Profecia

“Eu queria falar com você nas minhas últimas horas de solteira!”. Eu estava no atelier e tinha perdido uma ligação do celular e liguei de volta para a minha melhor amiga, que também não atendeu o dela. Aí deixei aquele recado. Isso porque naquela noite eu ia sair de novo com o engenheiro-bom-partido que uma amiga em comum havia me apresentado, e as coisas estava andando rápido e bem. Pelo pouco que ele demorou pra me ligar de volta e marcar outro encontro, que seria aquela noite, eu tinha certeza de que ia rolar. Só que eu não tinha noção do quão poucas horas eu tinha de solteira ou, dito de outra forma, que eu levaria mais de uma década para voltar a ser solteira.

É assim:

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Dois exemplos de ofensas que cometi por erro de avaliação

 

Na minha cabeça, eu enquanto nora e cunhada atrapalhava. Legalmente, podia até ter me tornado parente, mas na verdade eu estava ali por causa da escolha de uma pessoa, escolha essa que não tinha nada a ver com o resto. Minha sogra, enquanto mãe, queria encontrar apenas o seu filho. A idade adulta o afastava cada vez mais, e agora havia até uma mulher do lado dele. Mulher essa que ela podia aceitar, gostar, mas que não era e nem nunca seria parente dela. Então me parecia que era muito melhor eu deixar o filho ir lá, sozinho, ser acarinhado, abraçado, dar todo seu tempo livre para a mãe dele. Minha presença era uma tolice, ele sozinho era a volta do núcleo original, as pessoas que realmente se amavam e tinham uma história juntos. Eu achava que reunião familiar sem os in law era melhor para todo mundo. Não, teoricamente todos se amam e eu tinha que estar lá para atestar isso. Minha ausência não era um espaço e sim uma agressão. Não que hoje eu conseguisse fazer diferente, mas agora pelo eu tenho mais noção de quanto os ofendi.

 

Fiz de novo, agora com outro assunto. Uma grande amiga minha vai casar. Juntou vários nomes numa mensagem privada e estava tentando marcar encontro. Aquele stress: quem pode em que dias da semana e em que horário e local? Porque ela queria uma reuniãozinha, queria dar o convite pessoalmente. Aí, numa resposta cheia muitas voltas, eu digo: convite é pra gente saber dia e horário, coloca os dados aí e entrega quando for mais cômodo. Senti que foi como xingar a mãe. Não, convite não é bobagem, entregar pessoalmente não é bobagem, antecedência não é bobagem. Aí eu vi o quanto nunca ter desejado casar na igreja me torna ignorante nessas convenções – tanto que nunca faço questão e não me ofendo quando não me convidam pra casamentos. Confesso que pra mim é apenas uma festa, e das mais chatas. Na longa justificativa que se seguiu à minha fala, percebi que há um orgulho em sair entregando os convites, o papel de noiva, o estar na lista, toda essa onda de dificultar a própria vida. E eu um dei coice na noiva porque achava, ingenuamente, que convite era só informativo.

Eu sou mesmo um alien.

Minha Snoopy

Quando eu era criança tinha um cachorro chamado Flock. Eu era fã dos desenhos do Snoopy e ficava muito frustrada do Flock ser totalmente indiferente às casinhas de cachorro. Lembro que numa das tentativas de fazer ele usar a casinha, jogamos um ossinho dentro e meu irmão sentou com as costas na porta, barrando a saída. Depois disso, nem com ossinho ele entrou mais. O Flock olhava para as casinhas com a indiferença de quem acha que aquilo não tem nada a ver com ele. Pra que ficar num espaço pequeno daqueles se ele tinha o quintal inteiro?

A Dúnia me surpreendeu logo no primeiro dia. O adestrador disse que era possível que levasse um tempo, que seria bom deixar coisinhas lá pra ela, não forçar. Eu lembro que pusemos a casinha lá e saímos. Horas depois, quando voltamos, ela já estava lá dentro. Acho a coisa mais linda.

