O pior melhor de todos aspectos para o amor

meninas montam carneiros

Animada com os lindos Lua e Júpiter visíveis no céu, fiz um vídeo curtinho, desses que somem da rede em poucas horas, e um amigo disse que queria ter tido tempo de me fazer falar sobre Vênus em Áries. Fiquei sem graça, ele mesmo falou: “é ruim, né?”. Eu, como todo mundo, também gosto de respostas simples e que, de preferência, essas respostas me digam que tudo será ótimo de agora em diante. Mas agora que eu me vejo no papel de fornecer as respostas, fico com receio desse sim ou não, especialmente do não, porque ele pode levar facilmente a uma vitimização (“eu sabia, culpa de Vênus que estava no lugar errado!”) e a vida (e os astros) não é assim. Eu já vi gente muito melhor do que eu, com mais dinheiro, amor, amigos, apoio, emprego e até mapa astral, e que reclama como se fosse o mais azarado da Terra. Tudo é relativo, de verdade.

Pra começar, o bom ou ruim. Vivemos num momento que o outro lado é sempre acusado de ter ideologia, como se existisse um estado puro fora da ideologia e que toda ideologia fosse algo ruim. Ideologia é background e tudo bem background. Até mesmo a sua língua nativa é background. Em algumas línguas existem as palavras bom e ruim, em outras existe bom e não-bom; para alguns idiomas, dependendo do sexo e idade dos falantes, há toda uma hierarquia nos pronomes de tratamento. Essas coisas definem o modo das pessoas pensarem de maneira tão profunda que elas nem percebem. Astrologia também não deixa de ser uma ideologia. Pensando nessa questão de Vênus em Áries ser ruim para o amor, pensei no que era bom para o amor e cheguei em Vênus em Touro e Saturno na casa 7, a do casamento. Há uma visão de amor por detrás disso. Touro é o signo mais lento de todos, assim como Saturno é o planeta mais lento da astrologia tradicional (que desconsidera Urano, Netuno e Plutão). A noção por detrás é clara: amor precisa de tempo. Áries vê, conclui rapidamente, age sem pensar, conquista, enjoa. Com Touro e Saturno, as coisas são mastigadas, elas demoram a serem postas em movimento. Em contraste com o fulgor apaixonado de Áries, são até tediosas, previsíveis. Mas, uma vez que comecem, avançam de maneira inexorável. Dizem que o casamento de Saturno na 7 é aquele que começa praticamente sem paixão e termina com velhinhos fofos de mãos dadas.

Frequentadores de Tinder me garantem que se não rola nada depois do primeiro encontro, nem ao menos um beijo, é provável que a pessoa já tenha te bloqueado no whatsapp antes de você chegar em casa. Bauman chama de relações líquidas, diz que geram insatisfação e são impossíveis de serem preenchidas. Bom ou não, este é o estado atual das coisas, muito mais Vênus em Áries do que em Touro, menos ainda Saturno. Ou seja, o que os astros dizem, o que os outros dizem, o que a sua época diz… no fim, tudo volta para a mesma questão de sempre: o que você é capaz de fazer com o que tem.

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Comfort food

pãozinho

Eu mesma só fui conhecer o termo há poucos anos, nem sei se ele existia antes. Foi uma blogueira que se viu tendo que comprar um Quick bem caro em outro país, porque para  a filha era importante naquele momento. Depois de semanas de telefonemas, ameaças e ajustes com operadoras de internet, parece que finalmente resolvi os últimos detalhes, e me vi comendo a mesma pizza que como desde criança. É uma pizza tão poderosa que serve de comfort food pra toda família. Minha mãe a comia quando era criança, meu irmão mais velho passa lá quase todos os dias quando vem pra Curitiba e considera aquela a melhor pizza do mundo. Eu ia resolver outros problemas e quando me vi estava lá, apertadinha na cadeira alta. Foi meu presente.

