Fila

Quando dizem que o brasileiro adora uma fila não é brincadeira. Comprovei isso ontem, sem querer. Início de tarde, feriadão frio e com sol, fomos passear no Museu do Olho logo depois do almoço. Depois de olharmos os cachorros no parcão, resolvemos ir ao banheiro e havia uma fila enorme saindo das bilheterias. A maior fila que eu já vi no museu, ela ia para fora da parte envidraçada, quase alcançava a parede que fica no meio no pavilhão. Enfim, era uma fila grande, fila de show. Ela nem se movia, acho que a bilheteria estava fechada. O que seria aquilo, começamos a nos questionar. As filas do museu costumam ser grandes quando tem ingresso grátis, mas isso acontece no primeiro fim de semana do mês e não era o caso. Será que teria show do Roberto Carlos no Olho e eu não estava sabendo? Só algo muito interessante poderia explicar aquele furor expositivo em pleno feriado frio. Rimos da situação, daquela persistência. “Vamos entrar na fila também, vamos garantir o nosso lugar. Não sabemos o que é, mas só pode ser bom”. Seja lá o que fosse, na nossa opinião, não valeria uma visita naquele momento só por estar tão cheio. Nenhum restaurante, por exemplo, me parece bom o suficiente pra me fazer enfrentar fila de espera. Se eu morasse em São Paulo morreria de fome com esse raciocínio, mas eu moro em Curitiba e alguma vantagem tem que ter.

Xixi feito, desisti de tomar um café porque estava tudo cheio, passeamos pela lojinha do museu e fomos dar uma volta. Quando já estamos bem longe, surge a sobrinha do Luiz toda esbaforida. É a sobrinha única dele, de quatorze anos, xodó da família. Nas poucas vezes que nós e a família dele nos cruzamos sem querer, há sempre um certo soltar de fogos, um fascínio pela imensa e feliz coincidência. Para uma relação de pais-filhas-avós que se vêem e se falam todos os dias e moram em prédios que se olham, nós somos figuras raras. A sobrinha abraçou seu tio com a felicidade de sempre e me cumprimentou com cara de entojo como sempre. Ela nos levou para onde estavam… um doce para quem adivinhar! Sim, na fila. Lá no meio, garantindo seu lugar, estava a minha cunhada. Pra quê, descobriríamos em breve. Confesso que é meio desconcertante cumprimentar uma pessoa fazendo algo tão contra a sua natureza, algo que você jamais faria e da qual acabou de falar mal. É como se tivesse escrito na testa. A gente fica meio sem palavras.

– Então… vocês estão na fila.
– É, não tem nada pra fazer, e daí? A gente está na fila e vocês andando.
– Pois é… O que vocês vão ver?
– Uma exposição.
– Qual exposição?
– Uma exposição aí. Não lembro o nome do cara. Dizem que é boa.

A exposição é sobre Escher. Pela fila, acho que é boa.

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Guapa

Nos dias de espetáculo as pessoas envolvidas costumam ficar o dia inteiro no teatro. Mesmo assim, quando termina, estão todos numa adrenalina tremenda, dessas que nos impede de dormir. Então é mais do que bem-vindo fazer uma reuniãozinha depois, pra fofocar, falar sobre o que acabou de acontecer, estreitar os laços. Foi num desses encontros que minha amiga acabou trocando telefone ele. Ela, separada, com filha, uma grande bailaora e excelente pessoa; ele, outro envolvido no mundo flamenco. Havia uma simpatia mútua, uma atração, as idades batiam, não custava tentar. Vai que ficava interessante, vai que surgia um namoro. Ele ligou e combinaram de se encontrar dali há poucos dias, depois do trabalho, uma coisinha sem compromisso.

 

Ela sabia que ia vê-lo no fim do dia, então deu uma caprichada no visual. Foi trabalhar de saia, sandália, blusa de alcinha. Não tinha problema trabalhar assim, porque tudo ficou coberto pelo guarda-pó; veterinária competente, a rotina dela incluía lidar com vários tipos de animais, aplicar injeções, lavar canil, esse tipo de coisa. Quando terminou o expediente, ela deu a última ajeitada no visual e foi vê-lo. Pegou o carro, foi até o local combinado e quando a viu, ele examinou minha amiga de cima a baixo e lhe disse:
– Como pode, a mulher veio encontrar comigo tão guapa: sandália, saia, blusa bonita… e não fez as unhas!

Não digo que acabou ali porque na verdade nem começou.

