Zen p*** nenhuma

O A arte cavalheiresca do arqueiro zen é um dos livros da minha vida. Eu cresci querendo viver uma experiência daquelas, queria encontrar um mestre oriental e me embrenhar uma arte que me ajudasse a superar o ego. Agora, em recente surtada flamenca, estava me perguntava que diabos eu estou fazendo lá, eu seria tão mais feliz se lidasse com o meu terror de me expor no palco da mesma forma que lido com outros terrores – não me coloco na situação. Pergunta se eu tento saltar de paraquedas. Ele fica lá e eu aqui, tudo bem.

Tal como o autor do livro, me vejo levando anos pra aprender o básico do básico, uma simples respiração. Aí entra o inconformismo de quem sempre se saiu muito bem em outros assuntos que exigem leitura e perfeccionismo, conquistava os professores pelo seu empenho, e agora se vê reduzida à condição de aluna com quem se precisa ter paciência. Enquanto outros mais jovens disparam felizes e cheios de ritmo, eu me vejo atacada de todos os espíritos malignos do meu inconsciente e começo a errar o que fazia até agora pouco, mas de forma anônima. Olhou pra mim, puf: coração disparado, bloqueio, derrota antecipada. Como é horrível sentir ódio de si mesmo, de sentir que ser tímido é uma condição problemática de ser sem nenhuma vantagem.

O corpo leva muito tempo. O corpo resiste ao QI e cultura, às leituras e estratégias, aos insights reveladores. Ele não se deixa dobrar às terapias milagrosas e nem a conclusões muito bonitas com o objetivo de mudar de rumo repentinamente. O corpo leva anos pra fazer um luto, por mais que a gente queira se encher de remédios e substituir o que foi perdido pelo modelo mais recente. O corpo leva anos pra adotar um gesto. O corpo não está nem aí se a condescendência das pessoas te incomoda, se você acha que merece mais, se você é o fodão em outra atividade. Assim como ele não está nem aí se você é um fracasso em tudo e gostaria que, naquele espaço, a história não se repetisse. O corpo leva anos para aprender uma simples respiração. Quem sabe o corpo do outro não, quem sabe o corpo do outro conquiste em três anos mais do que você conquistou em nove. Conquista sim que eu vi, com estes mesmos olhos do meu corpo. Mas acha que o corpo se importa? Ele vai continuar no ritmo dele. Lento, muuuuuito lento.

E ainda estou de mal com o fato de ser tão tímida.

falta muito

Losers

losers

Não sei se ando numa fase emotiva, mas há muito tempo eu não gostava tanto e me emocionava com uma série Netflix com a Losers. Acho que a última que me entusiasmou assim foi a Abstract. Não faz muito tempo, eu estava nadando e veio um flash de uma lembrança, e que me foi muito reveladora. Eu estava começando a fazer aulas de natação, estava indo muito bem para quem começou mais velha, aí vi as outras pessoas nadando e fazendo virada olímpica, e pensei: “eu tenho que aprender a fazer virada olímpica. Senão, por melhor que eu nade, nunca vou deixar de ser reba” (expressões de infância voltam à minha mente nos momentos muito íntimos, esta quer dizer algo como “ruinzinha”, “porcaria”). Não devia estar nadando nem há um mês e não queria ser reba. O que me surpreendeu é que eu tento dizer pra mim o tempo todo que não sou uma pessoa competitiva. Aí eu vi que sou, porque tento jamais ser reba. E achar que pra tudo o que você faz na vida, mesmo começando fora da época e ao lado de pessoas que fazem aquilo a vida inteira, você deve ser pelo menos boa, não deixa de ser querer demais.

