Lembrar e projetar

memória e imaginação

Se a pessoa tem removida ou prejudicada a parte do cérebro relativa à produção de memórias recentes, ela também está condenada a não conseguir fazer planos para o futuro. Não apenas porque os planos são a projeção de memórias, mas também porque as nossas memórias são plásticas. Pesquisaram memórias de várias pessoas relativas ao que elas estavam fazendo no 11 de setembro e, à medida que o tempo passa, as memórias não apenas perdem detalhes como podem até se confundir com outros dados, relatos de outras pessoas, memórias do que aconteceu na época. As partes do cérebro ativadas com lembrar e imaginar o futuro são praticamente as mesmas, como mostra o print aí em cima.

De multiversos ao fato de na astrologia védica ler mapa do ponto de vista da Lua (que representa a mente), tudo me parece apontar pra necessidade de fazer as pazes com o passado. Terapia, meditação, florais, ho’oponopono, perdão – no fim desses estudos científicos sempre descobrimos que não é coincidência que esses sistemas antigos nos deixam tão mais felizes. Ocidentais e pretensamente científicos que somos, tendemos a achar que os fatos são os fatos, regidos por leis da física, cuja flecha do tempo vai apenas numa direção. Mas nós não somos rochas, somos mentes, somos versões de fatos mediados pela linguagem, e dentro de nós passado, presente e futuro são uma coisa só. Se você cada vez que você reconta a lembrança ela fica diferente, no fim ela pode ficar totalmente irreconhecível. Sem dúvida existem limites, mas a possibilidade de recontar também é a possibilidade de tornar nosso passado um lugar melhor. Lembranças diferentes também mudam as peças que usamos para projetar o futuro. Curar o hoje muda passado e futuro ao mesmo tempo.

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Pam bam bam bambam

Era uma parte coberta que ficava nos fundos de uma casa, grudada no muro lateral. Em frente a ela, um pequeno jardim, com um banco. Já havíamos comido todos os doces e salgados trazidos pelas meninas e bebido os refrigerantes trazidos pelos meninos. Começamos a parte de dançar. Foi minha primeira festa de dançar. Não tínhamos muitas opções de discos e só queríamos músicas lentas. Por ser a primeira ou a última faixa de um disco de coletânea de sucessos internacionais, colocamos Take My Breath Away. Cada vez que a música terminava, iam lá – acho que apenas o dono da casa, mexer em vitrola era uma operação sensível – e colocavam a música de novo. Na pista sem qualquer luz especial, meus colegas de sala se transformaram em pares. As bonitas. As legais. A gordinha engraçada. Numa distância que me parecia de quilômetros, meninos do lado oposto, no banco do jardim descoberto. Eles se olhavam, cochichavam, até tomar coragem e convidar alguém. A que estava de pé, a da esquerda, a da direita. Até que a música continuava e o banco deles estava vazio. Eu olhei para o lado e havia uma menina da minha idade, com a mesma expressão que a minha. Ela foi embora logo em seguida. Sorte dela – eu passei o resto da noite (que deve ter durado, no máximo, até meia noite) ouvindo Take My Breath Away, enquanto o sofá crescia cada vez mais.

A benção-chantagem

nossa-senhora

Chegou aqui um envelope dourado brilhante, igual saquinho de presente. Dentro veio uma Nossa Senhora em papel duro e brilhante, breguinha. Embaixo, uma faixa onde se lê o meu nome estampado no coração e que ela vai me abençoar e à minha família. Em outra carta, uma chantagem dizendo que já que eu ganhei uma linda Nossa Senhora, eu vou mandar uma contribuição. Assim, nesse tom imperativo. Dizia que era de um padre sei lá das quantas, de uma paróquia que nunca vi e não sabia que padres arranjavam dados sigilosos da gente. Rasguei a carta na hora, invasivo e com cara de picaretagem. Mas a Nossa Senhora tá ali parada, sei lá que fim dar praquilo – tremendo mau agouro jogar fora um papel com meu nome e benção, não sei o que fazer.

