Curtas de uns vídeos aí

Numa entrevista da Fernanda Torres com o Lázaro Ramos, ele lhe pergunta sobre seu processo como atriz. Fernanda responde que nunca sonhou com a grande atuação, que ela sempre foi muito mais comendo pelas bordas. Me deu um quentinho no peito. Apesar de ser insanidade uma mulher sozinha e com pouco dinheiro agir de forma arriscada, dentro de mim sempre me condeno. Eu gosto da trajetória dela da Fernanda Torres, seus papéis como atriz, sua nova carreira de escritora. Espero que as bordas também funcionem pra mim.

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No Take Your Pills, o jogador de NFL toma Adderol e fica tão focado e energizado que, na primeira noite, lava a louça. A esposa fica feliz da vida por ele ter ido sozinho, sem ser mais aquela briga. E ele diz que foi possível porque não estava exausto pra despencar no sofá como sempre. Na hora eu lembrei do relógio da sala, atrasado mais de meia hora há meses, e que todo dia antes de sair eu o consultava por puro hábito, para lembrar que havia esquecido dele.

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Estou recomendando pra todo mundo o Wild Wild Country, que conta sobre a comunidade do Osho em Oregon. O documentário não o ataca, mas a gente fica magoado. Tudo humano demais, pra uma comunidade com um líder vivo de livros tão interessantes, eu esperava algo melhor. São altas doses orgulho por se sentir o povo escolhido, desrespeito pelos sentimentos dos que estão de fora, se ver trilhando um caminho tão distante do desejo inicial de se espiritualizar. Acho um belo aviso sobra a importância de não tratar mal os vizinhos.

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Osso de chuva

ossinhos

Quando chove forte e troveja, não tem jeito, a Dúnia morre de medo. Só que não é só a chuva forte, ela tem tendência a ficar deprimida com chuva em geral. Pensei em como ajudar e achei boa ideia criar um reforço positivo: eu compro um osso grande especial, que fica num pote específico ao lado da porta, que ela só ganha em dias de chuva. É o Osso de Chuva. Deu certo, ela entendeu o esquema e fica toda alegrinha; ao invés de ligar pra chuva, a Dúnia passa um bom tempo entretida com o osso.

MAS, quando na saída da aula à noite, cai uma tempestade que alaga e cidade; a aula termina mais tarde; na carona até o ponto de ônibus, ele passa na frente do carro e segue longe; o ônibus seguinte está atrasado por causa do Lula; a visibilidade é quase nula; perco o segundo ônibus porque cheguei além do horário e tenho que pegar a linha que me deixa mais longe de casa; o segundo ônibus também está atrasado por causa do Lula; enfrento as quadras até a minha casa com um guarda-chuva inútil, tamanha a intensidade da chuva; estou faminta e só tem um restinho de risoto pronto me esperando na geladeira; as poças da calçadas estão tão grandes que não há como pular ou desviar, o que deixa meu tênis encharcado; quando chego no portão, a Dúnia levanta a cabeça da sua soneca gostosa, assiste enquanto me molho mais ainda para abrir os cadeados e, na parte seca e coberta, fica pulando em torno de mim querendo que eu dê logo o Osso de Chuva enquanto me viro tentando tirar o excesso de roupa molhada. Num momento desses, um pouco de solidariedade faz falta.

Vida SIMs

the sims

Há trocentos anos, pouco tempo depois de entrar no FB, eu fiz uma The Sims. Meus amigos tinham, parecia divertido e não resisti. Há mais tempo ainda, muito antes das redes sociais, eu tinha lido um artigo na revista VIP de um sujeito que transformou o seu perfil SIM numa novela, como se fosse um diário. Eu lembro que enquanto o personagem dele dormia, a vizinha lavou a louça e foi embora: “foi naquele instante que eu decidi que me casaria com ela”. Decidi fazer a mesma coisa e, pro bem ou pro mal, fiz algumas pessoas aderirem ao jogo porque eu fazia ele parecer muito mais interessante do que realmente era.

