Numa fria

“Eu não acredito que você me meteu nesse tipo de fria, de novo!”, disse eu para mim mesma. No caso, o de novo era estar de sapatilha e meia calça rosa, cercada por adolescentes vestidas da mesma forma. É, a vida da gente tende a girar sempre em torno dos mesmos temas, e tantos anos depois me vi vestida de bailarina de novo. Eu não sei como são as outras pessoas, mas eu discuto comigo mesma e com o Universo – outros chamariam de Deus – o tempo todo. “Cala a boca e presta atenção”, eu teria dito a mim mesma, mas o lado para quem eu reclamo não costuma verbalizar tanto. Ele manda e eu obedeço. “Presta atenção”, porque se de um lado eu me sinto desconfortável, de outro é a disponibilidade de me meter nessas frias que tem me enriquecido. Nelas eu relembro o quanto o mundo, os sonhos e os caminhos são variados. Se o mundo nos parece sempre igual, é única e exclusivamente porque escolhemos o igual.
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O passado é uma roupa que

Ainda não sei se superei o minha insegurança diante de pessoas que admiro muito. Naquela época, mal começando a fazer balé, sem dúvida não tinha. Cada vez que a Cíntia vinha falar comigo, eu tremia nas bases. Ex-primeira bailarina, coreógrafa, professora, uma mulher doce e incrível, muito respeitada na área. A turma que eu entrei teoricamente era de básico, mas vinham alunos avançados, porque ter aula com a Cíntia era aula com a Cíntia, acima de qualquer discussão. De modo que de básico mesmo eu era a única. A mais tongona da turma, pra aumentar a minha insegurança. Durante algumas semanas ela veio dar aulas de muletas. Ela contou como é que foi:
– Eu estava andando na rua, aqui perto. Fui atravessar, não vi direito e pisei em falso, perdi o equilíbrio perto do meio fio e virei o pé. Na hora eu sentei na calçada e ia começar a chorar. Aí eu lembrei que não sou mais bailarina e agora eu posso torcer o pé.

 

Esse é o meu sentimento quando vejo uma discussão acadêmica. Em alguns o academicismo cai muito bem. Em mim pinicava demais.

Sonho

Eu amava estudar piano, ou pelo menos achava que amava. O parco salário que eu recebia pelo estágio ia quase todo para isso. Mesmo inconfessável, meu sonho era ser quase uma concertista, eu queria ser profissional. Eu adorava partituras e todos os símbolos que as lembrassem; gostava de sentar na frente do piano, gostava da sensação dos meus dedos nas teclas. Eu amava – e como amava! – ser pianista. Só que as aulas, em si, me deixavam tensa. A minha professora era a dona da escola, por isso era comum aulas serem transferidas, ou depois de passar uma semana fora o meu horário não existir mais. Se fosse contar rigorosamente, ela me devia alguns meses de aula. A tensão não era porque ela fossem má, e sim porque eu ficava muito nervosa. Ficava nervosa em tocar pra alguém, com músicas novas, com Bartók, com andantes, com meu próprio desempenho, com tudo e qualquer coisa. Eu era mais feliz como pianista quando estava fora do piano.

Foi quando comecei a dançar que eu entendi o que me acontecia. Das várias que sonhavam em serem bailarinas e não gostavam das aulas, o caso mais exemplar era o da Rosana. Ela já era mãe e tinha começado a dançar na igreja. Era uma daquelas pessoas que não teve oportunidade de fazer ballet na infância. O seu perfil do orkut era cheio de fotos de bailarinas, com pernas no céu e legendas “eu chego lá”. Todas as pessoas à sua volta sabiam desse seu sonho. Quando estudamos juntas, ela pretendia fazer vestibular pra dança. Só que durante as aulas, era ruim. Pra começar, ela era bem encurtada e no ballet alongamento faz toda diferença. Assim como as suas crenças, ela tinha movimentos muito rígidos. Faltava graça, faltava dança no que ela fazia. Perceber isso a deixava frustrada – aí ela se cobrava e ficava mais rígida ainda. A escola trocou vários professores no nosso horário e ela acabou indo embora por causa disso. Porque ela sentia muita vergonha de dançar na frente de um estranho. E porque cada professor tem uma metodologia própria e ela não lidava bem com essas mudanças.

