Planetas maléficos e gente malvada

sun malefic

A astrologia ocidental, talvez contaminada pelo politicamente correto, tem abandonado os termos como “maléfico”, “detrimento”, “exílio”, “queda” para falar das posições dos planetas porque as pessoas ficam aborrecidas e nem sempre entendem o que quer dizer. A “queda” do Sol é em libra, ou seja, de todos os nascidos mais ou menos entre 21 de setembro a 21 de outubro; Júpiter está em “detrimento” em gêmeos, ou seja, ruim? Nos termos abandonados, Júpiter é o “grande benéfico” e Vênus “pequeno benéfico”, enquanto Saturno é o “grande maléfico” e Marte o “pequeno maléfico”. Para a astrologia védica, saber o que é maléfico ou benéfico é essencial. Já vi a metáfora que é ter amigos x inimigos, e que eles sejam poderosos x sem poder. A melhor combinação é amigo poderoso; se for para ser seu inimigo, melhor que seja sem poder; amigos sem poder até torcem por você, mas poucos podem ajudar; inimigos poderosos te fazem pensar duas vezes antes de sair de casa. Na astrologia védica: Mercúrio é neutro; Júpiter, Vênus e Lua benéficos; Saturno, Marte e Sol maléficos. Os planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão – não são levados em conta. Os benéficos são assim chamados porque te trazem coisas boas, de qualquer maneira e em qualquer posição; os maléficos também podem trazer bons resultados, mas mesmo quando estão “do seu lado”, os bons resultados só virão através de mérito, de esforço. Enquanto Júpiter é o queridinho de todos que expande tudo, às vezes a pessoa se torna otimista demais e não recebe tanto quanto imaginou; já o que vem de Saturno é garantido, seguro, gravado na pedra – o problema é que ele sempre demora pra entregar, é preciso trabalhar muito duro. E se a pessoa faltar com a ética, leva tapão.

Eu estava pensando nessa história de ter méritos para receber coisas boas. A primeira coisa que pensei é que ninguém se garante – se não pelo que fazemos agora, sabe-se-lá o que nossos ancestrais fizeram ou o que fizermos numa outra existência. A experiência nos mostra que ninguém sai da vida incólume. Lembrei dos vídeos e mensagens que eu tanta gente compartilhamos, todos os dias, com “lições”, com “pensamentos críticos”, querendo que as pessoas “acordem”. Num deles, que eu postei há poucos dias, um vídeo fala que as elites brasileiras não gostam de pobre e querem a manutenção da nossa imensa desigualdade social. Quando você usa o termo “elite”, que fala deles, é bem fácil; o difícil é ler e pensar “sou eu, elite brasileira, que não tenho feito nada para diminuir a pobreza”. Porque ninguém se vê assim, cada um se vê como uma pessoa que está tentando ser feliz, ficar bonito, formar uma família, ter uma carreira e ganhar um bom salário. Eu sei que as pessoas que eu penso quando posto um vídeo como aquele não se vêem assim.

O problema da tal falta de méritos, a mesma que não nos garante e nos faz levar pauladas da vida, é que nós não somos apenas o que fazemos e no que pensamos – o que não fazemos, não pensamos e não nos importamos talvez valha muito mais. O que não passa pela sua cabeça, as coisas para a qual você é cego porque não dá importância, o que você perpetua por ser cômodo e deixa as consequências pra lá – tudo isso também é maldade. Somos maus porque somos egoístas e somos egoístas por causa da nossa natureza. Somos egoístas porque temos um cérebro limitado, uma câmera interna que acompanha o nosso pequeno dia a dia e o de mais ninguém. Geramos consequências imprevistas o tempo todo. Por isso a vidinha simples de “quero apenas ser feliz e que os meus sejam felizes comigo” acaba sendo insuficiente. Levamos pancada e maléficos, e mesmo assim mal e mal olhamos pra fora do umbigo.

