. E o que ela nos diz é: você fez o seu melhor e o que tinha de fazer. Aguarde e confie.

Tenho respaldo da sociologia ao dizer: você não escolhe tanto assim.

Paul diz: Let it be. Confiem nele.

Trazer alegria

marie kondo

Começou uma onda Marie Kondo quando apareceram os episódios na Netflix e, como sempre parece acontecer na internet, depois das reações iniciais boa, a moda virou e o bacana é detestar a Marie Kondo. Mas mesmo entre aqueles que disseram que não têm paciência com o jeitinho dela, acabam repetindo um conceito fundamental do seu método: trazer alegria. Além de ver os episódios, li o livro, e achei que ele realmente dá dicas valiosas. Percebi que eu me desfaço com facilidade de roupas, mas me dói muito lembranças e presentes. Coisas que nem ao menos gostei quando ganhei, atulham minha vida, e não acho correto me livrar. Ela dá alguns conselhos práticos a respeito e recomendo a leitura – só procurar pelo nome dela no LeLivros, caso você queira baixar.

Conversando com amigas sobre a Marie Kondo interior, eu percebi que consigo me desfazer com facilidade porque minha mãe me fez associar esse descarte com alegria. Limpávamos meus brinquedos periodicamente, e ela sempre destacou que aquele brinquedo que eu nem lembrava mais que eu tinha faria uma outra criança desconhecida feliz. Sempre acabo imaginando que, em algum lugar da cidade, tem uma pessoa com a roupa que não me caía bem ou o bibelô que eu não gostei, e feliz da vida.

Curtas sobre fragilidade

É sempre a mesma coisa: eu nado há anos e nado bem. Aí aparece um homem na turma, que nada mas não está acostumado com o ritmo puxado da aula. Começa uma série, digamos que dez tiros de cem metros. Além de conhecer o meu ritmo, as séries de resistência são as minhas preferidas, o meu desempenho vai melhorando com o esforço. No primeiro tiro, eu nado mais rápido do que o tal aluno novo. Do segundo em diante, o sujeito faz de tudo pra ganhar de mim. Eu chego na raia tranquila e ele está com os pulmões pra fora. Até que ele não consegue manter mais e nos últimos tiros está quase uma piscina inteira atrás de mim. Por que tudo isso? Porque eu sou apenas uma mulher, eles precisam ganhar de mim.

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Aplicativo de karaokê: quase todas as letras de música são cantadas numa primeira pessoa do sexo masculino. Eu canto a letra tal como ela é, todas as mulheres que eu ouvi cantando fazem a mesma coisa. Só que de vez em quando, muito raramente, aparece uma letra com uma primeira pessoa no feminino. Dá pra perceber: o sujeito vai cantando normalmente, aí chega na parte feminina – “estou apaixonadA”, “estou sentidA” ou “você é meu queridO” – , e o sujeito tem um mini ataque de pânico. A palavra sai atrasada, num tom diferente – e no masculino. Vai que uma pessoa o ouve interpretar uma música num aplicativo, de nickname irreconhecível, e conclui que se ele canta música de mulher no feminino é porque gostaria de ser uma? Sempre lembro deste vídeo:

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Já comentei o caso aqui. Eu ia na loja quando era casada e o dono ficava conversando com o ex. Fui na loja recém-separada e o dono passou a me virar a cara. Depois, inesperadamente, me tratou bem. Pediu abraço de fim de ano e até aí ok. Na vez seguinte foi mais explícito na cantada – se eu percebi é porque só faltou a pessoa anunciar em carro de som. Não fiz nada, apenas na vez seguinte fui para as prateleiras; se tivesse interessada, teria ido falar com ele. Ele me cumprimentou, entendeu, tudo muito sutil. Pois bem. Voltei. O sujeito me deu um sorriso tão agressivo que foi como se eu tivesse corneado o sujeito e voltado na loja pedir produto de graça? Minha vontade foi dizer pra ele: Percebe que você criou uma história sozinho, que EU NUNCA TE FIZ NADA?

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Estou espalhando esta raiva por aí. LINK DA NOTÍCIAUma mulher ultrapassou homens que partiram 10 min antes de bicicleta e decidiram para-la e todas as outras mulheres por sete minutos – tudo para que os pudessem recuperar a vantagem e os seus egos não sofressem danos permanentes. É uma metáfora tão clara sobre o que é ser mulher. Feliz dia. Reclamemos.

