Simples assim

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George Clooney contando pro Letterman (O próximo convidado, Netflix) como conheceu a esposa dele, Amal: Eu estava em casa e um amigo me ligou dizendo que traria uma amiga. Eu disse que tudo bem. Nós conversamos a noite inteira, trocamos e-mail, começamos a nos corresponder. Eu não sabia se ela queria algo além de uma amizade. Eu tinha uma gravação em X e chamei ela pra me encontrar mais tarde.

Por favor, não venham desmentir, dizer que do lado dela houve uma tremenda premeditação, que nada é como parece, que tem a grana, que tem o homem mais sexy e galinha do mundo. Vamos ficar com essa versão, que tal? Que as coisas possam surgir de uma simpatia espontânea. Que não seja necessário levantar a ficha e cercar tudo em volta antes do encontro propriamente dito. Ou estar no melhor visual ou melhor macumba. E aquelas regras sobre fazer e não fazer. Chega de tanto jogo de xadrez.

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Me vê um ovo

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O outro comércio que tinha por aqui e faliu com o tempo foi o armazém da Dona Laide. Era mais profissional do que o sorvete, ficava na parte da frente do terreno, com uma porta de metal que dava pra calçada. Faliu porque abriram uma grande padaria quase do lado. Eu passava lá de vez em quando, para comprar um ovo. Nunca compro ovos. Quando eu me propunha a fazer uma receita de bolachinhas de mel, que usava um ovo ia lá e comprava. Na época custava 0,35. Dona Laide enfiava o meu um ovo num saquinho de papel e eu voltava pra casa e fazia a receita. Um dia, quando fui abrir o portão, acabei rachando o ovo e tive que voltar lá e comprar outro – naquele dia ela lucrou o dobro. Até que um dia eu descobri que aquelas bolachinhas faziam peidar muito e parei.

O novo

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Se hoje não tem quase nada perto de onde eu moro, quando eu me mudei tinha menos ainda. Havia dois pequenos comércios aqui perto e já fecharam: um mercadinho (onde eu comprava ovo) e uma sorveteria. Eu passei duas vezes na sorveteria. Era uma casa simples, com um pequeno balcão na garagem. A gente passava pelo jardim e era atendido por uma senhora. O preço era bom, mas o sorvete é de uma marca bastante popular aqui e muito dura, e acho ele tão ruim que prefiro não tomar sorvete a ter que pedi-lo. Quando um dia passei na frente e não tinha mais placa de sorvete, não liguei.

No inverno, tenho que fazer toda uma manobra com a Dúnia. Ela se tornou friorenta com os anos e por causa dos pelos não se pode deixar cachorro com roupinha o tempo todo. Imagine como isso é complicado quando a temperatura está perto de zero graus há dias. Eu acostumei a Dúnia a me deixar tirar a roupa dela pelo menos pra passear e mudo o trajeto para passarmos no sol e ela se expor um pouco ao cálcio. Num desses passeios, encontrei numa esquina a senhora que vendia sorvetes. Ela não lembrava de mim. Ela me contou que fazia um bom dinheiro vendendo sorvete em casa, que tinha um cliente que vinha de carro todo final de semana comprar pelo menos uns dois potes. Um dia ela atendeu dois adolescentes e no dia seguinte eles vieram para assaltá-la. Estavam marmados. Levaram o pouco dinheiro que ela tinha, potes de sorvete e por pura maldade atiraram no vira-latas dela, que era calminho e estava no seu canto. A parte do cachorro foi que realmente acabou com ela. Depois ela até tentou vender sorvete com o portão fechado, mas aí a clientela ficava com vergonha de bater, e ela mesma já tinha perdido toda alegria. Ela caiu em depressão com a morte do cachorro. De vez em quando, pra não ficar doente, ela se obrigava a andar na rua e pegar sol, exatamente como estava fazendo naquele momento.

Carnaval 2018. Depois de uma segunda chuvosa, terça eu consigo levar a Dúnia para passear. Normalmente passamos ao lado de um grande muro, para não atiçar os cachorros do outro lado da rua. Mas, mesmo assim, eles estão latindo muito. Olho na direção deles e eles estão latindo para alguém passando perto deles. A pessoa vai se aproximando e vejo que está com um cachorro. Se aproxima mais e vejo: um filhote lindo de morrer, branquinho de pelo curto e uma mancha marrom num dos olhos. Ele é agitado e feliz como apenas os filhotes de cachorro podem ser. E quem o leva é a senhora do sorvete, feliz da vida. Ela acena pra mim e diz: “Temos que levar nossos bebês pra passear, né?” Não consigo dizer de outra maneira: Deus abençoe que deu aquele lindo filhote a ela. É a vida que renasce.