Os humores dos deuses

mó fita

Da série de coisas que se tornam óbvias depois que alguém nos fala: um dos astrólogos crush que eu sigo disse que, quando tudo vai bem, acreditamos que os deuses estão felizes conosco; quando tudo vai mal, achamos que os deuses estão nos punindo. Não é assim. O fazer certo e errado nem sempre coincidem com o que estamos passando. Pra citar um exemplo muito simples, pense numa pessoa apaixonada. Acontece muito: o indivíduo se apaixona de um jeito que descuida de tudo. A paixão pode levar uma pessoa a abandonar seu grupo de amigos, acabar com suas economias, se descuidar do trabalho, enfim, estragar todos os outros setores da vida porque tem olhos apenas para uma pessoa. Dá para esperar de camarote e ver que todas as coisas que foram deixadas de lado vão cobrar um preço depois que a paixão acabar – nem estou dizendo que o casal precisa se separar, paixões são estados exigente que não duram anos. Mas para ele, naquele momento, a vida é a mais feliz possível. A medida dos deuses não é a nossa, os deuses são imperscrutáveis.

Eu havia me decidido há uma semana…

… numa conversa de whats que não tinha nada a ver com aquilo. Pensei, esperei, tentei sozinha, pedi ajuda, precisei de outro fim de semana e finalmente, numa segunda, estava tudo preparado. Eu repassei na memória – era aquilo mesmo, tinha certeza, daria certo? Eu fui duvidando até o último minuto. Abri a aba do computador com o celular do meu lado e fiz. Em seguida, me afastei da mesa. Coração acelerado, mão tremendo. E agora, e agora. Eu me sentia caindo num vazio. Tomo um floral? Andei um pouco meio sem saber o que fazer, se olhava pra janela ou o quê. No fim de sentei no chão, meio iniciando uma oração sem sentido – deveria agradecer a Deus ou pedir ajuda, porque pode ser que tivesse acabado de fazer uma grande cagada? Deitei por cima das minhas pernas, o rosto para baixo, sentindo minha mão direita tremer no chão. Eu precisava me acalmar e aquela posição, chamada Postura do Servo, faz muito bem para a lombar e eu deveria fazer sempre. Respirei, pensei, entendi: eu havia acabado de fazer uma grande transferência bancária. Nenhuma fortuna diante do que existe no mundo, mas MINHA fortuna. E esse negócio de pegar numerozinho daqui, abrir aplicativo dali, de um internet banking pra outro mais virtual ainda me deixou em pânico. A falta de uma pessoa, um recibo, não sei, alguma fisicalidade em meio a uma soma de dinheiro tão difícil de juntar, me deu um desamparo muito grande. As tais decisões adultas – meu dinheiro, faço o que quiser, etc. “Você está é velha”, disse quando saí daquele estado. Finalmente entendi o problema dos velhos com caixas eletrônicos.

codigo de barras

Uma vitória pessoal que me deixa muito feliz

saída natação

Alguém aqui lembra que eu disse que aprendi a saltar na piscina depois de velha? Tem a primeira parte aqui e a segunda parte aqui. De lá pra cá, eu persisti. Duas coisas que aconteceram meio juntas: o FB estava com um lance de mostrar desafios. Tinha uns que queriam aprender a dançar, outros que queriam ser alongados e encostar o dedo dos pés. Eles se filmavam e mostrava em alguns minutos a evolução de meses e todos ficavam melhores com a persistência. E eu li também o Outliers, e nele percebi o quanto estamos numa cultura que não valoriza o esforço; como brasileiros e até como ocidentais, tendemos a acreditar muito mais no talento, o que nos leva a nem tentar muito caso não tenhamos facilidade desde o começo. Me impus a um programa de sair da minha aula e dar um pulinho ou dois de cima do bloco. Só isso, quase que como para constar, como quem assina um livro ponto.

Uma coisa que eu notei, e que demorou muito, foi o sentimento de vergonha. Uma vergonha, uma humilhação, como quem se dá um castigo. Nos campeonatos, caída na água e disparava, sentindo meu rosto vermelho debaixo d´água e com isso queria que pensassem: ela deu uma barrigada, mas em compensação é boa pra caramba! Em dias ruins, quando estou triste e sem confiança, ainda hoje não vai. Meses e meses de sentir que estava me castigando. Subia no bloco achando uma porcaria, pra dar um salto porcaria. Enquanto essa sensação irracional persistiu, eu avancei muito pouco. Ou sentia que não avançava nada. Percebi a importância de onde eu olhava, mudei minha posição no bloco, sentia que não conseguia colocar força nas pernas. Só percebia, não que eu conseguisse fazer. Mas do que trabalhar a técnica, eu estava enfrentando uma barreira psicológica bem dura. Eram como os anos que o cara do Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zeno conseguia nem segurar o arco direito.

