Curtas literários

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Game of Thrones acabou. Das maiores decepções que tenho ouvido foram os que torciam por ela, por ele, e os que queriam uma morte muito sanguinolenta pra uma mulher importante (vejam que estou tentando não dar spoiler). Eu descobri que não me frustrei porque não torcia por ninguém, e sim pela história. Torcia para ser surpreendida mas que, ao mesmo tempo, o autor tivesse tudo sobre controle.

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É muito legal descobrir o universo de um autor. No primeiro livro, você pensa: que fantástico, que imaginação sem limites. Não são sem limites, e ver os limites deles também é bacana. Amei o Problema dos Três Corpos de Cixin Liu e não consegui amar o filme (Terra à deriva) do conto dele, mas amei descobrir que uma das soluções típicas dele é viver dentro da Terra. Voltei a ler Dick e lá estão de novo os pre-cogs. É como ficar íntimo de alguém.

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A estatística no Kindle engana. Estava bem feliz lendo Harari, faltando uma boa porcentagem para chegar no fim do livro. Aí ele conta que medida duas horas por dia e o livro acaba. O resto são notas e referências. Fiquei tão chateada de ter lido o último Harari. Teria economizado se soubesse que estava no fim.

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Uma vez li algo sobre instrução espiritual, dizendo que a pessoa recebe uma e não têm prazo pra cumprir, nenhum erro ou punição, apenas não recebe a segunda enquanto não cumprir a primeira. Aí eu penso nos livros maravilhosos que indiquei e nunca foram tocados, e que eu mesma não perco nada com isso porque já li, e penso que faz todo sentido. Mas penso também, vingativamente, da pessoa lendo no leito de morte e pensando: se eu tivesse lido quando ela me sugeriu, teria feito TUDO diferente. (nunca acontecerá)

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Curtas do mesmo que seja eu

Adoro a história do Erasmo Carlos contando que não sabia que sua música era um hino gay até ser convidado para cantar no presídio feminino. Quando chegou no “você precisa de um homem pra chamar de seu”, a platéia foi abaixo.

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Lembro de uma amiga, que começou a namorar um estrangeiro mais de dez anos mais novo. Ele estava no Brasil há pouco tempo. Ela: “se não fosse o fato dele ser imigrante, se ele estivesse aqui há mais tempo, se estivesse numa situação melhor, se tivesse mais amigos…” todos os senões diziam a ela que ele não a teria escolhido. Mas quando a gente está tinindo na vida, por cima da carne seca, com todos os melhores candidatos à volta? Ela, por acaso, estava? Os dois hoje estão casados.

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Quem dança flamenco geralmente sonha em ir pra Espanha, e ocasionalmente até vai. E descobrem que os espanhóis não estão doidos para empregar estrangeiros para dançar a dança deles. Que lá a concorrência é feroz, que ser excelente é o básico. Mas aqui no Brasil não é assim – sou dedicada, mas também sei que comecei tarde, tenho um sapateado mequetrefe e tal. Mas é isso aí, flamenco brasileiro, é o que vocês têm pra agora. Na geração seguinte vocês poderão ser mais exigentes.

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Livros. Um dos sintomas que tenho quando um autor é muito bom é a vontade de parar de escrever. Pra ele é fácil e tudo sai maravilhoso, que graça eu, etc. O último é o Amoz Ós. Mas aí venho pro blog.

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Os chifres do boi

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No documentário O desafio de Rudolf Steiner, mostra umas fazendas com visões mais humanistas no trato com o gado e um fazendo explica que lá eles não cortavam os chifres do boi. Que um boi sem seus chifres fica despersonalizado, confuso, perde o contato com sua essência e por isso se torna mais fácil de dominar, o que é muito bom para a pecuária “comum”. Aqueles bois não, cada um era um, do seu jeito, com seus chifres e cientes de quem eram e o que queriam. Um bom desses quem sabe diria, se fosse gente, austríaco e extremamente talentoso:

As perfídias que me fazem tropeçar, que me desesperam e quase me enlouquecem a cada dia tornam-se ineficazes para mim, se consigo vê-las com clareza, assim como coisa nenhuma sobre a qual eu tenha clareza é capaz de me atingir, ou, menos ainda, aniquilar. Ter clareza sobre a própria existência, não apenas penetrá-la com o olhar, mas esclarecê-la no mais alto grau a cada dia – eis aí a única possibilidade de se haver com ela. Antes eu não tinha essa possibilidade de inferir no jogo diário e mortal da existência, não tinha nem o entendimento nem a força necessária para tanto; hoje esse mecanismo se põe em movimento por si só. (….) Ouvi tudo, não segui coisa nenhuma. Continuo experimentando ainda hoje: não saber no que vai dar é algo que fascina o solitário que voltei a ser. Há tempos não pergunto mais pelo sentido das palavras, que só fazem tornar tudo mais incompreensível. A vida em si, a existência em si, tudo é lugar-comum. Quando nos lembramos do passado, como faço agora, as coisas vão pouco a pouco se resolvendo por si mesmas. A vida toda convivemos com pessoas que não sabem nada sobre nós, mas afirmam constantemente saber tudo; nossos parentes a amigos mais próximos não sabem nada, porque nós mesmo pouco sabemos sobre nós. Passamos a vida inteira nos investigando, vamos sempre até os limites dos nossos recursos intelectuais, e desistimos.

Thomas Bernhard/ Origem, p. 306 – 307

 

Confessional

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Há um episódio dos Simpsons – eles não previram tudo? – em que o Hommer começa a dar aulas à noite, e para tornar as aulas interessantes ele começa a falar da vida conjugal dele com a Marge. A turma era toda de adultos e ele consegue atenção imediata. Um dia ele está no supermercado com a Marge, encontra um dos alunos e ele fala da tintura de cabelo dela. Marge fica chocada, pra todos os efeitos ninguém sabe que ela pinta o cabelo. “Hommer, você anda contando nossas intimidades por aí?” “Olha, ela ficou nervosinha. Lamba o cotovelo dela…”. Ela lhe pede pra parar, ele promete, mas aí chega na aula e ninguém presta mais atenção nele. Aí ele: “Vou falar de um caso que eu ouvi falar, digamos que um homem chamado H, casado com uma mulher a quem chamarei de M…”

Um dia me queixei a um amigo escritor que eu só sabia falar de mim mesma, e ele me disse que, em maior ou menor grau, todos os escritores só falam de si mesmos. Mas eu gostaria de não pertencer ao mesmo time que o Hommer.

Imortais

Se eu vivesse eternamente, como os vampiros, o que faria? Na época que gostava do tema – Anne Rice, novela Vamp, Drácula de Bram Socker, Crepúsculo… acho que toda geração tem seu vampiro referência – minha resposta era fácil: aprenderia piano. Tentei aprender piano, amava tanto e era tão ruinzinha. Não tinha nem vinte anos e já estava velha demais, não tinha mais tempo pra sonhar em ser concertista. Para isso, eu precisaria ter começado pelo menos dez anos antes, numa idade que nem seria eu a escolher. Se eu fosse vampira, poderia sanar a educação musical que não tive na infância. Que eu precisasse de vinte, trinta, cem anos pra finalmente conseguir fazer os meus dedos entenderem as teclas, eu o faria. Nessa mesma época eu também achava que até chegar a idade de eu ficar velha, a Ciência teria avançado o suficiente pra evitar isso – evitar que meus cabelos ficassem brancos, que o meu corpo perdesse a vitalidade, que meus hormônios diminuíssem. Não avançou, não avançará.

Já Borges, muito mais inteligente do que eu, imaginou os homens eternos como bárbaros entediados. Depois de experimentar todos os sabores e todas as experiências várias vezes, nenhuma mais teria graça.

A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. (O imortal/ O aleph)

Eu vejo o que o tempo e a prática faz em mim. A gente vai pegando o jeito, os cacoetes, absorve e aprende mesmo sem querer. Só de estar junto e de ouvir falar, de fazer de novo e de novo, vai se tornando outro, aumenta o repertório. Nesse ponto, continuo achando minha teoria corretíssima: com todo tempo do mundo, daria pra ser bom em qualquer coisa.

O talentoso é gente como Liniker, aquele que precisa de pouco tempo. É quem aos dezenove já tem a voz, jeito e projeção que outros levam décadas pra construir. Somos dois gráficos que caminham em direções opostas: uma expressão que cresce, uma vida que decresce. O desafio é o que se consegue fazer no intervalo.

