Nossos corpos

praia anos 80

Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

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Defeito

Eu estava disposta a crushzar meu crush à distância até a morte, mas minhas amigas não se conformaram e queriam a todo custo me aproximar dele. O plano era mostrar a ele um dos meus textos, ele ia achar o máximo, iria atrás do meu perfil, descobriria que eu sou eu, me adicionaria e então eu poderia falar com ele sem parecer uma desesperada. Aí quiseram deixar o meu Facebook mais interessante, colocar uma foto bonitona. Eu nunca entendi muito a lógica de foto bonitona diante de um homem que já nos viu ou verá, só pra ele pensar que uma boa maquiagem e o ângulo certo são capazes de milagres. Enfim, mas eu sou eu, uma tonta que se conforma em jamais se declarar. Minha amiga veio aqui, me fez colocar uma roupa que mostrava o colo, me mandou segurar livro, jogar a cabeça para trás como se estivesse gargalhando, me postar diante do espelho, olhar pra cima, olhar pra baixo, colocar a mão aqui e ali. Eu estava me sentindo desconfortável, mas eu ficar desconfortável em foto é o meu normal. Depois de várias poses e fotos e nenhuma parecer estar boa, ela me falou que eu sei que ela é super sincera mesmo e sinceramente meus cabelos brancos me deixam com uma baita cara de velha e ela estava tentando disfarçar. Assim que ela falou, vi que ela fez uma cara de quem se arrependeu, provavelmente porque eu fiz uma cara de quem se magoou. Meu cabelo fica realmente estranho, tenho fotos onde ele está totalmente branco e em outras é como se ele fosse castanho. Então, eu entendi que há verdade no que ela disse. Mas ao mesmo tempo, se um dia quiser uma foto bonitona minha, já sei que temos concepções diferentes. Se eu achasse que meu cabelo é algo a se envergonhar, a ser disfarçado e escondido, eu pintaria. É a diferença de quem vai tirar foto de uma mulher gorda e manda ela ficar de lado, de preto e ângulos de cima pra disfarçar ou coloca um biquíni e tira foto na praia. Eu sei que a primeira opção é mais fácil de absorver. Eu tenho uma faixa branca, bem no meio da testa, e eu disfarçava usando sempre franja. Um dia puxei ela para trás na frente dos meus amigos Elson e Flávia e o Elson soltou um “que lindo” muito espontâneo. A Flávia recriou esse efeito com mecha o quanto pode, até detonou o cabelo. Por ironia da natureza, eu e ela temos a mesma idade e a Flávia que quase não tem cabelo branco adoraria ter porque acha a coisa mais linda. Se eu me acho linda? Quando me olho no espelho, me sinto de novo com cabelo cheio de mechas, o que fiz apenas uma vez na vida – poucas semanas depois pintei tudo, parecia cabelo branco… Levei um tempão pra absorver, tenho dias e dias, mas hoje quando me dá na telha prendo a franja para trás, exibo mesmo. Feio ou bonito, é o que me convém hoje. É meio:

ser aceito e popular

Filtro

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Eu acho que ela exagera nos filtros das fotos. Antes eu diria que exagera nos filtros do Instagram, mas agora eu também tenho celular bom e sei que no próprio celular já tem. Eu é que faço questão de não aprender. Tenho um problema com fotos: se fico linda não me representam e se feia não me gosto. Mas não uso filtros porque sei que o tempo acrescentará rugas e quero acompanhar o crescimento delas, não quero me sentir Dorian Gray ao contrário – eu seria o quadro enrugado e minhas fotos me olhariam lisa. Nossas fotos já são mentirosas demais desde que se tornaram fáceis e sem filme. Já conversei com uma outra amiga e ela acha que exagero no filtro demonstra que a pessoa renega a idade, que gostaria de ser mais jovem, o que faz muito sentido. Aí fico com vontade de dizer que ela não precisa ser mais jovem porque o idiota do ex quis uma mais jovem, que ela é linda do jeito e idade que é, de verdade, não estou sendo gentil. Mas talvez, de todo esse discurso, ela ouvisse apenas que eu critiquei o exagero. Como no dia que fui lavar o cabelo no salão e a moça falou “que grisalho mais lindo!” e eu ainda achava que estava arrasando em enganar as pessoas que eram luzes. Voltei pra casa reclamando e o ex, com muita sabedoria, falou: “Você ignorou o elogio e só ouviu o grisalho, não foi?”. Por isso que eu acho que ela vai ignorar todo resto, toda parte Dorian Gray e linda. Então eu não falo. Mas tá exagerado.

