Curtas sobre o sistema de caixa acoplada

caixa acoplada

Estou ficando boa nessa história de ser adulta, de pensar o que uma pessoa sensata faria no meu lugar e fingir que sou ela. Uma das lições essenciais para agir sensatamente é: abrace o prejuízo. Já deu errado, você vai ter que sair correndo, comprar o que não tinha planejado, pagar o que o cara te pedir, entrar no cheque especial. É assim mesmo.

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Eu ouvi um barulho estranho e tentei ajustar a válvula da descarga à noite. Uma mangueirinha se soltou e ficou dentro d´água. Na manhã seguinte, fez mais barulho, fui ajustar a válvula, ela quebrou na minha mão, a água começou a espirrar sem parar. “Por que, meu Deus, que infelicidade, que inesperado!”. Bem, fora o fato que eu não uso aquela privada há mais de um ano porque ela tem um vazamento incurável …

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Conclusão: sempre me achei das espertas que se antecipa aos problemas. Esse povo que não faz terapia, que procrastina, que isso, que aquilo, eu não, minha ansiedade e perfeccionismo nem deixam. Quem sabe até seja verdade que eu me antecipo aos problemas, apenas não quando eles são hidráulicos.

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O sujeito não vinha voando como eu gostaria, e muito sensatamente aproveitei aquelas horas para comprar um sistema novo. Sensatamente desliguei o registro. No que pareceu um excesso de cuidado, comprei um sistema novo inteiro de uma vez, para não correr o risco de comprar a peça errada. Depois, o cara me disse que fui muito sensata, porque a peça que deu problema justamente é aquela que não vendem separado. Sensatamente, eu tinha um dinheirinho comigo e não precisei ir ao banco. Eu mereço uma estrelinha por tanta sensatez junta, mas entrei no cheque especial e minha futura conta de água…

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“Nossa, você comprou o kit todo, custa uma fortuna e tem peça separada”. Mas olha o que aconteceu: eu contei pra ele que o sistema foi mudado inúmeras vezes e a descarga sempre vazou. Por causa disso ele decidiu desmontar a caixa inteira. Ele me mostrou a peça desgastada e meu banheiro ficou com cheiro de mofo como nunca antes. Deu trabalho e o cara me cobrou bem. Concluo que todas as outras vezes que trocaram o sistema, as pessoas fingiram trocar tudo e não tiraram a peça principal porque a porcelana nunca havia sido mexida. Comprei kits e paguei pessoas à toa durante todos esses anos.

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Outra conclusão adulta: prejuízo que resolve o problema de verdade não é prejuízo.

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Três curtas, três problemas

metamorfose

Eu sempre achei exagerado quando as pessoas se queixavam dos pés gelados que nada resolve. Nos dias muito frios as minhas duas meias também ficavam meio inúteis, mas e daí? Não sei se é o frio recorde, a idade ou o quê, mas eu viciei em colocar bolsa de água quente nos pés. Meu receio é nunca mais voltar a ser uma pessoa normal.

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Outra: aqueles filmes que tem escritores, e eles se isolam dizendo que vão escrever, e não escrevem, a editora manda cartinha, eles inventam uma desculpa, mandam mais, mandam gente e o cara nada. “Nossa, que exagerado”. Então.

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Privadas com caixa acoplada são ecologicamente mais corretas, mas tenho vontade de jogar as minhas pela janela. A mais recente questão – se for contar tudo o que já passei dava um livro, etc. – é que uma delas precisa que eu dê uma leve ajeitada na tampa para não ficar vazando água por dentro. Mas não vaza sempre e nem é imediatamente. Então me pego como marido traído, abrindo a porta do banheiro de repente pra ver se flagro algum barulho.

