O jornal do bairro

jornais

Eu tinha uma amiga que não conseguiu se atualizar a ponto de ter internet, nem ao menos celular. Pra tudo era uma pessoa muito antenada, mas isso estabeleceu uma barreira que era difícil ultrapassar. Para algumas coisas era possível explicar e ela captava a essência, então não fazia falta. Digamos que eu explicava uma briga no Facebook; eu lhe explicava que cada um tem uma página, que são os seus dados, as suas fotos e o que você escreve. Outra pessoa pode ir lá e escrever no seu espaço. Então, cada um escreve a besteira que quiser no seu próprio espaço, mas alguém entrar no meu e me ofender era demais. Ela entendia. Ao mesmo tempo, eu tentei explicar blog e que tenho leitores, mas ela achava que eu seria realmente popular se enviasse meus textos para o jornalzinho do bairro. Ela também insistiu para que eu tentasse ir no Jô quando minha dissertação foi publicada. Olha, eu até tentei na época, achei site dele e você mandava um resumo do porque poderia aparecer lá. O site era tão abandonado que não precisava de mais nada pra saber que ninguém iria lá pra procurar um futuro entrevistado.

Tchecov, a quem amamos tanto, amargou um sentimento de falta de relevância porque não publicava um grande romance, e sim pequenas histórias nos jornais. Histórias essas que hoje achamos lindas, sensíveis, direto no ponto, que em poucas palavras captam o espírito dos seus personagens e nos permitem conhecer sua época. Eu amo ler e estava fazendo vídeos de recomendações (pela primeira vez desde que comecei, falhei e não sei se volto), e acabei fazendo quase um catálogo Netflix. Quase não recomendei livros porque me parece tão inútil. Tem alguns livros que recomendei pessoalmente para  algumas pessoas, livros tão a cara delas que só faltava exame de DNA para comprovar. Elas não leram. Não que não confiem me mim e etc., apenas porque quase não se lê. Ler é tão old fashion, tão século passado. Mesmo eu acho que não tenho mais o mesmo fôlego de antes, não consigo mais ficar tanto tempo parada para apenas ler.

O que, afinal, é ser lido? Será que também não é old fashion da minha parte pretender ser publicada?

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Frank Sinatra e o vôlei da net

Já que é feriado, recomendo um seriado Netflix sobre o Fran Sinatra, procura lá pelo nome dele. Não vi porque sou fã não, vi porque tinha uma vaga ideia de que era alguém que eu não gostava muito, que tinha gravado Girl from Ipanema e que o cantor que pede ajuda da máfia no filme O Poderoso Chefão seria ele. É interessante porque ele teve uma carreira e uma vida longa, daquelas que pegam os acontecimentos importantes da sua época. Mas o que eu mais gostei foi de não ter conseguido me decidir gostar dele ou não. Algumas atitudes canalhas*, incoerentes, autoritárias, sedentas por poder que ele tem me fariam jogar no lixo das pessoas detestáveis com a maior naturalidade. Mas ele também tem grandes gestos de generosidade, empatia com migrantes e negros quando ninguém tocava no assunto, baixos muito humanos e capacidade de se reerguer, amor aos filhos, caridade, amizade. Quando eu estava a ponto de bater o martelo pra um lado, o documentário mostrava outra face e eu não podia mais. Terminei completamente sem saber se gosto ou não, só sei que era realmente um talento enorme.

O julgamento das pessoas na net me lembra uma prova de vôlei que fiz uma vez no segundo grau, olha que didática incrível: duas equipes jogando, todos os jogadores começavam com nota dez. Cada vez que a bola caía no chão, uma pessoa – ou mais, às vezes até três, dependendo de como foi a jogada – gritava o seu número de chamada para a professora, que tirava um ponto da sua nota. Ou seja, se a bola caiu perto de você seis vezes, você gritava seu nome seis vezes e no fim da aula sabia que tinha tirado quatro. Só que na net, às vezes todos os pontos são retirados apenas com um movimento errado. Ama-se e odeia-se intensamente, a pessoa é anjo ou demônio, verdadeira ou mentirosa, perfeita ou um monstro hipócrita. E os atributos são apenas retirados, muito difícil que se acredite no lado bom das pessoas. Não é assim Sinatra, não deveria ser assim com ninguém.

