Curtas de amar é voltar

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Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?

Filtro

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Eu acho que ela exagera nos filtros das fotos. Antes eu diria que exagera nos filtros do Instagram, mas agora eu também tenho celular bom e sei que no próprio celular já tem. Eu é que faço questão de não aprender. Tenho um problema com fotos: se fico linda não me representam e se feia não me gosto. Mas não uso filtros porque sei que o tempo acrescentará rugas e quero acompanhar o crescimento delas, não quero me sentir Dorian Gray ao contrário – eu seria o quadro enrugado e minhas fotos me olhariam lisa. Nossas fotos já são mentirosas demais desde que se tornaram fáceis e sem filme. Já conversei com uma outra amiga e ela acha que exagero no filtro demonstra que a pessoa renega a idade, que gostaria de ser mais jovem, o que faz muito sentido. Aí fico com vontade de dizer que ela não precisa ser mais jovem porque o idiota do ex quis uma mais jovem, que ela é linda do jeito e idade que é, de verdade, não estou sendo gentil. Mas talvez, de todo esse discurso, ela ouvisse apenas que eu critiquei o exagero. Como no dia que fui lavar o cabelo no salão e a moça falou “que grisalho mais lindo!” e eu ainda achava que estava arrasando em enganar as pessoas que eram luzes. Voltei pra casa reclamando e o ex, com muita sabedoria, falou: “Você ignorou o elogio e só ouviu o grisalho, não foi?”. Por isso que eu acho que ela vai ignorar todo resto, toda parte Dorian Gray e linda. Então eu não falo. Mas tá exagerado.

A caixa de tachinhas

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Lu era do RJ e tinha um tio que era piloto de avião comercial. Por causa disso, ele conseguia encaixa-la nos vôos e desde muito nova ela ia a Miami apenas para fazer compras. Ela embarcava, ela ia até as lojas, abastecia o carrinho e voltava, não chegava a fazer turismo ou falar com ninguém. Quando Lu ficou noiva, o seu tio lhe deu a oportunidade de fazer uma dessas viagens para comprar seu enxoval. Ela estava numa das lojas quando uma mulher se aproximou dela falando português. Disse que a observou e que sem dúvida ela tinha contatos e voava para o Brasil sem passar pela alfândega. Lu tentou desconversar. Naquela época, as tachinhas estava muito na moda. Aí a mulher lhe mostrou uma caixa pequena, um quadrado que não chegava a vinte centímetros em cada face e abriu. Lá dentro havia muitas tachinhas. A mulher ofereceu a Lu uma quantia exorbitante para levar uma caixa igual aquela para o Brasil. A quantia pagava tudo o que ela estava gastando no enxoval e sobrava. A moça insistiu, eram apenas tachinhas, e Lu aceitou. Aceitou e ficou tensa. Deu o quarto dela no hotel onde ficaria apenas aquela noite e em poucas horas um negão deixou na portaria uma caixa idêntica àquela que a mulher mostrou na loja, só que totalmente lacrada. Lu olhou a tal da caixa o tempo todo, repetiu para si mesma que eram apenas taxinhas, dormiu mal e acordou doente. Embarcou, chegou no Brasil péssima, quase foi revistada na alfândega quando o seu tio passou lá e disse que ela era de casa, que era a sobrinha dele. Mal saiu de lá e, conforme o combinado, a abordaram no aeroporto, deram a quantia prometida em dinheiro e foram embora. O tio quis matar quando soube.

A indesejada das gentes

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Eu li o Montanha Mágica quase inteiro, enfrentei as páginas que se considera mais difíceis e larguei num mal estar que eu desconfiei ser inerente ao tema e não ao livro em si. Para quem não conhece, a ação do livro se passa numa clínica de tratamento de tuberculose. Depois daquilo li mais algumas coisas sobre o assunto. Na biografia de Nelson Rodrigues ela aparece bem, com Nelson angustiado por ir e voltar para o tratamento. Só que por mais que a biografia fale da angústia dele, eu nunca li – pode ser que tenha e apenas eu que nunca tenha lido – o próprio Nelson falar da rotina desses tratamentos. O nosso Manuel Bandeira foi um que conviveu com a tuberculose, sempre à espreita, e no fim das contas acabou sobrevivendo a quase todos seus amigos saudáveis e morreu aos 82 anos. Mas não foram 82 anos comuns, foram 82 sentindo a morte em cada tosse, cada ventinho, cada febre.