Mesmo quando familiarizada com o professor, a Rosana faltava muito. Quando voltava, era sempre um excelente motivo, coisas inescapáveis aconteciam quando ela estava a caminho no ballet. Um dia ela me falou que não foi pra aula porque precisaram da ajuda dela na igreja, pra conversar com um casal em crise. Quando já estava tarde demais pra ela vir, a pessoa ajudada disse “Puxa, você está perdendo aula pra me ajudar. Eu sei que é o seu sonho, o quanto a aula é importante pra você”. Ela respondeu modestamente que aquilo não era nada… E não era mesmo. Nem sempre nossa realidade está à altura dos nossos sonhos.

Grand jeté

O grand jeté é um dos símbolos do ballet. Ao ver a imagem de uma pessoa voando assim, pensamos no ballet e das coisas impossíveis que só os bailarinos são capazes de fazer. Dá a impressão de que há cabos escondidos em algum lugar. É difícil imaginar o que leva um ser humano, antes igual aos outros, se tornar capaz de saltar daquele jeito.

Imaginem, então, o meu susto, quando no meu primeiro dia de aula de ballet a professora nos pediu para dar um grand jeté. Ou melhor, vários, atravessar a sala com grand jetés. Eu e as outras meninas nos olhamos com cara de cuma?, mas era isso mesmo. Ela disse que o princípio era o mesmo de saltar uma poça d´água. Que deveríamos tentar saltar o mais longe e alto possível. Pra facilitar (ou não), ela espalhou vários objetos no chão e tínhamos que saltá-los. Esse foi um dos momentos “onde é que eu fui amarrar meu burro” da minha vida. Foi o ponto alto de um desconforto que iniciou com a própria preparação pra fazer ballet. Quando fui comprar meu collant – do modelo e marca mais simples o possível, pro prejuízo não ser grande caso eu não ficasse – a vendedora me perguntou se era pra minha filha. Meio uma criança, mais precisamente como um bebê gigante, que eu me sentia cada vez que vestia aquilo. Minhas colegas de ballet eram adolescentes e a própria professora daquela turma mal tinha saído da adolescência – fato que me acompanharia em quase todas as turmas que frequentei.

O salto em si foi… chinfrim. A perna não abriu muito, não saltei alto e a vontade de fazer direito me fez contrair os ombros e ficar com os braços duros. Saltei com a mesma graça e leveza que você saltaria aí na sua casa. De grand jeté ficou a intenção. Para coroar meus esforços da pior maneira, fui a única que ficar no final da aula pra ver se conseguia saltar com a perna esquerda pra frente. Simplesmente não ia, meu corpo não “saltava poça” com a esquerda no comando.

Essa foi a primeira de uma série de vergonhas que eu passei (e ainda passo) desde que decidi dançar. Quando parava de passar vergonha numa turma, sinal de que já estava na hora de ir pra uma mais adiantada, pra passar outras vergonhas, vergonhas mais difíceis e sofisticadas. O corpo aprende mais devagar do que a cabeça; é preciso repetir até ele entender. E repetir começa com o tentar. Juro que já vi professor contendo o riso depois de eu ter feito algo especialmente desajeitado. Assim como eu reparo no que os outros fazem e comento, é claro que reparam e falam de mim também. Todo mundo nota, mas todo mundo também foi ridículo quando começou. Existe um respeito por todos que tentam com sinceridade. Foi no ballet que eu aprendi que não há nenhum problema em errar, em passar vergonha ou em repetir milhões de vezes. A única coisa imperdoável é desistir de lutar.

Um convite especial

O Luiz não entendeu nada quando eu contei, feliz da vida, que seria uma das reponsáveis pela minha escola na Mostra Paranaense de Dança. Não sei porquê eu fui convidada; tenho a impressão de quem tem a ver com o fato de eu estar sempre online, pois o convite veio imediatamente depois de eu ter mandado um e-mail pra minha lista. “Mas você vai dançar?”, ele quis saber. Eu não apenas não vou, como precisei pagar 15 reais de inscrição, comprometi um dia do meu fim de semana e mais uma noite pra assistir o ensaio geral. Aí que ficou totalmente sem sentido, porque ele sabe que essas coisas levam o dia inteiro e são muito cansativas. E eu nem ao menos terei a prazer de pisar no palco.

