Matilha de cães mata crocodilo na Flórida

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Gênios

Eu tenho uma teoria, que parece meio estranha a princípio, mas que depois as pessoas acabam concordando. De que eu nunca serei uma gênia porque eu não fui/ sou: criança prodígio, judia, alemã, homossexual, fora dos padrões (geralmente boêmio) ou esquizofrênica. Eu, brasileira, sem religião, adulta e um casamento estável com alguém do sexo oposto, não tenho a menor chance!

Não sei quanto as outras áreas, mas as pessoas que considero gênios preenchem pelo menos um desses requisitos, às vezes mais de um. Exemplos:

Foucault: homossexual e fora dos padrões
Van Gogh: esquizofrênico
Marx: judeu e alemão
Reich: fora dos padrões e alemão
Norbert Elias: judeu e alemão
Virgínia Woolf: esquizofrênica e homossexual
Mozart: criança prodígio
Dostoiévski: fora dos padrões
Hannah Arendt: judia e alemã
Marcel Mauss: fora dos padrões e judeu
Sartre: fora dos padrões
Camille Claudel: esquizofrênica e fora dos padrões
Freud: judeu e alemão
Nietzsche: esquizofrênico e homossexual (?)

Notem que ser judeu e alemão é quase garantia de genialidade. Quem sabe na próxima encarnação.

Tempo

Logo nos primórdios do cinema e da TV, autores de chamada Escola de Frankfurt criticaram a massificação do conhecimento. Haveria na cópia apenas um pálido reflexo da real apreciação artística. As formas massificadas de arte destruiriam a individualidade. Diante da apresentação dessa teoria tão polêmica, perguntei para o professor:

– Então se ao invés de ouvir uma gravação de piano, eu faço um pianista tocar ao vivo, para mim, uma peça. Assim vale?

Ele respondeu:
– Mesmo assim não. Você não teria cultura para ouvir a peça, entende?

Não entendi assim que ele disse. Mas hoje, quando coloco um CD de música erudita e cada música tem pelo menos meia hora, penso que realmente não devo ter cultura para ouvir aquilo. Ninguém tem. Aquela música foi feita para pessoas cujo tempo passava de uma maneira diferente, quando passar 30 minutos apreciando uma obra de arte era normal. Hoje fazemos tanta coisa em meia hora, meia hora é tanto tempo para perder, tanto tempo para se concentrar!

Quando pego um disco da Rita Lee, gravado nos anos 80, quase morro de tédio com os instrumentais. Penso – cadê a música? Em outras épocas, as músicas podiam durar 1 hora. Nos anos 80, 5 minutos. Hoje, 3 minutos e olhe lá. A Escola de Frankfurt tem razão: não temos mais cultura para apreciar certo tipo de música.

A gente não quer só comida*

Imagine 50 crianças carentes, numa instituição. Crianças problemáticas, com mau comportamento na escola, agressivas. Diversos programas de recuperação não fizeram nada por elas, nada que surtisse efeitos positivos, nada que tivesse boa acolhida. Do que elas precisam?

Surf. Essa foi a resposta dada pelo meu irmão e seus amigos da Associação Bahiana de Bodyboarding. Com o patrocínio da Petrobrás, eles deram aulas, pranchas, acompanhamento, atividades esportivas em grupos. E, claro, elas adoraram. E, sim, muitas delas mudaram sua maneira de ser graças a esse programa.

Escrevo isso porque um amigo descobriu que sou uma psicóloga formada e começou a fazer uma pressão horrível e injusta pra que eu atue na área. Que eu dedique pelo menos uma hora por semana a ouvir alguém; que estou sendo egoísta com o conhecimento que adquiri; que tenho uma dívida social, em resumo.

Continuando o post anterior em que falo de preconceito, eu considero extremamente preconceituosa essa visão que temos de ajuda. De achar que essas pessoas precisam apenas de comida, remédio, terapia. Uma visão que as reduz enquanto seres humanos. Mais do que uma conversa com um psicólogo (o que apenas reforça o esteriótipo de serem problemáticas) , eu acredito que o prazer faça muito mais pelas pessoas. Existe algo melhor do que se divertir, se sentir belo, desejado, ter amigos? Essas pessoas precisam – por que não? – de obras de arte, de roupas bonitas, de um bom corte de cabelo, de um bom perfume, de ir à praia, de contar piadas e todas essas futilidades que adoramos na nossa vida e nunca pensamos em oferecer como ajuda, porque são coisas fúteis.

