Lindos e adoráveis

Tem um ditado por aí que fala que só pode julgar que veste os seus sapatos e sente as dores da sua caminhada. A internet nos fez entrar numa época de intolerância e crueldade que talvez não seja possível sair; pra qualquer coisa que se escreva, é até esperado que surja um anônimo e te ofenda gratuitamente, por mais bem explicado e unanime que o conteúdo seja. Dois documentários que eu vi há poucas semanas me fizeram perceber que acompanhar uma história cria uma proximidade e empatias imediatas. Eu me vi amando, torcendo e me emocionando por pessoas que me eram totalmente indiferentes antes de apertar o play. (Netflix, ambas)

 

Luís Miguel, a série.

luis miguel

O cantor não nos é totalmente desconhecido, aqui La Barca fez muito sucesso. Mas Luís Miguel nunca foi para nós o que é para os mexicanos e outros países latinos. Neles, a audiência foi enlouquecedora e ele se tornou o artista mais procurado no Spotfy, apesar de não lançar nenhum sucesso há mais de uma década – isso sem falar dos inúmeros vídeos resgatados, teorias conspiratórias, programas de TV que pipocarão nas buscas que você certamente fará. Se fizer uma busca no material recente, hoje Luís Miguel é um cantor com jeito de tiozão que canta com um visual de Sinatra e uma arrogância indisfarçável. Você vai começar a série indiferente, descobrirá que ele sempre foi lindo, hetero, pegador, talentoso, fez sucesso desde criança, ganhou todos os prêmios, rios de dinheiro e terminará querendo que ele seja feliz. Mais: que nem é tão ruim levar a nossa vidinha de pessoa comum. Vou confessar que às vezes o ator da série é lindo que quando ele surge bem vestido, bronzeado, cenário deslumbrante e olha bem de pertinho com aquele rosto perfeito e olhar triste… e só dá vontade de dizer: Chato mesmo, mas… vamos?

 

Cheer

cheer

Eu não ia ver se não fosse a Quéroul. Pra mim cheerleader eram aquelas moças segurando pompom e que sempre são meio vilãs nos filmes adolescentes. Quando a gente começa a ver, se sente entrando num mundo louco americano tal como as crianças que disputam aqueles campeonatos de beleza. Algumas coisas são tão, tão deles, pro bem e pro mal: a capacidade de profissionalizar tudo, a competitividade, a determinação, os altos padrões, as ideias de superação. Pra usar a palavra da moda, eu tive vários “gatilhos” de coisas que vivi na dança, aquele velho problema de ter uma personalidade exuberante e saber se vender. O Dalarius representava pra mim todos aqueles super seguros que eu nunca consegui entender e muito menos alcançar. O pessoal cai e se machuca tão feio que chegou um momento que eu achei que não suportaria ver. Mas você vai entrando naquele mundo, vendo o quanto é importante para os envolvidos, o valor do grupo, o papel na trajetória de vida e, quando se dá conta, está torcendo pela Navarro desde criancinha.

Encontro noturno

-Boa noite, neném!

Eu poderia fazer tudo em silêncio, mas li uma vez um artigo que dizia que a voz do dono é muito importante para o cachorro. A Dúnia “acompanha” minha andança pela casa, recolhendo o lixo, a luz acessa da cozinha, então quando abro a porta ela já está à minha espera. De cachorro que se impacientava com qualquer tipo de dengo, agora ela fica entre os meus joelhos e rabo abanando enquanto falo com ela. Quanto tempo? Vai do quanto ela me aguenta. Neném, pretinha, bubu – quanto mais velha ela fica, mais bobos ficam os apelidos. Quando a Dúnia começa a se impacientar eu levo o lixo, tranco tudo e reabasteço os potinhos, enquanto ela me acompanha de longe e invariavelmente uiva de impaciência e bate as patinhas no chão. Eu uivo de volta. Sempre foi muito mais noturna do que diurna, e é neste nosso encontro que ela quer brincar. Ela se coloca no meio dos bambus e me aguarda, sabendo que lá ela fica protegida enquanto passo a mão pelo seu fuço e ameaço pegar suas patas. Quando eu a cerco e a derrubo, ganho a possibilidade de alisar os pelos da barriga. Mas às vezes ela apenas corre pra dentro da casinha e fica lá até eu ir embora. Para encerrar a visita noturna, ela ganha metade do remédio enfiado numa salsicha com muitas horas de antecedência, para deixar molinho e mais gostoso.

