Uma noite agradável

Eu estava com vontade de sair de casa de pijamas. Ou dentro de um saco gigantesco. Por pura vontade de estar confortável. Aí procurei a roupa mais confortável, folgada, à vontade, foda-se, tô nem aí possível. Ouvi que estava fashion, indiana e estilosa. E uma mulher quis saber quem corta meu cabelo.

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Não costumo tirar o celular da bolsa no terminal, principalmente à noite. Mas como resistir a uma cena destas. Não está fácil nem pra quem é urso de pelúcia gigante.

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Ao contrário das outras histórias sobre o Interbairros 2, a cobradora do último que eu peguei era tão legal, fiquei com vontade de me apresentar e virar amiga dela. Ela estava conversando com duas, sobre namorados. O dela, em dois minutos estava pronto para o combate, ele não se esquivava da ginástica laboral. Ela não imaginou chegar aos quarenta e nove tão satisfeita – e ela realmente tinha uma cara de gente feliz, a pele ótima, o cabelo loiro bem cuidado. Depois perguntou o signo dos namorados das amigas. “Leão é difícil chegar nesse estágio, Leão pega bastante no pé. Eu tive um namorado de Leão que não me deixava respirar”. Aí a amiga que tinha pedido pro motorista dizer onde ficava a rua Holanda porque estava indo na inauguração de um bar com karaokê, disse que estava numa fase de luto, que não suportava ficar em casa que começava a chorar, porque sua mãe morreu há pouco tempo e seis meses depois o pai foi junto. “É que um amor segue o outro. Quando o amor da pessoa morre, ela não tem mais o que fazer aqui e vai junto”. E do que ele tinha morrido? Aorta. “Isso é a desculpa. Na verdade, quando a pessoa está muito angustiada, o coração fica apertado e começa a bombear muito e prejudica as veias. Eu mesma, quando me separei…” Aí deu desci, uma pena!

Drosófilas e pelinhos

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Teve uma época que o meu irmão estudou drosófilas, aquelas mosquinhas que ficam em volta da banana. E ele disse que elas eram tão bonitinhas (!?), que cada uma era diferente da outra: que tinha mais pelo de um lado do que do outro, que os inúmeros olhos formavam padrões diferentes ou uma curva diferente nas asas. Isso me faz pensar que nada nunca é idêntico na natureza, nem mosquinha. Que se a gente vê como uniforme, é por falta de atenção ou pura limitação. Não é sempre diferente com neve, galhos de árvores, nuvens? Então como esperar que a humanidade fosse facilmente explicável, justo a humanidade? Logo nós que temos pelinhos, geometrias e asinhas internas tão complicados. Um mundo interior que não dá pra desenrolar nunca, e o próprio ato de tentar desenrolar vai dando ainda mais linha e gera espirais infinitas. É claro que o número de alternativas necessariamente seria maior do que o número de regras. E digo mais: os quebradores de regras não são eles, apenas eles, os esquisitos e os que têm prazer nisso. Mesmo para quem se propõe a andar sempre na linha, uma hora vai dar errado. O pelinho imprevisto vai tremelicar. Pode ser o racional que se pega baixando um Exu. Pode ser a religiosa pudica que vai parar no banheiro com um estranho. Pode ser funcionário ambicioso que tem piti justamente com o presidente da empresa. O machão que se descobre gay, a mãe que abandona os filhos, o arrivista que casa por interesse, são tantas possibilidades. De assassinato a roubar no troco. As rotas alternativas são tantas e de graus tão variáveis, que é certo que uma vez na vida se pratique algumas delas. A contabilidade de ser boa ou má pessoa é tão complicada que deve ser como “aquele que atingir no máximo 500″ – e a gente nunca sabe direito o que vale cada coisa. Dá pra aceitar o comportamento diferente pensando nas mosquinhas, que é tudo natural e que há uma beleza nisso. Mas se isso soar piegas, penso também numa coisa muito prática: já que todos vamos errar e de certa forma é impossível saber para que lado, é melhor viver num mundo com mais permissões do que proibições. Vai que o seu pelinho é justamente aquele que a sociedade entende que a encarnação do mal e merece morrer.