*quero deixar registrado meu sincero BEM FEITO com o fim da história dele com Ava Gardner.

 

 

Trazer alegria

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Começou uma onda Marie Kondo quando apareceram os episódios na Netflix e, como sempre parece acontecer na internet, depois das reações iniciais boa, a moda virou e o bacana é detestar a Marie Kondo. Mas mesmo entre aqueles que disseram que não têm paciência com o jeitinho dela, acabam repetindo um conceito fundamental do seu método: trazer alegria. Além de ver os episódios, li o livro, e achei que ele realmente dá dicas valiosas. Percebi que eu me desfaço com facilidade de roupas, mas me dói muito lembranças e presentes. Coisas que nem ao menos gostei quando ganhei, atulham minha vida, e não acho correto me livrar. Ela dá alguns conselhos práticos a respeito e recomendo a leitura – só procurar pelo nome dela no LeLivros, caso você queira baixar.

Conversando com amigas sobre a Marie Kondo interior, eu percebi que consigo me desfazer com facilidade porque minha mãe me fez associar esse descarte com alegria. Limpávamos meus brinquedos periodicamente, e ela sempre destacou que aquele brinquedo que eu nem lembrava mais que eu tinha faria uma outra criança desconhecida feliz. Sempre acabo imaginando que, em algum lugar da cidade, tem uma pessoa com a roupa que não me caía bem ou o bibelô que eu não gostei, e feliz da vida.

Alguém comenta

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Já me falaram várias vezes, com diversos argumentos e por motivos diferentes, para compartilhar algum conteúdo por vídeo. E eu até tentei, pensava um pouco, e no fim acabava não fazendo. Gosto do anonimato da escrita, me sinto mais protegida. Sempre reconhecia a importância de usar outros veículos, mas fundamentalmente a minha resistência é geracional: sou velha, não sou da geração que gosta que nasceu se registrando por imagem o tempo todo. Aí estávamos numa roda e uma amiga me falou algo que eu já havia compartilhado no meu Facebook: tanta gente postando informações ruins, por ignorância ou interesse, e pessoas que poderiam ter algo a dizer não dizem nada, “precisamos ocupar esse espaço”. Eu compartilhei, achei lindo, e pensei nos muitos amigos professores, pesquisadores, escritores. Não pensei em mim. Lembro ainda que o texto que eu compartilhei dizia: tudo bem que você não tenha uma grande audiência e o seu post/vídeo seja visto pela sua meia dúzia de amigos, já é mais do que se ele estivesse apenas numa revista científica ou numa banca, já é mais do que guardar pra si. Nisso ela me fisgou.

Coloquei um vídeo na página At., Caminhante do Facebook. Não sei se tenho fôlego pra muitos. Não pretendo falar de mim e sim recomendar o que me chamou atenção. Não dá pra colocar vídeo aqui, nem pra dar um gostinho, porque a plataforma não oferece isso para quem não paga pelo domínio. Ou seja, vão ter que passar lá e seguir a página pra ver…

Nascimento especial

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Já comentei que a astrologia védica não tem essa de dizer que todos os signos são bons, que todas as diferenças são válidas, etc. Eles julgam na cara dura. E fazem afirmações que a astrologia ocidental jamais teria coragem de dizer, tanto boas quanto ruins – que alguém tem tudo para ser famoso ou que jamais vai conseguir se sustentar e vai viver de favor pro resto da vida. Vi num fórum um desesperado porque queria confirmar que seria famoso e os dados dele não indicavam isso nem com boa vontade. A gente lê comparando os indícios como próprio mapa e descobre, como disse um dos astrólogos que eu sigo, que não é grandes coisas. Yogas lindas, grandes sinais de que a pessoa é iluminada ou que vai deixar sua marca no mundo e nenhum conhecido tem. A védica joga na cara que você é medíocre.

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Pra eles o horário exato de nascimento é ainda mais importante, porque eles dividem o mapa astral em vários pedaços e geram outros mapas astrais. Os indianos vêm a hora, minuto e segundos do nascimento, coisa que ninguém aqui tem registrado. Pelo meu horário de nascimento na certidão, eu tenho meu ascendente nos primeiros graus de áries. A união entre os graus finais de peixes e áries (câncer e leão, capricórnio e sagitário) é o que eles chamam de ponto gandanta. É como um buraco, a união nada suave entre um signo de água e de fogo. Enfim, é especial. Aí fui pesquisar meu possível nascimento especial. No google: gandanta born.

