Constante

mendigo

Agora a cada parada de ônibus tem alguém para “interromper o silêncio da viagem de vocês”. No meu supermercado a segurança não dá conta de tirar todos os mendigos do caminho, então sempre tem algum, em uma das saídas, para causar incômodo com sua falta de banho, roupas rasgadas e falando de fome. O mesmo sujeito me pediu dinheiro no terminal, na ida, e depois me pediu dinheiro no ônibus, na volta. A história de fitoterápico fortíssimo para doença degenerativa talvez não cole com ninguém com o mínimo de instrução, mas ele tinha o rosto retorcido de uma maneira que não é possível fingir então, tanto numa ocasião como outra, as pessoas ajudaram. Eu ajudei na ida e não ajudei na volta. Num supermercado comprei um café com leite pra um, no outro estava espantada diante de uma compra leve que saiu mais de cem reais, então não olhei e fingi que não ouvi, e o mendigo se queixou da minha falta de consideração de nem ao menos olhar para ele. Voltei para casa convicta da minha falta de trocado, que era verdadeira, mas com o coração apertado. Outro dia, naquele mesmo supermercado mas em outra saída, eu ajudei um homem que estava abordando pessoas, uma depois da outra, e elas lhe ignoravam. Eu estava subindo a rua e observava. Quando ele chegou perto de mim, não consegui ser dura com ele, não depois de ver aquela cena se repetir tanto. “Graças a Deus a senhora parou pra me ouvir, eu estou aqui há mais de uma hora…”. Eu não acreditei em uma palavra do que ele disse sobre passagem errada, mas lhe dei uns trocados. Eu tinha trocado e não estava me sentindo pobre. Para mim o tempo também parece estar correndo contra, eu também não sei o que fazer. Será que aquele pra quem eu nem olhei estava realmente com fome? Meu mundo está se desfazendo. Será que eu tinha a obrigação moral de entregar pra ele os meus dez reais? Tudo o que eu acho importante pra sociedade está sendo jogado no lixo, e a indiferença dos que têm posses me enlouquece. Vi um colega num carro todo caro e ao invés de ficar interessada vi naquilo a injustiça do mundo. Quase voltei, o mendigo não ia sair do lugar, mas é uma subida tão difícil. Me dei desculpas até chegar em casa. Vai me fazer falta. Vai mesmo? Não tanto quanto faz a ele, mas vai. Este mês, em especial. Eu também não sei mais o que fazer de mim. Eu estou perto deles, eu também sou eles.

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Pequenos momentos de reveião

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O supermercado sempre me dá uns cupons de promoção que eu raramente uso, porque são sempre itens que eu não compro, porque não consumo ou não gosto da marca. Desta vez, tinha finalmente ganhado um que poderia ganhar, porque era só o valor da compra – acima de R$ 120. O problema é que fui me organizando pra não dar as caras em comércio em geral no fim do ano. Comprei antecipadamente remédio pra articulação do cachorro, comprei toda comida que não estragasse, deixei qualquer compra de vestuário e afins pras promoções de janeiro. Deixei o cupom na frente do computador. Fui uma vez no supermercado, pouco antes do natal. Mas era pouca coisa. Aí não deu mais pra segurar e tive que fazer uma compra maior dia 30. Lembrei do cupom quando estava lá. Coloquei as coisas na cestinha o torci mentalmente pra não chegar a R$120, só pra não ficar me xingando. Quase abandonei uns itens, mas aí seria roubar. Foi um suspense no caixa. Não deu 120, chegou perto. Ainda bem.

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Uma amiga me convidou para a virada de ano na casa dela. Nunca gosto de me sentir invadindo as festinhas dos outros, mas nesta eu iria porque conhecia e gostava dos presentes. Ela não apenas convidou, reafirmou que adoraria muito que eu fosse. Eu acreditei duplamente: por ela ter dito e por ter visto que ela me conhece, que sabe que tenho dificuldade em acreditar que importo, e ter feito questão de que eu sentisse que ela me quer bem. Não pude ir mas fiquei tão grata.

