Curtas workaholics

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Há poucos dias eu descobri minha droga. As drogas que tinham chegado perto de mim até agora foram álcool, cigarro e maconha, e nenhum deles tinha feito a minha cabeça, nem para experimentar. Apenas agora entendi o motivo: elas são sociais e te deixam relaxado. Não estou nem aí para grupos, pouco me importa. Também não gosto da ideia de ficar muito louca, eufórica, perder o controle. Tomei um ginseng limpinho de farmácia e adorei a sensação de passar o dia inteiro produtiva. Eu pensava e fazia, concentrada, sem me arrastar durante meu período improdutivo à tarde. Como boa workaholic, o que me seduz é produzir sem parar. Minha droga seria anfetamina.

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Eu devo ter visto todo material sobre o Seinfeld na Netflix, e quanto mais conheço o lado não gostável dele, mais eu gosto. Eu fala várias vezes que ele não era popular e nem foi fazer amigos. Que não pensa em se aposentar, que ele é como um castor – lance do castor é fazer diques, então ele faz diques ad infinitum. Num dos documentários ele conta que, na adolescência, ele queria ser um comediante e escrevia as piadas de vez em quando, de acordo com a inspiração. Um dia, viu uns trabalhadores de construção civil voltarem ao trabalho depois do almoço. Claro que não dava vontade de voltar. Mas se eles, que estavam trabalhando por necessidade voltavam, quem pretendia trabalhar naquilo que ama também precisava se dedicar. Então ele passou a escrever todo dia.

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Estou dormindo bem, com a casa em ordem, as atividades em ordem, toda vitaminada. Agora tenho mais vitalidade para atender um telefonema demorado, posso passar no supermercado que fica longe, escolher com mais critério o que visto e bolar novas combinações. Terminei alguns livros, readquiri a capacidade de ver uma série sem interromper minuto à minuto. Realizei umas proezas físicas. A lista de tarefas a se fazer, que parecia interminável, agora está em dia. O tempo fora de casa não é mais meu inimigo e posso me dar ao luxo de fazer aos poucos. Mas que vazio imenso é não estar envolvida com nenhum grande projeto de escrita.

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Rebordosa

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Apesar de ser caretíssima, de botar o pé na jaca com chocolate e coca-cola, vejo livros e documentários sobre drogas e me impressiono com a ingenuidade das pessoas. Com a Carmen Miranda e todos na época dela, que achavam que podiam manter o corpo ligado e que isso não fazia mal à saúde. No quanto o pico, qualquer tipo de pico, tem uma descida orgânica depois, e ela é muito difícil. Eu, louca e obsessiva que sou, faço isso sozinha com trabalho. Engatei meses trabalhando mais de dez horas por dia, sem desligar. Eu funciono muito por tarefas, de colocar um objetivo e não me importar em me matar até ver aquilo concluído. Foi assim que cursei uma faculdade e um mestrado ao mesmo tempo, sem me importar em estar morrendo e ter crises constantes de choro, porque estabeleci que só pararia com os dois diplomas em mão, e foi o que fiz. Agora estou vivendo outro rebote desses. Como, durmo, choro, dou ao corpo o que ele precisa, torcendo para que ele não precise de mais. A descida, a rebordosa, é sempre aquele momento que você não gostaria de estar lá para viver.

É como fazer uma porta

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Atenção você que pensa em comprar uma casa, principalmente um sobrado: aquelas portas da frente que fazem agora e ficam no ângulo e não simplesmente na parede, são péssimas. Parece charmoso porque você ainda não mora lá e a construção está vazia, mas quando você se muda, aquela porta permite que as pessoas da rua vejam a casa inteira por dentro, até os fundos. Tive alguns problemas com isso e tentava arrumar de todo jeito: mudava a disposição dos móveis, colocava alguma coisa ao lado da porta, quase comprei um biombo. Nada adiantava porque a visão que ela permite varia conforme a posição da pessoa do lado de fora, ou seja, o “obstáculo” tamparia apenas um ângulo e poucos passos para o lado e daria para ver tudo de novo. Em pouco tempo passei a querer muito trocar a posição da porta e colocar na parede e não mais no ângulo dela.