A crença é quando a vida se cristaliza em certo ponto, então nós viajamos em direção à manifestação mais elevada da alma e da consciência. Temos que passar por um momento particularmente difícil para preparar nossas mentes para o próximo passo na jornada de nossa alma. Se você nasceu em algum dos gandanta, pode esperar algumas dificuldades espirituais neste nascimento. Uma falta de apoio, uma sensação de transformação.

Um, não tão legal. Outro site:

Nascimento em Gandanta é uma das muitas falhas que podem acontecer no nascimento ou em um evento. Dependendo da natureza dos Gandantas, diferentes Shanti Upayas (Remédios) precisam ser realizados, caso contrário, pode haver perigo para a vida do recém-nascido.

Eita.

Phaladeepika 13.9: Se um parto acontece no extremo de uma Rasi que é ocupada ou aspectada por um planeta maléfico, a criança certamente encontrará sua morte imediatamente. Se o nascimento ocorrer em um Gandanta, o pai, a mãe ou a própria criança morrerão. No entanto, se a criança sobreviver, ele se tornará um rei. Se nascida na junção de qualquer um dos quatro quadrantes, idêntica à conjunção ou aspecto de um maléfico, a morte da criança acontecerá em breve.

Eu tô viva e já na Terra faz tempo, então pra mim foi bom.

Gandanta no nascimento do dia chama-se Pitr gandanta (perigo para o pai), enquanto Gandanta no nascimento noturno é chamado Matr gandanta (perigo para a mãe).

Poxa, gente.

Enquanto Chandra é o governador da mente e do corpo (psico-somático), Lagna é o governador da inteligência (Dhi). Assim, enquanto Rasi Gandanta afeta a saúde, longevidade e sustento, Lagna Gandanta resulta na perda de inteligência, desde que o Lagna ou o Lagnesha também sejam afligidos.

Me chamou de burra na cara dura.

Aí, num outro trecho, diz que se a pessoa nasce durante Abhijit Muhurat não é tão ruim assim. Nunca tinha visto o termo e fui pesquisar. Abhijit Muhurat é uma média do horário entre o nascer e o pôr do sol e cai geralmente entre meia noite e uma da manhã. É um horário sagrado. Aí eu pensei: oba, nasci em Abhijit. No google: Abhijit born.

Pai ou mãe tendo alguns problemas após o nascimento da criança, pelo menos, dentro de 3 a 5 anos de nascimento da criança. Como a dívida de negócios, a perda de pais de problemas de saúde da mãe, alguma grande doença encontrada. Tudo depende do horóscopo de três pessoas, precisamos analisar. Mãe pode enfrentar problema de saúde mental ou saúde física, na maioria dos casos eu vejo problema de saúde na mãe. Este não é um problema de saúde geral, é um grande problema ou qualquer doença anterior voltar ou aumentar em doenças anteriores. Caso pai, eu vejo muito provavelmente questões financeiras e relacionadas à carreira. A maioria dos casos no horóscopo Pai e Filho não é compatível entre si, então com um impacto negativo na Carreira [Finanças etc].

Melhor deixar pra lá essa história de gandanta, que tal?

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No whats, com uma amiga também cheia de gandanta no mapa:

Eu: andei pesquisando sobre os gandatas.

         Falam mal à beça da gente.

Ela: [Falam mal à beça da gente] Isso é fato.

Curtas aventuras no app de karaokê

karaoke

Nem a pau eu conto qual é e qual o meu perfil lá.

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Como eu não fiz plano VIP, não posso começar uma gravação, canto sempre em gravações iniciadas pelos outros. Tem os perfis de burlar o sistema, que a pessoa disponibiliza como se fosse pra cantar em dupla e ela não canta a parte dela. Mas vou te confessar que gosto mais de cantar com os outros. Sei lá, me sinto mais acompanhada.

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Um dia um que elogiava muito minhas gravações, dizia que eu cantava muito bem, que minha voz é maravilhosa, me mandou uma mensagem privada. Eu achando que leria mais elogios e ele falou para eu não levar a mal, mas estava estragando todas as gravações dele porque não sabia ajustar o volume. Depois de me recuperar da ferida narcísica, fiz o que ele me aconselhou e as gravações melhoraram mesmo.

