O que elas estavam pensando?

Eu entendo uma mulher não se identificar como feminista por aí, mas não entendo uma mulher que, do fundo do seu coração, não se identifique em algum nível com o feminismo em si. Mulheres que chamam feministas de “aquelas peludas” e que se alinham contra. Toda mulher tem na sua vida algum episódio grande de injustiça, de uma clara preferência por uma pessoa de igual ou até capacidade inferior apenas porque ele tem pinto. Mesmo quando a sua mãe se esforça para não ser machista, quando ela lhe diz desde criança que você deve buscar sua independência, talvez ela esbarre ao insistir que você arrume a casa e do seu irmão não cobre tanto, ou que as regras de moralidade sejam rigorosas apenas do seu lado. Uma outra experiência da qual se fala pouco, e acho que é nela que “perdemos” algumas mulheres é quando você percebe que é fácil agir como esperado. Que se ao invés você lutar com sua competência e esbravejar as injustiças, as coisas podem ser mais fáceis se você jogar o cabelo pro lado ou se fingir de burra. Me parece que muitas mulheres contra o feminismo se deixaram vencer por essa ilusão, a do favor, a do “você acha que me pegou e eu já me adiantei aos seus movimentos”. É a tática do ser tão bonzinho que o seu opressor vai perceber o que está fazendo e te erguer e colocar ao lado dele. Spoiler: jamais funciona.

Infelizmente, não me parece que quem tem o segundo perfil um dia vá clicar no documentário Netflix – Feministas: o que elas estavam pensando? O ponto de partida é uma exposição de fotos de diversas mulheres que se identificavam como feministas na década de 70. Alguns rostos são bem conhecidos. Elas contam suas vidas, o que as levou pra esse caminho, o que conseguiram realizar. É simples, é tocante. Imagine o que é prometerem um prêmio de dez mil e resolverem te pagar apenas cinco, ou chamarem para tirar foto dos vencedores o homem de plantão. Eu me vi um pouco em cada história. Que bonito que é sisterhood (traduzida como sororidade), dá um calor bom no peito.

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Roupas reencarnadas

ziper jeans

Eu ia fazer trinta nos e achava que seria uma séria professora universitária, então fiz a tentativa número cento e tanto de tornar o meu guarda-roupa sério. Comprei calça social, paletozinho bege, lenço. E me livrei da minha bermuda preferia, uma bermuda quv eu chamava carinhosamente de “bermuda do mano”: ela era larga, ia até um pouco abaixo do joelho, tinha bolsos nas coxas, tinha fivelas na cintura que era meio baixa. Não combinaria com a nova eu, já estava na hora de me vestir como adulta.

Não me lembrava dessa bermuda até um dia estar fazendo uma organização e encontrar um foto minha daquela época e perceber que comprei uma bermuda praticamente igual há poucos meses. Percorri a cidade inteira, páginas e páginas do Ali até encontrá-la, porque tinha uma imagem muito clara do que eu queria e não achava em lugar nenhum Eu queria uma bermuda pra andar de tênis, pegar ônibus de noite sem me sentir desconfortável com olhares. Ela é tudo isso, amo. Assim como também estava olhando outras fotos de quatro anos atrás, e me vi com um casaco comprido e listras grandes em tons vermelhos. Eu comprei, de novo, praticamente o mesmo casaco. Uso pouco porque ele não é muito prático, fresco demais para o frio curitibano e lã demais no calor. Eu me lembrei que o casaco da foto também foi doado pouco tempo depois pelo mesmo motivo.

Pra quem não direito minha idade, entre uma bermuda e outra foram uns dez anos. Mas pelos menos aprendi a não gastar mais dinheiro com paletózinho, lenços de seda e roupas combinando. Nunca serei.