Sou ruim em datas, mas a Dúnia ja está com uns 16 anos. Cada noite assim é um presente.

dunia 11 Nov 2019

Os carros e o espaço

Já contei aqui que minha vizinha fica muito estressada com os carros que estacionam na frente. Entre os nossos terrenos não tem muito espaço; no espaço entre a garagem dela e a minha tem uma pequena faixa de terreno, e os carros que se estaciona na frente da casa dela inevitavelmente invadem um pouco a frente da minha casa. Eu não ligo, mas sei lá porque gostam mais de estacionar em frente à casa dela. A luta dela é pra que esses carros, que geralmente são da clínica que tem aqui perto, não a atrapalhem sair e entrar. Ninguém estaciona na frente da garagem, eles estacionam bem justo à garagem e ela precisa de um pouco de espaço pra fazer uma curva.  Há algum tempo a vizinha pintou um triângulo na rua, como um mini-canteiro, para os carros estacionarem mais pra frente. Acho que é até ilegal fazer isso, mas funcionou.

Quer dizer, funciona na maior parte do tempo. Eu estava em casa numa tarde quente qualquer, a ouvi buzinar como uma louca. Era um desses carros grandes e estava em cima do triangulo. Ela foi até a clínica, gritou da rua, a pessoa veio e puxou o carro um pouco para frente. Ainda ouvi a motorista dizer: “calma, tá tudo bem, feliz ano novo”. Mas lá se foi minha vizinha bufando, batendo a porta do carro e provavelmente amaldiçoando a clínica e todos os seus clientes.

Eu não dirijo e não sei o quanto aqueles carros dificultam ou não entrar em casa, só sei que eu não gostaria de viver assim.

Curtas da vida sob o capitalismo

você sente solidão

Comprei uma calça numa grande loja de departamentos no final do ano. Agora em janeiro passei lá de novo e a vi, no mesmo lugar e mesmas opções de cores, dez reais mais barata. Achei chato que tivessem baixado de preço depois que comprei e decidi olhar melhor. A calça dez reais mais barata tinha algumas diferenças sutis em relação a minha – ao invés de cordão que passa por toda cintura, só um cordão falso, ao invés de elástico na barra, uma costura simples. Ou seja, a loja estava vendendo uma versão mais barateira de si mesma.

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Estava esperando uma consulta e vi aquele programa que passa no início da tarde, na Globo. Chamaram uma dupla sertaneja. Os dois de preto, um deles cheio de botox. Perdi vê-los cantar, mas o vi responderem questões como “qual dessas músicas é mais cantada em karaokê”, “qual o grau de parentesco de Bruno e Marrone”. Eles saíram do palco, voltaram, aí teve uma prova de desembaralhar palavras na platéia. Estava achando tudo tão besta, aí me toquei que aquilo é trabalho para eles. Estar lá, com as roupas especiais, dublar a própria música, fazer de conta que tudo aquilo era muito excitante e sorrirem. Aí achei bem difícil.

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Eu estava numa aula de ciência política com aquele que era apenas o melhor professor da ciência política – quase estudei ciência política, até descobrir que o que eu gostava era da aula dele. Aí um dia, numa discussão qualquer, ele solta um “imagina se eu sou o tipo que frequenta academia”, com um nojinho de sou-intelectual-demais-para-culto-ao-corpo. De lá pra cá, nesses quase vinte anos, as academias se tornaram onipresentes e duvido que algum ser humano escape de ouvir do seu médico que é preciso frequentar uma. Tenho curiosidade para saber do reajuste que ele teve que fazer com seu orgulho. Será que ele faz musculação com cara blasé, para demonstrar que está lá SÓ porque faz bem pra saúde?

Orixá do ano

xango

-Tá sabendo que 2020 vai ser ano de Xangô?

-Não vi, não fui atrás. Vai?

-Parece que sim.

-Mas não foi ano de Xangô ano passado?

-Também achei que era.

– Pra mim já faz uns quatro anos que nós estamos em ano de Xangô.

-Onde é que se meteram os outros orixás que não assumem mais ano? Só dá Xangô. Podia ter um ano levinho, só pra variar um pouco.