A série fala de muita gente que estava lá em cima e falhou, em derrotas que foram melhores do que vitórias, derrotados que se tornam mais famosos do que os vencedores, vitórias pessoais que valem muito mais do que qualquer medalha. A cada ano que passa, é como se eu ficasse cada vez pior no flamenco. Não deve ser verdade, mas subjetivamente pra mim é assim. Sério, eu fico muito sem graça quando me mandam vídeos e dizem me querer ver dançar. Porque eu sei a imagem que mulher dançando flamenco passa, aquela feminilidade forte e decidida, e eu sei que me ver não é assim e nunca serei assim. As pessoas que são assim têm uma relação com a música e com o sapateado que eu não tenho, e não é uma questão de tempo. Acho que me sinto tão mal porque finalmente vi que nunca deixarei de ser reba no flamenco. Em outra coisas eu consegui, no flamenco não. Mas, ao mesmo tempo, o flamenco me proporciona experiências que, digamos assim, até parece que eu sou boa. Meio porque estamos no Brasil e “é o que tem hoje” – eu estou lá, estou disponível. Se tivessem outras dez opções, quem sabe as escolheriam e eu nunca entraria, mas não tem. (Deve ter umas cinco e garanto que chamam todas as cinco antes). Mas se estou na foto, subo no palco, participo do programa e levo a lembrança pro resto da vida comigo… sou loser.

Perda de valores, vanguarda e flamenco

Não faz muito sentido pra mim, mas tenho amigo gay que dança flamenco e é daqueles que se enfurece com a “perda dos valores”. Ele é mais velho, não é dessa geração que se assume desde a adolescência, ouve músicas e tem ídolos gays, “dá pinta” por aí. E o flamenco, como todo mundo que faz flamenco sabe, já foi uma dança muito subversiva. Tem uma brincadeira que eu faço, quando surge uma dúvida de como um passo é feito: basta testar qual a maneira mais difícil que será aquela. Quase morri de tédio o dia que vi o ensaio de um grupo de dança tradicional, que pra cada dois passos para a direita, precisavam fazer dois para a esquerda, sempre precisava haver o mesmo número de pessoas a cada lado do palco e eles precisavam andar formando figuras geométricas. O flamenco é todo torto, faz as coisas em números ímpares, entra no meio dos tempos. Isso sem falar nas subversões ainda mais óbvias, como o fato da mulher puxar a saia pra cima na hora de dançar, a força e a sensualidade no palco, a presença. Pensem no que era isso há séculos, porque o flamenco existe pelo menos desde o século XVIII. Uma vanguarda que todos os bailaores sabem é que um ritmo chamado Farruca antes era dançado apenas por homens, e hoje as mulheres o dançam também, geralmente de calça e figurinos sóbrios para se manterem fiéis ao estilo. Se por um lado o flamenco foi uma vanguarda em relação à sua época e à outras danças, ele também teve sua vanguarda dentro da vanguarda, com a mulher ousando colocar uma calça, ousando expressar sentimentos que até então eram considerados exclusivos dos homens.

Mas o flamenco é uma arte, algo lindo, superior, meu amigo diria, nada a ver com os absurdos que tem por aí: gente pelada, peças onde se enfia a mão nos orifícios uns dos outros, desrespeito a figuras religiosas em exposições, que são vestidas de forma profana ou o profano vestido de religioso. A questão é que para as inovações surgirem é preciso ter liberdade. Outras metáforas me vêm à mente: um solo fértil, um respiro, a flexibilidade que permite que construções que recebem muito impacto não desabem. Não é possível, antes mesmo das coisas surgirem, julgar o que presta e o que não presta. É preciso aceitar o choque inicial, saber que é assim que funciona e, à primeira vista, pode ser até feio. O “fora dos padrões” pode ser visto como ameaça, assim como pode ser o experimental, diferente, novo, criativo – é através dos que fazem coisas que a princípio não nos parecem certas que a sociedade se renova. O chocante nem sempre está começando um novo caminho, ele pode estar informando algo que existe e em pouco tempo será comum. Como um dia foi com o flamenco, com a homossexualidade, com as mulheres usarem calças compridas. O que é idiota e sem sentido, o choque pelo choque, como peça de teatro onde um enfia o dedo no orifício do outro, não frutifica e o próprio tempo se encarrega de apagar.

