Dentes de leão

dentes de leão

Meu irmão foi me ver num dos primeiros campeonatos que participei. Da arquibancada, ele me viu chegar com as outras sete nadadoras e me aproximar do meu bloco de saída. Da minha parte, posso dizer que estava uma pilha, coração acelerado, touca incomodando porque coloquei com antecedência, óculos muito apertado para não pular pra fora quando eu pulasse na água e, principalmente, nervosa em pensar que exibiria para o mundo a minha terrível barrigada na hora de entrar na piscina. Ele me disse, depois, que sentiu uma pontada de inveja: “eu não sei como é essa experiência, eu nunca participei de um campeonato”. Ele até hoje não sabe qual o sofrimento de se separar, um sofrimento que muda o nosso material, mas acredito que ele viverá uma das mudanças mais fundamentais da vida que é ter filhos. Acredito que nenhum dos dois terá a experiência tão comum de ter carro, porque nunca gostamos. Eu não sei das longas viagens de ônibus por Minas Gerais e o interior da Bahia, as horas tediosas, o vômito do banco da frente aplacado com revistas de Comunicação. Eu não sei o que é ficar solitário em outro país, ele não sabe o que é a solidão de ovelha negra da família. Na época que éramos próximos e parecidos, eu juraria que tudo isso é impossível. Eu vi um astrólogo dizendo que mesmo gêmeos nascem com minutos de diferença que se tornam graus, e com o passar dos anos é como se esses graus se tornam cada vez maiores e definidores, como ângulos que se afastam. É da natureza que seja assim – não é isso que ela busca ao fazer dentes de leão tão leves e sopráveis?

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Banho no escuro

chuveiro

Há trocentos anos vi o depoimento de um homem que tinha a mãe cega, e ele contou que uma das suas lembranças mais antigas de infância era que ela dava banho nele no escuro. Se eu tivesse que escrever uma história, uma ficção, jamais me ocorreria um episódio desses, mas, ao mesmo tempo, é quase como uma consequência óbvia. Sei lá porque nunca esqueci a imagem. Agora, na academia, eles instalaram aquelas luzes com sensores de movimento. Algumas vezes estou no banho e a luz de repente apaga. A maioria das pessoas faz alguma coisa pra acender a luz, mexe na toalha ou coloca a mão pra fora do box. Eu fico torcendo pra ninguém fazer nada. Tomar banho no escuro é gostoso pra caramba.

Malditos talentosos

talento

Um amigo meu, professor de faculdade, me disse que sempre entram no curso umas pessoas com muita dificuldade. Como se fosse eu tentando fazer engenharia. Que, para essas pessoas, alguns colegas dele estimulam que a pessoa vá para outro curso. Mais ou menos assim: você está indo tão ruim porque está no lugar errado, repense seus interesses, a sua aptidão é outra. Meu amigo não faz isso porque ele não tem essa fé. Ele diz que nada garante que a pessoa que está indo mal naquele curso vai se destacar em outro, pode ser que ela vá mal em todos os cursos. Porque tem gente que é assim, não tem? Pense bem, todo mundo conhece alguém que desempenha mal várias atividades. De artesanato a cálculo, lavando louça ou em vendas, a pessoa é muito ruim. Não digo que é necessariamente falta de capacidade, pode ser que ela tenha características de personalidade que tornem qualquer atividade muito difícil – não aceita ouvir opiniões, baixa tolerância a erros, falta de concentração, fazer tudo com pressa, péssima coordenação motora, desinteresse, etc.

Do mesmo modo, tem aquele que desempenha bem várias atividades. Se pegarmos aquela lista de características que listei acima e inverter, provavelmente estamos falando que vai desempenhar razoavelmente bem qualquer coisa. E às vezes é duro admitir isso. O mundo não está dividido entre os que se dão bem porque são puxa-sacos e superficiais, enquanto outros são esforçados em silêncio; entre os que projetam uma aparência de competência e os que realmente fazem um bom trabalho que poucos apreciam; ou – agora numa perspectiva bem feminina – aquelas que dão bola para vários homens e não ligam para nenhum e as mulheres realmente de valor que ninguém presta atenção. Tem sim gente que é linda, rica, competente, feliz e que merece o lugar que está. Concordo que são minoria, a minoria que todos desejam estar. E as nossas contingências de algumas áreas podem tornar o funil ainda menor – pense no que é desejar ser escritor num país como o nosso, que a média de livros não chega a cinco por ano. Se, apesar do desejo mais do que sincero, não somos o topo da pirâmide, que pelo menos não sejamos amargos demais por isso. Que a gente note o talento e diga “Oi, talento”, sem sentir a necessidade irresistível de desqualificar.