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Mas de tudo o que eu li sobre a doença, Bernhard é o que mais me toca. Ele tem um modo de escrever intensamento autobiográfico, e não apenas nos deixa saber que é doente, ele descreve o tratamento por dentro: como é ser internado, verificar a secreção cuspida numa garrafa, os meses iguais e sem perspectiva de melhora, o olhar da equipe de enfermagem que crê que a qualquer momento você não estará mais ali, os pacientes que um belo dia somem e seus lençóis são trocados. Bernhard me faz entender que a rotina da Montanha Mágica realmente me angustiava. Eu sou irritamente saudável; há alguns dias me resfriei, acordei com a cabeça pesada e fiquei me perguntado se aquilo era apenas resfriado ou gripe – eu não me resfriava há tantos anos que nem lembrava mais como era. Fico me perguntando a sede de vida que passar tanto tempo trancado dá a alguém; para mim, é a combinação dessa vontade urgente com – ironicamente – a cultura que adquiriu nos meses de imobilidade que tornam Bernhard um autor tão incrível.

Quando me foi possível novamente levantar e ir até a janela, e finalmente até o corredor e depois, com todos os outros condenados à morte capazes de andar, de uma extremidade à outra do pavilhão e que finalmente, um belo dia, pude até sair do Pavilhão Hermann, tentei chegar até o Pavilhão Ludwig. Porém eu superestimei minhas forças e fui obrigado a parar diante do Pavilhão Ernest. Tive que me sentar no banco fixado ao muro e retomar o fôlego antes de poder continuar por meus próprios meios para o Pavilhão Hermann. Quando os pacientes passam semanas ou mesmo meses na cama, eles superestimam suas forças assim que se vêem capazes de levantar, eles querem simplesmente fazer tudo e em certos casos acontece de esse tipo de besteira fazer com que retrocedam semanas, e alguns, numa dessas aventuras irrefletidas, foram atingidos pela morte da qual tinham escapado com uma operação. Apesar de ser um doente escolado e de ter, durante toda a minha vida, convivido com as minhas doenças mais ou menos graves, depois gravíssimas e, finalmente, sempre com minhas doenças ditas incuráveis, sempre tive regularmente essas recaídas de diletantismo em matéria de doença, fiz besteiras, besteiras imperdoáveis. Primeiro alguns passos, quatro ou cinco, depois dez ou doze, em seguida treze ou quatorze, finalmente vinte ou trinta, é assim que o doente deve agir, e não levantar logo, sair e ir embora, o que, na maioria das vezes, vem a ser fatal. Porém o doente trancado durante meses, durante meses só sonha em sair, e mal consegue esperar o momento em que terá o direito de deixar o seu quarto de doente e, naturalmente, não se contenta em dar alguns passos no corredor, não, ele sai para o ar livre e ele mesmo se destrói. (O sobrinho de Wittgenstein, p.13-14)