Megera

evil queen

Infelizmente, eu ouço os meus vizinhos mais do que gostaria. O vizinho dos fundos, então, sempre fala muito alto. Eu acabo ouvindo alguns diálogos. Não sei dizer se ele e a mulher estão se separando ou estão tentando não se separar, mas ela dá patada atrás de patada no que ele diz. Às vezes ele nem disse nada demais, mas dá pra perceber que tudo a tira do sério. Não julgo, de verdade.

Um casamento acaba por muitos motivos e é claro que o meu teve muitos motivos. Ouvindo os dois lá atrás, eu percebo que uma das coisas que me dói sobre o meu casamento era a pessoa que eu era. Não vou saber dizer se eu era assim desde o começo, se foi como a relação se desenvolveu, se tinha jeito, só sei dizer que eu era e não gostaria de ser de novo. Minhas impaciências, minhas injustiças, minhas ingratidões. Será que eu sou uma megera estava uma megera? Algumas coisas nossas só encontram a luz do dia na intimidade extrema – e nem sempre é bonito de ver.

Losers

losers

Não sei se ando numa fase emotiva, mas há muito tempo eu não gostava tanto e me emocionava com uma série Netflix com a Losers. Acho que a última que me entusiasmou assim foi a Abstract. Não faz muito tempo, eu estava nadando e veio um flash de uma lembrança, e que me foi muito reveladora. Eu estava começando a fazer aulas de natação, estava indo muito bem para quem começou mais velha, aí vi as outras pessoas nadando e fazendo virada olímpica, e pensei: “eu tenho que aprender a fazer virada olímpica. Senão, por melhor que eu nade, nunca vou deixar de ser reba” (expressões de infância voltam à minha mente nos momentos muito íntimos, esta quer dizer algo como “ruinzinha”, “porcaria”). Não devia estar nadando nem há um mês e não queria ser reba. O que me surpreendeu é que eu tento dizer pra mim o tempo todo que não sou uma pessoa competitiva. Aí eu vi que sou, porque tento jamais ser reba. E achar que pra tudo o que você faz na vida, mesmo começando fora da época e ao lado de pessoas que fazem aquilo a vida inteira, você deve ser pelo menos boa, não deixa de ser querer demais.

A série fala de muita gente que estava lá em cima e falhou, em derrotas que foram melhores do que vitórias, derrotados que se tornam mais famosos do que os vencedores, vitórias pessoais que valem muito mais do que qualquer medalha. A cada ano que passa, é como se eu ficasse cada vez pior no flamenco. Não deve ser verdade, mas subjetivamente pra mim é assim. Sério, eu fico muito sem graça quando me mandam vídeos e dizem me querer ver dançar. Porque eu sei a imagem que mulher dançando flamenco passa, aquela feminilidade forte e decidida, e eu sei que me ver não é assim e nunca serei assim. As pessoas que são assim têm uma relação com a música e com o sapateado que eu não tenho, e não é uma questão de tempo. Acho que me sinto tão mal porque finalmente vi que nunca deixarei de ser reba no flamenco. Em outra coisas eu consegui, no flamenco não. Mas, ao mesmo tempo, o flamenco me proporciona experiências que, digamos assim, até parece que eu sou boa. Meio porque estamos no Brasil e “é o que tem hoje” – eu estou lá, estou disponível. Se tivessem outras dez opções, quem sabe as escolheriam e eu nunca entraria, mas não tem. (Deve ter umas cinco e garanto que chamam todas as cinco antes). Mas se estou na foto, subo no palco, participo do programa e levo a lembrança pro resto da vida comigo… sou loser.

