Curtas de obviedades (ou não)

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Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

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As ilusões armadas

elio gaspari

Eu nunca fui do time que achou que não existiu ditadura, eu fui criada numa casa onde se ouvia Chico Buarque e se explicava que eram músicas de uma época que não se podia falar abertamente, que notícias eram substituídas por receitas de bolo, que pessoas sumiam e reapareciam “suicidadas”. Por isso, nunca senti necessidade de ler sobre a ditadura. Mas estou sempre lendo alguma coisa, e passo por períodos maníacos que leio, vejo e pesquiso tudo possível sobre o mesmo assunto. Meus interesses me levaram sem querer à década de 50, e me vi fã de toda aquela época. O Brasil bombava como destino turístico chique, bombava com bossa nova, mandava Carmen Miranda pra fora, descobria o samba da melhor qualidade dentro, construía Brasília, recebia grandes pesquisadores. Era tudo tão legal que eu quis saber porquê deixou de ser tão legal, o contraste entre aquele Brasil de 50 e o Brasil que eu nasci que sempre se odiou era muito grande. Fui pela lógica: se era assim em 50, a resposta está em 60. Foi aí que eu caí no período militar. Escrevi no FB: amigos, o que devo ler para entender o golpe de 64? Foi assim que cheguei ao As Ilusões Armadas, a série de 5 livros de Élio Gáspari. Achei os 4 primeiros na Biblioteca e o último volume teve que esperar pela compra do Kindle.

Os livros são interessantes, bem escritos, consistentes; a série é um clássico, basta ver as críticas. Durante a leitura me aconteceu algo que jamais havia me acontecido na vida: eu passei a ter pesadelos, como se eu visitasse os locais. Lembro do pior deles, logo depois de ter lido sobre o Araguaia. Havia uma pessoa que iam matar, mas saiu uma ordem que cancelava. Acho que ele era enfermeiro. Lembrem-se que na época não existia celular, se a pessoa não estava do lado de um telefone, não tinha como avisar. Era uma questão de tempo – haviam saído atrás dele, outro saiu para tentar avisar que não era mais pra matar. Nos pesadelos, eu sempre chegava no local e não havia ninguém lá, a violência já havia acontecido e as pessoas foram embora. Mas o chão estava cheio de sangue. Poça no lugar onde a pessoa morreu, marcas do corpo que foi arrastado. A dor, os gritos, a violência. As paredes se lembravam e eu sentia tudo mesmo sem ver.

Nunca quis ser “especialista” em ditadura, li o livro pra mim, gosto da dura verdade. Existem muitos motivos que levam as pessoas a negar que tenha havido ditadura, ou que foi um preço necessário, ou que não foi tão violenta assim, ou que só foi violenta com uns poucos ou que mereciam. Acho que o que há de pior ao estudar este período é olhar o mal tal como ele é – o mal não precisa de Diabo, ele é humano e pode foi institucionalizado com cartilhas, especialistas e contracheques.

 

O gramado

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Nunca mais olhei grama da mesma forma depois que Harari – posso quase jurar que foi no Homo Deus – contou brevemente a história dela. Grama é um símbolo de status. Lembre-se que antigamente quase a única profissão possível era trabalhar com a terra e a maior riqueza era ter terra. Imagine que alguém era tão rico, mas tão rico, que podia se dar ao luxo de ter um monte de terra inútil. Terra coberta de um verde que não serve pra nada. E que pra ficar bonito precisa de manutenção constante. E manutenção de gramado não é só cortar, precisa ver o mato. Antes de mudar pra casa, eu achava um crime que as pessoas tampassem a parte com terra, achava que se fosse eu, manteria tudo o que pudesse com grama e plantas. Aí você coloca a grama e com o tempo, por mais que você cuide, o mato se prolifera de um jeito que a grama original já não existe mais, você precisa arrancar tudo e trocar por uma grama virgem. Lembrei disso porque choveu e corri pra arrancar os matos que crescem na minha calçada. Mandei cimentar pra não ter trabalho e praticamente nasce uma forragem nova de mato todo mês. Corri porque finalmente choveu bem é quase impossível arrancar mato quando a terra está seca, de modo que esperei, vingativa e rancorosa, enquanto o sol castigava e eles se fortaleciam. E lá, acocorada e estragando minha coluna, me dei conta de que quem inventou a grama não arrancava mato.