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Voltando ao cara, ele me elogiava. Não me mandava um agradecimento padrão, escrevia meu nome, fazia trocadilho com o que dizia na música, sempre me colocava pra cima. Como o ser humano é besta, eu ficava esperando a reação dele a cada gravação. Aí dei uma stalkeada básica e descobri que ele elogia todas as mulheres que cantam com ele. De vez em quando aparece uma mensagem que ele me mandou e elas colocam emoticon batendo palmas, ou comentam. Bem ciúmes mesmo. Eu só dou risada.

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Tem um português que só curte as gravações, não agradece como de praxe. Primeiro eu achei que ele não ia com a minha cara, percebeu o sotaque brasileiro, agora eles nos odeiam, essas coisas. Ou que era porque eu era uma estragadora de gravações alheias, com volume alto, e ele notaria que eu não estrago mais e passaria a gostar de mim. Depois pensei que era neura minha, que ele não deveria elogiar ninguém. Aí um dia estava vendo as gravações e percebi que ele elogia sim as outras pessoas, as portuguesas, ele só não manda mensagem pra mim. Agora eu o vejo e penso: “Vamu lá cantar com o português que me odeia.”

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Dia desses eu gravei Ovelha Negra com um dos meus preferidos, um cara de meia idade que canta sem medo de errar, qualquer coisa. Ele se soltar e cantar de tudo, mesmo sem ter voz ou errar no inglês me estimula a fazer o mesmo. Comecei a receber tantas notificações de pessoas curtindo a música, mais de trinta, que já estava me sentindo o novo fenômeno do aplicativo e achei que a qualquer momento surgiria o convite de uma gravadora. Que nada, ele é que tem 1655 seguidores. Minha gravação nem era das mais curtidas.

Curtas de difícil entendimento

pensar fora da caixa

Eu estava na faculdade e o professor decidiu nos passar um documentário na aula. Só que ele disse que era um documentário em inglês e sem legenda, ele havia trazido direto do país. Ele perguntou se tinha algum problema, se todo mundo lá entendia inglês e eu fui a única pessoa da sala que disse que não conseguia e saiu. Nunca soube qual o percentual de não falantes em inglês da sala, mas duvido que fosse a única. Eu os imagino os outros sentados na cadeira durante mais de uma hora e acenando com a cabeça.

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Um homem uma vez me disse que, às vezes, por estar com muita vontade de ir pra cama com uma mulher, muito a fim, muito apaixonado, acontece dele falhar. E que essa brochada na primeira vez poderia ser tão constrangedora que ele nunca mais a procuraria. Eu disse que isso era horrível, que brochar não era nada, que ela ia ficar sem entender. Ele disse que, por eu ser mulher, eu não entendia o impacto psicológico da brochada. Já faz algumas décadas que eu ouvi e continua não fazendo sentido.

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As redes sociais têm sido agitadas de escândalos nos últimos meses – até aí, tudo normal – de pessoas famosas cheias de fãs cuja existência eu ignorava até o escândalo. Incautos caíam na lábia porque, até determinado momento, estavam se sentindo meio honrados com a atenção, meu ídolo, etc. Aí vou ver o que a pessoa produzia, e desde mil novecentos o conteúdo era péssimo, escorregava nas causas que se tem lutado tanto por aí, e no dito escândalo a pessoa agiu de acordo com o que sempre foi – mas aparentemente ninguém reclamou antes. Eu definitivamente perdi o contato com a juventude, não sei identificar o que lhes toca. Se fizerem um teste Buzzfeed: “celebridade de internet ou completo idiota?”, eu erro tudo.

Curtas de uns vídeos aí

Numa entrevista da Fernanda Torres com o Lázaro Ramos, ele lhe pergunta sobre seu processo como atriz. Fernanda responde que nunca sonhou com a grande atuação, que ela sempre foi muito mais comendo pelas bordas. Me deu um quentinho no peito. Apesar de ser insanidade uma mulher sozinha e com pouco dinheiro agir de forma arriscada, dentro de mim sempre me condeno. Eu gosto da trajetória dela da Fernanda Torres, seus papéis como atriz, sua nova carreira de escritora. Espero que as bordas também funcionem pra mim.