Você é

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Contra toda prudência, recusei carona e quis fazer um longo trajeto a pé até o ponto de ônibus. Longo mesmo, daqueles com direito a não reconhecer o caminho, passar por ruas escuras, manos no ponto de ônibus, quase ser atacada por cachorros que os donos soltaram na praça vazia. Mas fazer o quê, eu estava cabisbaixa e o único atestado das minhas boas intenções eram as asinhas de anjo do moletom. Peguei o primeiro ônibus e quando ele estava chegando no terminal o segundo estava de partida. Eu teria ainda dez minutos pela frente, mas não me preocupei porque haviam outras pessoas por ali. Aí surgiu um rapaz andando e falando, andando e falando e eu e a mulher do meu lado já nos olhamos naquele olhar que não precisa de palavras: maluco. E a regra a respeito de malucos é clara: não faça contato visual. Ele começou a vir pro nosso lado falando algo sobre almas pequenas e a pessoa aqui quebrou a regra e olhou pra ele. Aí ele olhou pro ônibus que estava vindo, eu disse ainda bem, ele disse que eu sabia do que ele estava falando, as almas pequenas. Aí ele me disse: Você tem a alma forte, muito forte, eu posso sentir – e se inclinou, à moda oriental. Ao contrário do que achei de longe, ele era nissei, estava bem vestido, não parecia drogado e sim um praticante de artes marciais. Achei que a mulher do meu lado havia me olhado pra me reprovar mas não, ela saiu correndo porque o ônibus que vai direto para o outro terminal acabara de chegar. O maluco olhou pro ônibus e olhou pra mim, olhou pro ônibus, e eu lhe disse que ele deveria pegar. Ele perguntou se eu ia pro terminal e eu disse que não, mas que ele devia pegar o ônibus, aí ele me perguntou se eu dava permissão para ele ir do meu lado. Ferrou, né? A pessoa deu bola. Eu disse que tudo bem. Aquele ônibus foi embora, o nosso chegou e eu me sentei ao lado de um homem que lia jornal, porque todos os lugares da frente estavam ocupados por uma pessoa e a cadeira ao lado vazia. Me perguntei o que o rapaz faria, se se irritaria comigo, se veria que não tive opção, se iria embora. Aí ele encarou cada uma das pessoas dos bancos, o motorista, as pessoas do banco do outro lado e depois se voltou pra mim, muito perto, com o rosto à distância a um palmo do meu. “Você tem uma energia muito forte. Você não é como os outros. Eu não sei como explicar como eu sei disso, eu apenas sei. Você é única. Você não se parece com ele, ele ele (apontou para todo mundo), eles (para o fundo do ônibus). Você não se parece com ninguém, ninguém é como você. Não sei qual a sua ligação com misticismo ou alquimia. A sua energia é muito forte. Acho que eu vim aqui hoje só pra te dizer isso. Eu não sei o que você passou na sua vida, você é maior do que tudo isso. Você sabe que eu estou falando a verdade, você sabe quem você é”.

O universo tem formas estranhas de nos consolar. A parte dele bater a testa na barra quando eu disse que sou de gêmeos e me dizer que é filho do tenente não sei das quantas como se isso fosse me revelar algo não foi tão legal, mas ok. Obrigada. Sério.

Laerte-se

Eu lia Chiclete com Banana. Hoje acho bem inadequado pra minha idade na época, mas meu irmão não estava nem aí. Lembro que o Angeli tinha uma sessão para responder cartas chamada Rolo de Macarrão, que seria a senhoura dele respondendo as fãs que tinham fetiche por ele. Nunca fui muito fã das tirinhas do Glauco, achava tudo feio e desorganizado. E tinha o Laerte, gênio absoluto, uma imaginação sem limites. Então eu pude entender bem quando um amigo da mesma geração que eu me disse que não poderia jamais chamar O Laerte de A Laerte. A gente cresceu com ele, admirando o trabalho dele, não dava pra fingir que agora era uma mulher. Eu chamo de A Laerte e talvez tenha convencido meu amigo quando disse:

Pra mim é simples. Eu chamo as pessoas pelo nome que elas gostam de ser chamadas. Como o Beto que insiste em ser chamado de Beto, porque Roberto é o pai dele. Se Laerte se sente mais confortável com A, eu chamo de A. Se você quiser que eu te chame de Tigrão, chamo também. Não sou eu que vou dizer pras pessoas com elas devem ser chamadas.

Me parece que é essa a diferença fundamental dos que têm o pensamento mais conservador para quem não tem. Eles acreditam que o mundo deve ser um lugar compreensível, que as atitudes ou até mesmo as mudanças devem ser classificáveis. Como as mudanças não estão seguindo o scrip, a sociedade necessariamente errou em algum ponto, porque o compreensível é a regra. São pessoas que têm respostas. Gente como eu não tem e não ousa ter. Não sei se a variedade que existe hoje é fruto do erro ou se existiria de qualquer forma, se com mais justiça social ela pararia ou até retornaria. Não estou dizendo que acho lindo, que levaria pra casa, que tudo bem se meu homem se vestisse de mulher, e se meu filho, etc. Eu aceito porque acho que nem cabe a mim ser contra ou a favor – cada pessoa é soberana na sua própria busca pela felicidade.