Shiva e Parvati – outra versão 2

(Ah, só vai ter graça se você leu a primeira parte)

Eu acho que gosto mais da primeira versão porque Parvati precisa apenas que Shiva a reconheça – e, quando acontece, ele é um perfeito cavalheiro. Nesta, o que faltou não foi reconhecimento e sim vontade de reatar os laços. Pelo que andei lendo, Shiva estaria relutante porque sofreu demais quando Parvati/Sati, se suicidou e o deixou sozinho. A respeito disso, só posso dizer: quem nunca? Se até Shiva, que é Shiva, fica traumatizado depois de uma grande perda… Mas seguimos e lá vem o fim da história.

Quando Shiva abriu os olhos e terminou sua meditação, ele estava cercado de deuses, inclusive por Brahma e Vishnu. Eles lhe pediram para que aceitasse Parvati de volta, porque a meditação dela estava ameaçando destruir o universo inteiro, e ela não iria parar enquanto Shiva não a aceitasse de volta.

Shiva decidiu testar Parvati e apareceu diante dela disfarçado de um velho brâmane.

-O que seu coração deseja minha querida jovem yoguina, ao ponto de recorrer a mais severa meditação?

-Meu coração pertence à Shiva, minha respiração anseia por reencontrá-lo.

-Shiva? Aquele homem mal-humorado, feio e sem lar? Ele não tem nada para oferecer a uma garota como você. Ele vive nas florestas e nos cemitérios. Seus atendentes – Shivaganas – são criaturas horrorosas. Você, certamente, teria uma vida de sofrimento com ele. Mude de ideia. Ainda há tempo de você se salvar.

-É um pecado terrível disser tais coisas! E um grande pecado, até mesmo, ouvi-las!

Ela percebeu que poderia estar sendo desrespeitosa com o brâmane e lhe deu as costas, então ele segurou o seu braço e lhe pediu em casamento. Quando ela virou, ele já havia abandonado o disfarce e era novamente o seu amado Shiva. Mas os disfarces não acabaram por aí: quando foi pedir a mão de Parvati em casamento, Shiva apareceu diante dos pais dela como um dançarino. Himalaya disse que a filha estava realizando austeridades para se casar com Shiva, que não iria aceitar um dançarino de rua. O dançarino insistiu e Himalaya mandou seus guardas prendê-lo. Mas o dançarino brilhava como mil sóis, rodopiava, se tornava mais pesado do que as montanhas e ninguém conseguia capturá-lo.

Então, Himalaya, Mena, Parvati e todos os presentes entraram num estado de encantamento. Eles avistaram o Senhor Vishnu com sua concha, seu disco – chakra –, sua clava e a flor de lótus. Eles avistaram as quatro faces do sábio Senhor Brahma e também Shiva com seus três olhos, seu tridente e sua lua crescente. Então, eles presenciaram o universo inteiro brilhar ao redor do misterioso dançarino. Shiva – o Senhor de todos os deuses –, estava ali, no pátio, dançando feliz, enquanto pedia a Mena e ao Himalaya a mão de sua filha Parvati.”

 

shiva dancing

Retirado daqui e daqui.

Shiva e Parvati – outra versão 1

parvati offering water

A Igreja Católica teve, durante séculos, o monopólio sobre a narrativa cristã. Mesmo hoje, os movimentos cristãos usam a Bíblia que foi padronizada pela igreja católica. Durante muitos séculos existiram vários evangélicos, até que o Concílio de Niceia, em 365, começa a decidir quais deles seriam oficialmente reconhecidos. Houve muita disputa para decidir o que ficava dentro ou fora, e quem se interessar pelo assunto pode ler vários Evangélicos Apócrifos que têm por aí. Tem Jesus sapeca e usando seus poderes na infância, evangélico de Maria Madalena…

Com o hinduísmo isso não aconteceu e o fato de ser muito mais antigo faz com que haja várias versões para a mesma história, sem que nenhuma seja mais certa do que a outra. Eu coloquei a história de Shiva e Parvati da fonte que eu considerei mais pura (um perfil de um devoto, inteiramente dedicado a Shiva), digamos assim, mas durante a minha pesquisa achei esta outra versão. Ela é interessante também, por isso decidi contar:

Himalaya e Mena eram grandes devotos de Shiva e quando tiveram sua filha, pediram para que um sábio, Narada, lesse seu mapa. Ele predisse que ela se casaria com Shiva. Mas, como aquilo era possível se Shiva havia se tornado renunciado e não queria mais se casar?, quis saber Himalaya. Mas Narada garantiu que assim seria, que a filha dele era ninguém menos do que a deusa Adishakti, a eterna esposa de Shiva. Mais tarde, quando chegou a idade de Parvati se casar, os pais revelaram a ela as palavras do sábio.

