Curtas saturninos

lord saturn

Eu me perguntava porque as pessoas eram assim, não acessavam suas dores, deixavam que se transformassem em pedras, cânceres, rugas ou sei lá o quê. Que se soltassem, chorrassem e gritassem, enfrentassem sem medos. Hoje eu sei que, nossa, funciona pra caramba você ver a tristeza subindo a ladeira e mudar de rua. Muito mais fácil do que levantar é nem ao menos cair.

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Eu cheguei cedo e minha cabeleireira terminou o corte anterior cedo, por isso fui atendida quinze minutos mais cedo. O que era pra ser uma vantagem acabou sendo pior, porque a moça da sobrancelha atrasou meia hora. Ela estava saindo de casa e esqueceu suas coisas e teve que voltar. Que bom que o salão tem wi-fi. Esse pessoal do “converse entre si” não faz ideia do quanto o wi-fi gratuito melhoria o clima deles, com clientes calminhos.

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Voltando ao atraso. Estava com os olhos no celular e pensando no que fazer. Normalmente, falta de profissionalismo é uma das coisas que me deixa virada no jiraia. Me disseram que levaria quinze minutos e eu normalmente me levantaria e iria embora no dezesseis. Aí pensei na quantidade de vezes que me atrasei, a ansiedade dos minutos escorrerem e você sem ter como acelerar o mundo. Decidi esperar, ser compreensiva, tratá-la bem. Decidi não tratá-la com a crueldade que pratico comigo mesma.

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Descobri de onde minha dificuldade com pedintes em geral: eu olho nos olhos deles.

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Curtas de obviedades (ou não)

overthinker

Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

Curtas muito adultos

muito adulto

Não ir ao médico é muito adulto. Quando eu ainda estava na curva ascendente da vida, achava um absurdo a pessoa perceber que tem algo errado com o seu corpo e não correr pro médico. Depois, alguma coisa passa a estar sempre errada com o nosso corpo. E sabemos que o médico nunca nos dirá nada agradável.  Eu e minha lombar, por exemplo, ele não vai me dizer que ela dói porque está bem encaixada e eu faço tudo certo.

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Eu saí do armário com essa história de fazer vídeo e tenho visto outras pessoas saindo também. Pessoas que tem algo a dizer sobre seus livros, sua carreira acadêmica, o que estuda. Que não sabem mexer direito em câmera, têm cacoetes estranhos, rugas, erram palavras. Que tem consciência de que daria pra fazer uma lista imensa de pessoas mais habilitadas do que elas pra falar do assunto em questão. Mas é o que tem, somos o que tem.

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Numa das primeiras vezes que eu dancei em tablado, foi justamente com a minha ex-professora. Fiquei surtada durante uma semana inteira. Minha fantasia era que, se um dia ela voltasse a me ver, eu estaria super poderosa, com todas as falhas técnicas que ela via na época que me conhecia sanadas, enfim, queria provar que ela estava cem por cento errada em não me achar um fenômeno.

Lembrei dessa história porque tive algumas idas e vindas na minha vida e em nenhuma foi como eu fantasiei. Não sei se é porque não alcancei nenhuma das minhas metas ou se é porque somos pra sempre aquela mesma pessoa meio desajeitada de sempre e o tempo só nos acrescenta quilos.

Curtas sobre ser quem é

well

Há um ano, eu publiquei um ou dois textos falando sobre a Marielle. Ela me impressionou muito e, como quase todo mundo, eu só fiquei sabendo da sua história quando terminou. Ainda hoje me espanta como ela me parece tão grande, enquanto para outros era “aquela lésbica” ou “só mais uma pessoa”. O ano após a morte dela foi tão longo, parece muito mais do que um ano, e tão pior. O que dizer quando uma sociedade mata ou deixa morrer os seus melhores?

