Formigas

Estou vendo um longo documentário sobre o Darcy Ribeiro e estudar a história desse homem é estudar a história do Brasil. São cinco episódios e estou no quarto. Agora, ele está com Salvador Allende. Antes disso ele já foi discípulo do Rondon junto com os índios, lutou com Anísio Teixeira pela escola pública, fundou a UNB, foi ministro da casa civil do Jango, estava lá quando ocorreu o golpe de 64 (offtopic: bastante angustiante acompanhar o golpe de 64 e relacionar ao que vivemos hoje. Nas semelhanças e nas diferenças), foi preso, exilado no Uruguai, na Venezuela, Chile e fez contribuições para a antropologia de todos esses países… Onde o homem punha o pé criava um agito, revolucionava, produzia. Vejo que ele foi um péssimo aluno de medicina, pois gostava muito mais do social do que da sala de aula e dou risada de mim mesma. Rio porque toda vida sempre fui CDF mas, ao mesmo tempo, eu achava que pertencia à mesma categoria de pessoas que o Darcy. Acho que todo xóvem se vê assim, ai de quem nos contrarie. Mesmo entre aquelas que ocupam cargos importantes e entram para a história, me parece que existem dois tipos de pessoas: as que se destacam e realizam um trabalho apenas por serem a pessoa certa na hora certa. Sua presença é circunstancial. Darcy é o outro grupo, muito mais raro do que se faz crer, de gente que você pode colocar em qualquer canto e vai se destacar, vai revolucionar e subir. É provável que eu e você nunca tenhamos conhecido alguém assim. Adivinho que tem que ser inquieto, extrovertido e definitivamente bom de papo. Novamente rio: tenho uma necessidade aguda – característica dos introvertidos – de sentir o ambiente, saber onde estou pisando; alguém com tanto cuidado com os sentimentos alheios e senso de adequação jamais seria um tipo desses. Claro que cada Darcy precisa de várias formigas para não deixar que seus planos se desvaneçam, tudo tem seu lugar no mundo. Apenas que a maturidade é assim: a gente não investe mais naquilo que não somos.

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Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

Um certo ar, uma certa cobrança

Uma ou outra dança é feita por alunos, com o objetivo de ter a vivência de tablado, o resto é dos profissionais. É na parte dos alunos que eu me encaixo. Cinco anos e duas escolas depois, eu sou conhecida o suficiente para saber o nome de todos, mas não o suficiente para termos uma história em comum. Fui uma das primeiras a chegar; sentei no chão e me maquiei na frente do espelho enquanto os outros vinham se arrumar também. As pessoas chegavam, se cumprimentavam, perguntavam das novidades. Os meios de dança costumam ter (não encontro o termo preciso. Bourdieu deve saber) uma valorização, um ar de juventude, felicidade e extroversão. No flamenco, claro, menos jovem do que no balé, mas ainda mais de extroversão. Uma coisa de chegar, sorrir, tirar fotos, falar alto. Sou tímida e não bebo, então minha contribuição costuma ser, no máximo, rir do que assisto. Naquela noite apresentação dos meninos, e como se pode esperar, são quase todos gays assumidos. Eu circulo, faço um comentário aqui e outro ali, vou pra fora com os fumantes sem fumar, como um pedaço de bolo, participo de várias conversas e nenhuma. Talvez pareça, pros meus outros amigos, que faço doce quando falo que não danço bem, mas no meio dos bambambans vejo claramente meus limites. Dias desses um cara que fez flamenco comigo deu uma festa e convidou vários “flamencos”. Soube daquela forma chata: “você vai na festa hoje?” “Festa?”. Alguns convidados trocaram menos palavras com ele do que eu, mas todos tinham em comum o fato de serem grandes bailaores. Não sei com que grau de justiça, ele me colocou naquela turma dos “nunca serão”, logo, pra quê puxar meu saco. Sou daquela turma que se não errar tá bom, que se propor a dançar tá bom, que já tem um “parabéns!” engatilhando assim que a gente sai do palco, porque já fez muito em apenas estar lá. Quando já estava quase na hora de entrar, todo mundo arrumado, maquiado e flamenco, fazem uma roda, ligam a câmera, todos somos convocados pra cantar e bater palmas. Não sei a música, não sei o porquê e nem pra quê, mas somos todos amigos, flamencos, nos bastidores, e ninguém pode ficar de fora. A câmera ligada, todos juntos, participativos, e minha colega de palco sussurra: “Estou me sentindo um peixe fora d´água”. Como eu a adorei naquele momento! Só então eu percebi o quanto me sentindo deslocada por não ser tão jovem, feliz e extrovertida quanto deveria.