Um dia, numa outra piscina que não a que eu nado sempre, percebi que saltei melhor. Era uma questão visual – como aquela piscina estava cheia até a borda e a minha tem uma distância, naquela eu me sentia menos alta. Aquilo me deu um clique. De repente eu percebi que estava dando certo, que eu podia fazer. A sensação de humilhação passou. Ao invés de um salto e olhe lá, algumas vezes tentei muito mais – eu estava sentindo prazer. Prazer de voltar pra água, prazer de pular, prazer de tentar de novo. Meu desempenho melhorou instantaneamente.

No último meeting que participei, já nem estava mais preocupada com saída nenhuma. Desde que mudei de categoria, passei a quase nem ganhar nada, tem muita gente melhor do que eu, melhor num nível que eu não ganharia delas nem de pés de pato. Mas gosto de participar ainda mais do que antes. De todas as provas que iria disputar, a única que eu tinha chance de pegar um terceiro lugar – porque tinha menos fortonas concorrendo – era a dos 100 metros livre, e mesmo assim seria um terceiro disputado. Fui pra prova com sangue nos zóio e consegui meu terceiro. Dias depois, quando fui para aula, meu professor perguntou se alguém comentou sobre a minha prova de 100 metros. Comentou?

-Olha, você fez a melhor saída da sua vida! Foi muito bom, você caiu muito longe, foi incrível. Eu e o Eduardo estávamos acompanhando e, assim que você caiu na água, nos dois soltamos um grito. Lá é campeonato, o bloco era melhor, tem um monte de fatores, mas mesmo assim! Pra gente que te acompanha desde o começo…

Os deuses e os joões

Quero presenteá-los com um vídeo incrível e dar um pequeno pitaco sociológico.

Eu sei que é uma mulher, você também. Eu sei que ela vai pra aula, que veste jeans, que come e vai ao banheiro. Sei que escolheu esta música por um motivo bem banal, porque gostou e porque estava acessível, e que cada pedaço da coreografia foi construído aos poucos. Escolhas foram feitas durante o processo; movimentos que poderiam ficar ainda melhores não foram colocados porque ela não conseguia fazer, porque não encaixavam na música, ou apenas nem pensou neles. Apesar dela ser uma pessoa com história, nome, maquiagem, roupa encomendada, no momento que vemos o vídeo é como se ela encarnasse uma deusa. Vi inúmeras vezes e em todas eu me arrepio.

O pitaco: ganharemos mais quando as análises deixarem de se focar apenas no João da Silva. Seja o João da Silva um juiz poderoso que cometeu atos ilícitos, seja o João da Silva um segurança que cometeu um ato violento. O João da Silva é ele mesmo mas é também um grupo, uma forma de encarar, uma causa e uma consequência. O João da Silva reflete a forma que outros João da Silva agiria no mesmo lugar. Eliminar um João da Silva sem levar em conta o contexto significa apenas trocar um João da Silva por outro.

O vaidarmerdômetro

decepção

Um conflito inevitável de gerações é que os mais novos não sabem que instrumento preciso e afinado se torna o detector de “vai dar merda” – ou vaidarmerdômetro – com os anos. Na juventude, temos que quase parar no hospital para nos convencermos de algo, enquanto que a maturidade nos faz detectar um problema quando ele é apenas um pontinho preto na linha do horizonte. Para os mais jovens soa cruel que um simples adesivo no carro ou o modo errado de dar risada possa fazer alguém ser cortado de antemão de qualquer círculo íntimo; mal sabem eles que, no passado, muitos outros adesivos e risadas erradas existiram, ganharam chance, erraram, foram perdoados, repetiram. Não sabem que a primeira impressão costuma ser a primeira intuição, e que ela é muito mais sábia do que qualquer QI pode alcançar.

Um vaidarmerdômetro que não falha nunca – e vou falar aqui porque poucos deles podem ser expressos em palavras – é o do restaurante que atende mal. Se você entra no restaurante, o garçom não te vê, não anotou o pedido achando que lembraria e não lembrou, os pratos das outras mesas chegam e nada do teu… dê as costas e vá embora. Sem medo. Só piora. E o humor da gente também, por culpa da fome. Aconteceu comigo uma vez tudo o que eu citei no começo do parágrafo, mais o fato da comida que chegou para ele (o meu pedido foi ignorado) era um conjunto de frituras envelhecidas. Eu já estava pedindo para ir embora faz tempo. Quando o meu pedido chegou, uma hora depois, havia um cabelo no peixe. Devolvemos para a cozinha e fomos acusados de ter plantado o cabelo para criar caso. Nem aconteceu em Curitiba, foi uma viagem que fizemos até o litoral para comer algo típico. Quase duas horas pra chegar, mais de duas horas no restaurante, saímos com fome, eu de péssimo humor por causa do comida e de não ter sido ouvida, comemos sanduíche e voltamos para Curitiba.