Pequenas implicâncias cotidianas

Relógios digitais que ficam alternando a hora e a data – não conheço quem consulte o relógio para ver a data. Ou quem consulta faz apenas 1% das vezes que olha para o relógio. Então tais relógios nos obrigam a olhá-los com uma ansiosa expectativa, de que eles parem de mostrar aqueles números e nos digam que horas são. Pior ainda quando a data é um número que pode ser confundido com as horas. Você olha e leva um susto, antes de se tocar de que aquele não é o horário.
Classificação indicativa – o problema não é a classificação em si. Vejam bem: somem todas as propagandas e as músicas. Na tela parada, aparece uma mensagem escrita dizendo para que público aquele programa se destina. Logo abaixo, uma mulher fazendo linguagem de sinais. Não faz o menor sentido. Se não está passando nada, nem ao menos uma musiquinha e já tem o texto em cima, pra que a linguagem de sinais? Deve ser para o público surdo analfabeto. Ou quem sabe ela diga: “Agora não está acontecendo nada”, que é pra eles não ficarem complexados.
Sem dizer que, como diria meu amigo Calhau, sempre que aparece a mulherzinha fazendo linguagem de sinais a gente não consegue resistir à vontade de olhar para ela. Nunca entendemos nada, mas não conseguimos parar de olhar. Olha pra aquelas coisas estranhas, se pergunta o que significa tal gesto, fantasia sobre o que ela está falando, sei lá.

Meu pai

Hoje é aniversário do meu pai. Quando eu era pequena, meus irmãos se queixavam de que eu era claramente a filha preferida dele. E era mesmo. Lembro dos picolés que só eu ganhei, nas caronas ao shopping com as amigas, das fantasias de havaiana, do olhar infinitamente orgulhoso dele quando me via nadando. Uma das minhas lembranças mais antigas é de estar pendurada nele enquanto ele fazia a feira, aquela feira variada e praticamente medieval de Itapoã. O açougue era parada obrigatória do fim do trajeto, e nesse momento ele me deixava no carro esperando porque eu não suportava a visão da carne pendurada – coisa que me dá desconforto até hoje. Também lembro que o carro da empresa o deixava em casa, às vezes na porta de casa, às vezes na rua de cima. E quando eu o via chegar, largava tudo o que estava fazendo e pulava no colo dele. Eu só o largava quando chegávamos juntos em casa.
Só que os anos passaram e eu passei a ser ciente dos erros dele, dos defeitos dele, das antipatias dele. Eu era muito nova quando deixamos de ser uma família que morava toda junta e aquela filha que voltava meses depois de Curitiba, todas as férias, foi ficando cada dia mais diferente. Aquela vida que ele construiu ao lado daquela mulher que nunca gostou de mim também foi ficando cada dia mais diferente. Não sei se desde criança eu demonstrava o meu lado turrão e um sensível senso de justiça; o que ele sem dúvida não esperava é que isso um dia me voltaria contra ele. Se já não existe nada mais arrogante e dono da verdade do que uma adolescente, imagine com as características que eu citei. Ele parecia tão errado, eu parecia tão certa. Como todo radical, achava que a única forma de honrar os meus princípios era não fazer qualquer aliança com o erro. O errado era ele, então…
Agora eu tento uma aproximação talvez impossível. Impossível porque o tempo não volta atrás, os afastamentos geraram consequências e o que foi dito foi dito. O tempo passou com tal rapidez que os outros filhos dele já estão até na faculdade. Aquela casa onde eu passava as férias já não é há muito a minha casa. Até onde eu sei, nem é dele direito. Ele se deu outra casa, isolada numa ilha. Eu tenho a minha casa. Somos dois adultos, com casas. Tenho cabelos brancos, escoliose e até pouco tempo problemas de colesterol. Há muito não sei o que é ter certeza. Eu errei. Eu tenho errado, eu tenho desejado tanto sem conseguir, conseguido tanto sem merecer. Tenho voltado atrás e duvidado. Tive e tenho atitudes condenáveis, sou alguém cuja reputação de boa pessoa não resistiria a um exame detalhado e cruel. Precisei de uma vida pra entender as escolhas dele e ver nelas uma certa grandeza. Onde antes eram erros, agora vejo intensidade. No olhar dele, compreensão. O kamikaze que existe dentro de mim me dá medo de um dia estragar tudo, de queimar pontes demais e deixar de existir um lugar para mim. Olhares amorosos se transformam em gelo muito rápido que eu sei. De todas as pessoas, independente do que eu faça, eu sei que meu pai me acolhe – no seu imenso coração e na rede da sua casa.