Quando a História passa na sua frente

Existem dois tipos de heroísmo: os de uma vida inteira e os de um único gesto. Uma coisa que me frustou quando tentei ver Os Miseráveis em filme, foi a omissão da história da freira que ajuda Jean Valjean a fugir logo no início da perseguição de Javert. No livro, o autor passa muito tempo falando dela, do seu voto de não mentir, das dificuldades e superação que a tornaram conhecida por isso. Com Valjean escondido na sala e Javert lhe pergunta se ele está ali ou não, disposto a acreditar no que ela disser, a freira se vê num grande dilema moral: manter o voto ou salvar a vida de um homem bom? Ela prefere salvar uma vida. Outro exemplo religioso, só que da vida real, foi quando o Rabino Henry Sobel participou, em 1975, da missa ecumênica pela morte do jornalista Herzog. Preso, torturado e “suicidado” pelo Regime Militar, celebrar uma missa era o mesmo que reconhecer publicamente seu assassinato, porque não se celebra missas para suicidas. Nesse reconhecimento público, os celebrantes e até mesmo os presentes se colocavam em risco. Mais um jornalista e mais um suicidado, era muito mais fácil ficar em casa e fingir que nada aconteceu. Mesmo se colocando em risco, Sobel realizou a missa ao lado de Dom Paulo Evaristo Arms e ela se tornou um evento que reuniu oito mil pessoas e o maior ato simbólico contra a Ditadura. (É só pesquisar Missa + Herzog)

Mas visto de outro ângulo, o herói do grande gesto na verdade é um herói de gestos diários; o grande gesto é apenas o que recebe visibilidade ou culminação de uma vida de preparo. A mentira da freira de Os Miseráveis não teria nenhum valor se ela não fosse uma pessoa exemplar; Sobel e Evaristo Arms, como muitos outros religiosos, já vinham sistematicamente irritando o Regime por proteger pessoas e se posicionar contra a tortura. Na hora do tudo ou nada, do correr ou ficar, do fazer o certo independente das consequencias, eles tomaram uma decisão da qual puderam se orgulhar o resto da vida.

Eu vi algumas vezes o vídeo do desfile da Tuiuti. Algumas pessoas estão preocupadas da escola sofrer boicote e/ou não ganhar. Da minha parte, não me preocupo nem um pouco com a nota. Independe do que aconteça na votação, ela é a ganhadora moral. As alegorias chegam claras: trabalho informal, carteiras de trabalho rasgadas, manifestantes com roupa de pato, um carro com um vampiro no topo e faixa presidencial, pessoas em cima de sacos de dinheiro, mais patos manipulados. E os comentaristas não são capazes de falar na-da. Talvez nem precise esperar muito, talvez horas depois eles já tenham se arrependido da covardia. Era hora de falar abertamente, mesmo sabendo que no dia seguinte não teria emprego. Não precisava nem gritar “Fora Temer”, não precisava ser esquerdista pró-Lula. Bastava descrever o que estava ali.

A partir de 35:32

O pulso

Eu li em algum lugar, alguma vez, falando obviamente de astrologia, que Saturno era o planeta essencial para um bom músico. Saturno, também conhecido como O Grande Maléfico. O planeta da tristeza, dos atrasos, da rigidez, da seriedade. Quando a gente vai na raiz do que é a música, faz todo sentido. Para quem não é músico, há de se pensar em tudo reduzido, apagar os floreios, a voz e os instrumentos, e pensar no pulso. Já os músicos sabem que toda variedade é aparente, que o que possibilita que todos estejam em harmonia é a obediência a um princípio fundamental, que segue invariável e matemático. Na biografia do Bob Dylan fala dele comentar sobre um dos seus bateristas não ser exato o suficiente, aí o biografo nos lembra: não é qualquer coisa tocar gaita, violão e cantar músicas de dez minutos e se manter no tempo. Um guitarrista de flamenco me disse que o Paco de Lucía era tão exato que ele chegou a colocar um metrônomo ouvindo uma das apresentações dele e Paco se manteve exato o tempo todo.

