O Popular

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Tem uma crônica do Veríssimo com esse nome, que não quer dizer um sujeito muito amado e sim o cidadão que sai nas notícias, “populares cercaram o local”, etc. Aí Veríssimo vai indo, diz que o sujeito está segurando um pacote, que aparece no canto das fotos, que se um dia tentam pegar o popular ele escapa, o verdadeiro Popular é o outro que está assistindo o primeiro ser preso. É uma crítica, na verdade, da multidão passiva que não se posiciona. Independente da crítica, talvez por ter lido a crônica muito jovem, sempre mantive a figura do Popular com seu pacote na minha cabeça e enxergo procuro por ele no plano de fundo dos entrevistados na rua.

Tempos desses assisti sem querer um ritual importante, e quando fui parabenizar a pessoa que, digamos assim, ganhou o cargo, ela me perguntou quando é que eu me juntaria a eles. Eu sorri e disse que não me juntaria. No post retrasado lembrei do meu histórico de visitante de igrejas. Fui à várias, na esperança de ver coisas diferentes, e quando me convenci que era tudo meio igual perdeu a graça. Ganhava livro sagrado, me punham em listas, me chamavam pra festas, grupos de jovens, todo tipo de pressão sutil ou não sutil e jamais conseguiram. Sorria, desconversava, fingia que não percebia. Mais antigo ainda, lembro quando minha vizinha tinha com mais duas amigas um grupo que ensaiava coreografia da Xuxa para apresentar nas festas da família. Os ensaios eram secretos, para manter o suspense. A única exceção era eu, que podia assistir todos.

Cara, eu sou O Popular.

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Horas preciosas

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Tem vezes que te acontece uma coisa que te estraga não apenas o dia inteiro mas também a semana. Pior ainda quando acontece na segunda, você ainda tem mais quatro dias pela frente e está com as energias totalmente esgotadas. Às vezes é uma bobagem, o cruzar com um idiota no Facebook, ler comentários dos sites de notícias. Não consola mas é totalmente justo naqueles dias que você mal coloca a bunda na cadeira, de tanta coisa que tem para resolver. Às vezes o resolver é ficar no telefone, em vários telefonemas ou apenas um longo repetir de dados para um telemarketing. Pode ser passar correndo no banco, porque não instalou o itoken ou descobre uma taxa de 17 reais por algo totalmente online e sem custo para eles. Quando não se acha vaga pra estacionar. Quando a loja fecha e com ela o único lugar da cidade que você sabia que vendia aquele produto. Ao encontrar um amigo que te pergunta o que você fez, e a resposta é: atendi o cara da net e fica parecendo que você não fez nada. Mas esperar, não ficar à vontade, prender o cachorro e ficar cuidando te consumiu horas. O problema que é hoje em dia quando se precisa de um correio. Os cartórios, as pessoas se demoram em caixas eletrônicos, o horário de rush na padaria e demais coisas do demo. Horas preciosas. A pessoa com problema no joelho que surge na sua frente bem quando você está com pressa. Ou ser a pessoa com problema no joelho. Dormir tarde já com o cálculo das horas de sono em a ver. A resposta que não chega nunca. Os astros que só acertam as previsões ruins. Errar de roupa, sair encalorado demais ou de menos, chegar em casa exausto e suado com qualquer um das duas. O dia de trocar toalhas e roupas de cama. As milhares de folhinhas de maço de coentro. As contas que se renovam, o cabelo que precisa de outro corte. Estar preocupado com alguém que você ama. Agora, quando.

Libertária, eu?

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Uma vez eu estava com um amigo e uma amiga, numa mesa, e os dois falaram que já haviam feito sexo à três. Outra vez, com duas amigas, que não tem nada a ver com os dois anteriores, falaram que já posaram nuas. São momentos que eu olho para as pessoas e me pergunto se tenho amigos muito arrojados ou eu que sou muito antiga. Pior que eu sei qual a resposta. Passei pela adolescência e faculdade sem que jamais tenham me oferecido droga, nem um reles cigarrinho, nem ao menos soube quem usava ou não. Era tão claramente perda de tempo que ninguém se deu ao trabalho. Se eu nem ao menos bebo – do melhor vinho do porto à mais docinha e suave sangria, pra tudo eu faço careta igual criança, acho horrível. Tudo em mim grita tanto bom comportamento, que pessoas que frequentam igreja sentem uma vontade irresistível de me levar pra elas. Durante muito tempo até aceitei os convites, movida por pura curiosidade antropológica. O cálculo deles é que eu já não bebia, fumava ou saía e já me visto de maneira comportada, então estar fisicamente numa igreja é o de menos. E sabe a loucura que dá depois da separação, a liberdade, as baladas, a idade da loba? Nadinha.

