Ao lado do brilhante

Tem uma história meio difícil de entender, pelo menos na astrologia védica. O Sol é o sol, nossa essência, mas a védica o considera maléfico porque, dentre outras coisas, ele queima. Então um planeta ao lado do sol é considerado combusto, como se perdesse suas propriedades. A melhor explicação que vi a respeito dessa história de perder atributos é pensar em como é uma pessoa muito brilhante e extrovertida entrar num ambiente que ela domina, e ao lado dela está… eu. Quando a pessoa brilha muito, o quieto praticamente some ao lado dela, tem que fazer força para lembrar que ele também está na sala.

Sempre me perguntei o que eu deveria fazer, se deveria tentar me extroverter e brilhar. É a típica lose x lose situation: se você tenta se forçar e dar uma de extrovertido, sente que está sendo falso e forçando sua natureza; se você se acomoda, se acusa de ser mesmo um inútil, um nada, um bosta. Um dia vi este debate entre o Darcy e o Rubem Alves e me convenci que, embora a situação continue sendo lose x lose, o melhor que um introvertido tem a fazer é se recolher no seu cantinho e deixar o outro brilhar. Tentar competir com o sol só nos diminui pelo contraste.

Band-aid

bandaid

Ela estava numa onda de mau humor que não tinha nem mais o que dizer. Um dia, havíamos comentado sobre uma série na Netflix – ela estava meio chocada com o final e eu disse que então não veria agora, porque não estava podendo. Aí, na compra seguinte, eu comentei de série e ela me disse que estava sem Netflix porque estava sem internet. Aí numa outra conversa isso veio à tona de novo – de estar sem Netflix por estar sem internet em casa. Pouco depois começou o mau humor, e pensei em coisas graves que acontecem na vida e que nos fazem atrasar as contas. No primeiro dia brinquei, e ela me deu um sorriso forçado ostensivo e me senti a cliente chata que quer se fazer de íntima. Nas vezes seguintes, dei a simpatia mínima, sem puxar assunto, pra ela não se sentir forçada a nada. Foram semanas, e quando se é cliente habitual semanas significam muitas interações. Comecei a temer por ela, porque ficar sempre de cara fechada se torna um hábito difícil de combater.

Um dia, sem aviso, ela me atendeu de excelente humor e olheiras. Disse que estava morrendo de sono. Na vez seguinte, a metros do balcão, eu vi olheiras muito pretas, que ela nunca tinha tido. Não pude deixar de falar que estavam enormes, que ela havia se tornado praticamente olheiras pretas enormes. Ela riu. Eu disse que era cara de quem havia dormido duas horas. “Você quer dizer que eu dormi duas horas da manhã ou que dormi duas horas antes de vir?”. Bom, dava pra entender.

No outro dia, já com cores mais bonitas no rosto, eu lhe perguntei se ela havia finalmente dormido. Sim, um pouco mais, mas não tudo, etc. No meio da conversa animada, vi que havia um band-aid no pescoço dela. E esse pescoço aí? Ela colocou a mão, puxou a gola pra cima e deu um sorrisinho maroto. Eu sorri também e disse que não falo nada.  Saudades de perder noites de sono por motivos felizes…

As pessoas-ilhas

Arquipelagos-2

Quando eu vejo ruínas de antigas civilizações, tento imaginar como era pro cidadão que vivia lá. O egípcio ou o romano que saía de manhã cedinho e passava pelos portões de pedra, que olhava para areia em todo lugar ou aquedutos, e olhava para o mundo à sua volta e imaginava que seria sempre daquele jeito. Porque vemos as ruínas e pensamos no final, em quando estava se desfazendo e esquecemos que muitas vidas passaram por ali e viveram um período totalmente estável. Até a revolução francesa, que nos parece que foi um banho irrestrito de sangue, poupou alguns nobres, até mesmo nobres franceses. Eu fiz um passeio por uma cidade aqui perto – se lembrasse, diria qual foi – e visitei uma Casa Grande que pertenceu a uma ordem religiosa. Ainda havia restos das paredes aonde os escravos viveram e a casa em si tinha paredes inteiras decoradas. O interessante é que a ordem saiu de lá e durante quase um século a casa fosse gerida pelos seus próprios escravos. Ou seja, durante muitos anos, que sabe a vida inteira de alguém, viveram negros que não eram escravos na época que todos os negros eram escravos. Negros que puderam sonhar, fazer as suas coisas e quem sabe nunca tenham vivido a decepção da casa ser vendida e se tornarem escravos comum. Um negro que acordava cedo e passava por aquele gramado com a mesma confiança do egípcio e do romano. São vidas que são como ilhas, diferentes do que acontece à sua volta, isoladas. Fico curiosa sobre elas. A gente grita tanto por aí que a realidade é a maioridade estatística, que a realidade é tragédias, cidades poluídas e frias, boletos, lutar contra tudo e todos; quando encontramos alguém que não vive assim, que mesmo adulto é alegre e saltitante, dizemos que uma hora ou outra a realidade vai arrancá-lo da sua alienação –  porque a vida tem dessa crueldade, de perscrutar cada cantinho. Mas não, alguns realmente conseguem escapar e viver uma vidinha perfeita. Sorte deles.