Acalme a sua mente

shiva meditating

Astrologia védica como o próprio nome diz é védica, vem de Vedas, os textos sagrados do hinduísmo. Ir da astrologia ocidental pra védica é como aqueles joguinhos que tem níveis de dificuldade – a ocidental é a baby e a védica é a super hard. Falo tudo isso sem saber, só de olhar a quantidade de gráficos e cálculos que aparecem nos vídeos. Eu vi um onde o astrólogo jurou que uma certa colocação no mapa do Al Gore dizia quando ele ia quebrar o braço. Védica, hinduísmo, taí uma crença que não tem a menor vergonha de ser encarnacionista e determinista. Sim, de acordo com eles já está tudo aí, a alma encarna sabendo tudo o que vai fazer e acontecer, ela só vem atuar. Diz que é a mesma coisa quando vemos o trailer de um filme e sabemos o que vai acontecer, sabemos quem é mocinho, bandido, como acaba, e mesmo assim pagamos ingresso e vamos até o cinema.

Então qual o sentido? Os astrólogos védicos seriam capazes de te dizer coisas tão precisas justamente para provar esse determinismo. Para mostrar que está tudo aí, e por isso está tudo bem. Que não tem como você ter se desviado porque o desvio não é possível. O grande amor – cito justo este exemplo porque estou sem saber o que falar pras amigas – vai chegar na idade e na época certa, não precisa se debater até lá e sair com todas as porcarias do Tinder. Se você crer profundamente nisso, esta crença vai acalmar a sua mente. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o que eu vi num vídeo de astrofilosofia. O que aprendi na minha curta vida é que, quando começo a me impacientar por estar demorando demais, lembro que o bom é rápido e o ruim se arrasta – não tanto por algo intrínseco às situações e sim pela tendência a projetar no futuro a felicidade e desvalorizar o presente. Que cada época tem sua alegria e sua dor e, quando a situação muda, também muda de alegria e de dor – e nessa mudança, o futuro tão aguardado pode nos obrigar abrir mão de coisas que também eram muito legais. Nesse sentido, gostei muito do que diz a astrologia védica, embora não consiga colocar tanta fé no determinismo. Concordamos: o negócio é acalmar a mente. Luta na hora da luta, recolhimento quando não chegou a hora.

Curtas aprendizagens

trufas

Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

Dica absoluta para quem pretende meditar

meditação

Antigamente era só coisa de místico, mas atualmente tem muito material falando bem de meditação. Por um lado, stress diminui o tamanho do cérebro; por outro, documentários como Free the Mind (Netflix) dão perspectivas otimistas do efeito palpável que a meditação têm nos nossos cérebros. Alguns amigos têm comentado que começaram a meditar. Existe muito material, existem aplicativos, então vou deixar para cada um escolher o seu método. Quero dar uma dica importante, palavra de quem medita desde a adolescência: descubra o seu horário, posição e método mais viável e combine consigo mesmo que agora é sua rotina. Não adianta planejar acordar às 5h se você não for tão matutino. Não adianta querer ficar em lótus durante uma hora, sendo que a posição lhe é desconfortável e aquela hora vai te fazer falta. Digo pra estabelecer um horário porque eu sei que se você planeja “em algum momento à tarde”, o sono, a internet, ter feito um lanche, mãe chamando e outros fatores vão te distrair e não vai dar certo. Se você tiver um horário fixo e viável, vai acabar adaptando o seu dia a ele. No mais, tem dias que a gente se sente nas nuvens e noutros parece que não fez nada além de ficar sentado repassando todos os problemas. É assim mesmo, e parece que o cérebro gosta mesmo nesses dias. Espero ter ajudado e boa meditação.

Chuva de diamantes

diamantes

Apareceu no meu Facebook esta informação, curtinha:

Netuno é o planeta que fica mais longe do Sol, são 4.503.000.000 km de distância do astro rei. A cor azul não tem nada a ver com oceanos, mas com nuvens de gás. Em Netuno ocorrem chuvas de diamantes, a atmosfera densa e a pressão podem alterar a estrutura química dos gases, fazendo com que parte deles se transforme em diamantes. (Página “O Universo – 19 de julho de 2015)

Eu curti com um coração, mas assim que fiz achei inadequado. Certamente não chovem lindas pedrinhas minúsculas da Tiffany e sim os pedregulhos mais resistentes do universo. A pessoa morreria com uma pedrada daquelas, e a pedra nem ao menos estaria brilhante. De qualquer forma, é uma imagem bonita e daria um bom título de livro estilo Sidney Sheldon.