Eu poderia fazer uma lista do meu bom mocismo e comportamento recatado. Caso alguém tivesse vontade de me conhecer através do blog, fecharia a janela na hora e enterraria a ideia pra sempre, convencido de que sou uma mala sem alça – e quem disse que não? O que me surpreende é que alguém como eu se veja alçada à posição de libertária. Que seja a que defenda o descrito como chocante e destruidor da família brasileira. A favorável às vozes que nem deveriam existir. Que nessas alturas da vida tenha que defender coisas que nunca fiz e nem nunca vou fazer porque sei que o meu comportamento não deve pautar o dos outros.  Eu tenho todo perfil pra ser reacionária e não sei se vocês vão entender o que direi agora: estou ressentida de não poder ser. O libertário precisaria de pessoas melhores em suas fileiras. Mas sei que a culpa não é minha – o conservador que migrou para as raias do absurdo.

Minha Dudu

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Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Aquelas long neck

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Nunca contei essa história, que já deve fazer uns dois anos. Eu estava voltando no ônibus de sempre, tarde da noite como sempre e havia um mulher sentada atrás de mim falando no celular. Eu estava esparramada na cadeira, muito cansada. O ônibus estava silencioso e a conversa dela se misturava com as luzes dos postes. Do outro lado da linha, ele lhe disse que estava esperando e ela disse que ele deveria dormir, que não precisava. Ele acordaria cedo amanhã. Ele não apenas esperava por ela como tinha deixado um prato de comida separado. E ela tinha uns chocolates escondidos e contou onde estavam. Ela lhe disse que as cervejas long neck entraram em promoção no supermercado onde ela trabalhava. Naquele fim de semana eles podiam comprar, dividir, fazerem a festinha deles. Quando saí do ônibus não resisti em olhar para trás e vi uma mulher simples, meia idade, acima do peso, aparência cansada.

O que me impediu de contar até hoje e que se confirma quando leio o parágrafo acima é o fato de não conseguir expressar o quão doce era o tom daquela conversa, os gestos simples e carinhosos que se podia adivinhar de ambos. Penso nos dois com suas long neck como champanhes e o seu amor tão precioso.

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.

Curtas do conhecimento

É outra coisa comprar verdura com o verdureiro do bairro, ao invés da gôndola fria e impessoal do supermercado. Agora eu sei que o coentro só pode ser colhido se na noite anterior não choveu, senão as folhinhas apodrecem. Que a mandioca boa só é colhida nos meses que não têm R – maio, junho, julho e agosto. Agora a mais impressionante: toda maçã que nós estamos comendo foram colhidas até maio. Eles congelam as maçãs meio verdes e ficam tirando do freezer o resto do ano.

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Admiro muito mulheres que estão sempre por dentro do seu ciclo menstrual e quando a data se aproxima estão prevenidas, até com absorvente na bolsa. Para mim, é sempre que vou ao banheiro e olho para a calcinha: “E esse sangue!? Será que eu estou doente, estou com hemorroidas, estou com câncer? Porque menstruação não pode ser, não deve fazer nem uma semana que acabou a última!”

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Deixei o youtube rodando MPB e apareceu este vídeo. Minha primeira reação foi achar que fiz uma grande descoberta e quis anunciar pra todos meus amigos. Depois me toquei que sou tão desatualizada musicalmente que o mais provável é que a moça já tenha tema na novela e participação no show da Ivete. De qualquer maneira, para mim foi uma descoberta. E sotaque português me derrete.