Curtas de uma sabedoria rasteira

seja-como-proton

Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

Curtas cismados

Foi olhando para uma das fotos dela – e juro que quase todas foram olhadas rápidas e involuntárias – que eu finalmente entendi o porquê de chamar uma mulher de coelha, porque coelhinha da Playboy. Ela – a mulher a quem meu crush preferiu – é tão loira e perfeita em todos os seus detalhes, tão estudadamente na moda, alisada e pasteurizada, que quando olho para ela não consigo imaginar que no inverno ela vista outra coisa senão um vison imaculadamente branco, bem peludo, e bata delicadamente as pestanas sobre os olhos vermelhos.

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Quando eu vou pagar o meu ortodontista, a ajudante nunca sabe de primeira quanto eu pago. Já usaram a frase de várias maneiras, desde perguntar abertamente qual o valor da minha manutenção a dizer o começo e me deixar completar a frase no final. Minha conclusão óbvia é que nem todo mundo paga a mesma coisa, ou seja, ele deve ter mais de uma tabela. Certeza que eu estou na mais cara. (agora olhe para a figura abaixo e saiba que é a cara que estou fazendo).

cachorro te condena

Tudo porque cheguei através de minha ex-dentista, a que eu tinha deixado de frequentar justamente porque era muito cara.

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Outra sobre a coelha: ela tem a mesma cara em absolutamente todas as fotos. Saca aquelas pessoas que descobrem seu melhor ângulo e nunca se deixam fotografar em outra posição? Boooooring! (ok, parei)

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Eu preciso do meu vizinho mais não gosto dele. Definitivamente não gosto. O que é ruim pra mim, porque era pra falar com ele pra arrumar um pedaço do meu portão e tenho preferido deixar como está. A primeira vez foi quando falei do pedreiro que a vizinha estava pensando em chamar pra fazer nossa reforma, e ele solta um “é, ele é bom, só vai demorar bastante porque ele se descobriu cardíaco e trabalha bem devagar”. Tudo porque ele estava a fim de fazer o serviço. Outro dia no grupo de whats da vizinhança, falaram dos rapazes que vigiam a rua de noite, se eram de confiança – “conversei com eles e me parecem muito principiantes”, meu vizinho disse. Não gostei.

Minha foto ga(s)ta

avatar macanudo

Evidentemente, esta não é a foto gata.

Para impressionar o meu crush, ganhei uma foto gata. E ao ganhar a foto gata, ouvi que era difícil me fotografar por causa do meu cabelo. Eu já sabia: meus fios brancos ficam muito brancos em fotos. Eles se concentram na parte da frente, na moldura do rosto. Dependendo da luz parece que o meu cabelo está todo branco; e eu fico “parecendo uma velha”.  Eu tinha que impressionar, eu tinha que ficar gata, eu tinha que… Minha filosofia no que diz respeito a conquista sempre foi o que eu escrevia no Caminhante responde questões esdruxulas: “Seja uma pessoa legal para homens, mulheres, cachorros, aliens. O resto vem naturalmente”. A internet é um perigo de se levar à sério, tem gente que não entende nada de nada e se arrisca a dar conselhos sobre o que não conhece. É o meu caso. Não sei se vem conquistar alguém naturalmente. Eu sou uma teimosa que insiste em seguir a vida ao invés de procurar um par. A tentativa de impressionar o crush falhou, e nela eu senti o quanto na verdade eu sou insegura. Olho pra ele debaixo pra cima, penso que é muita areia pro meu caminhãozinho, me recuso a me aproximar. Talvez eu realmente ficasse mais bonita se pintasse o cabelo. Um cabelo liso que eu deixo curto e ainda por cima faço cachinhos, tudo ao contrário. Eu escolhi deixar meu cabelo assim, é mais prático pra mim, eu gosto. Nunca me perguntei qual o efeito dele sobre o sexo oposto. Nem o efeito das minhas piadas, de estar sempre de tênis, de pintar as unhas de cores diferentes, de andar de bike… Meu crush não me adicionou mesmo com foto gata, mesmo disfarçando os brancos. Pena. O cabelo branco, atualmente, faz parte do pacote.