Dois curtas desgostosos

Estava comentando com uma amiga o filme de Sartre & Beauvoir, do relacionamento difícil entre os dois, do pacto entre gênios. Aí disse que fiquei com vontade de, finalmente, ler O segundo sexo e perguntei se ela havia lido. Ela, uma mulher culta, que admiro, com quem gosto de conversar, fez uma careta quando mencionei o livro. E na expressão dela eu percebi o estrago que alguns discursos feministas exagerados têm feito. Há exageros em todos os movimentos, mas exageros em grupos minoritários e/ou vítimas de preconceito são mais perigosos porque tem o poder de contaminar a todos e servir de argumento para seus detratores. Esse tipo de feminismo, bem intencionado nos seus exageros, contaminou a própria Beauvoir.

 

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Quando eu era casada estava fora do mercado, então as amigas não falavam muito sobre homens comigo. Eu sabia de tudo meio por alto. Conversávamos então sobre outras coisas: política, TV, novidades, Deus, opiniões, tudo que há debaixo do sol. Agora não, estou solteira, sou uma igual. Descobri que as conversas do que há debaixo do sol são as sociais; quando realmente me consideram uma amiga, íntima, daquelas pra quem se confia a parte mais profunda do seu ser, quase todas as mulheres só falam de homens. E como falam: do que não ligou, do que sumiu, do que falou e não era verdade, do que… (Suspiro) Tenho saudades dos outros assuntos, aqueles, de quando não se tem tanta intimidade.

Admoestações

Como se não bastasse ter chegado muito cedo, bem na hora combinada para encontrar meu irmão estava frio e chuvoso. Tive que me abrigar na igreja e lá vi um grande cartaz, com as diretrizes católicas para este ano. Era bastante coisa para ler, então só me dei ao trabalho de observar as duas colunas do final. Um item dizia “Alimentar os famintos” e o seguinte mandava “dar de beber aos sedentos”. Pra mim uma coisa já está subentendida na outra, ou não? A primeira coisa que eu pensei foi naqueles trabalhos em que você tem que colocar vários itens e não tem muito assunto, então começa a encher linguiça. Depois pensei que não, vai que precisa mesmo. Vai que, por falta de alguém colocar os dois itens no cartaz, as pessoas começam a distribuir marmitas de arroz, farofa e bife acebolado, sem um caldinho de feijão pra ajudar a descer. Ou distribuem apenas copinhos de água mineral.
Continuei lendo. “Consolar os aflitos”, muito bem. “Aconselhar os duvidosos”, óquei. “Admoestar os pecadores”. Admoestar, até arrepiei de prazer. Os anos tem me tornado daquelas loucas que gostam da língua portuguesa, da sonoridade das palavras, da lapidação das frases. Textos mal escritos ou me fazem corrigir mentalmente, ou me levam a saborear a sua imperfeição, porque há erros deliciosos, que trazem um quê de infância da escolarização. Talvez esse meu caminho de amor as palavras tenha sido inevitável. Lembro que nem era adolescente quando tive que começar a usar gírias, porque meus colegas diziam que não dava pra entender o que eu falava e me imitavam: “trouxe-o para cá”, “vieram conosco“. Uma vez, na faculdade, fomos divididos em grupos para fazer testes psicológicos, e eu fiz o teste de vocabulário da Bateria Cepa. Eram muitas perguntas de múltipla escolha; de algumas eu tinha certeza, em outras fui pelos radicais das palavras ou pelo que soava melhor. Precisamos da ajuda da professora para achar o resultado, porque eu havia errado apenas uma e a tabela não chegava a essa pontuação. A resposta mais aproximada era percentil acima de 98. Foi o mais perto que eu cheguei da genialidade.
Eu nem sem de onde eu conheço admoestar, quem manda ler livros velhos. Alguns verbos e adjetivos praticamente não existem mais no dia a dia, são usados apenas por religiosos. Vai ver que para os católicos, é muito comum conjugar a admoestação. Melhor que não seja, para que eles não saiam admoestando os outros por aí. Tanto admoestar quanto ser admoestado é um saco.