Achei que a imagem combina bem com o momento que estamos vivendo. Está chovendo diamantes sobre o Brasil. E este blog espera encerrar por aqui a participação política.

A imagem de chuva de diamantes me faz pensar também na resistência que tenho a receber conselhos. Além da falta de confiança no julgamento da maior parte das pessoas, me parece que elas se deixam levar muito pela imagem. Que romântico encontrar escondido. Que divertido fazer escândalo em festa. Que demais gastar todas as economias numa viagem de sonhos. Quando busco o conselho de alguém, não quero que ela veja a circunstância como entretenimento e sim como é que vou conviver com as consequências pro resto da vida.

A luta entre o bem e o mal… em South Park

jesus satan

Jesus e o Satã são personagens que andam normalmente pela cidade, no desenho South Park. Jesus é um sujeito bem magrinho, pacífico, bata branca e barba. Já Satã tem o dobro do tamanho dos outros, é vermelho, tem um peitoral enorme. Um dia, por um motivo qualquer, os dois decidem se enfrentar de uma vez, num ringue de boxe. Os dois tem semanas para se preparar, e elas são acompanhadas pela cidade toda e pela imprensa mundial. Jesus, pacífico, magrelo, se revela aquele tipo que sofre pra erguer qualquer pesinho, não tem muita coordenação, e seu excesso de bondade faz com que ele não consiga ser intimidante. Por outro lado, Satã faz constante exibições de força, levanta peso com facilidade, destrói, fica cada vez mais forte. Não tem como olhar aqueles dois e achar que Jesus tem alguma chance. O mundo inteiro começa a apostar, e do cara da vizinhança ao pastor, todo mundo aposta que Satã vai vencer. Todas as pessoas na Terra apostam em Satã, apenas uma pessoa aposta na vitória de Jesus. Finalmente chega o dia da luta, e Jesus todo magrelo sobe no ringue, Satã fortão sobe também, transmissão ao vivo. Os dois se posicionam para a luta e Jesus dá um soquinho em Satã, praticamente encosta de leve, e Satã se joga no chão como que inconsciente e fica lá até terminarem os dez segundos e Jesus ganhar por nocaute. Todos ficam indignados, porque obviamente que aquele soquinho não foi nada, Satã se jogou no chão e fingiu. Aí que se revela: Satã foi aquele único sujeito que apostou que Jesus ia ganhar. Ele ganhou uma bolada e ainda jogou na cara – quem mandou duvidar que o Bem sempre vence o Mal?

Uma historinha já previamente descontextualizada

princesa

Tenho quatro anos de diferença do meu irmão mais velho. Minha mãe contava umas histórias espíritas para ele – assim como outras tantas, tradicionais, modernas, de memória de livros, ela nos contava muitas histórias. Ela contava pra ele e eu estava por ali, brincando. Aí quando ela resolveu que eu tinha idade pra ouvir, eu achei ruim que entre uma “contada” e outra, ela tinha esquecido de detalhes e eu lembrava deles. “Então você estava fingindo que estava brincando e estava ouvindo tudo?”. “Sim”.

Era um homem muito mau e muito poderoso. Ele ficou a fim de uma mulher, que já era casada. Ele mandou prender o marido dela e disse que só devolveria se ela dormisse com ele. Ela cumpriu a parte dela no acordo, mas ele achou pouco apenas devolver e mandou furar os olhos do marido. Quando chegou a hora de entregar o marido para a moça, ele ficou escondido para ver e dar risada. Achou que ela ia xingar, esbravejar. A moça viu o marido cego e apenas ficou triste e o acolheu com todo carinho. Eu sempre imaginei o homem mau atrás da moita, a câmera por detrás do ombro dele. A moça se ajoelha e ajuda o marido a se erguer, e eles saem juntos pelo pátio de pedra, ela o abraça pelos ombros. Lágrimas silenciosas descem pelo rosto dela. O homem mau não consegue dar risada. Naquele momento surgiu a primeira luzinha de bondade dentro dele.

Um beijo a todos que também estão tristes e abraçados na sua ferida.