A lavanderia

Você já tentou, sozinho, gerar lucro? Eu já. Ao invés de ir de táxi e incluir nos custos, eu fazia tudo de ônibus. Quase duas horas só de ida. No começo eu sentia sede e comprava alguma coisa, depois passei a levar garrafa d´água. Eu percebi que fazia péssimas escolhas com fome e pressa de voltar pra casa, então comecei a comer e me programar pra ficar mais tempo fora – mas sempre o lanche na lanchonete baratinha. Ia na loja de tecido mais barata e comprava os retalhos. E, claro, para economizar viagem, comprava estoque para meses e levava tudo na mão, em sacolas pesadíssimas. Vendia para conhecidos, levava na mochila. Administrava eu mesma a página, os moldes, a máquina de costura. Não obedecia horários, ignorava fins de semana. Enfim, tudo o que eu pude fazer para cortar custos eu fiz, e logo percebi que o que eu podia era muito pouco. O lucro que uma pessoa consegue gerar individualmente é um nada.

Mas se você pensou que a saída é ter uma confecção inteira, com dezenas de funcionários, máquinas de costura e rolos de tecido direto do fabricante, também está sendo ingênuo. O lucro que se gera por trabalho ainda assim não é o lucro dos bilhões. Porque a exploração do trabalho e o corte de custos tem um limite. O capitalismo entrou num grau de desenvolvimento e descolamento do trabalho tão grande que não é mais o trabalho que gera dinheiro, pelo menos não nas grandes quantias. Não, os 4% de pessoas que são mais ricas do que os 96% no mundo não estão lá porque trabalham bastante ou são geniais e criaram produtos que todos consomem.

O filme A Lavanderia, da Netflix, fala um pouco sobre o mundo do dinheiro que gera dinheiro.

 

Uma pequena ajuda

Alguém tem alguma editora que aceite avaliar originais para me indicar? Veja bem, não estou dizendo que ela DEVE me editar, apenas que me deixe mostrar. Porque nem todas estão abertas a isso agora (ou sempre). São uns contos de realismo fantástico, um material inédito que só eu e Deus lemos.

e-mail: caminhantediurno@yahoo.com

revisão

Meu histórico com editoras é o seguinte: puxei pela memória e há séculos falaram comigo no twitter. Mas quando isso aconteceu, eu não pensava em escrever nada. Fiz umas tentativas e recebi Sim apenas no esquema de co-edição, e não entrei. Primeiro, porque eu não tinha o dinheiro que me pediram, o que tornou a decisão bem fácil. Segundo, porque me conheço e sei quão péssima vendedora de mim mesma eu sou. Precisaria ficar insistindo, publicando, falando que o livro é o máximo e não faria nada disso. Entre ser minimamente a autora que fica enchendo o saco dos amigos e ficar com tudo encalhado aqui em casa, certeza que faria a segunda alternativa. Vocês leem o blog, me conhecem: pra qualquer coisa que eu faço, sou o exemplo da confiança? Estou sempre me achando pouco e que o que faço é uma porcaria. Minha auto-crítica é gigantesca. Ela me faz trabalhar exaustivamente atrás da perfeição, ela me faz péssima vendedora. Mesmo raciocínio pra ideia de fazer publicação virtual; na prática, seria igualzinho deixar aqui no blog – ou seja, de graça e sem um pingo de perspectiva. Alguma luz?