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As desventuras de Rodolfo

fale com o motorista

Uma mulher conversando com o motorista do Inter 2:

Dava vontade de nunca mais pisar no bairro, mas a minha mãe não sai de lá. A gente conhece todo mundo. Mas depois do que aconteceu a minha mãe ficou derrubada, ela parou de andar. Agora que ela voltou a andar, está andando bem devagarzinho, mas ela ficou de cama, não conseguia mais levantar. Depois ele arranjou outra. Ele estava saindo com essa moça, ela separada, vivia junto com o marido. Aí ela apareceu grávida. Rodolfo disse que era dele, a moça disse que era dele, e o marido disse que era dele, mesmo a moça dizendo que era do Rodolfo. Ele tentou matar o Rodolfo três vez. Ele chegou tirando o revolver, eu jogava meu corpo em cima, dizia pra não fazer isso, um forfé na rua. Ele dava um monte de tiro e não acertava a gente, atirava pro alto. Depois que a criança nasceu, fizeram DNA e era dele mesmo. A mulher voltou pra ele, estão juntos até hoje. Depois o Rodolfo ficou amigo dele, hoje ele é amigo nosso. Agora ele tá na cadeia. Justo agora, que tinha se acertado, não estava usando nada, estava limpo, estava namorando. Ele tava namorando uma moça com duas crianças, nenhuma dele. As crianças me chamam até de vó. O Rodolfo conseguiu o indulto e quando nós fomos buscar ele, ele já tinha saído no dia anterior. Ele saiu e foi direto pra casa da namorada. Aí já estavam procurando ele, ele saiu com a tornozeleira e tem um perímetro de onde eles avisam que vão ficar. E de lá já estava se preparando pra ir pro litoral, passou na casa da mãe só pra pegar roupa. Já tinha tudo acertado com outra namorada esperando ele por lá. Não podia porque estava fora do perímetro, o advogado foi lá e tirou o indulto. Isso matou ele.

Pela parede

ouvir parede
Eu sei que faz um ano porque foi na véspera do natal, mas parece realmente que foi ontem. Eu estava me enrolando para dormir, sentada no sofá, quando os vizinhos do lado começar a brigar. O quebra-pau foi tão grande e durou tantas horas, que o pessoal que mora no lado oposto deve ter ouvido também. Basicamente, a mãe havia fuxicado o celular da filha e descobriu que a adolescente e o namorado tinham conversas picantes. Ela gritava, dizia que tinha vontade de quebrar a cara da menina, que ela tinha de lhe dizer tudo o que fez com o namorado. Eu morri de pena. Minha vontade foi gritar aqui da parede: “olha, já que estou ouvindo tudo, quero dar minha opinião também”. A mãe levou como uma ofensa pessoal a filha estar numa idade cheia de hormônios e sentindo desejo pelo namorado. Conversei com várias pessoas – fiquei muito tensa – e elas foram unanimes em dizer que é pior negar e proibir.

Aí, na véspera do réveillon, teve outro quebra pau. Este não foi tão claro, era um griteiro que incluía, pai, mãe e filho. Parece que a mulher mexeu nas coisas do filho, que já é um homem e ajudava nas contas. Olha, a mulher não é fácil, já falei dela mais de uma vez aqui. Eu sei que pouco tempo depois pai e filho foram embora. Não sei como ela está, eu sei que do meu ponto de vista de vizinha ficou melhor. Se ela fica em casa chorando, é baixinho.

Esta mesma vizinha me lançou o olhar mais maldoso de todos os tempos quando eu me separei. Vocês não fazem ideia, o ar de vitória com que ela me olhou. Entre uma coisa e outra deve ter o quê, quatro anos? Agora que ela se separou, de um casamento que sempre foi péssimo, sempre teve brigas; o meu era silencioso e terminou antes, pacificamente. Não sei se ela se lembra do dia que me encontrou logo depois e estava claro que eu estava sozinha. Claro que lembra, o olhar deve ter sido apenas a ponta de uma iceberg de opiniões e comentários.

Por isso que às vezes eu penso no futuro, me preocupo, depois paro e abandono. Você vai estar isso, você vai estar aquilo, vai ganhar tanto, vai trabalhar não sei quantas horas – são apenas rótulos. Ela se sentia vitoriosa pelo quê, por ter um marido? Hoje ela deve achar que perdeu tempo, que eu que sabia o que estava fazendo e estou quatro anos livre na frente. Não importa a situação e sim você, seu sentimento, dentro dela.