Casa vazia

Eu passo muito tempo em casa e isso não é de hoje. E como sou uma pessoa introvertida, isso sempre me fez bem. Introvertidos têm a necessidade de recarregar as baterias depois de estarem acompanhados. A impressão que dá é que os extrovertidos se alimentam da companhia de pessoas, e quanto mais saem com pessoas, melhores e mais energizados eles se sentem. Para os introvertidos, por mais que a companhia seja boa, depois dá vontade de ficar um pouco sozinho, de assimilar. Senão ficamos chatos, mal humorados. A minha rotina de passar muito tempo dedicada às tarefas silenciosas, como escrever e cuidar das minhas coisas, têm me garantido ser uma companhia disponível quando tenho que estar com as pessoas. Até mesmo quando surgem programas, tenho conseguido ser uma pessoa disponível, porque estou sempre em dia com as minhas baterias introvertidas.

 

Só que agora é como se a rotina que tanto amei se voltasse contra mim. As mesmas coisas de sempre, os mesmos horários, o mesmo tempo disponível agora me parecem sufocantes. Parece que tudo isso fazia sentido apenas porque a solidão não era completa. No final da tarde ela seria interrompida, nos fins de semana ela seria interrompida. Quem tem uma companhia constante não precisa se preocupar em formar um grupo de amigos, em frequentar seus vizinhos, criar programas novos. Porque, mesmo sem fazer nada, eu sempre tive um outro ser que anda pela casa, que abre a geladeira, ou seja, alguém. Posso passar horas sem falar nada, mas no momento em que eu abro uma página ou vejo um vídeo engraçado, eu tenho uma audiência, alguém para dizer “quero te mostrar uma coisa”.

 

A minha rotina de sempre, a minha tão amada rotina, tornou-se de repente um motivo de terror. Quando penso no assunto – às vezes porque me obrigo, às vezes porque me despeço – o ansiedade sobe e me sufoca. Tenho medo de passar o dia inteiro sem ouvir outra voz, sem uma conversa, sem contato humano. Tenho medo de ficar igual a minha mãe. Agora me parece que tudo seria mais fácil se eu tivesse que acordar cedo, sair correndo, passar o dia fazendo coisas chatas, lidando com colegas de trabalho e preocupada com outras coisas. Que apenas no fim do dia eu chegasse em casa cansada e percebesse a casa vazia.

Síndrome Bellotti

Não entrarei em detalhes sobre o inspirador do nome, porque eu o conheço mais de fama. A Síndrome Bellotti é muito simples de ser compreendida e, de certa forma, muito comum.

Ela acontece principalmente em novos grupos. Todos desconhecidos, tímidos, sem saber direito como agir uns com os outros. Então, surge um sujeito que se destaca por sua extroversão. Espontâneo, falador, alegre, piadista, ele conquista a todos pela sua liderança natural. Enquanto todos estão retraídos, ele é aquele que fala o que precisa ser dito e representa seus amigos. Em pouco tempo, é o mais querido da turma.

O tempo passa. O convívio faz com que as pessoas se conheçam melhor, formem em pequenos grupos, descubram afinidades. Elas passam a gostar de uns do que outros. No entanto, todas têm uma coisa em comum: detestar aquele aquele sujeitinho, o portador da Síndrome Bellotti. Não que ele tenha mudado de atitude; aliás, esse é o problema da criatura. Todas aquelas atitudes que antes uniam as pessoas e mostravam uma liderança natural, agora mostram que, na realidade, ele é uma pessoa inconveniente, que não sabe a hora de ficar quieto, que quer atenção a todo custo, se acha melhor do que os outros… em resumo, é um mala sem alça.

Quando a coisa está num estágio avançado, as pessoas não o suportam mais. Mudam seus trajetos pra não terem que conversar com ele. Inventam desculpas. A voz, o jeito, as piadas… tudo que o sujeitinho faz passa a ser terrivelmente irritante. Daí para as pessoas combinarem seus compromissos em segredo pra não ter que convidá-lo é um pulo. Outra estratégia interessante é arranjar um motivo pra briga – então, cada um finge que está magoado/raivoso/aborrecido por causa disso e se livra desse aborrecimento.

{Estou numa situação assim. Será que se eu comprar um produto Natura e der o calote, a fulana pára de falar comigo???}