Feito à mão

“Fala galera, preciso que vocês encontre o amor da minha vida que a vi ontem por volta das 22:30, subiu em Joana Bezerra e desceu na Estação Tancredo Neves. Me ajudem!” – aí tem a foto de uma moça dentro do ônibus sem olhar para a câmera. É uma postagem do perfil “Te vi no bus PE”, mas tem de outras cidades também. Não tem de Curitiba, deixo aí a sugestão. Achei muito bonitinho, os comentários e as legendas são ótimos! (Viu, pessoas que andam de carro, quantas emoções vocês estão perdendo?)

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Imagine um canal que o sujeito só se filma com um celular de resolução ruim e pouca memória, que o impede de postar mais de 15 minutos de vídeo. Além disso, o celular fica imóvel e ele fica sentado falando. No máximo, coloca umas fotos e uns poucos pedaços de vídeos e mostra capas de discos antigos e livros. E se eu te disser que o canal do cara é massa e ele é super carismático, uma verdadeira enciclopédia sobre os Beatles. Estou totalmente viciada no The Beatles School.

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Eu assisti este vídeo um número vergonhoso de vezes e mandei pra um monte de gente. Carisma e talento são assuntos que me fascinam e, quando encontro um, me delicio e tento entender. A história, o modo de contar, o encadeamento, os gestos, a linguagem… Paulo Vieira é maravilhoso. (a partir de 6:30)

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Curtas de um ano ou nem sei

O facebook me lembrou que há um ano eu estava na passeata #elenão. Vizinhos, pessoas do ponto de ônibus, nas conversas, homens paqueráveis, ninguém parecia compartilhar do meu voto. Eu lembro de ter pensado que eu estaria sozinha na rua XV. Iria porque a vontade de dizer não era grande demais, eu que nunca havia ido pra protesto nenhum. Aí, no ônibus, haviam umas adolescentes que pareciam ir, assim como haviam uns rapazes que olhavam para elas de uma maneira que dava medo. Aí encontrei as amigas, fomos pra lá, e como tinha gente. Eu me senti tão feliz, tive esperança. Não impedimos a besteira, mas foi um momento importante pra história do país e que orgulho de ter feito parte.

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Minha ex-sogra esperava o filho (meu ex) se afastar pra me dizer umas coisas de cortar o coração. Nunca entendi porque ela me tornou sua confidente naquele momento. Ela se casou com meu ex-sogro na adolescência, foi daqueles casamentos exemplares, os dois se davam muito bem. Fazia alguns meses que ele havia morrido. Ela me disse: “faz tão pouco tempo que ele morreu e parece que está tão longe, como se fizesse anos. É assustador”.

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Sobre a pergunta de como eu gostaria que fosse o fim do mundo (tô falando do programa do Porchat), eu só consigo pensar que eu acho que já foi. Acho que acabou em 2012 e estamos presos na nossa mente. Devemos ser uma recriação holográfica de ETs que querem entender o que havia aqui antes da chegada deles, milhões de anos depois da destruição da chegada do meteoro. Acho que li Philip K. Dick em demasia.

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Então, tem as moças da padaria. Uma delas estava com uma cara péssima um dia. Mas no dia seguinte, voltava a ser feliz. Aí ficou com uma cara péssima, e no dia seguinte também, e também, de maneira que agora eu olho pra ela e digo o básico. Tudo porque um dia quis brincar quando ela não estava bem e senti que fui invasiva, além de não estar bem ela tinha que rir de piada de cliente que quer ser íntima. Enfim. Tem outra também, sempre muito séria. Ela teve um ano péssimo, o pai morreu em acidente, está tendo problemas pra vender seu cavalo. Eu chego lá e tem as duas moças, sérias. Me pego com vontade de falar algo que o meu pai me dizia nessa fase da vida, e eu detestava tanto: sorria, não vale a pena ficar assim. A vida é curta.

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Miguel Araújo diria: Dança até ser dia/ que a vida são dois dias.