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Eu tenho um problema específico com o elogio “esforçada”, talvez por ter ouvido muito. Quem sabe numa outra sociedade, como a japonesa, em que o empenho e a disciplina ocupam um papel diferente, seja realmente um elogio. Eu acho que, aqui, ser chamado de esforçado é meio como ganhar o Miss Simpatia: todo mundo sabe que a Miss Simpatia nunca é a vencedora do concurso. O esforçado nunca é o talentoso, o best, o preferido, o melhor. Esforçado é aquele cujo único mérito é fazer tudo certo, mas sem alcançar um resultado digno de nota.

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Nunca fui da turma cuja sorte bate à porta, talvez por isso minha única opção seja mesmo o esforço. O que a vida tem feito comigo é – pela total falta de candidatos e alternativas – me transformar na pessoa que eu gostaria de ter ao meu lado. Baratas, filtro d´água, manter as contas em dia, fazer manutenção de bicicleta, descobrir músicas novas, apagar todas as luzes, saber o que me cai bem, criticar e corrigir o que eu mesma escrevo. Mais recentemente, gravar vídeo com recomendação de coisas bacanas pra ver ou ler.  (Tá na minha página no FB, às quintas)

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Uma coisa ótima que ouvi sobre auto-estima. Falava de um aspecto específico no mapa astral, mas acho que serve pra todo mundo: “saiba que você tem esta voz dentro de você que sempre vai te colocar pra baixo. Pra sempre você vai ter a sensação de que não vai dar certo, não vale a pena, você não consegue. Se for esperar o dia que você se sentir preparado e confiante, você nunca fará nada na sua vida. Você deve viver e seguir em frente apesar dela.”

Ô, merda, eu sou mesmo muito esforçada.

Curtas sobre fragilidade

É sempre a mesma coisa: eu nado há anos e nado bem. Aí aparece um homem na turma, que nada mas não está acostumado com o ritmo puxado da aula. Começa uma série, digamos que dez tiros de cem metros. Além de conhecer o meu ritmo, as séries de resistência são as minhas preferidas, o meu desempenho vai melhorando com o esforço. No primeiro tiro, eu nado mais rápido do que o tal aluno novo. Do segundo em diante, o sujeito faz de tudo pra ganhar de mim. Eu chego na raia tranquila e ele está com os pulmões pra fora. Até que ele não consegue manter mais e nos últimos tiros está quase uma piscina inteira atrás de mim. Por que tudo isso? Porque eu sou apenas uma mulher, eles precisam ganhar de mim.

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Aplicativo de karaokê: quase todas as letras de música são cantadas numa primeira pessoa do sexo masculino. Eu canto a letra tal como ela é, todas as mulheres que eu ouvi cantando fazem a mesma coisa. Só que de vez em quando, muito raramente, aparece uma letra com uma primeira pessoa no feminino. Dá pra perceber: o sujeito vai cantando normalmente, aí chega na parte feminina – “estou apaixonadA”, “estou sentidA” ou “você é meu queridO” – , e o sujeito tem um mini ataque de pânico. A palavra sai atrasada, num tom diferente – e no masculino. Vai que uma pessoa o ouve interpretar uma música num aplicativo, de nickname irreconhecível, e conclui que se ele canta música de mulher no feminino é porque gostaria de ser uma? Sempre lembro deste vídeo:

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Já comentei o caso aqui. Eu ia na loja quando era casada e o dono ficava conversando com o ex. Fui na loja recém-separada e o dono passou a me virar a cara. Depois, inesperadamente, me tratou bem. Pediu abraço de fim de ano e até aí ok. Na vez seguinte foi mais explícito na cantada – se eu percebi é porque só faltou a pessoa anunciar em carro de som. Não fiz nada, apenas na vez seguinte fui para as prateleiras; se tivesse interessada, teria ido falar com ele. Ele me cumprimentou, entendeu, tudo muito sutil. Pois bem. Voltei. O sujeito me deu um sorriso tão agressivo que foi como se eu tivesse corneado o sujeito e voltado na loja pedir produto de graça? Minha vontade foi dizer pra ele: Percebe que você criou uma história sozinho, que EU NUNCA TE FIZ NADA?