Sem holofotes

urna eletronica

Eu tenho alguns amigos que já se viram diante da situação de serem corruptos ou se ferravam e eles se ferraram. Um deles conseguiu um cargo num banco, daqueles que tem poucas pessoas entre ele e o dono do próprio banco, e logo nas primeiras horas sentado na sua cadeira nova, soube que teria que fazer um favorecimento. Não respondeu aquele dia, passou a noite pensando. Aquilo era tão inerente ao cargo que ele não poderia se negar e achar que geraria uma nova cultura institucional. Fazer uma denúncia também não adiantaria e ele até poderia ficar em risco. O jeito foi abrir mão do cargo que ele lutou tanto e se demitiu do dia seguinte. Conheço gente que foi à falência porque para vencer a disputa por uma obra teria que superfaturar. Nunca tive um cargo importante, graças a Deus, eu apenas devolvi o troco errado de uma atendente que tinha acabado de me dar uma baita patada e aquele dinheiro teria tornado a minha viagem bem menos apertada, tanto que a mulher ficou muito sem graça quando eu devolvi o dinheiro. Meu amigo não conseguiu emprego no dia seguinte, e nem o outro uma nova empresa e nem eu deixei de fazer uma viagem apertada. Gestos de honestidade são assim, eles não aparecem na TV, nem ao menos rendem posts interessantes. A gente faz porque foi criado nesses princípios, porque acredita que o mundo se torna um lugar melhor se cada um fizer a sua parte.

Em poucas horas, temos as eleições. Queria escrever um post lacrador, colocar a última gota que convencesse o leitor da vontade inexorável de que #Haddad13 é a melhor opção no momento. Passei o dia pensando e não me ocorreu nada que eu já não tenha dito. Encarando os fatos, este blog é lido por tão pouco gente e sou tão pouco levada à sério que não acredito que tenha influenciado qualquer voto. Você que está lendo já deve ser meu amigo e eleitor do Haddad. Eu tenho vindo aqui escrever com o mesmo espírito de quem vê um papel do chão e coloca na lixeira ou devolve um troco: eu acho que eu tenho obrigação. Eu acredito em fazer o correto com o que se tem e que o nosso país é um grande país corrupto porque acredita que, depois do limite das grandes vantagens, a noção de “fazer o melhor” não se aplica mais.

Eu lido com palavras e acredito no poder das palavras. Então, eu levo muito à sério quando alguém fala em matar pouco ou matar oposição, ou quando desqualifica qualquer tipo de minoria. Enfim, você sabe exaustivamente do que eu estou falando. Contra isso, eu tenho apenas um voto e um blog lido por meia dúzia. Usei este imenso arsenal de uma gota pra me opor, em posts aqui e nas minhas outras redes sociais, e amanhã farei o gesto final ao votar. Um voto no Haddad. Não vai aparecer na TV e talvez seja inútil, mas é o meu.

Bom voto. Que ele lhe traga a satisfação de quem age de acordo com sua consciência.

Está acabando

voto dos indecisos

… e estamos todos acabados. Acho que nenhum dos dois lados têm certeza do que vai se revelar nos números domingo. O que eu sei é que passamos a nos conhecer melhor. Passamos a conhecer melhor a tia que faz doces deliciosos e nos recebe em casa com chinelos de tecido, tão pacata na vida real e que no grupo de whats discute furiosamente. Passamos a conhecer melhor nossos amigos, escolhidos pelos critérios de serem bons de papo, companhia para show, contadores de piadas engraçadas, e de um dia pro outro passamos a conhecer as opiniões sobre estupro, direitos das minorias, combate à violência. Agora sabemos como eles reagem com o que acreditam serem ataques ao que lhes é caro. Algumas invejas feias conheceram a luz do dia, em discussões que passavam bem longe da política e viravam críticas ao estilo de vida, desconsideração com o ponto de vista, desprezo por coisas que até pouco tempo não eram nem registradas. E nos conhecemos como pessoas também, até que ponto nos deixamos afetar, como lutamos, com que armas lutamos.

