Curtas de difícil entendimento

pensar fora da caixa

Eu estava na faculdade e o professor decidiu nos passar um documentário na aula. Só que ele disse que era um documentário em inglês e sem legenda, ele havia trazido direto do país. Ele perguntou se tinha algum problema, se todo mundo lá entendia inglês e eu fui a única pessoa da sala que disse que não conseguia e saiu. Nunca soube qual o percentual de não falantes em inglês da sala, mas duvido que fosse a única. Eu os imagino os outros sentados na cadeira durante mais de uma hora e acenando com a cabeça.

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Um homem uma vez me disse que, às vezes, por estar com muita vontade de ir pra cama com uma mulher, muito a fim, muito apaixonado, acontece dele falhar. E que essa brochada na primeira vez poderia ser tão constrangedora que ele nunca mais a procuraria. Eu disse que isso era horrível, que brochar não era nada, que ela ia ficar sem entender. Ele disse que, por eu ser mulher, eu não entendia o impacto psicológico da brochada. Já faz algumas décadas que eu ouvi e continua não fazendo sentido.

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As redes sociais têm sido agitadas de escândalos nos últimos meses – até aí, tudo normal – de pessoas famosas cheias de fãs cuja existência eu ignorava até o escândalo. Incautos caíam na lábia porque, até determinado momento, estavam se sentindo meio honrados com a atenção, meu ídolo, etc. Aí vou ver o que a pessoa produzia, e desde mil novecentos o conteúdo era péssimo, escorregava nas causas que se tem lutado tanto por aí, e no dito escândalo a pessoa agiu de acordo com o que sempre foi – mas aparentemente ninguém reclamou antes. Eu definitivamente perdi o contato com a juventude, não sei identificar o que lhes toca. Se fizerem um teste Buzzfeed: “celebridade de internet ou completo idiota?”, eu erro tudo.

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Quero recomendar fortemente

… dois documentários históricos ótimos que descobri por acaso na Netflix. Aparece lá como tendo 1 temporada, mas é um documentário longo dividido em várias partes.

Prohibition: Até nós, a lei seca chegou apenas como uma piada, uma medida incompreensível para proibir o comércio de bebida alcoólica que ninguém seguia. O documentário mostra o significado que a lei tinha nos muitos anos de luta para que se transformasse em lei. Parecia muito lógico que se as famílias sofriam com a ausência dos homens que estavam bebendo, a solução era tornar o mal indisponível. Gostei especialmente da louca que entrava nos bares e quebrava eles inteirinhos. Chega a ser comovente o significado da proibição, a mobilização das mulheres; nos faz pensar o quanto certas ideias parecem tão certas e lógicas em determinadas épocas. Quando a lei é promulgada e fracassa, é outra luta para tirar da constituição. Ótimo para ver os jogos de força entre política, sociedade e cultura.

 

Hitler´s circle of evil: Já vi muitos documentários sobre a Segunda Guerra, que foi esmiuçada de todas as maneiras possíveis, mas nunca vi um que faça o mesmo recorte deste documentário. Ele pega os nomes mais importantes da história do nazismo – o círculo mais íntimo de Hitler – e traça sua trajetória política. Perdemos aquela imagem do nazismo unificado e vemos a dimensão mais humana, de pessoas com motivações diferentes e que precisam encontrar uma maneira de alcançar seus objetivos. Alguns são realmente apaixonados por Hitler, mas nem mesmo ele teve a sua posição caída do céu. E todos querem o lugar mais alto. Puxa-saquismo, marés que mudam, alianças, espionagem, rivalidades, traições, inveja – o partido nazista era igual qualquer partido, qualquer empresa, qualquer reunião de pessoas.

