Descrição

coração e cérebro

Uma amiga, nesses meios ultrasensíveis de entender as pessoas, me definiu como alguém que tem por objetivo estar cercada de afeto. Eu jamais teria pensado em mim mesma nesses termos ou de descrever isso como um objetivo mas, de fato, já deixei de lado situações que me dariam status, dinheiro, etc, porque estar naquele meio não me agradava. Não agradava também os outros, mas eles se mantinham lá em vista do que aquele contato podia render, nem que fosse apenas no Lattes. Sempre preferi posições menos vantajosas com pessoas que me faziam bem. Quem diria que sou carpe diem – expressão que eu sempre associei a festas e putaria.

Declarações de afeto

amor

Tenho pudores pra fazer declarações de afeto em público. De um lado, as pessoas soltam “eu te amo” com facilidade, com contatos que tenho tão claro que são circunstanciais que me dá até vergonha. Por outro, tenho alguns amores grandes e importantes e não falo. Minha esperança é que eles sabem, que leem nos meus gestos claríssimos de atenção a sua importância na minha vida. Dizer na cara me constrange, porque qualquer dito profundo e verdadeiro é sempre um momento que impõe silêncio. Pior ainda – seria tão típico! – eu seria capaz de começar a chorar. E falar pro mundo, em posts e comentários, eu acho complicado. É complicado que eu fale de “uma das pessoas que eu mais amo e admiro no mundo” e se eu usar o feminino e você for homem, vai ficar claro que não é você; se eu te falar da pessoa pra você, vai ficar claro que não é você. E saber que existe alguém, que não é você, que eu amo e admiro muito vai doer. Vai sim, nem que seja apenas no orgulho. Nem que você não me ame e admire. Porque é humano, e queremos ser sempre os mais amados e admirados por todos o tempo todo. Quando é o nosso, sabemos que amor é uma fonte que não se esgota, que é possível amar ao mesmo tempo várias pessoas, que o amor de uma nada interfere ou esgota o amor da outra, que é possível até, cafajestamente, amar no sentido apaixonado e sexual várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma por seus gestos e qualidades únicos. Mas, quando estamos no outro lado, qualquer amor dado ao outro soa como amor roubado, amor que deveria ser nosso, amor que não existe e deixa uma indiferença fria e vazia. Fora isso, tem os amores que claramente não nos pertencem, e que não nos façam a crueldade de nos jogar na cara – o escritor que viveu no século passado, o crush que voltou com a ex, a professora que nos coloca para dançar no fundo, o amigo que amamos e admiramos e nos não convida para suas festinhas. Não quero ninguém triste no cantinho, que é como me sinto quando vejo essas coisas. Da minha parte, gosto tanto que meus afetos já saíram da esfera de pessoas e animais de estimação e têm se expandido para espíritos, planetas, grãos de café. Vou entender que são todos tímidos, que todos me amam e se declaram na sua atenção e importância pra mim.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Um problema de

“Também, você é muito difícil, eu levei meses puxando papo até você começar a falar comigo”. Eu não respondi nada, porque na verdade aquilo não foi porque eu sou difícil. Tá, eu sou difícil, mas não tão difícil. No caso dela, assim como no caso de outras pessoas, eu tinha uma reserva, uma intuição, que me impediam de querer a sua presença. E minhas intuições quase sempre se mostram verdadeiras. Assim como existem os casos contrários, pessoas que não me fizeram nada e que já amei logo no primeiro contato. Tem umas amizades que são construídas, mas tem aquelas que mais parecem um lembrar do que um começar. Para citar uma, apenas um exemplo – porque se eu começar a falar de quem é assim, posso dar a entender quem não é -,  tem a Silvia. Nem eu sei explicar minha afinidade com ela. Mais nova, curte metal, flauta doce, boxe, tatuagem, rochas. Aparece em Curitiba uma vez a cada três anos, me avisa, ficamos algumas horas juntas e é como se fosse minha vizinha. E não é que com ela eu tenha conversas que eu não tenho com ninguém, não somos confidentes nem nada, é normal. Mas, sei lá, vou demais com a cara da Silvia.
Então eu vejo que posso gostar demais da ficha de um sujeito. Posso amar suas ideias, suas camisas, seu avatar, seu Instagram. Os amigos em comum podem falar que ele é ótimo, nosso senso de humor é parecido e temos tanto em comum. Sua escrita pode ser fenomenal e sem erros de português, os seus livros podem ser os meus livros. Vai ver que, como nos filmes, a gente só não tenha começado porque ele costuma sair dos lugares minutos antes de eu entrar. Mas mesmo assim pode não ser. Eu preciso sentar – de pé é mais desconfortável – diante dele e olhar nos seus olhos. Ele pode ter tudo e ao mesmo tempo não. Ou pode não nada e sim.