Foram anos, sabe aquele problema que se torna grande porque você nunca consegue solucionar? Foram incontáveis pedreiros. Alguns nem vinham. Dos poucos que vinham, eles nem ao menos se dignavam a passar orçamento. Ninguém queria fazer e pronto. É sabido que pedreiros preferem serviços grandes, mas não tinha mais o que oferecer, o problema era apenas a porta. Até que um dia um vizinho estava fazendo uma reforma aqui perto e tive aquela intuição de falar com o pedreiro. Ele enrolou, disse que não podia na hora, que só depois, que não sabia se dava, me fez mudar a minha ideia original e quase lhe ofereci toalhas e rosas brancas no camarim. Mas ele topou e fez um excelente serviço. Foi um feriadão inteiro de luta com madeira e cimento, eu vi. Aquele pedreiro finalmente me explicou o porquê da dificuldade de arranjar alguém para fazer a tal da porta:

É o típico serviço que não aparece. Dá muito trabalho, é difícil, mas aí o patrão olha pro serviço pronto e só vê uma porta. Ele não tem noção da dificuldade e acha que a gente fez pouca coisa.

Desde então tenho vontade de usar a expressão “é igual fazer uma porta”.

O bom de chopp

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Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

Dez mil

Li a entrevista de algum cartunista, em algum lugar, e nela ele dizia que se você se propõe a ser cartunista e vai procurar um lugar pra te publicar, eles vão querer que você leve pelo menos dez mil tirinhas. Não sei se ele falou figurativamente, mas lembro que o número era esse. Você tem que provar pro editor do jornal que você é consistente. Fazer algumas histórias divertidas todo mundo faz, algumas, durante um tempo. O problema é o desafio diário de alimentar o jornal com elas sempre, então o editor não vai correr o risco de ter uma história ótima durante um mês, acostumar os leitores e depois ouvir um “puxa, desculpe, não consigo mais”.

No livro Conversando com Deus tem uma frase que eu coloquei na geladeira (nota mental: reescrever porque o papel está todo ensebado) que não sei se está mal traduzida ou se a culpa é de Deus mesmo. Ela diz:

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Caso não entendam minha letra, a frase diz: “Escolha sempre a mesma coisa. Até a sua vontade se manifestar em sua realidade”.

Por isso que venho bater um ponto imaginário aqui, dia sim dia não. Um dos meus grandes medos é ser desses que tem projetos incríveis na gaveta pra um dia. Conheço muitos grandes futuros escritores, assim como conheço tediosos convictos que se fizeram publicar. Que entre os dois extremos, eu consiga encontrar meu caminho.

Não colabora

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O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Menos impacto

Olho para trás e vejo que os documentários que mais me marcaram ultimamente – Muito além do peso, Escolarizando o mundo e agora The true cost – têm a ver com as mudanças radicais no nosso modo de vida causadas pelo capitalismo. E eu nada posso contra o capitalismo. Depois de ver The true cost, tive que passar no shopping porque tem um caixa eletrônico lá, e ver aquelas lojas, as roupas (52 coleções por ano!) e ter noção do que está acontecendo a todas as pessoas aqui (“Estamos cada vez mais pobres, mas não sentimos isso porque agora podemos comprar mais camisas”) e do outro lado do mundo (além da nada básica exploração financeira, temos degradação ambiental, epidemia de suicídio, gerações de crianças com problemas mentais e motores pela contaminação) é demais. Dá vontade de parar as pessoas na rua, gritar, quebrar uma vitrine, sei lá. Mas a gente não apenas não pode fazer isso como também não tem nem como evitar comprar numa dessas lojas. Eu lembro que quando saiu o anúncio de trabalho escravo na Zara, muitas pessoas (eu inclusive) se propuseram a não comprar mais lá. Algumas mantiveram a determinação mais tempo, outras menos, mas no fim todo mundo viu que se não for a Zara é outra loja de departamentos, ou até mesmo o camelô da esquina, porque não há mais roupas feitas sem algum tipo de exploração.