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Tudo normal

Há décadas, quando eu estudei isso, o Duplo Vínculo estava ligado à antipsiquiatria. Claro, ninguém aqui quer negar que haja um componente biológico, mas a antipsiquiatria tinha no seu âmago uma crítica à psiquiatria tentava ampliar a forma de ver a loucura. Essa teoria nos informa que não se fica louco do nada, que há uma história, que o meio tem seu papel. Nas relações familiares mais próximas de um doente psiquiátrico seria fácil encontrar relações doentias – chamadas de duplo vínculo – onde uma pessoa com grande autoridade sobre o sujeito lhe dá informações conflitantes que destroem seu senso de eu. É o “eu te amo” dito numa realidade cheia de ódio, o discurso da confiança em meio à agressões. Isso é repetido tantas vezes, por um outro tão maior e convicto, que o “louco” fica confuso e paralisado. Ele não consegue responder porque não há resposta coerente possível frente ao incoerente.

Estudei duplo vínculo como antipsiquiatria, mas hoje ele me parece tão mais amplo. Penso que existe em toda relação abusiva. Inclusive, hoje em particular, me parece que é possível fazer duplo vínculo com um país inteiro. Um absurdo maior do que o outro e nossos meios de comunicação e governo insistem que:

não há nada acontecendo

Fantasia

elefante voador - Natu Bieby

Acho que ele percebeu quando eu voltei a sorrir e a contar piadas que estava melhor da separação. Nos conhecíamos a algum tempo e até então ele jamais havia tentado nada. Os nossos horários subitamente começaram a coincidir e ele se sentava ao meu lado e perguntava, de forma nada sutil, sobre o meu fim de semana. Se eu havia ido a algum barzinho. Se havia bebido. Se havia voltado tarde. Se estava saindo com alguém. Eram tantas perguntas e tão longe da minha realidade – passar cal no muro, atravessar a cidade de ônibus ou colocar as leituras em dia – que comecei a brincar dizendo que ele é que deveria me dizer como foi meu fim de semana, que eu gostava muito mais da versão dele do que da minha.

Dividi isso com pouquíssimas pessoas porque tinha certeza que me chamariam de trouxa. Ainda mais se eu mostrasse uma foto dele. Idade regulava (um pouco mais velho do que eu), aparência regulava (bonitão), temperamento regulava (meio reservado, meio brincalhão); a única coisa que não regulava era o meu papel nessa história: casado, muito bem casado, obrigada. Não havia nem papinho de mulher doente, o que ele queria mesmo era cama, no máximo uma amante, quem sabe até remunerada. Pois é, além das qualidades que eu já mencionei, é rico. Nunca rolou uma baita afinidade, mas eu o acho simpático. Quem sabe eu pudesse dizer que se as circunstâncias fossem outras, etc. Mas, sinceramente falando, se as circunstâncias fossem outras, eu não acredito que ele estaria preocupado comigo e sim atrás de uma gatinha com menos de trinta e frequentadora do Clube Curitibano.

Um dia eu lhe disse, espontaneamente:

-Eu pensava que quando me separasse eu iria aprontar, fazer tudo o que eu não fiz na adolescência. Que agora, sem as travas e a timidez da época, madura e inteligente, eu faria diferente e poderia aproveitar tudo o que não aproveitei antes. Aí eu me separei e não fiz nada disso: fico tanto em casa, faço minhas coisas, leio meus livros, igualzinho o que eu fazia antes. Eu não tenho vontade de fazer diferente, não tenho vontade de sair e aprontar. A gente é o que é.

Ele me deu uma resposta sensata qualquer, concordando. Depois nossos horários pararam de coincidir e ele parou de perguntar sobre meu fim de semana. Alguma coisa no meu discurso – a sinceridade, a moralidade embutida? – quebrou a fantasia. Continuamos amigos.

Curtas de sorvete na geladeira

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Eu me senti muito adulta em descobrir um sorvete perdido. Quando na minha vida eu imaginei que chegaria o dia que um sorvete não seria devorado em qualquer pretexto de comer doce.

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“Eu olho pra você e lembro do coentro” – verdureiro do bairro. No caso, o coentro que ele vai passar a trazer pra mim.

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Para o telemarketing da Net: “Se eu acabo de te dizer que mal uso telefone fixo e o Now porque quase nunca ligo pra ninguém e assisto Netflix, acho que não faz sentido você tentar me mudar para um plano de ligações ilimitadas e mais vantagens na TV a cabo, né?” Ela ficou sem graça e me deixou desligar.

