Curtido

roça

-Você é professora?

-Não.

-Você tem cara de professora.

-É a idade. Estou velha. Vê se alguém com dezesseis anos vai ter cara de professor. Todos nós ficamos com cara de professor com o tempo.

-Professora jovem. Eu que tenho cara de acabado. É que quando eu tinha meus quinze anos, quinze até os dezenove, eu cantava nos bailes. Na fase de desenvolvimento, como se diz, eu dormia mal, bebia. Fiquei assim.

-Mas aí valeu a pena, aproveitou.

-Eram outros tempos. Naquela época não se considerava que eu era assim tão novo…

-Verdade, outra educação. Hoje é diferente, pra melhor e pra pior.

-Eu acho que é pra pior. Hoje protegem muito. Eu fui colocado pra trabalhar na roça com meus seis anos. A gente aprende a dar mais valor.

-Tem o lado bom e o ruim. De um lado, as crianças recebem tanto amor, tanto carinho, tanto cuidado… Mas por outro lado, quando saem no mundo, é porrada atrás de porrada.

-É mesmo, eles não estão preparados.

-Você que trabalhou desde os seis anos, alguém pode dizer: coitado, que infância dura. Mas por outro lado, quando você ficou adulto, já estava curtido.

“De onde diabos eu fui desenterrar o termo ‘curtido’? Será que ele entendeu que eu o comparei com couro?”

-É bem isso mesmo. Veja, meu pai acordava a gente cedo. Com seis anos eu pegava na enxada. A gente arrancava feijão, assim. Eles diziam que a gente arrancava rápido porque era criança, não tinha dor nas costas. Não tinha? De tarde a gente não conseguia fazer assim (se inclina para trás). Era pequeno e tinha braço pequeno, mão pequena. Produzia menos, mas trabalhava igual. Em dois dias a gente fazia um alqueire. A gente vinha assim, com o adubo, e o adulto passava atrás fechando assim.

Meu ônibus chega. Eu me despeço.

-Eu vou ficar pensando no que você me falou. Eu nunca tinha memorizado assim. É bem como você disse mesmo.

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Uma conversa entre tubos

estações tubo

Centro de Curitiba, à noite. A cobradora da estação tubo onde eu estou conversa – cada qual gritando do seu lugar – com o cobrador do tubo da frente:

-O Sabiá trouxe pizza pra você ontem?

-Não.

-Mentiroso. Ele disse que trouxe pizza e te deu ontem, porque ele vive me prometendo pizza e eu não estava.

-Ele trouxe pizza, mas não foi ontem, foi anteontem.

-Olhaí, era a minha pizza que ele prometeu, você comeu minha pizza!

-Mas você disse que era ontem, ontem ele não trouxe nada, foi anteontem, você não estava aí…

-Ontem, anteontem… você acha que o Sabiá sabe a diferença? Ele é cracolândia, pra ele é tudo igual.

(Pra mim) Sacanagem, o cara me promete pizza há um ano e quando ele finalmente resolve trazer eu não estou.

(Eu) Ainda mais num horário desses, uma pizza quentinha cai bem…

-Nem me fale…

(Cobrador) Eram dois pedaços gelados, duros, não tava bom não…

-Mas era minha pizza, você comeu!

Atualizações sobre o fim do mundo

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Uma mulher se sentou ao meu lado no ônibus e da previsão do tempo a conversa foi para o fim do mundo. Ela me disse que estuda a Bíblia há mais de vinte anos, que está tudo lá, que não devo aceitar intermediários. Ela disse que as igrejas evangélicas estão equivocadas quando dizem que os bons serão retirados da Terra de repente. Ela me disse que a humanidade pode ser dividida em três terços: os que têm a semente de Deus e o valorizam, os que têm a semente mas que dão as costas a Deus e os que não tem nada a ver com ele e sim que vieram do Outro. O primeiro grupo vai encontrar Deus no mundo dele. O segundo e o terceiro grupo vão para um lugar pior. E o que vai acontecer com a Terra, perguntei. Vai queimar para ser purificada durante mais de mil anos e depois os bons que estavam com Deus voltarão. O fim do mundo não é pra agora, outro erro dos evangélicos. Vai piorar muito, todos os três grupos aqui, e somente no último dia a Terra inteira vai escurecer, aí todos verão o Cristo e só então os grupos serão separados.

