Curtas de duas

galos do futebol

Uma amiga também divorciada, ao contrário de mim, é baladeira. Ela me contou que em show sertanejo quase só tem mulher e elas se acabam com as letras de traição. “Tá difícil, tá muito difícil”. Abre tinder, vai no sambão, balada, bar de motoqueiro, tudo gente sozinha, divorciadas “na luta”, tão difícil arrumar alguém. Tenho vontade de falar alguma coisa, mas minha fama de encalhada que não se esforça é tal que ninguém me pergunta.

Me lembrei muito de uma outra amiga, que estava com o casamento meio em crise e se apegou aos amigos gays. Virou assídua frequentadora de baladas gays, ótimas pra dançar e cheia de homens lindos e indiferentes. Aí veio se queixar pra mim que o mundo inteiro era gay.

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Quando conheci meu ex, ele era de direita e pró-israel. Bastava mostrar palestino morrendo que eu apontava pra TV: Olhaí, alá vocês, como é que você me explica isso? Tínhamos altas conversas discussões sobre política, mercado, capitalismo, direitos humanos. Agora, tantos anos depois, adivinhem? Ele continua de direita e pró-israel. E vocês achando que se convence alguém com textão no facebook. (E eu ainda o procuro quando quero ouvir alguém sensato de direita.)

 

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A oitava superior

teclado

Lembro que achava a expressão muito chique antes de saber o que era e, quando descobri, fiquei temporariamente decepcionada por sua simplicidade. É assim: as notas musicais são sete, né? A oitava superior é a nota na outra escala, igual a anterior só que pra cima, mais aguda. (Se for oitava inferior, é mais grave) Só que com essa expressão dá pra pirar em coisas muito além da música. Como pensar em espirais, os espirais dos fatos, da história, da evolução. Quem sabe a cobra não morda realmente o rabo, que a gente tenha essa sensação ao olhar a espiral de cima e só ver o círculo. Com oitavas superiores, círculos e espirais quero falar que a gente percebe que a vida segue padrões, que dá a impressão de que as coisas acontecem de novo e de novo, mas como aconteceu depois e em outra época, é de novo mas também é diferente. É uma oitava superior. Pra falar a verdade, estou viajando aqui para não falar de algo concreto mas que só diz respeito a mim. Hoje, numa conversa, citei um exemplo banal e quando me dei conta estava chateada. Sem as pessoas saberem eu contei uma insegurança muito íntima e no âmago dela estava uma queixa repetitiva minha, algo que permeia o meu trabalho, a forma como me vejo, os meus relacionamentos, tudo. Aí lembrei que li um texto sobre a mesma questão há poucos dias e tinha ficado pensativa, e há semanas tive isso esfregado na cara e fiquei arrasada, enfim, sempre a mesma história. Ter trocentos insights me deixa aflita em perceber o quão grande é o problema e me pergunto quanto mais eu ainda preciso ter pra esgotar essa energia. Eu me sinto de volta sempre ao mesmo ponto, mas espero, quero muito acreditar, rezo, estou me empenhando para que seja uma oitava superior.

Curtas fofuchos

recebimento

Fernando Pessoa falando que o rio da sua aldeia não é o Tejo mas é belo, porque é dele, sou eu olhando para o céu noturno de Curitiba. Quase sempre encoberto e mesmo quando limpo nada se comparado a céus maravilhosos que tem no interiorzão que eu já vi. Mas eu sorrio pra ele e ele sorri pra mim.

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A Dúnia é cachorro de brincar e não de carinho, o que às vezes é meio frustrante. Mas ela se deixa ficar ao meu lado, ao alcance da mão esquerda, enquanto com uma direita eu mexo nos cadarços para tirar o tênis ao entrar em casa.

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O bonzinho não é o cara que se fode, como diz a frase, o bonzinho fica pra depois. A situação se estabelece, o sacana tem uma vantagem temporária e mesmo sem dizer nada quem está à volta registrou. E o dia que a opção existir, a escolha será outra.

 

(Ah, não é assim, o mundo é mau, as pessoas são más e os seus fins são torpes. Bom, se a gente está falando de máfia, então também não estamos falando de bonzinhos, né?)

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Por falar em coisas amorosas, já ouviram falar de Ho’oponopono?