Trauma da fome

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Eu tive até que pedir oração na igreja por causa do trauma que eu tenho de passar fome. Eu saía do trabalho e qualquer dinheiro que eu tinha eu ia pro supermercado comprar comida. Minha filha dizia “para, mãe, vai encher de caruncho!”. Eu estava com vinte e seis sacos de arroz e trinta de feijão. Peguei os bons, coloquei em garrafa pet e tampei bem, os outros eu joguei fora. Doeu. De saco de macarrão eu tinha mais de quarenta. Aí eu parei. Mas agora está voltando.

Ouvi uma noite dessas, no ônibus.

Homo sapiens

Nos primeiros ajuntamentos de Homo sapiens o material genético era distribuído sexualmente entre diversos parceiros, de maneira a gerar com comprometimento coletivo com a prole ou sempre houve um desejo exclusivo de proteger o seu próprio, por isso o atual predomínio da monogamia? Cada vez que esse tipo de questão é colocada, um historiador, um sociólogo ou qualquer estudioso da área de humanas sente um arrepio na nuca. Quando surge a proposta de fazer uma macro história, de tentar adivinhar os comportamentos do ancestrais que não deixaram escritos, é muito comum apelar por um biologicismo rasteiro, que pega o que convém de diversas espécies e com isso tenta justificar o que há de pior na humanidade. Harari corrige tal posicionamento em poucas palavras:

Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades. (Sapiens: uma breve história da humanidade)

Também pudera, Harari é historiador. E fala, nesta entrevista, de uma maneira tão simples do surgimento do seu primeiro best seller mundial (o já citado Sapiens) que nem fica parecendo que o livro é brilhante. Se você tem preconceito com best sellers, supere, porque de quando em quando eles têm razão de ser. Harari, para reconstruir a história da humanidade, encadeia fatos que a princípio não são novidade e com eles gera insights deslumbrantes. Por favor, consumam.

E por falar em uísque…

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Ele era motorista de uma empresa e vendia uísque falsificado para casas noturnas. Para elas, dizia que era um uísque que comprava do Paraguai, mas na verdade ele vinha de São Paulo. Uns caras falsificavam embalagens e envasavam. Quando levava para os compradores, tinha que ter cuidado até para não balançar a garrafa, senão o conteúdo fazia bolhas. Os quarenta reais que os clientes gastavam em uma única dose era o mesmo valor da garrafa para os donos dos bares, e dos quarenta, dez ficavam com ele – sabe lá Deus o preço de custo para o pessoal de São Paulo. Com o valor do contrabando, muito maior do que o seu salário, em seis meses o motorista pode quitar a sua casa e o carro. Numa noite, um completo estranho bateu à sua porta, dizendo que soube que ele vendia uísque falsificado e queria comprar dele. Desconfiado, o motorista negou tudo, fechou a porta na cara do sujeito e passou a noite em claro. Só poderia ser a polícia, que descobriu o seu esquema. Decidiu ali se conformar com que já havia ganhado e que o excesso de ambição poderia lhe custar a liberdade. No dia seguinte, voltou a ser apenas um motorista.

Ciganos e o capital simbólico

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Num dos meus trechos preferidos do meu romance preferido, Orlando, protagonista do livro com o mesmo nome, da Virginia Woolf, está vivendo entre ciganos e, como nobre que era, não resiste e começa a falar de sua família. Porque desvestir títulos por fora é fácil, quase uma brincadeira, enquanto algo dentro de nós assiste como uma novela ou vê na pseudo-humildade um motivo ainda maior de orgulho. Então Orlando começa a falar dos seus títulos de nobreza, que remetiam a-não-sei-quantos séculos, das propriedades e castelos, de não-sei-quantos alqueires. E ao invés de deixar os ciganos admirados, eles ficam com vergonha alheia. Transcrevo o trecho porque é demais:

E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howard e Plantagenetas não era melhor nem pior do que a dos Smith e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se em redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque – entendeu Orlando – não era mais do que um aproveitador ou um ladrão, que arrebatava terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensava em coisa melhor que construir trezentos e sessenta e cinco dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que os seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche. [p.87]