Os chuveiros da diretoria

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O apelido fui eu mesma que criei. No vestiário, os chuveiros do fundo, não sei o motivo, são abertos, o que permitem que as pessoas tomem banho olhando umas para as outras. Os outros chuveiros são fechados. As alunas mais antigas gostam de tomar banho lá, por isso o apelido, eu digo que não tenho cacife para tomar banho com elas. Claro que é bobagem, e apesar das pessoas se apegarem a lugares, eu poderia ter me apegado a um daqueles chuveiros também. Não o fiz com a desculpa perfeita que os banhos ali são muito demorados, porque as conversas vão se alongando. Do meu chuveiro fechado, poucos passos dali, capto algumas palavras: “absurdo”, “Lula”, “esse país”, “ladrões”. Mais do que as palavras, o que eu capto são os tons furiosos. Saem de uma aula relaxante, vão para chuveiros quentinhos e de água abundante, e quando vão se trocar o volume da indignação já está lá no alto. Esse país, o Lula, que absurdo, ladrões!

Um dia estava como sempre ouvindo só os rumores dos banhos da diretoria, captando os tons indignados, etc. Quando saí, descobri que o motivo da vez nem era o Lula e sim o fato de não ter lixeira especial para lixo reciclável no nosso banheiro.

Aquelas long neck

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Nunca contei essa história, que já deve fazer uns dois anos. Eu estava voltando no ônibus de sempre, tarde da noite como sempre e havia um mulher sentada atrás de mim falando no celular. Eu estava esparramada na cadeira, muito cansada. O ônibus estava silencioso e a conversa dela se misturava com as luzes dos postes. Do outro lado da linha, ele lhe disse que estava esperando e ela disse que ele deveria dormir, que não precisava. Ele acordaria cedo amanhã. Ele não apenas esperava por ela como tinha deixado um prato de comida separado. E ela tinha uns chocolates escondidos e contou onde estavam. Ela lhe disse que as cervejas long neck entraram em promoção no supermercado onde ela trabalhava. Naquele fim de semana eles podiam comprar, dividir, fazerem a festinha deles. Quando saí do ônibus não resisti em olhar para trás e vi uma mulher simples, meia idade, acima do peso, aparência cansada.

O que me impediu de contar até hoje e que se confirma quando leio o parágrafo acima é o fato de não conseguir expressar o quão doce era o tom daquela conversa, os gestos simples e carinhosos que se podia adivinhar de ambos. Penso nos dois com suas long neck como champanhes e o seu amor tão precioso.

Trauma da fome

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Eu tive até que pedir oração na igreja por causa do trauma que eu tenho de passar fome. Eu saía do trabalho e qualquer dinheiro que eu tinha eu ia pro supermercado comprar comida. Minha filha dizia “para, mãe, vai encher de caruncho!”. Eu estava com vinte e seis sacos de arroz e trinta de feijão. Peguei os bons, coloquei em garrafa pet e tampei bem, os outros eu joguei fora. Doeu. De saco de macarrão eu tinha mais de quarenta. Aí eu parei. Mas agora está voltando.

Ouvi uma noite dessas, no ônibus.

Uma noite agradável

Eu estava com vontade de sair de casa de pijamas. Ou dentro de um saco gigantesco. Por pura vontade de estar confortável. Aí procurei a roupa mais confortável, folgada, à vontade, foda-se, tô nem aí possível. Ouvi que estava fashion, indiana e estilosa. E uma mulher quis saber quem corta meu cabelo.