Acho que já deixei clara a minha posição faz tempo. Assim como já disse muitas vezes que acredito na máxima de que se conhece a árvore pelos frutos. Por mais que se queira ser tolerante, não tem como evitar: foi uma eleição em que a decepção veio a rodo. Mesmo para alguém naturalmente antissocial como eu, o número de pessoas que exibiram uma face monstruosa foi acima de todas as expectativas. Nunca na vida achei tão fácil dizer qual o lado certo, como se fosse um filme. O lado certo é o que mobiliza gente que se dispõe a sentar no meio da rua, às vezes amigos ou família, às vezes até com café e bolinho e esclarecer estranhos. De um lado, uma máquina perversa de mentiras que cria um mundo paralelo e fomenta o ódio; de outro, pessoas que cedem o seu tempo e o seu carinho para conversar.

Perda de valores, vanguarda e flamenco

Não faz muito sentido pra mim, mas tenho amigo gay que dança flamenco e é daqueles que se enfurece com a “perda dos valores”. Ele é mais velho, não é dessa geração que se assume desde a adolescência, ouve músicas e tem ídolos gays, “dá pinta” por aí. E o flamenco, como todo mundo que faz flamenco sabe, já foi uma dança muito subversiva. Tem uma brincadeira que eu faço, quando surge uma dúvida de como um passo é feito: basta testar qual a maneira mais difícil que será aquela. Quase morri de tédio o dia que vi o ensaio de um grupo de dança tradicional, que pra cada dois passos para a direita, precisavam fazer dois para a esquerda, sempre precisava haver o mesmo número de pessoas a cada lado do palco e eles precisavam andar formando figuras geométricas. O flamenco é todo torto, faz as coisas em números ímpares, entra no meio dos tempos. Isso sem falar nas subversões ainda mais óbvias, como o fato da mulher puxar a saia pra cima na hora de dançar, a força e a sensualidade no palco, a presença. Pensem no que era isso há séculos, porque o flamenco existe pelo menos desde o século XVIII. Uma vanguarda que todos os bailaores sabem é que um ritmo chamado Farruca antes era dançado apenas por homens, e hoje as mulheres o dançam também, geralmente de calça e figurinos sóbrios para se manterem fiéis ao estilo. Se por um lado o flamenco foi uma vanguarda em relação à sua época e à outras danças, ele também teve sua vanguarda dentro da vanguarda, com a mulher ousando colocar uma calça, ousando expressar sentimentos que até então eram considerados exclusivos dos homens.

Mas o flamenco é uma arte, algo lindo, superior, meu amigo diria, nada a ver com os absurdos que tem por aí: gente pelada, peças onde se enfia a mão nos orifícios uns dos outros, desrespeito a figuras religiosas em exposições, que são vestidas de forma profana ou o profano vestido de religioso. A questão é que para as inovações surgirem é preciso ter liberdade. Outras metáforas me vêm à mente: um solo fértil, um respiro, a flexibilidade que permite que construções que recebem muito impacto não desabem. Não é possível, antes mesmo das coisas surgirem, julgar o que presta e o que não presta. É preciso aceitar o choque inicial, saber que é assim que funciona e, à primeira vista, pode ser até feio. O “fora dos padrões” pode ser visto como ameaça, assim como pode ser o experimental, diferente, novo, criativo – é através dos que fazem coisas que a princípio não nos parecem certas que a sociedade se renova. O chocante nem sempre está começando um novo caminho, ele pode estar informando algo que existe e em pouco tempo será comum. Como um dia foi com o flamenco, com a homossexualidade, com as mulheres usarem calças compridas. O que é idiota e sem sentido, o choque pelo choque, como peça de teatro onde um enfia o dedo no orifício do outro, não frutifica e o próprio tempo se encarrega de apagar.

No vídeo, uma Farruca de uma das escolas de flamenco mais tradicionais da Espanha, a Amor de Dios.

