Batalhas

Depois da aula, eu comentei no meio de um monte de gente que dá pra sapatear de crocs. Comprei a crocs pra usar em casa (só em casa!) e um dos motivos é justamente poder praticar meus sapateados sem ter que ouvir reclamações dos vizinhos. Em qualquer horário que eu sapateasse, eles se incomodavam e batiam na parede. Qualquer horário mesmo, nem que fosse dez da manhã. Pra deixar claro que era comigo, ainda por cima imitavam o som que eu estava fazendo.

 

Uma colega do flamenco ficou indignada. Ela disse que ela não deixaria de fazer porque eles reclamavam, que bateria na parede deles no ritmo também. Foi uma conversa daquelas simples, mas que revelam muito sobre os envolvidos: ela, de temperamento forte, convicta dos seus direitos e não deixando barato. Eu, uma conciliadora.

 

Eu poderia ter explicado que cheguei até onde estou porque já fiz guerra por barulho e que senti na pele o quanto é bom cultivar um bom relacionamento com vizinhos. Do mesmo jeito que achei a atitude de cada uma diante da reclamação muito reveladora, fiquei certa de que ela teve a mesma impressão e me achou uma covarde. Quem sabe até seja. Minha percepção é que com os anos passei a selecionar mais as minhas batalhas. Tenho preferido não me incomodar a lutar por coisas que não me parecem importantes. Uma delas é reivindicar um direito que nem me é tão caro. Outra é me explicar pelo que possam pensar de mim.
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Argila no pé

Uma vez eu estava no ônibus e duas velhinhas estavam conversando sobre argila. Uma dizia que sempre que estava com dor de garganta a avó fazia ela ficar com argila no pescoço durante alguns minutos e a dor passava. Outra disse que tinha um inchaço não sei aonde e curou colocando argila. E coisas assim. Fiquei curiosa e depois fui dar uma pesquisada no google. Na época achei uma página ótima (que não existe mais) sobre argiloterapia, dizendo que ela era boa para todas as ites possíveis. Achei a informação curiosa e interessante, sem imaginar que um dia ela me seria essencial.

Lembro perfeitamente que estava atravessando a Mariano Torres, perto da Federal, quando errei o meio fio e chutei ele com tudo, com os dedos do pé. Na hora doeu, depois continuou doendo e inchado, depois passou a doer num ponto muito específico. Meu acupunturista disse que o ideal seria não usar aquele músculo durante um mês, mas como eu estava andando normalmente me recusei. Então que eu evitasse salto alto. Eu que nunca fui fã de salto, aboli os poucos que tinha. E assim fiquei bem durante quase dois anos, com o pé inchando um pouco, parando um pouco. Até que eu comecei a fazer ballet, e ficar na meia ponta forçava justamente o tal músculo. Chegou um ponto que meu pé começou a inchar e não desinchava. Primeiro eu não conseguia mais colocar o dedão no chão, depois não conseguia mais andar descalça, até que não conseguia andar normalmente de jeito nenhum. Tomei antiinflamatório e não fez o menor efeito. Eu não sabia o que fazer.

Aí lembrei da conversa das velhinhas; eu já estava meio desesperada mesmo, não me custava nada fazer aquilo. Eu tinha umas argilas aqui por causa das esculturas. Eu pegava a argila e punha no pé antes de dormir, coberta por gaze e com uma meia pra não sujar a minha cama. O resultado foi um verdadeiro milagre: em uma semana o meu pé ficou totalmente desinchado e curou uns 90%. Depois disso, usei a argila uma ou duas vezes e o problema acabou. Olha que depois disso eu ainda fiz muito ballet pela frente.

Ex-amigo

Uma vez fui a um restaurante quase às 14h. Eles me atenderam, mas o pessoal da cozinha estava quase indo embora, então eu não pude pedir o que queria e o cozinheiro teve que fazer o que dava. Por causa disso, causei uma certa agitação no restaurante, com garçom indo e vindo, consultas, mudanças de idéia e negociações. Quando tudo já estava calmo e eu estava esperando a comida, alguém se levantou com certa solenidade numa mesa um pouco distante da minha e saiu a passos duros. Virei o rosto instintivamente e lá estava um ex-amigo, que me olhou de maneira rancorosa. Não sei se ele achou que eu fingi que não o vi ou se ele tem todo esse rancor de mim. Mais do que ir simplesmente embora, ele parecia estar se retirando do recinto porque eu estava lá. Eu não entendo o porquê do drama. Nunca fomos tão chegados; ele chegou a passar um ano inteiro sem falar comigo. Depois que ele furou mais um compromisso, cansei das desculpas e deixei pra lá. Nunca brigamos formalmente, nossa amizade passou.