No vídeo, uma Farruca de uma das escolas de flamenco mais tradicionais da Espanha, a Amor de Dios.

Castelo de areia

castelo de areia

Tive todo tipo de siricutico durante as últimas semanas por ter que dançar um solo. Nenhum problema com a coreografia ou a técnica, tudo psicológico. Minha síndrome de One Frog Evening, fazer maravilhosamente fácil sozinha e travar porque tem gente olhando, me sentir a mais feia e incompetente. Na busca de uma solução, ou quem sabe de uma justificativa, estudei loucamente o Saturno do meu mapa astral, que é especialmente forte. Pra quem não sabe nada sobre o assunto, explico: Saturno é conhecido como O Grande Maléfico, onde quer que ele apareça no mapa astral indica áreas onde a pessoa sente dificuldade. Algumas versões do meu aspecto dizem: esta pessoa nunca poderá pisar num palco. Ela pode ser diretora, cuidar da luz, dos figurinos, estar sempre no meio, mas não no palco, porque ela é incapaz de ser o centro das atenções. Já em outros lugares dizem que há alguns atores com esse aspecto, porque a pessoa vai parar no palco justamente pra ver se resolve esse problema. Nunca pensei em mim nesses termos, de alguém que peita os seus medos. No meio das pesquisas, li uma historinha para explicar o aspecto que me tocou muito:

As crianças dos planetas estão na praia. Decidem fazer castelinhos na areia. As crianças Sol, Marte e Júpiter disparam na frente. A criança Saturno fica olhando, morrendo de vontade de fazer castelinhos também. Ela se pergunta: será que eu consigo? E se eu pegar um manual sobre como construir castelos? E se eu não conseguir, se eu treinar antes, e se… Nesse meio tempo a criança de Marte já construiu o dela correndo, a de Júpiter fez um castelo enorme. Quando finalmente a criança Saturno decide que ela quer sim fazer o seu castelo, as outras já correram pra água.

Dia desses voltava de um ensaio e não sei se é a propensão à ficar melancólico quando se está sentado ao lado na janela com a testa apoiada no vidro, mas pensei em castelos de areia e chorei por debaixo dos óculos. O que eu precisava fazer, já que não consigo evitar o movimento de parar, me cobrar, achar que não sou capaz e fazer com medo, é sentar sozinha e fazer meu castelinho. Que bom para as outras crianças, que já fizeram e estão na água. O meu sai devagar, miúdo, modesto, mas é o meu, é o que eu posso. Amar o grandioso é fácil, difícil é fazer do pequenininho o seu lar.

O pulso

Eu li em algum lugar, alguma vez, falando obviamente de astrologia, que Saturno era o planeta essencial para um bom músico. Saturno, também conhecido como O Grande Maléfico. O planeta da tristeza, dos atrasos, da rigidez, da seriedade. Quando a gente vai na raiz do que é a música, faz todo sentido. Para quem não é músico, há de se pensar em tudo reduzido, apagar os floreios, a voz e os instrumentos, e pensar no pulso. Já os músicos sabem que toda variedade é aparente, que o que possibilita que todos estejam em harmonia é a obediência a um princípio fundamental, que segue invariável e matemático. Na biografia do Bob Dylan fala dele comentar sobre um dos seus bateristas não ser exato o suficiente, aí o biografo nos lembra: não é qualquer coisa tocar gaita, violão e cantar músicas de dez minutos e se manter no tempo. Um guitarrista de flamenco me disse que o Paco de Lucía era tão exato que ele chegou a colocar um metrônomo ouvindo uma das apresentações dele e Paco se manteve exato o tempo todo.

Pra este post ficar um tiquinho carnavalesco (é que o meu carnaval é assim mesmo, saturnino), coloco um vídeo que faz sucesso pelo Facebook: Paco de Lucía interpreta Tico Tico no Fubá.