O bom de chopp

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Estávamos quase reprovando em massa em Estatística quando o professor oficial da cadeira voltou dos EUA, com a promessa de uma forma arrojada e fresquinha de pensar. Ele era alto, loiro, agitado e provavelmente bonitão (naquela idade eu apenas o classifiquei de velho), a própria encarnação do winner. O curso em questão era de psicologia e, pelo menos naquela época, ninguém ali era muito de esquerda. Ele realmente conseguiu o milagre de salvar a turma, jamais esquecerei que pulei de uma nota 0,25 (eu colei) para 10, o que me permitiu fazer prova final e passar. Um dia, numa de suas muitas ilustrações, ele falou do novo profissional que estava surgindo. Ele disse que antigamente toda empresa tinha “o bom de chopp”, que era o cara que não trabalhava tanto assim, mas ele era amigo da galera, contava boas piadas, deixava o ambiente mais ameno. Por isso se fazia vista grossa pro rendimento menor e ele ia ficando. Agora não, não haveria mais espaço para isso, cada um tinha que ser muito competente e focado. Sem lenga lenga, trabalho duro. Várias cabecinhas balançaram em sinal afirmativo, cada qual se sentindo muito merecedora de passar nesse funil. Eu fiquei incomodada – tanto que lembro da história – e levei muito tempo para entender o porquê.

Hoje em dia se considera um avanço a maneira como temos medicamentos para pacientes psiquiátricos, porque com isso é possível estabilizar o humor deles e torná-los produtivos. Só que numa perspectiva mais crítica e ampla, vemos que outras épocas e sociedades tinham uma capacidade muito maior de absorver essas pessoais tais como são. Onde vemos gente esquisita que não produz, poderíamos ver místicos, visionários, artísticas, xamãs, santos, eleitos. Ninguém precisava tentar mudar, eram pessoas com dons especias e um papel onde suas características eram valiosas. Eles estariam apontando pra uma direção que ninguém mais. Estariam não, estão – nós é que falhamos em ver. Sem perceber, colocamos como valor absoluto o indivíduo ser gerador de renda. Se não gera renda, independente do motivo, não merece crédito em nada.

Não é à toa que as classificações psiquiátricas aumentem cada dia mais. Basta alguém gritar no local de trabalho ou destruir um objeto que já é surto e precisa ser internado. Pouco importa a violência que se sofre o tempo inteiro, quem não consegue lidar com isso a portas trancadas é louco. Normal é que leva pancada atrás de pancada com uma capacidade infinita de se conter, porque hoje nem “precisa” mais de um bom clima no trabalho. Ou será que o bom de chopp também era uma forma de trabalho?

Duas razões para viver

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Não é um post-reflexão pós desejo suicida. Eu estava vendo o episódio do Abstract (Netflix), um dos poucos cujo tema não me era nada interessante: o trabalho de um designer de carros. Meu nível de desinteresse por carros é tamanho que eu pretendo na vida jamais ter um, não faço a menor ideia de quanto custam e se um dia ganhar num sorteio venderei. Também não foi pela história de superação do sujeito, embora tenha sido interessante ver os altos e baixos dele bancando sua escolha com a família, na empresa que quase faliu, as críticas a um modelo que ele criou e foi um fracasso. O Abstract costuma falar da biografia do profissional e acompanhar um projeto importante na qual ele está trabalhando e nesse programa mostrou a criação de um novo modelo de carro. Eu fiz uma dessas associações loucas de achar que a vida era mais ou menos quanto aquele futuro carro. Meses de reuniões, montaram protótipos de plástico, alteraram milímetros, montaram de novo, fizeram o esqueleto, criticaram, pensaram em estofamento, se preocuparam que a textura do botão que ficava no volante se parecesse com um focinho de gato. Tudo pra apresentar pra um tal fulano que realmente decidia. Investiram tempo e trabalho de verdade naquilo. Eu comecei a pensar o quanto somos todos como aquele protótipo, com o trabalho de tanta gente envolvida desde antes mesmo do nosso nascimento, a luta do bebê humano – o mais frágil de todos os bebês – tem para aprender, se desenvolver, virar uma personalidade, e o quanto é duro até uma personalidade se fortalecer e ser o que é. Muitos dizem que a vida começa aos quarenta porque passamos muito tempo apenas polindo, descobrindo o que realmente somos ou o que nos serve, e o que fazer com as nossas possibilidades tão limitadas. Então me parece que morrer cedo, seja de morte matada ou morrida, é pegar aquele protótipo com o trabalho de não sei quantos profissionais e simplesmente jogar no lixo antes da hora.