Tenho um certo número de ex-amigos e não vejo nenhum problema nisso. Amizades acabam. Algumas por mudanças de vida e um esfriamento natural, outras porque houve brigas e decepções. O que eu não consigo entender, seja lá como foi, são olhares e discursos magoados, como se tudo tivesse sido uma mentira. Depois de tantos momentos juntos, tantas histórias, risadas e presentes, de um dia pro outro você se torna aquele que me decepcionou. Como se desde a primeira conversa você tivesse tudo planejado para magoar o outro, como se cada palavra de afeto tivesse sido uma mentira premeditada, igual conquistador que dá golpe em viúvas carentes. É como se pegassem a sujeira do fim e com ela alterassem todo passado, julgassem o passado pelo que a amizade significa hoje, ou seja, pelo afastamento. Não é assim, não precisa ser assim. Tudo o que passou foi bom e verdadeiro quando aconteceu. Foi uma história com início, meio e fim. O fato de ter terminado não quer dizer que não valeu, quer dizer apenas que acabou. Não tenho vontade de procurar meus ex-amigos e torná-los parte da minha vida de novo, mas entendo que numa época eles foram importantes. Que vivam as suas vidas, comam em restaurantes e sejam felizes.

Fotos

Bailarinos adoram fotos, mas as fotos não gostam de todos os bailarinos. Assim como na vida real, existem pessoas mais fotogênicas do que outras. Não só algumas pessoas saem melhor nas fotos, como elas parecem atrair o fotógrafo. Seja pelo treino do olhar ou por algum outro motivo, o fotógrafo se sente atraído a fotografar aquela pessoa naquele momento, em detrimento do resto do grupo. Então quando aparecem as fotos do espetáculo, sempre existe o problema de alguns aparecerem o tempo todo e outro só sair como coadjuvante. Ou nem aparecer. Tenho poucos registros dos espetáculos que dancei porque sempre fui dessas que aparece pouco, ou de costas, ou atrás de alguém, e teve uma vez que o único registro da minha presença foi uma mão.

Eis que o último espetáculo tinha tudo para dar certo, porque eu faria um solo e tinha duas fotógrafas. Finalmente um CD de fotos que valia a pena comprar, em que eu aparecia sozinha ou em destaque várias vezes. Selecionei as fotos em que eu apareço, e dessas as fotos que eu gosto e deu quase meia dúzia de fotos que dá pra exibir com orgulho. Coloquei uma delas no meu facebook e outra foi colocada junto com o pessoal da escola. Só que ver essas fotos, especialmente juntas, me dava um incômodo que eu não sabia identificar. Todos elogiando as poses, o figurino, a produção e eu… Até que não resisti e tirei a foto do meu avatar. As fotos haviam revelado algo que eu já desconfiava: minha falta de interpretação, de duende.

Eu estava com a mesma cara nas duas fotos. Numa coreografia eu estava dançando Farruca, que é uma coreografia masculina, forte, séria, e aquela expressão estava dentro do espírito. Mas a outra coreografia era uma Alegrías, e o próprio nome diz como ela deve ser: leve, alegre. Eu até sorri em alguns momentos no palco, mas eu me senti desconfortável, como se fosse alguém sorrindo sem razão. Como público eu acho lindo quando alguém sorri dançando, mas chegando lá foi estranho, forçado. A questão, na verdade, não é me programar pra sorrir, e sim encontrar esse sentimento quando vou dançar, e que ele faça com que a expressão venha naturalmente. Aquele que era para ser meu grande momento se tornou um doloroso feedback.

Explicação

Volta e meia ainda vejo algum programa sobre Acumuladores. Depois de muitos acumuladores, a gente acaba sabendo antecipadamente se alguns casos tem solução ou não. Alguns procuram o programa realmente exaustos, e se desfazem de tudo como quem tira de si um corpo estranho, um tumor. Outros estão por motivos diversos, geralmente pro pressão da família, e inventam mil desculpas, racionalizam, colocam a culpa nos outros. Esses a gente já vê que vão irritar muito e desacumular pouco. A que eu vi no domingo passado era desses últimos casos, e  foi uma das mais irritantes.