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Não costumo tirar o celular da bolsa no terminal, principalmente à noite. Mas como resistir a uma cena destas. Não está fácil nem pra quem é urso de pelúcia gigante.

urso exausto

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Ao contrário das outras histórias sobre o Interbairros 2, a cobradora do último que eu peguei era tão legal, fiquei com vontade de me apresentar e virar amiga dela. Ela estava conversando com duas, sobre namorados. O dela, em dois minutos estava pronto para o combate, ele não se esquivava da ginástica laboral. Ela não imaginou chegar aos quarenta e nove tão satisfeita – e ela realmente tinha uma cara de gente feliz, a pele ótima, o cabelo loiro bem cuidado. Depois perguntou o signo dos namorados das amigas. “Leão é difícil chegar nesse estágio, Leão pega bastante no pé. Eu tive um namorado de Leão que não me deixava respirar”. Aí a amiga que tinha pedido pro motorista dizer onde ficava a rua Holanda porque estava indo na inauguração de um bar com karaokê, disse que estava numa fase de luto, que não suportava ficar em casa que começava a chorar, porque sua mãe morreu há pouco tempo e seis meses depois o pai foi junto. “É que um amor segue o outro. Quando o amor da pessoa morre, ela não tem mais o que fazer aqui e vai junto”. E do que ele tinha morrido? Aorta. “Isso é a desculpa. Na verdade, quando a pessoa está muito angustiada, o coração fica apertado e começa a bombear muito e prejudica as veias. Eu mesma, quando me separei…” Aí deu desci, uma pena!

A alma quebrada

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Sapatos de flamenco custam uma fortuna e um dos motivos é por serem extremamente fortes. As chances de alguém que não seja profissional e tenha um sapateado fraco quebrarem o salto de um são mínimas – e foi exatamente o que eu fiz, há poucos dias, num dos meus ensaios. Na verdade, sentia o salto dele meio solto há anos, assim como o outro, mas achei que fosse normal. Já ouvi uma explicação engenheirística sobre as coisas muito sólidas serem menos resistentes do que as que trabalham um pouco, então achei que meu salto dar umas falhadas fosse pura tecnologia. Voltei no sapateiro e pedi pra ex-mulher do espanhol pra verem se era possível colocar uma trava no salto, igual sapatos de dança de salão. Horas mais tarde me ligaram dizendo que isso eles não fariam, mas me explicaram que dentro do sapato havia um ferro, cujo nome não guardei, que era a Alma do Sapato. O do meu estava quebrado e eles não apenas trocariam aquele ferro como poderiam colocar dois. Eu topei.

Três dias depois, fui buscar meus sapato de alma nova. Havia uma menina brincando no balcão e chamou a avó assim que eu entrei. Era a ex-mulher do espanhol. O engraçado que eu sempre a cumprimento com familiaridade e digo que sou a moça do sapato de flamenco, e ela se justifica dizendo que “atende tanta gente…” e só me reconhece quando vê o sapato. Ela me explicou de novo o lance da alma, que o meu sapato está ainda mais resistente do que era antes, que nos fizeram um preço bom porque já sou cliente. Enquanto isso, ela foi corrigindo a neta: aquilo não era uma bola, era parte de uma câmera de segurança, que parasse de brincar com aquilo, pegasse umas canetinhas e papel. A vida era daquele jeito, tinha que ter responsabilidade. A menina apoiou as mãos no balcão e ficou observando nossa conversa, e quando a mulher tirou um adesivo de dentro do sapato – pelo jeito é por ali que se tem acesso à alma – a menina quis tirar e ela não deixou, porque aquilo era assunto sério, era trabalho.

Quando eu já estava pra ir embora, ela me perguntou se flamenco era uma boa atividade física. Tomei o ar para responder e ela completou: “é porque eu detesto academia, exercício, essas coisas. Eu tenho trauma, eu sofri bullying de uma professora no colégio quando era deste tamanho”. Me contou das humilhações, de ter que saltar de uma corda e ter medo, ser a primeira a ser chamada para que todo mundo viesse, de não ter nem sete anos e ser chamada de monga, que nem jogos olímpicos ela conseguia gostar de assistir, que um filho dela também ficou traumatizado com educação física, que ela ensinava a menina e os netos a respeitarem os outros, sempre, tratar bem o professor, apagar o quadro, arrumar a mesa dele, que tem que ser educado, mas também ensinava a se proteger, a dizer que não merece ser tratado desse jeito, dizer que vai chamar a mãe ou a vovó, que um policial ensinou na TV que não se deve apenas ensinar as crianças a não falarem com estranhos mas também a terem cuidados com os conhecidos, que não se divulga mas a cada hora três crianças são sequestradas, que se instruiu mal as crianças, uma palavra que você ensine para elas faz toda diferença, que… Aí entrou uma cliente e ela parou a conversa e me largou como se nada fosse. Antes de sair, eu falei:

– Sobre aquela pergunta que você me fez, a resposta é Sim.