Técnica simples e eficaz para desentupir uma privada

Anos atrás o Alessandro fez um post meio de gozação sobre como desentupir uma privada. No meu comentário, expliquei em poucas linhas como faziamos na minha casa. Qual não foi minha supresa em ver que semanas, meses e anos depois, as pessoas apareciam lá pra comentar o que eu tinha descrito. Foram inúmeros casos de vidas modificadas pelo Método, famílias inteiras que salvaram seus banheiros graças à mim. Nada mais justo do que compartilhar com meus leitores essa alegria. O Método foi passado pelo meu pai, que por sua vez o aprendeu numa república de estudantes. São décadas de eficácia comprovada.

 

Antes de mais nada, quero avisar que O Método não deve ser usado em todo tipo de entupimento. Privadas entupidas por objetos estranhos – fraldas, camisinhas, absorventes, sachês de privada, coração, etc – devem recorrer a ajuda profissional. Fazer coisas que não dissolvem descerem pelo encanamento é muito mais caro e fedorento que uma privada entupida. Usem O Método apenas em cocôs maus e persistentes.

Você precisará de:

  • 1 privada entupida com tampa
  • 1 maço de jornal
  • 1 pessoa adulta
  • coragem

Modo de proceder:

1. Levante a tampa e o assento da privada;

2. Forre a privada com o jornal. Forme uma tampa grossa que cubra toda abertura.

3. Abaixe o assento e a tampa.

4. Ajoelhe-se sobre a tampa, de frente para a parede. Não se apoie em nada, o objetivo é fazer peso.

5. Aperte a descarga corajosamente até o fim. Faça isso duas ou três vezes. Você ficará com medo da merda começar a escorrer pelo banheiro, mas faça o que estou dizendo.

Graças ao jornal e ao peso, um vácuo é criado dentro da privada. A pressão empurrará a água (e o que está dentro dela) para baixo.

6. Levante-se e verifique o milagre. Dificilmente você precisará repetir o processo.

Merda emocional?

Numa sexta-feira dessas levei uma sacaneada básica de uma professora e mal contive minhas lágrimas pelo corredor da faculdade. Como mal continha as lágrimas pelo elevador, coloquei meus óculos escuros. Pela rua, as lágrimas grossas mal eram contidas pelos óculos, de maneira a me obrigar a tomar uma decisão: me desmancharei em lágrimas em público?

Como minha academia fica pertinho, fui para lá e chorei sentada na privada. Desde de criança, nunca tinha sentido tanta urgência em chorar fora de casa. Eu tenho um certo bloqueio com essa coisa de chorar em público; se tem alguém junto, eu acabo sentindo necessidade de segurar as lágrimas. Acho que é consideração com quem tenta me consolar – porque quando choro, eu choro mesmo! Chorei muito, devo ter ficado uns 20 minutos lá, aliviei total.

Reflexão primeira: chorar na privada é mesmo a melhor opção. Tem papel higiênico para limpar o nariz, tem lugar pra sentar. Tem pia pra limpar o rosto. Tem privacidade. Só não recomendo em banheiros com poucas privadas – atrapalha os outros e, por conseqüencia, quem chora.

Reflexão segunda e sociológica: vamos nos banheiros para esconder dos outros nossas funções fisiológicas mais fundamentais; na Idade Média, as funções naturais não eram algo vergonhoso ou a ser escondido. Hoje, a intimidade máxima de um ser humano é quando vai ao banheiro. Entramos lá e saímos, virgens; é tudo tão escondido que é como se não tivessemos excrementos.

Chorar é um excremento social. Nunca podemos estar fracos em público, nossa tristeza é vergonhosa, é um peso. Alguém chorando surpreende os outros, mobiliza todos à sua volta, obriga a um consolo, cria um clima ruim. Por isso, o melhor lugar pra evacuar e pra chorar é em casa. Quando não conseguimos nos segurar em público, o melhor lugar pra chorar é o escondido. Longe de casa, na rua, o único lugar onde a privacidade é inviolável é na privada – o nome já diz tudo.

Chorar na privada tem tudo a ver. Choramos e saímos novos. Assim como ninguém tem excrementos, ninguém nunca é triste.