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Do porquê não fui e o que fiz: tenho um vizinho que vende fogos. Isso aqui vira uma Copacabana. Pior que eu nem vejo, porque não tenho ângulo aqui de casa. Eu já nem perco mais tempo colocando roupa nova ou tomando banho. Toda mudança de ano aqui é abraçando fortemente uma cadela que normalmente odeia contato físico, mas que fica desesperada sem saber o que fazer de si mesma com o barulho.

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

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Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

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Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

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Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

Curtas de necessidades

get cap

Aquele dia que você passa no supermercado sem saber muito o porquê. Passa pelas prateleiras, revisa mentalmente o que tem na geladeira, lembra que fez feira há poucos dias e se decide por um suco e um docinho. Quando chega em casa, descobre que precisa comprar arroz e óleo.

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Meu super poder x-men: empatia. Me pego falando de cachorro com a mocinha do caixa, recomendando kindle pro verdureiro, falando de corrupção com outro verdureiro. Ouço a confidência sobre o homem casado, recebo mensagem de uma inconsolável com uma injustiça. Na hora parece tudo normal, mas depois fico sabendo que foi só comigo. É sem querer.

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Não é de hoje que pensei isso, e talvez soe meio triste: meus blogs suprem a necessidade que tenho de compartilhar coisas que no mundo real não consigo. Quero que vocês assistam Atypical, quero que vocês leiam a biografia do Churchill, quero que mais alguém goste de nakshatras. Quando consigo influenciar uma única vivalma, fico tão feliz.

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“Já perdemos essa eleição”, me disse uma amiga bem desanimada esses dias, “pra que continuar lutando?” Eu lhe disse que temos obrigação. Nem que seja apenas para, no futuro, não se envergonhar. Pelo menos nós não nos omitimos.

Curtas de uma mente exausta

Eu queria um sabonete líquido específico, que é sempre tão fácil de achar. Mas, parando pra pensar, eu nunca o comprava naquele supermercado. Olhei fixamente para a prateleira dos sabonetes líquidos, dos sabonetes íntimos, dos sabonetes, fui até a sessão de xampu, voltei para os sabonetes líquidos, fiquei olhando fixamente. Ele não estava escondido e não saltou da prateleira. Um funcionário não apareceu lá pra repor. Foi negação pura.

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Em poucos meses, do time “não sei inglês, nem me mostre”, passei a assistir vídeos sem legenda o dia inteiro e fazer minha primeira tentativa séria de ler um livro em inglês. Tudo por causa da minha curiosidade insaciável pelos nakashatras e a dificuldade de encontrar bons materiais em português. Uma coisa que a astrologia védica acerta e nunca achei uma boa explicação na astrologia ocidental é dizer que sou muito virginiana. O perfeccionismo quase (quase?) doentio sempre foi minha marca registrada.

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Aquele dia que você acorda decidida: cansei de ser forte, a vida é uma merda, vou me entregar mesmo, o próximo mês vai ser só na auto-comiseração. Aí você encontra com a pessoa que está vivendo uma das situações mais dolorosas da vida humana pela segunda vez.

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Este vídeo, tão lindo, mostra a órbita do planeta Vênus. Diz que numa divisão no tempo que Vênus leva ao redor do Sol com ao redor da Terra – ou algo do gênero -, chegamos no número aúreo. Quem estiver com a mente em perfeito estado, pode pesquisar as orbitas e fazer as contas. Mentes prejudicadas podem apenas olhar pro vídeo e ser hipnotizado também.

Um sonho muito simples

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Eu estava conversando com um amigo e ele me contou que tinha uma vontade muito grande de andar naqueles carrinhos com motor no supermercado. Aqueles exclusivos para pessoas muito idosas e/ou com problemas de locomoção. Era mais do que uma vontade qualquer, era um sonho. Mas com seus vinte e poucos, alto, forte e super saudável, jamais iriam deixá-lo fazer isso. “Você quer mesmo andar naquele carrinho, muito, é importante pra você?” Sim, ele respondeu. Eu me senti dentro de um livro do Sidney Sheldon. Como a história do carrinho é pequena, vou contar do livro: a personagem era uma mulher ambiciosa e sedutora, e pretendia ajudar um homem a fugir do país. Acho que era judeu, na época da guerra. Mas ela não sabia como fazer. Aí, numa festa, encontrou um escritor e disse que estava escrevendo um livro e empacou, não sabia como salvar o personagem. Ela contou para ele a sua situação como se fosse um livro. O escritor inventou na hora a saída: colocar o judeu no porta-malas enquanto a mocinha fazia um figurão nazista levá-la para um passeio, atravessando a fronteira. Assim ela fez e salvou o judeu.

