O inconsciente tem seus truques. Eu estava indo ao supermercado,

porquinho com robozinho

…passei pelo mesmo lugar de sempre, ninguém no meu caminho e me veio uma lembrança totalmente esquecida há mais de vinte anos. Um sujeito que eu vi algumas vezes pelo corredor, durante a faculdade. Eu tinha um amigo carioca, que tinha sido do exército, era mais velho, ele era o safo da turma. O tal cara era amigo dele, mais safo ainda. O carioca tinha entrado comigo e reprovou uma matéria importante e ficou para trás. Por algum motivo que eu não lembro, fui fazer um trabalho com ele e outras pessoas da turma com que ele estava. Eu me senti naqueles filmes americanos de adolescente. Ficamos juntos umas dez horas no sábado, mais umas tantas no domingo. Conversamos, trabalhamos, comemos pizza, passamos no supermercado, ligamos para casa, rachamos táxi, trocamos confidências, aconteceu um monte de coisas e me diverti muito. No meio de tudo isso estava o tal cara e ele passou o fim de semana me dando indiretas e o carioca disse que o amigo dele queria me dar uns pegas. Eu fiquei lisonjeada, guardei no coração e não quis. Fui bem trágica nas minhas conclusões: eu não conseguiria dizer não, ficaria apaixonada, ele me maltrataria, dia seguinte o curso inteiro saberia o que eu topo ou não na cama. Na época, não pensei em nenhum momento que poderia ser diferente, que eu poderia não ir até o fim ou que ele pudesse não ser um canalha. Mesmo hoje, ainda acho que ele seria um canalha – mas que talvez se eu tivesse sofrido na mão dele, pelo menos teria sofrido na época certa. Pensei no quanto eu fui desproporcional e ao mesmo tempo tão tipicamente eu. Não é o conselho que eu daria pra alguém, mas mesmo hoje teria meus receios. Pensei na continuidade de quem somos, sempre, mesmo vinte anos depois. Ao mesmo tempo, antes eu sofria e agora tenho uma aceitação tão grande do meu ritmo e minha incapacidade de adaptação. Dei um abraço em mim mesma.

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Curtas sobre inveja

1-inveja

Eu tenho o livro da Coleção Plenos Pecados sobre Inveja. Tenho por motivos sentimentais, porque a história em si não me conquistou. Ela mistura dados estatísticos com uma história nada convincente. Nesses dados, eu lembro, fala do quanto a inveja é sempre um sentimento dos outros. Já Elena Ferrante faz quase um tratado sobre inveja e me pergunto se ela tinha consciência disso ao escrever.

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Tem umas santas informais em Curitiba, e um dia passou a história de uma delas, que era uma empregada maltratada pela patroa. A patroa era ruim com ela como madrasta de contos de fadas. E apesar de maltratar a menina de todas as formas, ela ainda lavava roupa cantando, o que enfurecia a patroa. Quando tenta tirar tudo de alguém, tudo o que está a seu alcance, o que o invejoso tenta é tirar a alegria.

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O que me faz voltar a frase mais fabulosa de todas, já falei dela aqui, do Kibe: o que querem é perceber que você sentiu o golpe.

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Obviedade não tão óbvia que me falaram: a inveja nunca é do ter e sim do ser. Realmente. Se fosse assim, só teria gente invejando quem tem Ferrari, não quem anda de ônibus, falando a grosso modo. O invejoso pode dizer para si mesmo que o problema é o emprego, sorte, beleza e etc que ele não tem, mas essa seria a segunda camada. Por ordem: achar que não tem inveja, achar que tem inveja de algo exterior, inveja do ser.

Cantadas

bianca del rio

Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

A Foto

Cada um tem uma foto que é A Foto. Pense bem: Chopin pra gente é aquele pintado por Delacroix, mesmo com tantos outros quadros e desenhos que o representam fielmente. A mística H.P. Blavatsky é a senhora de olhar firme, como se nunca tivesse sido jovem. Camus fuma, definitivamente. E por aí vai. Acho que o tema me chamou atenção pela primeira vez com uma amiga que tirava centenas de fotos antes de postar no Orkut. Ela corrigia tanto – “nessa eu saí com o cabelo meio feio”, “nessa eu não gostei do meu olho esquerdo”, “essa ficaria melhor se minha cabeça estivesse mais inclinada” – que eu não aparecia mais em fotos com ela, eu desistia. E do álbum de fotos exaustivamente trabalhado dessa amiga, a única foto que eu realmente gostava era uma que ela mantinha quase que por educação, tirada por um amigo de infância. Eles estavam conversando na cozinha, ele contou algo engraçado, ela baixou a cabeça rindo e ele clicou. Era tão dela aquela forma de rir, eu achava linda. Naquela foto ela via o cabelo desgrenhado, a roupa de ficar em casa, os azulejos, enfim, nada da diva que gostava de projetar. Já eu enxergava a minha amiga.