Uma historinha já previamente descontextualizada

princesa

Tenho quatro anos de diferença do meu irmão mais velho. Minha mãe contava umas histórias espíritas para ele – assim como outras tantas, tradicionais, modernas, de memória de livros, ela nos contava muitas histórias. Ela contava pra ele e eu estava por ali, brincando. Aí quando ela resolveu que eu tinha idade pra ouvir, eu achei ruim que entre uma “contada” e outra, ela tinha esquecido de detalhes e eu lembrava deles. “Então você estava fingindo que estava brincando e estava ouvindo tudo?”. “Sim”.

Era um homem muito mau e muito poderoso. Ele ficou a fim de uma mulher, que já era casada. Ele mandou prender o marido dela e disse que só devolveria se ela dormisse com ele. Ela cumpriu a parte dela no acordo, mas ele achou pouco apenas devolver e mandou furar os olhos do marido. Quando chegou a hora de entregar o marido para a moça, ele ficou escondido para ver e dar risada. Achou que ela ia xingar, esbravejar. A moça viu o marido cego e apenas ficou triste e o acolheu com todo carinho. Eu sempre imaginei o homem mau atrás da moita, a câmera por detrás do ombro dele. A moça se ajoelha e ajuda o marido a se erguer, e eles saem juntos pelo pátio de pedra, ela o abraça pelos ombros. Lágrimas silenciosas descem pelo rosto dela. O homem mau não consegue dar risada. Naquele momento surgiu a primeira luzinha de bondade dentro dele.

Um beijo a todos que também estão tristes e abraçados na sua ferida.

Perda de valores, vanguarda e flamenco

Não faz muito sentido pra mim, mas tenho amigo gay que dança flamenco e é daqueles que se enfurece com a “perda dos valores”. Ele é mais velho, não é dessa geração que se assume desde a adolescência, ouve músicas e tem ídolos gays, “dá pinta” por aí. E o flamenco, como todo mundo que faz flamenco sabe, já foi uma dança muito subversiva. Tem uma brincadeira que eu faço, quando surge uma dúvida de como um passo é feito: basta testar qual a maneira mais difícil que será aquela. Quase morri de tédio o dia que vi o ensaio de um grupo de dança tradicional, que pra cada dois passos para a direita, precisavam fazer dois para a esquerda, sempre precisava haver o mesmo número de pessoas a cada lado do palco e eles precisavam andar formando figuras geométricas. O flamenco é todo torto, faz as coisas em números ímpares, entra no meio dos tempos. Isso sem falar nas subversões ainda mais óbvias, como o fato da mulher puxar a saia pra cima na hora de dançar, a força e a sensualidade no palco, a presença. Pensem no que era isso há séculos, porque o flamenco existe pelo menos desde o século XVIII. Uma vanguarda que todos os bailaores sabem é que um ritmo chamado Farruca antes era dançado apenas por homens, e hoje as mulheres o dançam também, geralmente de calça e figurinos sóbrios para se manterem fiéis ao estilo. Se por um lado o flamenco foi uma vanguarda em relação à sua época e à outras danças, ele também teve sua vanguarda dentro da vanguarda, com a mulher ousando colocar uma calça, ousando expressar sentimentos que até então eram considerados exclusivos dos homens.

Mas o flamenco é uma arte, algo lindo, superior, meu amigo diria, nada a ver com os absurdos que tem por aí: gente pelada, peças onde se enfia a mão nos orifícios uns dos outros, desrespeito a figuras religiosas em exposições, que são vestidas de forma profana ou o profano vestido de religioso. A questão é que para as inovações surgirem é preciso ter liberdade. Outras metáforas me vêm à mente: um solo fértil, um respiro, a flexibilidade que permite que construções que recebem muito impacto não desabem. Não é possível, antes mesmo das coisas surgirem, julgar o que presta e o que não presta. É preciso aceitar o choque inicial, saber que é assim que funciona e, à primeira vista, pode ser até feio. O “fora dos padrões” pode ser visto como ameaça, assim como pode ser o experimental, diferente, novo, criativo – é através dos que fazem coisas que a princípio não nos parecem certas que a sociedade se renova. O chocante nem sempre está começando um novo caminho, ele pode estar informando algo que existe e em pouco tempo será comum. Como um dia foi com o flamenco, com a homossexualidade, com as mulheres usarem calças compridas. O que é idiota e sem sentido, o choque pelo choque, como peça de teatro onde um enfia o dedo no orifício do outro, não frutifica e o próprio tempo se encarrega de apagar.