A Foto

Cada um tem uma foto que é A Foto. Pense bem: Chopin pra gente é aquele pintado por Delacroix, mesmo com tantos outros quadros e desenhos que o representam fielmente. A mística H.P. Blavatsky é a senhora de olhar firme, como se nunca tivesse sido jovem. Camus fuma, definitivamente. E por aí vai. Acho que o tema me chamou atenção pela primeira vez com uma amiga que tirava centenas de fotos antes de postar no Orkut. Ela corrigia tanto – “nessa eu saí com o cabelo meio feio”, “nessa eu não gostei do meu olho esquerdo”, “essa ficaria melhor se minha cabeça estivesse mais inclinada” – que eu não aparecia mais em fotos com ela, eu desistia. E do álbum de fotos exaustivamente trabalhado dessa amiga, a única foto que eu realmente gostava era uma que ela mantinha quase que por educação, tirada por um amigo de infância. Eles estavam conversando na cozinha, ele contou algo engraçado, ela baixou a cabeça rindo e ele clicou. Era tão dela aquela forma de rir, eu achava linda. Naquela foto ela via o cabelo desgrenhado, a roupa de ficar em casa, os azulejos, enfim, nada da diva que gostava de projetar. Já eu enxergava a minha amiga.

Foi isso que me fez descobrir que A Foto quase nunca é a foto preferida de quem aparece. Porque A Foto nunca é a do nosso melhor ângulo, o nosso sorriso perfeito, a roupa de festa. A foto que nos eternizará é aquela que dirá alguma coisa aos outros, a que dará uma biografia numa única imagem. Olho para as minhas fotos e me pergunto se tal foto minha já foi tirada, qual delas é. Ou, se ainda não foi, o que ainda falta revelar. Pode ser algo que eu não gosto, pode ser algo que eu ainda nem sou…

Curtas de baixa auto-estima

Li uma dessas frases de facebook, falando da pessoa ser extrema, não ser comum, não ser sem graça, melhor ser quente ou frio do que ser morno, essas coisas. Só que a autora da frase é uma escritora tão sem graça, tão comunzinha nas suas entrevistas, que fica parecendo que ela estava falando mal de si mesma. Ai pensei: nunca mais devo dizer isso. Porque eu também já disse. E também não sou lá essas coisas em termos de presença.

 

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Eis que você gosta muito de uma amiga. Não tem tudo isso de contato com ela, mas sabe aquele sentimento? Tem pessoas que nos cativam. Aí você é convidada pra festa de aniversário, se anima, compra um presente até mais caro do que deveria. Porque era a cara dela e o afeto te levou a não economizar. Você vai na festa, se diverte, fica até o fim, os últimos a sair do restaurante. Por causa da carona, mas e daí? As pessoas eram legais. Fotos pra lá e pra cá, felicidade. Mal chega em casa e a festa já está repercutindo nos álbuns de fotos, marcações. E das muitas fotos que você apareceu, ninguém postou nenhuma. Quer dizer, você aparece de lado, no canto de uma delas. Mas tudo bem, outra turma. Até que saem fotos só da turma do gargarejo, com legenda de amigos mais amados e postam exclusivamente fotos em que você não aparece. Que dizer? E o presente ainda nem foi pago.

 

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Das coisas que não se pede: declaração de afeto e lugar melhor em coreografia. Se você pede, até dão – “você está incomodado com isso, nossa, pra quê” -, mas aí não vai ter graça.