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No Take Your Pills, o jogador de NFL toma Adderol e fica tão focado e energizado que, na primeira noite, lava a louça. A esposa fica feliz da vida por ele ter ido sozinho, sem ser mais aquela briga. E ele diz que foi possível porque não estava exausto pra despencar no sofá como sempre. Na hora eu lembrei do relógio da sala, atrasado mais de meia hora há meses, e que todo dia antes de sair eu o consultava por puro hábito, para lembrar que havia esquecido dele.

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Estou recomendando pra todo mundo o Wild Wild Country, que conta sobre a comunidade do Osho em Oregon. O documentário não o ataca, mas a gente fica magoado. Tudo humano demais, pra uma comunidade com um líder vivo de livros tão interessantes, eu esperava algo melhor. São altas doses orgulho por se sentir o povo escolhido, desrespeito pelos sentimentos dos que estão de fora, se ver trilhando um caminho tão distante do desejo inicial de se espiritualizar. Acho um belo aviso sobra a importância de não tratar mal os vizinhos.

Lagoa Azul virtual

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Nos heróicos anos 80, as tardes de domingo da Globo eram apimentadas com um filme chamado A Lagoa Azul. Um senhor com um casal de crianças loiras vai parar numa ilha deserta e o adulto morre em pouco tempo. Adaptados à natureza, eles crescem e descobrem sozinhos o amor, o sexo, fazem um bebê… A internet, quando se olha pro comportamento coletivo nela, me parece um imenso adolescente. Provavelmente é porque grande parte dos usuários é adolescente. Um adolescente na Lagoa Azul, porque houve um buraco. Só agora a geração mais velha entrou, e mesmo assim não muito. A forma deles interagirem aqui é diferente, é mais comportada, sem ler nas entrelinhas. Quem está aqui faz tempo sabe que gostar de quem nunca se encontrou pessoalmente é normal e enjoou de Bom Dia piscando desde o tempo que vinham em arquivos de pps. Só pra citar um exemplo, eu conheço o dono de uma loja de roupas muito boa e que demorou bastante para fazer site. Ele mesmo me disse que não imaginava que as pessoas quisessem comprar roupa pela internet. E, quando fez uma página no Facebook, as postagens são raras e sem o menor “gingado”. Dá pra perceber que ele fez só para constar; ele sabe que é necessário ter, mas não entende o que colocar porque ele mesmo não consome dessa forma.

A maneira como se ama ou se odeia na internet também me parece adolescente. A forma como se é dono da verdade. As polarizações, o radicalismo. Quando as pessoas querem chamar atenção de alguém, ficou comum não elogiar e sim partir para a discussão inútil, para mostrar que é uma pessoa com personalidade, que tem opinião. A vontade de ser diferente, de contrariar tudo, achar engraçado cultuar o pessimismo e reclamar o tempo todo. Não é tudo tipicamente adolescente? Mas um monte de adolescentes juntos também se modificam: hoje em dia quase não se comenta mais em blogs e até mesmo no twitter está complicado falar abertamente, a não se queira brigar. As opiniões migraram para o Facebook, onde o controle do público é maior, o que fortalece ainda mais as bolhas.

Mas sabe que, apesar de tudo, eu sou otimista? Eu acho que de tanto baterem uns nos outros os comportamentos vão se auto-regular. Essa geração vai crescer e vai acompanhar as próximas, não vai ter mais o buraco geracional que aconteceu com o surgimento da internet. Assim como os pps enjoaram, algumas modinhas de hoje vão enjoar também. Se a internet tivesse passado pelas vias normais dos adultos, ela nunca seria tão democrática como hoje. Teriam dado um jeito de exigir pós-graduação, exigiriam o preenchimento de papeladas, alguma forma de autoridade burocrática ia ser plantada. Adolescência também é caos. Sem essa imensa adolescência, não teríamos a criatividade, o senso de humor e o caos. Não sabemos o que pode vir desse caos, mas já considero melhor do que o que nasce das instituições de sempre.