A alma quebrada

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Sapatos de flamenco custam uma fortuna e um dos motivos é por serem extremamente fortes. As chances de alguém que não seja profissional e tenha um sapateado fraco quebrarem o salto de um são mínimas – e foi exatamente o que eu fiz, há poucos dias, num dos meus ensaios. Na verdade, sentia o salto dele meio solto há anos, assim como o outro, mas achei que fosse normal. Já ouvi uma explicação engenheirística sobre as coisas muito sólidas serem menos resistentes do que as que trabalham um pouco, então achei que meu salto dar umas falhadas fosse pura tecnologia. Voltei no sapateiro e pedi pra ex-mulher do espanhol pra verem se era possível colocar uma trava no salto, igual sapatos de dança de salão. Horas mais tarde me ligaram dizendo que isso eles não fariam, mas me explicaram que dentro do sapato havia um ferro, cujo nome não guardei, que era a Alma do Sapato. O do meu estava quebrado e eles não apenas trocariam aquele ferro como poderiam colocar dois. Eu topei.

Três dias depois, fui buscar meus sapato de alma nova. Havia uma menina brincando no balcão e chamou a avó assim que eu entrei. Era a ex-mulher do espanhol. O engraçado que eu sempre a cumprimento com familiaridade e digo que sou a moça do sapato de flamenco, e ela se justifica dizendo que “atende tanta gente…” e só me reconhece quando vê o sapato. Ela me explicou de novo o lance da alma, que o meu sapato está ainda mais resistente do que era antes, que nos fizeram um preço bom porque já sou cliente. Enquanto isso, ela foi corrigindo a neta: aquilo não era uma bola, era parte de uma câmera de segurança, que parasse de brincar com aquilo, pegasse umas canetinhas e papel. A vida era daquele jeito, tinha que ter responsabilidade. A menina apoiou as mãos no balcão e ficou observando nossa conversa, e quando a mulher tirou um adesivo de dentro do sapato – pelo jeito é por ali que se tem acesso à alma – a menina quis tirar e ela não deixou, porque aquilo era assunto sério, era trabalho.

Quando eu já estava pra ir embora, ela me perguntou se flamenco era uma boa atividade física. Tomei o ar para responder e ela completou: “é porque eu detesto academia, exercício, essas coisas. Eu tenho trauma, eu sofri bullying de uma professora no colégio quando era deste tamanho”. Me contou das humilhações, de ter que saltar de uma corda e ter medo, ser a primeira a ser chamada para que todo mundo viesse, de não ter nem sete anos e ser chamada de monga, que nem jogos olímpicos ela conseguia gostar de assistir, que um filho dela também ficou traumatizado com educação física, que ela ensinava a menina e os netos a respeitarem os outros, sempre, tratar bem o professor, apagar o quadro, arrumar a mesa dele, que tem que ser educado, mas também ensinava a se proteger, a dizer que não merece ser tratado desse jeito, dizer que vai chamar a mãe ou a vovó, que um policial ensinou na TV que não se deve apenas ensinar as crianças a não falarem com estranhos mas também a terem cuidados com os conhecidos, que não se divulga mas a cada hora três crianças são sequestradas, que se instruiu mal as crianças, uma palavra que você ensine para elas faz toda diferença, que… Aí entrou uma cliente e ela parou a conversa e me largou como se nada fosse. Antes de sair, eu falei:

– Sobre aquela pergunta que você me fez, a resposta é Sim.

Capela Sistina

Hoje em dia se vai na Capela Sistina pra olhar o teto, mas quando Michelangelo recebeu a encomenda, ele não ficou nada feliz. Ficou ofendido, na verdade. Os maiores pintores da época foram convidados para preencher as paredes e quando chega a vez dele, tem que pintar justamente o pior lugar, sem importância, o que ninguém olha.

Vi por causa de outros umas fotos do Festival de Joinville e tinha lá a do cara que deu um curso longo que fiz e que no final a gente montava um espetáculo. Nem vou resgatar. Meus amigos me disseram na época que ficavam divididos com meus textos de dança, que eram agridoces. E eram. Foi naquele curso que eu descobri que o pessoal que dança à sério mesmo não é legal, que eles concorrem e se matam como em qualquer outra área. Vejo que é uma ilusão comum pra quem é diletante, achar que quem trabalha com arte respira ares superiores e o convívio é bom. Que nada, os meios artísticos no geral são os mais duros, onde a vaidade fala mais alto.