Pra este post ficar um tiquinho carnavalesco (é que o meu carnaval é assim mesmo, saturnino), coloco um vídeo que faz sucesso pelo Facebook: Paco de Lucía interpreta Tico Tico no Fubá.

Meu tempo

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Eu cheguei um pouco antes do horário e minha cabeleireira estava atendendo uma moça, muito normal. Na despedida ela disse algo como “nossa, obrigada, vou ver sim”. Aí ela veio me chamar, conversamos rapidamente sobre o que eu queria e fomos para o lavatório. Aí, enquanto ela lavava o meu cabelo, a moça voltou com o celular na mão. “Olha aqui as fotos”. Aí ela mostrou que a casa tinha um deck que dava para um lago. Várias fotos. Eu não vi nenhuma, porque estava no lavatório e a mão em cima de mim. A casa era do lado de uma comunidade, uma “seita de yoga”, e a casa pertencia a um dos caras da seita, era onde ele vivia, mas alugava para temporada, para gente de estreita confiança, como ela e o marido com filhos. Olha aqui, que demais. Olha essa vista. Que pechincha. Eu te indico. Ela era realmente bem relacionada, baita férias. O que eu sei é que me vi detestando a mulher. Seita de yoga, pechincha exclusiva? Então descobri que a gente paga, também, pela atenção total do nosso cabeleireiro, que a parte da fofoquinha faz parte do pacote. E que eu me importo.

A morte não gosta

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Lígia, com G, não D. Ela não entende qual a dificuldade das pessoas em pronunciar o G no nome dela. A Lígia é uma dessas mulheres sozinhas, independentes, aferradas à sua solidão, sem papas na língua. Que de tanto nunca terem que negociar dentro de casa acabam não negociando com ninguém. Ela teve um relacionamento há décadas, e depois que ele a deixou nunca mais se envolveu com ninguém. Até pouco tempo a sua minguada aposentadoria era destinada a participar de campeonatos de natação master pelo Brasil. Fez as contas e descobriu que estava caro demais pra ela e agora só vai nos regionais. Para pessoas que participam há anos, como ela, esses campeonatos são a oportunidade de rever amigos do Brasil inteiro. Num desses, anos atrás, encontrou outra nadadora, de uma faixa etária avançada, e que apesar do ambiente de saúde que os campeonatos transpiram, começou a reclamar. Estava cansada de viver. Pra ela tanto fazia estar viva ou morta. O que ela queria mesmo é que a morte a buscasse logo. “Ah, mas aí é que não vai!”. Lígia expôs pra ela a teoria que quanto mais a pessoa reclama, mais a morte demora pra vir. A pessoa alegre, pum, morre jovem, enquanto o que odeia viver dura pra lá dos oitenta anos. Depois, não sabe se foi por acreditar na teoria ou por saber que ali não teria ouvidos compreensivos, Lígia nunca mais ouviu a mulher reclamar.

Quase só animal

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Passei por uma fase lendo bastante sobre Gurdjieff e parei por não encontrei mais livros para ler. Mesmo conhecendo várias teorias místicas, a dele foi uma das que mais me impressionaram. Há uma metáfora que ele usa – que não é nenhuma novidade – e diz que uma pessoa é como uma carroça puxada por um animal. O animal é o corpo, a carroça são os sentimentos e o condutor é a mente. Ele diz que os homens se acham muito racionais, como se a mente fosse um fato dado. Pelo contrário: a humanidade como um todo está dormindo e precisa acordar; a mente é uma conquista e não um fato. Aí ele faz uma estatística, que não me lembro com exatidão, que diz que nos nossos atos somos 80% corpo, 19% emoção e, quando tem mente, apenas 1%. Que pensamos que a nossa mente inicia a ação, sendo que na verdade temos um instinto que nos domina de tal forma que a emoção e a mente vão atrás para confirmar. Quase tudo o que pensamos decidir é, segundo esse raciocínio, mera racionalização dos nossos instintos. Não digo que Gurdjief me consideraria uma pessoa desperta, mas entender esse mecanismo já me ajudou.