A outra razão, tão importante quanto, ainda que menos extensa pra explicar, é a minha descrença na vingança e certeza absoluta de que o rio traz o cadáver. Causa e consequência. O carro em alta velocidade em direção ao muro, a persistência na direção errada, o orgulho sem limites – a gente sabe onde tudo isso vai parar. O dia mal começou, estou com a enxada na mão e sei onde as coisas vão parar. Eu quero estar aqui pra ver, quero estar na hora da minha colheita e na dos outros. Sim, outra grande razão de viver é uma espécie de schadenfreude.

Espaço pessoal

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Não lembro de onde eu tirei essa ideia, só tenho certeza que foi em alguma esquete de humor. Jamais tinha tido a oportunidade de colocar em prática, porque ela requer uma ajuda da natureza. O supermercado estava vazio. Fui passar as minhas compras e a caixa já estava sendo atormentada pelo filho da tal mulher. Ela estava parada bem na frente do lugar onde se passa o cartão, ou seja, quase na frente da caixa registradora. Achei que ela tinha tido algum problema grave, pra ter que ficar lá no caixa mostrando que não ia sair de lá, etc. Não era nada disso, estava batendo papo com uma passando compras ao lado. A criança enchendo o saco, eu espremida pra digitar o número do CPF, abrir saquinhos e guardas as compras e a maldita lá – não dava um passinho pro lado, não punha limites na criança, não me dirigiu a palavra e nem pretendeu que tinha uma justificativa boa para estar ali. Muito irritante eu estar na vez e no lugar certo e ela não estava respeitando nem a distância pessoal mínima entre desconhecidos. Aí eu peidei. Peido de ovo.

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.

Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?

Desprocrastinação

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O procrastinador é um otimista. Ele acredita que seja lá o que acontecer, vai dar tempo. O computador vai funcionar, a impressora vai funcionar, se não funcionar vai ter como comprar cartucho novo, se der tudo errado o professor vai ser compreensivo e prorrogar o prazo. Sempre pensei nisso porque sou o o oposto. Quando eu conseguia fazer tudo da forma como queria, o trabalho ficava na minha mesa, impresso, uma semana antes do prazo de entrega. Eu gostava de começar a trabalhar assim que o professor passava o tema. Além de poder trabalhar tranquila, eu nunca contei com a clemência de computadores, impressoras e professores. Somada ao otimismo, eu percebi outra característica da procrastinação: ela é uma excelente desculpa para não fazer nada bem feito, nunca. O trabalho está impresso porcamente, cheio de erros de português, poucas referências, pessimamente embasado e etc. porque eu fiz correndo porque, olha, se eu fosse fazer a sério, vocês veriam que maravilha, ia revolucionar a ciência. Só que a pessoa nunca faz a sério.

Fazer devagar, com todo tempo do mundo é dose porque isso joga na cara os nossos limites de uma maneira absurda. Antes eu invejava os escritores que começaram jovens e hoje acho um alívio não ter começado a viver esse problema desde cedo. Vocês não imaginam o que a liberdade de escrever, o que você quiser, ter um número ilimitado de temas e poder demorar quantos anos quiser faz com um ser humano. Você se dá conta de que nem se vivesse tanto quanto uma tartaruga escreveria um único conto tão bom quanto Borges.

Vôlei e o score de amor

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Eu odeio vôlei. Poderia escrever um longo post reclamando do vôlei. Odeio tanto vôlei que nunca assisto, que se dane Bernardinho, não quero nem saber, nunca mais fiz um misero saque depois que parei de ser obrigada e de lá pra cá sei que as regras mudaram – na minha época só o time que sacava pontuava, tinha “vantagem” – e nunca aprendi as novas, faço questão de não aprender. Um dos meus traumas com vôlei foi causado pela professora Elisa, minha professora de educação física durante todo segundo grau. A prova de vôlei dela, uma coisa tão absurda que deveria dar direito a denúncia, era assim: cada aluno começava a partida com a nota máxima. Quando a bola caía no chão, alguém era descontado. Geralmente mais de uma pessoa: se caía entre dois jogadores ambos perdiam nota, ou se uma pessoa não defendia bem a cortada, o ponto era descontado dela e de quem cortou. Imaginem que partida emocionante, todo mundo com medo de pegar na bola.