 

Gostosinho

 

Amigos: a leitura de João Ubaldo Ribeiro somado a um documentário do espetáculo 21 do Grupo Corpo, me levaram a uma importante descoberta filosófica. O grande segredo do bem, da arte, da felicidade e do Divino podem ser resumidos numa só palavra: gostosinho. Os religiosos apegados a noção de pecado colocarão o valor no outro lado, no desprazer; há um prazer masoquista no desprazer, mas mesmo ele é limitado. Basta uma distração e pronto: rumamos saltitantes para o gostosinho. Como a diferença de fazer exercício porque é importante e encontrar um esporte que realmente tenha a ver com quem somos. Outros, radicais no sentido oposto, podem dizer que gostosinho é pouco, que bom é o gostosão, intenso, orgástico. O problema é que parece que nem fisicamente somos preparados para isso, e nada do que é intenso dura muito. É como o desejo que aos poucos se transforma em amor, e todos sabemos que amor é gostosinho. Nem a comida gostosona nos atrai – dois dias de restaurante e já ficamos doidos pra comer uma comidinha caseira gostosinha. Sei que há trabalho exaustivo ali, mas quando vejo o Grupo Corpo dançando me parece tão gostosinho, tão fácil. Fico vontade de estar lá, saltitante no meio deles. Leio João Ubaldo e ouço um baiano falando, como se fosse uma transcrição, de tão gostosinha e fluida que é a narrativa. Os relacionamentos, a vocação profissional, a saúde, o estar bem consigo mesmo – o estado mais desejável de todos eles é o gostosinho. E não é quando as coisas deixam de ser gostosinhas que sabemos que está na hora de mudar? Larguemos todas as outras crenças, irmãos-leitores, e vamos tentar fazer da vida um dia ensolarado e ameno, numa rede, acompanhados de água de côco e a voz doce da Salmaso de fundo. Ou seja, gostosinho.

Gente-personagem

Talvez pela escrita ser tão importante na minha vida, eu realmente nos vejo como personagens literários. Cada um, inclusive, tem sua nota fundamental, aquela que permeia todas as suas ações e serve de título da obra. Uns têm vida recheada de casos amorosos, outros de reviravoltas financeiras, uns galgam um a um os degraus do sucesso, enquanto outros já nascem com tudo e abandonam para se tornarem Budas… isso para não falar dos proustianos, que precisam apenas do cheiro de bolinhos para sentir tudo com muita intensidade. Então não sei, realmente, como formular uma regra para a vida. Não sei se existe uma solução definitiva, por mais bacana que ela pareça, seja Deus ou carpe diem. O que eu intuo é que protagonistas – e todos somos, pelo menos para nós mesmos – não são para nascer, crescer, casar, ser feliz para sempre e morrer. É o que a gente tenta, não é? Talvez gente-personagem seja feita para quebrar, cair de cara no chão, experimentar pelo menos uma vez a solidão profunda. Avançar velozmente e se descobrir errado, fugir e dar de frente com o próprio destino, como Édipos. Quem sabe a maior tragédia não seja o sofrimento, e sim não saber qual deles abraçar.

(Esta versão, sem legenda, é mais legal)

Eu quero

Acho que foi na entrevista da Nélida Piñon, no Roda Viva, que questionaram do porquê, para entrar na Academia Brasileira de Letras, é preciso se candidatar. Com tanto escritor bom por aí, que nunca concorreu, e a Academia aceita nomes questionáveis, como do ex-presidente José Sarney. Mais coerente seria a Academia convidar grandes escritores para entrar, ou para concorrer. Aí ela disse (ou teria sido Ubaldo?) que é importante que a pessoa queira e assuma esse desejo. Não sei se ela tem razão no que diz respeito à Academia, mas como é diferente dizer: Sim, eu quero.

Sim, eu quero dançar um solo. Sim, eu quero ser escritora. Sim, eu quero amor.

Últimos livros

Tenho sentido dificuldade de escrever aqui. Ironicamente, acho que um dos motivos é que eu tenho lido muito. Como se eu estivesse gastando minhas histórias com o vocabulário (e imaginação) alheios. Peguei quase ao mesmo tempo, todos na biblioteca:

Um certo capitão Rodrigo

Foi engraçado, porque me dirigi diretamente ao catálogo e antes que pudesse folhear, me perguntaram que livro eu queria. Pedi Érico Veríssimo e ouvi que os livros ficavam ali, “mas apenas o mais antigos, porque os novos estão entre os mais lidos”. Estranhei tanta popularidade, pensei que fosse por causa de algum vestibular. Quando vi, tinha sido levada à estante de Luís Fernando Veríssimo.

Resolvi dar uma nova chance ao Érico por causa deste post. A edição que emprestei tinha uma introdução interessante sobre o ato de escrever, numa hipotética conversa do autor consigo mesmo de épocas diferentes (um recurso que o próprio Milton também gosta muito de usar). Lembrei bastante do Crônica de uma morte anunciada, por ser um livro que a gente não se pergunta o quê e sim como acontece o fim. Achei o Capitão apaixonante e fiquei com aquele gostinho de quero mais para ler O Tempo e o Vento.