A beleza do entorno

entorno

Acredito que a beleza tenha propriedades mágicas, que seja uma busca tão básica do ser humano como se alimentar e amar. Colo aqui um texto que escrevi em 25/abril/2016, chamado Beleza x Função:

Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

Acredito que a bandeira do belo é tão ou mais importante quanto a bandeira dos acadêmicos. Mesmo no meio da guerra (li há pouco A guerra não tem rosto de mulher) o ser humano não deixa de procurar a beleza, de ser subitamente arrebatado por ela, ser tocado de esperança na presença dela. O simples estar num lugar feio ou bonito nos afeta, mesmo que se feche os olhos, mesmo que se diga a si mesmo que é assim. Nesse “é assim” cabe tanta coisa, tanta injustiça. A pobreza é feia – feia na roupa, feia no corpo, feia na casa, feia na rua. Quando a coisa é feita com o que dá, com o que sobra, fica difícil deixar bonito. Vejo os programas de decoração, as transformações, e ninguém fica indiferente à sensação de viver num ambiente bonito, de ter orgulho de onde você está. Pena que isso não é – ainda? – considerado um direito inalienável do ser humano.

Homens bonitos vendendo produtos

a gente junto

Constatei o óbvio nas últimas semanas: é muito difícil dizer não pra gente bonita. Um foi na padaria. Lá tem uns potinhos com um negócio que parece waffer, mas bem caramelizado, não sei explicar. Acho que é uma sobremesa holandesa, é daqueles lados. De tanto passar por eles acabei comprando, e gulosa que sou comi tudo de uma vez e fiquei enjoada. Aí um dia fui na padaria e tinha um banner daquilo, com um lindo rapaz loiro sorridente e, ao lado do banner, justamente o rapaz, pra dizer que é ele quem faz e é receita familiar. Pode ser mentira, porque hoje em dia dizer que é receita familiar gourmet está na moda. Eu fugi, tive que desviar do meu caminho – se ele me oferecesse aquele troço olhando fundo nos meus olhos, teria que levar uns três. Sempre achei o cúmulo da idiotice machista quando homem fala isso. Mas ali, com aquele rapaz, eu não teria coragem de dizer que não queria. Pior ainda dizer que tinha comido e achado enjoativo, vai que ele parava de sorrir por minha causa, uma estrela se apagaria no céu. Outro foi um moreno lindo. Tive que ir no banco buscar um cartão novo e levou muito tempo, a situação absurda de uma agência do centro com apenas um caixa atendendo. Quando chego, sen or, que caixa. Ele me entregou o cartão e queria que eu fizesse um seguro contra roubo, clonagem de cartão, sequestro alienígena, daqueles que a gente paga uma taxa mensal. Ele aproximou os olhos do vidro e fixou o meu olhar com aquele rosto perfeito, olhos amendoados, cílios grandes. Foi uma batalha interna dura, mas a mesquinharia venceu. Ele não estaria lá para olhar de novo pra mim quando a fatura chegasse.

Invencível

Heavy rain in Spain

Vocês já andaram num dia chuvoso de galochas, capa de chuva e guarda-chuva? A sensação é ótima, estamos invencíveis. Enquanto os incautos correm para as marquises e molham os pés nas poças, caminhamos com independência, no ritmo que queremos, podemos erguer os olhos do chão na maior tranquilidade. Demorei pra descobrir o quanto a caado influencia no humor relativo ao clima. Quem me conhece pessoalmente sabe o quanto que fiquei contando vantagem, igual criança, quando comprei a minha bota de pelinhos. O frio se aproxima e já olhei para ela, feliz. É uma bota que vende nessas lojas de alpinistas, caras pra caramba, mas por acaso a esposa do fabricante me ofereceu a preço de custo. Com o preço de custo, ela já era o máximo que eu gastaria num calçado, pra vocês terem ideia. Mas, enfim, comprei. A bicha dá um calor que é como se eu colocasse os pés numa bolsa de água quente, vem subindo aquele bem estar. Não é bonita, mas quem enfrentou inverno de verdade sabe que vaidade não importa, quando o frio aperta a vontade é dar uma de Di Caprio e entrar nas vísceras de um urso morto. Pode vir chuva, pode vir inverno, estarei nas ruas, preparada para vocês.

