Está mentindo-tindo-tindoooo!

estatueta

Tem aquelas histórias que se tornam icônicas, pelo menos dentro do seu convívio. Eu li uma do Tio Patinhas em que ele consegue uma pequena estátua que tinha o poder mágico de identificar quando alguém por perto mentia. Ela cantarolava: está mentindo-tindo-tindooo! Lembro de um quadrinho que ele está falando no telefone com alguém e a estátua cantarola, e a pessoa do outro lado fica indignada – “Quem disse isso?”. O “está mentindo-tindo-tindooo!” virou piada interna na minha família há décadas, mas acho que eles nem se lembram mais.

Dia desses, eu estava falando de decisões perfeitamente racionais: não ter outro cachorro ou qualquer animal de estimação depois que a Dúnia morrer. Não é prático, não dá pra viajar, dá uma baita despesa. Sem ela, posso finalmente me mudar e não morar mais em casa. É muito mais o meu perfil um apartamento no centro, quem sabe alugar um mobilizado, postaram uma vez um tão lindo no twitter e eu já estava quase fazendo planos de ir pra lá. Aí, em algum lugar dentro de mim soou o “está mentindo-tindo-tindooo!”. Pior que eu estava falando sério. Mas estava falando, decisão, ego, razão. Acho que o núcleo duro, aquela parte do meu iceberg self que está debaixo d´água, não vai permitir nada disso.

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A casa do sonho

especialista em aliens

Também acontece com vocês de, no sonho, lembrar que aquele elemento já existia num sonho anterior, como se você vivesse uma vida paralela em sonhos? Há poucas noites percebi que mudei de casa. Há anos eu sonhava com casas, em visitar casas, de entrar em casas mofadas ou abandonadas e deixar o ar entrar e ter que torná-las habitadas de novo. Recentemente me mudei, uma casa enorme num amplo terreno com gramado. Posso dizer que ela é tudo que sonhei ou até mais, porque é uma casa bem grande, móveis desenhados, ampla entrada de luz, gramado que dá um bom espaço relação aos vizinhos, segura. Só que o interessante dessa nova casa, é que ela é minha e não é. Eu vivo num quarto bem escondido, tenho que passar por vários corredores até chegar lá, é quase como se fosse um porão. Em contraste com o capricho da casa, meu quarto é austero como uma cela religiosa. Será que vai ser sempre assim, ou com o tempo eu galgarei quartos melhores dentro da minha própria casa em vida paralela de sonho?

Você sabe e só você não sabe

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Tem uma daquelas pavorosas frases machistas, que diz: “quando chegar em casa, bata na sua mulher. Você não sabe porque está batendo, mas ela sabe porque está apanhando”. Eu tenho para comigo que somos, ao mesmo tempo, o homem e a mulher desta frase, que que somos tanto a parte que sabe quanto aquela que ignora. Estudamos o tempo todo que a consciência é só a pontinha do iceberg, mas realmente não levamos isso à sério. Quem leu a Série Napolitana viu que a Lenu, diante de certas situações, vivia tendo ímpetos de mandar da outra embora, se ferrar, deixá-la em paz, mas logo dizia “claro que eu não fiz isso, não seria adequado, então eu perguntei como ela estava, consolei, etc”. Aí você pensa, que sempre tão auto-controlada, adequada e abnegada, ela era a melhor amiga do mundo, que Lila jamais desconfiaria da agressividade que havia por detrás. E não é assim, vemos Lila se afastar, se esconder, ser superficial, enfim, se proteger de uma agressividade que não é exposta. Ou seja, ela sabe. Talvez seja uma leitura gestual inconsciente, talvez chegue pelos poros, pela energia, o fato é que chega. E o último a ficar sabendo é o consciente. Você não sente vontade de ir, não quer falar, sente taquicardia, seu corpo e seus sentimentos dizendo que não, enquanto a mente diz que não está acontecendo nada, Fulano me adora, vamos ali tomar um café.

Dois curtas do inconsciente

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Eu não devia ter nem 10 anos quando as crianças que brincavam comigo em Salvador disseram que sabiam umas palavras em inglês. Cadê era “queidi”, o que dá pra adivinhar que pode vir de uma pronúncia americanizada. A expressão mais importante era aquela que tinha um sentido de “toma!”, “se ferrou”, “bem feito”, que era CHÉPO. Não faço a menor ideia de onde veio isso. Só sei que até hoje, quando me dá aquela alegria schadenfreude, me soa de novo aos ouvidos: CHÉPO! CHÉPO com coca-cola!

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Estava costurando e do nada lembrei de um sonho que tive há dias. Nele, eu era amante de um sujeito com quem simpatizo mas não cheguei a trocar nem dez palavras na vida. Não é que eu esteja omitindo a parte caliente – era assim, um fato consumado, éramos amantes. Não acontecia nada, eu apenas tinha aquela informação íntima, daquelas que às vezes a gente chega a se perguntar se é realidade. Agora fico me perguntando: eu o desejo e não sei? Ele me deseja e eu só li isso inconscientemente? Se não é tesão, de onde meu inconsciente resolveu inventar essa história?