Os favores dos Deuses

shiva murudeswar

Eu acho fascinante como a cultura modifica a maneira de olhar o que até mesmo “deveria” ser igual. Astrologia, por exemplo, o quanto a abordagem do ocidente e do oriente é diferente. Já falei algumas vezes que o cálculo é diferente, que as lendas são diferentes, que as técnicas são diferentes. Mas o que eu acho de mais fundamental  são os tais “remédios” da astrologia védica. Nos primeiros vídeos que eu vi, peguei uns astrólogos falando meio mal, que não era pra colocar um anel no dedo e achar que com isso todos os assuntos relativos àquele planeta – Saturno para carreira, Vênus para amor e prosperidade, Sol para auto-confiança, etc.  – estavam resolvidos. Depois que eu entendi que eles não são tão dispensáveis assim. Enquanto numa leitura ocidental o astrólogo vai te dizer que você pode ter dificuldade de ser firmar na carreira e ser responsável, ou que tem que se esforçar muito para arranjar um casamento, na leitura védica você tem um karma ruim com relação a esses assuntos que precisa ser queimado. Somos muito self made man até em astrologia. Então você não é uma pessoa com uma carreira ruim, você está com Saturno fraco; ou não é uma pessoa com dificuldades na vida amorosa e sim tem um Vênus muito aflito no mapa. Você escolheu nascer assim, a questão não é um simples “rever atitudes”. Se você está sofrendo demais é porque a escolha saiu pesada, então o único possível é querer que haja uma misericórdia no pagamento de suas penas. Os “remédios” são para melhorar a relação da pessoa com os deuses relacionados ao assunto problemático. Há coisas que soam engraçadas, como alimentar corvos ou nunca aceitar amostra grátis. Como todo tipo de penitência, a pessoa aprende sobre si no processo e precisa de força de vontade (já psicologizei, olha o vício ocidental). E, sabe como são os deuses, o pedido é nosso e atender ou não é com eles – ou melhor, com a nossa possibilidade kármica.

Três lembranças diferentes

parábola

Eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, na parte de internamento breve. Assim como tem gente que uma vez na vida tem um surto e se recupera, tem aqueles que voltam sempre, todos já conhecem. O Fulano era um deles. Já tinha uns sessenta anos e era um sujeito muito chato. Diziam que a família devia mandar pra lá por isso. Tinha alguns CID-10. Lembro dele abordar qualquer um pela manhã e mostrar os comprimidos que tinha: “Olha só, dez comprimidos, só pela manhã. Imagina como deve ser meu estômago”. E reclamava, reclamava, reclamava. Internar uma pessoa é uma nota. De um lado, a família não devia mesmo gostar da companhia dele. Por outro, eles pagavam. Quanta gente por muito menos é abandonada pela família ou trancada num quarto.

Há poucos dias eu fiquei louca da vida de uma pessoa mais jovem, mais endinheirada, mais amada, mais cheia de oportunidades vir choramingar pra mim, de novo. “Mas é que você é tão madura, tão forte, você lida com os seus problemas tão bem que me sinto muito à vontade de achar pouco de ter de sobra o que tem te faltado”.

Os dois casos me lembram uma história budista que ouvi na minha infância, de uma mulher que perdeu alguém na família e foi pedir para Buda trazer a tal pessoa de volta. Ele disse que a mulher lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma família que nunca havia perdido alguém, ele atenderia o pedido. A mulher bateu de porta em porta e cada família tinha uma história de perda pra contar.

Às vezes me parece que egoísmo, maldade e doença são uma coisa só.

Extremo oposto

amigos mais talentosos

Hoje eu me pergunto se sempre foi tão impossível pra mim ter uma mente matemática ou se me falhou algo a mais, como aulas de robótica – um amigo colocou me contou que o filho lhe pediu pra fazer esta aula e achei incrível que exista. Sempre tive pra mim que matemática era a minha pior matéria mas, quando estudava em colégio particular, ela ser minha pior matéria queria dizer que eu precisava tirar 0,5 ou 1,0 para passar no quarto semestre, porque eu já estava passada em tudo no terceiro. Foi quando mudei para escola pública que degringolou, a física me caiu como impossível logo nas primeiras aulas. Mas, ainda assim, era apaixonada por trigonometria e gostava de voltar pra casa fazendo contas hipotéticas de logaritmo na cabeça.

Outra grande inveja minha é músico. Sempre tive pra mim que não os alcanço, que não ouço o que eles ouvem, que vivo num universo menor. Tenho um bom ouvido, sou afinadinha pra cantar, gosto de música clássica, mas não adianta, ninguém me convence de que eles não têm algo que eu não tenho. Minha impressão foi justificada quando li Alucinações Musicais – um livro incrível, principalmente pra quem for da área – e ele confirmou que o cérebro de quem estuda música desde criança se diferencia muito dos cérebros não-musicais.