Errando bem

calvin fazendo lição

Eu era uma boa aluna de matemática e foi como se tivesse sido jogada num poço quando a física entrou na minha vida. Sempre fui boa aluna e antes disso não conhecia o sentimento de não conseguir entender nada. Era demais, num nível que eu nem ao menos conseguia disfarçar. As fórmulas não faziam o menor sentido pra mim, eu não conseguia transformar as histórias dos enunciados nos números. Pro carro que ia de Curitiba a São Paulo a não sei quantos quilômetros, eu sabia somar tudo e dividir, apenas. Eu adoro estudar, adoro assuntos novos, mas minha maneira de aprender sempre foi a de tentar entender o todo e com a física talvez eu não tenha inteligência pra tanto. Enfim. Foram tantos anos de tentar reconstruir, não entender e fazer errado, que chegou no vestibular e eu não sabia fazer uma única conta. O que eu fiz foi repetir todas as minhas contas erradas e, com elas, ter certeza do que eu deveria eliminar. O que sobrava possivelmente estava certo. Pra época, foi o suficiente.

Curtas de boi preto conhece boi preto

boi preto

A expressão que está no título me fascinou desde a primeira e única vez que a ouvi, não sei se é uma expressão comum. E, no contexto em que foi dita, também não sei se é verdade. Não sei se vocês lembram, mas tinha uma época que a Giseli Bündchen namorava o DiCaprio. E o Clodovil disse num programa que era um namoro de fachada, que o DiCaprio era gay. De onde ele tirou aquilo? Boi preto.

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Boi preto que conhece boi preto. Li o mapa astral de uma amiga que tem um Saturno muito forte. Contei pra ela todos aqueles atributos: velho, sério, lento, rigoroso, espartano e também confiável, compromissado, capaz de grandes feitos. Diagnostiquei que ela foi uma criança séria, que se dava bem com gente mais velha porque sempre se sentiu velha. Quase sem sentir, ela falou: “você também tem um Saturno forte no teu mapa, né?”. Ou seja, entendeu a beça do próprio mapa e de mim.

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Na minha família havia uma forma bem particular de fazer críticas. Digamos assim, eu estou usando um tênis feio com um vestido. Entende-se que não adianta falar que o tênis é feio, quem disse que eu tenho outro. A providência era me dar outro tênis, para que eu pudesse me livrar daquele e usar um certo. Então você recebia certos presentes e entendia o recado. Era bom e ruim ao mesmo tempo.

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Eu me toquei há pouco tempo que vááááárias vezes falei que me surpreendi em ver o quanto o pessoal da dança é convencional. Penso muito em referências de teatro. Ator entrega o corpo de uma maneira muito mais radical. Perto de um ator, ainda acho o bailarino muito vaidoso, muito com medo do ridículo. Mas, enfim, estou sendo uma chata porque só sei dizer que é pouco, eu nem ao menos saberia explicar o caminho.

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Ouvi a pergunta extremamente pertinente do porquê fazer um mapa astral. Pra auto-conhecimento. Eu, por exemplo, só tive real dimensão do quanto sou difícil com meu mapa.

Maracujás

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O meu muro dos fundos dá pra lateral do muro do meu vizinho. O pé de maracujá – não sei nem se é assim que se diz – dele escala o meu muro. Eu só sei como é porque está aqui: ele sobe no muro, vai se agarrando como trepadeira. A folhagem invade o meu terreno. As flores são grandes, com uns fios avermelhados. São muitas e caem muitas. Todo dia preciso catar flores no chão. Elas atraem uns bichos pretos, daqueles que zumbem de maneira assustadora e me disseram que a picada dói muito. Depois vem o maracujá propriamente dito, uma fruta verde que vai se pendurando por dentro da flor e vem surgindo como uma lâmpada verde e lisinha. Atrai bicho pra caramba também, o que também faz com que vá caindo. Cato flor, cato maracujá verde. Aí, quando eles estão grandes e começam a amarelar, eu acordo numa manhã e meu vizinho puxou todas as folhas, flores e maracujás de volta. Encontro meu muro pelado e o resto de alguma folhagem que caiu no chão.