A questão é que esse Festival é algo da qual eu ouvi muito falar. Faz parte do meu passado com o ballet. Na última escola onde eu fiz ballet, a preparação começava em fevereiro. Era o evento do ano. A apresentação de fim de ano era uma coisa mais pra família, pra constar, porque o importante mesmo era a Mostra. Quase todo mundo dançava lá, nas coreografias de ballet, com os tutus, as pontas e tudo o que o ballet de repertório dá direito. Menos eu. E não apenas porque eu era nova ali. Eu poderia passar o resto da minha vida na escola, que eu sei que elas jamais me deixariam dançar. Não lá, num evento representando a escola. Não ballet clássico, não com mais de trinta anos e pesada. O máximo que me seria permitido era comprar ingresso e torcer com os outros, na platéia. Nunca deixei de sentir que minha presença se devia unicamente à mensalidade paga em dia, que me faziam um grande favor. Eu fazia aula todo dia e dava o máximo apenas porque era louca, porque se nem quisesse aparecer tudo bem também. Alias, seria até melhor. Tanto que ninguém se deu ao trabalho de querer saber porquê eu saí.

Domingo reencontrarei o pessoal da minha antiga escola. Nunca mais tive notícias de lá e acho que é recíproco. Claro que seria melhor se eu estivesse dançando – que elas vissem que estou num lugar onde não só me dão valor, como as pessoas me consideram um talento! Mas revê-las um ano e meio depois, responsável, já vai ser uma bela vingancinha.

Sensível

Eu me considero sensível e me emociono até em propagandas. Mas é uma coisa que depende muito da hora, do clima, do que estou vivendo no momento. O que eu não conseguia entender é a sensibilidade à flor da pele que a Janine tem. Poucas pessoas tem a honra de mudar de maneira definitiva o curso das nossas vidas – a Janine é uma dessas na minha. Comecei a fazer aula com ela porque vi uma reportagem falando bem do pilates e a academia que eu entrei (recém-inaugurada) oferecia aula. Eu fui uma das três pessoas que fez a primeira aula, e isso já faz seis anos. Alguns casamentos não duram tanto. Acho que a primeira vez que eu notei o quanto música clássica a emociona foi quando fomos ver o ensaio fechado do José Carreras. Ele cantava baixo, brincava com os músicos, uma coisa bem descontraída. Mas era começar algo clássico que ela chorava. Ela sempre disse que é por causa do ballet, que muitas são músicas que ela já dançou. O fato de ser formada em ballet pelo Guaíra, em fisioterapia, em educação física, em mat pilates, e todas as especializações e reciclagens possíveis fazem dela a melhor professora de Curitiba. Ela é exigente e perfeccionista e eu ávida e perfeccionista – taí porque estamos há tanto tempo juntas. Foi a paixão dela pelo ballet que me levou a fazer, só pra comprovar que nem era tão difícil assim (e é). A dança nos aproximou ainda mais. Outra ocasião que a vi chorar, foi quando um músico da orquestra apareceu do nada depois de uma aula e começou a tocar violino para nós. Logo nos primeiros acordes de The Swan os olhos dela se encheram de lágrimas. Anos atrás a Janine queria voltar a ser mãe, porque o filho dela já é um homem e hoje ela seria capaz de curtir mais uma criança. Mas de lá pra cá ela já quase separou, já perdeu o pai, quase perdeu a mãe, morou uma época com os enteados. Já eu terminei faculdade, o mestrado, me afastei da minha própria família, me aproximei (pero no mucho) da família do Luiz, dancei bastante. Apesar de tudo, não é uma amizade de confidências – ela acredita no karma e eu na ignorância sobre o Bem. Quando larguei o ballet, ela foi a única que não quis saber dos detalhes; em compensação, ficou feliz e me apoia muito quando viu minha paixão pelo flamenco. Até o fim do ano a Janine terá seu estúdio de pilates e esse será o nosso fim. Ela pretende me dar desconto e não pode ouvir falar em não me ter mais como aluna. Mas eu sei que pilates de aparelho é fora da minha realidade.

Há poucos dias ela sonhou que estava de novo com dezesseis anos, grávida. Mais de vinte anos se passaram e chorou como se fosse hoje. Uma solista, cujo palco do Guaíra já foi só dela, uma menina que teve que largar tudo e nunca mais conseguiu voltar a dançar. Só então eu entendi porque a Janine chora com a música.