Eu me surpreendi quando entrei em perceber que as pessoas faziam do jogo uma versão mais ambiciosa do que queriam da própria vida. Escolhiam os corpos mais bonitos, os vestiam com as roupas mais atraentes, usavam todo tempo para fazer as pontuações que enriquecessem seus SIMs para eles comprarem os objetos mais caros. Eu virei o mundo SIM de pernas pro ar. Fiz todas as interações negativas e muito engraçadas que ninguém havia testado: dar um tapa da cara de alguém, rir na cara de alguém, mijar no quintal do vizinho, roubar. Eu testei todos os botões, pouco importava que a pontuação caísse. Havia um comando constrangedor que o SIM acenava e fazia todo mundo olhar pra ele pra avisar que havia feito sexo. Num instante, meus amigos aderiram também e foi um festival de quintais mijados, ficou muito mais divertido. Sempre que eu ia comprar roupa, aparecia um botão no topo da tela, que ninguém jamais havia usado, que fazia o SIM mudar de sexo. Eu juntei meu dinheiro e fiz a Lola virar Lolo. Mas ela ainda era apaixonada pelo namorado, e eu ia atrás dele até arrancar um beijo e eles reatavam o namoro. Mas assim que voltava a acessar, o Rafa – dono do perfil do meu namorado – desfazia a relação. Aí eu ia no FB e contava: “ele ainda me ama, mas tem vergonha, a sociedade não aceita…” Um dia fiz um projeto muito arrojado de casa, levei horas, e o Lolo ficava se batendo, não sabia se mover, ignorava as portas, era um saco. Aí decretei que ele ficou louco e parei de jogar. Estava viciada demais.

Sim ou não

carmen miranda

Na imperdível biografia da Carmen Miranda, Ruy Castro conta que quando ela era bem novinha, trabalhou como vendedora numa loja de chapéus. Carmen era uma excelente vendedora; quando uma cliente estava na dúvida, bastava ela colocar o chapéu em si mesma. Se ver refletida no rosto encantador da Carmen convencia qualquer uma a gastar. O dono da loja – que era cara e tradicional – ficou muito apaixonado por ela, queria compromisso, tentou de todo jeito. Ela namorava um bonitão da alta sociedade e, como única retaliação possível, o patrão a fazia atrasar na loja para não conseguir encontrar com o namorado.

Eu fiquei me perguntando o que teria acontecido se a Carmen tivesse dado bola pro cara da loja de chapéu. Hoje, olhando em retrospecto, é absurda a ideia de Carmen Miranda, talvez a brasileira mais próxima do conceito de celebridade internacional que já tivemos, reduzida à esposa de um chapeleiro. Era uma loja tradicional, ele tinha dinheiro, ela não, ele queria casar, bom partido e etc. mas ela era Carmen Miranda, poxa! Quer dizer, ainda não era A Carmen Miranda, apenas o potencial dela. Eu imagino a Carmen – e aí está a visão que tenho de todas as escolhas que fazemos na vida, todas – naquela cabine com fones de ouvido, nos antigos programas que quando vê a luz o candidato deve responder sim ou não sem fazer ideia do que estão lhe propondo: você aceita trocar ser uma cantora mundialmente conhecida por um casamento por conveniência?

Grande passo

pizzaria italia

De um lado dizemos que não dá pra prever a história, que as tentativas sempre erraram. Às vezes, é a tentativa que a altera. Talvez o próprio Marx tenha impossibilitado – ou atrasado – que a classe operária tome os meios de produção, porque seus insights sobre o capitalismo foram lidos pelos dois lados, e de certa forma foram usados para fortalecer o próprio capitalismo. Podemos também dizer que Hitler poderia ter ganhado a guerra, caso não tivesse tentado invadir a Rússia, e por aí vai. Alguns dias e algumas decisões são mais importantes do que outras.

“O que eu faço agora?”, eu pensei. Tive a sensação teatral de que um dia é possível perguntarem do dia de hoje no futuro. O único presente que me ocorreu de me dar foi ir até a pizzaria Itália e comer duas fatias das tradicionais pizzas de muzarela deles. A pizza que como desde criança, que minha mãe come desde criança, que meu irmão mais velho come sem parar quando vem para Curitiba. Enquanto escrevo isso, lembrei de um amigo que contou que levou a mulher para a maternidade porque a bolsa havia estourado, ficou numa sala de espera e depois a enfermeira disse que havia nascido. Que foi estranho. Nenhum close, papel picado, música, pessoas se abraçando em lágrimas. Os grandes passos tem precisado de um diretor de vida melhor.