Minha ideia pra uma encarnação posterior que realizasse o que não pude nessa é sempre foi que eu gostaria de nascer numa família que me colocasse diante de um instrumento desde cedo. De alguns anos pra cá, enfiei a matemática na fantasia. Ainda mais que música e matemática são bastante aparentadas, eno a fantasia ainda é bastante coerente.

Eu vi uma definição muito bonita sobre o auto-conhecimento; veio de um astrólogo, mas vale para tudo. Você nasce com algo na mão, digamos que um lápis. O que você precisa descobrir é o que fazer com ele. Você pode insistir em querer pintar uma parede ou esculpir uma pedra, mas se você usar o lápis para escrever ou desenhar, você vai muito mais longe na sua vida.

A vida é tão curta, então tem lógica que você descubra o melhor e vá atrás dele. Não me parece que a gente consiga fazer mais do que dois caminhos, quando muito. Mas, para além do que é fácil, existe também uma outra possibilidade: recusar o que lhe foi dado, fazer algo radicalmente distante. Por querer, para pisar em lugares desconhecidos de si mesmo. Até onde alguém que foi programado para A e B consegue se fizer Z?

(Às vezes lágrimas, amigos)

Eu chego mais tarde, me enrolo, é por querer.

Entro em silêncio onde todos conversam, pego as minhas coisas, evito contato visual, protejo o rosto pela porta do armário aberta. Todos notam minha chegada, mas é raro que tenham tempo de me dizer qualquer coisa, antes de eu mudar de ambiente. Quando estamos a sós, já vi os assuntos mudarem assim que eu chego, numa consideração inesperada; mas se chego cedo demais, e as pessoas conversam livremente, não tenho mais esse privilégio. Eu canto. Canto baixinho, para mim mesma, a música que está na cabeça. Ou mantras. Chegam até mim vozes confusas, capto uma palavra ou outra sem querer. Mas principalmente me chega o tom. Vozes que atingem agudos de indignação, onde são sempre os outros os culpados. Sabem tão pouco e ignoram meu gosto de tal forma que não acreditam quando eu digo que gosto quando o sensor não capta a minha presença e fica tudo escuro. Passam lá e acendem a luz à minha revelia. Deveriam perceber que eu poderia facilmente erguer um braço ou abrir uma porta e nunca o faço. Pelo contrário, eu fecho os olhos para ficar ainda mais escuro e mais íntimo, curto os segundos de privacidade que me restam. Nunca consigo escapar de todo, me esperam. Se contasse que já cheguei a me enrolar durante uma hora inteira e me esperaram. Já estou habituada a me trocar de pé, num cuidado que tive desde o começo por ter notado o quanto os territórios são importantes. As pessoas me têm simpatia. É muito difícil que não me tenham, é minha sina: sou a querida cuja opinião não se leva a sério. Tento me esconder atrás da porta do armário, na proximidade do espelho, em todo meu ritual de me arrumar bem longe, mas nunca me deixam entrar e sair sem falar nada. Alguém se aproxima, me olha nos olhos e me pergunta algo. Me toca, sorri. Pede uma dica, fala de roupa, do tempo. Às vezes é tão sem propósito que fico até sem graça. Fazem isso porque sabem que eu não poderia deixar de ser gentil. Gostam de mim porque sabem que sou gentil. Porque já me flagraram com paciência infinita e carinho por pessoas de quem ninguém gosta muito, sem a menor vantagem e sem saber que me assistiam. Gostam de mim porque sou gentil, porque acho que todos merecem respeito, mas é essa mesma gentileza que nos afasta. Minha gentileza se indigna em pensar em idoso pobre recebendo 400 reais mensais. Minha gentileza não me permite achar tudo bem que gay tenha que andar com cuidado, que negros sejam alvo da polícia. Eu sei como pensam e a maneira como nada do que tem acontecido sequer roça suas peles me choca. A indiferença dos bons, limpos, bem nascidos e de bem me choca. A maneira como as paredes tremiam com o ódio quando falavam que o Lula deveria ser preso e agora tudo está em paz. Gostam de mim e talvez seja bom que gostem, sem dúvida é mais fácil viver assim. É justamente a postura de querer criar mundos puros que nos torna um país tão desigual, então também não me sinto no direito de dizer que não devem. Mas eu me enrolo e me sinto tão longe.