Bailaoras, mulheres e mulherão

Eu conheci algumas mulheres sensuais na minha vida. Algumas – menos do que se pretendem. Há mulheres que se pretendem sensuais, com esforços e indumentárias. Mas a coisa pára por ali, não convence. E existem aquelas que são sensuais até quando não querem, que têm algo tão poderoso que não pode ser escondido sob suas roupas e gestos cotidianos. O charme dessas nem outras mulheres conseguem ignorar. Dançando, especialmente flamenco, mulheres comuns podem se tornar verdadeiros furacões. Não todas, infelizmente; a dança não tem outra saída que não mostrar o que há por dentro. Cada uma acaba se afinando mais com um dos muitos aspectos que o flamenco têm. O que eu nunca havia visto era uma que encarnasse o papel de mulherão como seu, cem por cento, como a grande bailaora Karime Amaya. Com as fotos, os vídeos, o corpo violão, o cabelo, tudo apontava para isso. Quando ela veio ao Brasil para o Abolengo, estávamos todos curiosos em como seria Karime Amaya pessoalmente.
Pessoalmente ela é muito tímida. Ela é mulherão e tímida. Talvez o fato de ser tímida ajude a manter o mistério, a distância própria de um mulherão. Lembro de estar no Guairão ao lado da Andréia assistindo Karime ensaiar. Ao contrário do que todas fazem, ela estava ensaiando com seu cabelão solto, o que a obrigava a mexer nele constantemente, tirar do olho, balançar a cabeça. Tudo muito sexy e ao mesmo tempo não intencional. E nós lá, atingidas por esse poder, totalmente conscientes da distância que temos dele. Pra começar, nós duas temos um cabelo curto que impede o bater-cabelo. A Andréia é uma das mulheres mais extraordinariamente divertidas que eu conheci. Eu também sou do time que gosta de rir. Então falamos do quanto conhecíamos as indumentárias da sensualidade – o vestidão vermelho, o batom, o salto -, as atitudes necessárias para a sensualidade – as pausas, o sussurro, a suavidade, o olhar – mas que em pouco tempo estragaríamos tudo ao esbarrar na mesa, soltar um palavrão ao bater o dedinho, gargalhasse diante de uma cena ou comentário qualquer. Não, nós não nascemos pra isso, ser mulherão não é pra qualquer uma. É apenas para aquelas que tem concentração para manter o personagem.

Péssimo

 Às vezes eu me sinto uma mentirosa por aqui. Por fazer textos com reflexões, passear por algumas lembranças e tentar tratar as coisas com leveza. Inclusive acho que este blog parou de crescer porque de alguma forma eu estacionei; as coisas estão se tornando previsíveis e isso afasta os leitores, traz poucos novos, etc. Há um limite que eu não ultrapasso, um grau de sinceridade que eu não chego. Acho que isso diz muito sobre mim, sobre o que eu acredito, sobre a forma com que eu lido com as coisas. Minha mãe passou anos surtando com problemas de dinheiro, com a inflação comendo o salário, com o reajuste trimestral do apartamento, com os gastos de filhos na faculdade, ajuda de parentes. Um dia, no trabalho, disseram que ela parecia ser uma pessoa sem problemas. É que ela não falava, não com estranhos. Mais do que isso – acho que existe uma ética que diz que quem se queixa , quem compartiha, abre ao outro o espaço de dar conselhos. Afinal, se divido jogo um pouco da minha lama no outro, ele não tem que aguentar passivamente. E eu sei que não estou disposta a ouvir conselhos.

Minha experiência de vida me diz que viver bem não é exatamente o viver plenamente. Raramente tudo está bem, raramente podemos passar os olhos em todas as áreas da nossa vida e nos sentirmos satisfeitos. No que está ruim, nem tudo pode ser mudado, pelo menos não pra já – existe o fator tempo, obrigações, comodidades, adequação. Eu sei que ainda tenho um montão de coisas pela frente, que plantei várias sementes, que estou numa fase de transição. Tenho certeza de que daqui há dez anos tudo estará perfeitamente no lugar, olharei para trás e darei graças à minha coragem. O problema é o caminho que me levará até lá. Tantas vezes tenho vontade de acordar lá, economizar esse longo dia a dia e não enfrentá-lo. O que evita que eu e tantos choremos o dia inteiro por aí é colocar uma viseira igual de cavalo pra poder seguir em frente. Às vezes tampando mais, às vezes praticamente às cegas.