Pulsões e as mães

calvin_duplicado

Não sei se foram em filmes ou desenhos, mas cresci sabendo que a premissa de qualquer Alcoólicos Anônimos – formato que se estende para qualquer grupo de auxilio para sair de vícios – é o reconhecimento. Nada pode ser feito enquanto o sujeito não assume que tem um problema ou que aquilo é um problema pra ele. Eu me peguei citando a psicanálise para uma amiga, teoria que cresci detestando por causa do machismo, mas que me parece a melhor forma de dizer: nem tudo o que consideramos felicidade é felicidade para o outro. Ou: pra ele a felicidade pode ser justamente aquilo que nos parece bárbaro e destrutivo. Freud chamou isso de pulsão de morte. Existe a de morte e a de vida, e achamos que o mais saudável é caminha em direção à vida. Mas nem todos acham. E se a pessoa acha que o bacana é caminhar até a auto-destruição, se essa é a pulsão dela, quase nada pode ser feito. A não ser que ela diga pra si mesma que isso é um problema e ela deve mudar, nos sentimos atrapalhando, como a pessoa que se coloca no caminho do apaixonado e seu objeto de desejo.

(Droga é mais complicado do que isso, entra a questão de dependência química, mas são apenas  reflexões, ok?)

O problema é que nenhum homem é uma ilha, não? De um lado, há o direito de buscar a felicidade na infelicidade, de outro existe o fato de que somos todos parte de um tecido, que nada nos afeta isoladamente. Afeta o emprego, afeta os vizinhos, afeta o cônjuge, afeta os filhos. E mesmo que a pessoa corte todos esses laços, ela é filha de alguém. Sempre que vejo defenderem que alguém merece mesmo morrer porque é bandido ou que só pessoas ruins foram torturadas naquele período histórico recente, penso nas mães que percorrem IMLs, passam por exames íntimos em presídios, exibem fotos dos filhos a estranhos enquanto contam suas histórias. “Eles” podem até ter feito por merecer à medida que danificaram ou professaram crenças erradas (!?), mas as suas mães não.

Jô e os mestres

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Eu cresci vendo as entrevistas do Jô e via que não era apenas que umas entrevistas eram boas e outras nem tanto, mas que também para alguns entrevistados ele se derretia e outros não. Eu não entendia. Um era ator global fazendo sucesso na novela e o outro também, qual a diferença? Eu li uma historinha indiana, num dos muitos livros de filosofia oriental que li pela vida, que contava a história de dois mestres iluminados que eram contemporâneos, cada um com seu séquito de discípulos. Os discípulos se conversaram e arranjaram um jeito de fazer os dois se encontrarem numa cidade. Desvia o caminho de um e de outro e o dia finalmente chegou e as duas comitivas se encontraram. Os mestres se cumprimentaram carinhosamente, comeram juntos. Todo mundo reunido pra ver a que alturas chegaria a conversa e ela pairou em cima dos molhos, do quanto o pão era gostoso, essas bobagens. Depois do encontro, os discípulos perguntaram para seu mestre o que aconteceu, e as respostas foram: Ele alcançou o que eu alcancei, não havia para ser dito.

Eu via famoso e famoso e o Jô via talento em contraste com pessoa que está lá sem merecer, seja porque uma onda levou e já seria esquecido ou porque era parente de alguém. Toda área tem dessas; certos sistemas podem fazer os de fora acreditar que só ficam os que tem mérito, mas nunca se consegue manter a pureza de ter apenas os talentosos. Uma professora de faculdade de design me disse que, de todos os alunos do curso, talvez apenas 15% fossem realmente designers, naquela sentido mais puro do termo, da pessoa que tem pleno talento e amor pelo que exerce. “E quando essas pessoas estão no mundo, como encontramos os 15%?” Na maior parte das vezes só quem está na área sabe. Foi a Marielle que me fez perceber isso, que até mesmo reconhecer a grandeza é preciso ter olhar.