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Estou espalhando esta raiva por aí. LINK DA NOTÍCIAUma mulher ultrapassou homens que partiram 10 min antes de bicicleta e decidiram para-la e todas as outras mulheres por sete minutos – tudo para que os pudessem recuperar a vantagem e os seus egos não sofressem danos permanentes. É uma metáfora tão clara sobre o que é ser mulher. Feliz dia. Reclamemos.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Curtas aventuras no app de karaokê

karaoke

Nem a pau eu conto qual é e qual o meu perfil lá.

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Como eu não fiz plano VIP, não posso começar uma gravação, canto sempre em gravações iniciadas pelos outros. Tem os perfis de burlar o sistema, que a pessoa disponibiliza como se fosse pra cantar em dupla e ela não canta a parte dela. Mas vou te confessar que gosto mais de cantar com os outros. Sei lá, me sinto mais acompanhada.

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Um dia um que elogiava muito minhas gravações, dizia que eu cantava muito bem, que minha voz é maravilhosa, me mandou uma mensagem privada. Eu achando que leria mais elogios e ele falou para eu não levar a mal, mas estava estragando todas as gravações dele porque não sabia ajustar o volume. Depois de me recuperar da ferida narcísica, fiz o que ele me aconselhou e as gravações melhoraram mesmo.

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Voltando ao cara, ele me elogiava. Não me mandava um agradecimento padrão, escrevia meu nome, fazia trocadilho com o que dizia na música, sempre me colocava pra cima. Como o ser humano é besta, eu ficava esperando a reação dele a cada gravação. Aí dei uma stalkeada básica e descobri que ele elogia todas as mulheres que cantam com ele. De vez em quando aparece uma mensagem que ele me mandou e elas colocam emoticon batendo palmas, ou comentam. Bem ciúmes mesmo. Eu só dou risada.

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Tem um português que só curte as gravações, não agradece como de praxe. Primeiro eu achei que ele não ia com a minha cara, percebeu o sotaque brasileiro, agora eles nos odeiam, essas coisas. Ou que era porque eu era uma estragadora de gravações alheias, com volume alto, e ele notaria que eu não estrago mais e passaria a gostar de mim. Depois pensei que era neura minha, que ele não deveria elogiar ninguém. Aí um dia estava vendo as gravações e percebi que ele elogia sim as outras pessoas, as portuguesas, ele só não manda mensagem pra mim. Agora eu o vejo e penso: “Vamu lá cantar com o português que me odeia.”

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Dia desses eu gravei Ovelha Negra com um dos meus preferidos, um cara de meia idade que canta sem medo de errar, qualquer coisa. Ele se soltar e cantar de tudo, mesmo sem ter voz ou errar no inglês me estimula a fazer o mesmo. Comecei a receber tantas notificações de pessoas curtindo a música, mais de trinta, que já estava me sentindo o novo fenômeno do aplicativo e achei que a qualquer momento surgiria o convite de uma gravadora. Que nada, ele é que tem 1655 seguidores. Minha gravação nem era das mais curtidas.

Curtas de três senhoras no ônibus

lugar preferencial

Esta foi desagradável: eu estava de pé e vi quando entrou a senhora cutucou o ombro de uma moça que estava sentada com fones de ouvido. Nem era lugar preferencial. A moça provavelmente pensou que a mulher havia apenas esbarrado e nem olhou. Aí a senhora colocou a cara bem na frente da moça e arrancou o fone de ouvido da orelha e ordenou que ela saísse dali, porque ela era de idade, estava de pé à seis horas e muito cansada. A moça respondeu a grosseira com grosseira também, a senhora ameaçou bater nela, a moça bateu palmas ironicamente. Que clima logo de manhã.

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Cada dia mais normal pessoas olhando no celular dentro do ônibus, até as de pé. Uma senhora estava olhando seu whatsapp. Baixinha, óculos, cabelo branco, expressão tranquila, bem o tipo que dá vontade de chamar de tia. Aí eu tive que me aproximar porque ia descer em pouco tempo e ela estava assistindo, como descreverei… uma cena de grande intimidade entre homem e mulher.

