Preta-velha

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Eu via que a linha que mais fazia sucesso era da esquerda, com os Exus e Pombas-Giras. Tudo muito prático, muito claro – quero mais dinheiro, quero aquele homem pra mim. Como eu não ia atrás de nenhuma das duas coisas, eles não me davam muita bola e nem eu a eles. Já os Pretos-Velhos me tocavam bastante. As coisas que eles falavam soavam vagas, sempre em metáforas, e à primeira vista davam a impressão de ser uma pregação impessoal. Depois eu vi que não, que as palavras deles têm longo alcance.

Foi na época que eu estava brigando com a história da máquina de costura, um problema que durou meses. Eu ajoelhei na frente da Preta, fui benzida, ela me perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim – meu humor sempre melhorava só de estar lá – e ela me olhou. Disse que feliz de quem no dia chuvoso adivinha o sol que tem atrás, de quem é capaz de olhar o céu cheio de nuvens e não esquecer das estrelas. E completou: “Isso tudo vai passar, mizinfia, só mais um pouco de paciência. Já está acabando”. Na hora eu achei que ela estava falando da minha máquina de costura – depois eu vi que era mais do que isso, era todo um ciclo doloroso que estava se encerrando. E se encerrou.

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Quatro dias e meio na merda

Passar quatro dias e meio na merda por causa de alguém que te faz passar pelo menos sete em depressão não é lá isso tudo. (“Se essa pessoa te faz tão mal, por que você não se afastou antes?” Pois é.) Foram dias que eu arrastei a mim mesma e nada convencia o meu coração de que a vida não era pesada de se viver. E talvez tivesse durado mais tempo, se o dia não tivesse amanhecido feliz e ensolarado. Não sei se com todo mundo é assim ou se é pessoal. Descobri que as dores do (meu) coração são iguais às outras dores do corpo: a gente luta, toma cuidados, fortalece o organismo, faz o que pode, mas não vê resultado enquanto o ciclo não se cumpre.

Pois é, o ciclo. No meio dele, com a cara inchada e um sarcasmo exagerado pra tentar parecer bem, minhas amigas comentaram de um tal remédio que estimula a produção de serotonina. Todo mundo anotando o nome e eu fiz questão de esquecer. Tenho esse radicalismo pessoal, de mesmo na merda me recusar a tomar remédios que poderiam me deixar “feliz”. Investigo a causa profunda e acho que ela está na minha descrença pela alopatia: eu sempre acho que esses remédios, pra arrumar uma coisinha, estragam dez. Então prefiro lutar eu mesma, só com a reflexão. E esperar. 
(Em tempo: não estou fazendo apologia à nada, viu? Quem quiser e precisar de remédio alopático, que queira e tome!)

Dezembro

Minha mãe sempre mantinha um preguinho na parede da cozinha, onde colocava um calendário grande de papel para marcar. Isso para olhar os meses riscados e dizer que “a gente já passou por tudo isso, agora só faltam esses daqui”. Era uma época em que parecíamos viver uma queda de braço com o tempo. Esse mesmo tempo parece congelar ou até mesmo recuar no fim de ano. Achei que essa sensação estava ligada apenas à vida escolar, mas parece que é assim com todo mundo. Vivemos um tempo cíclico, como se fosse preciso sofrer no fim pra gerar algo novo quando o ano muda.

Pra variar, termino o ano sem fazer a mínima idéia do que farei no ano seguinte. Tenho alguns planos e isso não quer dizer muita coisa. Cada vez que leio no mapa astral que eu estou “numa fase de rever conceitos, mudar de trajetória”, digo “DE NOVO!?” Já mudei tanto que desisti de achar que controlo alguma coisa. Me conformei em mudar, morrendo de inveja de quem fica. Como pode alguém que nunca tomou um porre lembrar um pouco Satisfaction? Isso me lembra um diálogo que tive em terapia, há mais de dez anos:

(Terapeuta) Você tem dificuldade de fazer escolhas?

(Eu) Claro que não. Eu opto por fazer tudo.

Meu problema não é a falta de satisfação, e sim encontrá-la em toda parte.