A mulher se dizia uma ambientalista. Ela fez discursos sobre a cultura de desperdício dos EUA, sobre a desigualdade social e a reciclagem. Tudo para justificar a casa imunda que tinha. Quando apareceu com a equipe em casa, se dizia indignada – “Tudo isso daqui estava em caixas, não sei quem veio aqui e jogou tudo empilhado dentro do quarto!” Quando retiraram as suas coisas, o escândalo que ela fez ao ver as coisas na caçamba foi justificado pela sua preocupação com o meio ambiente, que havia muitas coisas de metal em meio ao lixo, e ela não admitia que o metal não fosse separado para reciclagem. Ela conseguiu limpar apenas três cômodos, e no início do programa o genro falou que ela tinha quatro depósitos que não revelava à ninguém onde ficava, e mesmo assim ela terminou o programa com a reflexão de que “é uma missão que eu tenho, de mostrar ao mundo o quanto as coisas podem ser aproveitadas”.

Acho que nunca conheci uma pessoa acumuladora, mas justificativas esdrúxulas me são bem familiares. A pessoa mente tão bem para si mesma que nada consegue convencê-la do contrário. Quanto mais inteligente a pessoa, maior a capacidade de fazer isso, mais bonita a versão. Pouco importa se a vida é um lixo – para muitos uma boa versão é mais do que suficiente.

Roupa com cristais

Comprei uma polaina de presente para uma amiga, com uns brilhinhos na borda. Sabem como é, uns cristais que vêm colados nas roupas agora. Escolhi sabendo que ela ia gostar, porque eu vi que ela tem muitas camisetas com brilho. Da minha parte, a roupa ter esses cristais é um dos critérios que me fazem não comprar. Vejo, acho um horror e nem dou chance de gostar do modelo ou não. Só que me dei conta de que eu tive uma blusinha de ginástica com esses brilhos, e que eu gostava muito dela. O desenho era o nome da marca da blusa. Essas pedrinhas de cristal tem uma cola, e quando elas caem deixam o lugar onde estavam com uma marquinha escura. Então, além do desenho ficar incompleto, a gente percebe que lá havia um cristal porque fica marcado. Começar a perder esses cristais é inevitável, basta começar a usar a roupa. Eles caem se você esbarra em alguma coisa, quando lava a roupa ou até sem fazer nada. Eu gostava tanto da tal blusinha que não me conformava com a idéia dela ir ficando desdentada a cada uso. Descobri que esses cristais vendem em armarinhos e comprei uns avulsos, exatamente iguais aos da blusa. Aí cada vez que caía algum eu ia lá e colocava outro no lugar. Caía de um lado, eu completava, caía do outro e eu completava também. Usei a roupa durante anos e ela sempre teve todos os brilhos, como se fosse nova. Eu fazia uma revista minuciosa cada vez que ia usar a blusa, e repunha as pedrinhas assim que elas caiam.

Foi por isso que eu peguei horror, olha o grau de loucura e a mão de obra!

Laika

Acho que a intenção dos meus vizinhos era não ter cachorro, porque a casa deles é alugada. Só que eles instalaram um portão eletrônico e ficou um vão de uns 15 cm. Por esse vão um filhote de rua começou a entrar pra se abrigar, e não quis mais ir embora. A vizinha se apegou ao filhote e ficou com ela, a Laika. Depois teve que fechar o vão com uma grade, porque quando ficava sozinha em casa a Laika não aguentava a solidão e fugia. Hoje ela chora muito quando os donos saem, uma gemeção que dura o dia inteiro e me pergunto se com todo filhote é assim e o dono é o único que não fica sabendo. As semanas passam e a Laika fica cada vez mais pernuda. Não sei se ela é especialmente doce, ou se simplesmente ela não distingue que eu vivo numa casa e ela em outra. Cada vez que passo ela fica louca de expectativa no portão, como se ela fosse meu cachorro feliz em me ver. Eu não resisto e acabo fazendo carinho nela. A Dúnia fica com ciúmes e já me lançou um olhar psicótico que eu não acreditava que fosse capaz. Mas é quase impossível resistir: a Laika quase morre de felicidade quando me vê, enquanto a Dúnia vira as costas assim que eu abro o portão (comportamento de dominância) e só quer saber do ossinho dela.

Acho que agora sei como os infiéis se sentem.

Frutas

Uma vez foram me mostrar o cheiro de um hidratante, que teria um cheiro que remetia à infância. Eu fui a única que não conseguiu reconhecer. O hidratante tinha cheiro de jabuticaba. Fiquei meio ofendida – jabuticaba não tem nada a ver com a minha infância.