Derretida

Quando as luzes do cinema acenderam, eu ainda estava chorando. Esperei o tempo que pude, mas quando saí ainda estava claro que eu tinha chorado muito. Minha impressão era de que todos me olhavam, se perguntavam quem era a louca, porque ninguém estava tão desabado quanto eu. Há meses as pessoas me recomendam ver Cisne Negro. Diziam que lembravam de mim, que lembravam das coisas sobre ballet que eu escrevi aqui. E o que tenho a dizer é que fico lisonjeada de terem me associado a um filme desses. Nunca cheguei perto de ser uma solista, mas me identifiquei muito com a Nina. A diferença é que minha catarse foi justamente ter escolhido dançar.

Li muita bobagem sobre esse filme, interpretações muito pobres. Daí concluo que tudo o que eu senti se deve a tanta coisa que eu vivi. Da minha relação com a minha mãe, da adolescente controlada que eu fui, da dor e do crescimento de ver minhas expectativas frustradas tantas vezes. Lembro do quanto ficava irritada com essa história de “eu gostaria de ter a sua idade. Mas com a cabeça que tenho hoje”. Porque várias pessoas poderiam merecer ouvir isso, mas não eu. Eu já me achava madura, já me achava completa. Ainda bem que não estava. Os anos podem se transformar em envelhecimento ou em vivência – aquela que nos torna sensíveis, próximos aos outros. Acumulamos mais e mais elementos para interpretar. Quando mais background a gente tem, mais profundamente é capaz de entender e se emocionar com a arte. Temos mais o que dizer, temos mais o que sentir.
Em poucos dias sai minha crítica do Cisne Negro lá no Caminhando por fora.

Professoras de dança

Posso dizer sem exagero que tive aulas de ballet com as melhores professoras de Curitiba. Cheguei na primeira justamente por isso, porque no meio o trabalho da Cíntia é conhecido e respeitado por todos. Ela já foi primeira bailarina e hoje tem sua própria escola e grupo de contemporâneo. A família toda cuida da escola, e são todos fofos. A escola tem o diferencial de não dar aulas para crianças. Passei por outros professores dentro da mesma escola antes. Quando finalmente virei aluna da Cíntia, só sabia o básico. Fiquei intimidada e fascinada por aquela turma com bailarinos de diversos níveis e objetivos, porque até para os avançados era uma aula aproveitável. Tinha gente que dançou a vida inteira e parou, bailarinos na ativa, professores de ballet, loucos de pedra que simplesmente amavam o ballet como eu. Ela era capaz de explicar infinitas vezes o mesmo movimento, como se fosse a primeira vez. Dizia que levou anos pra adquirir a “generosidade necessária” pra dar aula para o básico. Sabe o que é admirar tanto uma pessoa a ponto de não saber o que falar quando ela está perto de você? Era assim que eu me sentia com a Cíntia.

Não gostei quando ela deixou de dar aula no meu horário e colocou a Nina no seu lugar, por mais que todos garantissem que era outra excelente professora. E era mesmo. Era uma bailarina carioca capaz de ficar no equilíbrio a qualquer momento, partindo de qualquer ponto. Ela fazia as transições mais difíceis com toda naturalidade. E como dançava! Vi o Quebra Nozes no balcão, não distinguia ninguém, mas quando a Nina entrou eu sabia que era ela, o palco ficou tomado. Não é à toa que esse foi o último grande espetáculo que ela dançou antes de ir pra Alemanha. Ela era ousada e nos cobrava ousadia o tempo todo – “Esse negócio de pé esticado vem com o tempo. O importante é aqui em cima, o que você consegue passar pro público”. Lembro de uma aula especialmente complicada, exaustiva, saímos pingando. Ela pediu uns saltos e umas sequencias que eu fiz do jeito que deu, ou seja, igual a uma galinha fugitiva. Na saída ela me falou – “Caminhantezinha (ela sempre me tratou no diminutivo, apesar de ser mais nova que eu), desculpe a aula puxada. É que só estavam vocês, que são roquenrou, e eu me entusiasmei”. Guardei esse elogio pra vida inteira.

