Dois comentários para a cabra

cabra-coracao

A caixa do supermercado, pra mim:”Eu digo pra meninas que aqui no caixa rápido é só os filé. Os homens feios vão todos pra fila dos carrinhos”

(E minha resposta-teoria: “É que aqui é só gente solteira. Quem faz compra mensal tem família, eles são todos pais e já não ligam mais pra aparência.”)

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Duas empregadas conversando no tubo: “Meu patrão tinha uma festa e veio todo bonito, perfumado e desfilou pra mim, perguntou se estava bonito. Eu disse sim, muito elegante. Imagina, aquele homem desfilando pra mim! Se eu pego ele de jeito, jogo numa cama e…”

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Cantadas

bianca del rio

Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.

Abordagem baiana direta

Quando fui a Salvador no ano passado, e estava passeando na areia da praia e fui abordado por um novinho que achou que eu estava emaconhada quando disse a minha idade, bastou meia hora de respostas lacônicas para ele me dizer:

– Quer fazer sexo comigo?

Minha primeira reação foi cair na risada, de tão surreal que a situação me pareceu. Eu respondi que não e ele foi propondo: vamos fazer um amor gostoso, vamos transar na areia, vamos transar no mar, quero fazer sexo com você, por que você não quer, você me achou feio?

A abordagem baiana é assim, direta. Isso porque eu não dei bola pra ele. Mas também não cortei da maneira explícita. De acordo com meu irmão, o jeito de fazer um baiano se afastar é dizendo com todas as letras: não quero não, você está me incomodando, vai embora daqui. Pra mim, por mais que eu saiba, é muito difícil falar assim. Isso seria o grau máximo de rudeza, daquele que eu só uso quando perco a calma. São momentos como esse que me faziam sentir a própria Leite Quente quando vou a Salvador.
(Percebam que falo apenas de Salvador. Não sei dizer se o resto do nordeste é assim.)
“Doentio mesmo são aqueles anúncios de prostitutas no orelhão. Aquilo sim é chocante”, defendeu meu irmão. Na primeira vez que ele disse isso, eu defendi os papeizinhos. Disse que em São Paulo também tinha, que era normal. Que anormal mesmo era propor sexo pra uma estranha na lata. Agora já tendo a concordar com ele. Talvez seja melhor assim, às claras, assumindo o próprio desejo. E como não conseguimos fazer isso cá embaixo, ficamos mais escondidos e o que deixa de ver a luz do dia acaba adquirindo contornos bizarros, com fotos de bundas enquanto você telefona.

A casa que eu fiquei tinha um rádio ligado o dia inteiro, às vezes concorrendo com a música que vinha da rua. É muito baiano isso, de qualquer reuniãozinha, às vezes de duas pessoas, ser motivo pra colocar um som no último volume. Coisa que aqui já nos faz chamar a polícia. Cada vez que tocava uma música dessas, eu ria. As letras são muito diretas. É muito eles, é muito baiano. Talvez justamente por isso não consiga chegar aqui.