Foi isso que me fez descobrir que A Foto quase nunca é a foto preferida de quem aparece. Porque A Foto nunca é a do nosso melhor ângulo, o nosso sorriso perfeito, a roupa de festa. A foto que nos eternizará é aquela que dirá alguma coisa aos outros, a que dará uma biografia numa única imagem. Olho para as minhas fotos e me pergunto se tal foto minha já foi tirada, qual delas é. Ou, se ainda não foi, o que ainda falta revelar. Pode ser algo que eu não gosto, pode ser algo que eu ainda nem sou…

É mais fácil

Cirurgiões plásticos seguem certas regras de beleza. No nariz, eu sei que a medida ideal coloca o canto das narinas na mesma linha do canto dos olhos. Os peitos ideais, manda o silicone, são aqueles redondos, que na natureza só são alcançados quando recebem uma certa pressão. Existe também uma proporção entre cintura e quadril que torna o corpo um violão, e todo mundo sabe que os homens gostam de corpo violão. Ou não? Ah, gostam sim. Eles às vezes podem relevar nosso nariz batatinha, os peitos pequenos e/ou caídos, a cintura grossa, mas que os homens gostam de um belo corpo jovem, cheiroso, redondo nos lugares certos… Uma mulher assim sempre os fará virar a cabeça, uma mulher assim sempre estará no topo da descrição da mulher de corpo ideal. Eles relevam quando a mulher vale a pena. Quando ela tem um tchans, um brilho no olhar, uma risada gostosa, uma personalidade, um conjunto que vale a pena. Eles relevam essas coisas físicas quando a mulher tem um conjunto tão atraente – personalidade, jeito, brilho, charme, são muitos os nomes – que aquilo que em qualquer outra mulher pareceria um defeito, nelas é charme. Nelas uma característica fora dos padrões só contribui para deixá-las ainda mais apaixonantes, vira um atributo que confirma o quanto ela é única.

 

Se eu pudesse escolher, era essa a plástica que eu faria, a de personalidade. O problema é que prótese e cirurgião plástico a gente escolhe – basta pesquisar, pagar bem, fazer em suaves prestações. Ter o peito dos sonhos é relativamente fácil. Já ter uma personalidade vibrante, ah! tem que nascer. Na falta de um mercado de venda de personalidades, é mais fácil investir no corpo. A gente investe em plástica, apesar de saber que personalidade é muito melhor, por não confiar no próprio taco. Eu posso, na hora de me vestir, colocar a roupa mais cara, mais estilosa, mais tribal, mais colorida; posso, quando ao lado de um homem, fazer uma lista completa dos livros que li, rir das piadas dele, fazer gestos teatrais e grandiloquentes. Pelo menos em teoria, posso tanto virar arroz de festa, a pessoa mais animada, a companhia ideal para todos os programas; ou posso partir para o oposto e adquirir ares de mulher misteriosa, inacessível, desejada. Eu conheço muitas mulheres de sonhos, de Marilyns a Audreys, e poderia tentar ser como qualquer uma delas. Mas tentar ser, ter o projeto de ser, não é ser. Eu poderia tentar de tudo e, sem saber, esbarrar no mesmo lugar comum de sempre, das pessoas que tentam parecer o que não são. Existem aquelas que nada fazem pra isso, mas são naturalmente charmosas, agradáveis, mordíveis. Elas não precisam do corpo da moda, elas estão acima da moda. Homens, mulheres, aliens não deixarão de notá-las, nunca. Mas como ser? É mais fácil procurar um bom cirurgião, é mais fácil fazer lipo.

O que não pode ser deixado

Eu posso, facilmente, ser acusada de falta de persistência. Achava que queria ser psi, fiz a faculdade inteira, seus muitos estágios e trabalhos, aí depois de meses de busca infrutífera por um emprego, comecei a esculpir. Naquela época, ainda não sabia o quanto é difícil viver de arte e passar o dia inteiro no atelier me realizava de tal forma que jamais me passou pela cabeça ficar lá e mandar currículos, que aquilo me ocupasse sem eliminar a outra parte. Os anos foram me convencendo de que só a arte não ia, aí comecei outra faculdade. Gosto de estudar, estudei até demais, só que aconteceu a mesmíssima coisa de antes – uma atividade paralela se tornou a principal assim que as coisas começaram a não ir. De socióloga virei bailarina. Ao contrário da outra vez, mandei vários currículos, anos a fio, sempre sem ter retorno. E fui me afastando da área, tanto no que diz respeito às leituras e círculos de amizades como também no jeito de ser, na maneira de ver as coisas, na minha alma.