Introvertido se divertindo horrores na balada

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Algumas poucas vezes na vida introvertidos convictos caem na falácia do “desta vez vai ser diferente, vai ser divertido”. Geralmente quando nossos amigos extrovertidos se aproveitam de uma fase baixa, e atribuem o fato de você estar sozinho à sua introversão. Não que não seja verdade, mas o errado é a associação de sozinho com feliz e multidão com acompanhado. Aí você aceita que a amiga extrovertida te pegue em casa, e até consiga combinar com outros dois amigos que também não gostam de balada. Ela liga num horário que você já está de pijamas, diz que em quinze minutos passa aí, você se descobre capaz de se maquiar rapidamente, a pessoa leva duas horas para chegar. Quando chega, você enxuga a baba da almofada e vai, sem poder perguntar o que aconteceu porque há mais caronas no carro e o clima está péssimo. Vocês chegam na balada, que fica nos cafundós, a amiga dá piti na entrada porque reservou mesa mas o descontou expirou há três horas, ela argumenta que tem vinte convidados, o pessoal se olha com cara de quem já viu o filme e dá o desconto. Os dois amigos que também não gostam de balada escolheram uma mesa bem longe do palco e estão de péssimo humor porque chegaram no horário combinado. As outras vinte pessoas são umas seis, contando que outra também é aniversariante com marido. Você tenta conversar com os amigos que não gostam de balada mas o Máskara interrompe com gritos histéricos. Eles decidem ir embora. Pra noite não ser tão longa, você vai até a pista de dança porque a banda realmente é boa. E dança. A amiga extrovertida te vê na pista de dança e concluiu que a balada é um sucesso e você está se divertindo horrores. Apenas: não.

Um Eu melhor

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Eu acho que os textos estão melhores e sem dúvida hoje eu sou muito mais independente. E intransigente. Aprendi a não precisar dos outros para minha estabilidade emocional. Antes eu tinha uns descontroles, as coisas perdiam a perspectiva e eu ficava agitada e pessimista, sem saber direito como sair daquele estado. Minhas opções eram uma conversa racional que só uma ou duas pessoas no mundo eram capaz de ter comigo, ou passar dias em loucura, até cansar. Achava normal e hoje acho um saaaaaco quem age assim, quem procura em mim esse esteio. Sou a minha própria estapeadora que grita pra me acalmar, sou o cachorro da foto com a própria guia da boca se levando pra passear.

Descobri que há quem me considere melhor hoje do que quando eu era casada. Eu não consigo pensar nesses termos. O meu ponto de vista é a realidade ter se tornado mais dura e reajo a ela. Antes eu era um molusco pelado e agora sou um molusco de carapaça.

Tratado de Versalhes

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Na opinião dos chineses, o Tratado de Versalhes não é só injusto, mas simplesmente vulgar e falho de hanyang (educação). Se, no momento da vitória, os franceses tivessem sido um pouco animados do espírito do taoísmo, não teriam imposto o Tratado de Versalhes, e poderiam agora dormir de perna estendida. (Lin Yutang/ Minha terra, meu povo, p.70)

Uma guerra mundial depois, é muito fácil olhar para o Tratado de Versalhes e fazer até troça. Que era tão óbvio, o que é que custava ser um tiquinho mais generoso, onde estavam com a cabeça. Dá sempre a impressão que aqueles eram burros e que hoje se faria diferente. Não é isso que tenho visto. Sem entrar no mérito político ou sobre ser culpado ou inocente, mas precisa mesmo tornar a aposentadoria algo distante, tirar proteções legais relativas ao trabalho, achatar a renda da maioria enquanto poucos nadam em dinheiro, tornar a educação ainda mais elitizada, querer prender um homem que é um símbolo, tudo ao mesmo tempo?

A verdade está lá fora

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Eu achei que com o tempo ia parar, mas continuo ouvindo uma sugestão que para mim não faz o menor sentido: eu deveria largar tudo e ir morar no exterior. Largar tudo. Não tenho nenhum contato ou oportunidade de emprego à minha espera, qualquer vínculo que me puxe para outro país. O que as pessoas esperam é que eu vá, de qualquer jeito, para qualquer lugar, que qualquer país é melhor do que permanecer aqui. Que estar na cidade que eu domino, onde tenho amigos e contatos e a vida toda estabelecida não me serve de nada. Feliz mesmo eu seria em outro país, que subemprego, morar mal e estar cercada por pessoas que falam uma língua que não domino e que não querem saber de mim é muito melhor, apenas por ser estrangeiro. Vê se algum europeu acha que a vida de classe média no país dele não é nada diante da eletrizante experiência de viver mal no Brasil. Eu hein.