Torta de café

torta de café

Balas de café? Maravilhosas, de comer uma atrás da outra. Café? Merece todas as declarações de amor que lhe são feitas diariamente. Motivo para levantar da cama em manhãs tristes, estimula também o olfato ao ser um verdadeiro perfume no ambiente, amigo contra a sonolência de depois do almoço ou do estômago vazio no meio da correria, melhor pretexto para socialização. Torta de café? Aí não. Torta de café tem gosto de decepção. Depois de se servir no buffet de saladas, comida de verdade, carnes, você vai até a mesa de sobremesas e vê aquela torta pretinha e pega um pedação. Depois de comer toda comida, a comida de verdade que mantém o corpo saudável, chega o momento da recompensa, a sobremesa, e você coloca aquele pedaço de torta diante de si, faz uma garfada perfeita pegando um pedaço da cobertura, e quando ele entra na boca, descobre que não é chocolate. É café. As papilas que esperavam o doce e recebem amargo se contraem de desgosto. Os mais sinceros até cospem de volta. Os gulosos e mãos de vaca comem tudo, mas só porque está lá, porque estão detestando. Comem mal humorados, olhando feio para os funcionários pra ver se tem alguém rindo da sua cara. Talvez a única alternativa para a torta de café seja espalhar muitos avisos antes, igual o triângulo quando o carro se acidenta na estrada – Atenção, torta de café a 100m! – pra pessoa estar ciente do que está na sua frente quando chegar o momento. Duvido que alguém se serviria.

Música da verdura

velho up

O ônibus da verdura parou em frente a uma casa que está sendo praticamente reconstruída, de tão ambicioso o projeto que dá para adivinhar por quem passa pela rua. Eu já estava na rua esperando ele estacionar. Mal entrei e entrou também um rapaz, que trabalha na casa. O homem da verdura veio repondo mercadoria, conversando comigo e com o rapaz, até que teve uma hora que ele se tocou que ainda não havia desligado a música – Quem é que quer verdura, quem quiser pode falar. Você deu uma risadinha, você quer verdura minha e está sem jeito de pegar.

 

-Vocês me dão licença que eu tenho que desligar correndo a música, não quero ouvir reclamação.

O ônibus vai parando em três ruas diferentes do bairro durante o dia, e justamente naquela tinha um morador que reclamou. “Reclama de um trabalhador! Se fosse maloqueiro com som alto na frente de casa, duvido que reclamava, ficaria com medo”, falou o rapaz. O Verdureiro não queria confusão, porque outras pessoas da vizinhança estavam dispostas a comprar a briga por ele. O homem que reclamou disse que naquele horário a música acordava o netinho dele. Os outros vizinhos contaram que é mentira, que ele não tem netinho nenhum.

-Hahahahahaha, sensacional, o cara inventou um netinho só pra poder reclamar!

A pessoa que deu essa risada fui eu. Só eu. Esse negócio de ficar de ouvido atento à qualquer história interessante deixa a pessoa meio perturbada.

Guerra ao conhecimento

livro fósforo

Eu estava lendo um grupo no facebook onde quase todo mundo tem pouco escolaridade e escreve errado. Para quem recebeu uma boa alfabetização, ler “licoeso” (lhe conheço), “sintrome tital” (síndrome de Down) ou “conselho do telar” (conselho tutelar) é tão surpreendente que nem se quiséssemos poderíamos inventar essas palavras. Uma vez corrigiram quem escrevia assim, e a resposta foi: lá vem humilhar a gente.

Quando vejo movimentos coletivos, procuro sempre ver quem é a pessoa comum que está recheando as estatísticas. Eu vejo nas pessoas que se sentem humilhadas em terem seu português corrigido aquelas que têm recusado o saber científico, que preferem acreditar nos seus próprios olhos pra dizer coisas como que a terra é plana. Eu penso na pessoa que nunca vai escrever direito porque não teve uma boa escola, e saber se certas palavras são com S ou Z é que muito (apesar da pronúncia) não se escreve “muinto”, é apenas uma questão de ter oportunidade de entrar em contato com a palavra escrita desde cedo, e ela realmente não deveria ser diminuída por isso. Penso nas muitas faxineiras que ouço no ponto de ônibus, espertíssimas, e que são vistas pelos seus patrões como qualquer coisa porque fazem trabalho braçal. Ou nem preciso pensar em exemplos extremos: penso em mim mesma, quando fazia faculdade, e era um nojo na minha pretensão e sapiência. Se eu entrasse em contato com a Eu daquela época, também teria vontade de dar umas bolachadas. Hoje conheço muitos doutores – alguns até com doutorado – e que nem por isso deixam de ser completos idiotas. Alguém tirar de algo externo um motivo pra se achar melhor do que você é muito irritante; não passo isso com relação a escolaridade, passo por ser mulher. Quanto mais fatores que servem de pretexto pros outros te desvalorizarem – escolaridade, sexo, raça, orientação sexual, etc -, pior.