Os especialistas apontam que o problema é mudar todo sistema, e eu nada posso no sentido de mudar o sistema. Mas, ao mesmo tempo, acho que não podemos assumir a luta como perdida e não fazer nada. Eu tento aderir a umas causas, pra pelo menos não chafurdar alegre e cegamente em tudo o que me é oferecido. Idealmente, bom seria não ter que fazer nada que gere lucro, nada que contribua com algum tipo de destruição – mas aí eu seria reduzida à mendicância. Não sou ninguém, pro sistema me cuspir é muito fácil. Quando escrevi meu post sobre andar a pé, uma celebridade de internet me acusou de ser ecochata, que nem todo mundo pode viver uma vida sem carro. Eu concordo totalmente, nem todo mundo pode. Hoje eu não preciso, amanhã posso ter um emprego ou uma outra necessidade que me obrigue. Se viver sem carro começar a ficar prejudicial demais, fora de mão demais, terei. Então eu entro nas causas que eu posso, nas que eu consigo levar adiante. Outros pessoas, outras causas – o que é bom, porque se todos adotassem as mesmas duas ou três, como ficaria o resto? Andar a pé eu consigo, comida mais natural e orgânica não, porque sou lamentável na cozinha. Acho triste demais a obrigação que pesa sobre as mulheres de serem sempre jovens e magras, por isso escrevo sobre o assunto, replico links, vigio meus conceitos e minhas atitudes. O que me parece importante é tentar, nem que seja por pura obrigação moral com a outra ponta do nosso consumo.

Uns mais iguais

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-… maldita Bolsa Família. Ninguém mais quer trabalhar, pra quê trabalhar? Está muito difícil arranjar funcionário hoje em dia, não compensa mais.

– Eu tenho uma amiga que tem loja em shopping e ela disse que está muito difícil. Você contrata uma pessoa, treina, aí depois de um tempo aparece uma oportunidade em que ela vai ganhar pouca coisa a mais, e ela vai, só pra não ter que trabalhar no fim de semana.

Aí eu não aguentei:

– Eu também trocaria de emprego por um que não precisasse trabalhar nos fins de semana…

– Ahhhhh, mas é diferente! Você é diferente, estamos falando deles.

Corrigindo à exaustão

Eu escrevi um troço aí. Terminei no fim do ano, quase no réveillon. Mandei pra um amigo – que me pediu expressamente para nunca ter seu nome divulgado, com medo de ter que repetir o gesto – que se deu ao trabalho de corrigir com minúcia. Aquela minúcia cruel, de dizer de verdade o que está ruim. Eu entendi o gesto e vi nisso uma prova de confiança e amizade imensas. Uma vez um outro amigo me pediu para ler um texto dele e eu sei o quanto sofri para levantar uma única objeção. Aí, depois do que o meu amigo corrigiu, modifiquei toda estrutura – cortei capítulos inteiros, excluí trechos, remanejei a apresentação dos fatos. Achei que tinha ficado redondinho, pronto para ser publicado e o novo best seller mundial.

 

Obs 1: Vi uma vez um gráfico de expectativas de alunos de pós-graduação. Era mais ao menos assim: começava com o aluno imaginado que vai ganhar o prêmio Nobel, depois ele acha que vai virar livro, que vai virar artigo numa importante revista internacional, depois que vire artigo em algum lugar e no último item se ele conseguir terminar de escrever está bom. Tentar escrever um livro é a mesma coisa.

 

Agora, quase um ano depois, tive a coragem de reler. Para corrigir uma ou outra coisinha, problemas de concordância e uns plurais que eu sabia que haviam escapado. Aí sim, ele estaria pronto para ser publicado. Resultado: estou reescrevendo tudo. Meu sentimento ao reler cada parágrafo é este:

 

Cada trecho é um desgosto, um xingão, uma pergunta de como posso ser tão ruim. Aí saio, inconformada, tomo um ar, me acalmo, releio, fico nervosa de novo. Vou no computador, apago uma frase, levo um tempo e mudo uma palavra, mais um tempo e a frase que está embaixo vai pra cima… Tenho achado tudo muito redundante, chato, quem é que leria uma merda dessas? Devo ter levado um mês para terminar de corrigir o capítulo 1. Inicialmente ele tinha quatro páginas, agora está com três páginas e um parágrafo.

 

Obs 2: Percebam que a cada correção o arquivo fica menor. Escrever Guerra e Paz nem pensar. O Grande Gatsby, um conto borgeano? Acho que no final do processo terei conseguido bolar um tuíte.