Pai e filha foram até Shiva, que iria iniciar um novo ciclo de meditação e pediram para que Parvati pudesse servi-lo como criada. Shiva respondeu irritado que era um Yogui e não havia porquê que ele tentasse empurrar sua filha para ele, mas permitiu que Parvati o servisse. Himalaya ficou assustado, mas Parvati reconheceu seu esposo e continuou firme.

Ele prosseguiu com as suas meditações, sempre indiferente, e a dedicação de Parvati tocou o coração de todos os deuses. Kama, o deus do amor, tentou acertar Shiva com uma de suas flechas e Shiva o derreteu com seu terceiro olho. Parvati ficou inconsolável e perguntou a Narada o que fazer para conquistar o coração de Shiva. Ele recomendou que ela meditasse em seu nome, que entoasse o mantra Om Namah Shivaya com persistência. Ela era a consorte divina, não havia como não dar certo.

Parvati se despiu de todas as suas jóias, adotou um traje simples de algodão e foi meditar no mesmo local onde viu Shiva pela última vez. Ela acatou a vida de privações de um asceta; no primeiro ano comeu apenas frutas e no ano seguinte apenas folhas. No terceiro ano, água e ar, no quarto ano apenas ar. Ela permanecia sentada entoando Om Namah Shivaya, mesmo debaixo do sol abrasivo do verão, mesmo quando a neve cobria seu corpo. Seu estado de profunda meditação começou a acalmar os animais ao redor, e até mesmo os tigres perderam a ferocidade. Os animais vinham e se aninhavam silenciosamente aos seus pés. As flores surgiram em abundância, as árvores se encheram de frutos e a floresta se tornou um oasis. Ainda assim, Shiva não veio.

Os pais de Parvati pediram para que ela parasse, que tudo era inútil, e voltaram para casa desconsolados porque ela não desistia. Parvati voltou a se concentrar e cada célula do seu corpo começou a vibrar tão intensamente que o corpo dela começou a brilhar como uma lâmpada, depois a irradiar calor, até começar a ressecar tudo o que havia a sua volta. O calor chegou até a morada dos deuses, que também não suportariam aquele calor durante muito tempo.

(E agora, terra e céus queimarão porque Shiva se recusa a aceitar Parvati de volta? Descubram no próximo post.)

Curtas sobre palavras

overthinkingOsho dizia que não dá pra pegar um homem moderno, que passa o dia inteiro agitado, e simplesmente colocá-lo de pernas cruzadas e esperar que sua mente se aquiete. Por isso, as meditações dele eram dinâmicas, a pessoa passava a primeira metade falando sem parar, ou se movimentando, para só então ficar quieto. Eu lembro de no final da parte agitada da meditação (a única dele que fiz) estar totalmente cansada de mim mesma, achando minha voz chata e minhas palavras repetitivas. Não quero dizer nada, não decidi nada, mas tenho me sentido assim com o blog faz algum tempo.

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Escrever é muitas vezes um pensar em voz alta. Já vi muita gente ser idealizada porque escreve, e talvez eu só entenda que não é pra tanto porque escrevo também. Às vezes o texto, assim que saiu, se tornou coisa antiga para o autor – os problemas viram a luz do sol e se desfizeram dentro dele, se tornaram coisa do mundo.

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Acho que a maior realização de um autor deve ser um estranho pegar o seu livro numa livraria. Eu publicar me transformaria em fonte única – claro, numa editora eu também teria que me empenhar em vendê-lo, mas eu seria apenas uma parte do processo – e percebo que se pudesse nem queria estar por dentro. Eu detestava vernissage e sem dúvida detestaria lançamento. Não gosto da ideia de recair sobre meus amigos a responsabilidade de me ler, mais ainda do que vocês já leem aqui. Que os leitores do livro fossem outros.