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

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Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

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Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

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Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

2018, um ano sem firulas

eu interior

Eu lembro de um dos blogs que eu lia, do tempo que existiam apenas blogs para quem gostava de escrever, em que numa postagem o cara contava o quanto foi decepcionante quando se tornou pai. Ele não estava falando da paternidade em si, e sim do ritual da maternidade. A mulher dele teve as dores, eles foram juntos ao hospital, ele se sentou na sala de espera vazia e uma hora depois vieram avisá-lo que ele agora era pai. Ele falava da simplicidade da coisa, a falta até de uma música comovente e um close quando ele recebia a notícia. Meu 2018 foi assim. Um dia eu sentei diante do computador, como faço todos os dias, e decidi escrever algo totalmente diferente do que fiz durante anos. Fiz pra testar, achei bacana, e é isso. Pra mim foi um grande fato, mas não vim aqui dizer que uma editora aceitou e eu vou publicar e tal. Por enquanto foi só isso mesmo, a minha satisfação pessoal.

Outros fatos foram grandes pela sua ausência. A maneira como eu parei de surtar em resolver sozinha os problemas da casa. Por fora, nunca fui de grandes arroubos, mas por dentro era muito difícil; agora sei que com dinheiro e algum desconforto, tudo se resolve. Caminho a passos largos para virar uma Vulcana (estou falando do Spock de Star Trek) e achei bom. De tanto assistir histórias, minhas e dos outros, eu vi que sofrer por amor acaba sendo uma escolha, uma vontade de se sentir agente do destino. Se puder escolher passar um ano enrolada numa história com idas e voltas, noites de lágrimas, disputas, euforias e incertezas, ou passar o mesmo ano sem ver ninguém, mas com o humor e planos estáveis e precisos, qual você escolheria? Eu já descobri há algum tempo e neste ano pus largamente em prática que a sabedoria não é deixar de ter vontade de fazer certas coisas e sim decidir não fazer. É uma mistura de experiência, confiança no seu intelecto, mas também privação e auto-controle. Normalmente eu já leio e estudo muito; neste ano eu atingi altos patamares.

Como deu pra perceber, não foi um ano fácil. Mas foi o melhor com o que eu tinha em mãos.

Uma amizade com Marte

mars

Tudo começou quando Marte entrou em movimento retrógrado, no início do ano. Os astrólogos falando nisso, os grupos de whats falando nisso, explicações físicas e metafísicas. Fiquei sabendo que o planeta no movimento retrógrado – que é uma ilusão dada pelo ponto de vista da terra, porque nenhum planeta anda para trás – fica mais próximo da Terra, então seria mais fácil localizar Marte no céu. Eu o achei bem em cima da minha casa, olhando para cima quando estou na parte dos fundos, uma luz vermelha e imóvel no céu. Nos astrólogos: “Sabe porque está tão seco, sabe porque a agressividade no mundo? Marte”. Eu olhava para o céu todas as noites e pensava: você, hein. Depois me senti mal, ficar acusando uma luz bonita no céu. Conversamos. “E quando você se sentia só e deprimida, quando nada lhe dava prazer e mesmo assim você se levantava da cama e fazia tudo o que precisava ser feito, de onde vinha aquela força?” Aí eu entendi. o poder que a Astrologia descreve quando usa Marte no seu simbolismo.

Oh, rei! Marte excede na crueldade, é cortante como uma lâmina de cimitarra e vem tão furioso com qualquer que venha até ele com arrogância, que ele totalmente destrói a família desta pessoa e a prosperidade. Aqueles que vão até ele regularmente, com humildade, seguindo o ritual apropriado, ele abençoa com ganho de saúde e perda de doenças. O juramento de Marte alivia todas as dificuldades, especialmente essas de doenças, débitos e inimigos.

The Greatness of Saturn, cap.4: Mars

Na mesma época, eu soube que a noção de que a energia de Marte é o sujeito que vai no bar e bate em todo mundo é errada. Esta é uma forma de agressividade insegura, defensiva, como a do cachorro covarde que ataca. Um bom Marte é como pensar num samurai, alguém que tem um grande poder de destruição, tão certeiro que só é usado nos momentos precisos. Marte é força, se a humanidade se perde e não sabe o que fazer com ela, aí já é outra história.