Começar a dançar pra mim foi nunca mais ser preferida, nunca mais ser a melhor, nunca mais ser considerada promissora. Mas me dá um prazer tão imenso e essencial, é como ler com o corpo. Depois de ver todo mundo fazer solo, finalmente chegou a minha vez e escolhi uma coreografia de nível mais básico, pra ser fácil e chegar no palco à vontade. Péssima decisão: não me lembrava nada e foi como se tivesse me proposto a aprender uma coreografia nova em duas semanas. Tenho ensaiado tanto que em mim tudo dói, minha casa está uma bagunça e me arrasto entre os compromissos. Mas! Coloquei uns detalhes muito legais nela, umas coisas muito minhas e muito soltas, porque uma das poucas coisas que aprendi na vida depois de uma série de pancadas foi a me levar um pouquinho menos a sério. Acho que vai ser bom. Tô querendo fazer desse solo meu momento Capela Sistina.

Curtas do mesmo que seja eu

Adoro a história do Erasmo Carlos contando que não sabia que sua música era um hino gay até ser convidado para cantar no presídio feminino. Quando chegou no “você precisa de um homem pra chamar de seu”, a platéia foi abaixo.

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Lembro de uma amiga, que começou a namorar um estrangeiro mais de dez anos mais novo. Ele estava no Brasil há pouco tempo. Ela: “se não fosse o fato dele ser imigrante, se ele estivesse aqui há mais tempo, se estivesse numa situação melhor, se tivesse mais amigos…” todos os senões diziam a ela que ele não a teria escolhido. Mas quando a gente está tinindo na vida, por cima da carne seca, com todos os melhores candidatos à volta? Ela, por acaso, estava? Os dois hoje estão casados.

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Quem dança flamenco geralmente sonha em ir pra Espanha, e ocasionalmente até vai. E descobrem que os espanhóis não estão doidos para empregar estrangeiros para dançar a dança deles. Que lá a concorrência é feroz, que ser excelente é o básico. Mas aqui no Brasil não é assim – sou dedicada, mas também sei que comecei tarde, tenho um sapateado mequetrefe e tal. Mas é isso aí, flamenco brasileiro, é o que vocês têm pra agora. Na geração seguinte vocês poderão ser mais exigentes.

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Livros. Um dos sintomas que tenho quando um autor é muito bom é a vontade de parar de escrever. Pra ele é fácil e tudo sai maravilhoso, que graça eu, etc. O último é o Amoz Ós. Mas aí venho pro blog.

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Menos e mais

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Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

Amor sem a pobreza de usar a palavra Amor

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Toda forma de arte com um propósito definido acaba se tornando pobre. Tenho sentimentos religiosos com livros, raios de sol, ar puro, café quentinho, acariciando o pelo da Dúnia… se deixar até mesmo no ônibus ou escolhendo legumes, mas nunca, jamais, ao ouvir uma música gospel. Uma música ou forma de arte com propósitos claramente moralistas. Percebo a mensagem e minha inteligência se ofende porque dão a pergunta, a resposta e ainda por cima me descrevem as etapas. A boa literatura sabe faz tempo: a melhor forma de falar de um sentimento é transportar a pessoa para lá.

Shmuel olhou para ele e descobriu naqueles momentos o quanto seu rosto monolítico – um rosto cujo escultor tivesse desistido dele no meio do trabalho de esculpi-lo, com o queixo afilado se projetando à frente e o bigode grisalho e desgrenhado – de repente lhe era caro. A feiura do velho lhe parecia uma feiura atraente, cativante, uma feiura tão marcante que era quase uma espécie de beleza. Foi tomado de uma imensa vontade de tentar consolá-lo. Não de fazê-lo esquecer sua dor, mas, ao contrário, tomá-la para si, de arrastar com força para si mesmo algo dessa dor. A grande e sulcada mão do velho homem estava pousada sobre o cobertor, e Shmuel, delicadamente, hesitantemente, pôs sobre ela a sua mão. Os dedos de Guershom Wald eram grandes e quentes e circundaram, como num abraço, a mão fria de Shmuel. Por alguns instantes a mão do velho abraçou os dedos do rapaz.

Amós Oz/ Judas, 36.

Curtas sobre e com eles

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Meu amigo Alessandro recebeu no Sarahah que é muito mais interessante por escrito do que pessoalmente. O que posso dizer a respeito disso, se fosse pra mim: assim espero.

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Meu irmão era o mestre em não brigar. Eu me aborrecia com ele e ele simplesmente não brigava. Reagia como se estivesse bem, porque se pra ele estava, então estava. Tenta ficar irritado com alguém que está de boas pra você ver, é muito difícil.