 

Como não sei se um dia na vida conseguirei terminar o que estou escrevendo e muito menos publicar, e sei que essas minhas queixas soam abstratas pra quem nunca tentou escrever, decidi colar um trecho de Antes e Depois da correção. Só pra vocês entenderem um pouquinho o que Capote quis dizer quando contou que “um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação” (Música para Camaleões). Não sei ainda se cheguei na forma definitiva, mas as diferenças falarão por si.

Como era:

O telefonema foi um convite a retomar antigas ambições e a primeira sensação foi de desconforto. Susana estava frustrada, sim, mas estava acostumada. Ela havia criado teorias e defesas que garantiam a tranquilidade do seu dia a dia. Bastava não pedir mais do que já tinha. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais tão jovem pra fracassar. Ao mesmo tempo. Susana não se sentia  capaz de assumir o seu comodismo a ponto de dizer não a uma chance. Seria embaraçoso demais ter que assumir sua covardia em voz alta. Ela precisaria arranjar uma boa justificativa para Josiane e principalmente para si mesma, para explicar no que um emprego estável num jornal que ninguém lê a impedia de se lançar num novo projeto. O empurrão de César que levou Susana a aceitar, quando se entusiasmou e disse que qualquer oportunidade era melhor que seu emprego atual. Se fosse o caso, ele a sustentaria até achar outro emprego, se o Quatro Um não desse certo.

 

Como ficou:
As grandes mudanças da vida, ao contrário do que aparece nos filmes, nunca chegam acompanhadas de uma luz ou música especial. Susana estava almoçando no shopping com o marido e as conversas e talheres quase não a deixavam ouvir quando Josiane lhe telefonou. Enquanto ouvia falar de oportunidade, emprego, novidade, internet e inovação, a primeira sensação de Susana foi de desconforto. Havia ali um convite para retomar suas antigas ambições, o que evidenciava o quanto ela havia se acostumado ao pouco que tinha. Frustrada sim, mas tranquila – bastava não pedir da vida nada diferente, não querer voar alto demais. Retirar essas barreiras para, mais uma vez, ver os seus sonhos não darem em nada seria doloroso. Ela não era mais uma recém formada, não se sentia mais tão jovem pra fracassar e recomeçar. Quem se entusiasmou e abraçou a ideia logo de cara foi César. O jornal impresso estava acabando, a internet já não era nem mais o futuro e sim o presente, ela cresceria junto com o site. Caso o Quatro Um fracassasse, ele lhe daria suporte financeiro. Aquela oportunidade era mesmo um presente, ele tinha razão. O comodismo e os receios de Susana era tão injustificáveis que ela não teve coragem nem de colocá-los em voz alta.

Li em algum lugar que um livro nunca fica pronto, e sim que o escritor cansa de corrigir. Também faz sentido. Para publicar este post, corrigi o trecho corrigido mais três vezes.

Jateamento

Nós tínhamos uma exposição em poucos dias e costumávamos lixar as peças pra fazer acabamento. Lixa d´água, aumentando gradualmente a numeração até dar um aspecto liso.(Pra quem não sabe, eu já fui escultora).  Só que lixar é uma praga. Você vai lixando e aparecem buracos, aí você tampa, lixa de novo, aparecem buracos em lugares diferentes. Isso sem falar nos detalhes, que ou você estraga ou não alcança nunca. Aí nos recomendaram jatear as peças, porque o jateamento não deixa de ser uma forma de lixar. Ela, Luzia, levou só uma peça pequena pra teste. Já eu levei uma grande e pesada, mais de oitenta centímetros de largura, porque ela era a menos detalhada das que eu tinha. Deixamos lá. Quando voltamos, o cara veio trazer a peça de volta. Olhei, e dava pra ver claramente onde a areia havia passado. A superfície que eu queria deixar lisa ficou com listras desorganizadas. “Aquela era hora dela xingar o cara, dizer que ele tinha feito merda, que havia estragado a escultura” – disse a Luzia, contando o episódio – “Mas ela (eu, no caso) olhou para aquele horror e não disse nada. Aí que eu entendi como ela é”.