Mas, por mais que eu reconheça que existam motivos pra mágoa, não dá pra apoiar uma cruzada contra escolaridade. Se formos levar essa ideia à sério, se o sujeito aprender as quatro operações e a assinar o nome está tudo bem. Conhecimento de vida e conhecimento escolar não se opõem. Educação e conhecimento – nada disso deveria ser colocado num pedestal. Acho que, na nossa realidade, tudo acaba ficando misturado: elite branca, escolarizada, racismo, pouca mobilidade social, opressão econômica. Aí a mágoa também mistura tudo, e acontece aquela história de jogar o bebê fora com a água do banho. Mas a elite apenas “sequestrou” o conhecimento; em si, o conhecimento é o que temos de mais precioso enquanto humanidade: ele é a capacidade de passar adiante o que aprendemos, mesmo quando não estamos fisicamente presentes. O cara que escreve errado e a faxineira também têm o que dizer, e é justamente a dificuldade de lidar com as normas que os silencia. Conhecimento é instrumental, é poder. Então não, não pode escrever de qualquer jeito e quiser é com S mesmo. Não dá pra ser contra conhecimento, achar que o que eu vejo/sinto vale mais do que o que está nos livros, estudos e satélites; achar que a Bíblia ou qualquer livro sagrado explica o mundo; tirar vaga de universidade e investimento em pesquisa, ignorar os especialistas. Sabe aqueles pais que ganhavam pouco mas faziam questão de colocar os filhos na escola, apesar de todas as dificuldades, pra eles serem alguém na vida? É isso que temos que fazer enquanto país.