Talvez você tenha ficado indignado com meu relato, o grau de egoísmo do meu vizinho. Sim, eu já pensei em falar alguma coisa. Se eu cato tanta coisa, ele cata ainda mais e sabe que isso acontece. Não custava nada, pelo menos, deixar que os maracujás que surgem do meu lado do muro ficassem comigo. Mas, olha, certeza que o que ele faria seria podar tudo pra não deixar uma folhinha entrar. Tem gente que prefere se prejudicar a dividir. Eu gosto das folhas por cima do meu muro, então deixo quieto.

Aquele 1%

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Eu topei fazer um bico que parecia muito simples e rápido, e quando percebi tomou minha semana. Teoricamente, eram apenas duas horas e meia. Mas todos os lugares eram longe e geralmente eu levava uma hora dentro dos ônibus. Coloque aí a cada dia era um lugar novo e dava trabalho descobrir como chegar, que eu tinha que acordar cedo e tomar banhão. Uma vez lá, eu precisava conversar antes, conversar depois, passar num segundo endereço carregando quilos de papel… Resultado: deixei quase tudo da minha vida pessoal de lado, chegava em casa esgotada e passei a semana inteira comendo mal, porque estava cansada demais pra cozinhar e sem tempo de fazer supermercado. O bico envolvia entrar em sala de aula e lidar com adolescentes, algo que basicamente não fazia desde que eu mesma era uma adolescente em sala de aula.

Este post é uma forma de auto-crítica. O primeiro dia não foi muito legal, cheguei em casa bastante cansada e meio arrependida de ter topado. Os alunos conversaram quase o tempo todo, com direito a duas adolescentes que olhavam pra mim e riam. Não era apenas o meu primeiro dia e sim de tudo; eu e os outros estávamos ansiosos com a quantidade de procedimentos. Só que o segundo dia foi excelente, o terceiro dia também, no quarto dia eu praticamente me apaixonei. Já estava me sentindo A Grande Educadora, uma pessoa que entra numa sala de aula na maior, que sabe lidar com adolescentes, que se eu desse aula seria daquelas professoras super legais que todos gostam. Meu jeitão calmo e paciente transparecia e me bastava. Bastava amor e olhar os adolescentes nos olhos. Maravilha. Aí cheguei naquela que seria minha sétima turma.

Bem. Até onde eu me lembre, nos colégios que eu estudei, eles jogavam todos os repetentes e alunos difíceis nas últimas turmas. Essa que eu fui era E. Depois encontrei com professores e eles confirmaram a minha impressão. Foi um inferno. Foi tudo aquilo que se fala de adolescentes. Foi tudo aquilo que se fala de repetentes. Foi tudo aquilo de ser esmagado como profissional, chegar para fazer um trabalho e não conseguir realizar direito. Foi tudo aquilo de ser esmagado como pessoa, de sair bem de casa e se ver obrigado a exibir seu lado ruim, perder a calma e ficar com o humor estragado durante dias. Foi desejar poder ser um militar dentro da escola pra poder dar uma ordem ou até mesmo descer o sarrafo. Foi desejar mentalmente que alguém que eu nunca via antes na vida se ferre e tenha uma vida miserável.

Só que, pensando bem, não foi uma turma. Um bom número deles, quem sabe quase a metade, fez bonitinho o que foi pedido e não deram um piu. Sentados perto de mim, alguns conversaram, riam, mas pouco. Aquele sentado no meio da sala, que discutiu todos os procedimentos comigo e disse que faria o que lhe desse na telha, fez o que se propôs e ficou quieto no canto dele. Havia uma turma de meninos sentados atrás dele. Também pareciam mais velhos, alguns eram grandes, e eles ficaram conversando. Uma conversa que incomodava, voltava e voltava por mais que eu chamasse atenção, mas também nada contra mim. Quem realmente me deu problema foi um sentado num canto. Ele era enorme, claramente mais velho e implicou com tudo. Discutiu, questionou, alegou problema de saúde, ironizou, liderou os que sentavam perto dele, jurou que iria sair da sala quando lhe desse na telha. Era aquele tipo de pessoa que se sente crescer em conflitos.