Saiu a nova temporada de Queer Eye e termino os programas com lágrimas no olhos e me sentindo confortada. Acho lindas as pessoas que eles selecionam e lindo o carinho deles. Também ouvi de uma tentativa fracassada de terapia, e me pareceu que faltou bastante aceitação por parte da terapeuta. Eles, os 5 fabulosos, realmente me convencem nas suas conversas terapêuticas, em poucas frases eles são de uma sensibilidade incrível. Eu acho que o falar a coisa certa passa muito por uma aceitação profunda do outro, pela experiência de vida, uma capacidade de amar.

Quando uma pessoa se vê muito sozinha, como eu me vi, ela se obriga a encontrar comfort em vários lugares. Descobri comfort em aplicativo de karaokê. Descobri comfort em música no chuveiro. Descobri comfort em vídeo de astrologia enquanto preparo café da manhã. Não quero sugerir comfort pra ninguém, o que eu quero dizer é que comfort não é só genético, não precisa vir da infância e do que nos aconteceu. Dá pra criar comfort. Procure comfort, seja comfort.

Amor demais

Comecei um festival Beatles na Netflix. Acho que só me falta ver um dos cinco que tem lá. Além deles, recomendo o do Canal NostalgiaA ironia é que eu nem me considero uma fã dos Beatles. Quem realmente era fã era o meu irmão, e se conheço todas as músicas deles e uma boa parte das de carreira solo do John, se deve ao fato de morar na mesma casa e não ter como fugir.

Tem trocentos estudos e teorias sobre o que torna os Beatles tão inesquecíveis. Uma das coisas que me toca, é a maneira como todos parecem ser pessoas bacanas. Quando jovens, eles são alegres e espirituosos; mais velhos, eles tentam tornar o mundo um lugar melhor. Dá impressão de que seriam ótimas pessoas para se ter como amigos. E que, se eles surgissem hoje, também fariam sucesso.

MAS, também acho muito triste a maneira como é o próprio sucesso que enche o saco e os destrói. O último que eu terminei foi sobre John e Yoko. Num certo ponto um dos entrevistados diz que era muito difícil ser (ex)Beatle, que todas as pessoas que olhavam para eles – dos fãs isolados e histéricos a quem fazia sua segurança, atendia seu quarto – queriam alguma coisa, estavam famintos. Lembrei da Amy Winehouse, que também foi devorada pelo sucesso. Ela decepcionou os fãs num show que se sentou no palco e se recusou a cantar. Os fãs ficaram magoados, mas aquela foi a única maneira que Amy conseguiu de parar aquela máquina que girava em torno dela. No do John, fala que ele estava tão péssimo sozinho, que a Yoko o fez tão feliz, que ele mudou tanto. E fã, por “amor”, se sentiu magoado porque ela não era o que se esperava para ele, era estranha, era feia, teria separado o grupo. John era só um homem, só uma pessoa tentando tocar a vida e ser feliz, é um absurdo que as pessoas tenham se sentido no direito de julgar isso.

Não tenho nenhuma conclusão sobre isso. Artista quer atenção, quer que seu trabalho toque as pessoas e faça parte do seu mundo. Eu também olharia para qualquer um deles com um olhar faminto. Harrison (se não me engano) falou num trecho: “Eu sempre tive pena do Elvis. Ele era um só. Havia muita gente trabalhando para ele, mas só um era o Elvis. Nós tínhamos uns aos outros”. Devia haver uma maneira de amar profundamente e não sufocar os nossos ídolos.

 

Velhos, feios e amados

cachorro velho

Eu nunca tinha acompanhado o envelhecimento de um cachorro como agora. Nós tivemos o Flock, que morava com meu pai, e ele havia se acostumado a passar mais tempo fora do que dentro de casa. Eu lembro quando meu irmão me disse, por telefone, que o Flock havia morrido. Lembro de ter sentido muito, mas pra mim foram umas férias que ele estava lá e outra que ele nunca mais esteve. Sempre me deu um certo calafrio as fotos dos cachorros com os olhos azulados. Os donos falando no diminutivo e com carinho de cachorros já tão feios, acabados. Agora que tenho uma velhinha em casa, não sei dizer se ela já chegou no estágio de alguém olhar uma foto e se sentir mal, acho que ainda não. As fotos são porque nós, donos de cachorros, só vemos ali o nosso filho peludo muito amado. Quando um cachorro deixa de ser louco, se divertir com tudo o que aparece pela frente e disparar frente a qualquer provocação, passamos a amá-lo ainda mais do que antes, porque tomamos consciência de que cada dia a mais com ele um presente. Vemos ali uma história.