Um café

Às vezes eu tenho essa impressão, ou quem sabe ilusão, de que tudo se resolveria num café. Que se sentássemos numa mesinha redonda e pequena, daquelas onde não cabem mais do que duas xícaras e o açucareiro, e se nós dois pedíssemos cada um o seu café – eu um carioca, e você não sei qual – que eles viriam pelando, acompanhados de uma mini-bolacha amanteigada, quem sabe uma água com gás. E estaríamos sem graça, com tanto barulho em volta, o cheiro delicioso de café, as pernas mal acomodadas e a obrigação da gentileza. Na minha cena, o simples fato de olhar nos olhos e sem intermediários nos tornaria também sem subterfúgios. E a boa vontade mútua e vontade de ficar em paz nos faria resolver tudo. Você veria que eu sou uma pessoa legal, escondida eu sei pela aparente antipatia dos tímidos. Em um certo momento – não sei se na hora de sacudir o saquinho de açúcar ou aceitar a tua bolachinha amanteigada – você perceberia que não tenho nada contra você, muito pelo contrário, até te gosto. E no final dos nossos ml já seríamos chegados como se nada um dia tivesse sido diferente. Porque aqui dentro não é diferente.

Oi e beijinho

Se não me falha a memória, a Nadine tinha quatorze anos quando a conheci fazendo flamenco. Era a caçula da turma. Cada vez que errava, ficava tão irritada consigo mesma que quase chorava. Aí começava a errar mais ainda e ficar irritada com seus próprios erros, num ciclo vicioso.

 

Lembro de uma aula, acho que logo depois das férias ou de um período de sumiço dela, que eu estava fazendo aula e a Nadine surge. Quando me viu, ela gritou o meu nome e atravessou a sala correndo pra me abraçar, porque estava com saudades.

 

O tempo passou e eu até mudei de escola. Por causa dessa mudança, fazia bem mais de um ano que não nos víamos. Eu acompanho a vida dela de longe, virtualmente, e sabia que ela estava namorando sério faz tempo e que acabou de passar no vestibular de direito, bem o que ela queria. Ela também saiu da escola de flamenco, provavelmente pra poder estudar. Senão, ela estaria dançando no espetáculo, onde nos reencontramos, ao invés de estar na fila.

 

Ela estava com o namorado e os pais, que eu também conheci naquela época. Desta vez fui eu que chamei pelo nome dela, de longe. Ela me olhou, me disse Oi e me deu um beijinho no rosto. Depois me apresentou ao namorado. Tudo tão adulto, tudo tão civilizado.