Gratidão mas

… muito mais fácil falar em perdão se você foi pedra, e não vidraça. Que pessoa maravilhosa, que nunca pagou na mesma moeda, que nunca reagiu, que continuou sendo boa enquanto eu praticava gostosamente o meu pior lado, quando era filho da puta sem o menor motivo, quando a usava para manifestar todo meu machismo e raiva do mundo mesmo sem ela não ter nada a ver. Que coisa boa que é deixar o passado para trás e nos amarmos como família quando isso significa que cabe ao outro o trabalho de ignorar suas feridas e o meu apenas, quando muito, o de parar de ser uma pessoa horrível. Sejamos todos felizes uma ova, eu era muito novo uma ova, mensagens fofas de whats uma ova!

saudades

Shiva e Parvati

(Esta história fica ainda mais interessante se você ler a primeira parte)

As consortes dos deuses não são apenas esposas dos deuses, elas são polaridades; é a forma feminina do deus, a outra forma de si mesmo. Do mesmo modo que a encarnação de Shiva é muito especial, a da sua esposa também é. Outra particularidade é que os mesmos deuses aparecem com diferentes nomes; é que para nós são apenas nomes, mas na verdade são combinações de palavras que falam de atributos e remetem a histórias diferentes. Rudra/Shiva, se casou duas vezes, na primeira vez com Sati e depois com Parvati. Mas, na verdade, ele sempre se casou com a mesma Rudrani, sua consorte divina.

Rudra ficou inconformado com a morte de Sati. Se a vida mundana já não lhe interessava antes, passou a interessar menos ainda. Ele se retirou para as montanhas dos Himalaias em meditação e austeridade. Enquanto isso, Sati renasce, agora como Parvati, filha de Himavat, rei das montanhas, e sua esposa Menavati.

Parvati encontra Shiva, que continua em austeridade, e decide se casar com ele. Os pais sabem quem ele é e da grandeza e dificuldade daquele projeto. Parvati passa a subir a montanha diariamente e servi-lo, na esperança que ele a percebesse. Como parte da sua jornada para casar com o senhor Shiva, ela se despe de todos os luxos, passa a praticar yoga, deixa de comer, resiste a condições climáticas severas em meditação, entoa mantras. Nada parecia tocar o coração de Shiva, nem a interferência dos deus, e os pais de Parvati imploraram para ela desistir. Mas ela continuou e um dia Lord Shiva desperta da meditação e percebe a verdadeira essência de Parvati. Ele pede desculpas por fazê-la esperar tanto e vivem felizes para sempre. Como deuses, eles realmente conseguem ser felizes e para sempre.

(Está aqui, em vários posts diferentes)

mutual love

Feliz 2020, amigos! Que possamos ter os nossos esforços coroados com muita felicidade!

Rudra e Sati

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Brahma criou o universo e a participação dele nas histórias termina aí, só os outros dois deuses da trindade aparecem interferindo na nossa história. Quando o Dharma (A Lei) precisa ser reestabelecido, Vishnu reencarna. Ele é a força de manutenção, então os avatares dele são régios, calmos, doces, como Lord Rama; Shiva, que simboliza a força destrutiva, aparece em avatares mais guerreiros, fortes, radicais, como Hanuman, o deus-macaco que auxilia Lord Rama a derrotar Ravana.

Um dessas encarnações de Shiva é o não tão aprazível Rudra. Não é um deus fofo, o nakshatra dele é associado ao trovão e ele representa o aspecto furioso de Shiva, a ira que destrói as injustiças. É um tremendo guerreiro e um sábio renunciado. A própria palavra renunciado já dá a pista: ele passa muito tempo em meditação, vive coberto de cinzas, vive semi-nu, dorme na floresta.