Por ter começado e dado as costas à tantas coisas (tantas? Talvez apenas mais do que a média) eu sempre tive em mim a dúvida de se era uma pessoa em busca do que gosto ou simplesmente alguém que não consegue persistir. Eu tentei, procurei emprego, segui toda cartilha. Outros poderiam me dizer que eu deveria ter feito isso durante mais tempo, mais vezes, antes de partir para outra. Que não fiz com a determinação necessária. Ao mesmo tempo, reconheço, quando abandonei essas áreas, fiz sem medo e sem qualquer dor. Deveria, né? Anos de faculdade, títulos acadêmicos e possibilidades invejáveis jogadas no lixo como se não fossem nada. Eu me perguntava se esse seria para sempre o meu destino, o de mudar tudo a cada quatro ou cinco anos, se eu era uma mudadora compulsiva.

Finalmente tive as minhas respostas. Eu andei, andei, andei, e cheguei a duas grandes paixões: escrever e dançar. Ironicamente, nas áreas que eu abandonei, ouvi algumas vezes que eu tinha um grande futuro pela frente, que era uma gênia, que levava o maior jeito, que seria a sucessora natural de alguém. Agora não. Tem um elogio aqui e ali, mas basicamente estou sozinha sem grandes perspectivas. Sofri, nas duas áreas, alguns golpes duros. Não tenho, até onde minha vista alcança, a perspectiva de ser grande coisa nas duas – mesmo porque ser grande nas duas áreas raramente se converte em dinheiro. Se fosse para largar, já era para largar. Mas eu não largo. Quando estou triste, o que mantém viva é escrever e dançar. Quando estou feliz, tenho vontade de escrever e dançar. E no resto do tempo…

É assim que a gente descobre que finalmente se encontrou. Quando você alcança o que é pra ser, o que fala profundamente à sua essência, sente que não pode mais viver sem. Que a coisa é o seu veneno e sua cura. A persistência, a partir daí, vem naturalmente. Sua essência não pode ser deixada, ela é a própria vida.

No lugar errado

Eu entrei naquele grupo de estudos unicamente porque meu orientador havia me obrigado. Eu tentava marcar com ele para discutirmos o meu trabalho e ele dizia que conversaríamos sobre o assunto depois da reunião. Isso apenas me obrigava a ir nas reuniões, porque discutir o trabalho comigo que é bom ele não fez. Depois de tudo terminado e defendido, ainda fiquei no grupo mais um ano, só que me sentia uma intrusa: todos com sede de títulos, artigos e trabalhos, doidos para incrementarem seus Lattes, enquanto eu só queria ser deixada em paz. Estava exausta e nem um pouco disposta a emendar um doutorado. Aí eu saí, fui dançar, conheci o mundo da dança profundamente, perdi as esperanças de ser boa e remunerada dentro dele, voltei com o rabinho entre as pernas. Eu não encontrava prazer na vida acadêmica mas havia sido treinada para ela a minha vida inteira, então poderia dar certo. Numa dessas reuniões do grupo, durante a minha volta, meu orientador pergunta:

– Alguém aqui viu o filme A Partida?
– Eu vi. É lindo!

E estava quase dizendo que havia me emocionado e chorado muito com o filme. Antes que o fizesse, meu ex e futuro (ex) orientador começou a discorrer dos aspectos simbólicos, imaginários, questões tocadas pelo filme, etc. A diferença entre o discurso dele e o que eu quase estava por dizer era um sinal tão tão claro: eu estava no lugar errado.

Não sei ainda qual o meu lugar, só sei que não era aquele.

Velhos amigos

Eu falei tantas vezes que não gostava dos amigos do passado, dos fantasmas, de reencontrar quem um dia compartilhou do meu convívio tão somente porque frequentávamos o mesmo ambiente. Nunca vi graça nessas amizades antigas, de gente que me viu de mullets e pra quem eu nunca passarei de uma adolescente insegura. Eu não entendia qual a graça, já que nunca gostei de reviver o passado. Preferia mudar e mudar todo grupo de amigos fazia parte do pacote; acontecia naturalmente com as mudanças de ambiente e rotina. Era a ilusão de começar do zero em vários sentidos. Agora, me pego lembrando de algumas pessoas, de um passado já tão distante, e penso que elas – somente elas – entenderiam certas coisas que eu tenho vivido.