Eu me pergunto que hiato tão grande de amor é esse que nos faz amar cada vez mais um cachorro velhinho e fugir de pessoas velhas. De fotografar a decadência do cão com a maior naturalidade e lutar contras as marcas do envelhecimento humano com todas as forças. De trocar quem tem uma longa história por um “modelo” mais novo, que não terá nem tempo de formar tanta história com você. Enfim, como o coração pode ser tão enorme para com uma espécie diferente e cheio de barreiras, até mesmo de ódio, com aquele que nos é igual.

Uma história de amor quente e ligeira

surya

Foi assim que conheceu o eremita Durvasas, vestido de trapos e cinzas, e de tal modo lhe agradou com sua bondade que ele lhe ensinou um encantamento mágico. Com esse mantra, explicou, poderia invocar qualquer um dos deuses do céu para amá-la e nela conceber um filho.

Seria verdade?, refletiu Kunti. Estava ao sol, passando e repassando as palavras mágicas em sua cabeça e mirando sua sombra no chão. Dizia a si mesma: “Durvasas brincou comigo!”, e franzia a testa. Mas logo pensava: “Ou talvez não…”

Sentia o sol quente em suas costas. O Surya dos mil raios brilhava sobre ela. E Kunti ficou a imaginar: “O mundo inteiro o vê durante o dia. Mas à noite ele seria somente meu”. Seria ele tão belo quanto a estátua no Templo do Sol?

Naquela noite, Kunti permaneceu acordada em seu leito até meia-noite. Lá fora, a Terra jazia em silêncio; o palácio estava às escuras. Ela levantou-se, foi à janela e, suavemente, recitou o mantra de Durvasas.

E houve luz, o cheiro de metal quente, e uma brisa, quente e seca como o deserto, cantando em seus ouvidos. Brilhava de tal modo que Kunti cerrou os olhos, mas a brisa fez surgir cores por trás das pálpebras. Ela estremeceu e tombou, quedando no tapete como uma vinha partida no chão da floresta.

Surya, o Senhor da Luz, carregou-a de volta ao leito e permaneceu sorrindo sobre ela., iluminando o quarto com sua presença, de modo a não haver sombra em lugar algum. Cingia-o uma coroa alta de ouro, cujas formas se alteravam e se transformavam conforme respirava. Uma faixa de jóias e brilhantes caía do seu ombro esquerdo sobre o peito nu; do cinturão, do colar e braceletes de bronze, e dos longos brincos de ouro, pendiam laços e ramalhetes de gemas luminescentes: todas essas luzes tingiam o quarto com milhares de arcos coloridos. Ao tirar a coroa, seus cabelos dourados encaracolaram-se em torno de seu rosto como um elmo de bronze fosco.

-Princesa, desperte!

Kunti abriu os olhos.

– Você me chamou – disse Surya – , e eu vim.

Kunti recuperou a voz.

-Senhor do Dia, perdoe-me, mas só o chamei para testar meu novo mantra.

-Sei por que me chamou, e sou agora somente seu. Quer que eu parta?

-Não tenho marido, Senhor Surya.

-Logo irá casar-se. Os filhos dos deuses nascem em um dia. Permite que eu fique?

-A luz… meu pai poderá ver.

-Ninguém mais pode ver esta luz, princesa. Crianças podem comandar os deuses; partirei, se quiser, e você me verá novamente apenas no longínquo céu azul.

-Tão depressa! – suspirou Kunti. – Fique um pouco; veio, afinal, de muito longe para ver-me aqui.