Curtas andando triste por aí

tomar café

Tomando café com uma amiga. Eu só vou lá com ela, mas ela é cliente. Geralmente, quem está lá é a funcionária, mas pela primeira vez no nosso café lá é o dono. Ele nos deixa uma grande fatia de bolo, com doce de leite em cima. Conversamos na hora de pagar, damos risada. No final, ele nos deseja feliz dia dos pais, caso tenhamos. Eu quase o corrigi – por causa de poucos dias, nenhuma das duas têm.

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Chegando arrasada em casa. Vou no caminhão da verdura e o Verdureiro nos mostra foto da filha, tão comprida quanto ele, e os modelos lindos de babador que ele tem. Horas depois, arrasada, vou até a padaria, e a moça no caixa me atualiza que ela finalmente conseguiu vender o cavalo dela e deu entrada no DPVAT, depois de meses do pai dela ter se acidentado. É o universo tentando me consolar com pequenas fofuras.

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Vou na padaria, está cheio, três funcionários atendendo. Quem chega pra me atender é justamente o rapaz que eu não tenho intimidade, o que está sempre de cara fechada. Peço pão, peço uma rosca. Só a rosca. Ele me pergunta qual delas. Eu fico sem graça e digo que qualquer uma. Ele me fala que vai pegar a maior pra mim e dá um sorrisinho de lado. É o que eu sempre peço, mas pros outros.

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Vem e vai. Em dois dias e horários que por acaso eu estava bem, consolei um amigo que tinha perdido o cachorro. Como mensurar dor, eu também ficaria arrasada com a morte da Dúnia. E a dor da morte do meu pai tem piorado, na realidade na hora não me pareceu que seria tão difícil. Aí num dia de baixa meu, uma semana depois, meu amigo queria tomar um café. Respondi que estava ocupada com pintor, etc., o que era verdade mas também não era. Em alguma ocasião eu precisava ter dito o que eu estou passando, mas sabe aquilo que quanto mais demora pior fica?

Curtas dos problemas

galinha correndo

Tem várias coisinhas que eu achava que só resolveria quando voltasse a ter um homem do meu lado. Um homem, não necessariamente um marido, quem sabe até mesmo um parente. Muitos motivos: só vão respeitar um homem, um homem é que entenderia disso, o homem terá força física, um homem terá dinheiro, um homem me dará carona, um homem saberá o que fazer, um homem pode segurar minha mão. E, UMA A UMA, a vida tem me obrigado a resolver cada questão sozinha.

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Depois a gente entra numas de não precisar de homem e fica radical. Pra que uma mulher continue a querer um homem de todo jeito do seu lado, impeça-a de matar a primeira barata.

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Daqueles problemas de cobranças abusivas, que a gente não sabe até quanto pode apelar ou terá que pagar chorando. Um lado meu quer lutar até o fim, porque é de uma injustiça tremenda e essas malditas multinacionais lucram com a nossa ignorância. O outro não quer ligar, dinheiro é só dinheiro, pago de uma vez só pra voltar a viver em paz.

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Esbarrei numas postagens antigas e, mais do que estava escrito, me comovi com quem éramos na época que tudo foi escrito. Fui transportada pra lá, para as preocupações de anos atrás, para o que vivíamos, nossas perspectivas de futuro. Éramos tão mais felizes e relaxados. Agora eu me sinto exausta, é como se estivéssemos numa guerra civil.

Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.

Curtas literários

literaturadecordel

Game of Thrones acabou. Das maiores decepções que tenho ouvido foram os que torciam por ela, por ele, e os que queriam uma morte muito sanguinolenta pra uma mulher importante (vejam que estou tentando não dar spoiler). Eu descobri que não me frustrei porque não torcia por ninguém, e sim pela história. Torcia para ser surpreendida mas que, ao mesmo tempo, o autor tivesse tudo sobre controle.

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É muito legal descobrir o universo de um autor. No primeiro livro, você pensa: que fantástico, que imaginação sem limites. Não são sem limites, e ver os limites deles também é bacana. Amei o Problema dos Três Corpos de Cixin Liu e não consegui amar o filme (Terra à deriva) do conto dele, mas amei descobrir que uma das soluções típicas dele é viver dentro da Terra. Voltei a ler Dick e lá estão de novo os pre-cogs. É como ficar íntimo de alguém.