Aquilo

relacionamento abusivo

Teve uma onda muito rápida, nas redes sociais, de haver se tornado aquilo que mais detestava. As pessoas se detestaram por se perceber aquele que procura lugar pra sentar na balada, ler embalagens de alimentos, comprar produtos de limpeza, etc. Eu me perguntei o que eu me tornei e detesto. Sobre ser chata e não gostar de balada, sempre fui. O que eu me tornei e realmente me choca, é quando digo: veja bem, é um bom marido. Trabalhador, honesto, trata ela bem… Um lado meu sente vergonha e, ao mesmo tempo, digo com convicção. Quem sabe em mais dez anos eu diga que tudo bem o homem ter suas aventuras e que o importante é ser a oficial. Que horror. Em minha defesa: tenho visto absurdos demais. Relacionamentos abusivos, se for pra resumir num termo só. Um dos mais absurdos que ouvi na minha vida, poucos meses depois se transformou em convite de casamento e hoje rende lindas fotos no Instagram. Meu casamento, que era bacaninha, acabou antes. Pior que eu não acredito que aquela relação tenha melhorado, porque o que eu ouvi já era grave demais, e sim que eles vivem de aparência mesmo. Hoje eu sei que estar ao lado de alguém que te trate com carinho e respeito não é o básico de todo casamento. Ou que nem todo mundo consegue suportar o risco do espaço vazio, então aceita um qualquercoisa. Perto de um abusador, se ele é trabalhador, honesto e trata bem, tá bom.

Pequenos

fui

Admita, você também é pequeno. Me cansa o discurso raivoso do “brasileiro idiota que não vai às ruas e quebra tudo” sendo que o próprio não vai. Os outros, sempre cabe aos outros. Somos todos como a população da cidade que queria ter uma fonte de leite e, ao invés de colocar a sua parte de leite, foi lá e colocou água. Existe um curto período que é a nossa vida, um curto período que estamos conscientes por dia, e mais curto ainda o nível de energia que dispomos para gastar nesse dia. Tiradas as refeições, o que nos sobra? Pouco, e o gastamos com o nosso próprio bem estar. Minha aparência, meu namoro, meu plano de carreira, meu sofá, meu programa preferido, meu período sagrado de sono. Conheci uma ou outra pessoa que gastava muito mais tempo com os outros do que com si mesma, e foram sugadas até os ossos. Mas mesmo elas, que dispunham da sua pouca energia mais para os outros do que pra si mesmas, não tinham uma esfera de ação muito grande. Faziam pela família. Por amor ou hábito, fazer pela família é quase o mesmo que fazer por si mesmo. Não estou dizendo que isso não vale nada, claro, são pessoas boas. Cada um tem um bom motivo para ser assim, meio bosta, meio parado, pequeno. Tem os boletos, o fato de ter filhos, o expediente que começa cedo, saturno em leão no mapa astral. Vamos ser francos: dá na mesma. A fonte jorra água clara e limpa, sem um pingo de leite. Ou até tem leite sim, mas bem fraquinho. É raro, muito raro, mas acontece: alguém que faz da sua existência um bem enorme, pra muita gente. Numa escala maior do que família e conhecidos. Pessoas que impactam, que são forças motrizes, que não precisam reclamar de falta de gente nas ruas porque está lá, nas trincheiras. Olhar para essas pessoas relembra o quão pequenos somos, o quão pouco fazemos e nem todo mundo aguenta. Precisam diminuir, dizer que não é bem assim. Feia, chata, cara de mamão! Puxamos a pessoa pra baixo e pronto, o nanismo moral está salvo.

Na biografia da Marielle, em um ou dois gestos, ela já pontuou mais do que a maioria de nós a vida inteira. Apenas aceite.