Imagens eternas

Não sei quanto a vocês, mas eu sei que certas imagens me perseguirão a vida inteira. Dizer que são imagens é uma maneira simplificada de defini-las – é o que vejo, o que sinto e o que sou. Se volto a elas, sinto a mesma coisa e me sinto a mesma pessoa que era naquele momento. Outra forma de dizer é: tem um pedaço meu registrado ali para sempre, aquele momento está congelado em outra dimensão. Tem as imagens trágicas: eu entrando na UTI do hospital Evangélico à procura do meu irmão, e quase passo por ele, que estava num leito à minha esquerda. Ele estava nu, coberto por um lençol branco e todo entubado. Outras são de pura euforia, como uma que aconteceu quatro anos antes da cena da UTI. Era quase meia noite, eu tinha 21 anos e olhava a cidade de Barcelona toda iluminada, desde o Porto. Estava com amigos portugueses divertidíssimos, o local era todo formado por baladas e eu estava apaixonada. Tudo à minha volta era jovem, alegre e exuberante.
Ser impressionada por essas imagens sempre me pareceu natural, inevitável. Até o dia que li isto:
Em 1991, Madonna dançou completamente nua para Al Pacino durante as filmagens de Dick Tracy. É o que diz a biografia autorizada do ator escrita por Lawrence Grobel. “É uma informação secreta. Ela estava fazendo uma dança nua por baixo de um robe. No final da música, ela ficou inspirada e o abriu. Que corpo extraordinário!”, contou o astro de O Poderoso Chefão em uma das inúmeras entrevistas que a biografia traz. “Um dia, quando eu ficar bem velho, enrugado e ainda estiver sorrindo, será porque lembrei dessa situação”, brincou. (daqui)
Por causa do Al Pacino, agora eu busco imagens em nome da velhinha que serei.

Não é você, sou eu

Não acredito que escolhas e opiniões são baseadas em juízos perfeitamente racionais. No geral, não são. Se o são, é só para temas tão abstratos e longe do cotidiano quanto os spins das partículas quanta. De resto, o que nos afeta, é primeiro formado pelas experiências, a criação, a rotina, enfim, o que nos parece mais confortável. Primeiro, as idéias se afofam com o que somos; depois é que vem a busca pela justificativa moral, o floreio, os autores e estudos científicos que comprovam que estamos certos. Igualzinho quando estamos doentes e primeiro achamos que estamos deprimidos, ou que o dia foi ruim, pra só depois nos darmos conta que o mal começou no corpo. Primeiro tem a sensação e depois a mente cria uma historinha em cima – é pra isso que as mentes servem. Dito isso, sei que tenho umas premissas comigo do que eu faço ou tolero. Outros fazem e eu não, outros podem e eu não. Algumas parecem bem razoáveis, outras covardes. Sei que não são más em princípio, apenas que são más para mim. Do mesmo modo, minhas escolhas são más para outros. Que bom que existe a diversidade. Essa é uma pequena lista do que EU NÃO:

* Abraço causas: acho lindo, nobre e muito necessário. Mas eu não consigo. Tenho minhas opiniões, procuro ampliar meus horizontes de maneira a entender a espécie humana como uma só, e que independente de gênero, nacionalidade, credo ou cor, todos têm direito à felicidade. Só que eu não consigo agir no sentido de escolher um tema para repetir e convencer os outros. Eu me sinto chata, fico enjoada de mim mesma. Pior: tenho um certo espírito do contra e isso faz com que eu não consiga aderir às agendas dos movimentos. Acho importante todos irem numa direção, para reforçar, entendo a dinâmica. Mas eu não vou, não sou eu.

* Me envolvo em argumentações furiosas: aí são dois motivos. O primeiro é porque não acredito em discussões furiosas. Quando se atinge o nível de fúria, são dois bichos orgulhosos se degladiando. Se o importante é ganhar e esmagar o adversário, ninguém se deixará convencer de nada. Em segundo lugar, sou tranquila demais para manter um debate. Gosto de adrenalina, mas não dessa. Não sou assim no meu dia a dia. Nas poucas vezes que sou, é porque saí do meu normal. Tenho um acesso de raiva e em alguns instantes ele passa. Pra se manter numa discussão furiosa é preciso manter aquela energia. Vejo que tem quem se sinta mais vivo quando discute; em mim, é uma energia que faz mal.

* Fico ao lado de pessoas instáveis: instabilidade emocional não é falha de caráter. A pessoa pode ter um coração bom, ser confiável, carinhosa, boa amiga e ter imensas qualidades sendo instável. Um dia ou outro, em anos, é possível que essa pessoa não consiga manter sua civilidade e lhe fale coisas duras, coisas guardadas, pra logo depois se arrepender e querer voltar às boas. É uma agressão de momento, igual aqueles cães que quase matam os donos num acesso de loucura e depois estão abanando o rabo pra ele. Pra mim não vai. Talvez seja algo de criação; há um limite de respeito que eu jamais ultrapasso, às vezes nem com inimigos. Prefiro que respirem, pensem bem, se acalmem. Quando me dizem algo, eu levo à sério. Comigo não cola querer voltar atrás depois.