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A estatística no Kindle engana. Estava bem feliz lendo Harari, faltando uma boa porcentagem para chegar no fim do livro. Aí ele conta que medida duas horas por dia e o livro acaba. O resto são notas e referências. Fiquei tão chateada de ter lido o último Harari. Teria economizado se soubesse que estava no fim.

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Uma vez li algo sobre instrução espiritual, dizendo que a pessoa recebe uma e não têm prazo pra cumprir, nenhum erro ou punição, apenas não recebe a segunda enquanto não cumprir a primeira. Aí eu penso nos livros maravilhosos que indiquei e nunca foram tocados, e que eu mesma não perco nada com isso porque já li, e penso que faz todo sentido. Mas penso também, vingativamente, da pessoa lendo no leito de morte e pensando: se eu tivesse lido quando ela me sugeriu, teria feito TUDO diferente. (nunca acontecerá)

Curtas saturninos

lord saturn

Eu me perguntava porque as pessoas eram assim, não acessavam suas dores, deixavam que se transformassem em pedras, cânceres, rugas ou sei lá o quê. Que se soltassem, chorrassem e gritassem, enfrentassem sem medos. Hoje eu sei que, nossa, funciona pra caramba você ver a tristeza subindo a ladeira e mudar de rua. Muito mais fácil do que levantar é nem ao menos cair.

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Eu cheguei cedo e minha cabeleireira terminou o corte anterior cedo, por isso fui atendida quinze minutos mais cedo. O que era pra ser uma vantagem acabou sendo pior, porque a moça da sobrancelha atrasou meia hora. Ela estava saindo de casa e esqueceu suas coisas e teve que voltar. Que bom que o salão tem wi-fi. Esse pessoal do “converse entre si” não faz ideia do quanto o wi-fi gratuito melhoria o clima deles, com clientes calminhos.

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Voltando ao atraso. Estava com os olhos no celular e pensando no que fazer. Normalmente, falta de profissionalismo é uma das coisas que me deixa virada no jiraia. Me disseram que levaria quinze minutos e eu normalmente me levantaria e iria embora no dezesseis. Aí pensei na quantidade de vezes que me atrasei, a ansiedade dos minutos escorrerem e você sem ter como acelerar o mundo. Decidi esperar, ser compreensiva, tratá-la bem. Decidi não tratá-la com a crueldade que pratico comigo mesma.

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Descobri de onde minha dificuldade com pedintes em geral: eu olho nos olhos deles.

Curtas de obviedades (ou não)

overthinker

Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

Curtas muito adultos

muito adulto

Não ir ao médico é muito adulto. Quando eu ainda estava na curva ascendente da vida, achava um absurdo a pessoa perceber que tem algo errado com o seu corpo e não correr pro médico. Depois, alguma coisa passa a estar sempre errada com o nosso corpo. E sabemos que o médico nunca nos dirá nada agradável.  Eu e minha lombar, por exemplo, ele não vai me dizer que ela dói porque está bem encaixada e eu faço tudo certo.

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Eu saí do armário com essa história de fazer vídeo e tenho visto outras pessoas saindo também. Pessoas que tem algo a dizer sobre seus livros, sua carreira acadêmica, o que estuda. Que não sabem mexer direito em câmera, têm cacoetes estranhos, rugas, erram palavras. Que tem consciência de que daria pra fazer uma lista imensa de pessoas mais habilitadas do que elas pra falar do assunto em questão. Mas é o que tem, somos o que tem.

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Numa das primeiras vezes que eu dancei em tablado, foi justamente com a minha ex-professora. Fiquei surtada durante uma semana inteira. Minha fantasia era que, se um dia ela voltasse a me ver, eu estaria super poderosa, com todas as falhas técnicas que ela via na época que me conhecia sanadas, enfim, queria provar que ela estava cem por cento errada em não me achar um fenômeno.