… a gente quer comida, diversão, balé!

* essa reflexão surgiu na praia, numa única conversa com o amigo-quase-irmão do meu irmão e um dos idealizadores do projeto Criançada nas Ondas, o Márcio Torres. Obrigada, Márcio.

Preconceitos

Todos temos preconceitos. E nada mais detestável do que alguém que se acha tão puro a ponto de declarar que não os tem.

Alguns nos são transmitidos meio geneticamente – nossa família nos ensina assim, sempre fez assim. Outros vão sendo adquiridos ao longo da vida. Quando vemos, temos uma coleção de preconceitos estúpidos, incofessáveis, mas que atuam de maneira decisiva no nosso dia a dia. Dos meus estúpidos e inconfessáveis, há o de não gostar de Lauras, de ter prevenção contra crentes e carolas, de achar que nunca me dou bem com mulheres de cabelo comprido e cacheado, de achar que todo norte-americano é burro, de achar que toda mulher que se veste de rosa é fútil. Assim como não deixa de ser uma forma de pré-conceito eu ter simpatia por pessoas que vestem preto e tem um monte de tatuagens, de achar que todo espírita é caridoso, de acreditar que todo carioca é extrovertido e simpático.

Mas todos esses preconceitos são inofensivos. Acredito que se conscientizar de que algo é um julgamento já é um grande passo. Pior, muito pior, quando as coisas são naturalizadas a tal ponto de nem nos darmos conta. Como um deficiente visual que me disse que as mulheres só aproximam dele para ajudá-lo, uma coisa meio maternal. Afinal, ele é homem. Ele sente desejo por algumas delas e gostaria que elas o vissem como macho.

Há forma mais cruel de preconceito?

Corpo em férias

Digo a todos que meu corpo entrou em férias, embora o ano letivo vá até dia 10 de dezembro.

É que passei um ano puxadíssimo – me propus essa loucura de fazer mestrado e graduação e tive que agüentar o tranco. No primeiro semestre, estava matriculada em 6 matérias, 3 de cada. Achei que no segundo semestre a coisa ficava melhor, porque já tinha terminado as 3 obrigatórias das 3 áreas – antropologia, sociologia e ciência política. Então, peguei “apenas” 2 matérias na graduação e mais 3 do mestrado – 5 matérias. Mas não ficou melhor. Comecei a minha pesquisa e isso me toma um tempo danado. Sem falar na minha presença no Grupo de Estudos. Acabei trocando seis por meia dúzia.

Como diz a expressão, entre mortos e feridos salvaram-se todos. Errando como uma alma penada, à procura de alívio nos feriados, sem final de semana, lendo como uma louca, consegui cumprir minhas obrigações. O último esforço foi terminar o projeto para aquela apreciação em sala de aula. Agora, tudo mais é pro começo do ano que vem.

Estar com o corpo em férias significa que não consigo mais me obrigar a ler nada, nem um textinho sequer. Não consigo evitar de simplesmente faltar dias de uma carga de aula pesada, como o dia inteiro ontem (aula das 8 às 18h), como a tarde de hoje (seria novamente aula das 8 às 18h). Chego em casa e passo o tempo todo dormindo. Brinco mais com o cachorro. E ataco o maridão quando ele chega.

Ah, férias…

Cães

Quando eu era criança, pessoas que chamavam o cachorro de filho eram consideradas malucas. Os cachorros comiam os nossos restos de comida, pegavam chuva, dormiam ao relento e tomavam banho de torneira no quintal. O máximo de cuidado que se tinha era a preocupação de cruzar com os da mesma raça – quando eram de raça. As únicas raças que eu conhecia quando era criança eram o poodle (sem variações de tamanho), cocker, beagle (do Snoopy) e o collie (da Lassie). Depois surgiu o cofapinho, por causa da propaganda.