No vídeo, uma Farruca de uma das escolas de flamenco mais tradicionais da Espanha, a Amor de Dios.

Uma história bem açucarada

história açucarada

Festa de quase trinta anos de formado. Há anos ela não via a turma. Um dos motivos era o marido. Talvez o motivo por detrás de todos os motivos – ela estava infeliz. Mas agora, separada, fitness, terapeutizada, realizada, ela achou que seria uma boa ideia. Encontrou os amigos, as amigas, o cara com quem ela se pegava de vez em quando sem nunca passar dos limites, porque era virgem. Foi divertido. Quando voltou para casa, muitas solicitações de amizade dos antigos colegas. Dentre eles, o tal que ela se pegava. Adicionou e começou a conversar. Foi tão na inocência que nem se deu ao trabalho de fuxicar, senão teria percebido de imediato que ele era casado e a conversa não teria seguido adiante. Mas não viu e acabaram se falando, se encantando, um terminava as frases do outro, desencontros pela vida afora, aquela coisa. Ele casado, mas já tinha tentado se separar, eu e ela nem nos vemos mais, o papo de sempre de homem casado que quer comer. Ou será que não? Em menos de um mês, pediu divórcio e estão muito felizes.

Não existe mais o Museu Nacional do Rio de Janeiro

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Grande parte da nossa população não entende o peso da perda de um museu. É só pensar na histeria em torno na exposição Queer e a tal performance “incestuosa”. E a parte do país que entende, é elitista demais pra querer educar a outra parte – mais do que isso, tem feito de tudo para reduzi-la à subsistência. Tem dias que é duro demais.

Vai lá, vota em candidato que não quer ter nem Ministério da Cultura.

Leão no apartamento

leão

Parece Cortázar mas é Animal Planet. Lembrei e fiquei com vontade de contar.

Era uma série que só falava de casos de pessoas que adotaram grandes felinos (na sua maioria) e acabaram morrendo por isso. Não sei se o recorte do programa dava uma impressão errada, vai ver que fora os casos descritos existem milhares de pessoas com leões, onças e jaguares de estimação e que vivem muito felizes com elas; no programa, todos os retratados tinham uma relação tão apegada com os bichos que era algo doentio, como se o felino o dominasse. Se ter um gatinho doméstico em casa já deixa as pessoas meio servos deles, imagino que um gato de toneladas tenha um poder que enlouqueça um pouco. Essas pessoas ficavam cada dia mais fechadas no mundo delas, faziam tudo em função do bicho e com o tempo ficavam muito imprudentes – se aproximavam de fêmea furiosa no cio, de bichos famintos, etc. Aí um dia o bicho perdia a cabeça e atacava. Era só um rompante, igual memória curta de cachorro, mas como o animal era forte demais, um simples rompante desses era fatal.

O caso mais interessante que eu vi eram de dois irmãos que, não sei como, arranjaram um filhote de leão e levaram pra um apartamento. Se não me falha a memória o apartamento ficava no Bronx, era um lugar bem central. Um dos irmãos ficou com o leãozinho e o outro ajudou a guardar segredo. Claro que o lindo filhotinho foi crescendo, passou a comer muitos quilos de carne crua por dia, a ter uma pata do tamanho de uma cabeça e se sentia meio confinado. Mostraram imagens das paredes arranhadas de cima abaixo. O rapaz passou a viver em função do leão – ele não trabalhava e mal saída de casa, praticamente só saía para comprar comida. Os vizinhos só o viam de vez em quando no elevador. O outro irmão nem ia mais para o apartamento, mandava dinheiro e deixava coisas na porta. Eu fico imaginando a existência estranha de uma pessoa num apartamento submetida, apaixonada e hipnotizada por um leão. O leão esparramado pela sala, enorme, com o peito subindo e descendo suavemente a cada respiração. Passar uma escova na linda juba do leão. O leão deitar a cabeça no seu colo na hora do jornal. Pelos de leão pela casa. Dar banho no leão. Olhar para o leão estraçalhar com facilidade grandes pedaços de carne crua.