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Destino

Eu acredito em destino. Não porque acredite que tem alguém que decide o que devemos passar e sim porque somos formados por meia dúzia de padrões inegociáveis. Como agimos sempre com base nas mesmas premissas, jogamos sempre a mesma energia pro mundo e obtemos sempre as mesmas respostas. Às vezes nos achamos diferentes porque temos o padrão de ser do contra, ou de achar que somos fora do padrão. Como somos pessoas padronizadas e previsíveis, cercadas de pessoas igualmente padronizadas e previsíveis, qualquer olhar mais distante seria capaz de dizer com precisão o curso dos acontecimentos. Seria como olhar uma fila de formigas e prever que, poucos metros a diante, elas encontrarão um obstáculo.

Curtas sobre questões caseiras

Eu sabia que dezembro era época de reaplicar o rejunte, mas fiquei com preguiça. Deu no que deu: minha área de serviço começou a pingar depois do banho, fiquei com medo de que fosse o encanamento, tive que tirar todo forro, uma lambança. Comprei rejunte, comprei sorvete pra usar o pote pra fazer rejunte (pra alguma coisa valeu um dia ter sido escultora). Agora explico o porquê da preguiça: o rejunte leva 72 h pra secar. São três dias sem poder tomar banho no meu chuveiro. Quando reaplico rejunte, tomo banho de caneca lá nos fundos. A dúvida é entre passar frio no banho de caneca ou ficar sem chuveiro bem quando qualquer ida até a esquina já é um suadouro.
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Eu tinha visto a mocinha da Copel passando. Aí ela bateu aqui e me falou sobre colocar a conta da minha vizinha na minha caixa de correio. Demorei pra entender, achei que ela tinha colocado por engano e queria que eu resgatasse o papel. “É que está fechada, você entrega pra ela?”. Sim, minha vizinha está de férias e a casa está fechada, e eu com isso. Mas era uma mocinha boazinha que estava se dando ao trabalho de falar comigo. O carteiro não está nem aí, deixa todos os endereços dúbios da vizinhança comigo, porque a minha caixa tem a melhor abertura. Então deixa, vai, já sou carteira de todo mundo mesmo.
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Por falar em Copel, meu consumo diminuiu e minha conta aumentou. É isso mesmo, Brasil?
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Quando a gente passa a separar o lixo, a lixeira de orgânicos fica bem pequena. Levando em conta que eu sou ruim de cozinha e moro só, imaginem como é a minha. Digo que sofro bullying dos lixeiros, porque às vezes eles passam pela vizinhança e só deixam o meu. Agora imaginem o ridículo que é pensar que eu erro na hora de comprar saco de lixo. Minha lixeira – comprei há pouco tempo e fiz questão de olhar – é de 15 kg. Aí vou comprar saco e não sabia que as medidas de quilos e litros não são nada equivalentes. Comprei um saco de 20 litros e quando cheguei em casa dava pra ensacar um cadáver.

A última morada de Dona Canô

Na minha curta estadia no Recôncavo Baiano visitei várias cidades com a Regina e o Laécio. Foi tudo bom: a companhia, as acomodações, Folia de Santo, as comidas, os passeios. Foi tão bom que eles me fizeram cogitar morar na Bahia, coisa que meu pai sempre quis e nunca conseguiu. Numa dessas viagens, passamos por Santo Amaro, cidade de Caetano e Bethânia. Lá almoçamos muito bem enquanto observávamos uma figura misteriosa fumava na porta do estabelecimento, que claramente era importante na cidade. Uns jovens quiseram sentar perto e com um simples gesto de dedos ele os expulsou dali. “Deve ser parente de Caê”. Só de estar em solo sagrado já estávamos assim, íntimos da família de Dona Canô.

Aí fomos para a principal rua da cidade e não foi difícil achar a casa de Dona Canô. Pela foto, dá pra perceber que a cidade é muito limpa e ainda não tinha tirado os enfeites das festas juninas. Nenhuma dessas casas é a casa de Dona Canô, mas era do mesmo estilo. Caso alguém ficasse na dúvida, bem na frente tinha placas, uma falando de Bethânia e outra de Caetano. 