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Os problemas que tive com aparelho serem foram na terceira semana. Só que quando tento marcar consulta extra é sempre tão difícil e cai poucos dias antes da manutenção, que desisti e me aguento. Desta vez, o dente entortou, a mola passou por cima do arco, elástico saiu, eu ficava ajeitando com o dedo, feia a coisa.

-Você não faz ideia da surpresa que eu e meu aparelho temos para você esse mês.

-O que você andou fazendo de errado?

-Eu não fiz nada, quem fez foi a natureza.

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Já dei uma nota de vinte para o cobrador pedindo desculpas. Ele foi gentil e olhou para mim com enormes olhos verdes. Pensei em falar do quão grandes e verdes eram aqueles olhos e parei. Juro para vocês que ele praticamente batia as pestanas para que o detalhe não passasse anônimo.

Você sabe e só você não sabe

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Tem uma daquelas pavorosas frases machistas, que diz: “quando chegar em casa, bata na sua mulher. Você não sabe porque está batendo, mas ela sabe porque está apanhando”. Eu tenho para comigo que somos, ao mesmo tempo, o homem e a mulher desta frase, que que somos tanto a parte que sabe quanto aquela que ignora. Estudamos o tempo todo que a consciência é só a pontinha do iceberg, mas realmente não levamos isso à sério. Quem leu a Série Napolitana viu que a Lenu, diante de certas situações, vivia tendo ímpetos de mandar da outra embora, se ferrar, deixá-la em paz, mas logo dizia “claro que eu não fiz isso, não seria adequado, então eu perguntei como ela estava, consolei, etc”. Aí você pensa, que sempre tão auto-controlada, adequada e abnegada, ela era a melhor amiga do mundo, que Lila jamais desconfiaria da agressividade que havia por detrás. E não é assim, vemos Lila se afastar, se esconder, ser superficial, enfim, se proteger de uma agressividade que não é exposta. Ou seja, ela sabe. Talvez seja uma leitura gestual inconsciente, talvez chegue pelos poros, pela energia, o fato é que chega. E o último a ficar sabendo é o consciente. Você não sente vontade de ir, não quer falar, sente taquicardia, seu corpo e seus sentimentos dizendo que não, enquanto a mente diz que não está acontecendo nada, Fulano me adora, vamos ali tomar um café.

A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

Prazo

2202

Eu não queria ser atendida por ele, mas já que estava lá, tinha que inventar alguma demanda. Ele estava sentado num banco baixo, sem sapato e uma vela acesa enfiada entre os dedos do pé. Me envolveu com a sua capa, disse uma oração e perguntou o que eu queria.

-Eu estou esperando uma resposta. Foi uma carta que mandei no começo do ano.

Falei assim, carta, primeiro que é pra não dar muita pista e depois porque entidades não costumam entender os novos termos. Pois é, a gente duvida de um lado e acredita de outro.

Ele me deu papel e caneta, pediu pra eu escrever o meu nome. Olhou para o papel, soprou nele, passou numa vela, olhou. Tive esperança que ali ele me dissesse algo chocante, uma previsão, um tudo-vai-dar-certo.

-Em sete luas eu…

Fiz um cálculo rápido. Cada fase da lua dura uma semana, então sete luas cairiam em…

-Tudo isso???

Olha, pós-vida de exu também não é fácil.

Curtas de gostos peculiares

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Existem muitas características a serem consideradas numa calça jeans: o cavalo estar na posição correta, nem pra cima e indecente e nem pra baixo calça caindo; não gosto das cinturas que nunca mais subiram e o fiofó vive aparecendo e as costas ficam geladas; qual o índice de gordura corporal necessário para não ficar com o bacon pra cima com essas malditas cinturas baixas? Mais ou menos aquele que a mulher deixa de menstruar; detesto que o botão acima do zíper seja dourado; brilhos e apliques, proibidos. Ou seja:

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Claro que comprar calça jeans é sempre uma tortura, experimento dezenas delas, odeio todas, volto depois, me conformo com a menos pior e costumo andar com as calças sempre meio caindo, porque prefiro assim do que muito apertada. Ah, mencionei que não gosto delas afunilarem embaixo?

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Doce pra mim sempre foi chocolate e sofria se passava mais de alguns dias sem. Aí peguei o hábito de comprar coisas frescas da padaria, experimentando cada dia um doce diferente e agora me dá nojinho de chocolate, sei lá.