Voltando ao caso do supermercado. Eu sugeri ao meu amigo chegar no supermercado mancando, dizer pro funcionário que havia acabado de se machucar no caminho e se poderia, se não fosse muito incômodo, fazer suas compras com um daqueles carrinhos elétricos. Deu certo.

Mente matemática

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Eu sei que, invariavelmente, a minha mão tem cinco dedos, mas sempre preciso dar uma conferida, ou até tocar, quando vou fazer conta. A calculadora do Windows fica bem visível. Nunca esqueci quando li que o Google também serve de calculadora, é só colocar a conta no lugar da busca. E no celular, é um aplicativo que está na tela inicial, assim que a gente desbloqueia. Mas ele não estava comigo, porque fui no supermercado só com a carteira. Uma compra pequena, nenhum item urgente, mas gosto de ir no supermercado naquele horário por estar sempre vazio. E não é bom deixar acumular. Queijo em promoção, atum em promoção, o pão de sempre, peguei o hábito de beber leite em caixinha na tentativa de diminuir o café e não voltar a ter leite em casa. Estou indo pro caixa, olho para os produtos na cestinha e decreto que daria uns cinquenta reais. Deu R$ 45,37 e fiquei perguntando onde é que tem um Rain Man dentro do meu cérebro.

Espaço pessoal

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Não lembro de onde eu tirei essa ideia, só tenho certeza que foi em alguma esquete de humor. Jamais tinha tido a oportunidade de colocar em prática, porque ela requer uma ajuda da natureza. O supermercado estava vazio. Fui passar as minhas compras e a caixa já estava sendo atormentada pelo filho da tal mulher. Ela estava parada bem na frente do lugar onde se passa o cartão, ou seja, quase na frente da caixa registradora. Achei que ela tinha tido algum problema grave, pra ter que ficar lá no caixa mostrando que não ia sair de lá, etc. Não era nada disso, estava batendo papo com uma passando compras ao lado. A criança enchendo o saco, eu espremida pra digitar o número do CPF, abrir saquinhos e guardas as compras e a maldita lá – não dava um passinho pro lado, não punha limites na criança, não me dirigiu a palavra e nem pretendeu que tinha uma justificativa boa para estar ali. Muito irritante eu estar na vez e no lugar certo e ela não estava respeitando nem a distância pessoal mínima entre desconhecidos. Aí eu peidei. Peido de ovo.

Activia sabor ameixa

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Acordei cedo por motivos outros, e quando vi fui a primeira pessoa a passar pelo caixa do supermercado da terça. E logo na primeira cliente do dia a caixa precisou ficar parado. Basicamente, fui ao supermercado só para comprar iogurte, mais especificamente, o litrão de Activa de Ameixa. Já fiz intensa pesquisa com vários iogurtes, e único que não me enjoa se eu tomar sempre, por ser menos doce, é esse. Quando fui buscar, tive a feliz surpresa de ter encontrado justamente o Activia Ameixa numa promoção de quase 50%. Só que na hora de passar no caixa, passou o preço inteiro. Devo ter perdido muita promoção, porque geralmente estou ocupada abrindo sacolas e enfiando umas nas outras ou simplesmente não lembro direito do preço para poder afirmar com certeza que não passou. Mas desta vez não teve como não notar. A moça do caixa fez a única coisa ao seu alcance – acionou o aviso que chama alguém. Fiquei lá parada, a única cliente numa caixa, o único número indicando problema, e nada. Se eu não tivesse ido justamente pra comprar iogurte, teria dado as costas e pronto. Depois de uma longa espera surge a moça, que sem dúvida não achou que precisava olhar caixa nos primeiros cinco minutos que o supermercado abriu. Por sorte, estava num caixa ao lado dos iogurtes. Apareceu uma família que não acreditou quando eu aconselhei a procurar outro caixa e ficaram por ali, de testemunhas. A moça do patins foi até a geladeira e de onde estava deu pra ver que ela buscou a etiqueta errada. Ela cancelou a compra e quis digitar o preço do Activia Morango, que estava em promoção mas não tão barato. Não, tem que ser o Ameixa, aí largo todo mundo lá, vou até a geladeira, arranco a etiquetinha de promoção e trago. “Ah, é que essa estava escondida” “Ela estava junto dos iogurtes de ameixa”, disse A Louca do Iogurte de Ameixa.