Lidei com uma centena de pessoas durante a semana, e na hora de comentar sobre o assunto com os amigos, tenho praticamente só falado da última turma. Última turma que é basicamente uma versão contaminada do que um adolescente difícil fez. O que é a mente humana, essa tendência a se fixar no ruim, a dar palco justamente ao que queremos longe.

combater o mal 2

Curtas levinhos

bullying do bem

Vi um vestido num site e gostei. Adorei o modelo, a cor, as bolinhas, a descrição do tamanho era perfeita, os detalhes, as opções de cores. Fui olhar a avaliação dos clientes e tinha inúmeros depoimentos, com fotos, todas garantiam que o vestido é bonito mesmo e cai bem. Mas um dos elogios me fez tirar o botão do comprar e olha, quase não comprei mesmo: “Lindo vestido, perfeito para ir a igreja”. Pô.

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Eu peguei um ônibus pra uma região que nunca fui antes, na Cidade Industrial. Mais de meia hora no ônibus, no meio do nada, horário apertado, tudo merda. A cobradora mentiu descaradamente quando disse que não sabia me dizer onde eu deveria descer porque havia um muro enorme pintado com o nome do local. Mas, no final, quando estava para descer, fiquei esperando bem para olhar pra cara dela e ia agradecer. E era capaz de sair sincero. Por que? Mesmo sentimento do dia que olhei pelo portão e a Dúnia tinha fugido. Ela estava na frente de casa, cheirando a grama, sem nem ter o que fazer com a tal liberdade. Não tinha forças para brigar, o alívio por ter dado certo suplanta tudo.

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Eu acho que sofro bullying dos lixeiros. Tive que colocar dois lixos dia desses, porque comprei dois côcos muito grandes e eles não cabiam no mesmo saco. Só recolheram um. Por outro lado, quando me separei e colocava sacos ridicularmente pequenos, eles também não recolhiam. Teve uma semana que eu voltava pra casa e tinha um rastro de lixo na frente de casa. Mas aí depois descobri o valor de investir em sacos de boa qualidade, o saco de lixo lixo arrebentou assim que tentei levar de volta pra dentro.

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[…] Já estava começando a reclamar de novo e parei. Tô muito cansada. Como é difícil ser leve com falta de sono.

De novo, parece política mas não… talvez seja

humanidade

Quando Moro aceitou ser super ministro, eu disse que foi a pior decisão da vida dele. Veja bem, assim que ele aceitou, o governo nem tinha começado e todos estavam com muito ibope. Minha previsão foi baseada em algo muito mais trivial: ele teria como superior um homem desorganizado. Que prometeu plenos poderes, que prometia ser uma opção melhor, mas desorganizado. E pessoas desorganizadas são como bombas. Às vezes, são muito mais prejudiciais do que uma pessoa maldosa. Quando você está com um desorganizado, acaba tendo que trabalhar o dobro, se antecipar, estar sempre correndo atrás e equilibrando os pratos. Odeio depender de gente desorganizada. Um maldoso pelo menos sabe o que está fazendo, tem noção de que estraga o teu sono e os fins de semana. O desorganizado acaba com a tua vida e ainda por cima se sente vítima. Ser desorganizado, ficar de aparecer e sumir, avisar em cima da hora não é charme. No máximo, defeitos que as pessoas toleram em prol de outras qualidades.

Curtas ansiosos e fora do lugar

Passarei uma semana acordando 4:30. É exagerado e não é. É pra dar tempo de tomar banho, café tão cedo eu não consigo, andar tranquilamente, pegar os ônibus que mesmo atrasados meu levarão aonde eu preciso. Se tudo atrasar, ainda chego no horário. Quando chegar meia hora mais cedo e esperar pelos outros, é provável que me xingue pelas horas de sono perdidas. Mas no fundo eu vou saber que é o preço que pago por ser quem eu sou: uma pessoa que se cobra demais e não conta com a sorte.

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Uma vez fui num iridologista. Fui com meu então marido, que ia ficar me esperando na sala espera e o iridólogo o mandou entrar. Guardei pouquíssimo do que o sujeito me disse, lembro das fotos do meu olho bem grande numa tela de TV e ele me falando algumas coisas a respeito do meu temperamento e da minha saúde. O que guardei foi a frase: “você é uma pessoa de grandes medos e grandes coragens”. Talvez nem isso tivesse guardado se o meu ex não tivesse dito que foi a melhor definição já feita a meu respeito. De acordo com ele, nem registro o perigo de situações que fariam os mais machos recuarem, e ao mesmo tempo temo coisas tão estúpidas que ninguém imagina.