Minha lembrança mais antiga de me deliciar com frutas era estar sentada no quintal da vizinha. Lá tinha um pé de carambola enorme, era só pegar do chão e lavar. Na vizinha da casa do outro lado tinha pé de goiaba, mas eu comia poucas;  o que eu gostava mesmo era do agito de pegar fruta do pé. Lembro dos meus pais – uma das minhas poucos lembranças dos dois juntos – devorando pinha e deixando o chão cheio de sementes pretas, que eu olhava com medo achando que era ovo de barata. Meu pai nos chamava quando abria uma jaca, que tem um cheiro delicioso na hora que a gente abre, mas fica com um aspecto nojento depois. O dito “mulher gostosa é como jaca, um sozinho não dá conta” me remete sempre àquelas jacas, que eu adorava porque o gosto me lembrava chiclete, mas que nunca conseguia comer muito. Nem meu pai, grande comedor de jaca, conseguia dar cabo em uma. Ele adora frutas, e foi o que mais lamentou se privar quando ficou diabético. Minha ambição durante muito tempo foi ser capaz de descascar laranjas, pra saber fazer ninhos iguais aos dele. Ele descascava a laranja quase inteira com uma faca, e deixava a casca enroladinha e coloca as sementes nela à medida que chupava a laranja. Enquanto ele via TV, os ninhos iam se formando ao lado do sofá. Meu gosto por frutas nunca foi tão eclético quando o dele e eu passava longe de umbu, aquela fruta azeda que ele comprava de monte. Já de sirigüela – redondinha como o umbu, só que amarela ao invés de verde – eu gostava. Comer cacau foi uma experiência curta, de uma viagem que fizemos à Ilhéus, mas inesquecível. A gente come a parte branca que envolve a semente, docinha que só ela. O cacau em si vem da semente. Mordi pra saber como era o chocolate no original e cuspi fora, é horrível.

Não sei o que mudou no transporte interestadual de frutas, porque agora algumas frutas nordestinas tem aparecido nos picolés e nos mercados. Um dia me ofereceram uma fruta exótica, em forma de estrela, chamada carambola. Fiquei meio ofendida de novo.

A mãe

É muito estranho você começar uma amizade e de cara já quererem marcar um programa com a mãe junto. Fui isso o que aconteceu. Eu a conheci num curso de línguas, ela um pouco mais velha do que eu. Normal estar na casa dos trinta e morar com a mãe, acho que seria a minha situação se não tivesse me casado. Quando a amizade ficou um pouco mais próxima ela marcou um café na casa dela em companhia da mãe. Não ia me negar e dizer que a mãe dela não deveria estar presente na própria casa. Cheguei lá e fui recebida pelas duas e passei a tarde inteira conversando com as duas. Era como se fossem uma só. A mãe era daquelas mulheres que ficam com os cabelos todos brancos e o rosto enrugado, mas que você enxerga claramente a adolescente por detrás. Ela havia sido jornalista e ainda trazia o gosto pelos assuntos atuais. A conversa era interessante, divertida. Falávamos de filmes, livros, assuntos gerais, cultura, não encontrei um único assunto que aquela mulher não conhecesse, não tivesse uma opinião original, não conversasse de maneira atenta. Apesar de serem pessoas fechadas, elas me fizeram da casa. Acabei não apenas me acostumando como gostando muito desse esquema de ser amiga de mãe e filha.

Só que à medida em que fui me aproximando, surgiram alguns momentos que eu finalmente pude falar só com a filha – um telefonema, uma ida ao banheiro, uma saidinha rápida pra resolver algum problema. Nesses momentos a filha aproveitava pra me contar que as coisas não eram um mar de rosas. Que sua mãe parecia muito legal mas que não era assim, e a relação delas era problemática. A mãe teria muito ciúmes dela, da ligação dela com o pai (que nunca estava presente nas reuniões), da sua juventude. Então perto da mãe ela nunca podia me falar do que estava acontecendo com ela, das suas paixões e decepções, do seu ex-marido que era quase um segredo. Isso não me surpreendeu, relações entre mães e filhas são complicadas mesmo. Começaram a surgir problemas na família, que só soube por sussurros enquanto a mãe não estava – parece que o marido ausente estava cansado e estava prestes a pedir separação. Então quando eu ligava a mãe não conversava mais comigo, não me convidava, apenas falava Oi e passava o telefone pra filha. A filha, finalmente livre, adorava me contar as últimas paixonites, o fora que levou, a vontade de ter um namorado. Longe da mãe, ela queria ter a típica confidência entre meninas. Eu achei um saco.

Elas acabaram se mudando e perdemos contato. Com elas, me sentia como um episódio do Sex and the city, em que a Carrie quase manteve um namoro só porque adorava a sogra.