(O que eu adoro nesta história de Rudra e Sati é o quanto o que realmente tem valor só é visível para os que têm olhos para ver. Ele era o Deus Shiva e…)

Sati era uma das filhas do riquíssimo rei Daksha, um brâmane muito poderoso e conceituado, versado nos complicados rituais védicos. As histórias hindus das princesas que querem casar estão cheias de festivais, de provas que elas inventam como erguer arcos com encantamentos ou coisas do tipo, proezas que têm o objetivo de fazer com que os homens possam se exibir e que elas possam se encantar com o noivo. Pois o olhar de Sati recaiu sobre alguém que nem ao menos queria se casar: Rudra. Ela realizou todo tipo de austeridade para se mostrar digna dele, e foi viver também na floresta e com a roupa do corpo. Daksha não aprovou a escolha e nunca entendeu como a filha pode rejeitar um reino para ficar com um mendigo; se ele já não achava Rudra sua pessoa favorita, com o passar do tempo passou a odiar o genro.

Daksha realizou um festival e Sati quis ir porque sentia falta da sua mãe e suas irmãs. Rudra disse que não era uma boa ideia, mas ela quis ir de qualquer forma. Todos haviam sido convidados e eles não, depois chegando lá o rei recebeu a filha com frieza, ela viu que não havia oferendas a Shiva… foram várias desfeitas até ela não aguentar mais e começou a discutir com seu pai. Como um pai e bramana podia ser tão cego, não via o quanto ela estava feliz e as imensas qualidades de Rudra; como uma filha podia se achar grande coisa e desrespeitar e envergonhar o próprio pai na frente de todos – e daí pra baixo. Sati – que havia se tornando um poderosa yogui – lamentou que nenhuma austeridade que ela praticasse mudaria o fato de que ela e Daksha eram pai e filha, que ela tinha o sangue dele, sangue que ela gostaria de arrancar de si, indigno, que num próximo nascimento ela pudesse nascer filha de alguém melhor. Ela então começou a se rasgar, enfurecer… a rainha e o as irmãs, assustadas, queriam que Daksha a parasse, e ele nada fez. Na sua fúria, Sati entrou em auto-combustão e queimou até virar cinzas.

Mas e Rudra? Conto no ano que vem…

(Eu tirei a história daqui, se quiser conferir. Mas já vou adiantando que ele vai apenas até onde eu já contei…)

2020 para mulheres

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Não vou listar as últimas novidades de um dia nas redes sociais, que incluem balarorixá estuprador e homem indo ao cinema com onze mulheres. Terminei recentemente a série sobre a vida de Luís Miguel (Netflix) e chama muito atenção a relação entre os pais dele, a maneira como a mãe foi esmagada pelo marido. Eu fui uma menina criada entre meninos, apenas com irmãos, então nunca soube o que era ter do meu lado uma irmã para discutir vestidos, paqueras, dicas de maquiagem. Em compensação, era eu a mais apta a dizer para as minhas amigas o ponto de vista deles, que lhes parecia tão misterioso. No excelente “Que co#o está pasando?” (Netflix), citam que atualmente os meninos já acessam pornografia com oito anos de idade, enquanto as nossas meninas sonham em ser princesas – não precisa ser nenhum gênio para concluir que há um abismo aí. Eu entendo perfeitamente a decepção de muitos homens com aquelas (eu no conjunto) que cortam o cabelo bem curto, “cabelo de homem”; os cabelos longos são um símbolo tão feminino, uma vaidade que dava um trabalho imenso para a mulher e que eles desfrutavam tanto. O cabelo que “não tem onde pegar” pode lhes apontar mais do que uma falta de vaidade, pode ser a recusa de ser levar para dentro da vida deles um universo de delicadezas que, como homens, eles não estão autorizados a acessarem sozinhos.

Mas o que realmente me vem forte neste fim de ano é a constatação da fragilidade das mulheres. Da temerária tendência a confiar, abrir mão e ceder. A dificuldade de ouvir o próprio corpo gritando de insatisfação, a vontade de ir embora, a confiança nos próprios instintos. Será possível criar com cor de rosa, vestidos e constantes elogios à aparência e ao mesmo tempo essa menina ser capaz de levantar a voz, gritar por ajuda, ser grossa quando não há ninguém ao lado para apoiar? Mais do que fora de moda, a feminilidade tradicional nos tem colocado em risco;. quando vejo uma mulher boazinha demais, temo por ela.