Eu fiz, então, as pazes com Marte. Toda noite o cumprimentava nos fundos de casa. Às vezes lembrava de algumas coisas e concluía: vivi muito tempo contando apenas e tão somente com ele. Sedução de Vênus, confiança do Sol, sentimentalismo da Lua, prosperidade e sorte de Júpiter? Não, Marte. Quando soube que ele havia saído do seu movimento retrógrado e não seria mais tão visível, fui lá fora lamentar. Eu disse a ele: sentirei saudades.

Marte não está mais tão visível no céu, mas isso é pra vocês. Pra mim ele está sempre lá. Às vezes volto à noite e – como quem está distraído e olha na direção de quem o olha – eu olho pra cima e o vejo, Marte. Há noites em que apenas Marte está visível no céu, só ele na escuridão azul, e horas depois a noite fica inteira encoberta. Foi apenas para Marte demonstrar que me cuida.

Ideias perigosas e sedutoras

Adolescentes e mini adultos são uma raça difícil de lidar. As mesmas crianças correm na sua direção pra ganhar um abraço, poucos anos depois estão no sofá e desejam que você nem olhe para a cara delas, porque elas não olharão para a tua. Os critérios deles pra gostar de alguém às vezes são tão misteriosos como códigos de erros no Windows. Mas, no entanto, contra tudo o que normalmente estes seres são – implicantes, independentes, resistentes, prevenidos contra qualquer tipo de autoridade -, bastam alguns autores malvados esquerdistas e eles estão seduzidos e dispostos a pegar em armas. Precisam ser protegidos de tão sedutoras palavras, caem direitinho na conversa, aderem rapidamente, se vêem prestando atenção e querendo mais.

Sério mesmo que este tipo de descrição estranha não te faz morrer de vontade pra ver o que diz o tal do Paulo Freire, o tal do Manifesto Comunista? Num mundo que reduz informações a memes, quando muito a um documentário, que canto da sereia é esse capaz de converter justamente os seres humanos na sua fase mais insuportável? Tem que ver isso aí, tem que eliminar os intermediários e provar também. Ou o medo é aderir também?

Obs: minha intenção era postar o Capítulo 2.1, que é tão bonito e profundo. Pretendia com isso quebrar a resistência e dar ao leitor a vontade de conhecer mais. Ao mesmo tempo, entendo que se proteja a sequência da série porque ela é um raciocínio que vai num crescendo. Mas fica minha sugestão.

 

 

Tigrada

Se a pessoa, de uma hora pra outra, vê como se fossem mosquinhas, ou luzes, ou perde um quadrante da visão, pode ser descolamento de retina. Neste caso, ela deve ir imediatamente para um hospital de olhos, de onde vai direto pra operação. Imediatamente mesmo, do tipo largar tudo. Se marcar consulta, dormir pra ver no dia seguinte, já era. Muita gente na pesquisa que fiz sobre cegueira perdeu a visão assim, porque marcou consulta, esperou, ou seja, fez o procedimento normal. No descolamento uma membrana no olho se rompe e o líquido invade onde não deveria, então imaginem com que rapidez acontece.

Pois. Fui na super oftalmo para afastar as nóias que de vez em quando me aparecem, apesar de ter um grau de miopia bem baixo. Tudo porque tenho histórico de descolamento de retina na família. E tem que ser ela e não um médico qualquer do plano. Quando eu estava com os olhos dilatados, a médica tirou foto do meu fundo de olho – “só porque eu sei que você está preocupada”. Ela me deu as fotos e me explicou: nenhum fundo de olho é igual ao outro, igual digital. A pessoa albina tem um fundo de olho claro. O fundo do meu olho esquerdo tem um várias linhas, é um “olho tigrado”. Isto quer dizer que lá atrás, de algum lugar que eu não conheço e ninguém nem sabe, eu tenho um ancestral negro.

fundo do olho esquerdo

Fundo do meu olho esquerdo. Olha que foto mais íntima, muito mais do que foto de biquíni.

Fiquei feliz. Que meu ancestral negro me garanta um olho forte e saudável, que me permita fazer tudo o que eu quiser na minha vida.