#mariellepresente

Solidão

Eu gostaria de dizer alguma coisa, mas não há nada de novo a ser dito. Quando quis começar a usar cremes, para ficar com a pele mais uniforme e jovem, meu irmão me falou: você me vê pesquisando anos pra avançar um tiquinho, acha mesmo que a cada ano a indústria cosmética consegue desenvolver um efeito inédito? Não há nada de novo na pele, nada de novo no processo de envelhecimento. Não há nada de novo na minha forma de ver, nenhum conselho sobre o mundo e as pessoas. Não há um único conselho que não soe antigo. Livros de história, com séculos de conselhos nas entrelinhas. Vontade de colocar Lennon e McCartney cantando de branco. Ou cristianismo, papa Francisco. Apelar para empatia, humanidade. Quem sabe o vídeo do ponto azul, de Carl Sagan, pra soar mais científico. Eu não tenho encontrado o que dizer e as pessoas à minha volta também não têm encontrado o que dizer. Mas saber que há outros tristes dessa mesma tristeza me dá uma luz fraquinha de esperança. Por isso vim aqui dizer isso, que se você que me lê se sente triste agora: eu também.

 

#Mariellepresente

Mente de pobre

cigarro

Eu falei, no outro blog, que o livro do Mo Yan é como um Casos de Família por escrito. O livro é muito legal, como um todo, mas tem uns casos específicos de rolar de rir, não tem como descrever. O protagonista é camponês na sua origem e o contexto social o permitiu subir de vida. Conto porque não é realmente importante. Eu ri muito do trecho que coloquei a seguir porque me identifiquei muito com ele. Conheci ao longo da minha vida pessoas realmente ricas, e não essa classe média com o nariz pra cima. Pessoas que acham que economizar é gastar menos na balada pra gastar mais na viagem, isso se precisarem um dia economizar. Que acham que só mendigos contam moedas, que toda escola pública dá comida, e outras visões tão distantes da realidade que é difícil até falar. Essas pessoas se vêm diferentes, elas têm certeza de merecer onde estão. Se é lindo e lhes agrada, é quase uma lei da natureza que deve ser delas. Quem não tem é porque não é lindo o suficiente. Já quem nasceu comum, mesmo que um dia ganhe muito dinheiro, sempre vai pensar:

Professor, tenho o vício de fumar. É um vício que já encontra várias restrições na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão. Por toda parte, o fumante é lembrado de sua vulgaridade e de sua falta de educação. Mas aqui em nossa terra, por enquanto, ainda não existem tais restrições. Peguei o maço, tirei um cigarro e acendi com um fósforo. Gosto muito do leve cheiro de enxofre que se espalha no instante em que se acende o fósforo. Professor, eu estava fumando um cigarro Jin Ge, literalmente “pavilhão dourado”, uma marca local de preço bem elevado. Dizem que cada maço custa duzentos iuanes, ou seja, cada cigarro custa dez iuanes. Um libra, cerca de meio quilo, de trigo sai por oitenta centavos, ou seja, seria preciso vender doze libras e meia de trigo para poder comprar um cigarro dessa marca. Doze libras e meia de trigo poderiam virar quinze libras de pão e alimentar uma pessoa por pelo menos dez dias. Mas um cigarro da marca Jin Ge acaba em algumas baforadas. A embalagem era realmente magnífica, me lembrava o Pavilhão Dourado de Kyoto, em seu estimado país. Não sei dizer se aquele pavilhão realmente inspirou os designers da embalagem. Sei que o meu pai odeia que eu fume esse cigarro, mas só fez um comentário simples: “Carma ruim!”. Expliquei a ele, apressado, que não fui eu que comprei, ganhei de outra pessoa. A resposta dele foi mais simples: “Pior ainda”.

Mo Yan/ As Rãs, parte IV, 8.

Santa desculpa, Batman!

criminalidade

O Batman tem aquela paixão pela moça, se não me engano ela é filha do comissário Gordon. Na verdade, não o Batman e sim o milionário. Todo filme de Batman que se preze tem que mostrar isso, e fica aquela complicação porque ninguém pode saber que o Batman é o Batman, e qualquer um que pensasse um pouco ia concluir que ser Batman é caro, então o sujeito é milionário, jovem… No primeiro filme da franquia Batman, tenho quase certeza – já perdi as contas de quantos foram – ela sabe que o Batman é Batman, quase morre, ele quase é descoberto, então ele termina tudo, apesar de querer muito, para a própria segurança dela.

– Mas, Bátima, quando poderemos ficar juntos de novo?