se tiver uma chance

Alguém comenta

codigo de barras

Já me falaram várias vezes, com diversos argumentos e por motivos diferentes, para compartilhar algum conteúdo por vídeo. E eu até tentei, pensava um pouco, e no fim acabava não fazendo. Gosto do anonimato da escrita, me sinto mais protegida. Sempre reconhecia a importância de usar outros veículos, mas fundamentalmente a minha resistência é geracional: sou velha, não sou da geração que gosta que nasceu se registrando por imagem o tempo todo. Aí estávamos numa roda e uma amiga me falou algo que eu já havia compartilhado no meu Facebook: tanta gente postando informações ruins, por ignorância ou interesse, e pessoas que poderiam ter algo a dizer não dizem nada, “precisamos ocupar esse espaço”. Eu compartilhei, achei lindo, e pensei nos muitos amigos professores, pesquisadores, escritores. Não pensei em mim. Lembro ainda que o texto que eu compartilhei dizia: tudo bem que você não tenha uma grande audiência e o seu post/vídeo seja visto pela sua meia dúzia de amigos, já é mais do que se ele estivesse apenas numa revista científica ou numa banca, já é mais do que guardar pra si. Nisso ela me fisgou.

Coloquei um vídeo na página At., Caminhante do Facebook. Não sei se tenho fôlego pra muitos. Não pretendo falar de mim e sim recomendar o que me chamou atenção. Não dá pra colocar vídeo aqui, nem pra dar um gostinho, porque a plataforma não oferece isso para quem não paga pelo domínio. Ou seja, vão ter que passar lá e seguir a página pra ver…

Nascimento especial

indian chart

Já comentei que a astrologia védica não tem essa de dizer que todos os signos são bons, que todas as diferenças são válidas, etc. Eles julgam na cara dura. E fazem afirmações que a astrologia ocidental jamais teria coragem de dizer, tanto boas quanto ruins – que alguém tem tudo para ser famoso ou que jamais vai conseguir se sustentar e vai viver de favor pro resto da vida. Vi num fórum um desesperado porque queria confirmar que seria famoso e os dados dele não indicavam isso nem com boa vontade. A gente lê comparando os indícios como próprio mapa e descobre, como disse um dos astrólogos que eu sigo, que não é grandes coisas. Yogas lindas, grandes sinais de que a pessoa é iluminada ou que vai deixar sua marca no mundo e nenhum conhecido tem. A védica joga na cara que você é medíocre.

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Pra eles o horário exato de nascimento é ainda mais importante, porque eles dividem o mapa astral em vários pedaços e geram outros mapas astrais. Os indianos vêm a hora, minuto e segundos do nascimento, coisa que ninguém aqui tem registrado. Pelo meu horário de nascimento na certidão, eu tenho meu ascendente nos primeiros graus de áries. A união entre os graus finais de peixes e áries (câncer e leão, capricórnio e sagitário) é o que eles chamam de ponto gandanta. É como um buraco, a união nada suave entre um signo de água e de fogo. Enfim, é especial. Aí fui pesquisar meu possível nascimento especial. No google: gandanta born.

A crença é quando a vida se cristaliza em certo ponto, então nós viajamos em direção à manifestação mais elevada da alma e da consciência. Temos que passar por um momento particularmente difícil para preparar nossas mentes para o próximo passo na jornada de nossa alma. Se você nasceu em algum dos gandanta, pode esperar algumas dificuldades espirituais neste nascimento. Uma falta de apoio, uma sensação de transformação.

Um, não tão legal. Outro site:

Nascimento em Gandanta é uma das muitas falhas que podem acontecer no nascimento ou em um evento. Dependendo da natureza dos Gandantas, diferentes Shanti Upayas (Remédios) precisam ser realizados, caso contrário, pode haver perigo para a vida do recém-nascido.

Eita.