Os chefs

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Estou vendo Chef´s Table e recomendei pra um monte de gente. Cada episódio fala de um chef, que além de ser super poderoso na cozinha tem que ser especial em alguma coisa. Além de dar fome e uma frustraçãozinha por saber que nunca comeremos aqueles filezinhos minúsculos de 500 dólares, a gente fica também com vontade de fazer algo pelo mundo. A série abre com Massimo Bottura, que já havia conquistado meu coração no documentário com o mesmo nome e que mostra um restaurante que ele abriu com os melhores chefs do mundo cozinhando de graça. Aí vem o que na busca pelos ingredientes perfeitos se envolve na produção dos alimentos, cada vez mais orgânica. Outro tem uma equipe de ciganos e cozinha ao natural, usando fogueiras,. Tem a japonesa que é puro amor. O que usou algas que ninguém comia, o pesquisou métodos antigos de conservação de alimentos. Aí chega num nova iorquinho e assim que o programa começa mostra que o tchans dele é fazer uma comida mucho loca. Quase desliguei. Grandes coisas, jogar os doces na mesa e fazer comer com os dedos, isso eu faço em casa (eca, não faço não). Achei pequeno, eu quero é chef que cozinha com método medieval e muda o mundo! Aí mostraram os pratos e, pensando bem, sendo muito sincera… Se fosse chef, eu estaria muito mais pra que faz pratos engraçadinhos do que o que cozinha em geleiras.

Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Cobertor pequeno

bobesponja

Vi uma discussão na minha TL e pensei em escrever um texto, e pensar nos argumentos me fez pensar que, ao invés de alargar a questão, faria com que os dois lados ficassem com raiva de mim. O que você propõe então, me perguntariam, e eu diria que nada, não sei a resposta, e que talvez minha proposta fosse essa, que menos gente pretendesse que sabe a resposta. Tem uma figura que fez muito sucesso por aí, com um número no chão, e quem estava de um lado o via 6 e do outro 9, como um convite para que a pessoa entenda que a verdade depende do ponto de vista. Eu acho que é um pouco além. De legalização do aborto às roupas da Globeleza, as pessoas se perguntam: é bom ou ruim? Uns acham bom, outros acham ruim. Filosoficamente falando, acho que cada ato é bom e ruim. Quando cobrimos de um lado descobrimos de outro, que dar atenção a uma coisa é deixar outra de lado, que ao escolher uma alternativa perdemos o controle sobre o que não escolhemos. Um ato pode ser num só tempo libertário e conservador, machista e feminista, avanço e retrocesso. Idem para as consequências. Vocês vão dizer “que óbvio isso”. Não é não. Se fosse óbvio, não se brigaria com tanta certeza por aí.

Camus e a moralidade

Nas primeiras vezes que eu vi falarem em comunismo e socialismo nas discussões na internet, eu não achei que fosse sério. Achei que fosse um comunismo entre aspas, com muitas críticas, um comunismo como forma simplificada de definir algo como um humanismo, um desejo maior por justiça social, algo do gênero. Porque me parece totalmente inviável que se abrace o comunismo não apenas após as experiências da URSS ou da China, mas porque mudamos muito profundamente nesses anos. E essa mudança me parece exemplificada no que esta professora diz sobre o afastamento de Camus do círculo de intelectuais franceses:

Não eram apenas os intelectuais franceses. Este senso de sacrifício algumas vezes recaía apenas sobre a costas dos outros mas que muitas vezes implicava a submissão da vida a um ideal. Somente ele explica Olga, Marighella e tantos outros que lutaram empunhando bandeiras. A ideia de sacrifício também estava presente na postura intolerante da esquerda que achava o governo Jango conciliador demais. Quando a situação ficou insustentável, o governo paralisado e o cheiro de golpe no ar, essas esquerdas ficaram felizes porque acreditavam que uma crise intensa poderia desencadear o levante da classe operária que eles tanto sonhavam. Hoje a gente tende a dar razão ao Camus, porque somos mais carpe diem, a vida é uma só. etc. E de vida em vida, vimos muita gente morrer e o mundo ideal nunca chega.

Nós onze

como hacemos

Das pessoas que eu conheço, eu sou aquela cuja morte menos impactaria o mundo. Não tenho filhos, marido, namorado, alunos, empregados, nada. Ninguém está sob minha responsabilidade. Eu nem ao menos sou parte importante da rotina de alguém. Mas não se preocupe, isso não é nenhuma carta de despedida.