Aí eu fui parar na escola da minha última professora de ballet, também dona de escola, conceituada e etc. Eu a conhecia desde a época da Cíntia, fizemos algumas aulas juntas e ela me deu algumas aulas. A escola da Professorona tinha uma estrutura profissional, com aulas diárias, ensaios, exercícios de solo, pilates, alongamento – tudo voltado para o ballet. Tinha outras duas alunas adultas, mas eu era a única que me dispunha a fazer tudo isso, que vivia no grupo. O clima era diferente – no lugar das aulas dançadas, correção dos movimentos; ao invés de conselhos, disciplina; a expressividade ficava jogada no canto, porque o importante era arrumar tudo antes. Ela gritava com aquelas crianças de um jeito que eu, com trinta anos na cara, teria voltado pra casa chorando. Minha técnica melhorou muito e rapidamente. Eu tentava ver na Professorona a pessoa legal que alguns diziam, mas comigo ela foi apenas correta. Levei as aulas dela e da Nina juntas o quanto pude, porque a primeira era obrigação e a segunda prazer. Era uma escola que visava formar bailarinos para o futuro, então tudo era muito sério, muito duro. Por necessidade, por contingência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora eu sou aluna da Cris. Não é mais ballet, mas ela também é dona da escola e dá aula para todas as idades. Ela formou praticamente sozinha sua companhia, que é conhecida e respeitada. Pra conseguir isso, ela nunca elevou a voz, é adorada pelas crianças, faz com que todos se sintam em casa. A Cris é uma das pessoas mais generosas que eu conheço. O que a Professorona consegue com terrorismo, a Cris consegue com amizade e afeto. É nas pequenas coisas que a gente mostra quem é; não era a necessidade que tornava a Professorona uma pessoa dura.

La vie en rose

Na faculdade tive uma amiga que era professora de francês. Ela me contou que aprendeu francês quando, aos 15 anos, foi para Paris estudar ballet. Se não me engano, ela passou mais de dois anos lá. Ela trabalhava como babá, e tinha direito a um quarto numa casa de família. Estudava durante um período, era babá em outro e tinha aulas de ballet o resto do tempo. Além de estar sozinha em outro país, chegando lá ela se deu conta de que nunca seria uma primeira bailarina. Ou seja, ela estava dedicando toda sua energia para estar sempre naquela longa fileira de bailarinas que ninguém repara. Depois de muitas dúvidas e noites chorando, ela desistiu e voltou para o Brasil. Quando comecei a fazer ballet e contei essa história tão antiga, minhas colegas tiveram uma visão totalmente diferente da minha. Acharam fraqueza, um desperdício, que minha amiga jogou fora uma oportunidade de ouro – a oportunidade que elas sonham em ter.

Acho que se sentir sozinho, indesejado e desvalorizado na sua rotina, ter ao seu lado apenas pessoas indiferentes sem nenhum calor, é o inferno em vida. Encher a boca pra dizer que trabalha no maior/melhor/excelente do mundo é um prazer muito pequeno. Já quis e já tentei ser a número um; hoje sou do time de “um amor e uma cabana”. Mas pra chegar a isso, tive que apanhar muito, tive que deixar de ver o mundo em cor de rosa…

Deixe em paz meu coração

É difícil saber a hora de mudar. Por mais que seja doloroso ver gente totalmente fora de forma e de propósito persistir num caminho que lhe trouxe alegrias, também é muito difícil saber o momento de ir embora. Não dá vontade de fazer no auge… e como saber que o ficar mais um pouco está se transformando em ridículo, em decadência? Lembro d´O Lutador, do Mickey Rourke e do quanto me emocionei com ele. Eu sei o que é se dedicar a algo por amor, contra tudo o que parece sensato para quem está de fora.

 

Se chamamos de anjos aqueles amigos que nos ajudam a encontrar o caminho certo, o que dizer daqueles que nos expulsam do caminho errado? Assim como alguns nos estimulam, outros nos levam a desafios maiores com seu desdém, por não confiar no que fazemos, por encherem nosso caminho de pedras. Sentimos ódio… e decidimos fazer mais, nem que seja só pra ver a cara da outra pessoa cair ou só pra provar que ela não nos derruba. Vestimos uma armadura toda manhã, nos conformamos com um ambiente que nos trata com frieza, ficamos sós. Quando finalmente a batalha termina, descobrimos que foi melhor assim. Que éramos maltratados por nossas qualidades e nosso destino estava em outro lugar.