Às vezes me parece que a vida adulta nos reduz a isso, a batalhas pequenas e constantes apenas para manter o espaço. Como dar a elas a medida exata da nossa atenção, sem deixar passar e ao mesmo tempo não se deixar afetar?

Curtas porque a vida é feita de pequenas vitórias

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Num dia você tem dentes branquinhos e perfeitos e quer morrer de pensar em exibir dentes com braquetes de novo. Nem tanto tempo depois, acha que ganhou um presente porque o ortodontista concordou em, daqui há meses, trocar seis braquetes metálicas por estéticas.

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Meu supermercado voltou a vender Gengibirra, bem timidamente. Achei uma perdida na Páscoa, que abracei e levei como se fosse um ovo kopenhagen. Depois começaram a aparecer uma aqui e outra ali. “Vou aproveitar que não tenho nada pra levar e passar no super pra comprar uma Gengibirra”. Tem que mostrar pra eles que elas fazem falta.

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Nem te perguntei, Ernani, mas tenho que eternizar isso:

Viu, Fernanda? Tua foto está invadindo todos os espaços do Sul21. Quase todos os blogs foram grilados pela tua foto. Os colunistas devem ser os próximos. Mais umas horas e tua foto substituirá as ilustrações de todas as matérias. Primeiro o Sul21, logo o mundo.
Philip K. Dick poderia escrever um conto com isso.

Meio sacanagem colocar como vitória a ocasião em que invadiram um site que me hospeda, mas não é todo dia que chego perto de conquistar o mundo.

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Eu tinha uma sala de estar envergonhada, tudo meio branco, material de costura pelos cantos, bicicleta numa parede distante. Dia desses enfezei, e resolvi assumir de mim para mim mesma que ninguém nunca vem aqui, muito menos para jantar. E se por acaso alguém aparecer, vai ser um ou outra vez na vida. Reorganizei tudo, transformei num grande atelier de costura e deixei a bike bem visível e de fácil acesso. Cada vez que passo por ali sorrio e me parabenizo.

Curtas natalinos

Vou dizer a verdade: o post de hoje é de curtas natalinos apenas para eu poder usar a figura ao lado.

 

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Comprei um chocotone de supermercado, que estava numa super promoção e eles garantiam que tinha a mesma qualidade dos de marca. Fui abrir e claro que tinha uma gotinha preta aqui e outra lá, era praticamente um pão. Mas sabe que estava mais gostoso? Colocam essência e chocolate demais hoje em dia.

 

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Eu pensava que esse ano escaparia de comprar lembrancinhas. Sempre dei presente pro pessoal da lavanderia, mas agora vou lá bem menos, achei que não ia rolar. Mas me deram presente mesmo assim e abraços, de maneira que tive que sair correndo. Uma das muitas coisas doídas da separação é admitir publicamente que acabou. E, por estranho que pareça, elas eram as que mais me doíam contar (o que nem foi necessário). Ali sempre houve um carinho mútuo, daqueles simples e sinceros.

 

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Por falar em contar, praticamente mantive meus planos natalinos em segredo, que é pra ninguém sentir pena e querer me levar pra casa. Passei da fase de precisar de companhia a todo custo. Nunca fui muito chegada em natais, mas o povo tem certeza que na hora bate uma melancolia e quem está sozinho em casa necessariamente se entristece. Eu juro que não.

 

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E já que estou nessa de ignorar data, me darei presente de natal só no ano que vem, com tudo em promoção.

Curtas de supermercado

* Não sei o que será da minha vida se um dia tiver um supermercado pertinho de casa. Pro meu eu ando tanto, tem mato, tem subida, tem casas, tem comércio, tem tanta coisa no meio do caminho, que é sempre um passeio. Meio sem saber o que fazer, precisando matar um tempo razoável? Supermercado.