Mas, por incrível que pareça, não foi propriamente o vôlei que me fez lembrar disso, e sim relacionamentos. Não sei se é característico de relacionamentos abusivos, mas me toquei que num par de histórias que conheço e vivi a dinâmica era a mesma dessa prova: a pessoa “amada” começava com pontuação máxima, com os maiores elogios e as características sonhadas. À medida que o relacionamento avança, ela se torna cada dia mais decepcionante, nada daquilo que parecia, etc. O tal anjo caído se esforça pra continuar tão desejável como antes, passa a pisar em ovos, tenta esclarecer, pede desculpas… Só que a pessoa não consegue, os seus esforços são inúteis porque é impossível voltar para a nota máxima. Chame do que quiser, o que sei é que isso não é amor. É um jogo onde só se pode perder.

A versão da versão

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Eu lembro bem daquela aula de antropologia porque, quando dei o exemplo, citei uma amiga minha e vi o sangue subir no rosto dela. Citei porque era um exemplo fácil, à mão, e acho que ela se sentiu mexida porque havia um fundo de verdade ali. Na aula estávamos discutindo a pós-modernidade, as novas noções de ciência e o exercício ainda bastante novo de jogar sobre a própria ciência a crítica. Antigamente, o antropólogo ia estudar os nativos, aqueles povos distantes, exóticos e ignorantes, e o que dissesse sobre eles era a palavra final. Hoje o próprio nativo é capaz de ler a pesquisa e contestar. Ou de produzir ele mesmo a pesquisa. Aí gera desconforto, discursos de minorias e a sensação de que antigamente era muito mais organizado – porque era, só que de uma maneira única e opressora. Isso sem falar que:

Então digamos que eu e a Elô vamos fazer pesquisa. Ela vai lá, fica no meio dos nativos um ano, se integra muito bem com eles, faz um ótimo trabalho. Eu vou a campo durante poucos meses, me comporto de maneira antiética, ninguém gosta de mim. Mas eu escrevo bem e na hora de colocar no papel faço de uma maneira muito mais interessante do que a Elô, faço mais com menos. Por causa disso, para todos os efeitos, as pessoas vão ter a impressão de que a minha pesquisa é muito melhor.

Cuidado conosco. Nós, os que escrevem bem.

Um prêmio pela simpatia

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Gosto muito de lanchonete de posto de gasolina e tem uma que eu vou uma vez por mês, no final da tarde, depois de passar na farmácia de manipulação. Vou meio por falta de opção e teimosia. Apesar de ser uma lanchonete grande, são poucas opções sem carne e eu vivo chegando assim que acabou ou no meio de fornadas demoradas. Isso me obriga a ficar consultando a moça do balcão, que sempre muda, e acabo experimentando de tudo. Além de lanchonete é padaria, então além nos clientes motorizados e frentistas, vai também um pessoal do bairro comprar lá. Naquele dia, assim que eu cheguei, tinha uns pães de queijo rodando no forno. Não pedi imediatamente porque como pão de queijo quase todos os dias e me deu a mesma vergonha do mineiro da piada  – como se alguém por ali soubesse e se importasse com meus hábitos. Mas ia pedir assim que terminasse meu salgado integral de brócolis. Nesse meio tempo apareceu um cliente, daqueles meio doidos, comprou dois sacos de pão francês e todos os pães de queijo e quando chegou no caixa implicou que “o saco estava muito pesado”. Ele criou uma daquelas situações que o vendedor se vê obrigado a fazer alguma substituição ou observação estúpida apenas para o cliente se sentir satisfeito. No caso, substituíram o saco por outro idêntico. Depois que ele foi embora, a moça do caixa e a que me atendeu ficaram rindo.

Quando terminei meu lanche, fui pagar e tinha uma mulher na minha frente. Depois que ela passou o cartão, a caixa colocou um chocotone ao lado da caixa registradora e disse que era um presente. Ela agradeceu e perguntou o que fez para merecer aquilo. O posto estava com uma promoção e dava panetone pra quem abastecesse mais de cinquenta reais. Ela me olhou, se virou pra mim, achamos bacana, eu falei: “Merecido mesmo. Eu é que não vou ganhar, eu que só venho aqui pra tomar um cafezinho…”. Quando fui pagar a minha conta de nem dez reais, a caixa colocou outro chocotone no balcão. “Mas eu não abasteci…””Você é cliente nossa, faz de conta que você abasteceu.”