A alma quebrada

maxresdefault

Sapatos de flamenco custam uma fortuna e um dos motivos é por serem extremamente fortes. As chances de alguém que não seja profissional e tenha um sapateado fraco quebrarem o salto de um são mínimas – e foi exatamente o que eu fiz, há poucos dias, num dos meus ensaios. Na verdade, sentia o salto dele meio solto há anos, assim como o outro, mas achei que fosse normal. Já ouvi uma explicação engenheirística sobre as coisas muito sólidas serem menos resistentes do que as que trabalham um pouco, então achei que meu salto dar umas falhadas fosse pura tecnologia. Voltei no sapateiro e pedi pra ex-mulher do espanhol pra verem se era possível colocar uma trava no salto, igual sapatos de dança de salão. Horas mais tarde me ligaram dizendo que isso eles não fariam, mas me explicaram que dentro do sapato havia um ferro, cujo nome não guardei, que era a Alma do Sapato. O do meu estava quebrado e eles não apenas trocariam aquele ferro como poderiam colocar dois. Eu topei.

Três dias depois, fui buscar meus sapato de alma nova. Havia uma menina brincando no balcão e chamou a avó assim que eu entrei. Era a ex-mulher do espanhol. O engraçado que eu sempre a cumprimento com familiaridade e digo que sou a moça do sapato de flamenco, e ela se justifica dizendo que “atende tanta gente…” e só me reconhece quando vê o sapato. Ela me explicou de novo o lance da alma, que o meu sapato está ainda mais resistente do que era antes, que nos fizeram um preço bom porque já sou cliente. Enquanto isso, ela foi corrigindo a neta: aquilo não era uma bola, era parte de uma câmera de segurança, que parasse de brincar com aquilo, pegasse umas canetinhas e papel. A vida era daquele jeito, tinha que ter responsabilidade. A menina apoiou as mãos no balcão e ficou observando nossa conversa, e quando a mulher tirou um adesivo de dentro do sapato – pelo jeito é por ali que se tem acesso à alma – a menina quis tirar e ela não deixou, porque aquilo era assunto sério, era trabalho.

Quando eu já estava pra ir embora, ela me perguntou se flamenco era uma boa atividade física. Tomei o ar para responder e ela completou: “é porque eu detesto academia, exercício, essas coisas. Eu tenho trauma, eu sofri bullying de uma professora no colégio quando era deste tamanho”. Me contou das humilhações, de ter que saltar de uma corda e ter medo, ser a primeira a ser chamada para que todo mundo viesse, de não ter nem sete anos e ser chamada de monga, que nem jogos olímpicos ela conseguia gostar de assistir, que um filho dela também ficou traumatizado com educação física, que ela ensinava a menina e os netos a respeitarem os outros, sempre, tratar bem o professor, apagar o quadro, arrumar a mesa dele, que tem que ser educado, mas também ensinava a se proteger, a dizer que não merece ser tratado desse jeito, dizer que vai chamar a mãe ou a vovó, que um policial ensinou na TV que não se deve apenas ensinar as crianças a não falarem com estranhos mas também a terem cuidados com os conhecidos, que não se divulga mas a cada hora três crianças são sequestradas, que se instruiu mal as crianças, uma palavra que você ensine para elas faz toda diferença, que… Aí entrou uma cliente e ela parou a conversa e me largou como se nada fosse. Antes de sair, eu falei:

– Sobre aquela pergunta que você me fez, a resposta é Sim.

Curtas do mesmo que seja eu

Adoro a história do Erasmo Carlos contando que não sabia que sua música era um hino gay até ser convidado para cantar no presídio feminino. Quando chegou no “você precisa de um homem pra chamar de seu”, a platéia foi abaixo.

.oOo.

Lembro de uma amiga, que começou a namorar um estrangeiro mais de dez anos mais novo. Ele estava no Brasil há pouco tempo. Ela: “se não fosse o fato dele ser imigrante, se ele estivesse aqui há mais tempo, se estivesse numa situação melhor, se tivesse mais amigos…” todos os senões diziam a ela que ele não a teria escolhido. Mas quando a gente está tinindo na vida, por cima da carne seca, com todos os melhores candidatos à volta? Ela, por acaso, estava? Os dois hoje estão casados.