IHHHSSS

nariz-fechado

Eu vi que era um rapaz bonito porque ele ergueu o rosto e nossos olhares se cruzaram quando eu entrei no ônibus.  Era jovem, barbudo. Eu me sentei atrás dele, num dos bancos duplos. Ao lado dele estava uma moça, cujo rosto eu só enxergava de lado e a nuca. Era um dos dias de inverno quentes que fez por aqui, tão quente que parecia o último verão que tivemos, que foi meio frio. Ela estava sentada meio de lado, encostada na parede do ônibus e o joelho no banco da frente, para apoiar melhor o celular. Cabelo preso, jovem. Quando é com a gente, não é um elogio convincente, mas eu acho que qualquer pessoa, quando está feliz e à vontade, fica muito bonita. A moça estava se divertindo muito lendo e digitando no whatsapp, sentada numa postura cômoda – bonita. As unhas eram compridas e rosadas, no mesmo tom da blusa que caía em um dos ombros e deixava a mostra o top que ela usava. Ela digitava, ria, lia, escorregava a barra de rolamento com o dedão. Pensei que ela e o rapaz, jovens e bonitos, faziam um belo casal. Só que assim que eu me sentei, vi que ela enfiava a palma da mão direita nas narinas e puxava pra cima com uma inspiração ruidosa, num gesto de quem está tentando segurar o que sai do nariz – IHHHSSS. Não é bonito estar com coriza e ter que se virar, todo mundo já passou por isso. Mas nem ao menos estava frio para culparmos o clima. Não puxe porque não faz bem, tenha sempre um lenço, minha mãe dizia. Ela não tinha. Já vi algumas pessoas enfiarem a mão assim no nariz, e sempre me pareceu meio exagerado, como se aquilo fosse enfiar a coriza de volta para a glândula que a produziu. O problema é que não volta, ela continua querendo sair, e a moça fez de novo. Ela nem se dava conta do que estava fazendo, dava para ver que era um gesto automático que não a atrapalhava em nada. Digitava, ria, de novo. Não dava nem cinco minutos e lá estava ela  puxando o nariz pra cima com a palma da mão, exibindo as narinas. IHHHSSS. Devia ser muita coriza. Ou talvez não fosse, se ela deixasse sair de uma vez parava. Se eu pelo menos tivesse algum lenço ou papel higiênico pra dar pra ela. A conversa no whats estava muito engraçada, devia ser um grupo, mensagens que não paravam de chegar, risadas. De novo. IHHHSSS. De novo. Comecei a me preocupar se eram áreas diferentes da mão, se o celular estava cheio de vírus, se talvez ela não devesse usar as costas da mão ou até mesmo a barra da blusa. Mas que tirasse, que resolvesse. Ombro pra fora, mais quente mas ainda inverno. IHHHSSS. A postura do rapaz, olhando para frente, começou a me parecer pura tensão. Acho que eles jamais seriam um casal. Primeiros encontros que não dão certo por motivos inconfessáveis, imaginei ele contando pros amigos que a moça era bonita mas IHHHSSS IHHHSSS. Minha mãe teria lenço de papel na bolsa para oferecer. Eu também teria, se estivesse resfriada. Se estivesse resfriada, teria saído com lenço na bolsa ao invés de ficar puxando ranho. IHHHSSS. A moça gargalhava, eram muitas mensagens. Eu aguardava a próxima puxada num misto de ansiedade e nojo – ficava aliviada quando ela finalmente fazia, como um profecia que se cumpre, e ao mesmo tempo desejava não ver mais. O ônibus mal virou a Cruz Machado e o rapaz se levantou rapidamente, muitas quadras antes do ponto. Tive a impressão de que foi um gesto de fuga. Eu também, me levantei logo em seguida.

Não veremos

muro pichado

As pessoas me chamam de radical às vezes. Eu nasci em 63, um anos antes do Golpe Militar. E na minha juventude não tinha um muro pichado, não tinha essa bagunça que vemos por aí. Hoje eu tive que arrancar as flores que tinha na frente da minha casa porque estavam escondendo droga dentro delas.

A crise que vem com a idade é complicada. Os que passaram a vida inteira lutando para serem ricos e família margarina, podem se descobrir vazios, que lutaram para comprar anúncios na TV e por opiniões que no fundo não interessam. Quem viveu de puro idealismo vê o mundo tão ruim quanto, ou talvez pior, num quarto e sala com as contas atrasadas. A vida é uma só, nunca temos todas as informações necessárias, partimos das condições que nos foram dadas quando nascemos, não conseguimos prever nem a metade da consequências dos nossos atos. É difícil.

O que eu tive vontade de dizer pra funcionária da padaria que me disse a sentença do primeiro parágrafo, antes do cliente seguinte nos interromper, naquele dia que pudemos conversar um pouco mais porque o Brasil estava perdendo pra Bélgica, é que eu nunca vi essa juventude que ela viveu. E, independente do candidato que se eleja – falávamos de eleições -, continuarei sem ver. Mesmo que vença o mais radical deles (desconfio que é quem ela gostaria), que promete descer bala em todo mundo que sair da linha. No fundo, o discurso radical me parece de um tremendo idealismo, alguém na sua explicação de mundo é sempre mais limpo e justo do que os outros – a polícia vai nos proteger, o exército vai acabar com a roubalheira, pessoas realmente éticas vão nos governar. Do mesmo modo que nós temos escolhas de vida e elas nos determinam, um país também tem. Não existe gesto capaz de corrigir décadas de decisões – décadas quando pensamos em biografias pessoais, séculos quando países. Não existe órgão ou pessoa incorruptível capaz de separar o bom e o ruim para nós. O ideal é que o marginal tivesse tido oportunidades o suficiente para não ir para o crime, mas não podemos voltar no tempo e agora temos que lidar com esse ser humano formado e violento. De certa forma, é possível dizer que não há salvação. Existe o possível, e acredito que nossas décadas de erros passam justamente por esse desejo de milagres.