 

Eu que amava apaixonadamente o ballet, hoje não consigo nem olhar. Faço questão de não ir a qualquer espetáculo, não vejo mais videos. Tenho mau estar, péssimas lembranças, coisas entaladas. Fico feliz cada vez que passo por certos lugares e não cruzo com certas pessoas. Ainda não consegui me recuperar da idéia de que eu sou “gorda pra palco”. Só agora, tantos meses depois, tirei a meia calça rosa do fundo do armário – só porque está frio e não tinha outra. O ballet mudou minha vida e sei que pego as coisas rápido no flamenco é por causa desse… passado? Apesar da mudança ter sido tão positiva, não sei se um dia deixarei de sentir mágoa daquela acabou com meu amor pelo ballet.

De bailarina a bailaora

O principal motivo que me levou a fazer ballet foi muito simples: me disseram que é a dança mais difícil que existe. Comparável a ele, só o flamenco. Só isso já diz muita coisa, não é? Quando larguei o ballet, tinha muito claro que jamais pararia de dançar. O que restava era descobrir que dança o substituiria. Em primeiro lugar, tinha que ser alguma que me desse grande prazer. Com isso, eliminei o contemporâneo e o moderno, que fiz quase durante o mesmo tempo que o ballet e nunca me deu tesão. Em segundo lugar, não poderia ser algo fácil, porque assim eu desistiria logo. Eliminei dança de salão, que fiz durante anos e pegava tudo tão rápido que esquecia logo em seguida; o hip hop, apesar de difícil, não me identifico com a cultura. Em terceiro, deveria ser algo que eu me sentisse à vontade de estar no palco fazendo. Foi embora a Dança do Ventre, que só teria coragem de mostrar entre quatro paredes. O que definiu pelo flamenco foi: uma dança que eu ache bonito e que os movimentos me digam algo.

Imagine só: eu passei os últimos anos me sentindo velha, gorda, torta, encurtada e lenta. Agora, no flamenco, as pessoas me olham como se eu fosse a nova promessa da dança. Esse negócio de tipo físico e idade nem entra em questão lá. Sou mais alongada do que todas as pessoas da escola. Eles se impressionam pela maneira como eu gravo as coisas, sei contar os tempos da música, consigo colocar os braços pouco depois de ter aprendido as pernas. A dona de escola é uma fofa, daquelas pessoas que pelo sorriso você sente que é boa. Do meu lado, já amo o flamenco como se andaluza fosse. Quero camiseta com castanholas, comprei saia, vejo videos. Um amor que nunca me permiti ter com ballet – todo mundo tinha acessorios com estampa de sapatilhas de ponta menos eu, porque sabia que nunca me deixariam entrar no palco com uma.

Que não é uma dança fácil, não é mesmo. Gente, o que são aquelas mãos? A professora fala pra eu rodar pra fora, eu rodo, e ela me corrige dizendo que ainda está para dentro. Isso porque nem falamos em castanholas… Esse negócio de bater o pé é muito difícil e me cansa horrores. No ballet é tudo fora do chão, tudo fadinha e o menos barulhento possível; o flamenco é terra, joelhos semi-flexionados, barulho, peso. Devo parecer uma sonâmbula dançando, porque meus movimentos são todos leves, todos “eu não sou daqui”. Quanto mais intensa a bailaora, melhor. Vi La Talegona ao vivo e parecia que a qualquer momento ia cair um rim no chão. Achei que eu ia morrer naquela cadeira, esquecida de respirar. A mulher é pura energia, intensidade, é uma deusa. Olho pro flamenco e duvido da própria paixão que existe dentro de mim.

Ainda tem muita coisa pra rolar. Foram apenas dois meses…

A vingança do tigre

Todo mundo que já dançou e não era preferido ou solista (99%) sabe como é isso. Ser colocado lá atrás, como cenário. Pra não fazer porra nenhuma. E nem dá pra falar pros amigos prestarem atenção na gente porque nem sempre o figurino deixa. Você tem que dar detalhes da roupa e da localização pra pessoa saber quem é você.

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Roubei do Tirando Sarro.