.oOo.

Quem dança flamenco geralmente sonha em ir pra Espanha, e ocasionalmente até vai. E descobrem que os espanhóis não estão doidos para empregar estrangeiros para dançar a dança deles. Que lá a concorrência é feroz, que ser excelente é o básico. Mas aqui no Brasil não é assim – sou dedicada, mas também sei que comecei tarde, tenho um sapateado mequetrefe e tal. Mas é isso aí, flamenco brasileiro, é o que vocês têm pra agora. Na geração seguinte vocês poderão ser mais exigentes.

.oOo.

Livros. Um dos sintomas que tenho quando um autor é muito bom é a vontade de parar de escrever. Pra ele é fácil e tudo sai maravilhoso, que graça eu, etc. O último é o Amoz Ós. Mas aí venho pro blog.

timthumb

No sangue

sapataria-sob-medida-no-tataupc3a9-1

Tomei coragem e finalmente levei um dos meus sapatos de flamenco para colocar borracha nova no sapateiro. Sapatos de flamenco são caros, especialíssimos, e já ouvi mais de uma história do sapato nunca mais voltar o mesmo depois de tentarem arrumar. É só colocar uma borracha, mas mesmo assim fui com medo. Cheguei na mulher que atendia e expliquei bem, disse que era só naquele pedaço, que era importante, que é mais do que andar, que é de flamenco, que eu danço com ele. Aí ela me disse que conhece bem flamenco, que gosta muito dessa dança, que sempre tinha nas festas de família, que não sei quem da família do ex-marido tocava uma baita castanhola, que eles eram espanhóis. Eu fui concordando, dizendo que lindo, então ela sabia como era, curtia, até me tocar de que ela tinha dito que era ex-marido. “Ou não, pode ser que você não goste mais, é ex-marido”.

“A gente não conhece um homem quando está dormindo com ele, conhece quando se separa”. Fico sempre sem graça quando o papo recai sobre ex-marido, porque o normal é reclamar e não tenho nada contra o meu. “Depois que nós nos separamos, ele resolveu esquecer que temos três filhos juntos”. Ela me contou então que os espanhóis são frios. A terapeuta até tentou argumentar, mas é da natureza deles. Que eles não apenas são como nós, latinos, mas também não são como os italianos. Ela, como descendente de italianos, era muito família, muito calorosa. Ele não, não estava nem aí, que os espanhóis são assim. De novo, fiquei sem palavras, nunca convivi com espanhóis. “Eu casei de novo e tive mais filhos. Meu filho puxou o lado espanhol do pai, me liga só uma vez por mês, e eu desligo na cara. Eu o criei, ele tem obrigação de me ligar e me liga só uma vez por mês”. Minha consciência pesou na hora. Entrou uma cliente, eu e ela hesitamos, ela perguntou no que poderia ajudar, a moça disse que poderíamos terminar o assunto. “Eu estudei história. De todos os povos que conquistaram os outros, seja pra onde for, pra América ou para a África, os únicos que onde quer que iam dizimavam a população local eram os espanhóis”. E arrematou, alisando o antebraço esquerdo no sentido das veias – “Está no sangue”.

Depois eu precisei tomar um pouco de ar.

Não é amor

Tem um texto antigo do Veríssimo (só conheço os antigos) que alguém pergunta a um torcedor se ele ama o time. Não, não amo. Ele começa a listar as coisas que faz e sente pelo time, como acompanha os resultados, sofre com as derrotas, gasta dinheiro com camisas, pra ver o jogo ao vivo, se mete em discussões, quase morre nos lances difíceis. Mas, amor, não é amor, é o time dele. Ser torcedor – tal como colocado no texto, não sei dizer porque não sou – é quase como uma sina, algo que se pudesse escolher até faria diferente. Dependendo do ponto de vista, é mais do que amor. Alguém pode amar ou não um filho e nem por isso ele deixa de ser filho, mais ou menos assim.