Curtas de pequenas grandes descobertas

Eu descobri que uma excelente maneira da gente achar que faz um bom trabalho é acompanhar, de longe, quem faz pior do que o seu. “Olha lá, que ridículo, era melhor nem fazer, kkkkk”. Descobri também que nos torna pessoas piores e não leva a lugar nenhum.

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Primeiro a gente passa o fio dental, que não tira apenas os restos de comida como também as bactérias que estão na gengiva. Só depois escovamos os dentes.

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Eu acompanho páginas científicas e páginas de astrologia, e é claro que a primeira gosta de falar mal de quem lê a segunda. Dou risada. Você pode se recusar a toda religiosidade sim, não acreditar em nenhum consolo, não ceder às superstições, enfrentar o mundo visível apenas com o que já foi publicado na revista Nature. Assim como pode acreditar que tudo tem o motivo, os deuses te ouvem e no fim acabará bem. É com você. Aviso que nenhum dos grupos ganha medalha.

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Estava vendo o lindíssimo vídeo que viralizou, com o Paul McCartney. Por todos que o cercavam, declarações escancaradas de admiração e afeto. O próprio programa se encarregava disso, impossível não cantar junto. Tirando a polpa da vida desse homem, o que vai ficar em meio à biografia, é a pessoa que nos deu Let It Be, Hey Jude, dentre outras. Como imaginar um mundo sem essas canções e o que elas fizeram nas nossas vidas? Aí lembrei no nosso Paul, o Chico Buarque. Não torçam o nariz, não é preciso forçar a barra pra dizer que o Chico tem coisas tão universais quanto. Donde eu concluo: tem que amar o Chico, afagar, curtir, homenagear, aproveitar o máximo. Chega de ser ingrato e pequeno, de fazer pouco caso e só descobrir o valor quando a pessoa morre e passa retrospectiva no final do Jornal Nacional. Mesmo pra quem discorda das opiniões políticas dele, tem que amar o Chico, o Chico é nosso.

 

Demonstração

capinha de celular

Entrei no ônibus um pouco mais tarde do meu horário, por isso não me espantei quando entrou um cara diferente do que tem o fone de ouvido. O do fone de ouvido é um grande profissional, só de ser uma pessoa diferente, já achei que ele estava em desvantagem. O sujeito distribuiu os kits e disse o nome de outra instituição, que não era a Manásses – não sei o porquê, mas quando é da Manassés sempre me passa mais credibilidade. Ele disse que “a medicina e a ciência não conseguiram encontrar a cura do vício das drogas porque é de origem espiritual”, e começou a recitar um monte de versículos. Não sei se foi a velocidade com que ele recitou ou meu desinteresse, mas não entendi uma palavra, só ouvi um monte de números. No kit, apenas o folheto e uma capa anti-impacto para celular. Eu já havia visto antes, é uma borracha retangular feia com bolinhas nos cantos. Ainda por cima era mais caro do que a médias dos kits, 4 reais. Não dá. Até que ele tira o próprio celular do bolso, revestido com uma capinha daquela, e diz que vai fazer uma demonstração. Eu e os outros passageiros paramos de fingir que não estamos olhando pra ele e observamos enquanto o rapaz recua até a parte sanfonada do ônibus e atira aquele celular pra frente sem dó, como quem joga pedrinha no lago. Atônitos, acompanhamos o voo do celular, que não sofre um arranhão. Para os que estavam mais para o fundo, ele vai até lá e atira o celular à distância de novo. Incrível, a capinha é boa mesmo. Dois compraram na hora.