“Essa não é a casa de Dona Canô”, falou Regina, que nessa época nem tinha assumido que é Viciada em Problematizar – “Eu vi uma entrevista recente dela, em casa, e ela está num jardim grande. Essa casa é pequena”. Ficamos com vontade de conferir. A casa estava linda e bem cuidada, e quase fomos entrando, naquele raciocínio de que deve ter se transformado num museu. Só depois percebemos que não era, tinha alguém morando lá. Provavelmente um primo de Caê.

“Eu acho que essa é a casa onde eles passaram a infância. Depois os dois fizeram sucesso, ficaram ricos e compraram outra casa para a mãe, aquela que eu vi na entrevista”. Aí decidimos procurar a outra casa, a boa, a última morada de Dona Canô. Fomos andando pela rua. Em quase todas as casas havia pessoas de idade com cadeiras na varanda tomando uma cervejinha. Abordávamos todas: “Você sabe nos dizer onde fica a última casa de Dona Canô?”. Quase todos nos descreviam aquela casinha que havíamos acabado de ver. Agradecíamos e íamos embora, claramente gente desatualizada. Até que uma senhora, que tomava cerveja sozinha na sua varanda, nos informou: “Vocês querem a última casa da Dona Canô? Eu não sei o número, fica na rua aqui atrás. É só vocês pegarem essa rua e logo vocês vão ver”.

Viramos a esquina e era uma baita subida. Fomos de carro. À medida que subíamos, as casas iam ficando mais feias, uma favela. “Não vai ser difícil achar a casa de Dona Canô porque ela vai ser a mais bonita, vai se destacar no meio dessas casas pobrinhas”. Subimos, subimos, subimos. Perguntamos sobre a casa de Dona Canô e todo mundo nos indicava aquela que havíamos acabado de conhecer. Era subida que não acabava mais e nada de achar uma casa bonita. “Regina, se abraça com uma velhinha dessas e diz que não encontrou com Dona Canô mas conheceu uma amiga de infância dela. Provavelmente é verdade”. Mas ela não quis me ouvir. Até que chegou um ponto que vimos que velhinha nenhuma conseguiria subir tanto, que Caê não faria aquilo com a própria mãe. Desistimos e decidimos conhecer outra cidade.

Na descida, viramos a esquina na rua paralela ao nosso ponto de partida. Olhei à minha direita e “gente, olha lá, foi isso o que a mulher quis nos dizer!”. Logo ali atrás estava a última morada de Dona Canô: o cemitério.

Louca do café

O café do supermercado.
Nem preciso repetir que gosto muito de andar, né? Pra ir é ruim, pela questão do horário e de chegar nos lugares cansada e suada, mas pra voltar pra casa andando é quase de lei. Quanto mais a gente acostuma com um trajeto, mais curto parece que ele se torna. Meus pontos de partida não variam tanto, e gosto de parar no caminho, entrar nos lugares, ver as lojas, comer alguma coisa. Por causa disso, numa distância de cerca de dez quilômetros, devo ter tomado todos os cafés até a minha casa. Eu poderia escrever um guia. Dos lugares mais simples aos bonitinhos, posso tecer comentários sobre como é o café (se tem opção, um carioca) e o salgado (geralmente pão de queijo), passando pelo ambiente e o atendimento. Minha última descoberta é uma padaria ótima ao lado de uma pet, com mesinha pra fora. Quem está com seu cachorro pode tomar um café lá com ele – privilégio esse que nunca terei, pois a Dúnia tentaria roubar o que está na mesa, choraria, latiria para as pessoas, me arrastaria, etc. Ainda voltarei lá. Tem um que tem que descer por uma escadinha e ser atendido por uma velhinha com problemas nas cordas vocais. Desisti de ir por ser isolado demais, a gente fica fechadinho olhando pras paredes e pra isso eu faço café em casa. Sem dizer que a velhinha não aceita cartão. Duas quadras pra baixo tem uma lanchonete/restaurante com atendentes gentis, mas um café ruim de doer. A padaria chique – são duas filiais no meu caminho – serve para fazer boa figura e se sentir bon vivant, mas é cara demais. Sem dizer que o atendimento de uma delas é tão ruim que nunca consegui descobrir se é pra pedir no balcão ou esperar na mesa, porque nenhum dos dois jeitos funciona. Numa padaria perto do supermercado dá pra tomar café vendo TV, o que também tem seu charme. O café do (outro) supermercado é bonzinho, mas a relação custo-benefício fez com que eu me apegasse – pasmem com o meu espírito investigativo – ao café da loja de material de construção. Agora estou indo menos, mas no final do ano passado cheguei a ir três vezes por semana, sempre no mesmo horário. Deve ter sido estranhíssimo, caso alguém tenha me notado. Somente eu e os funcionários sabemos que lá tem um delicioso carioca com pão de queijo por apenas 2,50. E aceitam cartão. A atendente de henna na sobrancelha já nem me pergunta se quero açúcar ou adoçante. Meu sonho é chegar lá e só dar uma piscadinha.