Por carta

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Que eu não sou do tipo que dá a baita resposta que destrói o adversário na hora já sei e já lamento há muito, mas os anos me mostraram que a coisa é ainda mais grave. Às vezes levo tempo para saber até como me sinto em relação a alguma coisa. O fato de não doer na hora não quer dizer que depois não vá num crescente e quando finalmente descubro o impacto está doendo pra caramba. Há uma distância entre eu e Eu, e deixo a critério da crença do leitor o que seria um eu minúsculo e um eu maiúsculo. O eu recebe e precisa da resposta do Eu. Para algumas coisas, o trivial, eles trocam e-mails. Em outras, a comunicação é feita do modo antigo, por carta, e elas certamente atravessam oceanos.

Self

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Soa bastante místico, mas não precisa ser. Para mim é perfeitamente explicável se pensamos que o nosso consciente é uma parte muito pequena, justamente a menor de quem somos. Enquanto o consciente – aquela pequena ponta do iceberg – está preocupado com seus pequenos discursos, o inconsciente está registrando e reagindo a tudo. A cada dia que passa, me convenço mais de que, num primeiro contato, sabemos tudo o que queremos de alguém. As palavras que trocamos tocam apenas um nível muito superficial; antes mesmo das coisas serem ditas, as energias foram trocadas e cada um já sabe o que precisa. Isso explica o porque de às vezes alguém nos dizer tudo certo, recitar a nossa cartilha de gostos e lugares preferidos direitinho, e mesmo assim não acontecer nada. Outros, ao contrário, podem enunciar os gostos e opiniões mais estranhos e mesmo assim dali sai um afeto. E quando olhamos para trás, nos nossos relacionamentos errados, os encaixes neuróticos, as pessoas que amamos e nos feriram – não se pode alegar inocência em nenhum deles. Apenas o consciente comprou as mentiras e as explicações fraudulentas. Em algum lugar, a gente sabia. Sabia que não era amor, que iria nos fazer mal, sabia que ia quebrar a cara. A gente sabia e viveu o que queria viver.

Subconsciente, esse deus

 

Eu estava conversando com a Tânia e… Adendo: gosto tanto de pegar carona com a Tânia que ela nem imagina. Sabe o que é se animar pra ir pra um compromisso só porque depois vai ter aquela carona? Mais: ela vive se perdendo no caminho e eu adoro, quanto mais ela se perde melhor. Porque as nossas conversas são sempre tão boas pra mim, sempre tão proveitosas, nunca saio delas sem algo novo pra pensar. Nessa última carona, o assunto caiu no subconsciente. Tão poderoso, tão determinante nas nossas ações, o que sabemos a nosso respeito é tão pequeno. Ainda estava (estou) completamente contaminada pelo exemplo que oprof. Clóvis deu, do consciente ser apenas o facho de luz que sai do farol. Aí ela me disse que o subconsciente é tão poderoso que ele não apenas fala através dos nossos gestos, nossos tons de voz, nossas expressões, que às vezes ele aparece no que nos acontece, em outras pessoas nos dizendo e nos fazendo aquilo que nos pertence. Lembrei na hora do quanto eu fiquei afetada ao não me ver nas fotos do espetáculo do ano passado. Não saiu uma única foto individual minha no palco, e fiquei muito abalada. Minhas amigas viram nisso apenas uma vaidade, mas é que eu li naquela ausência tantas outras coisas. Eu li naquilo meus padrões, minha dificuldade em me fazer marcante, o espaço que cedo pros outros e me faz falta, enfim, eu vi de tudo ali. O fotógrafo não ter me mirado foi totalmente eu, foi o meu movimento. E o subconsciente– ela continuou – é tão grande e poderoso na nossa vida, nas nossas escolhas e ações, que quem sabe a gente lide apenas com ele o tempo todo, que até isso a que chamamos Deus seja no fundo apenas esse grande e desconhecido subconsciente. Pra mim também faz tanto sentido. Eu rezo, eu falo com Deus, eu agradeço, e essa relação tem se estreitado cada vez mais. Só que ao mesmo tempo eu não sou propriamente deísta. Eu faço o que funciona comigo, porque já aprendi que é mais fácil abraçar os símbolos do que tentar, com meu ego fraquinho, influenciar minhas decisões. Acho que quem se nega e tenta ser sempre racional está simplesmente se negando a utilizar o que a humanidade já construiu e funciona tão bem. Oração, astrologia, velas, imagens, tudo já está carregado de sentido e nos influencia de uma maneira maior do que podemos controlar. Ao mesmo tempo, não acredito numa resposta definitiva à questão da existência divina. E caso fosse possível responder com certeza de que Sim, esse Sim significa tão pouco. Ele por si só não explica nada. Sim não quer dizer que Ele tenha livro, filho e detesta cu, ou seja, que a nossa conduta signifique qualquer coisa. Não sabemos se é uma relação de criação, de interdependência, de determinação, não sabemos de nada. E mesmo se pudéssemos ter um manual, de que adianta saber mentalmente sem realmente entender. Se não entendo essa coisa tão pequena, tão limitada e com poucas variáveis que sou eu mesma. E na nossa miudeza, não conseguimos atingir mais do que nós mesmos.