Mahabharata (versão de Willian Buck)

Vegetação

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Eu sonhei que olhava para os fundos da minha casa e os vi cobertos de hera e musgo. E fiquei impressionada, como quem estava dormindo e finalmente abre os olhos, com a passagem do tempo. A árvore que avançava sobre o céu, a forragem verde que demora pra se acumular no caule, a força de plantas que cresceram selvagens por chuvas sem que ninguém as visitasse. Quanto tempo já se passou, eu repetia. E eu o abracei e disse que o amava, amor da qual eu nunca duvidei mas que a dor de outros tempos não me permitia mais pronunciar. E senti em volta de mim um abraço de amor que nunca mais tive. O tempo passou, já passou, muito depressa. Parecia distante e lutei um dia de cada vez; ao ver aquela vegetação tão forte, percebi que eu havia conseguido. Eu não sabia quanto tempo era necessário; nenhuma bruxa me avisou ou se colocou no meu caminho, nenhuma bruxa teve culpa. Quem não tem um guia externo tem que ser seu próprio leitor de sinais: a vida e a fertilidade cresceram sobre os meus erros. Tudo é novo.

Carta de amor

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Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

Durona

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Eu não sei que horas a Dúnia dorme, ela está sempre acordada quando eu vou dormir, por mais tarde que eu vá pra cama. Agora, mais velhinha, o horário dela de acordar é pra lá do meio dia. Quando saio de bicicleta, às 7h, está bem mais cedo do que o horário dela. Eu acordo, vou até a cozinha pra um café rápido, volto pra terminar de me arrumar e saio. Principalmente no inverno, quando eu abro a porta, a Dúnia me olha com cara de sono dentro da casinha, aproveito pra fazer o carinho que ela normalmente não deixa e lhe dou um ossinho. O que ela não sabe é que, às vezes, enquanto estou tomando meu café, eu a vejo da janela da cozinha, sentada com o ouvido colado à porta da frente. Em algum momento, entre o café e terminar de me arrumar, ela volta pra cama e fecha os olhos pra me convencer que esteve lá todo o tempo.

Um amor maduro

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Passávamos de carro pela Avenida Batel, um dos endereços mais caros de Curitiba. Aquela região, em especial, era cheia das antigas mansões dos barões de café, hoje todas transformadas em estabelecimentos comerciais. Ela me apontou uma casa de esquina, que naquele momento era uma das clínicas do meu plano de saúde. “Minha mãe vivia aqui, com seu segundo marido”. Minha amiga estava, conforme sua própria definição, na idade do sexo – sex agenária. Estava grande, vestia sempre roupas largas e desleixadas, enquanto a mãe se mantinha magra, era vaidosa, num daqueles casos clássicos que a mão parece ter menos idade do que a filha. O primeiro casamento, com o pai da minha amiga, havia sido um desses longos, de bodas que cobriam todas as pedras preciosas, e a mãe ainda passou muitos anos sozinha, de maneira que nesse segundo casamento a mãe dela já estava na terceira idade e o marido tinha pra lá de oitenta. Ela me mostrou de carro: todo final de tarde, a mãe e o marido trancavam a casa, passavam o cadeado pelo portão, e andavam de mãos dadas por toda avenida, tranquilamente, até chegarem no supermercado (que também não existia mais). Lá compravam um frango congelado, porque uma das especialidades da mãe dela era frango recheado.

-Que bonito, murmurei.

-Você achou bonito? Bonito nada, era uma porcaria! Você não imagina a quantidade de frango que os dois compraram em quatro anos de casamento, parecia um holocausto de frango. Eu pedia pros dois pararem de comprar frango, eram freezers e freezers, impossível comer tudo aquilo. Até hoje eu não suporto ver frango na minha frente!