* Alimento pessimismos: eu mesma já fui depressiva e via na obrigação pela felicidade algo nocivo. Eu gostava de papos profundos, e achava que uma amizade só era amizade quando um conhecia o pior lado do outro. Lutei muito para sair desse estado, e de certa forma ainda luto. Hoje gosto de ficar feliz e de amigos que me façam rir. Eu não aguento muita queixa ao meu lado, não quero que aumentem a minha carga. Eu sei consolar e apoiar, mas espero que meus amigos usem esse serviço com a mesma parcimônia de quem aperta o alarme de incêndio. Falando em português claro e cruel: eu não sou amiga para todas as horas. Quando em dificuldades, eu faço o meu possível antes de pedir arrego; dos meus amigos, espero a mesma coisa.

Dois anos

O pessoal do flamenco é tão light com relação a tipo físico e idade, que digo que passei umas poucas e boas com relação à dança e ninguém faz muita idéia. Hoje vejo que ter optado por fazer balé tornou meu caminho bem difícil no começo, me fez conhecer a dança pelo seu lado mais preconceituoso. Passei e ouvi coisas que hoje sei que foram desnecessárias. Uma delas foi quando decidi fazer dança moderna. Se consultar os arquivos do blog, acabo achando a data certinho, mas estou com preguiça. Eu tinha por volta de trinta e um anos de idade e dois de balé. Eu me animei justamente porque estava no balé. A dança moderna nasceu de uma crítica ao clássico, mas ela ainda tem muitos elementos dele, como a busca por linhas perfeitas e um apego ao tipo físico de pernas altas, esticadas, alongamento, etc. Fui fazer o teste sabendo que só tinha uma ou duas pessoas mais velhas na escola, que ela era formada basicamente por adolescentes. Para minha surpresa, logo depois do teste, o diretor artístico me chamou para uma conversa. O resultado sairia dali há alguns dias, mas ele veio me dizer que eu tinha ido bem, que eles queriam que eu viesse no dia seguinte para a possibilidade de ir para uma turma mais avançada. No meio dessa conversa elogiosa e cordial que nós tivemos, ele soltou um…

– Você está com trinta e um anos, então tem mais dois anos de palco pela frente…

Dois anos? Pois é. Aquilo me impactou assim que eu ouvi. Pensei que teria que aproveitar muito intensamente o pouco tempo de dança que me restava. Eu tinha começado a dançar tarde, tão tarde, muito tarde! Achei que dança era igual ginástica olímpica, de data de validade curtíssima e eu já estava quase lá. Só mais dois anos e eu nunca mais colocaria os pés no palco – como a vida é curta! É curta sim, mas nem tanto – continuo indo para os palcos sem previsão de parar. Nem preciso ir muito além da própria dança moderna pra desmentir o que ele me disse:

Daenerys Targaryen

Uma das muitas coisas legais de Game of Thrones é a sensação de que ele dá vida aos tempos de senhores e vassalos, e que a vida próxima às cortes era daquela maneira mesmo. Do mesmo modo que hoje as pessoas sacam o títulos e contas bancárias pra tentar impor um respeito que não viria naturalmente, o livro está cheio de apresentações. Nos momentos importantes, o currículo do nobre é citado em poucas palavras:
– Vyseris da Casa Targaryen, o Terceiro de Seu Nome. Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Rei dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua irmã, Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa de Pedra do Dragão.

Só que quase todos esses currículos, ao longo do livro e da série, vêm acompanhados dos vassalos e da riqueza correspondente. Os únicos que não têm são justamente os Tagaryen, por serem filhos de dragões já extintos e de uma linhagem de reis sem reinado. Daenerys, por ser mulher, fica numa posição ainda pior e é vista apenas como escada para as ambições do irmão. Ela tem aquela frase toda de títulos e ao mesmo tempo não é ninguém. Era muito criança quando foram exilados e nem ao menos tem lembrança da época gloriosa. Quando é oferecida em casamento ela se torna alguém – mas o marido é de um povo bárbaro, então ela continua não sendo lá essas coisas. A história se desenrola, acontece um monte de coisas, ela se ferra de muitas maneiras, e você se pergunta como é que o autor vai impedir essa personagem maravilhosa de simplesmente morrer ou sumir, como muitos outros na trama. Aí Daenerys faz o que me chamou atenção nela desde o começo: ela ressalta sua importância e recita aquelas frases todas, mesmo quando tudo à sua volta desmente sua nobreza. Não importa o quanto as condições materiais sejam ruins e a deixem em desvantagem, sua auto-confiança faz com que as coisas a sua volta mudem.  Durante muitos momentos, todos pensam que ela é somente uma louca. Louca ou não, a estratégia funciona. Quando comecei a escrever esse texto, imeditamente pensei em alguns loucos que nos causam muita vergonha alheia. Existe um lado da auto-confiança que não está amparado em nada e faz com que o sujeito caia no ridículo. Também pensei naqueles que conseguem as coisas sem merecer, unicamente por fazerem uma excelente publicidade de si mesmos.  Até o mundo perceber que por detrás daquela fachada de sucesso não existe competência e caráter, o sujeito já recebeu os melhores cargos, andou nas melhores companhias e se fez. Claro que não gosto disso e me sinto prejudicada por essas pessoas. Mas me perdoem – quem está se queixando assim é o meu lado pessimista e invejoso. O bicho tem andado agitado ultimamente.