O dia que a Milena que ajudou a Maria Angélica

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Eu nunca lembro o nome de ninguém que estudou comigo na infância, mas das envolvidas eu lembro perfeitamente. A minha melhor amiga era a Maria Angélica. Eu lembro que ela tinha sangue português e a sobrancelha bem preta e grossa. Quando aconteceu eu acho que estava mais ou menos na quinta-série. Estávamos numa aula de educação física e os meninos jogavam futebol e nós estávamos esperando ao lado da quadra. Cercando a quadra havia uma tela, e ela estava com um furo bem grande, dava pra passar uma pessoa. Eu fui para perto do furo e fingi me encostar, fiz uma pose falsamente à vontade perto dela, sem colocar o meu peso. Aí a Maria Angélica veio, e sem reparar no buraco foi se apoiar na tela ao meu lado e caiu para trás. A quadra era meio alta e atrás havia grama. Ela caiu, gritou, não chegou a se machucar, mas uma das pontas da tela se prendeu nos fundos da calça do uniforme, e rasgou não apenas os fundos da calça como também a calcinha, cujo tecido branco dava para ver misturado com o verde do uniforme. As crianças se reuniram em torno. A Maria Angélica tentava sair e não conseguia, sentia que algo a prendia e não conseguia ver. Ela falava: “Fernanda, me ajuda, tem alguma coisa me prendendo.” Eu fiquei paralisada: eu me sentia responsável porque ela quis vir do meu lado e achou que eu estava apoiada na tela, mas toda situação dela caída no buraco e a calcinha aparecendo, as crianças rindo, era tudo constrangedor demais. Como fui ler décadas mais tarde, quando estudei estigma social, a pessoa que de alguma forma está desvalorizada socialmente “contamina” quem está do lado dela. Eu queria me afastar da Maria Angélica, não queria aquele ridículo pra mim. Enquanto eu hesitava, surgiu a Milena, que sentava perto de mim na sala, era baixinha e implicante. A Milena pulou por dentro da tela, soltou a calça e a calcinha e ajudou Maria Angélica a sair do buraco, tudo com muita rapidez. Depois eu fui falar com a Milena, elogiei a rapidez dela, e ela nem parou para me ouvir, me jogou na cara o mui amiga que eu era, que estava do lado e não deixei a menina de calça rasgada. Acho que o fato de eu jamais ter me esquecido do episódio diz tudo.

A guerra sem vencedores

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“Que valor pode ter conquistar um reino e pra isso matar quase toda sua família?” – essa é a pergunta que Arjuna num dos clássicos fundadores do hinduísmo. Ela é a essência da essência. É assim: tem um livro grande, uma cosmologia, chamado Mahabharata. Conta a história da família Bharatha, que num certo momento começa a ter uma confusa sucessão ao trono e dois clãs declaram guerra: os Pandavas e os Kuravas. Arjuna é Pandava, o lado bonzinho. No meio do livro, quando os exércitos estão perfilados, ele pede a Krishna – que seria uma encarnação de Deus – levar a quadriga dele para frente, para observar a formação dos exércitos. Quando ele vê o lado oponente e reconhece lá seus primos, mestres e amigos, Arjuna se entristece e diz não estar mais disposto a lutar. Que aquela guerra não seria vitoriosa nem pra quem ganhar e nem pra quem perder, porque quem ganhasse não ia realmente ganhar e quem perder… (/Dilma). Além do desgosto, ele se pergunta qual o dever dele naquele momento: guerrear, porque era um guerreiro e o outro lado havia declarado guerra e criado aquela situação, ou respeitar o sangue familiar e abrir mão do que lhe era direito em benefício da continuidade do seu clã. Esta conversa, em que Krishna explica a Arjuna o conceito de Dharma, é o Bhagavad Gita.

Os períodos de crise são reveladores. Eu imagino que é a diferença entre ter muito dinheiro e se ver com pouco, e com esse pouco todos os gastos desnecessários são cortados e se parte pro básico. E assim descobrimos: qual o básico? Sem ter energia para tudo, tendo que escolher muito bem o que fazer e como fazer, para que direção corremos? De tanto me preocupar com o que tem acontecido e não saber o que fazer, me vi pensando de novo no Gita, livro que eu consultava na adolescência e mantive na biblioteca quase que apenas por motivos emocionais. Como Arjuna, no que vivemos agora, me parece que a vitória perdeu o sabor e minha vontade é me abster porque sou pequena demais diante dos fatos. Para quem quiser spoiler sobre a resposta de Krishna, ela é: aja e abstenha-se do resultado da ação, a ação deve ser um fim em si mesma. O dever é tentar agir de forma justa, honesta, correta e se vai dar certo ou não, se seremos aplaudidos ou ignorados, aí não é mais problema nosso. Se você não age buscando resultados, a linha de conduta deixa de estar fora e passa ser o que está dentro, agir da melhor forma em consonância com quem você é. Isso combina com uma citação de Shakespeare que eu adoro:

Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.