O cortejamento

pavão

Uma amiga foi pra Inglaterra e se queixou que o mais próximo que chegou de ser cantada foi um nativo que fez uma onda imensa para chamá-la de funny. Aí minha mente doentiamente analítica pensou no quanto os nossos rituais de acasalamento consistem no homem nos elogiar até o último, ser uma metralhadora de elogios, para que assim nos sintamos seguras, lindas, interessantes, especiais e desarmadas. Que bom que ele gostou do vestido e não que essa roupa me deixa gorda, que gosta do meu cabelo assim e não acha que está muito ressecado, que adivinhou que os olhos são a parte do meu rosto que eu mais gosto. É humanamente impossível continuar receoso quando alguém nos elogia muito. O ingleses no bar não fizeram isso com a minha amiga, lá deve ser diferente. Todo mágico sabe que o segredo do truque é a sua aura de mistério. O homem deve parecer sincero – pelo menos naquela noite, sob aquela luz e aquele banco alto. É um truque, é infantil, é uma suspensão da realidade. Mas será que, como brasileira, basta assumir que isso é uma mentira para se libertar dela? Não pareceria que ele nem se esforçou?

Você não é Kardashian

Eu percebi que as grandes impaciências e infelicidades na vida são porque cremos que merecemos de tudo. Por isso, vivo repetindo pra mim mesma: você não é uma Kardashian, a vida não tem obrigação de te dar nada. É como se tivéssemos uma cartela de bingo imaginária: carreira – amor – dinheiro – viagem à Europa. Eu preenchi a viagem, mas cadê o mozão. Eu tenho um emprego, mas não quero preencher o item carreira, porque é apenas um ganha-pão que não me realiza. Tenho amigos, mas de que me adianta se não tenho casa. Vamos às cartomantes porque ela disse que vai aparecer, mas está demorando demais, os papéis ficaram retidos na burocracia do além, onde fica o setor de reclamação celeste. Tudo isto é porque, no fundo, temos uma lista do que a vida nos deve. Nos deve porque queremos, porque todos têm, porque gente muito pior do que eu tem e tem o dobro. Alguns recordam que a vida não lhes deve nada quando acontece uma tragédia ao lado, tipo uma amiga muito jovem para quase morrer. Aí lembramos: nada é garantido, nem ao menos a saúde. Se o mozão que a cartomante prometeu demorar, tem que ficar feliz porque pelo menos tem mozão, alguns nem isso. Muitos morrem sem jamais colocar os pés na Europa – e não há nenhuma tragédia nisso. Talvez o que você tenha é isso aí, é o que tem pra essa existência: a viagem até a cidade vizinha, os amigos que marcam em lugares baratos porque eles também têm empregos modestos, o nascer do sol pela janela do ônibus, beijar o galã da rua, economizar muito para trocar de sofá. Vamos quase todos morrer sem deixar qualquer traço na história da humanidade. Alias, os Kardashian também.

otro dia más

Companhia hiper realista

doll

Vi num programa de TV a cabo. Eram umas três histórias, acho que era uma série sobre distúrbios sexuais. Tinha um cara que tinha uma boneca hiper realista. Daquelas que são uma versão melhorada de bonecas infláveis, elas têm todos os detalhes e têm um peso de uma pessoa. Ela tinha nome, roupas, lugar na casa. O programa mostrava ele chegando, falando com a boneca, colocando prato de comida para ambos. Depois de ser bastante seguido pela reportagem, mandam um terapeuta falar com ele. O terapeuta o confronta, vai em cima das várias racionalizações e desculpas. Diz que aquele era um paliativo muito ruim para a necessidade de ter uma relação. Que não adianta dar nome e fantasiar uma personalidade, ter boneca não é relação – boneca não responde, boneca só espelha. O sujeito foi se defendendo como pôde, ora se esquivando, ora assumindo. Ele estava feliz sim, ela se chamava Fulana, o esperava todas as noites, eram felizes. No final do programa, quando subiu os créditos, fomos informados que, depois daquela conversa profunda com o terapeuta, o cara comprou mais duas.