No piano

Oliver Sacks, de tanto citar música no Alucinações Musicais, me deixou com vontade de ouvir música clássica. E com a mente vagando durante um concerto, eu me lembrei de já ter tocado piano. De manhã cedo fui atrás da prova, quase como se eu mesma duvidasse que foi possível.

pianista

Eu toquei piano por quase seis anos e havia apagado. Quem conviveu comigo na época da faculdade sem dúvida não esqueceu, porque eu amava muito tocar piano. A escola ficava do lado, atravessando a rua, e eu vivia lá. Às vezes eu pegava as partituras no meio da aula, estudava, depois voltava na maior cara de pau. Comecei a pensar se não lembrava disso por bloqueio, porque lembro que encarar os fatos – sem dinheiro, sem escola e sem piano atravessando a rua – e deixar de fazer aulas foi uma das minhas primeiras decisões dolorosamente adultas. Mas não foi isso. Como vocês podem imaginar, a foto me deixou bem nostálgica. Lembro de quem eu era na época, dos meus planos, das minhas prioridades. Pensei no quanto tudo mudou, nos caminhos que segui e que nunca imaginava, nas reviravoltas. Fiquei com aquela certeza de que a vida bem vivida passa muito mais pela variedade de experiências do que qualquer noção burguesa de sucesso. E vi que daquela dor de não tocar piano não ficou nada, porque não foi uma porta que eu fechei ou algo que morreu dentro de mim – tenho vivido intensamente aquela mesma necessidade artística, ao longo da vida ela encontrou outras vias de expressão. Há caminhos, há esperança, as coisas não serão necessariamente como estamos vendo. A vida é muito maior do que a gente.

Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.

Caixa de correio

caixa de correio

“O problema deste modelo é que ele é tão bom, a abertura tão generosa, que o carteiro deixa boa parte da correspondência da vizinhança na minha casa”, eu disse para a vendedora. Eu tinha em casa a mesma caixa de correio de quando me mudei, ou seja, pra lá de dez anos. Naquela manhã me deu vergonha e a decisão urgente de comprar outra. Ela estava horrível faz tempo, manchada, e com os parafusos que a prendiam no portão todos soltos e enferrujados. Ela ia escorregando para baixo a cada carta que enfiavam. Aí eu a puxava pra cima, arrastando. Me acontece disso, talvez com todo mundo, de ficar com uma coisa feia em casa e não me incomodar, dizer que arrumo quando tiver uma sobra, e um belo dia achar que aquilo é insustentável. Fui numa loja pequena de material de construção, tinha seis modelos e foram longos minutos de indecisão. A questão é que no modelo que eu tinha, de plástico amarelo, a abertura fica no topo, e tudo podia ser enfiado ali sem dobrar. Mas peguei raiva, não queria trocar a velha por uma nova, queria que a troca de caixa de correio também fosse um marco: troquei, comprei sozinha, nova fase, etc. Comprei a mais cara, de metal, maior do que a anterior, só que a abertura é uma janelinha na frente – como ela fica encaixada atrás do portão, fica obstruída pela grande. O carteiro não vai gostar, eu pensei.

Quando trouxe a nova caixa para casa, vi que a vizinhança, ao longo desses anos, já havia trocado suas caixas, que agora eram quase todas do modelo amarelo de plástico com abertura grande. A exceção é justamente minha vizinha louca, que tem uma de metal com abertura frontal também. Depois de colocar minha caixa nova, fiquei igual Odorico Paraguaçu: o carteiro a semana inteira sem dar as caras. Quando apareceu, não fui na janela mas acompanhei auditivamente: a moto parada com motor ligado, a espera dele vasculhando o bolo de cartas, o barulho do metal da janelinha, o portão chacoalhar, barulho, mais barulho, portinhola de metal batendo, a moto indo embora. Quando peguei minha correspondência, o envelope em tamanho A4 estava dobrando raivosamente em três pedaços. O carteiro não gostou, mas é de metal, nova e minha.