Phaladeepika 13.9: Se um parto acontece no extremo de uma Rasi que é ocupada ou aspectada por um planeta maléfico, a criança certamente encontrará sua morte imediatamente. Se o nascimento ocorrer em um Gandanta, o pai, a mãe ou a própria criança morrerão. No entanto, se a criança sobreviver, ele se tornará um rei. Se nascida na junção de qualquer um dos quatro quadrantes, idêntica à conjunção ou aspecto de um maléfico, a morte da criança acontecerá em breve.

Eu tô viva e já na Terra faz tempo, então pra mim foi bom.

Gandanta no nascimento do dia chama-se Pitr gandanta (perigo para o pai), enquanto Gandanta no nascimento noturno é chamado Matr gandanta (perigo para a mãe).

Poxa, gente.

Enquanto Chandra é o governador da mente e do corpo (psico-somático), Lagna é o governador da inteligência (Dhi). Assim, enquanto Rasi Gandanta afeta a saúde, longevidade e sustento, Lagna Gandanta resulta na perda de inteligência, desde que o Lagna ou o Lagnesha também sejam afligidos.

Me chamou de burra na cara dura.

Aí, num outro trecho, diz que se a pessoa nasce durante Abhijit Muhurat não é tão ruim assim. Nunca tinha visto o termo e fui pesquisar. Abhijit Muhurat é uma média do horário entre o nascer e o pôr do sol e cai geralmente entre meia noite e uma da manhã. É um horário sagrado. Aí eu pensei: oba, nasci em Abhijit. No google: Abhijit born.

Pai ou mãe tendo alguns problemas após o nascimento da criança, pelo menos, dentro de 3 a 5 anos de nascimento da criança. Como a dívida de negócios, a perda de pais de problemas de saúde da mãe, alguma grande doença encontrada. Tudo depende do horóscopo de três pessoas, precisamos analisar. Mãe pode enfrentar problema de saúde mental ou saúde física, na maioria dos casos eu vejo problema de saúde na mãe. Este não é um problema de saúde geral, é um grande problema ou qualquer doença anterior voltar ou aumentar em doenças anteriores. Caso pai, eu vejo muito provavelmente questões financeiras e relacionadas à carreira. A maioria dos casos no horóscopo Pai e Filho não é compatível entre si, então com um impacto negativo na Carreira [Finanças etc].

Melhor deixar pra lá essa história de gandanta, que tal?

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No whats, com uma amiga também cheia de gandanta no mapa:

Eu: andei pesquisando sobre os gandatas.

         Falam mal à beça da gente.

Ela: [Falam mal à beça da gente] Isso é fato.

Nostradamus para formigas

nostradamus

Pense numa pessoa observando um caminho de formigas. Ela vê um obstáculo alguns centímetros depois das formigas que estão vindo, quem sabe logo depois de uma curva. A pessoa sabe a maneira de proceder das formigas, para que direção elas estão indo, o que tem adiante. Se a pessoa fosse capaz de falar com a formiga, ela lhe diria: daqui há algum tempo, você vai encontrar um obstáculo. Para a formiga, isso pareceria um futuro, mas para a pessoa é como se o fato já estivesse acontecendo, porque tudo é simultâneo na visão dela: formigas, caminho, obstáculo. Por isso que, pelo menos em teoria, prever o futuro me parece possível. Não só pela questão de ver as coisas num ângulo mais amplo, mas também pela previsibilidade humana. Se estou nos chamando de formigas? Estou sim. É raro que alguém cujos antecedentes você conheça bem seja capaz de um ato surpreendente. Mais ainda se pensarmos num surpreendente para melhor – quantas pessoas conseguem agir para além dos seus condicionamentos e agir de forma ousada, apostando em algo que elas não fazem a menor ideia do que vai dar? Gostamos de pensar que somos assim, livres para agir de uma maneira imprevisível a qualquer momento, mas basta pensar numa situação bem concreta com alguém que você conhece e a resposta vem fácil: se Fulano achasse uma carteira na rua, se Beltrana ficasse trancada a sós com seu ídolo, etc. Seria como esperar que a formiga de repente saísse da fila, abandonasse as companheiras, se perdesse espontaneamente; formigas vão para frente ou para trás, elas não saem do caminho (acho que formado por cheiro) por onde sempre andam. Humanos, assim como as formigas, agem dentro de padrões bem limitados. Nas poucas vezes que humanos surpreendem – agora sim serei pessimista -, eles o fazem quase sempre na escolha mais pobre.