Quando é de noite

lua cheia

Eu soube que você está passando pela noite. Não deveria saber, mas sei. Você não me procurou, mas eu te amo e tenho vontade de dizer algo. Infelizmente não há nada muito sábio que possa ser dito, nenhum conselho permanente, nada que consiga diminuir o largo tempo que você tem pela frente. Quando me disseram que leva anos, achei pessimista, quis que retificassem e que, se fosse determinada na minha luta, em poucos meses seria possível estar nova em folha. Hoje acho importante dizer que leva anos, e que é até um otimismo: daqui há alguns meses, você já se sentirá melhor do que hoje – e pior do que depois de amanhã. Há um ponto em que o perigo de se matar passou, mas ainda não é propriamente felicidade. O animador de dizer que leva anos é isso, quero que você saiba que você vai achar que o estado de superação de um possível suicídio junto com a não-felicidade já é sinal, já é o seu novo eu. Ainda não é. Cada dia é uma luta. São quatro passos para frente, seguidos de três para trás, às vezes até quatro. Parece que está tudo bem e uma bobagem te joga de novo no chão. É a sensação de tentar cavar um túnel com uma colher. São passos tão pequenos seguidos de quedas tão grandes que parece impossível. Não é, só leva tempo.

Dos conselhos que ouvi, dois foram que eu deveria me manter o mais ocupada que pudesse e um fosse que eu sobrevivesse ao luto. SOBREVIVA AO LUTO. Ninguém nem entra no detalhe, ninguém pergunta muito o que aconteceu; nossa tragédia é sempre tão nossa, na porta que é trancada no final do dia e ninguém mais vai entrar, na luz que nós mesmos apagamos pela casa. O que poderia eu acrescentar, se a pior parte do caminho é inalienavelmente teu e solitário? Eu te diria que olhar pro céu ajuda. Sem perceber, nesse estado de espírito olhamos sempre pro chão. Obrigue-se a levantar a cabeça, olhe para as árvores e as fachadas das construções. Por algum mecanismo psicológico profundo, ajuda. Existem vários métodos, e na verdade você precisará descobrir e usar todos. Tem dias que você precisará andar. Dias que precisará gastar. Dias de comer doce. Dias de ver séries. Dê as compensações necessárias, se trate bem, não se exija demais. Apenas tenha o auto-controle necessário para não criar problemas ainda maiores. Cuide para não engravidar ninguém, pegar doenças venéreas, acabar com a saúde, perder o emprego, torrar as economias. De resto, é assim mesmo.

Não sei como os extrovertidos se sentem, mas na minha noite eu perco a capacidade de estar só. Ter que estar perto dos outros por não conseguir ficar em silêncio comigo mesma é o pior castigo que pode existir. Depois de um certo ponto, a dor não é mais chorável, ela é apenas um poço que deve ser evitado. Eu não sei se você a conhecia, a dor atávica maior do que o choro; sem dúvida agora conhece… Eu sei que você não antecipou que seria assim, achou que não teria importância – você é foda, nem queria mesmo, etc. Existem dores na vida que nos modificam para sempre e você nunca mais será o mesmo. O próprio esforço de se manter de pé e não descarrilar com a dor nos tornam diferentes. Agora é o momento, agora é o ponto zero. Sobreviva ao luto. Prepare a terra. Tenha fé nas sementes.

Vida monástica

Monk

Eu tinha vontade de entrar num mosteiro quando eu era xóven. Escrevo isso e constato que realmente há uma sabedoria em desejos que temos quando muito jovens, embora na época não se tenha clareza do porquê acertamos. Eu responderia, antes, que era pela minha atração pela filosofia, mantras, devoção. Hoje eu penso que já sabia do quanto há algo bem inadaptado e inadaptável em mim. Minha vontade foi séria o suficiente para eu declarar isso a um amigo que, como é uma constante na minha vida, era bem mais velho do que eu. Ele me disse que se era realmente a solidão que eu amava, o que eu deveria fazer é ter uma vida comum. Num mosteiro, eu estaria sempre cercada de pessoas e hierarquia; já o homem comum, depois do expediente pode apenas sumir – ninguém sabe de ninguém, a não ser que ele se esforce pra tal, ninguém sente sua falta. Amargo e verdadeiro.