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A Dúnia estava com todas as necessidades satisfeitas – água, comida e passeio – e não parava de chorar. Ela tem tendência a chorar à toa só pra ganhar ossinho. Aí fico naquele dilema, de não querer atender o cachorro imediatamente pra não reforçar comportamento indesejado. Aguentei o quanto pude, e quando fui pronta pra dar uma bronca, descobri um passarinho se debatendo (e cagando) na sala inteira. Ela estava assustada com o barulho. Fiquei me sentindo uma monstra de sala suja.

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Que é meio difícil me tirar de casa é ok, o que eu não sabia é a diferença que faz saber que vai ter comida boa de graça. Válido para cultos de religiões simpáticas. Quero ver quem atira a primeira pedra.

Por carta

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Que eu não sou do tipo que dá a baita resposta que destrói o adversário na hora já sei e já lamento há muito, mas os anos me mostraram que a coisa é ainda mais grave. Às vezes levo tempo para saber até como me sinto em relação a alguma coisa. O fato de não doer na hora não quer dizer que depois não vá num crescente e quando finalmente descubro o impacto está doendo pra caramba. Há uma distância entre eu e Eu, e deixo a critério da crença do leitor o que seria um eu minúsculo e um eu maiúsculo. O eu recebe e precisa da resposta do Eu. Para algumas coisas, o trivial, eles trocam e-mails. Em outras, a comunicação é feita do modo antigo, por carta, e elas certamente atravessam oceanos.

Embrace

Uma das coisas que me afastou da psicologia foi quando percebi que há uma personalização de problemas que são coletivos. Se a mulher vai para o consultório com problemas de auto-estima porque se acha gorda, e quase todas as mulheres do mundo estão se achando gordas, fazendo plásticas e dietas porque se acham gordas, tanto as que fazem parte das estatísticas crescentes de obesidade quanto as que estão abaixo do peso, temos aqui um problema que não é apenas da mulher que vai no consultório. É um problema de todas nós. Ao mesmo tempo, a psicologia existe porque existe um problema que, para a pessoa, pouco importa se é pessoal ou coletivo: é algo que a impede de ter qualidade de vida e ela quer mudar.

Esse é um buraco tão profundo, um caminho tão difícil a ser seguido. Conheço gente que usa PP e acha gordura em si mesma, que diz que gostaria de serrar parte do quadril; também conheço quem quase não consiga comprar roupas e se sinta julgada o tempo todo por causa do peso. E existe sofrimento em ambas. Então eu quero, de coração, indicar este documentário (Netflix) pra ser uma pedrinha em meio a tantas mensagens que nos levam à insatisfação todos os dias. Que ele te emocione e te faça refletir também.

Sujeira

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Na minha cabeça não faz sentido, mas eu estava num curso de Defesa Pessoal para Mulheres e assim que o instrutor começou a nos ensinar os golpes mais baixo possíveis, daquele para fazer o cidadão se contorcer de dor na primeira, uma das alunas disse que não concordava com nada daquilo. Achou a abordagem muito violenta e que seria melhor nós nos propormos ao diálogo. Nós, as outras alunas, nos olhamos, nos perguntando se ela achava que dava para querer conversar com um cara que te leva pra um beco escuro com uma faca na barriga ou se ela pensava que defesa pessoal era para ser aplicada em ambiente corporativo. O instrutor começou assim: “Você saiu de casa tranquilo, o marginal te abordou. A primeira coisa que você tem que ter clareza é: você vai se sujar”. Pois é, sempre lembro dessa frase, do se sujar. Tem o sentido literal, de você ter que lidar com uma fuga ou briga usando justamente o seu suéter favorito. Ou a pessoa sofre um acidente e tem a roupa cortada e, putz, justo o jeans que me cai melhor. Mas o se sujar também tem o sentido de aceitar que pronto, o teu dia não é mais aquele – estragaram teu humor, te colocaram numa briga e você tem que se posicionar. Fingir que não aconteceu não vai trazer o dia de volta.