Visitação

culto

Eu era tão certinha, não gostava de ir a festas, beber e nenhum dos comportamentos que as pessoas tentam reprimir nos adolescentes, que achavam que seria facílimo me fazer entrar numa igreja – afinal, justo a parte que todos achavam difícil eu fazia espontaneamente. Me convidavam pra ir pra igreja delas e eu ia. Ninguém te convida de primeira a entrar na igreja, você é convidado pra um culto, ganha um livro sagrado de presente. Perdi a conta do número de denominações que eu visitei. Eu queria conhecer, saber como é por dentro. Eu ia, assistia, ouvia com atenção, era apresentada aos outros fiéis, ao grupo de jovens, cheguei até a ir em festinha. Depois perguntavam: e aí, gostou? Interessante. As pessoas são legais? Sim, foram legais. Viu como tem um monte de rapazes sérios? É, tem vários rapazes? E aí, vai voltar? Não. Nesse ponto ficavam doidos, levantavam a hipóteses de que alguém havia me tratado mal, ou eu não achei os rapazes bonitos. O engraçado é que as hipóteses sempre giravam em torno de pessoas e jamais do que eu pensava do que foi dito, do que era pregado.

O poker e o acordo entre amigos

poker

Era uma turma que tinha o poker sagrado num dia específico da semana. As mulheres eram proibidas de aparecer ou de achar ruim. Os amigos se reuniam na casa de um deles e passavam a noite inteira lá, jogando. Apareceu o Amigo Bonitão e pediu um favor para o Amigo Jogador. O Bonitão tinha arranjado uma mulher, ela era casada, um caso complicado. Ele disse para a esposa dele que iria participar do jogo de poker, mas o que ele iria fazer era aproveitar para ver a amante. Até aí tudo bem, disse o Jogador. O problema é que Bonitão tinha um carro esportivo caro e muito marcante, se ele saísse com aquele carro por aí as chances de alguém descobrir eram muito grandes. Então ele precisava que o Jogador lhe emprestasse o carro, que era um carro comum e não chamava atenção. Eles se encontrariam no poker, o Bonitão pegaria a chave do carro do Jogador e devolveria no final da noite com o tanque cheio. Tudo bem. E assim seguiu o acordo, o Jogador dava a chave do carro, ficava jogando com os outros e depois de algumas horas o Bonitão aparecia de novo, devolvia as chaves e o tanque do carro estava cheio, chegava a ser até vantajoso.

A questão – e não sei como aconteceu, porque quem me contou a história não lembrava desse detalhe – é que o Jogador descobriu que a mulher casada que dormia com o Bonitão era a sua. O Bonitão pegava a chave do carro, entrava na garagem do prédio usando o controle que ficava dentro do carro, o porteiro via apenas que o carro do morador entrava e saía, o Bonitão subia pelo elevador da garagem (a história é antiga, câmeras em elevadores ainda não haviam sido inventadas), e ficava muito à vontade porque tinha certeza que o marido não voltaria enquanto ele mesmo não fosse embora…

O meu 2019

cartão zen

Se eu tivesse feito meta para 2019, ela não teria sido alcançada. Eu não escrevo metas por sempre achar que dá uma frustração de ler e não conseguir, como se desse má sorte. O que eu colocaria como meta é a mesma que eu colocarei pro ano que vem, digamos assim, a mesma que como Pink & Cérebro tenho repetido todas as noites, há anos.

Foi um ano tão difícil, coletivamente falando. Mas tenho que dizer que não alcancei a meta que estabeleci porque este ano foi além de qualquer expectativa. Foi um ano que consertou o que eu achei que estava quebrado para sempre. Eu achei que morreria se chegasse no fim deste ano sem conquistar nada, na mesma indefinição de sempre só que mais velha, achei que se não acontecesse algo do nível de bola de fogo surgindo dos céus e alterando todo minha perspectiva, eu não conseguiria resistir. Termina o ano que estou no mesmo ponto e com outro sentimento, ou seja, mudei porque o meio não mudou: estou meio assumindo a loucura, a impossibilidade, numa fé sem fundamento, um desespero tão calado que talvez ele tenha morrido e eu que ainda não fui lá conferir o corpo. Quando uma criança quer muito uma coisa e não ganha, primeiro ela esperneia, grita, pode fazer birra se for mimada, propõe, chantageia, esgota todos os recursos, mas no fim ela vai cansar e partir pra outros brinquedos. Eu estou meio como essa criança.

Eu espero de 2020 um tiquinho mais de esperança e sorte.