Flamenco, quem disse que eu amo flamenco.

 

Curtas de pequenas gostosuras

alfalfa-during-breastfeeding

Eu gosto de tomar café com pão de queijo sempre no mesmo posto de gasolina. Eu comprava o tal do pão de queijo de provolone apenas porque ele tem um formato comprido – acho mais original e anatômico. Aí cheguei lá e tinham acabado de fazer. E né que tem provolone mesmo?

.oOo.

Quando a Dúnia vai trocando de pelo (ou, dito de outra forma, fica muito tempo sem banho), ela começa a perder tufos de pelo. Você olha no pelo preto dela e tem uns marrons, são os pelos mais soltos. Você puxa e sai um algodãozinho, é uma delícia. Quando ela para pra cheirar, chego do lado dela e puxo. Ela não gosta. Mas tolera. Aí fico perseguindo meu próprio cachorro pra puxar o pelo dele.

.oOo.

Descobrir um autor novo para amar é… nossa.

.oOo.

Redescobri o broto de alfafa. Melhor broto, melhor salada.

.oOo.

Comecei a fazer aula num cantinho por vários motivos: tinha buracos no chão da sala (aluno pesado e cheio de entusiasmo na hora de sapatear) e o espelho costuma ser muito disputado, o que me fazia ficar cada dia num lugar. Até que enfezei e passei a fazer aula de frente pra porta, porque ninguém queria ficar lá e era mais perto pra abrir e me refrescar (a sala é num antigo estúdio de gravação, um forno). Aí descobri que é muito legal fazer aula sem espelho, a gente se solta mais. Apelidei o meu lugar de “O cantinho da auto-estima” e juro que melhorei muito depois que comecei a dançar lá. Pelo menos é como eu me sinto.

Mulheres sentadas em círculo

Eu tenho uma amiga que trabalha como terapeuta de mulheres e faz uns workshops que só de olhar os títulos me arrepia. Workshop de utero. Sim, útero. Aí vejo as fotos e tem um monte de mulheres sentadas em círculos. Piora: ela faz vários, então senta em círculos várias vezes. Sempre achei o horror dos horrores, até o dia que tive uma epifania quando vi minha professora de flamenco dançar. Já havia visto muitas vezes, mas naquela vez eu havia me desentendido com ela a respeito de uma flor e andava sacuda com essa fidelidade ao flamenco de raiz, queria inovar em flor, figurino, etc. Naquele dia, entendi que a tradição diz coisas muito profundas, trabalha com arquétipos, nos faz economizar caminhos. Que minha amiga tem razão, que as mulheres sentadas em círculo dizem umas para as outras coisas que de outra forma não obteríamos. Mulheres juntas, mulheres se apoiando, isso não deveria ser antigo. São coisas que a gente não deixou de lado porque se modernizou e sim porque se perdeu. Sim, tradição não é só lixo, às vezes é pura perda.

Por incrível que pareça, quem me fez pensar em tudo isso foi a Madonna. Sempre a vi como uma espécie de deusa invencível, e vem ela dizer que sentiu falta de apoio. Madonna precisou sentar com mulheres em círculo e a gente nem sabia.

Curtas do Teimosão

grampo-de-cabelo-22748

Teimosão é o nome de uma marca de grampo. Não é completamente genial?

.oOo.

Meu orto agora me atende em outro lugar. Agora, ao invés de sair do consultório, passar na biblioteca e comprar alho poró, eu saio da consulta e faço minhas doações ao Hospital Evangélico ou ao Hemobanco e passo dou uma olhada na Tok Stok. Se me permitem uma filosofia barata a essa hora, na vida tudo é assim: nada nunca é 100% bom e nem ruim. A consulta ficou mais perto, mas o alho poró me fará falta.

.oOo.