Defeito

Eu estava disposta a crushzar meu crush à distância até a morte, mas minhas amigas não se conformaram e queriam a todo custo me aproximar dele. O plano era mostrar a ele um dos meus textos, ele ia achar o máximo, iria atrás do meu perfil, descobriria que eu sou eu, me adicionaria e então eu poderia falar com ele sem parecer uma desesperada. Aí quiseram deixar o meu Facebook mais interessante, colocar uma foto bonitona. Eu nunca entendi muito a lógica de foto bonitona diante de um homem que já nos viu ou verá, só pra ele pensar que uma boa maquiagem e o ângulo certo são capazes de milagres. Enfim, mas eu sou eu, uma tonta que se conforma em jamais se declarar. Minha amiga veio aqui, me fez colocar uma roupa que mostrava o colo, me mandou segurar livro, jogar a cabeça para trás como se estivesse gargalhando, me postar diante do espelho, olhar pra cima, olhar pra baixo, colocar a mão aqui e ali. Eu estava me sentindo desconfortável, mas eu ficar desconfortável em foto é o meu normal. Depois de várias poses e fotos e nenhuma parecer estar boa, ela me falou que eu sei que ela é super sincera mesmo e sinceramente meus cabelos brancos me deixam com uma baita cara de velha e ela estava tentando disfarçar. Assim que ela falou, vi que ela fez uma cara de quem se arrependeu, provavelmente porque eu fiz uma cara de quem se magoou. Meu cabelo fica realmente estranho, tenho fotos onde ele está totalmente branco e em outras é como se ele fosse castanho. Então, eu entendi que há verdade no que ela disse. Mas ao mesmo tempo, se um dia quiser uma foto bonitona minha, já sei que temos concepções diferentes. Se eu achasse que meu cabelo é algo a se envergonhar, a ser disfarçado e escondido, eu pintaria. É a diferença de quem vai tirar foto de uma mulher gorda e manda ela ficar de lado, de preto e ângulos de cima pra disfarçar ou coloca um biquíni e tira foto na praia. Eu sei que a primeira opção é mais fácil de absorver. Eu tenho uma faixa branca, bem no meio da testa, e eu disfarçava usando sempre franja. Um dia puxei ela para trás na frente dos meus amigos Elson e Flávia e o Elson soltou um “que lindo” muito espontâneo. A Flávia recriou esse efeito com mecha o quanto pode, até detonou o cabelo. Por ironia da natureza, eu e ela temos a mesma idade e a Flávia que quase não tem cabelo branco adoraria ter porque acha a coisa mais linda. Se eu me acho linda? Quando me olho no espelho, me sinto de novo com cabelo cheio de mechas, o que fiz apenas uma vez na vida – poucas semanas depois pintei tudo, parecia cabelo branco… Levei um tempão pra absorver, tenho dias e dias, mas hoje quando me dá na telha prendo a franja para trás, exibo mesmo. Feio ou bonito, é o que me convém hoje. É meio:

ser aceito e popular

Lagoa Azul virtual

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Nos heróicos anos 80, as tardes de domingo da Globo eram apimentadas com um filme chamado A Lagoa Azul. Um senhor com um casal de crianças loiras vai parar numa ilha deserta e o adulto morre em pouco tempo. Adaptados à natureza, eles crescem e descobrem sozinhos o amor, o sexo, fazem um bebê… A internet, quando se olha pro comportamento coletivo nela, me parece um imenso adolescente. Provavelmente é porque grande parte dos usuários é adolescente. Um adolescente na Lagoa Azul, porque houve um buraco. Só agora a geração mais velha entrou, e mesmo assim não muito. A forma deles interagirem aqui é diferente, é mais comportada, sem ler nas entrelinhas. Quem está aqui faz tempo sabe que gostar de quem nunca se encontrou pessoalmente é normal e enjoou de Bom Dia piscando desde o tempo que vinham em arquivos de pps. Só pra citar um exemplo, eu conheço o dono de uma loja de roupas muito boa e que demorou bastante para fazer site. Ele mesmo me disse que não imaginava que as pessoas quisessem comprar roupa pela internet. E, quando fez uma página no Facebook, as postagens são raras e sem o menor “gingado”. Dá pra perceber que ele fez só para constar; ele sabe que é necessário ter, mas não entende o que colocar porque ele mesmo não consome dessa forma.