O que causou o fim do relacionamento foi quando apareceu um gato – desta vez um normal, doméstico – no corredor do prédio e o rapaz resolveu adotá-lo também. Tadinho do gato. O leão não viu ali um parente. O rapaz notou que desde o primeiro instante o leão olhava estranho para o gato e ele ficou de olho no leão olhando para o gato. Aconteceu o esperado: o leão tentou comer o gato, e quando o rapaz viu o que estava pra acontecer, tentou evitar o bote. O leão amava mesmo o rapaz, porque ele se meteu entre um leão e a sua caça e saiu vivo. O leão apenas o afastou, o que fez o rapaz voar longe e quebrar vários ossos. Ele ligou pro irmão pedindo ajuda. No hospital, com aqueles ferimentos, eles tiveram que se explicar para os médicos. Aí o programa mostrava imagens reais da fachada do prédio, vizinhos consternados, uma multidão acompanhando. Atiradores entraram no apartamento com tranquilizantes. Imagina a sensação de invadir um apartamento com um leão dentro. O leão foi levado para um zoológico e os irmãos foram punidos.

Quero recomendar fortemente

… dois documentários históricos ótimos que descobri por acaso na Netflix. Aparece lá como tendo 1 temporada, mas é um documentário longo dividido em várias partes.

Prohibition: Até nós, a lei seca chegou apenas como uma piada, uma medida incompreensível para proibir o comércio de bebida alcoólica que ninguém seguia. O documentário mostra o significado que a lei tinha nos muitos anos de luta para que se transformasse em lei. Parecia muito lógico que se as famílias sofriam com a ausência dos homens que estavam bebendo, a solução era tornar o mal indisponível. Gostei especialmente da louca que entrava nos bares e quebrava eles inteirinhos. Chega a ser comovente o significado da proibição, a mobilização das mulheres; nos faz pensar o quanto certas ideias parecem tão certas e lógicas em determinadas épocas. Quando a lei é promulgada e fracassa, é outra luta para tirar da constituição. Ótimo para ver os jogos de força entre política, sociedade e cultura.

 

Hitler´s circle of evil: Já vi muitos documentários sobre a Segunda Guerra, que foi esmiuçada de todas as maneiras possíveis, mas nunca vi um que faça o mesmo recorte deste documentário. Ele pega os nomes mais importantes da história do nazismo – o círculo mais íntimo de Hitler – e traça sua trajetória política. Perdemos aquela imagem do nazismo unificado e vemos a dimensão mais humana, de pessoas com motivações diferentes e que precisam encontrar uma maneira de alcançar seus objetivos. Alguns são realmente apaixonados por Hitler, mas nem mesmo ele teve a sua posição caída do céu. E todos querem o lugar mais alto. Puxa-saquismo, marés que mudam, alianças, espionagem, rivalidades, traições, inveja – o partido nazista era igual qualquer partido, qualquer empresa, qualquer reunião de pessoas.

Passos pra frente e passos para trás

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Eu estava trabalhando naquela peça há dias, no barro. Era uma mulher ajoelhada, olhando meio para baixo na diagonal, as mãos tampando os seios. Eu tinha facilidade e adorava esculpir pessoas, e normalmente já teria terminado. Mas aquela estava difícil. Eu avancei, avancei, medi o que consegui, fui pro acabamento fino, mas ela ainda me incomodava. Como último recurso, chamei o meu professor. Nem todo mundo se adaptava ao esquema daquele atelier, porque ele se auto-intitulava “livre”: o professor não ficava em cima do aluno, cada um chegava com seus projetos e recebia uma assessoria quando pedisse. Alguns nem ao menos aceitavam essa ajudava e faziam de lá o seu local de trabalho e pronto. Chamei meu professor e disse que não conseguia consertar a peça, que ele me dissesse o que havia de errado. Ele a circulou, olhou de longe por diferentes ângulos e falou que as proporções estavam erradas, que as pernas estavam numa proporção, o tronco em outra, que o cabelo não conseguia arrumar o erro nos ombros, etc. Apesar da peça estar muito bonita e bem acabada, os erros não tinham salvação e o melhor era abandonar e começar do zero. Eu concordei com ele e imediatamente destruí a peça, o que causou revolta aos meus colegas de atelier. Que não era assim, eu não precisava ser tão radical, nem tudo precisa ser perfeito, etc. Depois eu fiz outra, do zero, e mesmo assim não ficou bom. Era o tipo de pose que necessita de um modelo vivo, as proporções são mesmo muito difíceis.