Lanchinho

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Uma vez eu conheci um ex-blogueiro, que me disse que comeu muita mulher por causa do blog – o que logo de início de conversa me deixou bem complexada, porque nunca tive um encontro amoroso por causa do blog. Ele já não escrevia há anos e, com alguma resistência, me mandou o link. Foi interessante, porque também me vi com vontade de procurá-lo, marcar um encontro, ver no que ia dar. Só que o que ia dar, no caso dele, era sempre transformar a moça em lanchinho. Ninguém, nunca, há anos, era mais do que lanchinho. Pude ver o contraste e imaginei a frustração de algumas daquelas mulheres. O blog mostrava um homem muito amoroso. Havia textos emocionantes sobre os pais, proximidade e orgulho dos filhos, como foi levar a primeira filha para o altar. O que a gente queria, quando lia os textos, não era exatamente dar pra ele – o bom seria fazer parte daquela vida, daquela família, de todo aquele amor. Que ele também lesse nos meus gestos coisas que ninguém nota, que sentisse saudades. Mas só com o convívio a gente descobria que o amor descrito no blog era apenas e tão somente para aqueles familiares, ele não deixava entrar mais ninguém. Mulher, só lanchinho. Convicto, feliz, sexo sem vínculo. Por isso que a gente diz, e repete, e tenta de novo, precisa ser relembrado: escrita é sempre mentirosa, mesmo quando a pessoa fala a verdade.

A árvore que cai na floresta vazia

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Antes de mais nada: a atitude mais antifilosófica que pode existir é a resposta imediata. Este é um dos grandes males do nosso mundo hoje, talvez a origem: a necessidade de responder de uma vez que sim ou que não. O zen – pelo menos o zen com que sonhei a minha vida inteira através dos livros – trabalha justamente com a atitude contrária. Ele tem os chamados koans, que são perguntas que podem não fazer muito sentido e que servem de objeto de meditação para o discípulo. Num deles, se perguntava se Buda realmente existiu. Acho forte pedir para alguém que largou tudo e se propôs a uma vida monástica colocar em dúvida se o ser que teria dado origem à sua religião. Aqui, do lado cristão, as pessoas agem como se Deus fosse ficar ofendido.

Depois de anos sem ler sobre o zen, me pego com este koan dançando na mente:

Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém lá para ouvir, será que ela faz barulho?

Eu vi e testemunhei momentos lindos. Tive uma professora de balé que quando se aproximava da barra para mostrar um exercício modificava a ar à sua volta de uma forma que céu e terra se encaixavam. Conheci uma recepcionista com um bom humor invencível e que conseguia tirar o melhor de quase todo mundo que cruzava seu caminho. Eu vi carinho e generosidade de quem não tem nada ou quase nada, vi lágrimas de amor em ponto de ônibus, desconhecidos que se ajudam na rua cientes de que nunca mais se verão. Eu me pergunto sobre performances artísticas com energia de mudar o mundo e que tiveram meia dúzia de parentes como público. Eu já vivi, como tantos outros já viveram, estalos internos e arrebatamentos que não podem ser descritos em palavras. As estrelas olham para nós e eventualmente olhamos para elas no mesmo momento. Amazônias inteiras. Como, aonde?

Será falta de chocolate?

Pensei em falar sobre o professor Victor, que tinha acabado de voltar de Paris 7  e falava das Paixões Tóxicas na Adolescência, tese que ele tinha acabado de defender. Estar apaixonado, adolescentemente apaixonado, era como usar droga. Pensei em falar de drogas, da DMT (documentário Netflix) que leva a estados de viajar pelo universo, conversar com as células, sentir o amor que permeia tudo. Pensei em Bhakti Yoga, em meditação, no grande objetivo que é controlar a mente, termo que me confundiu durante muito tempo, e hoje me parece que é mais uma retirada do que uma imposição. Do quanto eu meditava e me isolava na adolescência até ver de nada importava a paz de espírito cheia de exigências, que eu deveria conseguir me manter equilibrada no turbilhão da vida.

Mas o mais honesto mesmo é dizer: passei a vida incólume a esse sentimento, me sentindo meio superior e sentindo pena, mas finalmente chegou: virei uma fã.