Hoje eles são frescos, comem ração especial, dormem em camas especiais, usam coleiras, pingentes, perfumes, sapatinhos, capas de chuva… O que aconteceu de lá pra cá? Não sei que estranho movimento social foi esse, sei que essa onda irresistível me atingiu também. Eu, que não sou das mais frescas com cachorro, tenho uma linda vira-lata* que come uma mistura de dois tipos de ração, tem colerinha de couro com pingente identificador e amanhã ela será castrada. Sem dizer que me pego chamando a Dúnia de filha.

Um amigo meu acabou de me mandar um e-mail dizendo que se um político, ao invés de beijar crianças, resolvesse beijar um cachorro, a eleição estava ganha. Pior que ele tem toda razão.

* tem gente que prefere usar a sigla SRD – sem raça definida. Eu prefiro o termo vira-lata, acho mais romântico.

Festas

Nossa, será que posto alguma coisa? A Florzinha já não disse tudo?- o resquício anti-social que odeia festas, que não sabe o que fazer, como cumprimentar, mesas enormes, parentes que não se faz questão de rever, ir embora (ou fugir) sem se despedir. Da tortura dessas festas por causa do amado em que somos medidas o tempo todo, um bando de estranhos, reunidos em uma festa interminável…

{E o beijinho no rosto? Ah, eu odeio essa coisa de beijo no rosto! Um dia tenho que escrever um post inteiro sobre o assunto!}

E a solução – maravilha! – vamos fugir, pra outro lugar, baby! Vamos fugir!

Santa paciência, Batman!

Hoje fomos almoçar no Shopping Curitiba e deixamos o carro no estacionamento Canguru, logo em frente ao shopping. O sistema desse estacionamento é estacione você mesmo e leve a chave. Talvez pelo calor, o estacionamento e a cidade estavam vazias. Qual não foi a nossa surpresa ao voltar para o estacionamento (ainda vazio) e encontrar um carro colado atrás do nosso carro, impedindo nossa saída. Disseram que a autora da façanha tinha acabado de sair quando chegamos. Reclama daqui, chama dali, e tiveram que fazer a maior manobra pra tirar o nosso carro por uma passagem quase impossível, meio de lado.

Quis empurrar o carro da desgraçada, riscar o carro de cima abaixo, quebrar a janela do motorista, fazer ligação direta. Ou tudo ao mesmo tempo. Queria ver a cara da perua e olhar bem feio para ela e ver se a conseguia se sentir humilhada e envergonhada de ser tão cara-de-pau. Não fiz. Isso me lembrou quando achei um celular caríssimo na rua, de chip, e fui mal tratada quando liguei para devolver – o cara agiu como se eu tivesse roubado o celular para estorquir. Era um Tim, e o Luiz tinha um Tim de chip bem baratinho. Era só ter trocado. Assim como me sugeriram colocar o celular na água, pisar nele ou jogar no chão bem na hora que o cara fosse buscar. Não fiz nada disso, deixei na recepção da academia e nem vi a cara de quem foi buscar.

Caráter, idiotice? Só sei que não consigo evitar. E depois volto pra casa cheia de raiva.

O fim do conto de fadas?

Eu, como todas as mulheres, sofri intensamente por amor desde que comecei a olhar com outros olhos os meninos. Ficava apaixonada, acreditada em promessas mais furadas do que de políticos, me recusava a enxergar os sinais de desinteresse, levei foras, fui grande paixão de pessoas que foram grandes paixões minhas. Amores virtuais, então! Essa coisa de trocar um monte de e-mails e se apaixonar por alguém apenas “intelectualmente” era simplesmente a minha cara.

Meu irmão mais velho, por outro lado, teve seus relacionamentos de monte sem sofrer por amor. Famoso galinha, com várias namoradas, ficantes, interessadas, paqueras, tudo ao mesmo tempo. No fundo, nunca gostou de ninguém e isso nunca lhe fez a menor falta. Curtiu a vida adoidado e pra ele vale bem aquela música (nojenta, machista) do Martinho da Vila: já tive mulheres de todas as cores

Agora, com 32, ele sente falta de algo mais. Começou a se corresponder com uma amiga de infância que hoje vive no Rio de Janeiro. Descobriu o como é bom estar apaixonado. Ela foi para Salvador vê-lo, mas terminaram porque namoro à distância é “injusto com os dois”. Agora está há um tempão jururu. Entro no msn e embaixo do nome dele está escrito: fim do conto de fadas. Tento falar com ele e tudo que ouço são lamentações.