Hamlet/ ato II cena II

Ou, dito ainda numa terceira forma: não se torne mau porque o mundo é mau.

No dia

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Eu acordarei, você também, após uma noite de sonhos intranquilos. Minha reação, nessas ocasiões, é não querer sair da cama. Vou acordar, virar pro lado, acordar de novo, relaxar, ficar na cama de olhos abertos e só vou sair quando o corpo obrigar, já com dor. Ver TV, nem pensar. Provavelmente ficarei nas redes sociais, mas talvez o barulho dos que se sentem felizes apenas aumente a minha angústia. Tem também aqueles que não resistem, que não podem deixar de se manter informados, e por eles eu saberei os detalhes absurdos, as violências desnecessárias, o indicativo do que está por vir. Tenho certeza que a vizinhança soltará fogos, eles sempre comemoram em ocasiões como essa. Meu vizinho fez um churrasco, deu pra sentir o cheiro daqui. Do que eu sei, a casa dele foi assaltada três vezes. Minha vizinhança que nunca me fez mal e tenho com eles um relacionamento distante. Vejo alguns quando compramos verdura no caminhão. Tem uma igreja aqui perto e sei que eles se vêm como comunidade. Eu nem ao menos cheguei a entrar lá, nem pra ver a arquitetura. Certeza que sou “aquela que passa com compras” ou “a que sai de bicicleta” e certamente “aquela que tem a casa mal cuidada”. O que sei deles, porque foi dito por eles, é que eles gostariam de prender bandido em poste para espancar. Eu sei porque li no whatsapp, no grupo que entrei para a segurança do bairro. Depois acabei saindo, do tanto que as pessoas brigavam sobre o que podia ser postado ou não, aí fizeram um grupo só da minha rua e acontecia a mesma coisa, e confesso que não sei mais onde estou e não estou. Whatsapp, o maravilhoso mundo paralelo onde as mesmas senhoras que pedem a minha ajuda quando não conseguem mexer na agenda do celular, compartilham (outro grupo, mas deste eu não posso sair) que nordestinos são inferiores, imigrantes são parasitas que devem ser mandados de volta para seus lugares (nenhum membro tupi-guarani), escolas ensinam pessoas a serem homossexuais e o Papa, a ONU e a imprensa internacional são todas de esquerda e metem o bedelho onde não foram chamados. Nesse dia – e você sabe de que dia estou falando, o dia que mergulharemos na noite -, vou tentar fazer um almocinho, coisa leve pra ver se desce. Comerei todos os chocolates que me der na telha. Colocarei videos de indianos falando inglês sobre astrologia. Lerei Karl Ove. Minha cadela, indiferente, exigirá passeio e salsicha. Eu me enrolarei nas cobertas sem sentir frio, no sofá. Eu dormirei cedo sem sentir sono. Eu estou no Brasil e grande parte do país estará alegre, mais ainda em Curitiba, e eu me sentirei só.

Hábitos de veado

veado

Tem nakshatra de elefante que avança furiosamente, tem nakshatra de tempestade, tem nakshatra de flecha que atinge o alvo. Um dos meus principais nakshatas tem como símbolo um veadinho. Sério. Ele é o mais frágil dos 27 nakshatras. Um dos astrólogos que eu sigo, o Vic Dicara, faz uma reflexão de vida sobre cada um dos nakshatras, e o do meu é, basicamente, “como sobreviver sendo frágil“. A sorte é que tem uns de cobrinha pra me ajudar. Mas, apesar de eu estar aqui reclamando, eu adoro esse nakshatra. A palavra que o define é “buscador”. Tal como o veado que fica pela floresta cheirando as folhas, as pessoas que tem esse nakshatra forte adoram estar sempre à procura. Eles gostam tanto de estar à procura que gostam mais de procurar do que encontrar. É um nakshatra ótimo quando se fala de estudos ou de busca espiritual, porque a pessoa nunca se contenta com o que tem e se enriquece cada vez mais de conhecimento; ao mesmo tempo, é ruim quando essa busca se volta par ao lado amoroso, porque aí a pessoa pula de parceiro em parceiro, sem jamais se contentam com ninguém.