Dancei há pouco tempo, como alguns aqui sabem. No final de uma dessas apresentações, teve a dançadinha descontraída do final e vi um brinco no chão. Imediatamente me abaixei bailando e peguei. Só quando estava com a mão no chão me perguntei – será que devia? Assim que a gente saísse do palco a profe pegaria que eu sei. Vi muitos brincos voarem em apresentações de flamenco e sempre achei demais a elegância com que as profissionais se viraram. No meu caso, foi puro TOC. O mesmo TOC que me levou, poucos dias antes do espetáculo, a sair andando pela Tok Stok e pegar uma tampa do chão ali, desvirar um adereço aqui. Só depois me dei conta do que estava fazendo. O segurança deve ter pensado: A louca vem pra loja pra arrumar.

.oOo.

Por outro lado, vi uma história ótima do Lima Duarte, que ele contou que fez seu primeiro teste pra novela ainda criança. Ele tinha que recitar a fala, mas aí no meio dela deixaram um cinzeiro cair no chão. Ele catou o cinzeiro, colocou no lugar e continuou a fala. O diretor contratou na hora, disse que queria aquela naturalidade em cena. Então, quando minha profe disse que tinha algo pra me dizer, pensei: Ela vai me encher de elogios e dizer que eu me superei porque catei o brinco.

.oOo.

Não era o brinco. O que ela tinha pra me dizer é que esse ano eu melhorei muito. Aeeee!

Consulta

dias-tristes

Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

Maja nua

um-quadro-por-semana-maja-desnuda

Eu fiquei umas seis horas lá dentro, nunca mais repetirei a experiência. Não se pode dizer que eu vi tudo porque uma das funcionárias fez o favor de me informar que as salas que estavam fechadas eram nada menos do que dos pintores italianos. Pouca coisa, o que tem pra ver de pintores italianos? Ela me tranquilizou dizendo que no dia seguinte estariam abertas, mas aí eu que é não estaria mais lá. Sei que chegou uma hora que eu entrava na sala e sentia engulhos, como se toda aquela beleza começasse a me fazer mal. Quando cheguei na sala de Goya, num segundo andar, já era esse o meu estado de espírito. Olhei para as Majas porque mesmo inculta do jeito que eu era – e quem não o é aos vinte e um? -, eu sabia que aquele era um clássico. Fui até a loja do museu doida para comprar alguma coisa, qualquer coisa, não poderia deixar aquela experiência passar em branco. Mas era tudo tão caro! Lembro até que tinha chocolate do quadro As Meninas de Velázquez. Eu já colecionava marcadores e quis comprar as duas Majas, ia fazer um belo conjunto ter a versão vestida e nua. Mas era tudo acima do meu orçamento, mesmo os marcadores, e naqueles últimos dias de viagem a escolha não seria nem entre comer e não comer e sim ter ou não dinheiro para ir até o aeroporto. Então comprei só uma, a nua.

Duas meninas do flamenco fizeram pós na Espanha e estudaram a história do flamenco com um grande especialista, e a pedido da nossa professora elas nos ofereceram uma série de palestras. Falaram do nascimento do flamenco, que demorou para ser conhecido apenas como uma dança e ficar do jeito que conhecemos hoje. As dançarinas que dançavam o que hoje é o flamenco, junto com trupes, ciganos, cantando e dançando, eram as Majas. Era uma figura folclórica que foi incorporadas até em balés românticos, sempre representada por uma morena de temperamento difícil, jamais a mocinha. Eu demorei pra relacionar essas figuras à do marcador, porque as meninas falavam a pronúncia em espanhol – “marras”. Não precisa ir muito longe para saber que numa época onde o balé nascia na Europa, com pulinhos e babados, mulheres-majas movendo suas cadeiras, batendo os pés com força e brincando com a saia não fossem bem vistas, e fossem consideradas prostitutas. Então, por dançar flamenco, também eu posso ser considerada uma maja – ou pelo menos uma descendente delas.