 

Eu jamais entendi o que ela havia entendido da minha atitude. Como briguenta e extrovertida, super carioca orgulhosa que era, a Luzia deve ter visto nisso fraqueza. Não sei se essa cena me define, nem ao menos sei o que ela diz a meu respeito. O que eu vi naquela hora foi um homem simples chegando com a minha peça. Horrorosa, sim. Mas ele estava orgulhoso. Todo dia ele fazia vidros e coisas comerciais, era a primeira vez que ele punha as mãos em algo de Arte. Ele contou que naquele trabalho havia se empenhado especialmente. Ele trouxe minha peça apoiada nos dois braços, e a pousou na mesa com a delicadeza de quem se sentia co-autor. De carinho à explosão de fúria é um caminho tão longo. Ele não entenderia nada, se surpreenderia, ficaria triste. A boa vontade dele me comoveu. Depois eu penei pra consertar a peça. Mas mesmo hoje não teria conseguido reagir diferente.

Teje presa, Dúnia!

Donos de cães são meio como aqueles pais que acham suas crias lindas quando mal educadas, sem limites e barulhentas, mesmo em locais públicos. Antes de ter a Dúnia, praticamente se poderia dizer que eu tinha medo de cachorro. Só conseguia conviver com os pequenos e olhe lá. Com ela, em pouco tempo estava achando muito lindo que ela quisesse pular em qualquer desconhecido na rua, porque, afinal, ela é maravilhosa, e quem não acharia maravilhoso ganhar carinho dela. Hoje adquiri de novo a noção das coisas e jamais obrigo as pessoas a entrarem aqui com a Dúnia solta. A não ser que seja um daqueles que amam cachorros, e que chegam aqui doidos pra fazer amizade com ela. Pra esses é até meio frustrante, porque a Dúnia não dá muita bola nem pra mim, que dirá pra estranhos.
Eu tenho um grau considerável de autoridade sobre ela, que além de tudo foi adestrada. Prendê-la era muito mais chato antes, e quando alguém vinha na minha casa, eu mandava ela ir pra casinha até a pessoa entrar. Só que eu via que a visita não acreditava muito, e ver aquele cachorro de pé dentro da casinha, com a língua de fora e cara feliz, fazia com que todos entrassem correndo. Eu sei (vide foto) o quanto aquele cachorro preto de porte médio pode parecer psicótico sorrindo com a língua de fora, então agora prendo de uma vez. Com a idade* a bicha acalmou e não vê problema nenhum em esperar na corrente. Mesmo porque ela sempre ganha ossinho nessas ocasiões.
Os prestadores de serviço que vem aqui pra casa ficam muito felizes com a minha atitude. Pelo que tenho ouvido, esse meu comportamento de prender o cachorro é meio raro. Aí começam as histórias. O último que veio aqui me garantiu que não tinha medo de cachorro, apesar de ter ficado preocupado se ela ainda estava presa quando a gente saiu. Ele me contou que levou 16 pontos da coxa, porque o dono garantiu que o cachorro não mordia, ele entrou, o cachorro correu atrás dele, ele correu e passou por uma ponta numa grande e se cortou. O que instalou minha cortina, que era terceirizado de uma grande loja, me contou de uma vez que foi fazer uma instalação numa casa que tinha um desses cachorros pequenos e chatos. A dona não quis prender e ele passou com as cortinas nos braços, e o cachorro latindo e correndo em volta dele. Até que o pestinha acertou com os dentes no calcanhar dele, que sangrou por dentro do sapato. Ele entrou na casa, entregou as cortinas e disse que a dona deveria entrar em contato com a loja, porque ele se recusava a trabalhar ali. Eu, que detesto ter que esperar entregas, achei um bom castigo.
Além de ser fácil prender o cachorro um pouco, nunca entendi a lógica de tratar mal quem vai te prestar um serviço. Esnobar, deixar sem toalha no banheiro, tirar vantagem do que puder. Se não for pelo respeito por um outro ser humano trabalhando, que se trate bem por interesse próprio.  Se você está sendo sacana, é óbvio que em alguma coisa ele vai querer ser sacana também. Nem que seja no suco cuspido que você nem sabe que bebeu.

* escrevi num outro post que ela tinha 8 anos. Erro de cálculo, ela já está com 11!