Lembrei dessa história porque tive algumas idas e vindas na minha vida e em nenhuma foi como eu fantasiei. Não sei se é porque não alcancei nenhuma das minhas metas ou se é porque somos pra sempre aquela mesma pessoa meio desajeitada de sempre e o tempo só nos acrescenta quilos.

Curtas sobre ser quem é

well

Há um ano, eu publiquei um ou dois textos falando sobre a Marielle. Ela me impressionou muito e, como quase todo mundo, eu só fiquei sabendo da sua história quando terminou. Ainda hoje me espanta como ela me parece tão grande, enquanto para outros era “aquela lésbica” ou “só mais uma pessoa”. O ano após a morte dela foi tão longo, parece muito mais do que um ano, e tão pior. O que dizer quando uma sociedade mata ou deixa morrer os seus melhores?

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Eu tenho um problema específico com o elogio “esforçada”, talvez por ter ouvido muito. Quem sabe numa outra sociedade, como a japonesa, em que o empenho e a disciplina ocupam um papel diferente, seja realmente um elogio. Eu acho que, aqui, ser chamado de esforçado é meio como ganhar o Miss Simpatia: todo mundo sabe que a Miss Simpatia nunca é a vencedora do concurso. O esforçado nunca é o talentoso, o best, o preferido, o melhor. Esforçado é aquele cujo único mérito é fazer tudo certo, mas sem alcançar um resultado digno de nota.

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Nunca fui da turma cuja sorte bate à porta, talvez por isso minha única opção seja mesmo o esforço. O que a vida tem feito comigo é – pela total falta de candidatos e alternativas – me transformar na pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado. Baratas, filtro d´água, manter as contas em dia, fazer manutenção de bicicleta, descobrir músicas novas, apagar todas as luzes, saber o que me cai bem, criticar e corrigir o que eu mesma escrevo. Mais recentemente, gravar vídeo com recomendação de coisas bacanas pra ver ou ler.  (Tá na minha página no FB, às quintas)

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Uma coisa ótima que ouvi sobre auto-estima. Falava de um aspecto específico no mapa astral, mas acho que serve pra todo mundo: “saiba que você tem esta voz dentro de você que sempre vai te colocar pra baixo. Pra sempre você vai ter a sensação de que não vai dar certo, não vale a pena, você não consegue. Se for esperar o dia que você se sentir preparado e confiante, você nunca fará nada na sua vida. Você deve viver e seguir em frente apesar dela.”

Ô, merda, eu sou mesmo muito esforçada.

Curtas sobre fragilidade

É sempre a mesma coisa: eu nado há anos e nado bem. Aí aparece um homem na turma, que nada mas não está acostumado com o ritmo puxado da aula. Começa uma série, digamos que dez tiros de cem metros. Além de conhecer o meu ritmo, as séries de resistência são as minhas preferidas, o meu desempenho vai melhorando com o esforço. No primeiro tiro, eu nado mais rápido do que o tal aluno novo. Do segundo em diante, o sujeito faz de tudo pra ganhar de mim. Eu chego na raia tranquila e ele está com os pulmões pra fora. Até que ele não consegue manter mais e nos últimos tiros está quase uma piscina inteira atrás de mim. Por que tudo isso? Porque eu sou apenas uma mulher, eles precisam ganhar de mim.

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Aplicativo de karaokê: quase todas as letras de música são cantadas numa primeira pessoa do sexo masculino. Eu canto a letra tal como ela é, todas as mulheres que eu ouvi cantando fazem a mesma coisa. Só que de vez em quando, muito raramente, aparece uma letra com uma primeira pessoa no feminino. Dá pra perceber: o sujeito vai cantando normalmente, aí chega na parte feminina – “estou apaixonadA”, “estou sentidA” ou “você é meu queridO” – , e o sujeito tem um mini ataque de pânico. A palavra sai atrasada, num tom diferente – e no masculino. Vai que uma pessoa o ouve interpretar uma música num aplicativo, de nickname irreconhecível, e conclui que se ele canta música de mulher no feminino é porque gostaria de ser uma? Sempre lembro deste vídeo:

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Já comentei o caso aqui. Eu ia na loja quando era casada e o dono ficava conversando com o ex. Fui na loja recém-separada e o dono passou a me virar a cara. Depois, inesperadamente, me tratou bem. Pediu abraço de fim de ano e até aí ok. Na vez seguinte foi mais explícito na cantada – se eu percebi é porque só faltou a pessoa anunciar em carro de som. Não fiz nada, apenas na vez seguinte fui para as prateleiras; se tivesse interessada, teria ido falar com ele. Ele me cumprimentou, entendeu, tudo muito sutil. Pois bem. Voltei. O sujeito me deu um sorriso tão agressivo que foi como se eu tivesse corneado o sujeito e voltado na loja pedir produto de graça? Minha vontade foi dizer pra ele: Percebe que você criou uma história sozinho, que EU NUNCA TE FIZ NADA?

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Estou espalhando esta raiva por aí. LINK DA NOTÍCIAUma mulher ultrapassou homens que partiram 10 min antes de bicicleta e decidiram para-la e todas as outras mulheres por sete minutos – tudo para que os pudessem recuperar a vantagem e os seus egos não sofressem danos permanentes. É uma metáfora tão clara sobre o que é ser mulher. Feliz dia. Reclamemos.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Curtas aventuras no app de karaokê

karaoke

Nem a pau eu conto qual é e qual o meu perfil lá.

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Como eu não fiz plano VIP, não posso começar uma gravação, canto sempre em gravações iniciadas pelos outros. Tem os perfis de burlar o sistema, que a pessoa disponibiliza como se fosse pra cantar em dupla e ela não canta a parte dela. Mas vou te confessar que gosto mais de cantar com os outros. Sei lá, me sinto mais acompanhada.

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Um dia um que elogiava muito minhas gravações, dizia que eu cantava muito bem, que minha voz é maravilhosa, me mandou uma mensagem privada. Eu achando que leria mais elogios e ele falou para eu não levar a mal, mas estava estragando todas as gravações dele porque não sabia ajustar o volume. Depois de me recuperar da ferida narcísica, fiz o que ele me aconselhou e as gravações melhoraram mesmo.

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Voltando ao cara, ele me elogiava. Não me mandava um agradecimento padrão, escrevia meu nome, fazia trocadilho com o que dizia na música, sempre me colocava pra cima. Como o ser humano é besta, eu ficava esperando a reação dele a cada gravação. Aí dei uma stalkeada básica e descobri que ele elogia todas as mulheres que cantam com ele. De vez em quando aparece uma mensagem que ele me mandou e elas colocam emoticon batendo palmas, ou comentam. Bem ciúmes mesmo. Eu só dou risada.

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Tem um português que só curte as gravações, não agradece como de praxe. Primeiro eu achei que ele não ia com a minha cara, percebeu o sotaque brasileiro, agora eles nos odeiam, essas coisas. Ou que era porque eu era uma estragadora de gravações alheias, com volume alto, e ele notaria que eu não estrago mais e passaria a gostar de mim. Depois pensei que era neura minha, que ele não deveria elogiar ninguém. Aí um dia estava vendo as gravações e percebi que ele elogia sim as outras pessoas, as portuguesas, ele só não manda mensagem pra mim. Agora eu o vejo e penso: “Vamu lá cantar com o português que me odeia.”

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Dia desses eu gravei Ovelha Negra com um dos meus preferidos, um cara de meia idade que canta sem medo de errar, qualquer coisa. Ele se soltar e cantar de tudo, mesmo sem ter voz ou errar no inglês me estimula a fazer o mesmo. Comecei a receber tantas notificações de pessoas curtindo a música, mais de trinta, que já estava me sentindo o novo fenômeno do aplicativo e achei que a qualquer momento surgiria o convite de uma gravadora. Que nada, ele é que tem 1655 seguidores. Minha gravação nem era das mais curtidas.