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Eu só pude olhar para a senhora de costas, quando saí do ônibus. Ela me surpreendeu por estar com um cabelo branco lambido até os ombros, sem corte e talvez sem lavar. Uma camiseta folgada pra fora da calça também desajeitada. Estava sentada quando ela entrou no ônibus e passou o trajeto inteiro exortando as pessoas à felicidade. “Amar é tão bom, amar é a melhor coisa da vida. Amem muito, não importa se é homem ou mulher, namorado, amante, o que for, o importante é ser feliz. Eu nos meus sessenta anos estou amando, sou muito amada, a melhor coisa do mundo é amar”.

Curtas de só derrotas

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Quando eu cheguei, o tubo estava vazio, o ônibus devia ter acabado de sair. Fiquei na frente da porta, a fila começou a se formar atrás de mim. Quando o Inter 2 chegou, estava vazio, literalmente, zero passageiros. E eu a primeira. A porta se abriu e o ônibus era meu, podia sentar onde quisesse. Fui direto para a fileira de cadeiras individuais. O motorista foi dar uma volta, o ônibus estacionado, pessoas chegando e preenchendo os espaços. Quando o motorista estava voltando, a última pessoa a entrar no ônibus foi uma grávida, com um barrigão enorme. Ela veio direto do meu lado e praticamente colocou a barriga no meu rosto. Tive que oferecer meu lugar.

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Começou a chover quando eu paguei pelas compras. Era daquelas chuvas de final de mundo. Todo mundo parado esperando a chuva passar. Os carros passaram a estacionar praticamente dentro do supermercado. Eu me encostei no carrinho e fiquei pensando na vida, e mesmo assim levou muito tempo. Depois de uma meia hora já não entrava nenhum carro, as pessoas chamavam uber, a chuva parecia ficar mais e mais intensa, trovões e relâmpagos. Eu já estava com dor na lombar e cansada quando desisti e fui carregando minhas compras debaixo da chuva. A única coisa que eu torcia era que ela não acabasse no meio do caminho, seria humilhação demais. Fui andando nas ruas vazias, sem ligar pro banho, pensando que não era tão ruim assim. Aí quando estava quase em casa, uma quadra, enfiei o pé na grama e sujei de lama até a meia.

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Eu tento marcar todos os meus exames neste período em que o ano não começou direito, para ficar menos puxado. Mesmo assim, foi difícil marcar uma das ecografias, e pra ficar ainda no começo do ano, topei fazer o exame do outro lado da cidade, às 13:40, no mesmo dia que cortaria o cabelo pela manhã, horário que eu havia agendado no ano passado. A velha história do muito tempo pra ficar na rua e pouco tempo para voltar pra casa, e preferi voltar para casa. Comi uma saladinha às 11:30, e saí de casa pouco depois do meio dia. Três ônibus depois e muita ansiedade, cheguei  no laboratório com 5 min de atraso. Esperei por um encaixe mais de uma hora. Fiz o exame. Fui numa padaria comer. Peguei outros três ônibus para voltar. Choveu muito, a cidade estava um caos, e ainda assim estava quente. Cheguei em casa quase 18h, esgotada e grudenta.

Pequenos momentos de reveião

supermerado_caixa

O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

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Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

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Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

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Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

Curtas aprendizagens

trufas

Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

Chuva de diamantes

diamantes

Apareceu no meu Facebook esta informação, curtinha:

Netuno é o planeta que fica mais longe do Sol, são 4.503.000.000 km de distância do astro rei. A cor azul não tem nada a ver com oceanos, mas com nuvens de gás. Em Netuno ocorrem chuvas de diamantes, a atmosfera densa e a pressão podem alterar a estrutura química dos gases, fazendo com que parte deles se transforme em diamantes. (Página “O Universo – 19 de julho de 2015)

Eu curti com um coração, mas assim que fiz achei inadequado. Certamente não chovem lindas pedrinhas minúsculas da Tiffany e sim os pedregulhos mais resistentes do universo. A pessoa morreria com uma pedrada daquelas, e a pedra nem ao menos estaria brilhante. De qualquer forma, é uma imagem bonita e daria um bom título de livro estilo Sidney Sheldon.