Menos e mais

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Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

A mulher da mala

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Quando eu cheguei no terminal o meu ônibus tinha acabado de cruzar a esquina e eu tinha pelo menos 15 min de espera pela frente. Me sentei num banco onde havia uma mulher e saquei meu Kindle. Tudo ia bem, o Conto de Aia é ótimo, até que minha leitura foi interrompida por uma mulher puxando uma mala de rodinhas “vou sentar aqui no meio de vocês e atrapalhar um pouco”, ela falou, muito simpática. Mal acomodou a bunda e já virou para a outra e comentou o quanto o ônibus é demorado, o que custava, tinha que colocar mais ônibus. Cada frase passou a exigir que eu lesse duas, três vezes. Não sei como, o papo foi parar em preços de imóveis e a mulher da mala começou a contar de todos os endereços que teve, um sobrado que ela queria comprar, o quanto dinheiro tinha. A leitura se tornou impossível e eu só olhava louca pro meu ônibus chegar, o que levou muito mais tempo do que eu gostaria.

O ônibus chegou e levantamos as três, perdi as outras de vista. Um monte de gente esperando, o ônibus estaciona, se ajeita, dá ré, e as pessoas que estavam espalhadas tentam arranjar o lugar mais estratégico. Fico parada em frente à porta da frente, mania porque sigo em frente quando desço no meu ponto. A escolha se mostra péssima, nas outras portas os passageiros estão entrando, na minha desce gente com problema no joelho, os lugares vão sendo tomados, aquele deusnosacuda, consigo um dos lugares duplos perto do cobrador, junto da janela. Quando o ônibus estão quase saindo, quem surge? A mulher com a mala, que aparentemente encontrou um amigo, que se senta na frente e ela do meu lado. “Misericórdia”, é só o que eu consigo pensar enquanto viro meu rosto pra janela. O rapaz se senta com os pés pro corredor e virado para a esquerda e passa o tempo todo fazendo u-hum com a cabeça, porque a mulher mal dá tempo dele abrir a boca. “Queria tanto encontrar uma amiga minha, mas eu não sei o sobrenome dela” e começa a contar os vários endereços – endereço aparentemente é um tema muito interessante – que teve e que a fulana depois também teve antes de perderem contato. O telefone toca, a mulher atende, e me parece que até o amigo suspira aliviado. Oi filho, estou no ônibus, etc. Mas ela logo volta, interrompe a história da tal da Maliu cujo contato ela perdeu – o nome não era esse, mas era parecido – e fala que era o filho, de uma amiga do filho, primeiro chama de namorada, depois o filho tem cinco anos, depois não entendo nada, alguém levou a menina para casa, depois a menina é mesmo uma criança, um fenômeno, uma peste, impossível, entende tudo de informática, uma diaba, mexe em tudo, acredita que a menina virou pra ela e disse: “não sei o que tanto você fala, vou passar cola na sua boca pra ver se você cala a boca durante alguns instantes”.

Sério, eu me virei para a mulher naquele momento pronta pra dizer que ela deveria dar ouvido à sabedoria das crianças. Mas aí, quando a gente olha na cara da sujeita, acha ela simpática.