Riscos

Naquela última temporada que eu e minha prima passamos em Salvador, decidimos não ficar em casa morrendo de tédio e saíamos à noite. Era um programa bem inocente. Basicamente íamos num shopping à beira mar, comíamos fast food, olhávamos o movimento. O ponto de ônibus ficava quase em frente e quase todas as linhas nos levavam de volta, poucas paradas depois. Aí voltávamos andando tranquilamente pelo condomínio.

 

Em frente a casa do meu pai tem um campinho de vôlei e um quadra de futebol. Estávamos voltando e de longe vi a silhueta do meu pai pela sala. Àquela hora ele normalmente já estaria dormindo e me deu a impressão de estar dando voltas. Pouco depois as luzes se apagaram e quando chegamos a casa já estava tão vazia e silenciosa como se todos dormissem há horas. Achei que ele tocaria no assunto no dia seguinte, mas não, foi como se não tivesse acontecido.

 

Eu já passava dos vinte e na minha casa, com a minha mãe, já era muito comum que eu voltasse tarde. Mas para ele foi uma experiência nova. Lembro que comentei com ela, que falou algo como “ah, agora ele sabe o que eu passei!”. Meu pai se sentiu inseguro, assim como minha mãe já se sentira. E, como ela, teve que se acostumar. Os filhos iam sair sozinhos e ver a rua. Chegariam na hora que desse vontade, ou seja, tarde. Lá fora, sem controle. No meio de estranhos, decidindo no momento para onde ir e o que fazer. Seria bom, ruim, novo. Correriam riscos. Porque é inevitável. Porque a vida é assim. Ou era.

Sou a minha própria paisagem

“Sou a minha própria paisagem; assisto à minha passagem, diverso, móvil e só”

Alberto Caieiro

Vejo todo mundo tão doido para ser acompanhado que as pessoas não percebem o quanto relacionamentos dão poder ao outro. Jogo para o extremo: psicopatas são tão livres e cruéis porque não existe nenhum outro. Ninguém me deixa eufórica, mas também ninguém mais me joga no chão. A ansiedade de ter alguém é um sofrimento; depois, em relação, as alegrias podem vir tão raras quanto um caça-níqueis. Já eu tenho feito tudo a que me proponho.

Uma angústia antiga

Eu estava procurando um endereço – e me afastando cada vez mais dele – numa rua e horários que nunca vou, e encontrei o Hamilton. Tenho com ele a mesma dinâmica que tenho com outro amigo, que estudou comigo no segundo grau (por falar nisso, por onde andará o Luciano?): nos encontramos por acaso, conversamos intensamente, juramos manter contato e só o fazemos anos depois, quando nos encontramos de novo na rua, sem planejar. Eu o Hamilton seguimos o ritual: encontramos o endereço que eu estava procurando, andamos até lá, gastamos, cruzamos o centro de sacolas na mão, tomamos um prolongado café e ele me acompanhou até o ponto de ônibus. No apartamento novo, ele me mostra os quadros que tem feito, as obras que comprou de amigos e artistas que admira. E que pretende voltar a esculpir, naquele mesmo atelier onde nos conhecemos, há mais de dez anos. E eu, não sinto falta de esculpir?