Achei que a imagem combina bem com o momento que estamos vivendo. Está chovendo diamantes sobre o Brasil. E este blog espera encerrar por aqui a participação política.

A imagem de chuva de diamantes me faz pensar também na resistência que tenho a receber conselhos. Além da falta de confiança no julgamento da maior parte das pessoas, me parece que elas se deixam levar muito pela imagem. Que romântico encontrar escondido. Que divertido fazer escândalo em festa. Que demais gastar todas as economias numa viagem de sonhos. Quando busco o conselho de alguém, não quero que ela veja a circunstância como entretenimento e sim como é que vou conviver com as consequências pro resto da vida.

Curtas selvagens

cobras

Uma providência que não tem negociação e não esqueço jamais é, assim que esquenta, trocar todas as iscas de barata da casa. Vocês não sabem o que ter que enfrentar baratão lustroso em casa, sozinha, à noite, faz no psiquismo de uma pessoa.

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Eu comento com a moça que estava tirando o meu sangue de um trecho do Karl Ove, da moça que viu sua cobra de estimação deitada ao lado dela e na verdade a cobra a estava medindo pra saber se já era grande o suficiente para comer, e a moça me disse que ouviu uma história parecida, de uma cobra que deitava todas as noites ao lado da dona. Só que no caso do Karl Ove, a mulher se assustou na hora, porque a cobra passava o tempo todo enrolada, enquanto no caso que ela me contou a mulher dormia toda noite com a cobra. Devia pensar: “own, que fofa, ela me ama e vem deitar comigo”.

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Enquanto os vídeos de gatinhos e cachorros encantam muitas pessoas, eu tenho uma amiga a quem destino especialmente os videos fofos de outros animais, porque ela é vegana. O meu facebook me mostra muito vídeo de bicho. Aí ele me mostrou um de uma família que adotou um urso, coisinha mais fofa o filhote de urso. Ele cresceu e virou um amigão, termina com ele sentado e uma menina brincando com ele. O problema é que aquele programa de animais selvagens com a história do leão no apartamento, uma vez mostrou de uma mulher que foi morar num lugar bem gelado e fez amizade com um urso, colocava comida pra ele todo dia na janela. Adivinhem: um dia faltou comida fora e ele pegou a mulher. Vi o vídeo do urso com aquela sensação terrível de que a criança seria a próxima vítima.

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Eu estava vendo um vídeo de astrologia, e o indiano contou de uma experiência com a alimentação das vacas. De acordo com ele, mesmo se a vaca coma um alimento envenenado, quando eles vão examinar o leite dela, ele está puro. Que a vaca é um animal tão generoso, que ele consegue reter o mal para si e nos oferecer o melhor. Ele falou nisso quando falava do nakshatra de nome Pushya, cujo símbolo é o úbere, e este episódio demonstrava o quão generosos os nativos de pushya são. Aí ele fala da maldade que fazemos com os animais. E que quem quiser estudar astrologia védica deve, antes de tudo, amar e cuidar bem da natureza. Terminei o vídeo achando que então nunca poderei estudar astrologia védica direito.

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Antes, um ponto alto da existência da Dúnia (hahahahaha, meu animal selvagem) eram os ossos de chuva, um osso grande que fica num pote especial e só é aberto em dias de chuva. Começou a chover sem parar e no primeiro dia que fui dar o osso de chuva, ela fez aquela agitação antecipada e quando lhe entreguei o osso, foi uma expressão de “só isso” que vocês não imaginam. Agora tudo nessa casa tem que ser na base da salsicha.