Um moreno

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Era uma festa de ciganos e, como um espécie de presente, nosso anfitrião disse que quem quisesse poderia fazer uma rápida consulta com as ciganas. Claro que eu aproveitei. Não quis falar nada pra ela, queria ver aonde ia chegar. A cigana me conhecia apenas de vista e assim que olhou a minha mão disse que eu já tinha sido casada. Até aí, informação fácil. Depois disse uma ou duas coisinhas a respeito do meu casamento que eu juro que nenhum dos presentes tinha como saber, fiquei impressionada. Eu disse que falavam pra mim de um moreno que ia aparecer, mas que moreno demorado. Não lembro que termo que usei ao invés de aparecer, sei que ela me corrigiu dizendo que ele já me conhecia de alguma forma, apenas não via razão para se aproximar. No começo eu pensei: “Poxa, comassim moreno, me conhece e não me dá bola?” Depois eu gostei. Só por que me viu ou me leu por aí era pra mover céus e terras, ficar apaixonado à distância, me stalkear, ficar cheio de ilusões? Isso é coisa de gente louca ou carente, quem está bem segue seu caminho. Um dia, conversando comigo, aí sim poderíamos ver se rolava uma afinidade e faria sentido ele se aproximar de mim.

Foi então que eu descobri o quanto a minha visão sobre o amor mudou.

Multiversos

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Dizem que há multiversos, realidades paralelas, e nas nossas outras vidas paralelas fizemos de tudo. Cada alternativa possível, a da direita, da esquerda, do meio e para trás, foram todas vivenciadas, ou seja, em algum lugar existem versões nossas que conjugam o verbo na primeira pessoa do plural. Mas essa informação, na prática, não adianta nada, porque se não tenho consciência das outras realidades, elas são tão inexistentes quanto a minha imaginação. O pior, você sabe, que de todas as alternativas possíveis, eu prefiro exatamente a que estou – estamos – agora. Eu a criei, eu a escolhi, muito mais eu do que qualquer outra pessoa. O que eu vislumbrava podia ser tanto um fósforo riscado quanto uma bomba, em todas uma quantidade de dor acima do tolerável. Sou adulta – somos – e como toda adulta já tenho dores e culpas o suficiente na bagagem para aceitar mais dor e culpa como se nada fosse. O desejo que me restou, do alto da minha limpeza de caráter – porque me consolo de tudo isso dizendo a mim mesma que fiz o que havia de mais correto – é muito simples. Muito mais simples do que o teu, tenho certeza. Imagino que um dia a gente se encontre por aí, num corredor, e você estará no meio de amigos que eu sempre disse que não são os meus, eu poderei cumprimentar os presentes, me aproximar de você,  e te abraçar. Um abraço longo, daqueles que suspende o tempo, envolve o corpo e a alma. E com ele te faria sentir que tudo mais é pequeno diante da gratidão e amor imensos que sinto por você.

Minha Dudu

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Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Aquelas long neck

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Nunca contei essa história, que já deve fazer uns dois anos. Eu estava voltando no ônibus de sempre, tarde da noite como sempre e havia um mulher sentada atrás de mim falando no celular. Eu estava esparramada na cadeira, muito cansada. O ônibus estava silencioso e a conversa dela se misturava com as luzes dos postes. Do outro lado da linha, ele lhe disse que estava esperando e ela disse que ele deveria dormir, que não precisava. Ele acordaria cedo amanhã. Ele não apenas esperava por ela como tinha deixado um prato de comida separado. E ela tinha uns chocolates escondidos e contou onde estavam. Ela lhe disse que as cervejas long neck entraram em promoção no supermercado onde ela trabalhava. Naquele fim de semana eles podiam comprar, dividir, fazerem a festinha deles. Quando saí do ônibus não resisti em olhar para trás e vi uma mulher simples, meia idade, acima do peso, aparência cansada.

O que me impediu de contar até hoje e que se confirma quando leio o parágrafo acima é o fato de não conseguir expressar o quão doce era o tom daquela conversa, os gestos simples e carinhosos que se podia adivinhar de ambos. Penso nos dois com suas long neck como champanhes e o seu amor tão precioso.