Esse cara é o meu mais novo herói. Tudo bem que depois disso ele teve que mudar de profissão, rosto e país, mas ele é meu herói. Fez o que todo mundo que engoliu sapo e saiu de fininho nesse vida teve vontade de fazer e faltou colhões. Me incluo nessa lista.

Adeus

Fica parecendo que a iniciativa do adeus é de quem foi embora. Nem sempre, porque ir embora é o fim de um processo. Às vezes o outro quer que a gente vá, mas por algum motivo – dinheiro, culhões, imagem – não o faz. Então manda mensagens, manifesta seu desagrado diariamente com picuinhas. O outro tem uma sensação estranha, percebe uma coisa aqui e outra ali. Primeiro, acha que foi um dia ruim, que é uma interpretação maldosa, que foi coincidência. E vai levando, ignorando e relevando muita coisa. Até que um acontecimento sem importância une todas as peças, e a verdade cai no colo como uma fruta podre. Não dá mais pra fugir de uma decisão.

Sim, dá pra ser político à espera de algo melhor. Alguns decidem ficar só pra provar o seu valor, pra reverter o jogo e aí sim ir embora. O que não deixa de ser uma maneira de reconhecer o fim sem dizer adeus. Ficar quando tudo conspira para que você saia, é entrar numa queda de braço sem se divertir. Será que não é mais saudável colocar um The End antes dos silêncios se tornarem mais freqüentes e constrangedores? Melhor partir; antes das relações começarem a azedar, antes dos danos na auto-estima se tornarem irrecuperáveis, verdadeiros traumas. É um direito dos mais sagrados o de dizer adeus, porque não é pra tudo na vida que a gente pode dar as costas.

Adeus, ballet.

Tenho 21 e quero fazer ballet. É possível?

Muita gente acessa meus posts sobre ballet. Hoje recebi uma pergunta no formspring e acho que é uma dúvida meio comum. Por uma questão de utilidade pública, taí a dúvida e minha opinião:
Queria fazer ballet, só que também já tenho vinte e um ano, logo estou velha demais. Já não dá para prestar pois não? Fleurs

Depende.

1. De você em sala de aula: por começar tarde, é melhor que você tenha facilidade pra dança. Um bom indício é se você tem facilidade para outras atividades físicas. E por melhor que você seja, no início tudo será muito difícil.

2. Do seu corpo: o ballet tem muitas exigências físicas, muitas delas genéticas. Quanto mais elástica e magra você for, melhor. Mas tem coisas que só numa aula você vai descobrir que fará falta.

3. Da sua disponibilidade de tempo, dinheiro e empenho: no geral, uma bailarina tem aula todos os dias e até nos finais de semana. Dói, cansa, gasta dinheiro. Exige compreensão da família e faz abrir mão de programas com os amigos. Esse é o preço.

4. O principal: dos teus objetivos. Pra virar uma grande bailarina clássica, 21 anos é tarde mesmo. Mas dançar ballet não é sinônimo de virar bailarina clássica. Você pode fazer como exercício, porque é divertido, para desenvolver noção de ritmo e consciência corporal, pra se sair melhor em outras danças. Pra todos essas coisas que eu listei, não tem problema nenhum ter 21. Eu comecei muito mais tarde e estou aí, na batalha 😉

Meu conselho é você procurar uma escola que aceite alunos mais velhos e mandar bala. Depois você descobre se leva jeito ou não, se quer virar bailarina clássica ou não. Vale a pena.

A bailarina que odiava ballet

Confesso que se não tivesse ganhado ingresso, eu não teria ido ver Quebra Nozes. Isso porque vi o Dom Quixote que a Escola do Bolshoi apresentou e achei um tédio. Fui, por mesquinharia e um certo senso de dever. Pra minha surpresa, eu gostei. E mais: fui capaz de ver tecnicamente, criticar solistas, identificar erros. Talvez eu esteja deixando de ser a única bailarina que não gosta de ballet clássico. Porque hoje eu ser bailarina é de uma irônia tão grande, que isso só comprova que o divino tem senso de humor.