Torneira

torneira-pingando-vazandoEu tenho um vizinho de confiança pra as emergências da casa. Ele tem uma empresa disso e mora na frente. Mando zap pra ele, que se não pode me atender na hora manda alguém. Num fim de semana uma torneira começou a pingar. Esperei passar o fim de semana e mandei um texto bem leve, dizendo que era coisa rápida, que quando ele pudesse. Tudo pra não ter que pagar como urgência. Ele esqueceu, eu tive que comprar tela nova do computador, ele me encontrou saindo de casa e pediu desculpas e eu falei que foi até bom, porque tinha ficado sem dinheiro e seria melhor esperar uns quinze dias. Passaram os dias, mandei mensagem dizendo que agora dava, ele estava ocupado na hora. Um dia estava voltando com compras e ele me surpreendeu aqui no portão, disse que não esqueceu. Vou confessar: tenho resistência. Resistência a ele ter que passar pelo meu quarto e eu tenho que me preparar e arrumar a cama, que sempre fica aberta por causa da história de que assim acumula menos ácaro. Mas, principalmente, tenho meus pudores porque aqui em casa não se anda de sapato. Quando vem um prestador de serviço não tenho coragem de exigir, o que me faz limpar o chão imediatamente depois. É a minha única mania mais séria de limpeza, já me peguei limpado chão de madrugada. De um lado quero arrumar a torneira e de outro um dia já limpei o chão, outro dia estou com preguiça. Então falei pra ele com toda tranquilidade que não tinha pressa, é coisa simples, tudo bem. Resultado: já faz um mês que estou com a ridícula situação de nunca abrir uma torneira. A outra está quase começando a ficar pinga-pinga também. E quando eu penso em apressa-lo, lembro da cama e do chão. É neurose o nome, eu sei.

Desculpa, Buda

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Minha amiga Julie fez uma longa viagem pela Tailândia e outros países orientais e eu acompanhei tudo pelo Instagram. Em um dos seus primeiros passeios pelos dourados templos budistas, ela tirou foto de uma placa com um recado intenso em inglês e tailandês. Não me esqueço da foto de uma cabeça de Buda como base de um abajur. Na placa dizia que é extremamente desrespeitoso ter aquele tipo de objeto. Que se você tiver uma imagem de Buda, é para colocar num altar, com reverência. Buda não é simples estatueta bonitinha, é um símbolo religioso. Eu, ela, outras pessoas que viram a placa, nunca havíamos em Budas decorativos como desrespeito. Imagine o quanto nós não ficaríamos chocados se víssemos, por exemplo, um Cristo crucificado com calço de porta.

Agora meus olhos pousam em qualquer Buda e lembro – e mando uma carinha triste pra Julie. Sempre achei aquelas cabeças de Buda bonitas e não comprei por puro acaso (aka, falta de grana). Sou dessas que não consegue fingir que não viu. Nem comecei, mas Buda decorativo nunca mais.

Pessoas, cachorros e indiferentes

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Eu entrei há poucos dias num aplicativo que é tipo um karaokê. Tem opção paga e você canta o que quiser. Na gratuita, que é a que eu uso, só se pode entrar pra cantar na música dos outros. Mal estou lá e já me apeguei às pessoas. Tem um que fala “éramos todos jovens” antes de cada música, na sua maioria da Jovem Guarda. Tem o japonês louco e deixa tudo com ritmo de rock e a gente se esgoela. Tem o rapaz sexy. Tem o de inglês péssimo que escolhe músicas dificílimas, que eu nunca me proporia sozinha, e a falta de pudores dele me estimula. Assim como tem gente tentando cantar bossa nova e é interessante perceber quais as partes difíceis para outras línguas.

Tem os cobradores do tubo que se revezam. Tem os vendedores Manassés. Nunca mais encontrei a médica que vai conversando até o hospital, sempre reclamando. Tem a mulher que sempre puxa papo com a mais madame que encontra no ônibus. Os papos dos universitários. O pessoal que desce na favela. As pessoas que têm problemas de locomoção e atravancam toda saída. As mulheres que riem alto no ônibus de manhã cedo. Adolescentes barulhentos. Riquinhos de GPS. O cobrador politizado que vai conversando com o motorista até o terminal. A maluca com problema nos olhos.

Humanidade se acha grandes coisas, mas somos igualzinho cachorro: basta fazer algo juntos que cria laço.