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Fiz, meio sem querer, uma quantidade absurda de manteiga com coentro. No fim acabou sendo bom, porque coloco na sopa como se fosse óleo e ela fica com um gostinho de coentro mesmo sem ter coentro. Sim, manteiga de coentro, sem querer.

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Decidi que gosto de séries inglesas e nunca mais recomendar a ninguém. Falei muito bem de uma de matemática pra amiga depois dizer que achou um porre. É que elas são um porre na medida certa: gosto de assistir algo enquanto escrevo. Prefiro que não seja totalmente ficção e que tenha muitas horas, uma continuidade. E se for interessante demais, atrapalha.

Curtas sobre inveja

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Eu tenho o livro da Coleção Plenos Pecados sobre Inveja. Tenho por motivos sentimentais, porque a história em si não me conquistou. Ela mistura dados estatísticos com uma história nada convincente. Nesses dados, eu lembro, fala do quanto a inveja é sempre um sentimento dos outros. Já Elena Ferrante faz quase um tratado sobre inveja e me pergunto se ela tinha consciência disso ao escrever.

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Tem umas santas informais em Curitiba, e um dia passou a história de uma delas, que era uma empregada maltratada pela patroa. A patroa era ruim com ela como madrasta de contos de fadas. E apesar de maltratar a menina de todas as formas, ela ainda lavava roupa cantando, o que enfurecia a patroa. Quando tenta tirar tudo de alguém, tudo o que está a seu alcance, o que o invejoso tenta é tirar a alegria.

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O que me faz voltar a frase mais fabulosa de todas, já falei dela aqui, do Kibe: o que querem é perceber que você sentiu o golpe.

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Obviedade não tão óbvia que me falaram: a inveja nunca é do ter e sim do ser. Realmente. Se fosse assim, só teria gente invejando quem tem Ferrari, não quem anda de ônibus, falando a grosso modo. O invejoso pode dizer para si mesmo que o problema é o emprego, sorte, beleza e etc que ele não tem, mas essa seria a segunda camada. Por ordem: achar que não tem inveja, achar que tem inveja de algo exterior, inveja do ser.

A Gorda

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Ela odiava a ex do marido, e o sentimento era recíproco. As filhas adolescentes dele haviam ficado com a mãe, morando e do lado dela, e o ódio mútuo era tal que chegou a virar caso de polícia, com direito a B.O. Como ela odiava aquela criatura, a Gorda, como ela chamava. Que morresse, ela com as filhas, senão de colesterol alto, problema de circulação, embolia ou entupida com um chocolate, podia ser mesmo de acidente, câncer ou facada. Odiava a gorda, odiava, noite e dia. Um dia foi numa gira e o Preto Velho advertiu: ela rogava tanta praga na Gorda que uma hora ia pegar. E quem ficaria morando com as filhas dela em casa era ela. A partir de então, incluiu a Gorda nas suas orações.

Os conselhos

Acho que não tem mesmo jeito – apesar da História, estamos condenados a cometer sempre os mesmos erros, enquanto espécie, até a autodestruição. Como mudar os grandes fatos se somos incapazes de mudar nossas pequenas trajetórias individuais. Um exemplo muito concreto é a série da Elena Ferrante*, com personagens que abraçam erros que o leitor percebe e sofre capítulos antes de acontecer. Quantos erros não cometemos nós também nas nossas vidas, apesar de serem tão claros para os outros, os que tentaram nos alertar, geralmente mais velhos? Mas não, quando é com a gente é sempre diferente: “ele me ama de verdade”, “chegando lá vai dar tudo certo”, “é porque nunca tinha aparecido alguém como eu”. Um erro alertado e cometido mostra dois lados: a estupidez juvenil doida para fazer o que bem entende; que no dia que formos o lado maduro, também seremos ignoradas, taxadas de invejosas e praguentas. Aprender com os erros sem dúvida é melhor do que ficar preso nele, num looping infinito – mas não nos ajuda em nada a poupar os outros. Seres humanos são muito apegados ao seu direito inalienável de cometer cagadas. Tenho chegado à conclusão que a única alegria que a experiência nos dá é a possibilidade de puxar a cadeira e esperar com calma, porque sabemos que vai explodir.

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*Juro que ainda vai sair texto no Caminhando por Fora. Semana puxada…