Uma das coisas que esse nakshatra me jogou na cara foi a tendência aos hábitos. Diz que o veado é um animal de hábitos regulares, ele anda sempre pelos mesmo lugares na floresta. Eu percebo isso claramente quando começo a ser conhecida nos lugares onde eu vou. Quando estava deprimida e detestava ter tempo livre, comecei a inventar programas novos, percorrer padarias e cafés, me obrigar a agendas culturais. Só que de tanto explorar, acabei descobrindo o que combina mais comigo em termos de ambiente, orçamento, sabores. Então, todos os dias da semana e nos mesmos horários, vou para os mesmo lugares e como sempre as mesmas coisas. Nas poucas vezes que tentei mudar, me arrependi. Não é que eu faça amizade com os atendentes porque chegue íntima, ao contrário, sou a que chega muda e saio calada. Mas depois de encontrar quase todo dia chega uma hora que não dá, né?

Uma história de amor quente e ligeira

surya

Foi assim que conheceu o eremita Durvasas, vestido de trapos e cinzas, e de tal modo lhe agradou com sua bondade que ele lhe ensinou um encantamento mágico. Com esse mantra, explicou, poderia invocar qualquer um dos deuses do céu para amá-la e nela conceber um filho.

Seria verdade?, refletiu Kunti. Estava ao sol, passando e repassando as palavras mágicas em sua cabeça e mirando sua sombra no chão. Dizia a si mesma: “Durvasas brincou comigo!”, e franzia a testa. Mas logo pensava: “Ou talvez não…”

Sentia o sol quente em suas costas. O Surya dos mil raios brilhava sobre ela. E Kunti ficou a imaginar: “O mundo inteiro o vê durante o dia. Mas à noite ele seria somente meu”. Seria ele tão belo quanto a estátua no Templo do Sol?

Naquela noite, Kunti permaneceu acordada em seu leito até meia-noite. Lá fora, a Terra jazia em silêncio; o palácio estava às escuras. Ela levantou-se, foi à janela e, suavemente, recitou o mantra de Durvasas.

E houve luz, o cheiro de metal quente, e uma brisa, quente e seca como o deserto, cantando em seus ouvidos. Brilhava de tal modo que Kunti cerrou os olhos, mas a brisa fez surgir cores por trás das pálpebras. Ela estremeceu e tombou, quedando no tapete como uma vinha partida no chão da floresta.

Surya, o Senhor da Luz, carregou-a de volta ao leito e permaneceu sorrindo sobre ela., iluminando o quarto com sua presença, de modo a não haver sombra em lugar algum. Cingia-o uma coroa alta de ouro, cujas formas se alteravam e se transformavam conforme respirava. Uma faixa de jóias e brilhantes caía do seu ombro esquerdo sobre o peito nu; do cinturão, do colar e braceletes de bronze, e dos longos brincos de ouro, pendiam laços e ramalhetes de gemas luminescentes: todas essas luzes tingiam o quarto com milhares de arcos coloridos. Ao tirar a coroa, seus cabelos dourados encaracolaram-se em torno de seu rosto como um elmo de bronze fosco.

-Princesa, desperte!

Kunti abriu os olhos.

– Você me chamou – disse Surya – , e eu vim.

Kunti recuperou a voz.

-Senhor do Dia, perdoe-me, mas só o chamei para testar meu novo mantra.

-Sei por que me chamou, e sou agora somente seu. Quer que eu parta?

-Não tenho marido, Senhor Surya.

-Logo irá casar-se. Os filhos dos deuses nascem em um dia. Permite que eu fique?

-A luz… meu pai poderá ver.

-Ninguém mais pode ver esta luz, princesa. Crianças podem comandar os deuses; partirei, se quiser, e você me verá novamente apenas no longínquo céu azul.

-Tão depressa! – suspirou Kunti. – Fique um pouco; veio, afinal, de muito longe para ver-me aqui.

Mahabharata (versão de Willian Buck)