 

Meus velhos amigos, meus ex-amigos, seriam quase como quando a gente tem que fazer um cadastro e nos pedem pra indicar uns nomes de referência. Eles são referência. Tem coisas a nosso respeito que só o tempo e a vida mostram. Então eu não posso virar para os meus novos amigos e garantir que sou de confiança, que podem contar piadas sujas perto de mim que eu sei muitos outras mais ou que gosto muito mais de contato do que sou capaz de iniciar. Ou em problemas que tive recentemente, precisava (e não tive) de amigos antigos que garantissem que não sou de dar indiretas ou lessem as coisas no mesmo tom que eu as pronunciei. Eu sei que não sou perfeita – só que eu conheço mais ou menos pra que direção os meus defeitos caminham. Quando atribuem a mim defeitos muito distantes do que sou, constato que nada sabem a meu respeito. E suspiro, conformada. Quando os ventos gelados indicam que o inverno se aproxima, um amigo das antigas pode ser a lembrança permanente de quem eu sou, por mais que os anos seguintes tentem me desmentir e me enfraquecer.

 

Elogios e declarações de amor não tem nenhum valor se não forem espontâneos. Assim são as informações que só uma amizade antiga pode fazer a seu respeito. Alguém que já te conheça acaba servindo de ponte entre o que você aparenta e o que você é profundamente, entre a primeira impressão e a intimidade.

Impensável

O ruim de mudar muito é que chega uma hora que a gente começa a duvidar de si mesmo. Começa a achar que não está buscando um lugar melhor, e sim que é incapaz de ficar quieto, que não sabe o que quer. Lembro que fui muito acusada disso – você não sabe o que quer. Olhando para trás, eu vejo que realmente não sabia o que queria, só que não da maneira como julgavam. Eu não sabia o que queria quando fiz aquela faculdade inteirinha, concorrida e cheia de status. Não sabia o que queria quando fui fazer pós e tentei virar professora. Meu guarda-roupa sempre soube: eu tentava me tornar uma pessoa séria, comprava umas calças sociais, umas camisas sem graça e pastinha e achava que em breve seria uma mulher de salto atrás de uma mesa, ou de um divã, ou numa sala de aula. Meses depois a roupa ia pro sacolão da doação, porque eu simplesmente não conseguia vestir aquilo. Nunca conseguirei vestir o papel de pessoa séria e exemplar.
Por incrível que pareça, eu sabia o que queria quando era criança. Eu insistia para fazer aula de natação, adorava praia, adorava mar, adorava me manter em movimento. A escola de natação ficava poucas quadras do colégio, e minha mãe sempre se recusou a me matricular – não sei dizer o motivo. Ainda hoje, qualquer rua mais movimentada é pretexto pra eu sair correndo, porque adoro sair correndo. Quando preciso pensar, ou sempre que posso escolher, faço os meus percursos a pé. Só que eu cresci numa família que despreza profundamente todas as carreiras que têm haver com o físico, de dançar a ser atleta, e numa escala ainda mais baixa, ser professor de educação física. Então jamais pensei, jamais cogitei, não cheguei nem a pensar na possibilidade. A família nos determina, como diria Bourdieu, na medida que ela determina o que é impensável. E o impensável deles deixava de fora o que combina comigo. De maneira oposta mas com o mesmo resultado, escrever era impensável pra mim. Desta vez não por desprezo, e sim por ser grandioso demais.
Se tivesse nascido numa família com aptidões parecidas com as minhas, quem sabe… Hoje eu vejo que se por fora eu mudei muito, por dentro segui uma trajetória retilínea. Eu sempre fui a mesma, meus gostos e necessidades não mudaram. O que eu estava buscando era uma maneira de ser coerente. Eu queria ser o que sou, eu queria chegar ao que combina comigo. O resto sempre foi barulho.