Acho que não vou ser exagerada em dizer que as coisas pra mim não foram fáceis. Mas ter passado por muitas pedras no caminho tem suas vantagens: a gente acostuma com esse esquema de avançar três passos pra recuar dois. Se o preço é recomeçar e abrir o caminho no soco, eu pago.

Jô e os mestres

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Eu cresci vendo as entrevistas do Jô e via que não era apenas que umas entrevistas eram boas e outras nem tanto, mas que também para alguns entrevistados ele se derretia e outros não. Eu não entendia. Um era ator global fazendo sucesso na novela e o outro também, qual a diferença? Eu li uma historinha indiana, num dos muitos livros de filosofia oriental que li pela vida, que contava a história de dois mestres iluminados que eram contemporâneos, cada um com seu séquito de discípulos. Os discípulos se conversaram e arranjaram um jeito de fazer os dois se encontrarem numa cidade. Desvia o caminho de um e de outro e o dia finalmente chegou e as duas comitivas se encontraram. Os mestres se cumprimentaram carinhosamente, comeram juntos. Todo mundo reunido pra ver a que alturas chegaria a conversa e ela pairou em cima dos molhos, do quanto o pão era gostoso, essas bobagens. Depois do encontro, os discípulos perguntaram para seu mestre o que aconteceu, e as respostas foram: Ele alcançou o que eu alcancei, não havia para ser dito.

Eu via famoso e famoso e o Jô via talento em contraste com pessoa que está lá sem merecer, seja porque uma onda levou e já seria esquecido ou porque era parente de alguém. Toda área tem dessas; certos sistemas podem fazer os de fora acreditar que só ficam os que tem mérito, mas nunca se consegue manter a pureza de ter apenas os talentosos. Uma professora de faculdade de design me disse que, de todos os alunos do curso, talvez apenas 15% fossem realmente designers, naquela sentido mais puro do termo, da pessoa que tem pleno talento e amor pelo que exerce. “E quando essas pessoas estão no mundo, como encontramos os 15%?” Na maior parte das vezes só quem está na área sabe. Foi a Marielle que me fez perceber isso, que até mesmo reconhecer a grandeza é preciso ter olhar.

Grande passo

pizzaria italia

De um lado dizemos que não dá pra prever a história, que as tentativas sempre erraram. Às vezes, é a tentativa que a altera. Talvez o próprio Marx tenha impossibilitado – ou atrasado – que a classe operária tome os meios de produção, porque seus insights sobre o capitalismo foram lidos pelos dois lados, e de certa forma foram usados para fortalecer o próprio capitalismo. Podemos também dizer que Hitler poderia ter ganhado a guerra, caso não tivesse tentado invadir a Rússia, e por aí vai. Alguns dias e algumas decisões são mais importantes do que outras.

“O que eu faço agora?”, eu pensei. Tive a sensação teatral de que um dia é possível perguntarem do dia de hoje no futuro. O único presente que me ocorreu de me dar foi ir até a pizzaria Itália e comer duas fatias das tradicionais pizzas de muzarela deles. A pizza que como desde criança, que minha mãe come desde criança, que meu irmão mais velho come sem parar quando vem para Curitiba. Enquanto escrevo isso, lembrei de um amigo que contou que levou a mulher para a maternidade porque a bolsa havia estourado, ficou numa sala de espera e depois a enfermeira disse que havia nascido. Que foi estranho. Nenhum close, papel picado, música, pessoas se abraçando em lágrimas. Os grandes passos tem precisado de um diretor de vida melhor.