A maneira como se ama ou se odeia na internet também me parece adolescente. A forma como se é dono da verdade. As polarizações, o radicalismo. Quando as pessoas querem chamar atenção de alguém, ficou comum não elogiar e sim partir para a discussão inútil, para mostrar que é uma pessoa com personalidade, que tem opinião. A vontade de ser diferente, de contrariar tudo, achar engraçado cultuar o pessimismo e reclamar o tempo todo. Não é tudo tipicamente adolescente? Mas um monte de adolescentes juntos também se modificam: hoje em dia quase não se comenta mais em blogs e até mesmo no twitter está complicado falar abertamente, a não se queira brigar. As opiniões migraram para o Facebook, onde o controle do público é maior, o que fortalece ainda mais as bolhas.

Mas sabe que, apesar de tudo, eu sou otimista? Eu acho que de tanto baterem uns nos outros os comportamentos vão se auto-regular. Essa geração vai crescer e vai acompanhar as próximas, não vai ter mais o buraco geracional que aconteceu com o surgimento da internet. Assim como os pps enjoaram, algumas modinhas de hoje vão enjoar também. Se a internet tivesse passado pelas vias normais dos adultos, ela nunca seria tão democrática como hoje. Teriam dado um jeito de exigir pós-graduação, exigiriam o preenchimento de papeladas, alguma forma de autoridade burocrática ia ser plantada. Adolescência também é caos. Sem essa imensa adolescência, não teríamos a criatividade, o senso de humor e o caos. Não sabemos o que pode vir desse caos, mas já considero melhor do que o que nasce das instituições de sempre.

Livro natural

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Depois que chove e finalmente consigo tirar a Dúnia de casa, já sei que me espera um passeio mais demorado do que o habitual. Parece que a chuva abre possibilidades novas e ela se atira sobre os matinhos e cantos com mais entusiasmo, como se ali estivessem informações novas e deliciosas. Talvez a Dúnia já esteja bem ceguinha e eu nem sei, porque ela sempre foi um cachorro olfativo. Trajetos longos nada significavam pra ela se não fosse possível parar a todo instante para cheirar. Antes essas paradas me deixavam impaciente depois comecei a pensar que, visto de fora, também não tem o menor sentido que eu coloque diante do meu rosto uma tela branca cheia de fileiras pretas e fique parada. Ficar deitada na casinha e latir para quem passa é apenas a parte visível do universo da Dúnia, a parte que tenho acesso. Também tenho visto os chefs, e qualquer matinho eles já colocam na boca, provam as coisas cruas, pegam o camarão que foi pescado na hora, arrancam a cabeça, descascam e comem aquela carne transparente. Eu só consigo pensar numa água saindo da torneira, meia hora de molho com um pouco de água sanitária, quem sabe uma panela cheia de óleo quente. Claro que é nisso que eu penso, eu já coloquei alecrim em molho sugo e só soube que fica ruim porque comi. O dom que eu tenho é o de vir aqui e contar essas coisas, e contar tantas coisas, pequenas e fugidias, que vocês se iludem de que elas são mais importantes do que as de outros. Assim como o que sabe matemática vira o sabichão no colégio, o domínio da linguagem escrita dá a poderosa sensação de inteligência. Eu adoraria poder penetrar na magia do cheiro dos matinhos molhados.

Os chefs

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Estou vendo Chef´s Table e recomendei pra um monte de gente. Cada episódio fala de um chef, que além de ser super poderoso na cozinha tem que ser especial em alguma coisa. Além de dar fome e uma frustraçãozinha por saber que nunca comeremos aqueles filezinhos minúsculos de 500 dólares, a gente fica também com vontade de fazer algo pelo mundo. A série abre com Massimo Bottura, que já havia conquistado meu coração no documentário com o mesmo nome e que mostra um restaurante que ele abriu com os melhores chefs do mundo cozinhando de graça. Aí vem o que na busca pelos ingredientes perfeitos se envolve na produção dos alimentos, cada vez mais orgânica. Outro tem uma equipe de ciganos e cozinha ao natural, usando fogueiras,. Tem a japonesa que é puro amor. O que usou algas que ninguém comia, o pesquisou métodos antigos de conservação de alimentos. Aí chega num nova iorquinho e assim que o programa começa mostra que o tchans dele é fazer uma comida mucho loca. Quase desliguei. Grandes coisas, jogar os doces na mesa e fazer comer com os dedos, isso eu faço em casa (eca, não faço não). Achei pequeno, eu quero é chef que cozinha com método medieval e muda o mundo! Aí mostraram os pratos e, pensando bem, sendo muito sincera… Se fosse chef, eu estaria muito mais pra que faz pratos engraçadinhos do que o que cozinha em geleiras.