Fotos

Bailarinos adoram fotos, mas as fotos não gostam de todos os bailarinos. Assim como na vida real, existem pessoas mais fotogênicas do que outras. Não só algumas pessoas saem melhor nas fotos, como elas parecem atrair o fotógrafo. Seja pelo treino do olhar ou por algum outro motivo, o fotógrafo se sente atraído a fotografar aquela pessoa naquele momento, em detrimento do resto do grupo. Então quando aparecem as fotos do espetáculo, sempre existe o problema de alguns aparecerem o tempo todo e outro só sair como coadjuvante. Ou nem aparecer. Tenho poucos registros dos espetáculos que dancei porque sempre fui dessas que aparece pouco, ou de costas, ou atrás de alguém, e teve uma vez que o único registro da minha presença foi uma mão.

Eis que o último espetáculo tinha tudo para dar certo, porque eu faria um solo e tinha duas fotógrafas. Finalmente um CD de fotos que valia a pena comprar, em que eu aparecia sozinha ou em destaque várias vezes. Selecionei as fotos em que eu apareço, e dessas as fotos que eu gosto e deu quase meia dúzia de fotos que dá pra exibir com orgulho. Coloquei uma delas no meu facebook e outra foi colocada junto com o pessoal da escola. Só que ver essas fotos, especialmente juntas, me dava um incômodo que eu não sabia identificar. Todos elogiando as poses, o figurino, a produção e eu… Até que não resisti e tirei a foto do meu avatar. As fotos haviam revelado algo que eu já desconfiava: minha falta de interpretação, de duende.

Eu estava com a mesma cara nas duas fotos. Numa coreografia eu estava dançando Farruca, que é uma coreografia masculina, forte, séria, e aquela expressão estava dentro do espírito. Mas a outra coreografia era uma Alegrías, e o próprio nome diz como ela deve ser: leve, alegre. Eu até sorri em alguns momentos no palco, mas eu me senti desconfortável, como se fosse alguém sorrindo sem razão. Como público eu acho lindo quando alguém sorri dançando, mas chegando lá foi estranho, forçado. A questão, na verdade, não é me programar pra sorrir, e sim encontrar esse sentimento quando vou dançar, e que ele faça com que a expressão venha naturalmente. Aquele que era para ser meu grande momento se tornou um doloroso feedback.

Fotos

Minhas fotos no Rio mostram que o Luiz tinha razão de se queixar de que eu estava magra demais (eu me sentia ótima). Talvez elas tinham imortalizado o único período em que não tive uma barriguinha, o que de certa forma me tranquiliza. Através delas comprovo o efeito sanfona que tenho passado nos últimos anos, e que – ao contrário do esperado – geralmente emagreço no inverno e engordo no verão. Os ombros que não estão mais caídos mostram que minha postura melhorou com o ballet. E meu casaquinho cinza? Pelas fotos dá pra comprovar que ele tem pelo menos quatro anos; e que o usei intensamente, da meia estação ao inverno. Nem preciso comentar o fato de ter muitas fotos em livrarias e parques e nenhuma (embora eu tenha ido em alguns) em casamentos. Em todas as fotos tenho marca de catapora na testa; meu rosto afinou consideravelmente depois que tirei aparelho e estou cada vez menos bochechuda… O mais interessante de tudo é perceber que, desde sempre, eu e a câmera apenas nos toleramos.

Fotos antigas

Hoje coloquei as mãos numa caixa com fotos minhas com ou tiradas por ex-namorados. Na caixa há também desenhos e e-mails, mas nenhum deles mereceu uma olhada. As fotos sim, são uma preciosidade. Além de falarem de lembranças bonitas (e outras nem tanto), elas revelam coisas da época em que eu vivia e a meu próprio respeito. Eu com o cabelo comprido, com calça de cintura alta, camisetas larguíssimas, os dentes ainda tortos. Lugares que mudaram, roupas que eu adorava, o jeito que eu sorria ou sentava. Fiquei nostálgica até com as fotos ruins, porque naquela época a gente batia uma foto e podia levar meses pra descobrir com que cara saiu. E, pelas dedicatórias de um ex, percebo que essa coisa de nunca gostar das minhas fotos é um problema antigo e crônico…

A foto

Namorávamos há anos e à distância. Pela primeira vez, era eu que ia visitar o mundo dele. Conhecer as ruas, os pontos de ônibus, os prédios. Num dos últimos dias, folheei um album de fotos antigo e encontrei uma foto em que ele estava com uma ex-namorada no colo. Fiquei mal, emburrei, me recusei a falar, fiz cena, reclamei que ela era linda – “você é mais bonita do que ela”, “Mentira!” e por aí foi.