Sem você

Desculpe falar francamente, mas eu tenho autoridade o suficiente pra colocar a roupa na Dúnia sem ajuda. E muito mais autoridade com os poucos comandos e a pouca obediência que ela tem. Com alguma demora, eu consigo acordar cedo e colocar o lixo para fora. Demoro mais porque não tem quem me apresse, é verdade, mas nada do que colocar o despertador pra mais cedo não resolva. Eu vou à biblioteca, ao restaurante favorito, compro chocolates que me dão alergia, – quem vai me proibir? – compro e parcelo tudo no cartão. Em casa, passo pano com a certeza de que ninguém passará pelo chão até ele ficar totalmente sequinho. Penduro meias, calcinhas e o que quiser no banheiro, e sei que elas não vão molhar, não vão cair no chão, não serão uma visão feia. E, sabe, sou organizada o suficiente para tirar tudo de lá em pouco tempo. Tem vezes que nem ligo a TV, nem sei o que está passando. Ou vejo alguma coisa e desligo. A casa fica silenciosa e posso jogar Angry Birds com som. Assisto filmes com todos os controles na mão, na minha mão. E finalmente vi Up, que está gravado por aí num DVD sem identificação. Eu sempre escrevo nos CDs – você teima em não escrever e dá nisso. Mas tenho sentado do meu lado do sofá. E dormido mal.

Volte logo, porque isso daqui não tem a menor graça sem você.

Algo a dizer

Quando eu trabalhava no atelier, uma vez apareceu um cara que tinha acabado de se formar em engenharia civil e belas artes. Por causa desse feito, somado ao fato de ser jovem, bonito e rico, ele se achava um gênio. Só que éramos todos alunos de um escultor que já tinha visto de tudo um pouco por ali, e ele mesmo era bastante experiente. Não sei se por temperamento ou pra não se envolver com a briga de egos, o professor nunca elogiava abertamente. Ele se limitava a corrigir e orientar. Procurávamos descobrir se o trabalho estava bom pelo brilho do olhar, pelo entusiasmo ou comentários feitos por terceiros. Tudo muito diferente da realidade que o recém-formado estava acostumado.

Com algumas semanas, o cara conhecia o trabalho de todos e todos conheciam o trabalho dele. Ele era um dos que gostavam de esculpir o corpo humano – uma das coisas que o nosso professor também gostava. Pra aprender a fazer rostos, ele pediu ajuda. O professor mostrou como colocar a argila, a inclinação do pescoço, as áreas do rosto, o segredo para fazer os olhos. O trabalho foi indo e virou um punk mostrando a língua. Isso gerou algum cuidado, porque é tecnicamente difícil tirar molde de uma cavidade como a da boca. Depois de tudo feito, o rapaz exibiu orgulhosamente seu trabalho e o professor se limitou a dizer que estava tudo correto. Foi aí que ele não resistiu e chamou o professor para uma conversa franca. E não ouviu o que esperava.

O professor disse a ele que a figura estava tecnicamente boa, mas não dizia nada. Um punk, língua pra fora, tudo muito caricato. Não havia uma opinião por detrás, um sentimento, uma mensagem, nada. Era um trabalho dispensável, que não faria diferença para ninguém. Ele sabia esculpir um rosto, mas e daí? Mais do que saber fazer um rosto ou um corpo humano bem feito, o artista deve ter algo para dizer, o trabalho deve ter uma intenção. Como exemplo, citou o Balzac de Rodin – o quanto a figura de Balzac já havia sido retratada, na polêmica que aquela escultura gerou. Não é uma escultura bonita e nem ao menos é detalhada, mas há uma história por detrás. Era a forma de Rodin enxergar Balzac. É praticamente apenas um rosto, mas o quanto aquele rosto, aquela pose, aquela capa nos transmite. O que aquele punk de língua pra fora dizia? Que seu autor não passava de um menino.

A ferida de ter ouvido que não tinha o que dizer não durou muito: pouco tempo depois ele arranjou um emprego como engenheiro e nunca mais tivemos notícias.

Método infalível

Conta o meu pai que um amigo argentino que ele tinha ganhou um bom dinheiro com um anúncio, que dizia:

Método infalível para matar baratas. Mande 2 reais pelo correio para a Rua …

Quem mandava o dinheiro recebia de volta uma carta, escrita em portunhol:

1. Mire la cucaracha;
2. Saca tus chinelas;
3. Acierta la chinela en la cucaracha con fuerza;
4. Se no la aciertas, intentalo de nuevo.

Funciona.