A Maja, minha maja, me faz pensar em três tipos de nudez. A primeira e mais óbvia é a do corpo. A segunda, dos meus textos. Tenho me exposto continuamente e dá para me conhecer através do que eu escrevo não apenas pelas histórias e pelo que digo, mas também pela repetição dos temas, do que omito, da forma como manejo as palavras. Tenho me feito despir no que escrevo no meu twitter, nas brincadeiras que compartilho no meu facebook, pelas piadas com os amigos, pelo que escrevo privadamente. Pra mim, durante muito tempo, nudez era isso. Agora sei que há uma terceira, algo que nem consideramos nudez por estar tão acessível a muitas pessoas, diariamente. Hoje passei o dia inteiro fora, peguei vários ônibus e cruzei com muitas pessoas na rua, e a qualquer uma delas tinha acesso à minha aparência e os meus gestos. Num olhar é possível adivinhar o humor, os valores, a vida de alguém. Cada um tem um gesto mais significativo, que para uns pode ser a maneira como se inclina na cadeira e presta atenção com os olhos apertados, como segura um cigarro (caso fume), se joga a cabeça para trás na gargalhada ou a inclina para frente balançando a cabeça. Há algo de revelador que só a presença física pode dar, só o olhar, a energia, o contexto, o estar presente naquele instante. Radicalizando essa nudez, há a sensação dos dedos passando suavemente pelos cabelos, o cheiro da pele mais escondida, o efeito da voz sobre os tímpanos e o coração. A gente passa por várias pessoas diariamente, as lê sem querer e logo depois esquece. A nudez só impacta quando é desejada. Das três – é muito interessante se dar conta disso – a terceira é a única sobre a qual não se tem controle. É uma nudez que nada importa ou tudo importa, e como dói quando simplesmente não pode ser.

Curtas do cachorro esnobe

cachorro-chique

Já perceberam que os posts profundos são seguidos por posts bestas? Faço por querer, senão vocês não me aguentam e vão embora. Porque euzinha, por mim, ficava falando profundidades o tempo todo (cof, cof, cof).

.oOo.

Ainda sobre posts: já comentei, acho que no twitter, que se não fosse a pressão da sociedade eu seria tranquilamente o tipo de pessoa que dorme às 21h. Tenho que completar: a sociedade e a procrastinação. Mania de só escrever post perto da meia noite.

.oOo.

Me deram uma dica tão boa e inesperada que fiquei com vontade de criar um post só pra ela, igual fiz no post Dicas e quebra galhos. Mas vai ser muito difícil juntar essa informação num post, então lá vai: para acabar com o problema de calcanhar rachado, passar Vick Vaporub após o banho, como se fosse hidratante.

.oOo.

Outra inesperada: Estou aguardando para dançar num jantar, toda montada de flamenca. O chef nos oferece a entrada, um pãozinho com patê de beringela. Recuso: “Não posso, por causa do aparelho. Se eu comer agora, vou ficar com os dentes cheios de comida”. Aí ele me responde: “Vai mesmo. Eu sou ortodontista.”

Errada, eu?

estou errada

Já dizia Freud que um dos perfis difíceis de paciente é o inteligente demais. Desculpem voltar ao assunto – os posts sobre dança são dos mais impopulares do blog – mas foi difícil me convencer de que eu não dançava bem. Poxa, a mais frequente, que pegava os passos primeiro, aquela que as pessoas consultam pra saber da coreografia e eu não danço bem? Não aceitava. Via os meus videos e me enchia de desgosto, mas quem não se sente desgostoso ao se ver em vídeo ou com a voz gravada? Até que um dia eu pensei numa metáfora perfeita, digamos assim, aí eu nunca mais duvidei. Não apenas não duvidei como me aquietei. Ok, a vida é assim, a dança é meu hobbie e não meu metier. A citação a Freud foi porque como pessoa inteligente e teimosa, precisava de alguém que chegasse ao ponto na argumentação e ninguém soube direito. Eu sou como aquela pessoa que escreve muito bem, com coerência, bom português, raciocínio linear, frases curtas e tal, mas chaaaaata. Escrever (ou dançar) certo não é sinônimo de gostoso.