Poder

Quando meu ex-orientador me sacaneou, algumas pessoas me disseram que eu deveria ter ido lá, perguntar o que havia acontecido. Há uma crença generalizada de que tudo deve ser perguntado, falado, esmiuçado. Eu não a compartilho. Sempre fui a favor do adeus sem explicações, porque ouvir desculpas esdrúxulas me deixa com mais raiva ainda. Seja lá o que meu ex-orientador me dissesse – “não tive nada a ver com isso”, “ano que vem você entra”, ou o totalmente improvável “desculpe” -, nada iria mudar o fato de que eu comprometi um ano da minha vida para algo que não aconteceu. E que não tinha nenhum plano B para os anos seguintes. Mas o que realmente fez com que eu não o procurasse, é por ter ouvido dele a seguinte história:

Uma vez eu tinha uma orientada que não estava fazendo o que eu queria. Eu disse pra ela escrever um capítulo de um jeito, e ela insistia em escrever de outro. O trabalho estava ficando pronto, eu insistia, e nada dela fazer o que eu mandei. Aí chegou a época da qualificação, e eu falei para as professoras convidadas mandarem ela fazer aquela modificação que eu havia mandado. As professoras falaram e nada. Até que nós dois quebramos o pau, ela não querendo fazer o capítulo e eu disse que ela tinha que fazer, porque:
– Acho que esse mestrado é importante pra você, não é? Porque se não for, você pode ir embora. Você é apenas uma linha no meu currículo. Pra mim tanto faz que você continue ou não, mas acho que pra você é mais, não? Então é melhor você fazer o que estou dizendo.

Às vezes chega coberta de chantilly, mas a essência é essa.

Hare-krishna e freira

Os hare-krishnas entoam sempre o maha mantra – que nada mais é do que aquela musiquinha que os tornam conhecidos – como uma forma de preparação para a hora da morte. Porque de acordo com suas crenças, o pensamento que você tem antes de morrer determina para onde a sua alma vai. Entoando o maha mantra, eles procuram garantir que seu último pensamento esteja em Krishna e que dessa forma eles passem a viver no planeta mais celestial, o da maior encarnação de Deus. À primeira vista, isto parece apenas um lembrete de que nunca saberemos a hora da nossa morte. Não apenas os moribundos estão sujeitos – uma pessoa saudável pode morrer dali a pouco, atravessando uma rua. Mas é mais do que isso: o último pensamento antes da hora da morte refletiria o que pensamos em vida, os valores mais profundos. Na hora derradeira, quando as aparências não importam, o pensamento escapa e o sujeito mostra quem ele realmente é.

***

Uma das coisas que lamentei quando vi o filme Os Miseráveis foram alguns personagens que têm um papel pequeno, mas que foram caracterizados com carinho por Victor Hugo. Um deles é uma freira. Ela entra na história pra unicamente pra descrever uma das perseguições de Javert a Jean Valjean. Victor Hugo dedica algumas páginas para descrevê-la, e dizer que ela era famosa por jamais mentir. Esse era o seu voto, a característica que a santificava diante dos demais. Eis que diante de Javert, ela tem a escolha de entregar ou não Jean Valjean à polícia. Javert conhece sua fama e está disposto a acreditar no que ela lhe disser. Ela conhece Jean Valjean e acredita na sua bondade. Javert lhe pressiona a responder, sim ou não, se Jean Valjean estava com ela. Diante desse dilema, ela mente. Javert sabia que ela nunca mentia e vai embora. Essa mentira, sua única mentira, permite que um homem inocente tenha tempo pra fugir.

A fórmula secreta

A amizade sempre foi um mistério para mim. O meu amigo mais antigo, o Luciano, é uma pessoa que nunca me liga e nem eu ligo pra ele. Como somos grandes andarilhos, às vezes nos encontramos pelo centro de Curitiba e conversamos a tarde inteira. E nesse esquema estamos há uns 15 anos. Muito mais próxima a mim parecia ser a Keila, que fazia trabalhos de faculdade comigo, me ensinou a gostar de dança de salão e vinha de uma família católica rigorosa. A nossa amizade não resistiu às minhas mudanças – estado civil, profissão, residência, amigos – que, em teoria, me tornaram mais conservadora e, por isso, mais a ver com ela. Tenho também amizades com pessoas que dormem às 19 horas por levarem uma vida regrada e outras que vão pra balada e fazem sexo com estranhos no banheiro .

Há muito tempo descobri que não são os hábitos que nos fazem amigos das pessoas. Desconfiava que eram os sentimentos em comum, como se a nossa superfície fosse mentirosa em relação ao que somos na essência. Com o tempo também comecei desconfiar que também não era isso.

Acho que o que me liga a pessoas tão diferentes e as vezes me afasta de pessoas tão iguais é algo simples e difícil, chamado respeito. Respeito pelo silêncio ou pela necessidade de falar muito; respeito pelas discordâncias e pelas confidências; respeito pelos sumiços, pelas mentiras esfarrapadas, pelas mudanças de humor. Eu consigo ser amiga de pessoas que fazem e pensam coisas totalmente diferentes de mim, mas não posso me manter perto de quem desrespeita as minhas escolhas – mesmo quando a escolha envolve deixá-las de lado.