Demorei pra descobrir porquê aquela foto tinha me incomodado tanto. Era daquelas fotos que a gente imagina a cena quando olha: eles estavam entre amigos, e na hora em que a foto foi batida os dois estavam gargalhando e sem graça. Em todos aqueles anos de namoro, eu nunca tive e nem nunca teria uma foto dessas com ele. Éramos um casal solitário, deprimidos, sem amigos e enfrentando o mundo. Precisávamos um do outro na mesma proporção que nos fazíamos mal. Estávamos sempre brigando, esclarecendo, chorando, pedindo desculpas, fazendo cenas, nos controlando. Não me admira que as coisas terminaram do jeito que terminaram – depois de uma semana inteira de brigas, com acusações, choros e esclarecimentos que não chegavam a lugar nenhum. Quando terminamos, eu estava exausta.

O amor tem que ser leve, senão não é amor.

Eu sou uma diva!

Neste momento, estou postando maquiadíssima, pois não estou com coragem de tirar a cara mais bonita que já tive em toda a minha vida. Nessas loucuras de amigas, fui parar numa sessão de fotos para fazer poses de Balance e Pilates. Como foi uma sobrinha de uma das fotografadas que arranjou, achei que seria tudo mais amador. Gente, não foi. Fotografo, fundo branco, iluminação, maquiagem profissional, ajustes técnicos. Me senti a própria Bünchen.
Tudo começou com essa coisa de achar as poses da aula lindas. E aquele papo de que um dia tinha que tirar foto, que eternizar, que a Janine que foi bailarina durante tantos anos não tem fotos decentes, e eu que sou escultora… Hoje foi o dia. Se não fosse para fazer entre amigas, ficaria tímida, não teria coragem de mobilizar uma estrutura dessas para satisfazer minha vaidade – todas as fotos são para consumo próprio mesmo. Aff, tenho que reconhecer: satisfazer a vaidade é óóóóóóóóóótemo!

Vida de modelo não deve ser fácil. A maquiagem é pesada, mas lindíssima. Tirei fotos no meu celular agora e tudo saiu milagrosamente lindo. O fundo é um pano, que escorrega, amassa, amarfanha e tem que ser constantemente ajeitado. Some tudo isso com poses complicadas! Na hora de tirar as fotos, é esquisito não saber direito o que se está fazendo. Ergue o braço, vai mais pro lado, faz pescoço de tartaruga, relaxa o rosto. Enquanto isso, todos te olham, te corrigem, comentam sobre mil coisas e a luz vai mudando. Às vezes você tem que ficar parado enquanto puxam a blusa, ajeitam a mecha, arrumam o fundo.

Acho que vou aproveitar uma das milhares do fotos lindas que tirei no celular pro meu avatar do orkut. Pro blog vai só a foto que tirei hoje da Dúnia, feliz porque ia passear. Sim, eu sou má – aqui, nada. Quem manda cometer orkuticídio, cara leitora?

Rua XV pra ONU ver

Com a conferência do sobre o meio ambiente da ONU, a cidade ficou toda enfeitada e cheia de turistas. Japoneses de ternos identicos correndo pela rua atrás de um ônibus; estações tubo decoradas, outdoors de boas vindas e até mesmo folhetos de prostituição com inglês macarrônico. No primeiro dia, fiquei quase 30 min olhando as novidades.

Bondinho da XV, onde eu e milhares de crianças já estacionamos enquanto os pais faziam compras.

Mapão com a cidade toda. Eu moro perto desse retângulo branco achatado, tá vendo?

No coração da Boca Maldita – painéis com informações históricas e climáticas do Paraná


Painéis, flores, fotos, cachoeira e sons de pássaros, no meio da rua.