Curtas possíveis

Não poderia ter tatuagem nem se quisesse, por ser alérgica, mas isso não me impede de ter tatuagens imaginárias. Uma grande tatuagem, na realidade. Tenho tanto ciúmes dela que nem vou contar como é pra ninguém imitar. Numa das variantes, ela tem uma frase, tirada de uma música francesa. Me disseram que na França ela é bem conhecida, porque Bourvil é como se fosse o Chaplin deles. O verso que eu escolhi diz que “entre escombros, eles dançavam”.

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Por outro lado, fiz uma única tentativa na vida de ler o Diário de Anne Frank e parei nas primeiras páginas. Ela tinha um jogo com as irmãs de imaginar o que fariam se pudesse ir pra qualquer lugar no mundo exterior, naquele instante. A noção de ter que arranjar estratégias para não se abater numa realidade tão pequena foi demais pra mim.

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Por influência do Milton, comecei a ler Karl Ove, um novo autor querido do mundo. O anseio dele se resume a querer “ser uma pessoa decente”. Ele foi descrevendo com tanto brilhantismo as coisas mais prosaicas, que até me animei – também sou prosaica, quem sabe um dia consiga escrever um livro assim. Aí no segundo volume (é uma série que terminou recentemente no sexto), ele faz um troço que, bem, não somos prosaicos do mesmo modo.

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O nível de decepção das pessoas com as pessoas me faz pensar que talvez eu viva há tempos num lugar escuro, porque ninguém me surpreendeu tanto assim.

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O Miguel Araújo lançou essa música agora. Só mesmo alguém longe, em outro país, vivendo uma situação totalmente diversa, pra escrever isto agora. Saudades de comentar amenidades aqui com todo direito e naturalidade. Saudades de ser leve. Saudades de me incomodar com minhas próprias picuinhas.

 

Curtas com pitadas feministas

elenão

Independente do resultado das urnas, depois destas eleições, candidato nenhum vai ousar ser machista. Um assessor vai impedir que publiquem, ele será falso e dirá frases decoradas, o que seja. O que vimos foi um desrespeito total e absoluto, tão grande e evidente, tão certo de que não teria consequências.

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Eu estava no ônibus, sentada, e quando ele chegou no terminal, uma moça que ficou do meu lado falou em voz alta para um rapaz, algo sobre que nunca acontecesse com a mãe ou irmã dele. Ele começou a chama-la de feia, dizendo ela que queria aparecer. Outra mulher levantou a voz, e disse que depois de tudo o que a moça havia passado o sujeito ainda fazia isso, que o marido dela o encheria de porrada se estivesse ali. O sujeito vestiu o capuz e se calou, sentindo o meu olhar e do ônibus inteiro contra ele. Uma cena dessas seria impensável antes.

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Comprei com amigas a camiseta “Lute como uma garota”. Como não foi só comigo, posso dizer: é uma experiência andar com ela. Uns aprovam, outros parecem lançar um olhar quero-ver-se-é-lésbica-abortista. Não sei se a associam com a Manuela D´Ávila ou sabem que faz parte de algo maior. Por outro lado, também dá muito orgulho sair com ela.

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Tô lendo a biografia do Churchill, culto, herói, divertido, aquilo tudo que sabemos. É um livro meio arrastado pela quantidade de detalhes. Não sei se ele muda de ideia depois, mas nas cartas que ele escreveu na juventude, ele é terminantemente contra o voto feminino, porque “elas podem dominar o mundo”. Deveríamos mesmo, viu.

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Apesar de tudo o que eu li e de tudo o que eu já sabia, foi uma experiência muito marcante pra mim ver o filme sobre as Sufragistas. Tem na Netflix. A gente não tem dimensão. O que Churchill, esse filme, o candidato e o movimento #elenão me confirmam é que quem não chora não mama. Não dá pra pedir gentilmente, esperar que se toquem e abram mão da sua posição confortável por nós. Nós, mulheres, aquelas que poderiam dominar o mundo e ainda estão caminhando para se enxergar como coletivo.