Pode ser que o afeto continue o mesmo, mas antes era tão mais bonitinho…

Curtas queridas

Antes eu pensava que precisava gostar de rock pra me aproximar de quem gosta de rock, entender de carros com quem gosta de carros ou de cinema para com os cinéfilos. Não é assim que funciona. Há poucos dias vi uma abordagem dessas, onde um grande apreciador de flamenco se aproximou de pessoas que estão num nível alto de flamenco, e chegou conversando loucamente sobre flamenco. Veredicto: que mala! Esses fanáticos são muito malas. Hoje faço justamente o contrário: não falo do que a pessoa é especialista. Já pensou que chata que deve ser a vida do professor Pasquale, com todo mundo querendo discutir regras gramaticais com ele? Ou do Rubens Edwald Filho, com todo mundo querendo discutir cinema? Especialistas, apesar de especialistas, gostam de outras coisas também. Mais: falar com eles sobre o que eles sabem é pedir pra falar besteira.
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De vez em quando a vida nos dá o privilégio de assistir aos conflitos alheios como quem assiste uma novela. Quando a gente conhece todos os envolvidos é muito difícil atribuir razões e erros. Um lado está insatisfeito porque existe uma ordem, uma hierarquia, que diz que as pessoas que estão há mais tempo merecem mais consideração. Mas existe também o outro lado, que já foi prudente um dia e esperou que seu talento fosse reconhecido; não foi, então pra não ser vítima de novo desta vez resolveu fazer diferente e cobrar seus direitos. Conseguiu, mas desagradou a todos. Numa situação, foi a vítima, cheia do carinho e solidariedade que se tem com os que são jogados para escanteio; na situação atual, é a pessoa mais odiada, que passou por cima de todos e foi colocada num lugar acima. O que eu tenho a dizer, vendo de longe, que ser vítima é ruim, ser vilão também é ruim. O ideal mesmo seria

 

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Dias desses a Regina disse que se sentia enganando as pessoas que viam nela uma pessoa calma. Eu me sinto enganando um monte de gente de direita, branca, bem nascida, convencional, destatuada e hetero que me tem carinho porque vê em mim uma delas. Não que eu não tenha quase todas essas características por fora. Só que, diferente dessas pessoas, eu não acho que tais coisas me definem, não procuro me relacionar apenas com quem as tenha, entende? Quem me conhece sabe, quem lê os sinais sabe que meu coração vibra diferente. Meu coração recita o Cântico Negro.

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração

Você se conhece. Você fez terapia durante muitos anos, você ainda faz terapia. Você conhece suas neuroses, pra que lado elas caminham. Conhece sem a menor dúvida o seu padrão do eneagrama. Sabe o que dispara as suas inseguranças e o que elas fazem quando fogem pela rua. Conhece os seus buracos, sabe as coisas que ele lhe leva a falar e a sentir. Sabe que é necessário segurar a onda para se reequilibrar. Lida com essas coisas desde sempre. Mas diga: quando a neurose é disparada, o padrão retorna, os bichos internos fogem pela rua como gremlins molhados – todo esse conhecimento adianta alguma coisa? Adianta alguma coisa? Não adianta nada. Você fala e sente tudo como se fosse a primeira vez.

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Ouça o seu coração. Listen to your heart. Mas e o que fazer quando o teu coração te levou para um caminho totalmente anti-econômico e depois se queixa de ter uma existência dependente; quando o seu coração quer mudanças, mas fica apavorado em fazer as mudanças que ele mesmo exige; quando o seu coração quer e ao mesmo tempo não quer o que ele deveria querer, ou quem sabe queria tantas coisas que elas simplesmente não podem coexistir no mesmo tempo e espaço. Eu tento coração, mas você não facilita.

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Você é afastado das pessoas, pelas circunstâncias. Aí elas se afastam de você. Depois, você se afasta delas. E as conversas que antes eram diárias passam a ser apenas uma vista de longe, uma stalkeada, uma lembrança. Depois, nem isso. Você deixa de falar nelas, de saber delas, de querer vê-las. Elas passam a se reunir entre si e você percebe que também deixou de fazer parte do mundo delas. Com o tempo pára de doer, porque você deixa de se importar. Elas passaram a ser apenas um nome. Depois que acontece tudo isso, no estágio branco e limpo que vêm depois da mágoa, vocês se reencontram. Você nem queria mais revê-las e fica surpreso pois é ótimo. Aí você se lembra do porque ter doído tanto: eram pessoas realmente bacanas, cujo afeto te faz falta.