Tudo

Eu não ia tocar no assunto pra não criar expectativas, mas estou escrevendo uma ficção. Vocês não fazem ideia do quanto está sendo difícil. Minha autocrítica está mais feliz que porco no lixo. Atentem: venho trabalhando nisso a quase um ano e meio, e a dita cuja não chegará às cinquenta páginas. Eu corto tanto do que escrevo, condenso e diminuo de tal forma, que não sei como é que não terminei com um arquivo em branco. Li uma conferência no Gabriel Garcia Marquéz onde ele diz que escrever é o único ofício que vai ficando cada vez mais difícil à medida que o tempo passa. Mal comecei e já estou assim, vejam a minha situação. Mais um pouco terei que apelar para o haicai.
Pra mim, o que mais se compara ao trabalho do escritor é imaginar que você compra um terreno vazio, desmata, faz a fundação, desenha a planta, empilha os tijolos, levanta as paredes, faz parte elétrica, hidraulica, decoração… ou seja, é como erguer uma casa do nada até os mínimos detalhes. Eu me matando pra fazer um puxadinho, imagina o que é escrever um Guerra e Paz. Não devo mesmo ter vocação pro troço.
Ah, e eu ter contado aqui que estou escrevendo não quer dizer que um dia vocês lerão. É só um desabafo.

Tudo é difícil

Sempre que me perguntam se existe uma maneira rápida de ficar rico, eu digo prostituição e tráfico de drogas. Sobre o tráfico de drogas, está aí Breaking Bad pra provar que não é tão fácil assim. E prostituição nem precisa imaginar muito. A não ser que a pessoa seja uma maluca sem critérios, imagine o que é fazer sexo com alguém por quem você não consegue sentir o menor tesão, seja uma questão de cheiro, aparência, idade ou pegada. Ou seja, nem as tradicionais ocupações que dão dinheiro rápido e fácil são rápidas e fáceis.

Tudo dá trabalho. Aos que sonham com um grande amor e casamento, deixa eu avisar que amor também dá trabalho. Conhecer o outro, saber quais são os assuntos proibidos, até onde ir. Sem falar que cada pessoa é um combo, que vem com família, amigos, hobbies e traumas de infância. Amar e ser amado é bom, mas também não é molezinha. 

Não sei se é otimismo ou pessimismo. Na minha concepção, tudo tudo dá trabalho e é difícil nessa vida. Até o que é bom. Então o jeito é abraçar esse trabalhão todo e seguir em frente.

Os que precisam

o me meto em brigas virtuais e nem reais porque me canso antes mesmo de. O que aconteceu há alguns dias é um exemplo.
Estavam discutindo o quanto agora pagamos mais para receber um atendimento pior. Que mesmo indo a lugares mais caros, o atendimento deixa a desejar. Tudo culpa dos serviçais, que não são mais como antes. Por qualquer dinheiro a mais, eles já trocam de emprego e jogam no lixo o treinamento que receberam. Pra quem tem loja em shopping é uma dificuldade. Se o local exige que eles façam plantões, que trabalhem sábados, domingos ou à noite, já não querem. Os empregados aceitam esses empregos temporariamente, com vistas de conseguir outros que não lhes comprometam os fins de semana. Quem manda oferecer a essas pessoas opções. É essa maldita política social, é culpa do Bolsa Família. Eu ouvia tudo em silêncio. Tentei uma brecha ao dizer:
– Eu também, se pudesse escolher, não gostaria de um emprego que me exigisse trabalhar no fim de semana.
Ah, mas é diferente! Ninguém ali gostaria, mas é diferente. Somos pessoas diferentes. Aquela conversa era sobre eles, os que precisam, os que devem aceitar qualquer coisa pra não morrer de fome. Eu ouço essas coisas e me sinto um alien. Ou melhor, eu é que não sou um alien. Eu me vejo como igual às outras pessoas, os que querem lazer, os que querem salários melhores, os que buscam o que lhes parece mais favorável. Já uma parte mais privilegiada da sociedade se vê como se de substância diferente. Eles são os que devem ser bem servidos, sob qualquer circunstância.

O que eu quero, Mário Alberto?

