Sem carro

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É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

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