Nem tudo em Daenerys me é estranho. Eu também me lembro das muitas vezes que eu tive que recitar minha importância para mim mesma, porque ninguém me ouviria. Lembro dos homens que me ofereceram qualquer coisa, porque para eles eu era mais uma e um pau duro já era mais do que suficiente. Penso em muitas amizades excelentes, de pessoas que me adoravam, e que o preço que me cobravam por tanto afeto é que eu não me incomodasse com explosões de ira ou acusações injustas. Poderia citar a minha família, e a difícil obrigação social de sempre valorizar a familia; só que o papel que me foi reservado é um subalterno porque, afinal, não sou nenhuma advogada ou doutora. Desde que comecei a dançar, quanta gente não disse que eu não poderia ou fez o possível para que eu não saísse do lugar… Eu poderia citar muitas coisas, grandes e pequenas. Pra muitas delas, quando eu disse não, eu era a mais fraca contra as circunstâncias mais fortes, a dúvida contra as certezas, a solitária contra o já estabelecido. Mesmo assim, eu fui; para isso me amparei apenas no sentimento de que eu merecia mais. Eu queria mais e o tigre que vive dentro de mim simplesmente não podia aceitar o que me era oferecido. Um dia pode ser que eu seja rainha, que tenha um exército e possa jogar na cara de todo mundo que eu sou eu, etc. Pra algumas coisas esse dia chegou, para a maioria não. O que posso dizer é que, apesar das perdas aparentes, eu sempre senti que valeu a pena. Quando exigi mais, eu sempre recebi mais. Eu sei que parece mentira, que estou recitando Paulo Coelho, mas não é. Se você não acredita em mim, pense em quantos loucos que existem por aí, de quem se acha Cristo a comedores de carne humana, e que eles sempre encontram seguidores. A certeza é uma arma poderosa. É preciso ser meio louco e acreditar tanto em si, mas tanto, que o mundo não tenha outra alternativa senão se dobrar.

Um mundo pior

Estava conversando com uma amiga, que me disse que tinha um óculos de natação ótimo que foi roubado. Ela estava participando de um campeonato e estava no vestiário. Perto dela, havia um grupo de adolescentes. Minha amiga espalhou as coisas da mochila enquanto se arrumavava, as adolescentes também com as coisas espalhadas, e quando foi colocar tudo de volta o óculos estava sumido, não foi encontrado em lugar algum. “Era o meu melhor óculos, nunca mais achei outro daqueles. Pior que pra elas era apenas mais um óculos, um momento de esperteza pra cima de alguém”. Ela lamenta não ter desconfiado, ter espalhado as coisas simplesmente na confiança de que ninguém lá dentro – um clube, um campeonato, pessoas com condições – se daria ao trabalho de roubar um óculos de natação usado. A verdade – eu disse a ela – é que a gente não quer viver assim.

 

Meus vizinhos foram assaltados uma vez e tentaram entrar na casa deles mais duas. É difícil até de entender porquê a casa deles é tão mais visada do que o resto da vizinhança. Alguns diriam que a atitude deles atrai. Depois que eles foram assaltados pela primeira vez, ergueram mais de um metro de muro na parte detrás da casa, o que na época me deixou louca da vida porque me privou de céu e sol. A parte detrás da casa deles não é assim tão grande (é do tamanho da minha), e sei que ficou parecendo uma tumba. Não satisfeitos, eles cobriram tudo com cerca eletrificada, sistema de alarme e câmeras. Para entrar em casa, eles buzinam para quem está lá dentro, desligam o alarme, entram com o carro, ligam de novo. Eles ficam em casa com todo sistema de segurança ligado, o alarme só é desligado nos rápidos deslocamentos. É um verdadeiro castelinho.

 

Não posso julgar a atitude deles, eu sei que ser assaltado mexe com a cabeça das pessoas. E se minha amiga tivesse sido mais precavida, mais desconfiada, hoje teria o seu óculos preferido. A desonestidade e a violência estão por aí, e a verdade é que podemos pouco contra quem decide nos ferir. Só que me parece que já adotar de antemão uma atitude desconfiada é perder antes de ter perdido. De todos os campeonatos e vestiários, minha amiga foi assaltada uma única vez. Talvez ela tenha perdido pouco diante das muitas vezes que apenas se trocou, com o tempo e o relaxamento que precisava. Meus vizinhos, eu vejo, perderam muito do prazer de viver numa casa. Eu sei que vivemos num mundo violento e negar isso e correr riscos à toa sem dúvida é burrice. Só que existe um ponto, uma fronteira difícil de definir, onde a prevenção se torna também uma prisão, uma espécie de paranóia. Hay de se cuidar pero perder la espontaneidade jamás. Esperar sempre pelo pior é já viver num mundo pior.