Mas se a ciência provar o contrário

Eu já estive dos dois lados do conselhos e já vi de tudo. Pessoalmente, não gosto e muito raramente peço; tem os que são o contrário, que montam verdadeiras comissões, abrem a discussão com os colegas de trabalho, as amigas, o porteiro do prédio, quem quer que ouça. Mas se do meu lado, fico com fama de pessoa teimosa que não confia em ninguém por não pedir conselhos, eu notei que mesmo as pessoas que consultam todo mundo não são tão abertas assim. Tinha uma que tinha problemas recorrentes com o namorado sempre estranho, sempre com histórias que podiam ser tanto mal contadas como diferenças culturais, até que um dia ela veio me falar de versículos que abriu por acaso na Bíblia depois de perguntar a Deus. Os verculos apontariam para uma direção clara, que não era a que me parecia que os fatos apontavam, o que me colocou numa posição “oposta” a Deus. Da minha parte, não vejo diferença entre fazer isso com a Bíblia ou com outro livro qualquer, nem com querer consultar a tabela de planetas retrógrados, o que me pediram recentemente. A pessoa, que entende de astrologia por posts do Facebook, queria a ajuda dessa informação para saber se deveria dizer SIM a alguém que retornou à sua vida, numa lógica que nem eu entendi direito. Tanto a moça da Bíblia quanto a dos planetas retrógrados já sabiam o que queriam ouvir – a única coisa que aceitavam ouvir, na verdade.

Favorecimento de favorecidos

amizade

Não posso falar em nome de todas as pós graduações do Brasil e em todas as épocas, mas quando eu estava na vida acadêmica e a pessoa tentava pós, uma das perguntas que a banca fazia era: você precisa de bolsa? A resposta campeã, digamos assim, era dizer que não precisava, embora preferisse ganhar, etc. A papelada das bolsas era tão chata, ia pra Brasília, demorava, então era comum que o aluno recebesse meses depois da aula ter começado, vinha sem reajuste, não era depositada no dia certo, etc. Sem dizer que nunca foi uma grande fortuna. Mas, por outro lado, dar preferência justamente àquele que não precisa de bolsa sempre me pareceu injusto, porque você está favorecendo os mais favorecidos. Na prática, acho que os professores tinham medo de serem abordados por alunos desesperados pelos corredores, com boletos atrasados, sem condições de pegarem transporte ou até mesmo para comprarem comida. E eles saberiam que seria verdade, porque além de tudo a bolsa exige dedicação exclusiva. O professor poderia ficar indignado, com pena, irritado, mas não poderia fazer nada contra a burocracia, por isso a escolha de nem aceitar quem não tem condições. Cada um já tem sua própria vida pra se preocupar.

Hoje me ocorreu que nos relacionamentos interpessoais é a mesma coisa, a mesma “injustiça”. O carente acha que disfarça muito ao contar exatas 48h pra voltar a entrar em contato, não fazer perguntas que pareçam cobranças, aguardar que o outro fale espontaneamente o que ele quer ouvir e todas as atitudes que simulam indiferença. Mas raramente dá certo – pode ser um lampejo de carência de olhar, um tom de voz ansioso, uma insistência. No fim, gostamos dos que já são muito gostados, cheios de amigos e de convites. É mais leve poder esquecer de alguém durante semanas e saber que nesse meio tempo ele viveu plenamente e nem sentiu a ausência, e quando voltar tudo estará bem. Ninguém quer pagar o preço de acolher o faminto por atenção, imaginar que ela estará em casa se corroendo em dúvidas. O melhor candidato a amigo é aquele que até quer a nossa amizade, mas se não puder, tudo bem.