Não sei para que lado eu deveria estar torcendo, mas dei gostosas gargalhadas.

Uma pequena pausa. Ou não

Eu havia acabado de ler um mapa astral. Mesmo sendo uma pessoa linda, conhecida, ler o mapa de alguém me lembra muito sessão de terapia. Aquele mesma atenção de quando fiz o curso há uns vinte anos, a condução. Quem chega vem leve, mas quem conduz quer que seja a melhor experiência, então não fica relaxado. É uma hora com um foco muito especial, toda sua energia está naquilo, em encontrar entre o que você quer transmitir e o que está sendo vivido a melhor maneira de falar. Quero que a pessoa saia bem e só desligo desse modo quando realmente encerro. Foi tudo bem, ela gostou muito e eu também, descemos as escadas e já era hora da aula que nós duas faríamos. Mesmo sabendo que perderia o começo, saí e fui até o posto de gasolina tomar um café. Mais pela pausa do que pelo café. Para respirar, me centrar, assimilar o que havia acontecido. Para sair do modo atendimento e quando voltar ser apenas aluna.

Preparei um mocaccino na máquina e me sentei no banquinho alto que fica numa das duas mesas apertadas da loja. Passo lá com frequencia o suficiente para ser conhecida da atendente. Os frentistas e outras pessoas sempre ficam conversando do lado de fora, visíveis através do vidro. Desse grupinho veio uma mulher e encostou no balcão. As duas retomaram a conversa provavelmente interrompida pela minha chegada. “Melhor coisa que eu fiz, você deve fazer”. “Eu nunca faço nada por mim, seria a primeira vez. Me incomoda tanto”. Elas estão bem na minha frente. Misturo o mocaccino com a pazinha transparente. A história começa a se esclarecer pra mim: a mulher fez plástica, barriga e seios. A atendente queria fazer. A mulher contou que fez três orçamentos, e acabou ficando com a opção que não era tão cara, mas que tem o médico e mais seis estudantes acompanhando a cirurgia. “Mas foi muito boa!”. Neste ponto, segundos antes de, que digo pra mim mesma: “Sério isso, você veio aqui para descansar e…”

-Moças? Oi! Desculpa me meter, mas sobre o que vocês estão conversando. Eu tinha uma amiga enfermeira e ela me disse que era a melhor coisa fazer operação plástica bem do jeito que você fez, com vários médicos, porque aí eles…

Cheguei MUITO atrasada na aula.

buena historia

Receita de bolo

A censura da época da Ditadura cortava qualquer coisa que não fosse conveniente de ser publicada, e às vezes fazia isso de última hora. Os jornais ficavam numa situação difícil. Ao invés de tentar cobrir o furo de última hora, alguns optaram por assumir que ali houve censura a publicavam receitas, algo bem fora de propósito. Era uma maneira de protestar, de deixar claro para o leitor que naquele buraco havia uma informação que não pode chegar até ele.

Eu tenho vontade de colocar receitas de bolo aqui, só que minha motivação é outra. Quero sofrer menos, os dias estão complicados demais. Todos os dias têm uma porrada e todos os dias eu penso: “não, essa foi demais, agora vai ser impossível defender, as pessoas vão acordar”. E não, você visita os perfis das falanges e seguem firmes e raivosos. A imprensa persegue, a NASA não sabe ler dados, “mas ele não fez caixa 2”. Não gosto de ofender as pessoas, mas as escusas chegam às raias da lobotomia. Até a Amazônia pode queimar que está tudo bem. Olha, tá demais.

Deixo aqui minha contribuição pra tentar arrancar um sorriso de vocês. Arrancou um meu.

Dois comentários sobre Mindhunter

Mindhunter-3ª-temporada

Não vou entregar nada, mas esta segunda temporada de Mindhunter está ainda melhor do que a primeira. Vi algumas críticas por aí, várias questões foram levantadas, mas a que mais me tocou foi a questão da responsabilidade. Você não mobiliza o governo, levanta fundos, ganha crachá e funcionários sem ter consequências. Engrenagens são movidas, expectativas são criadas, responsabilidades pesam. A série se arrasta no tempo para nos deixar claro o quanto é difícil manter as suas posições enquanto os dias passam. Todo mundo achando besteira, o que parecia tão redondo de repente perdeu a eficácia, chega um momento que até o que era muito sólido parece ter sido só um sonho. É a treva, o inferno astral, o momento decisivo na vida em que nada e ninguém te apóia, e é só você tentando manter seu projeto fora d´água enquanto o resto do corpo já está imerso. Será que passa de qualquer maneira, será que o grande prêmio será perdido?