Duas historinhas contraditórias sobre meu envelhecimento

Detesto serviço de banco, por isso mesmo que quem cuida da minha conta é uma amiga. Os serviços de banco ficavam todos na mão do Luiz, eu mal e mal sei usar caixa eletrônico. Já sabendo disso, a Rafa abriu a conta, entende minhas dúvidas estúpidas e faz o que pode sem que eu tenha que passar na agência. Mas para mudar o meu nome na conta não teve jeito, eu tive que finalmente ir lá. Tenho uma má sorte com cartões e documentos que só ser exceção estatística explica. Sempre caio naqueles casos em não sei quantos mil, até em remédio. Então não fiquei surpresa em saber que a Receita Federal não tinha feito a mudança do meu nome, mesmo eu já mexido com isso antes de viajar. A mudança do nome na agência foi meio na gambiarra. Conversa daqui e conversa dali, ela me pede o meu RG. Ainda é antigo, porque consegui agendar pra daqui há alguns dias. A Rafa olha para a minha foto, tirada quando eu tinha vinte e cinco anos e solta:
– Você casou bem novinha, né?
Pior que ela nem percebeu que me chamou de acabada.
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Para ir à praia, eu só colocava biquíni, chinelo e um camisetão. Se o sol estava forte, boné e óculos escuros. Qualquer coisa a mais só aumentariam minhas chances de ser assaltada. Depois de poucos minutos de caminhada eu chegava na praia, segurava o chinelo nas mãos e andava com água até os joelhos. Quando queria entrar na água, encontrava alguém pra cuidar das minhas coisas para mim. Naquele fim de tarde um adolescente de bermuda se aproximou de mim e se ofereceu para segurar as minhas coisas. Achei muito estranho e não aceitei. Depois, ele se aproximou de mim e começou a puxar papo. Tive vinte e um anos a criatura. Ele quis puxar papo e eu não estava disposta a conversar, mas ao mesmo tempo não sei simplesmente ignorar alguém. Respondia com monossilábicos. Isso não o impediu de, poucas perguntas depois, me cantar da maneira baiana, que soa tão agressiva aos olhos sulistas que a gente fica com vontade de chamar a polícia – “você quer me beijar?” “vamos ficar nus na praia” “quer fazer amor comigo?”.
No início da conversa, quando eu ainda não desconfiava do que viria a seguir, ele perguntou a minha idade. Eu não vi motivos para mentir e respondi o que realmente é, que tenho trinta e sete anos. A reação sincera dele foi o elogio mais grosseiro e sem noção que eu já ouvi na minha vida. Vou até transcrever:
– Quantos anos você tem?
– Trinta e sete.
– Você fumou, é?
Hahahahahahaha! Obrigada, adolescente tarado das praias soteropolitanas.

Carona

Tereza estava separada e tinha três filhos em idade escolar. O ex-marido ajudava, mas nenhum dos dois era rico. Quando eram casados, o custo de três filhos já era alto; agora que estava cada um na sua casa, estava muito mais. Sua rotina era toda controlada para dar conta de arrumar a casa, mandar os filhos para a escola, deixar a comida pronta, trabalhar, voltar, preparar a janta, fazer supermercado, etc. Foi uma fase na vida cheia de responsabilidades, centrada nos filhos, sem muito tempo para pensar. Ela era precisa como um relógio. Tudo era contado, tudo era apertado, cada moeda e cada minuto faziam diferença. Então foi um alívio quando um colega de trabalho começou a dar carona a Tereza. Ela economizava um vale transporte por dia, chegava em casa cedo e ainda por cima vinha conversando. Ele era casado, também tinha filhos, então eles tinham assuntos em comum.

Muitas caronas depois, na repartição, ela ouviu uma indireta – como se não bastasse o próprio casamento ter dado errado, ela agora queria estragar o do outro. Ou seja, as caronas já tinham virado motivo de comentário. Ela respondeu na hora: era apenas uma amizade, ela não estava tendo um caso e nem pretendia ter. Naquele mesmo dia, no carro, ela comentou com seu amigo o quanto as pessoas eram maldosas, de como podiam concluir coisas tão feias sobre a amizade e gentileza dele. Para sua surpresa, aquele papo fez com que o amigo se revelasse – ele sabia que ela estava sozinha, ele era discreto, então ele imaginou se…

O que ela mais lamentou nessa história foi deixar de economizar no vale transporte.

Dilema del amor (cumbia epistemologica)

Eu tinha jurado pra mim mesma que não colocaria mais videos dos Luthiers aqui. Eu os adoro e cada dia encontro algo novo, mas sei que videos em espanhol não são muito populares. Mas, ó, este tem legenda!… em espanhol. Não resisti porque – além das referências filosóficas bacanas – ele é tão auto-biográfico! Era bem assim que eu fazia nos meus tempos de solteira… Agora dá pra entender melhor porque eu era encalhada?