– Enquanto houver criminalidade em Gothan…

OU SEJA.

Sofrer por amor é uma merda, e quando a gente está envolvida na história, tudo parece inédito e misterioso. Como o cara que usa desculpa Batman pra terminar. Aí a moça fica louca para saber a verdade, o que está acontecendo, qual a história secreta por detrás. Para quem está de fora, é claríssimo: pouco importa se ele é o Batman ou se caiu do berço quando era criança e bateu a cabeça no chão. Se ele não está disponível, o melhor é partir para outra.

Elogio

ela apareceu e me disse

Eu não tenho certeza de quem foi e como foi, mas na minha lembrança mais próxima foi a Nina, no dia que ela me disse que o meu corte de cabelo na ocasião estava fantástico, que eu ficasse nele, estava linda. Aí eu respirei e ela me impediu, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Me disse: não faça isso. Agora você vai querer me elogiar, porque eu te elogiei, como retribuição, e esse elogio não vai ter pra mim o peso que teria, porque eu vou achar que você só está falando pra agradecer. Então fique com que eu te disse e pronto.

Sabe que eu finalmente pude repetir o gesto dela e né que é bom mesmo?

O sol, a praia e a filha

como-pegar-sol-sem-riscos

Naquela época não se falava de efeito estufa e câncer de pele. As mulheres estendiam as cangas na areia, se besuntavam de bronzeadores e ficavam horas deitadas. Primeiro de um lado, depois de outro, depois volta, deita de bruços e desata o cordãozinho do biquíni. As meninas, ao lado das mães ou com suas próprias cangas e ao lado de outras meninas, faziam a mesma coisa. A areia escaldante da praia era um mar de gente, de mulheres ao sol, homens protegidos por guarda-sóis ou nas barracas, vendedores ambulantes de comida, mais bronzeadores, picolés. Meu pai, que sempre quis ser pai de muitas meninas, só teve a mim, e olha que foram cinco tentativas no total. A praia era o seu quintal, seu ponto turístico, seu restaurante, o local de reunião com os amigos, nunca vi alguém gostar tanto de praia. Sem exagero, meu pai passava tranquilamente dez horas por dia na praia no fim de semana. Aí a filha dele vinha e se recusava a deitar na areia. Eu juro que tentei, mas ficar deitada no sol me dava aflição, ficava entediada em poucos minutos, como alguém podia gostar de sentir tanto calor ao invés de ir pra sombra. Eu ia para a praia porque amava o mar, amava pegar onda e almoçar acarajé. Ele tentou me obrigar ao ritual da areia, apreendia a prancha, me fazia me estender e cronometrava o tempo. Se todas as mulheres se adaptavam e diziam adorar tostar ao sol, por que eu não? Ele via que minha aflição de ficar deitada era verdadeira. Não que eu voltasse das férias branquinha, de jeito nenhum, eu pegava tanto sol que descascava por cima do descascado, não conseguia dormir por causa das queimaduras. Só que eu me bronzeava muito de ficar na água, ficava com a marca camiseta que me protegia quando pegava onda pra lá da arrebentação. Talvez a raiz fosse a falta de vaidade, a maldita falta de vaidade, a mania de me misturar com os moleques pra brincar na rua. Quando ele tentava me fazer ficar amiga das crianças mais frescas da vizinhança, as filhas dos amigos dele, ficava pior, eu as detestava. Mas pelo menos eu ia à praia, ele tinha que reconhecer que eu era a que mais gostava de praia, como nenhum dos outros filhos, tudo por causa do mar. Talvez se o destino tivesse permitido que o meu pai tivesse tido outra filha, qualquer outra filha, ela seria um tiquinho mais vaidosa, teria gostado de pegar sol. A outra voltaria pra casa cedo, pra tomar banho e vestir roupa bonitinha, andar calmamente, orgulhosa do cabelo bonito e da atenção dos meninos. Com outra filha ele não teria brigado tanto, uma guerra que às vezes era aos gritos, mas que na maior parte do tempo era um jogo de forças: ele querendo que eu fosse o que uma mulher devia ser, eu querendo ser quem eu era, independente da concepção dele de mulher. Não foi fácil pra ele ser meu pai, não era nisso que ele pensava quando dizia querer ter filhas. Mas tenho certeza nenhuma outra teria mostrado a ele, com tanta intensidade, que força e teimosia também são características femininas.