Budapeste

Terminei agora há pouco. Outro que peguei motivada por um post do Milton. Lia um capítulo e parava. É uma leitura que absorvente e depois eu precisava de um pouco de ar. Com relação à forma e construção da narrativa, é genial – o que me desanima bastante com a adaptação dele em filme. Certos livros têm na maneira de descrever a sua beleza, não tem jeito. Basta pensar no crime que A insustentável leveza do ser fez com o livro.

Sobre a história, ela gira toda sobre o tema do duplo – uma vida dupla, uma cultura dupla, o que é ser o duplo do outro. Fiquei bastante mexida com a questão da obra, do reconhecimento, da questão autoral. Acho que todo artista já se sentiu meio ghost writer. Lembro de David Shayne, em Tiros na Broadway, angustiado com a questão: a quem você ama, a mim ou à minha obra?

Xamã, a história de um médico do século XIX

Eu peguei e quase não peguei. Me proponho a ler autores de best seller e ao mesmo tempo os rejeito. Não sabia que era parte de uma trilogia, que começa com O Físico. É um bom livro mesmo. Sem inovações mas com uma história bem feitinha e envolvente. Fiquei com a impressão de que todas as gerações da trilogia se debatem com as mesmas questões: o desejo de fazer o que é correto, que obriga o sujeito a entrar em conflito com a sociedade. Tenho o meu lado Birobidjan e me identifiquei. Não consegui terminar o livro porque quando fui à biblioteca renovar, tinha esquecido a carteirinha dentro do Budapeste. Mas terminarei assim que esbarrar nele de volta.

5 personagens marcantes

Já que faz tempo que ninguém me envia um même, inventarei um. Vou colocar aqui 5 personagens da literatura que, de alguma maneira, foram marcantes.

A eleição de personagens já retira da lista alguns livros bons. Em autores como Saramago ou García Marques, há uma grande história faz com que os personagens sejam coadjuvantes. Ou no caso do Kundera, eu classificaria todos os personagens como marcantes e me sentiria injusta de escolher apenas um. Com Dostoiéski, me vejo um pouco em cada um, como se fossem arquétipos. E se tivesse lido Camus há menos tempo, provavelmente ele estaria na lista, mas agora não sei citar ninguém dos livros dele em especial.

Feitas essas ressalvas, vamos à lista em si:

5º lugar: Marley
Um dia eu vi na livraria a edição especial com fotos do Marley que não aparecem na edição comum. E me emocionei lá, de pé. Fui no Youtube procurar por ele, olho pra todos os da raça dele com mais simpatia. O livro nos faz amar o Marley como se fosse nosso – e amar ainda mais o cachorro que temos ao nosso lado.

4º lugar: Liesel
Como pode uma criança sofrer tanto e seguir em frente? É como se a resposta pra ela pudesse garantir que a gente também consegue ir em frente apesar da morte e da dor da separação. Dá vontade de pegar a Liesel no colo e levar pra muito longe…

3º lugar: Brás Cubas
“Se bela, por que manca? Se manca, por que bela?” Como não gostar do cínico e verdadeiro Brás Cubas? Só mesmo quem gosta de se ver muito melhor do que realmente é. Eu li o livro e me perguntei se eu não seria como ele e não estou sabendo.

2º lugar: Capitão Birobidjan
“Iniciamos agora a construção de uma nova sociedade” – essa é a máxima do Capitão. E é repetida durante o livro inteiro, porque é difícil construir sozinho. Sem dizer que o livro é muito engraçado. Não sei se pela teimosia, pelo ideal marxista, pela persistência em tentar levar sentido pra tudo o que faz… fiquei encantada com o Capitão e agora vivo querendo iniciar a construção de uma nova sociedade também.

1º lugar: Orlando
Por fora, a vida de Orlando muda de maneiras que ninguém conseguiria. Muda de idade, gênero, atividade, vive centenas de anos… Por dentro, Orlando tem um olhar apaixonado pela vida – às vezes melancólico, outras vezes divertido – algo que parecia não existir fora de nós. Anos sem importância podem ser resumidos em uma frase, enquanto uma paixão pode consumir capítulos inteiros. Orlando é o meu amor literário da minha vida.

Eu passo a bola pra: Imagens, DoritosBaka, Alessandro Martins, Rota de Fuga e Pseudoblog.