O que toca

despedida

Não gosto de ler sobre guerra no geral e comecei a ler o A guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch, porque uma amiga jurou que é um livro essencial e que se devora em poucos dias. Como qualquer livro de guerra, a lista de barbaridades e situações horríveis é abundante – estupros, mutilações, canibalismo, etc. Tudo lá, se for levar a sério, é de chorar. Mas eu fui lendo – estou lendo – meio incólume, passando pelo horror com o olhar de quem já esperava aquilo. Aí, num certo momento, percebo que uma coisa vai subindo, subindo, e tenho que me interromper. As mães não choravam, elas uivavam de dor ao se despedir dos filhos. Uivar de dor. Eu que nem tenho filhos me vi transportada a estações de trem e mães entregando sua própria carne para ser esmagada, perder toda inocência, quem sabe nunca mais voltar.

Em breve, crítica no Caminhando por Fora.

Duas alternativas ruins

gangorra

Talvez seja por querer, nós nos sentimos mal se reclamamos e nos sentimos mal se não reclamamos. Os erros das grandes empresas são sempre impessoais – não é culpa de quem te atendeu, não é culpa do que apareceu na sua conta, não é culpa da pessoa que você apela pra consertar. Por favor, aguardo, confirmo, espero, obrigada. Um exemplo: fui no banco fazer um saque e descobri que o meu cartão estava com a data de validade vencida. Fui imediatamente até um gerente, que pediu um cartão novo. Depois, no extrato, descobri que o banco me cobrou R$7,50 pelo cartão novo, discriminado como segunda via. Reclamar ou não reclamar, eis a questão. De um lado, minha vida não ser torna mais difícil ou mais fácil por causa de R$7,50, por outro foi uma cobrança totalmente injusta, porque eles não me mandaram cartão antes do que eu tenho expirar. Acabei indo atrás, por dois motivos: taxas de banco me enfurecem especialmente. Limites de saques mensais, limites do uso de caixa eletrônico, limites de transferência…. eles nos cobram por coisas que têm custo zero para eles. Fazem contando com a estatística de pessoas que preferem não se aborrecer ou não conferiram. Depois porque eu aprendi – não sei se é verdade, na minha cabeça faz sentido – que é nas pequenas lutas que a gente vai criando casca para as grandes. Então, entre ser mala ou trouxa, eu sou a mala que reclama de taxa, que confere se a promoção* saiu no ticket, que espera pelo gerente. Depois de mandar whats pra amiga que trabalha no banco, ligar pra ouvidora inutilmente e reclamar com o SAC, vão estornar.

 

*me deram uma dica ótima: tirar a foto da promoção do supermercado.)

Gente dessa laia

pete

Como as regras anti-spoiler não valem para séries que acabaram há anos, vou falar um dos acontecimentos que eu mais gostei em Mad Men. Don Draper é o protagonista e, como tal, tem a nossa simpatia. E Pete Campbel começa a série como um arrivista detestável – com tempo ele conquista a nossa simpatia. No começo da série, Pete descobre que Draper não é realmente o nome dele do Draper, que há um passado obscuro, que ele mente sobre sua origem. Aí Pete reúne suas provas e confronta Draper na frente do dono da agência. O dono da agência fala: Draper é um dos meus melhores publicitários, fecha contratos de milhões de dólares, não estou nem aí pro nome dele. E Pete fica de filme queimado.

Muitos episódios depois, em outra temporada, surge um funcionário bonito, sorridente, puxa saco e que começa a se destacar. Sem querer, Pete descobre que o sorridente também não é quem diz que é, que suas referências são todas falsas. Aí ele o confronta: Sorridente, eu sei que você mentiu, eu já lidei com essa situação e conheço gente da sua laia, agora sei exatamente o que fazer. O que Pete faz? Se oferece para dar boas referências pro cara ir pra outra agência e sumir.

Não é bonito de se recomendar, não é aquilo que nos ensinam os contos de fadas. Mas, como diria Raul, quem aqui é besta pra tirar onda de herói. Eu tenho a impressão que, com “gente dessa laia”, a melhor coisa é deixa-los chegar onde eles querem – lá encontrarão muitos iguais a se matarão sozinhos.