O conceito de capital simbólico, de Bourdieu, nos diz que existem diferentes grupos dentro da sociedade, e cada um desses grupos possui seu próprio sistema de valores. Há sim o capital como dinheiro, para quase tudo e todo mundo, mas há também símbolos e maneiras muito próprias de atribuir valor que podem não fazer o menor sentido para outros grupos. Por exemplo: no balé, a rotação da coxa para fora e o formato dos pés tem uma importância definitiva, e ela não faz o menor sentido não apenas no mundo lá fora como em qualquer outra dança. É o que acontece com Orlando, que vai pra uma alteridade tão radical que o que para ela era valor se torna vergonhoso diante dos ciganos. E em alteridades não tão radicais, penso em ocasiões em que a pessoa se aproxima de você pensando que algo vai soar como valor e tem o efeito contrário. Como aquele que se gaba do carro pro ecologista, da churrascaria pro vegano, dos hábitos libertários para o puritano. Uma vez eu estava numa fila de balada e um sujeito se gabou de ser do Clube do Uísque, ou seja, ele tinha a própria garrafa dele no bar. Não consigo pensar em algo pior que um homem possa me dizer – eu não suporto cheiro de álcool.

Que Bourdieu me perdoe o psicologismo, mas concluo que a inveja só é possível dentro do mesmo capital simbólico.

Eu estava no último ano de faculdade e durante algumas semanas fui muito amiga de um psicanalista argentino. Lembro de ter lhe dito que não sabia muito o que fazer, que como poderia ser psicóloga, que não tinha nada a dizer para as pessoas porque eu mesma não sabia de nada. Ele respondeu que achava que eu seria uma boa psicóloga justamente por isso. Mas eu não me tornei psicóloga.

escada na sombra

Ela se sentou ao meu lado e me disse coisas tão difíceis, que eu não imaginei que ouviria. Eu gostaria de ter podido dizer alguma coisa. Mas acho que ela me procurou porque sabia que eu não diria.

Pequena schadenfreud

Aqui o que é schadenfreud, caso você ignore o termo.

De um lado eu tenho uma clínica cheia de crianças e de outros os vizinhos mais chatos do universo. Como era de se esperar, a clínica causa um certo movimento na minha rua. Raramente entro e saio de casa sem algum público (a cara das crianças quando estou de bike!), enquanto eles esperam ao lado da campainha. Depois deles, vivo jogando fora papéis de bala e outros tipos de embalagens de comidas típicas para crianças – não sei se os pais não se importam que elas joguem embalagens no chão ou se saem voando de dentro dos carros. Mas não me importo, de verdade, porque toda essa frequência faz a alegria da Dúnia e o barulho cessa quando anoitece, melhor vizinho do mundo quando as paredes que dividem as casas são finas. Já dos outros, os malas, já falei diversas vezes aqui, tão detestados que foram os únicos que jamais foram convidados para entrar no grupo de whats do bairro. Grupo de whats, aliás, que vivo pensando em abandonar. Ele foi criado com o propósito único de comunicar emergências e é fonte constante de barracos. Penso em largar porque só tem barracos. Permaneço porque só tem barracos.

Os meus vizinhos malas têm dois carros e são completamente neuróticos com eles, como em tudo. O ritual é chegar em casa e buzinar – a buzina mais estridente do universo – para que as pessoas que estão dentro de casa desliguem o alarme. Porque eles são tão neuróticos que alguém tem sempre que ficar dentro de casa e o sistema de segurança só é desligado no curto intervalo de entrar e sair de casa. Assim que amanhece, tão cedo que nunca cheguei a ver, um carro é retirado da garagem e fica estacionado na frente do terreno, para ser recolocado por volta das onze da noite. Só que nossos terrenos não são assim tão grandes, então estacionar na rua em frente do terreno deles sem impedir a garagem faz com que o carro fique alguns centímetros na frente do meu terreno, coisa que evidentemente eu não ligo. Já mencionei que eles são neuróticos? Então, de vez em quando aparece um prestador de serviço ou um cliente da clínica, alguém que nem tem a intenção de ficar muito, e estacionam na frente da minha casa. Só que de vez em quando os vizinhos chegam com seu segundo carro e encontram outro carro ali, na frente do MEU terreno, mas invadindo o terreno deles naqueles poucos centímetros. Vocês não fazem ideia do drama. Buzinam nem parar, esbravejam, dão a volta na quadra. O outro carro precisa ser removido, mesmo com o resto da rua inteira e a própria garagem à disposição. Eu apenas

cachorro com fogo