Eu não sei o que traz vocês aqui. Pra começar, nem sei quantos vocês são. Ao longo dos anos, fui perdendo meu contadores de visitas, e a proporção entre o número de acessos que eles informavam era assim:

Google analytics > Blogger > Facebook > WordPress

Como tenho preferido jogar meus acessos pro WordPress, de acordo com os número que tenho hoje, este blog tem uns dez leitores. Sério. Me parece que tenho um pouco mais do que isso, mas sejamos realistas: o WordPress não está me roubando umas dez mil pessoas. Tem mais gente aí mas não são tantos assim. Outro ponto é que nunca entendo muito a lógica dos posts. Algumas coisas que me deram o maior orgulho de escrever tiveram reações pífias, enquanto outras que fiz meio que só pra constar tocaram pessoas. Então sempre abro o computador sem saber o que me espera.

Eu não sei o que os traz aqui, mas eu sei o que me traz aqui. Pode ser muito lógico para quem está do outro lado, mas não faz muito tempo que me dei conta de que acabei criando uma auto-biografia online. Que a qualquer momento qualquer pessoa tem acesso a anos da minha vida. Esse olhar nem sempre será bondoso, nem sempre colocará as coisas em perspectiva ou vai entender o que eu disse. Basta ter interesse e se dar ao trabalho de ler. Não foi a minha intenção ter uma biografia online, eu jamais teria tido uma ideia tão narcisista, mas aceito. Fico imaginando uma futura sogra, sabe? Minha ex-sogra levou muitos anos pra gostar de mim – ela viu uma moça, indícios de comportamentos, tirou conclusões. Não tinha como ser muito diferente. Quando a gente é jovem, somos muito intenções e possibilidades. São os anos que nos dão trajetória. Então minha futura sogra, depois de me ler, pode gostar ou não de mim, mas jamais poderá alegar ignorância.

Estou lendo sobre o Jango e recebendo o material do Murilo Gun e os dois me fizeram constatar o quão pequeno é o meu alcance. É difícil calcular o impacto que a gente tem; na matemática dá pra confrontar centenas ganhando indevidamente os 77 reais do Bolsa Família ao lado de um desvio de verba de milhões. Na vida real, horas de falação podem ser menos importantes do que um único encontro. Quando e como conseguimos realmente dizer algo relevante, deixar alguma marca no coração de alguém?

Eu não sei o que os traz aqui e nem quantos vocês são. Eu também gostaria de fazer bem ao mundo, de ter um grande projeto, de ser uma influenciadora, gente do mesmo naipe do Darcy Ribeiro. Se fosse apontar duas características de um grande projeto (estou sendo o pai da Little Miss Sunshine agora), eu diria que ele tem que envolver muitas pessoas e ser generoso. E taí meu calcanhar de Aquiles, sempre tive problemas com esse lance de muitas pessoas. Muito por timidez natural, um pouco por acreditar que não precisaria delas. Por isso minha programação de aniversário inclui computador e bolsa de água quente nos pés, igual estou agora. Cada um tem suas facilidades e desafios, lidar com pessoas pra mim sempre foi segundo item.

Não serei mãe, por consequência não serei avó. Não serei professora, então não terei alunos. Que não serei presidente não é preciso dizer, mas eu nem ao menos serei celebridade de internet. Somos só eu e vocês, nós onze. Eu não sei o que os traz aqui, sei apenas o que me traz: a necessidade.

Curtas pra reclamar

eu to na internet pra reclamar

Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

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Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

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Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

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Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

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Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Do tempo dos comentários

 

No facebook, Fal comenta sobre insensibilidade de comentários na internet. Como não tenho paciência pra ficar pedindo autorização pros outros, vou colocar aqui apenas o que eu disse:

O que mais me chateava quando eu aceitava comentários no blog não era o povo que descia a lenha, e sim os que achavam que estavam concordando comigo por um horror que eu passei muito longe de dizer.

“Você tem toda razão, eu também acho que esses nordestinos são todos uns…” OI?????

Aí a gente vai correndo no texto pra, pelamordedeus, apagar esse momento em que Exu tomou conta do nosso corpo e digitou coisas que nem sabemos. Mas não tá lá. O Exu do Analfabetismo é dele.

Esse feriado longo e divertido chamado carnaval, que para mim não é feriado e nem divertido, já acabou? Porque eu tô doida pro ano começar de vez.