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Uma lembrança tola. Eu havia combinado de encontrar minha mãe para almoçar antes da minha aula na faculdade e no intervalo dela. Eu a buscaria e iriamos juntas, mas como atrasei ela já estava no restaurante. Eu me desculpei e disse que o ônibus atrasou. No seu silêncio, ela me disse que “claro, você sai em cima da hora. Aí, quando as coisas não dão todas certo, você diz que o ônibus atrasou”. Ou seja, eu não fui sempre assim, ansiosamente pontual.

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Outra lembrança: eu comecei minha segunda faculdade e conversava com os outros alunos mais velhos. Havia uma lá de cinquenta. Ela me falava que havia sido de movimento estudantil, que era do tipo que falava, que era isso e aquilo. Mas isso antes, quando era jovem. Com o viver, havia se tornado calada, não dizia o que pensava, tímida, não levantava a voz. E eu pensava: “então por que você não recupera aquela moça, se você tem ela aí dentro?”. Hoje eu entendo.

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Uma que dança desde criança foi parar na vida acadêmica e escreveu no seu Insta sobre o quanto lutava contra o seu sentimento de estar fora do lugar. E eu comentei: “sinto o mesmo que você, só que invertido. Na academia, eu estava no meu lugar.” Um dia houve um lugar.

livro da vida

Láááááá longe

Eu arranjei um bico que vai me obrigar a ir em escolas estaduais durante alguns dias. As coisas não foram da maneira como deveriam. Sabe quando o atrapalho vem desde cima e vai fazendo um efeito dominó e quem está embaixo é que sente mais o impacto? Bem assim. Como pessoa extremamente organizada, correta e tensa, não gostei e reclamei. E fui ficando de mau humor. Não pude me organizar com a antecedência que gostaria, reclamei em grupo de zap, estava quase organizando levante dos insatisfeitos. Aí, finalmente, com muito atraso, chegou a lista das turmas e escolas. Como temia, lidarei com adolescentes, aqueles animais barulhentos cheios de hormônios. Aí fui de puta mau humor procurar o endereço e ver como chego em cada uma. Sou ninja em Google Maps, conheço vários segredos. Um deles é você inverter as rotas de ida e volta. Bem bobo: coloca o endereço de ida e volta, vê o que aparece, e depois inverte os endereços. Às vezes faz um diferença imensa.

Descobri um ponto de ônibus totalmente novo perto de casa, uma linha que nunca peguei. Já senti uma cosquinha. Estudei quando dá pra ignorar parte dos trajetos e ir a pé. Não conheço ninguém que já tenha cruzado a cidade inteira de ônibus como eu. A escola mais longe é num lugar muito bróder, que eu ia quando comprava tecido, conhecia o nome de todas as ruas. Mas o que matou mesmo foi quando entrei nos sites e vi as escolas. Pátio pequeno, as árvores, as paredes feiosas. Eu estudei em Escola Estadual. Toda escola estadual tem um pouco desse combo de falta de manutenção, mesmo quando elas são mais centrais (como a minha era).

Quando fiz segundo grau, não tinha linha de ônibus até a minha escola, e andávamos um montão a pé. Sol do meio dia e aqueles estudantes todos de azul subindo a rua, era uma pernada boa. Garrei afeto vendo a foto das escolas, tudo muito familiar. Assim como já gosto antecipadamente do novo caminho de ônibus que vou pegar. Claro, tô falando isso porque é pouco tempo e vai entrar um dinheirinho… Ter que ir longe e andar tanto sempre fez parte da minha vida; puxei pela memória e percebi que jamais tive o prazer de morar do lado de onde precisava ir. Quem sabe eu vá, ache péssimo, detestável, odeie os adolescente e lamente não estar numa posição que possa recusar dinheirinho, mas por hora eu tive um insight cheio de afeto: isto que é o que todos querem distância – o ônibus, o esforço, a escola pública – está entranhado em mim. É esta vivência que me faz nunca olhar o “povo” como “eles”. Nós nos olhamos nos olhos, nós balançamos juntos no ônibus lotado de manhã.