.oOo.

Este é mais pessoal: certo ou não, o que me fez ver a série foi um post que dava um perfil psicológico para cada um dos personagens, de acordo com a escala MBTI. O teste havia bombado no Facebook, todo mundo postando, e nas três ou mais vezes que fiz (quando fico psica gosto de esgotar todas as possibilidades) o resultado foi sempre o mesmo. Eu e o agente Ford seríamos INFJ. O resultado diz que é um tipo raro. Aí você vê que existem grupos de facebook, vídeos, guias, tudo o que você pode imaginar de INFJ. Além de ter posts extremamente chatos, as pessoas ficam brigando entre elas, julgando que nem todos ali merecem ser INFJ. Enfim, só pra dizer que qualquer coisa no mundo que ofereça uma etiqueta que diga que as pessoas são raras e especiais é motivo de disputas e brigas. Nem que seja um mero teste de Facebook, nem que seja algo que as pessoas nem sabem se existe.

Curtas andando triste por aí

tomar café

Tomando café com uma amiga. Eu só vou lá com ela, mas ela é cliente. Geralmente, quem está lá é a funcionária, mas pela primeira vez no nosso café lá é o dono. Ele nos deixa uma grande fatia de bolo, com doce de leite em cima. Conversamos na hora de pagar, damos risada. No final, ele nos deseja feliz dia dos pais, caso tenhamos. Eu quase o corrigi – por causa de poucos dias, nenhuma das duas têm.

.oOo.

Chegando arrasada em casa. Vou no caminhão da verdura e o Verdureiro nos mostra foto da filha, tão comprida quanto ele, e os modelos lindos de babador que ele tem. Horas depois, arrasada, vou até a padaria, e a moça no caixa me atualiza que ela finalmente conseguiu vender o cavalo dela e deu entrada no DPVAT, depois de meses do pai dela ter se acidentado. É o universo tentando me consolar com pequenas fofuras.

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Vou na padaria, está cheio, três funcionários atendendo. Quem chega pra me atender é justamente o rapaz que eu não tenho intimidade, o que está sempre de cara fechada. Peço pão, peço uma rosca. Só a rosca. Ele me pergunta qual delas. Eu fico sem graça e digo que qualquer uma. Ele me fala que vai pegar a maior pra mim e dá um sorrisinho de lado. É o que eu sempre peço, mas pros outros.

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Vem e vai. Em dois dias e horários que por acaso eu estava bem, consolei um amigo que tinha perdido o cachorro. Como mensurar dor, eu também ficaria arrasada com a morte da Dúnia. E a dor da morte do meu pai tem piorado, na realidade na hora não me pareceu que seria tão difícil. Aí num dia de baixa meu, uma semana depois, meu amigo queria tomar um café. Respondi que estava ocupada com pintor, etc., o que era verdade mas também não era. Em alguma ocasião eu precisava ter dito o que eu estou passando, mas sabe aquilo que quanto mais demora pior fica?

Lembrança datada e com trilha

Eu e os meus irmãos estávamos na casa de alguém, numa festa. Embora, pela proximidade de idade, eu e o meu irmão caçula estivéssemos mais na mesma fase, o meu irmão mais velho e ele se uniam e a guerra entre os sexos era mais forte. Crianças não tinham muito acesso a refrigerante na minha infância; quando bebíamos, geralmente alguém havia aberto uma garrafa de um litro e nos dado um copo. Naquela noite, cada um estava com sua própria coca-cola, na tradicional garrafa de vidro de 250 ml. Eu segurei a minha garrafa com a mão direita, a mão próxima do gargalo, e pus na boca. Era pesada pros meus dez anos. Meu irmão mais velho:

-Olha só, ela está bebendo igual alcoólatra, segurando a garrafa igual a Heleninha. (canta com voz aguda) O meeeeeedo de querer…

A Heleninha era Helena Roitman, de Vale Tudo. E eu jamais teria decorado a trilha sonora das ressacas dela se não fosse esta lembrança.

 

Depois ele me mostrou como segurava a garrafa do jeito “certo”, mais embaixo. Nunca mais helenei.