 

A dama (2003?)
Eu peguei meus dois ônibus, voltei para casa, vim fazer minhas coisas. Não sei dizer em que momento a alegria de ter reencontrado um amigo se tornou uma angústia. Aquela conversa que nós tivemos sobre arte. Aquela, essencialmente a mesma de dez anos atrás. “Estou pensando na feirinha, se consigo colocar numa loja aqui perto…” O que antes me parecia um problema peludo e cheio de pernas e hoje defino assim: o problema da circulação. “Esculpir e não ter onde deixar e saber que não iria vender me causava uma angústia muito grande. Eu só voltaria a esculpir se tivesse alguma perspectiva de resolver isso”. Céus, como é importante que alguém veja o que a gente faz, que saia e veja o sol, que se comente. Nem que seja escrever de graça num blog semi-desconhecido. Contei que eu cheguei ao ponto de oferecer minhas peças emprestadas e mesmo assim não aceitaram. “Esse daqui (me mostra uma colagem abstrata com mais de um metro que estava diante de mim) eu ofereci pra uma amiga, mas ela não quis porque essa bordinha dourada não ia combinar com a decoração”. Falamos dos ex-colegas artistas, da minha parte escultores e da parte dele da Faculdade de Belas Artes e curso de museologia, e ninguém continuou artista, ninguém vingou. Nosso profe que não repassava trabalho pra ninguém, será que continua assim? Provavelmente. Vejo os últimos trabalhos do Hamilton e que as peças compradas dos amigos começam a atulhar (de novo) o apartamento recém-decorado. Um monte de colagens, de madeiras, abstratos que eu mesma não sei se gosto. O problema dos preços, do público, da cultura. Estende o braço e mostra, atrás de mim: “Um quadro do (claro que o nome me foge) não pode sair por menos de mil e quinhentos”. Eu lhe falo do jornal é dado de graça porque são os anunciantes que pagam, de músico que lucra com shows e não mais com disco, que escritores escrevem de graça pros sites. “Acho isso que você está falando tão importante, vamos debater esse assunto com outros artistas, vamos nos unir e…”.
O que eu sei é que é bom isso ter passado.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Três curtas sobre o ponto

Visconde partido ao meio/ Italo Calvino

Dr. Drauzio, no livro Carcereiros, conta que parou de falar das suas experiências no presídio com os de fora. Como chegar para sua mulher e amigos, felizes num jantar, que ele tinha acabado de ver um jovem morrer ensangüentado e violado? Quem sabe Drauzio até sentisse alívio; em compensação, o jantar acabaria, os envolvidos sentiriam seu mundo como um lugar pior. E a respeito do jovem em si, nada mudaria.

 

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Antes eu acreditava que, duma maneira meio mágica, a franqueza, a sinceridade, a justiça, a não-violência e a felicidade podiam se combinar para o bem de todos. Era algo preciso, às vezes difícil, mas que existia. Se no seu devido tempo eu tivesse uma atitude correta, conseguiria ser justa com todos e não causar nenhum dano. Tem uma seita na Índia cujos adeptos andam com um pano tampando a boca e evitam colocar os pés no chão, que é pra não matar nenhum bichinho por acidente.

 

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O Luiz sabia muito a meu respeito, talvez tudo. Ele foi testemunha ocular de muita coisa, e o que ele não viu eu contei. Quando novos, nossa concepção de amor é assim: conheça-me por inteiro. Já não sei se mostrar meus esqueletos ajuda alguma coisa. Um dia um homem vai chegar com olhos felizes em me ver, e o que desejarei compartilhar com ele é mais e mais felicidade.