Ahhh… me poupe. Depois de tudo o que já vivi e já sofri por amor, não tenho mais a menor paciência. Isso que ele está passando é coisinha à toa. Sabe do que ele precisava? Daquelas melhores amigas que a gente tem na adolescência, que nos ouvem o dia inteiro falar daquele menino que nos interessa!

Minha doença preferida

Os livros de psicologia corporal alertam: cada parte do corpo que adoece tem um significado diferente. Tenho a impressão que a medicina oriental pensa a mesma coisa. Pra mim, isso é uma verdade que meu corpo não pára de atestar.

Até a adolescência, tinha uma dor de garganta crônica. Por causa disso, minha mãe me acostumou a tomar refrigerante à temperatura ambiente toda a vida. Pelo menos uma vez por ano eu ficava completamente sem voz. A interpretação da dor de garganta é clássica: muito sapos entalados. Pois bem: foi só começar a fazer terapia, ou seja, a começar a falar dos meus sapos, que nunca mais tive dor de garganta. No máximo, um incômodozinho de vez em quando.

Já tive muita gastrite e agora não tenho mais. Já fui de torcer muito o pé direito e agora não torço mais. São fases, em cada uma com uma maneira preferida de adoecer. Agora voltei a ter problemas com o meu ombro, coisa que há uns 10 anos não tinha. Semana muito tensa, pilhas de coisas para fazer, responsabilidades… plec! Um movimento à toa e estou toda dolorida. Como aconteceu na segunda. Só porque tinha que reescrever o projeto, enviá-lo na segunda, um seminário que não acaba nunca…

Já percebi também que adoeço porque nunca me dou folga espontaneamente. Pra poder dizer: não pude ir porque fiquei com torcicolo, tive intoxicação alimentar, quase morri… como me aconteceu uma semana após a outra, sempre de maneira a me obrigar a faltar a aula de quinta à tarde! Já dizer para si mesmo: não vou porque estou cansada e perto do meu limite… isso é muito difícil, pelo menos para mim!

Hoje deixei de acordar cedíssimo para fazer a minha série de musculação, aeróbico e aula de Balance, como faço todas as quartas – depois volto correndo e saio de novo para a aula da tarde. Resolvi me dar esse tempo (com a consciência pesada), para que o ombro que fez plec na segunda-feira continue quietinho… E que corra tudo bem na aula em que todos vão criticar o meu projeto (glup!)!

Pesquisa

No final do ano passado, estava estudando um livro muito interessante, chamado Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Na mesma época, um amigo que trabalhava na sessão Braille comigo, me comentou que havia ficado cego, que não era cego de nascença. Essa história dele se casava bem com o texto, que por sua vez se casava bem com um projeto de pesquisa, que por sua vez casava com a seleção do mestrado em Sociologia que estava para abrir. E meio por causa disso, meio irresponsavelmente, fui passando de etapa em etapa, sem acreditar, sem estudar, sem pensar no amanhã. Quando passei no mestrado, nem havia pensado sobre o que fazer com a minha graduação. Como fui levando, não sei explicar/ fui assim levando, ele a me levar

Ontem, na minha 6º entrevista, ouvi a história mais dolorosa da minha vida. Desde que me propus a isso, tenho perguntado sobre coisas dolorosas, às vezes sentindo pena, às vezes sentindo raiva (por não responderem direito minhas perguntas). Entro na vida das pessoas para elas me contarem sobre sua tragédia e sua superação. De repente acordo para o sentido que meu trabalho tem para essas pessoas, para o que me propus.

Só leio por aí trabalhos péssimos sobre deficiencia. Como é um tema pouco estudado, vejo que as pessoas tem consciencia de que qualquer porcaria que façam já pode virar referência. Agem como se já fosse caridade o suficiente escrever algo sobre o assunto. Psicólogos e pedagogos desfilam tantas besteiras e lugares comuns sobre isso que sinto até raiva de ler. Eu vou fazer um trabalho bem feito. Vou dar meu sangue, vou me acabar. Vou dar ao tema o tratamento sociológico mais fino e bem elaborado de que sou capaz. É a minha maneira de fazer justiça às confidências tão dolorosas que tenho ouvido.