Curtas de três senhoras no ônibus

lugar preferencial

Esta foi desagradável: eu estava de pé e vi quando entrou a senhora cutucou o ombro de uma moça que estava sentada com fones de ouvido. Nem era lugar preferencial. A moça provavelmente pensou que a mulher havia apenas esbarrado e nem olhou. Aí a senhora colocou a cara bem na frente da moça e arrancou o fone de ouvido da orelha e ordenou que ela saísse dali, porque ela era de idade, estava de pé à seis horas e muito cansada. A moça respondeu a grosseira com grosseira também, a senhora ameaçou bater nela, a moça bateu palmas ironicamente. Que clima logo de manhã.

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Cada dia mais normal pessoas olhando no celular dentro do ônibus, até as de pé. Uma senhora estava olhando seu whatsapp. Baixinha, óculos, cabelo branco, expressão tranquila, bem o tipo que dá vontade de chamar de tia. Aí eu tive que me aproximar porque ia descer em pouco tempo e ela estava assistindo, como descreverei… uma cena de grande intimidade entre homem e mulher.

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Eu só pude olhar para a senhora de costas, quando saí do ônibus. Ela me surpreendeu por estar com um cabelo branco lambido até os ombros, sem corte e talvez sem lavar. Uma camiseta folgada pra fora da calça também desajeitada. Estava sentada quando ela entrou no ônibus e passou o trajeto inteiro exortando as pessoas à felicidade. “Amar é tão bom, amar é a melhor coisa da vida. Amem muito, não importa se é homem ou mulher, namorado, amante, o que for, o importante é ser feliz. Eu nos meus sessenta anos estou amando, sou muito amada, a melhor coisa do mundo é amar”.

Curtas de só derrotas

na lama.png

Quando eu cheguei, o tubo estava vazio, o ônibus devia ter acabado de sair. Fiquei na frente da porta, a fila começou a se formar atrás de mim. Quando o Inter 2 chegou, estava vazio, literalmente, zero passageiros. E eu a primeira. A porta se abriu e o ônibus era meu, podia sentar onde quisesse. Fui direto para a fileira de cadeiras individuais. O motorista foi dar uma volta, o ônibus estacionado, pessoas chegando e preenchendo os espaços. Quando o motorista estava voltando, a última pessoa a entrar no ônibus foi uma grávida, com um barrigão enorme. Ela veio direto do meu lado e praticamente colocou a barriga no meu rosto. Tive que oferecer meu lugar.

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Começou a chover quando eu paguei pelas compras. Era daquelas chuvas de final de mundo. Todo mundo parado esperando a chuva passar. Os carros passaram a estacionar praticamente dentro do supermercado. Eu me encostei no carrinho e fiquei pensando na vida, e mesmo assim levou muito tempo. Depois de uma meia hora já não entrava nenhum carro, as pessoas chamavam uber, a chuva parecia ficar mais e mais intensa, trovões e relâmpagos. Eu já estava com dor na lombar e cansada quando desisti e fui carregando minhas compras debaixo da chuva. A única coisa que eu torcia era que ela não acabasse no meio do caminho, seria humilhação demais. Fui andando nas ruas vazias, sem ligar pro banho, pensando que não era tão ruim assim. Aí quando estava quase em casa, uma quadra, enfiei o pé na grama e sujei de lama até a meia.

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Eu tento marcar todos os meus exames neste período em que o ano não começou direito, para ficar menos puxado. Mesmo assim, foi difícil marcar uma das ecografias, e pra ficar ainda no começo do ano, topei fazer o exame do outro lado da cidade, às 13:40, no mesmo dia que cortaria o cabelo pela manhã, horário que eu havia agendado no ano passado. A velha história do muito tempo pra ficar na rua e pouco tempo para voltar pra casa, e preferi voltar para casa. Comi uma saladinha às 11:30, e saí de casa pouco depois do meio dia. Três ônibus depois e muita ansiedade, cheguei  no laboratório com 5 min de atraso. Esperei por um encaixe mais de uma hora. Fiz o exame. Fui numa padaria comer. Peguei outros três ônibus para voltar. Choveu muito, a cidade estava um caos, e ainda assim estava quente. Cheguei em casa quase 18h, esgotada e grudenta.

Pequenos momentos de reveião

supermerado_caixa

O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.