A cobradora

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Foi por pura falta de opção que eu me sentei no lugar que fica colado na cobradora. Não sei se é da linha Interbairros 2, mas sempre fico impressionada do quanto conversam esses cobradores. Fico uns 20min no ônibus e tem papo do início ao fim. Aí calculo que o povo conversa a viagem inteira todos os dias e concluo que deve ser muito estressante ser cobrador de ônibus, é falação, história e social o tempo inteiro. Além do intercâmbio normal da cobradora e o motorista, ela estava com uma amiga sentada na frente dela, ou seja, à minha esquerda. Algumas vezes pareciam amigas de longa data e outras vezes não, uma descobrindo e tirando onda com o bairro que a outra mora naquele momento,os  dois violentos, um em Curitiba e outro na região metropolitana. De qualquer forma, a cobradora dominou a conversa. Por volta dos seus trinta anos, cabelo preso, o rosto alegre e sem maquiagem, a camisa do uniforme por cima de uma longa saia estampada me fizeram pensar que era crente. Depois soube que estava grávida, quem sabe a saia fosse por isso. De qualquer forma, a achei, na falta de uma expressão melhor, “bela, recatada e do lar”. Não que não seja, é que… Ainda mais que ela contou que o namorado arranjou ingressos pra um evento gratuito do Atlético e ela ia com as duas filhas, à tarde, e logo de manhã na linha perto do estádio já tinha mulher de micro-shorts e adolescente com tubão (refrigerante batizado com álcool) e ela avisou pras filhas que não iriam mais. E que nunca vai nesses eventos baratos de um real ou quarenta reais, que só dá nóia e mulher de boné virado pro lado.Que foi num evento com os três filhos, o filho queria levar o celular e ela impediu porque seria roubado, e só nóia, as filhas querendo chegar perto do DJ porque eram fãs e elas mesmas ficaram com medo e quiseram ir embora. Enfim, uma mulher tranquila que cuidava da família. Bem, não que não cuide da família, é que…

Quando eu já estava nas curvas finais, quase descendo, a cobradora contou de um bailão que foi com uma amiga. Do nada uma mulher ficou encarando ela. Ela virou pra mulher e apontou pra própria cara e fez gesto com as mãos, naquele típico “qualé?”. A mulher disse pra ela que ela estava encarando, que se continuasse olhando ia ter briga. A cobradora falou algo como “então bate aqui” e deu uns tapinhas no próprio rosto. Dali há pouco, a mulher veio com um copo de cerveja na mão e derrubou inteirinho no tênis dela, que era novo. Ela não fez nada. Depois a cobradora disse que tinha que ir ao banheiro, a amiga até se ofereceu pra ir junto, ela disse que não precisava. No banheiro, chega a tal mulher de novo. Pergunta, cheia de veneno, se o tênis tinha ficado muito molhado. Com uma cara de pouco caso a cobradora respondeu que não. “A gente pode resolver isso lá fora”, disse a mulher. A cobradora: “A gente pode resolver aqui dentro mesmo” e agarrou a mulher por detrás da cabeça, pelos cabelos, e bateu com a cabeça da dita cuja com toda força na parede. E saiu. Não teve testemunhas. Depois ouviu chamarem uma ambulância, porque tinha uma mulher desacordada no banheiro…

Orelhadas

orelhas

Os cobradores conversando no tubo:

-Ele é viúvo, me mostrou aqui a fotos das seis mulheres. Eu disse pra ele se arrumar, arranjar uma coisa séria, quem tem seis não tem nenhuma.

 

O cobrador pro motorista:

-Quem me contou foi a Feinha. A Feinha, sabe as cobradoras? A mais feia delas, a Feinha. Foi ela quem me disse que a Liane foi demitida. A Liane, aquela que é bem louca. A que matou o velho. Ele tomou viagra e morreu.

 

Uma amiga para a outra:

-A gente se chama de Potinho porque nós dois somos tatuados, aí quando cremarem nossos corpos só vai sobrar a tinta da tatuagem, viraremos dois potinhos.

No salão

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Foi num salão aqui perto de casa. Entrou um homem bem apessoado pra cortar o cabelo e se dirigiu ao único cabeleireiro presente. Primeira vez que vê aquele homem, pra puxar assunto ele resolve abordar algum assunto de homem. O assunto escolhido foi bunda. Comentaram das famosas, as bundas clássicas, as bonitas, a sensação, formatos, etc. Conversa animada, cliente simpático. Depois do gelo já quebrado, o cabeleireiro pergunta qual a profissão do cliente. “O que você acha que eu sou? Nunca vai adivinhar”. Chutou empresário. Era o novo padre da paróquia. Todas as conversas do salão silenciaram na hora.