Tô contando aqui no blog porque já enchi o saco pessoalmente de muitos. Estava uma delícia.

 

Curtas de objection your honor

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Digitadores ficam com LER nos pulsos e o elenco de The Good Wife deve desenvolver lesões relativas a levantar abruptamente dizendo: objection, your honor!

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Primeiro contato e eu não foi polida – não fui grossa, mas não foi bacana. A resposta foi no mesmo tom. Já tinha decidido nunca mais comentar nada, deixar de ler, aí recebo uma mensagem privada gentil, fazendo referência ao meu comentário e me convidando a ler um outro texto. Fiquei muito sem graça, pedi desculpas, disse que havia me arrependido do meu primeiro comentário, agradeci. Aí lembrei porque tenho a política de ser gentil sempre que possível:

  1. A gentileza desarma.
  2. A gentileza nos faz passar menos vergonha.

 

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As pessoas. Elas têm o péssimo hábito de terem defeitos. Alguns nos são insuportáveis e deixamos de falar com elas. Quando não são, a melhor política é escapar, nunca tocar no assunto e fingir que não viu. Por incrível que pareça, o caminho do meio – analisar, jogar na cara, exigir justificativas e pedidos de desculpas – é muito pior.

O milagre

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Eu me preocupei tanto com o assunto, sofri tanto e finalmente entendi: Wanessa Camargo. Explico: é possível chegar com pistolão, com pompa e circunstância, tudo ajudando. Como foi com a Wanessa Camargo. Como foi com tantos autores que tem por aí, que não citarei pra não ser injusta. Mesmo porque, se eu citar e você souber, é porque não é deles que estou falando. Então, tem o pessoa com tudo, que chega chegando, que tem festa, que tem apoio. Mas esses são os raros. O meu destino sempre foi o do comum. A pessoa que não tem ninguém por detrás, que não tem QI, parente, ajudinha e nem ao menos sorte. Essa pessoa faz o possível, tira do bolso, divulga, faz propaganda, vira a mala sem alça que obriga os amigos a lerem, escreverem, comprarem. Mas tanto o do pistolão e o anônimo vão conseguir chegar apenas a um certo limite. O limite do primeiro é maior, mas também é limite. Depois de lançado e divulgado, de se falar tudo o que se pode falar, de se encher o saco tudo o que é possível encher, tem a parte incontrolável, a que eu chamo de milagre. A parte da pessoa chegar em casa e aquilo fazer diferença pra ela. Eu posso obrigar os amigos a comprarem, o pistolão pode induzir as pessoas a comprarem, mas o leitor silencioso na poltrona é que vai saber se aquilo mexe com ele. É o leitor que, espontaneamente, vai abandonar o livro ou achar que aquilo lhe toca profundamente a alma – e espalhar. Isso não se fabrica e é isso o que tem valor.

Alicia Florrick

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Alicia, do The Good Wife, é uma protagonista atípica. De cara, quando comecei a ver a série, me encantei com Kalinda, a indiana sem coração, que nunca sorri, desejada e indiferente ao afeto de homens e mulheres, competente investigadora da Lockhart & Gardner. Isso sem falar no estilo, de botas de cano longo, saias curtas e jaquetas ajustadas. Depois, me encantei com a poderosa Diane Lockhart, chiquérrima, idealista mas também muito prática, difícil de se dobrar. No time masculino, muitos gritinhos apaixonados por Will Gardner e fico xingando como quem assiste uma partida de futebol cada vez que Peter Florrick aparece. Amo Eli Gold, o esperto chefe de campanha de Peter. E tem a Alicia. O apelo dessa personagem é: Alicia é a humanidade no meio do desumano. Ela pensa no marido que a chifrou, nos filhos, no que é certo, escolhe os casos pelos critérios mais justos. Por ter sido dona de casa, ela traz consigo para a profissão o olhar pelas pessoas, a ingenuidade de quem quer fazer o que é certo. É o sopro de vida necessário em meio à maldade do mundo, aquela pessoa neutra que torna o ambiente competitivo um pouco mais respirável. Mas ser assim dói muito. Todos queremos ter uma Alicia Florrick por perto, só não queremos ser.