Carta de amor

grão comercial

Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

Quando a História passa na sua frente

Existem dois tipos de heroísmo: os de uma vida inteira e os de um único gesto. Uma coisa que me frustou quando tentei ver Os Miseráveis em filme, foi a omissão da história da freira que ajuda Jean Valjean a fugir logo no início da perseguição de Javert. No livro, o autor passa muito tempo falando dela, do seu voto de não mentir, das dificuldades e superação que a tornaram conhecida por isso. Com Valjean escondido na sala e Javert lhe pergunta se ele está ali ou não, disposto a acreditar no que ela disser, a freira se vê num grande dilema moral: manter o voto ou salvar a vida de um homem bom? Ela prefere salvar uma vida. Outro exemplo religioso, só que da vida real, foi quando o Rabino Henry Sobel participou, em 1975, da missa ecumênica pela morte do jornalista Herzog. Preso, torturado e “suicidado” pelo Regime Militar, celebrar uma missa era o mesmo que reconhecer publicamente seu assassinato, porque não se celebra missas para suicidas. Nesse reconhecimento público, os celebrantes e até mesmo os presentes se colocavam em risco. Mais um jornalista e mais um suicidado, era muito mais fácil ficar em casa e fingir que nada aconteceu. Mesmo se colocando em risco, Sobel realizou a missa ao lado de Dom Paulo Evaristo Arms e ela se tornou um evento que reuniu oito mil pessoas e o maior ato simbólico contra a Ditadura. (É só pesquisar Missa + Herzog)

Mas visto de outro ângulo, o herói do grande gesto na verdade é um herói de gestos diários; o grande gesto é apenas o que recebe visibilidade ou culminação de uma vida de preparo. A mentira da freira de Os Miseráveis não teria nenhum valor se ela não fosse uma pessoa exemplar; Sobel e Evaristo Arms, como muitos outros religiosos, já vinham sistematicamente irritando o Regime por proteger pessoas e se posicionar contra a tortura. Na hora do tudo ou nada, do correr ou ficar, do fazer o certo independente das consequencias, eles tomaram uma decisão da qual puderam se orgulhar o resto da vida.

Eu vi algumas vezes o vídeo do desfile da Tuiuti. Algumas pessoas estão preocupadas da escola sofrer boicote e/ou não ganhar. Da minha parte, não me preocupo nem um pouco com a nota. Independe do que aconteça na votação, ela é a ganhadora moral. As alegorias chegam claras: trabalho informal, carteiras de trabalho rasgadas, manifestantes com roupa de pato, um carro com um vampiro no topo e faixa presidencial, pessoas em cima de sacos de dinheiro, mais patos manipulados. E os comentaristas não são capazes de falar na-da. Talvez nem precise esperar muito, talvez horas depois eles já tenham se arrependido da covardia. Era hora de falar abertamente, mesmo sabendo que no dia seguinte não teria emprego. Não precisava nem gritar “Fora Temer”, não precisava ser esquerdista pró-Lula. Bastava descrever o que estava ali.

A partir de 35:32

Tratado de Versalhes

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Na opinião dos chineses, o Tratado de Versalhes não é só injusto, mas simplesmente vulgar e falho de hanyang (educação). Se, no momento da vitória, os franceses tivessem sido um pouco animados do espírito do taoísmo, não teriam imposto o Tratado de Versalhes, e poderiam agora dormir de perna estendida. (Lin Yutang/ Minha terra, meu povo, p.70)

Uma guerra mundial depois, é muito fácil olhar para o Tratado de Versalhes e fazer até troça. Que era tão óbvio, o que é que custava ser um tiquinho mais generoso, onde estavam com a cabeça. Dá sempre a impressão que aqueles eram burros e que hoje se faria diferente. Não é isso que tenho visto. Sem entrar no mérito político ou sobre ser culpado ou inocente, mas precisa mesmo tornar a aposentadoria algo distante, tirar proteções legais relativas ao trabalho, achatar a renda da maioria enquanto poucos nadam em dinheiro, tornar a educação ainda mais elitizada, querer prender um homem que é um símbolo, tudo ao mesmo tempo?

Entrincheirados

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Longe de mim querer tirar sarro dos japoneses, não é nada disso. Está registrado, é fato histórico, que muitos anos depois de terminada a guerra ainda existiam alguns soldados japoneses que continuavam nos seus postos. Isolados, sem saber que o Japão já havia sido derrotado e se rendido, eles se mantinham firmes nas suas posições. Sem saber, realizavam o papel patético de continuar lutando com um inimigo que havia se retirado. “Alá, um soldado japonês”, eu tenho vontade de dizer em certas ocasiões.