Um curta leva a outro

quadros vudu

Um amigo meu, que tinha passado a infância numa favela, que me fez perceber o detalhe numa foto: a pessoa estava diante duma parede com tijolo à vista. “Olha, um favelado”. Num extremo, acho que estão as pessoas que bastou ter uma cobertura para elas se mudarem. Aí o reboco e outros acabamentos são luxos de quando o dinheiro permite. Já do outro lado está aquele que chega e a casa já está toda decorada, só falta colocar a própria cara no porta-retrato. Eu estou mais para a primeira ponta – em breve, serei capaz de decorar uma parede do corredor com quadros. Meu outro projeto é cobrir o mofo do teto do banheiro.

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Minha parede de quadros não é (apenas) pobrice, é que sempre tive uma dificuldade imensa em escolher figuras que me agradem. Não vou colocar mensagens de músicas que não ouço ou cara de pessoas que não admiro. Rejeito também cenários onde nunca estive ou até mesmo flores, já que não sou do tipo que olha para elas durante horas. Fiquei feliz da vida quando me apaixonei por três quadros da Vudu e encomendei. Quando chegaram descobri que a parede precisaria de mais. Quando chegarem, a dificuldade será comprar aqueles ganchinhos especiais de colar na parede. Sabia que eles têm limites de peso? Uma vez tive a ilusão que conseguiria resolver todos os meus problemas pendurativos com ganchos de colar e joguei dinheiro fora.

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Da minha dificuldade em comprar roupas já falei mais de uma vez. Há quem diga que eu tenho estilo, o que eu nego. Ou talvez tenha, mas de forma negativa. A pessoa cheia de estilo, suponho, tem conhecimento de moda e amor às escolhas. A única vez que me identifiquei com o processo de escolhas de alguém foi quando vi Atypical. Pra quem não conhece, o protagonista da série tem um grau leve de autismo. Pra incrementar o visual, ele tenta não vestir sempre a mesma coisa, que tinha um corte e tecido específicos. Mas a jaqueta moderna cheia de metais o irrita, por causa do barulho, e ele joga fora. Meu processo é o mesmo, eu visto o que sobra de uma lista de rejeições.

Cores do mundo

vincent

Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

Atualizações sobre o fim do mundo

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Uma mulher se sentou ao meu lado no ônibus e da previsão do tempo a conversa foi para o fim do mundo. Ela me disse que estuda a Bíblia há mais de vinte anos, que está tudo lá, que não devo aceitar intermediários. Ela disse que as igrejas evangélicas estão equivocadas quando dizem que os bons serão retirados da Terra de repente. Ela me disse que a humanidade pode ser dividida em três terços: os que têm a semente de Deus e o valorizam, os que têm a semente mas que dão as costas a Deus e os que não tem nada a ver com ele e sim que vieram do Outro. O primeiro grupo vai encontrar Deus no mundo dele. O segundo e o terceiro grupo vão para um lugar pior. E o que vai acontecer com a Terra, perguntei. Vai queimar para ser purificada durante mais de mil anos e depois os bons que estavam com Deus voltarão. O fim do mundo não é pra agora, outro erro dos evangélicos. Vai piorar muito, todos os três grupos aqui, e somente no último dia a Terra inteira vai escurecer, aí todos verão o Cristo e só então os grupos serão separados.

Retrato

Eu aprendi algo com uma amiga que talvez ela mesma não sabe que faz: do seu contato com a pessoa, ela conclui tudo. Quando digo tudo, quero dizer tudo: se tem caráter, se é uma pessoa bacana, se tem boa auto-estima, se vale a pena manter por perto. Da minha parte, sempre tive receio de ser injusta, então só julgava fatos isolados, achava que a maneira como trata o garçom fala apenas do tratamento com subalternos, sua roupa no dia fala apenas de como ela está naquele dia, a maneira como comeu revela a fome do momento. O que há por detrás do julgamento da minha amiga é perceber que somos os mesmos noite e dia, somos nós mesmos nos mínimos gestos, o tempo todo. Que as exceções são tão raras que dá pra entender tudo de primeira sim, basta ter olhos para ver.

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