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Quando vejo notícias de pessoas sem médico ou queimadas pelo preço alto do gás, sempre me esforço pra pensar no pessoal do ônibus. Tenho visto tanta indiferença e tenho medo de ficar assim, de perder a minha humanidade. Vejo e penso que se não faria pessoalmente a nenhum deles, então não posso deixar fazer a outra pessoa apenas porque não está sob meus olhos. Nenhum sofrimento humano deve ser pouco, ninguém pode ser reduzido a uma estatística.

 

Combinação alérgica

lambretas

Estava na praia com meu pai e um dos amigos das antigas dele, da época que ambos eram fodões (Desculpe o termo, mas acho que nada define tão bem esse passado deles). Chegou uma porção de lambretas, iguaria comum naquelas bandas que eu devorava quando era criança. Só eu e o meu pai nos atracamos nela; deu para ver que o amigo também gostava muito. Aí ele me contou que, na época que trabalhava, tinha uma alergia persistente nas mãos. A mão era tomada pela coceira e ele ficava constrangido, evitava ao máximo estender a mão para cumprimentar as pessoas. Isto, somado à função que exercia, contribuía para deixá-lo com fama de antipático. Ele procurou tudo quanto é médico, fez testes alérgicos, e o mais próximo que conseguiram chegar é que ele tinha alergia a frutos do mar. Ele não aceitou aquilo pacificamente, não apenas por gostar muito de frutos do mar, mas também por comer muito e perceber que não era tudo o que fazia mal. Cansado de ficar com a mão daquele jeito, fez experiências, cortando ora uma coisa e ora outra, até que ele descobriu que o caso dele era bem específico: ele tinha alergia a misturar lambreta com outros frutos do mar. Se ele comesse só a lambreta, tudo bem. Mas se tivesse comido outro peixe, como havíamos acabado de fazer, ele ficava pipocado. Depois que descobriu e criou esse regra, nunca mais teve problemas e a mão dele estava limpa.

Eu descobri sem querer que o extrato de tomate estava me fazendo mal. Cólica, enxaqueca, sintomas digestivos. Eu tinha uns três alimentos na lista de prováveis causadores. Parei com o molho sugo e, além de nunca mais passar mal, vi minhas alergias de pele recuarem mais de 90%. Estava uma catástrofe por causa da eleição. Não sei se é tomate em geral, se com tomate não-orgânico eu teria problemas, se é com o molho enlatado, não me dispus a sofrer mais e apenas parei. Quem tem alergia de contato sabe o quanto é difícil; quem sabe meu caso ajude alguém.

Guarda-roupa

guarda roupa

Minha tia preferida passou um período morando na casa do meu pai, em Salvador, e depois voltou para São Paulo. Sobre o período, ela me disse uma vez: “bem quando eu tinha conseguido fazer um excelente guarda-roupa, deixei de usar todos os meus casacos”. Olha, difícil. Eu considero que até hoje não montei o guarda-roupa que eu queria pra Curitiba, que me garanta estar à vontade quando é pra ficar à vontade e elegante nos momentos elegantes, ainda estou chegando lá. Semana passada eu fui mandar a minha bicicleta pra fazer uma revisão, algo que exige de mim uma programação extra, porque normalmente ando de bicicleta com roupa berrante e elastano e se deixo a bicicleta pra ir de ônibus (e vice-versa), preciso de algo intermediário. Naquele dia me programei, pronta para pagar pros freios novos e quem sabe até pneu. O cara foi sincero e me disse que não precisava, ela estava excelente. Deixei ela lá pra fazer a super limpeza e revisão, considero que é o meu IPVA. Paguei, perguntei se não precisava pegar uma ficha, algo que descrevesse qual delas era a minha bicicleta. “Imagina, você já é de casa”, ele me disse. Não esperava, eu passo lá poucas vezes por ano. De roupa mais ou menos berrante e colante, fui comer no posto de gasolina de sempre; agora eles olham pra mim e já vão pegando o café e o pão de queijo de provolone. Tem o vizinho que conserta coisas, o pão de queijo certo, a turma de que topa confraternização na data que eu propus, a turma que marca segunda confraternização pra eu ir, o verdureiro que dá as dicas, a loja de bike de confiança… Enquanto mordendo o pão de queijo quentinho, pensei: o que a vida vai me aprontar agora? Porque ela é assim, não pode ver um guarda-roupa ajeitadinho que manda a gente pra longe.