Ratazana

mice

Günter Grass disse que colocou o nome de Ratazana em um dos seus livros porque conviveu muito com eles durante II Guerra e descobriu que eles são invencíveis – havia ratos por toda parte e nada conseguia impedi-los, qualquer vitória era efêmera diante da capacidade de aprendizagem deles. Eu faria uma camiseta “Lute como um rato”. Já sabia muito sobre o assunto por ter lido, sabia que não era à toa que eles são os vilões do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas nada como ter uma experiência concreta. Os ratos ganharam a fama de covardes porque sabem fugir rapidinho quando há rotas de fugas, o que na verdade é apenas uma demonstração do seu senso prático. Eles os piores adversários que se pode ter: astutos, persistentes e hábeis.  Lembram do rato, veneno e etc? Tenho a impressão que ele preenche uma planilha e a minha casa o impede de conquistar o ISO9000. Se não for sempre ele, há um rodízio, todos focados no mesmo objetivo. Tudo o que fiz foi tão inútil que fui obrigada a tampar o ralo do meu tanque. Agora a água cai no balde. É primitivo, mas nada como a tranquilidade de saber que não há rato nenhum em casa. Eu coloquei uma pedra amarrada numa lata de tinta, então sei que ele não passa mais. Mesmo assim, em intervalos irregulares e cada dia num horário diferente, eu ouço unhas arranhando debaixo do tanque.

 

Delay

dr assis

Ele posta raramente, e eu curto. Mora em outra cidade, me adicionou por amigos em comum. Apareceu uma foto minha bem no dia que eu o adicionei e ele me mandou uma mensagem dizendo que se unia a fila de admiradores que eu certamente tinha, por ser inteligente, ter excelente senso de humor e ainda por cima bonita. Eu agradeci e tal, mas nunca passou disso.

Lembro que naquela noite estava chateada, precisando de um afago e apareceu um post dele. Curti. Aí ele me mandou uma mensagem privada.

-Fico sempre lisonjeado e surpreso quando você curte alguma postagem minha.

Já estava quase indo dormir e de repente acordei. Dormir todas as oito horas todas as noites pra quê, e o espírito de aventura?

-Eu sempre presto atenção nas tuas postagens, mesmo que raras.

Eu acho que ele não esperava que eu estivesse online. Apareceu visualizado e só. As bolinhas não mostravam atividade nenhuma. Escovei os dentes, coloquei pijama, deixei tudo preparado e nada. Chamei de idiota que perdeu sua chance e fui dormir.

Na manhã seguinte vi que ele havia respondido, às 3h. Sei lá se saiu e voltou àquela hora, se tomou um monte de cerveja, se acorda de madrugada pra fazer ritual de magia negra. Agora quem deixou no visualizado sem resposta fui eu, para sempre. Idiota que perdeu sua chance.

Um sonho muito simples

una vida chiquitita y normal

Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

Da continuidade

Um bailarino acharia a dúvida ridícula – claro que a pessoa é, no palco, uma continuação de quem ela é na vida real. Inclusive, qualquer apresentação de dança é muito mais interessante quando você conhece a pessoa que está dançando, você a reconhece nos seus gestos, há movimentos que são todos seus. Mas fale para alguém que escreve que ela só será um autor interessante se for pessoalmente interessante, e como resposta receberá um silêncio. Provavelmente ofendido. Adoro qualquer entrevista com Millôr, Saramago, Suassuna ou Ubaldo Ribeiro, que comprovam minha tese. Como não amar Oliver Sacks, como não querer ligar para Susan Sontag e comentar com ela os últimos acontecimentos do dia. Mas dizem também que para estragar um artista pra você, basta conhecê-lo. Sei lá.

Socão na parede

vizinha

Numa noite dessas eu estava ouvindo música e meu vizinho – dos vizinhos loucos – bateu na parede. Era pouco antes das 23h. A acústica aqui é terrível e eu estava ouvindo Chopin num Motorola, deixo a cada um julgar o quanto isso pode ser alto ou não. O que me surpreendeu foi a intensidade. Foram tantos socos e dados com tanta raiva que o sujeito deve ter machucado a mão. Se eu batesse com toda minha força não soaria daquela forma. Pensei em mandar o sujeito socar a mãe ou dar uns minutos de cu pra ver se relaxa, tascar uma música realmente irritante e deixar o celular ali e ir dormir. Mas não. Na penumbra da minha casa tranquila, fiquei pensando no estado de espírito da pessoa. Em todo esse ódio. Que se uma situação tão pequena leva àquilo, como é a pessoa no trabalho, no transito, em situações realmente estressantes. Como diz aquele meme, acho que ele é infeliz ou algo assim. Pra mim isso é doença, desequilíbrio mental grave. Por isso tanto eleitor de candidato que prega ódio, linchamento, gente presa no poste. Parecem normais, mas uma contrariedade e perdem totalmente a proporção, viram animais sedentos de sangue.