O perdão

Se ambiente de empresa já é dose, imagine o que é trabalhar numa empresa ligada a uma igreja. Claudia, que sempre foi religiosa, quase se tornou atéia lá dentro. Lá tinha todas as sacanagens, fofocas e puxadas de tapete de uma empresa de ambiente pesado, mas lá as coisas se misturavam com discursos religiosos e encontros aos sábados na igreja. Competente como só ela, Claudia entrou com uma função qualquer, muito abaixo da sua formação, e na primeira chance assumiu um cargo de responsabilidade. Além dos problemas habituais de se tornar chefe, muitos não se conformaram com sua ascensão rápida e a acusavam de ter dormido com o gerente. Não dormiu – na época ela não podia contar que estava namorando com um amigo que trabalhava em outro setor. 

O tal gerente pra quem ela teria dado teve sim o mérito de reconhecer o valor dela lá dentro, mas ao mesmo tempo lhe faltava pulso em alguns momentos. Era daquelas pessoas que colhem várias opiniões, resistem, atrasam, e quando as coisas estão quase indo pro buraco, optam por fazer o que querem. Isso sem falar no problema imenso da religião. Claudia cansava de ir lá e falar de alguém que – fosse por birra ou incompetência – não tinha o rendimento esperado, não aparecia, dava prejuízo, etc. Quando ela pedia para que alguma providência fosse tomada, quem sabe uma demissão, invariavelmente tinha que ouvir:

– E o perdão, onde é que fica?

O perdão fica lá na puta que pariu, ela diria se pudesse. (Mentira. Ela é uma fofura de pessoa e muito educada. Isso quem diria era eu)

Injustiça, sushi e fel

Tive que comprar, correndo, um livro pra doar para a Biblioteca Pública. O correndo, na verdade, foi pelo meu desejo de liquidar logo aquela injustiça. Fui acusada de ter manchado o último livro que peguei, o Salman Rushdie. Alguém resolveu olhar o livro e viu a mancha, e tal como na brincadeira da batata quente sobrou para o último nome da lista de quem leu o livro. Azar o meu e fui às Lojas Americanas comprar um livro qualquer – eles disseram que eu poderia doar um livro, qualquer livro – para repor e acabar com aquilo de uma vez. Um conjunto de ironias, a situação toda, se for pensar na quantidade de livros que eu já doei para a biblioteca e que sou famosa por cuidar tanto dos meus livros que mal os abro. Enfim.

 

Eu poderia pegar qualquer livro, e quanto mais barato o livro fosse menor o meu prejuízo. Mas tenho meu orgulho e não consegui levar Ágape, do Padre Marcelo Rossi. Nem os de orações, nem de queijos, nem de casais que enriquecem juntos, todos eles na promoção. Quase peguei O poder dos quietos, um livro que eu mesma tenho vontade de ler. Pra conciliar o preço e algo que não me envergonhasse, levei um livro chamado Sushi. A contracapa me deu um resumo do livro, com personagens femininas descoladas, perfeitinhas, e que buscam a felicidade. Descobri que Marian Keyes é uma das grandes novas escritoras, e que ela tem uma série de livros, todos igualmente deliciosos.

 

Tenho me envolvido muito com a escrita nos últimos tempos. Estou com um projeto aí, algo mais longo do que estes posts. E mergulhar na escrita, minha e de outras pessoas, tem deixado claro para mim o quanto a escrita nos reflete. Se a tela do computador aceita qualquer coisa, tudo é escolha e tudo pode revelar um pouco do autor – o tema do livro, a que personagens ele dá voz, que sensação passa ao leitor, aonde ele quer chegar. Não tem jeito, cada um fala do que tem, escreve o livro que lhe é possível. Olhei para a descrição de Sushi e me perguntei que diabos de pessoas são essas, como a tal da Marian Keyes, que são tão felizes. De onde eles tiram essa vida descolada, essa fofura toda? Não tô dizendo que acho ruim não, acho ótimo, invejo. Eu não poderia, eu não me suportaria. Quero ser positiva, não quero ser amarga, mas só o fato de dizer Quero mostra que reconheço que a vida tem um gosto de fel… Eu não poderia ser Marian Keyes, eu não poderia escrever Sushi. Outra possibilidade é que tudo falso e ela é igual o personagem de Jack Nicholson de Melhor Impossível. Como diz a chamada da TV: pessoas fofas e felizes, quem são elas? Onde estão, como vivem, o que comem? Como podem se manter assim num mundo como o nosso? Sexta, no Globo Repórter.