Minha rejeição ao ballet começou cedo, fazendo ballet. Meus pais tinham acabado de se separar, eu tinha acabado de vir pra Curitiba e tudo era novo na 1º série. Na minha nova escola, os meninos faziam judô e as meninas faziam ballet. Eu olhava com inveja meu irmão na roupa de judoca, mas não tinha coragem de pedir pra mudar porque isso era muito raro e mal visto. Por isso, sofri durante quase quatro anos. A professora tinha uma cisma especial comigo. Talvez todas as crianças a adorassem menos eu; acho que ela encarava meu jeito calado como uma muda resistência a ela. Lembro claramente dela gritando comigo, me olhando com impaciência, não dando o menor valor às coisas que eu fazia. Se hoje sou flexível, imagino como era naquela época em que eu fechava uma quinta direitinho. Tanto que a cada semestre eu nem precisava olhar no boletim para saber que eu tinha tirado B (bom). A nota R (regular) nunca era usada e o O (ótimo) estava vetado pra mim.

Um dia, já na 4º série, ela perdeu a paciência e me segurou com força no braço, enquanto gritava na minha orelha. Não suportei mais tanta pressão e chorei em casa. Minha mãe – que havia sofrido o mesmo tipo de assédio de uma professora de educação física quando era criança – disse que eu não precisaria mais fazer ballet se quisesse. Seria possível tamanha felicidade? Estava com medo, mas aceitei. Cheguei com um bilhete na escola e permaneci na sala enquanto todas foram pro ballet. Tremi de medo quando uma menina disse que a professora estava mandando me buscar. Fiquei firme e não fui. As outras crianças ficaram contra mim, mas qualquer coisa era melhor do que voltar a pisar naquela sala.

Pouco tempo depois ela saiu da escola e desconfio que tenha sido por minha causa. Espero que aquela bruxa nunca mais tenha dado aula para crianças.

Glamour zero

Me sinto uma mentirosa ao dizer que sou bailarina porque, com a minha idade, parece que sou uma veterana e sei dar 32 fouetés. Dizer que eu sou dançarina é complicado, porque aí parece que eu danço axé ou coisa pior. Como eu faço aula de ballet quase todo dia, então dá pra dizer que sou bailarina, né? Por mais que eu não me sinta merecedora do título.

Quando assumi isso em público, percebi que entrei num outro imaginário. Dizer que eu sou socióloga nunca arranca mais do que um “humm”. Ao dizer que sou escultora, ou as pessoas ficavam com medo de serem obrigadas a elogiar algo feio, ou achavam que eu era algum tipo de criatura sensível. Descobri que dizer que sou bailarina equivale a dizer que sou magra, delicada, alongada, e – talvez por tudo isso – acrobática na cama. Nesse mundo diferente onde eu estou, minha ocupação faz o olhar dos outros brilhar.

O que vivo no meu dia a dia é a experiência de estar sempre suada, usando meias calças rasgadas, sentindo dor. Dor ao fazer força nas aulas, dor nos alongamentos mais dolorosos que eu já vi, dor por repetir esse processo em cima de músculos já doloridos. Uma dor que nunca é mostrada na face, o que faz com que alguns pensem que a aula de ballet é levinha. Já vi que saio ajeitada na rua por pura teimosia, porque o ideal seria vestir apenas roupas que não amassem na mochila e que possam ser colocadas facilmente sobre o collant. Estar magra e bonita deixou de ser assunto de foro íntimo pra se tornar uma obrigação- ponto na qual estou em desvantagem perto das meninas. Eu que fazia academia pra comer livremente, agora faço exercício o tempo todo e me preocupo ainda mais com calorias.

Quando descobri que bailarinas não têm fim de semana, até eu me assustei. Desde agosto meus sábados estão sempre ocupados e meus domingos não me pertencem mais. No início, ficava exausta demais até pra conversar; quanto tudo terminar, sei que me sentirei um animal enjaulado durante dias, até meu corpo se acostumar com doses menores de endorfina. Às vezes dá vontade de jogar tudo pro alto, mas e a responsabilidade com o elenco? Nem posso reclamar de não apenas não ganhar nada como ainda tirar do meu bolso, porque é assim com quase todo mundo. Pelo menos aqui no Brasil. Bailarino ganha tão mal, mas tão mal, que quem está de fora nem imagina. O salário inicial de um bailarino do Balé Guaíra, a melhor e mais tradicional companhia do Paraná, é na faixa dos mil. Quantos anos de estudo pra conseguir passar no teste? Pelo menos uns dez.

A bailarina glamurosa do palco é apenas um instante. O resto do tempo, ela estará suando o collant.