Ignorada é bão

No post anterior, o Chicuta pensou numa estratégia pra eu não ser ignorada na rua, enquanto a Ana jurou não estar sendo irônica ao dizer que adora Curitiba por isso. Claro que não era ironia, eu sinto a mesma coisa. Agora peço desculpas antecipadas aos meus leitores baianos, especialmente soteropolitanos. Lá vai:

Um dos motivos que nunca me passou pela cabeça morar em Salvador é que as pessoas parecem viver sempre no cio. No meu caso, a coisa ficava pior por eu ser nitidamente uma “estrangeira”. Uma mulher não pode sair sozinha na rua sem ouvir gracinhas, receber olhares ou até mesmo passarem a mão. Isso não acontecia porque eu sou de parar o trânsito ou qualquer coisa assim – cantar as mulheres o tempo todo faz parte da cultura local. Numa noite, eu estava num ponto de ônibus cheio de gente, e do outro ponto havia uma mulher comum sozinha e cheia de pacotes. Cada vez que o sinal abria, um carro parava pra mexer com ela, oferecer carona, puxar papo. Era até engraçado de ver.

Quando fui ao Rio de Janeiro, em cinco dias ouvi mais cantadas lá do que no ano inteiro em Curitiba. Não sei se é porque a cidade estava vazia (18 graus e as pessoas congelavam, pode?), mas não achei a coisa tão agressiva como é em Salvador. Quando uma amiga minha está se sentindo feia e mal amada, eu brinco dizendo que basta ela colocar os pés no Rio que isso passa. Não sei se a coisa me irritaria se eu tivesse passado mais tempo lá. É provável.

Aqui em Curitiba a gente é ignorada mesmo. Quando você chama atenção de alguém, é muito difícil a coisa passar de olhares. Isso quando alguém olha. Porque normalmente cada um está preocupado demais com a sua própria vida para se interessar pelos outros. Pessoas que puxam papo com estranhos (eu) são vistas como loucas e extremamente desestimuladas pela reação antipática da maioria. Os curitibanos são tão organizados que só buscam companhia nos lugares socialmente estabelecidos para isso. Ou seja, quem quer ver e ser visto vai pras baladas. Quem está no ônibus ou na rua só quer ir em paz.

Sobre essa questão, eu sempre lembro do que ouvi sobre praias de nudismo. Nesses lugares, a regra é não ficar reparando nos outros – até mesmo para evitar certos acidentes. Dizem que mulheres lindas, que vivem pra chamar atenção, não vêem a menor graça no naturismo. Digamos que morar em Curitiba seja a mesma coisa.

Correspondência amorosa

Eu sei que o que eu vou contar é patético, mas por favor não riam. Muito.

Assim que eu casei, esse negócio de receber cartas e encomendas sempre foi um problema. O Luiz fica fora o dia inteiro, eu sempre tive horários muito irregulares e nós não temos contato com os nossos vizinhos. Por causa da Dúnia, tive que parar de receber assinatura de revistas. Sempre que a gente precisava receber alguma coisa, tinhamos que marcar pro sábado. Ou quando era alguma coisa que precisava de assinatura, a gente esperava mais de um mês, pra daí receber uma cartinha avisando que o carteiro tinha feito 3 tentativas (às 12:00, às 11:45 e às 12:05. Se viu que ninguém almoça em casa, por que não tenta outro horário, pô?) e ter que passar no correio (que fica longe) e pegar.

No ano passado, desempregada, esse problema ficou resolvido. À tarde eu estava sempre aqui. Só tinha que ficar atenta à Dúnia, porque a gente desinstalou a campainha e eu só sei que tem alguém lá na frente quando ela começa a latir. Aí eu acordava descabelada, colocava alguma roupa e ia receber o carteiro.

Foi aí que começou. Não sei se a culpa foi a falta da aliança, mas o fato é que o sujeitinho começou a querer puxar papo comigo. A falar da campainha, do tempo, a ser simpático. O que eu poderia fazer? Não podia mandar tomar naquele lugar porque fiquei com medo de nunca mais receber cartas! Fiquei atenta ao horário (16h), coloquei a aliança, rosnava e colocava toda a minha frieza mal aprendida com esses anos de Curitiba. Não adiantou muito. Meu carteiro me chama pelo nome. Um dia estava passeando com a Dúnia no campinho de futebol e ele foi lá me entregar as cartas.

Esse ano eu comecei a dança e agora volto pra casa no fim da tarde. E não é que um dia ele me viu chegando às 16:30 (“você sumiu…”) e desconfiou do meu novo horário? Hoje estava entrando em casa pra lá das 17 e recebi minha carta registrada. =/