Syrio Forel

Abrir os olhos era tudo o quanto bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos vêem a verdade. Olhe com os olhos. Ouça com os ouvidos. Saboreie com a boca. Cheire com o nariz. Sinta com a pele. E então, depois, que chega o tempo de pensar e de, assim, conhecer a verdade.
Syrio Forel/ Game of Thrones vol 1 
Syrio Forel mexe com sonhos profundos meus, com o arquétipo do professor ideal. Eu cresci lendo sobre mestres e um dos meus livros de cabeceira era A arte cavalheiresca do arqueiro zen. Também sou da época do Karatê Kid. Durante muito tempo eu sonhei em ir para o Oriente, para ter aulas de yoga, karatê ou arco e flecha, e passar anos mergulhada numa arte. Queria esse professor carismático, que diz coisas que a mente não entende e que crescem com o tempo, que faz de atitudes simples uma meditação e que, no fim, nos ensina sobre tudo através de um único ponto.

Quis durante tanto tempo alguém assim. Tive uma das maiores decepções da minha vida quando fiz minha primeira aula de yoga. Por outro lado, quando tentei estudar piano, estudei com quem apareceu pela frente, na crença de que qualquer um poderia me ensinar aquela técnica. Na defesa pessoal vivenciei o início de um mergulho, porque todos os alunos eram convidados para um mergulho. E não gostei, só encontrei violência. Já estudei também com pessoas ótimas, a quem todos chamavam de mestres, mas não senti isso meu coração. Com o tempo, vi que não precisa ser professor de algo especial e sim ser especial. E que o que define não é a atividade ser mística, que qualquer coisa pode se tornar uma meditação. Por fim, aprendi a valorizar os mini- Syrio Forel que aparecem na minha vida, com seus instantes de sabedoria, pequenos ensinamentos que podem passar desapercebidos se você não estiver atento. Sou tão humana e só encontrei professores igualmente limitados e humanos pela frente. Construí quem eu sou com tijolos pequenos e talvez agora tenha os olhos céticos demais para ser discípula. Para cada Syrio Forel, é preciso também Arya Stark.

Sensível

Um dia eu estava conversando com uma colega que também estava na segunda faculdade. Ela era bem mais velha do que eu, mais vivida e nunca soube direito o que a afastou de uma vida acadêmica que ela parecia amar. Não lembro ao certo o que contei ao meu respeito. Tenho quase certeza de que lhe confessei a minha confusão temporal, que na época fazia poucos anos (ou não?) e hoje continua – o que a torna mais grave. É o seguinte: meu irmão sofreu um acidente de carro gravíssimo e minha vida parou durante os meses que cuidamos dele. Menos de seis meses depois eu me casei. Quando ele saiu da UTI, em algum lugar em mim o calendário virou e nunca mais tive segurança sobre que ano estou e há quanto tempo alguma coisa aconteceu. Tanto que nunca sei dizer o número, a data, de quando me casei. Sempre tenho que lembrar quantos anos tenho de casada e subtrair, eu não consigo guardar o número, sabe? Pressionada a dizer datas, sou capaz de dizer que aconteceu em 1995 uma coisa que foi em 2010 e vice-versa.
Outra lembrança: estava em Santiago de Compostela, conversando com o meu amigo Manuel. Falávamos da Catedral, aquela do Botafumeiro e fim do Caminho de Santiago. É ponto obrigatório da cidade, que na verdade não tem muito mais do que isso; o visitante de Santiago não conseguirá evitar igreja, que fica na Ciudad Vieja. Ela fica frente de uma imensa praça, cercada de outras construções medievais fantásticas. Manuel me disse que se impressionou muito com a Catedral na primeira vez que viu, só que como ela é visível por quase toda cidade, ela se tornou parte do cenário. Eu lhe confessei que tinha o cuidado de andar pela cidade sem nunca olhar para cima, sem nunca olhar para ela. Justamente porque eu sabia que se olhasse muito aconteceria o mesmo que aconteceu com ele. Eu não queria perder meu assombro. Quando queria ver a igreja, eu ia para a praça, parava no meio (há um marco no chão, uma concha) e só então a olhava, enorme e impressionante. Guardo comigo até hoje essa lembrança, esse sentimento.
Lembrei dessas duas coisas porque ambos eram ligados à vida universitária. Ambos, diante disso, ficaram assombrados – “você é muito sensível”. E por ambos fui exortada a mudar.