Tenho que reconhecer: quem diz que a gente alcança o que procura tem razão. Reconheçamos, é assim sim. A gente tende a achar que todo mundo busca o que nós buscamos, ou que todo mundo busca a excelência, e quando vê que uns conquistam e outros não, começa a duvidar. Mas alcançamos sim, o que nós buscamos, num sentido muito profundo. Veja o caso do Eri Johnson, por exemplo. Sim, aquele ator da pinta, que só faz papel dele mesmo. Acham que ele é infeliz, que ele liga de falarem que ele é um mau ator? Não acho que seja. Ele é o ator que ele pretende ser, o cara que joga na praia, que frequenta festas, é famoso e trabalha na Globo. Tá louco de bom. Entrar pra história como um grande ator, se desafiar num papel, entender profundamente a arte de atuar… isso é o sonho dos outros. E isso não tem a ver com ter papéis garantidos nas novelas de Glória Perez. Na mesma atividade cada um pode sonhar coisas diferentes.
Vejo e falo por mim: plantei onde estou. Nunca desejei, claro, chegar na idade que eu estou com a vida profissional tão nula. Mas, ao mesmo tempo, nas minhas escolhas, nunca priorizei isso. Trabalhei por amor, por conhecimento, por gostar de quem estava no meu lado, por um monte de coisas. Nunca trabalhei em prol de carreira ou dinheiro. Claro que, durante uma boa parte da minha vida, achei que uma coisa acompanhava a outra – que minha paixão e dedicação se converteria automaticamente em dinheiro. Mas eu sei: em momentos pontuais da minha vida, eu poderia ter escolhido lugares onde ia ganhar mais, onde teria status, onde poderia plantar um futuro profissional melhor. Se dinheiro e carreira fossem a minha meta, eu teria feito por onde, teria me aproximado de certas pessoas, me omitido e engolido coisas que não omiti nem engoli, teria deixado de lado as atividades que me davam prazer. E não o fiz. Se fosse colocar em palavras, talvez o que sempre tenha me motivado seja a vontade de conhecer, de me aperfeiçoar e me sentir bem. O que me faz concluir: eu alcancei o que eu buscava. Não o que eu achava que buscava, não o que na época eu diria que buscava, mas o que eu buscava num sentido muito profundo.

Trabalho que aparece pouco

Levamos anos tentando achar um pedreiro que se dispusesse a trocar a nossa porta de frente. Só isso – fechar a parede onde ficava a porta e abrir outra logo ali do lado. Pra incrementar um pouco a reforma, seria bom colocar alguns tijolos de vidro no lugar onde a porta estava. Foram muitas as indicações. Chamamos tanta gente e tão poucos apareceram, e desses ninguém nem mandou orçamento, que parecia que estávamos procurando emprego e não tentando contratar alguém. O problema se resolveu porque fizeram uma reforma numa casa por aqui perto, e fui eu mesma abordar o pedreiro. Foi uma luta convencer o homem. Mostrei a casa pra ele, descrevi o serviço, ele me respondeu que agora não podia, eu disse que assim era até melhor porque a porta demoraria pra chegar, ele não gostou da posição dos tijolos de vidro, eu mudei os tijolos pra facilitar pra ele. Foram dois dias de negociações e muitas dúvidas. Até o último minuto fiquei ansiosa à espera dele, nem acreditava que o sonho da reforma própria finalmente se realizaria.
Quando finalmente o pedreiro veio, o preço foi bom, o serviço bem feito e creio que ficamos todos felizes. A reforma durou um fim de semana de muito trabalho, porta e tijolos de vidro são mesmo complicados. São ajustes, massas que precisam secar, que deformam, só vendo para entender. Muito conversador, ele acabou me falando que existem alguns serviços que eles, pedreiros, não gostam, porque “aparece pouco”. Fazer porta era um deles, assim como consertar azulejos e umas coisas que eu não entendo. Reforma boa é levantar muros, cobrir uma parede, fazer um telhado, construir. Nos serviços que não aparece, o sujeito passa o dia inteiro em cima, tem um trabalhão, e quando o patrão vai lá olhar, não tem dimensão do trabalho que deu. Aí quem não entende tem a impressão de que o serviço não vale nada, que nem é difícil.
Escrever é a mesmíssima coisa.