(E viva Chile!)

xadrez

Ro-ti-ne-i-ra

jacaré e caracol

Levei muito tempo pensando que era por não ser tímida, por ser antissocial. Depois pensei que fossem questões razoáveis, como pensar em logística de como chegar, de onde tirar o dinheiro, que não é assim que se decide. Não teve nenhum grande fato, apenas um dia me deu uma luz: gosto de rotina. Mesmo que seja um convite positivo, se ele não é feito com antecedência, organização, cronologia e previsão orçamentária, minha tendência é ranger – me atrapalha, não vou gostar, como é que eu vou fazer? Acho que preciso de pelo menos uma semana para considerar que o fato novo foi apresentando com prazo razoável, para ter tempo de passar pelos quatro estágios do luto e encontrar com a pessoa com a cara apropriada. Sim, luto, porque sou tão apegada à minha rotina que não poder limpar os armários ou ficar de pijama no sofá antes de dormir me parece sempre melhor do que qualquer outro programa. E quem diria que um dia pensei desejar que minha vida mudasse todos os dias, de todas as maneiras possíveis.

Zen p*** nenhuma

O A arte cavalheiresca do arqueiro zen é um dos livros da minha vida. Eu cresci querendo viver uma experiência daquelas, queria encontrar um mestre oriental e me embrenhar uma arte que me ajudasse a superar o ego. Agora, em recente surtada flamenca, estava me perguntava que diabos eu estou fazendo lá, eu seria tão mais feliz se lidasse com o meu terror de me expor no palco da mesma forma que lido com outros terrores – não me coloco na situação. Pergunta se eu tento saltar de paraquedas. Ele fica lá e eu aqui, tudo bem.

Tal como o autor do livro, me vejo levando anos pra aprender o básico do básico, uma simples respiração. Aí entra o inconformismo de quem sempre se saiu muito bem em outros assuntos que exigem leitura e perfeccionismo, conquistava os professores pelo seu empenho, e agora se vê reduzida à condição de aluna com quem se precisa ter paciência. Enquanto outros mais jovens disparam felizes e cheios de ritmo, eu me vejo atacada de todos os espíritos malignos do meu inconsciente e começo a errar o que fazia até agora pouco, mas de forma anônima. Olhou pra mim, puf: coração disparado, bloqueio, derrota antecipada. Como é horrível sentir ódio de si mesmo, de sentir que ser tímido é uma condição problemática de ser sem nenhuma vantagem.

O corpo leva muito tempo. O corpo resiste ao QI e cultura, às leituras e estratégias, aos insights reveladores. Ele não se deixa dobrar às terapias milagrosas e nem a conclusões muito bonitas com o objetivo de mudar de rumo repentinamente. O corpo leva anos pra fazer um luto, por mais que a gente queira se encher de remédios e substituir o que foi perdido pelo modelo mais recente. O corpo leva anos pra adotar um gesto. O corpo não está nem aí se a condescendência das pessoas te incomoda, se você acha que merece mais, se você é o fodão em outra atividade. Assim como ele não está nem aí se você é um fracasso em tudo e gostaria que, naquele espaço, a história não se repetisse. O corpo leva anos para aprender uma simples respiração. Quem sabe o corpo do outro não, quem sabe o corpo do outro conquiste em três anos mais do que você conquistou em nove. Conquista sim que eu vi, com estes mesmos olhos do meu corpo. Mas acha que o corpo se importa? Ele vai continuar no ritmo dele. Lento, muuuuuito lento.

E ainda estou de mal com o fato de ser tão tímida.

falta muito

Alvo

alvo

Eu vi acontecer muitas vezes com outros e vi acontecendo comigo: a pessoa não acerta. Você fica calado, mas no fundo quer que a pessoa pergunte. Aí ela não pergunta, leva à sério o teu silêncio quando não deveria. Pergunta quando não era mais para perguntar. Ou pergunta, mas não faz a pergunta certa. Te conhece faz tempo, te viu agir e reagir, mas daquela vez você pretendia revolucionar e merecia uma confiança a mais. Não confia, se deixou levar por um histórico. Ou quem sabe… Aí eu me dei conta que o agir certo comigo era um ponto tão difícil de encontrar que era como acertar o centro de um tiro ao alvo. Existia 1% de agir certo, todo resto era decepcionante. Aí que eu vi que o problema era meu, de eu comigo – meus traumas, minhas expectativas, minhas dores. Num mundo cheio de motivações torpes, quem sabe o único que realmente se possa exigir do outro é que tente fazer seu melhor. Mesmo que o melhor nos caia mal, mesmo que o melhor nos exija demais.