Deve ter sido o papo mais leve em anos. O padre raramente deve ter a oportunidade de conversar sobre bunda.

Sem carne

buffet

Eu fui praticamente a última pessoa a me servir. Tive que me trocar – havia acabado de dançar – e quando cheguei o buffet já estava quase todo no fim. Como já sou de casa, perguntei pros meus anfitriões o que eu poderia comer, o que tinha carne ou não. Eu me sentei no balcão ao lado de uma moça que eu já conhecia de vista. Não lembro qual das duas puxou papo, só sei que ela me disse:

-Eu também não como carne.

-Existem diversos motivos para não se comer carne – olha, nem eu sei de onde tiro essas perguntas – qual é o seu?

-O sofrimento animal.

Ela me falou brevemente do abate, do quanto os animais sofrem. Devia ter umas cinco pessoas ouvindo a nossa conversa, todas elas carnívoras. Eu disse que comia carne de peixe, ela completou dizendo: “Eles morrem da forma mais bárbara de todas, por asfixia. Os caranguejos são queimados vivos em panelas” e eu quase completei: “Eu sei, a gente preparava caranguejo na casa do meu pai”. De um lado, aquilo tudo foi tão inadequado – aquela pregação contra a carne no meio de carnívoros e que não poupou nem a mim. Por outro, eu senti o quanto aquela questão a emocionava, talvez da forma como todos nós deveríamos nos emocionar. Era uma pessoa sensível que sentia o sofrimento dos animais como se fossem a sua própria carne. A sensibilidade, a inadequação, a necessidade maior do que as convenções de tentar pregar no vazio – achei bonito.

Cantadas

bianca del rio

Sou muito paciente e bem pouco bélica nas minhas interações. No que depender de barracos virtuais, nunca me tornarei famosa por aqui. Já tentaram puxar briga comigo diversas vezes e vou te dizer que é difícil se manter agressivo quando o outro lado é gentil. Então estava analisando a minha atitude praticamente contrária quando sou cantada. Quando recebo uma cantada, eu me torno o próprio Seu Saraiva. Fico com sangue nozóio. E não estou falando de cantada de rua, que nem merece esse nome, estou falando daquele cara que se aproxima quando você está de saia curta e drink colorido na mão, sentada numa banqueta alta ao lado do bar. (Já me adianto em dizer que não fico nessa posição há anos, justamente porque me conheço.)

ACHO que o problema é o seguinte: boa parte das nossas interações sociais é apenas a repetição de fórmulas vazias. Dizemos bom dia, boa tarde, boa noite, perguntamos como está o neto, dizemos que o cabelo ficou ótimo e nada do que é dito realmente importa. O importante é a intenção subjacente de ser educado e querer demonstrar que reconhecemos o outro como indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, se uso só fórmulas, é porque estou num terreno seguro e não vejo quem está por detrás. Meu tipo preferido de gente é aquele que em poucos minutos consegue economizar todas essas palavras vazias e ir direto para a essência. Mas eu reconheço que isso é muito mas uma característica de personalidade do que da interação. Tem quem faça isso em poucos minutos, tem quem possa viver ao teu lado a vida inteira e não enxergar nada.

Eu aceito isso no dia a dia. Uma pessoa chega perto de mim com uma fórmula, finjo que não sei que é uma fórmula e aplico outra. E assim fingimos que nos vemos e nos importamos. Mas daí – agora entra a cantada – um sujeito se aproximar de mim com uma fórmula barata, que ele joga pra cima de todas as fêmeas e com isso achar que eu vou me encantar e deixar ele partilhar da minha intimidade é demais pra mim. É um atentado à minha inteligência.

-A gente vai pra sua casa ou pra minha?

-Os dois. Você vai pra sua casa e eu vou pra minha.

“Mas é um elogio, tem que ficar feliz, desse jeito você nunca vai desencalhar”. Ok.