Tem jogo

rua decorada

De manhã cedo eu já notei a falta de barulho, como se fosse fim de semana ou eu que tivesse acordado cedo demais. Falta de portões sendo abertos, alarmes ativados e desativados, motores, despedidas. Na rua, de bicicleta, era a sensação de estar numa espécie de cidade sitiada, onde por detrás de todo comércio e portas fechadas dava para adivinhar que havia vida e barulho lá dentro. Em algumas dava para ver que a porta não estava trancada, apenas encostada, como quem diz: até dá pra você entrar, mas por favor não o faça. As poucas pessoas na rua, se não estavam correndo, se olhavam com a mesma cumplicidade dos sem-copa. Duas senhoras de idade, uma moça passeando com o cachorro. Já em casa de novo, eu temperei um peixe, a vizinhança gritou por gol, eu liguei a TV para ver o replay, não tinha terminado de temperar e ouvi outra comemoração. Como algo de efeito muito retardado, lembro do meu irmão se queixando quando eu assistia copa do mundo, a maneira como sofria em cada lance. Ele achava muito chato, dizia que eu não sabia ser torcedora e admirar as jogadas, o domínio de bola ou sei lá o quê, só ficava histérica porque não via uma enxurrada de gols. Eu vejo as agitações apaixonadas – Neymar cai demais, chora demais, está preparado? – e lembro do que meu irmão dizia sobre eu não saber torcer, teve época que eu até usava a desculpa de que dava má sorte pra seleção. Não parece, mas eu gosto de copa; meu contente é ver o contentamento dos outros.

Promessas quebradas

vaso quebrado

Tenho pensado muito – apenas pensado, sem respostas – sobre a amargura própria de quando ficamos mais velhos. Eu sempre observo, nas novelas da Globo, que a pessoa deixou de ser galã quando ela ganha papel de vilão; algumas infantilidades, manipulações e horrores não cabem em carinhas de anjo. Não é apenas porque os atores novos não sabem expressar, é porque gente nova não chegou lá. Elas ainda não descobriram que o número de pessoas que realiza integralmente os seus sonhos é pequeno. Eu vejo que a minha geração, do final dos anos 70, é especialmente ferrada. O meu pai nunca pode evitar um sentimento de superioridade diante dos filhos, porque aos quarenta ele era O Cara: conceituado na área dele, sustentava duas famílias, dava festas, viajava o Brasil inteiro. O diploma de engenharia dele rendeu pra tudo, enquanto eu e meus irmãos somos muito mais instruídos e não há perspectiva de um dia chegar perto do que meu pai conseguiu. E estamos todos da gerão 70´s assim, com um longo histórico de empresas falidas, mudanças de área de atuação, ainda precisando de ajuda financeira. Vai chegando a idade que já não somos mais bonitinhos, já não temos muito mais tempo pra errar, e parece que se não conseguimos ainda é sinal de que não conseguiremos mais. Depois de tantas tentativas frustradas, estou aqui tendo que encarar o fato de que talvez o desejado livro nunca saia e meu talento se limite a estas linhas que você está lendo. Na dança, vejo gente que amou e se dedicou intensamente e agora já está “velho”, vendo gente mais nova e talentosa surgir. Vejo a aposta de merecer um grande amor não se concretizar, a dúvida se no fim não era melhor ter ficado na relação morninha mesmo. Com a idade, chega a dura escolha do chinfrim: ficar no emprego que não é dos sonhos, o casamento que não tem paixão, as férias na CVC, os quilos a mais. O que eu me debato, na verdade, não é nada disso, porque à princípio não há nada de ruim no que eu falei. O que me mata é a amargura. O que eu tenho horror e quero fugir a todo custo, e não sei direito como, é da raiva do fracassado diante de quem está chegando agora, diante de quem tem energia e fé. Do novinho que não sabe o que nós passamos e quer que o mundo seja generoso com ele, sendo que na nossa vez ninguém foi. Não quero ser o que desacredita o talentoso e tenta puxar para baixo os que conquistaram o que eu sonhei e não consegui. A pedra no sapato, a que piora o clima, a que usa o sem importância como desculpa para humilhar. Eu não quero ser assim, tenho horror de ser assim, mas à medida que a maré tem trazido meus fracassos para a areia, a possibilidade me acena e entendo cada dia mais.