Das antigas

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É bem estranho você ter uma amiga moderna, advogada, independente, defensora das minorias e ela pegar um mantón flamenco, olhar a trama intrincada que dá origem às franjas e dizer: “isso eu sei fazer”. OI? Sabia aquilo e todas as prendas possíveis. Aí ela me contou que a mãe dela era uma verdadeira gênia – ela disse “do mal”, mas num sentido totalmente cômico e amoroso – que entretinha as filhas durante as férias escolares com prendas domésticas. As férias mal começavam e ela já vinha com um bastidor e a meta do mês. Ela e a irmã passavam as férias em casa, quietinhas, bordando…

Mais um post com Günter Grass

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Eu estava andando até o supermercado, pelo caminho único e de sempre e pensava, fascinada, no Linguado. Eu já tenho uma antiga teoria que ser judeu ou alemão ou, mais ainda, judeu alemão, já é meio caminho andado pra genialidade, e Günter Grass estava fazendo por merecer sua nacionalidade. Eu me perguntava que biografia gerava aquele tipo de bagagem cheia de mitologia, comida e história – sem dúvida uma vida com algo que a minha não tinha. Um carro passou na direção contrária, um vizinho andou pelo quintal e me senti a mais prosaica das pessoas e com o mais prosaico presente e passado. Eu ainda não sabia quase nada sobre Grass, não sabia do colega do colégio nazista que encarnava nas tarefas e no físico o ideal germânico, mas que não se cansava de decepcionar a todos porque deixa as armas caírem e dizia “nós não fazemos uma coisa dessas”. Ele foi o único, naquele gesto, a resistir e ser crítico em relação ao que estava acontecendo. Não sabia do cara que ficou com vontade de ir ao banheiro e, para que ninguém comesse a porção dele, tirou o olho de vidro e pôs em cima da comida. Jamais poderia imaginar que grande parte da paixão culinária vinha de aulas teóricas de um cozinheiro de campo de presos, porque as pessoas começaram a se organizar e dar e receber aulas para matarem o tédio. O chef dispunha apenas de giz e quadro negro, então os pratos eram feitos e a fome saciada apenas na imaginação. Não sabia que Grass tinha passado fome, se mijado de medo e dos muitos fatos biográficos que ele sem dúvida trocaria com gosto por uns mais prosaicos. Lembro de estava passando na frente do terreno da igreja, olhado para dentro e reparado na árvore cheia de folhas quando me dei conta que essa questão – da biografia insuficientemente interessante – era tão tola que não merecia ser colocada. Cada biografia é o que é, nada podemos fazer. Quanto mais recuada no tempo, ainda mais determinada por circunstâncias que fogem ao nosso controle. O que podemos fazer, o único que podemos fazer, escritores ou não, era exatamente o que eu estava fazendo naquele dia a caminho do supermercado: passar por ela todo dia, sempre, olhar, e de novo, ter certeza que conhecemos, relaxar nela, descobrirmos como floresce diferente no outono, amar e odiar, mas passando sempre, para sempre.

Eleanor Rigby

Era um disco duplo, de capa cinza, com uma coletânea dos Beatles. A gente abria e tinha a letra, em inglês. Eleanor Rigby provavelmente chamou a minha atenção pelos arranjos, tão bonitos e tão diferentes das outras músicas do disco. Minha mãe me explicou que a música falava de solidão e existia até uma estátua da Eleanor embora ela nunca tenha existido. Com a capa do disco nas mãos, minha mãe pegou a letra e traduziu. Eleanor Rigby catava os arroz que jogavam na igreja e sonhava em casar, Padre Mckenzi escrevia sermões que ninguém ouvia. “Fácil, é só apresentar a Eleanor ao Mckenzi e eles se casam os dois deixam de ser sozinhos!”. Pela expressão da minha mãe, ela não tinha ficado totalmente convencida. “Hum, é porque ele é padre, né, não pode casar. Mas ela poderia ir assistir os sermões dele…”

É uma pena quando as coisas não podem ser simples.

Borboletas e baratas

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Li em algum lugar que o número de estudos sobre as borboletas é muitíssimo maior do que os sobre baratas. Seria pela importância delas para o meio ambiente, ou para a polinização das flores, ou devido à grande variedade da espécie e o papel das borboletas na mitologia de diversas civilizações? Apenas imagine que você é um pesquisador e precisa escolher aquele assunto para o qual se debruçará e olhará com atenção pelos próximos anos, quem sabe o resto da sua vida…

As teorias que comparam o comportamento humano com animal, ou a nossa relação do mundo como metáfora de como éramos com nosso xixi e cocô ou que dizem que tudo se resume a sexo, nos soam primárias e ridículas, mas a verdade é que somos sempre muito mais simples do que nossas racionalizações.