* O papel toalha fica ao lado do carvão, faz sentido pra vocês? Acho que só pra quem inventou essa arrumação. Quando vi uma moça igual barata tonta e perguntando pro funcionário, quase soltei um Ahá!, porque tinha passado pelo mesmo problema.

* O conjunto em promoção de shampoo e condicionador é tão em conta que é quase o preço de apenas um item. Levo. Só que na vez passada, e na vez anterior a essa, já havia aproveitado outra promoção igualzinha. Agora estou colecionando shampoos (só os shampoos).

* Em um supermercado tem o cacau em pó sem açúcar, enquanto no outro tem tilápia congelada e servem café, enquanto o terceiro é nóis, é onde compro sempre e sei onde tudo está. Sempre pensei que ficar com o coração dividido só valia para pessoas e cidades.

* Eu gosto de tratar bem quem me atende, mas com caixas de supermercados chega às raias da compulsão. Não sei se eu é que vou demais pra lá ou se é porque sei que essa profissão é das mais estressantes, o que sei é com eles a vontade é mais forte, vai além da educação. Puxo papo, pergunto, converso, se deixar faço um stand up ali na hora. Só relaxo quando arranco um sorriso. Às vezes funciona, às vezes não.

Chorar porquê

Já passei da fase de querer chorar na sessão de hortifruti, quando comprar um pimentão, um cacho pequeno de bananas e umas três cebolas me deprimiam. Não que na minha casa se cozinhasse muito, mas não era tudo tão pouco, tão gritantemente solitário. Semanas atrás dei pra quase chorar na sessão de bolachas, ou sei lá que sessão é aquela. O supermercado onde eu vou começou a se expandir, e eles não fecharam pra fazer a transição. Então cada dia que eu vou lá, as coisas foram parar num lugar diferente. O padaria continua no fundo, mas os pães de forma ficam muitos corredores à esquerda. Naquele dia em especial eu havia percorrido vários corredores à procura de tudo e fiquei cansada. A cestinha já estava pesada, mas faltava comprar a bolacha. Eu ainda enfrentaria o caixa, a distribuição na sacola, a longa subida até minha casa. Eu rodava feito uma tonta, só gosto de uma marca específica de bolacha e… enfim, eu estava quase largando a cestinha no meio do corredor e cobrindo o rosto com as mãos, igual criança. Até que finalmente achei.

 

Não sei se hoje foi mais sério ou eu estava mais frágil e mais cansada, ainda mais que eu havia machucado as costas de manhã. Apesar de ter aula mais tarde e ter saído de casa pelo menos meia hora mais tarde, o Interbairros 2 me deixou esperando quarenta minutos no ponto, de novo. De onde eu concluo (alô, prefeitura!) que há um intervalo de horário de duas horas no final da tarde que aquela linha não funciona direito. Frio, de pé, costas doendo. Não há livro e horário adiantado que não consigam fazer quarenta minutos que são estendidos de dez em dez pelo marcador não parecerem longos. Meu pensamento quis me tirar dali e, em busca de um pouco de prazer, lembrou daquele beijo. Aquele que foi tão bom, que finalmente encaixou, que teve tanto calor e afeto que parecia que depois dali tudo deslancharia. Só que não apenas não deslanchou como foi o nosso último. Dessa vez não deu pra segurar e quando me vi a sós, caminhando nas ruas escuras, desatei a chorar. Minha desimportância bateu forte demais.

Uma manhã de dezembro

Eu estava na fila do Mercadorama da Praça Tiradentes. Fui conformada, lá sempre tem fila, sempre demora muito, ainda mais meio dia. O caixa rápido tinha duas caixas e quatro pessoas na minha frente. Eu havia andado a manhã inteira pelo Boqueirão, à procura de agulha para minha overlock. Tem esses imprevistos que não dá pra passar por consumidor, não dá pra reclamar. Como esse retalho que eu comprei, que deixa o maiô belíssimo, mas que destrói agulhas de overlock como nenhum outro. Foram quatro com dois maiôs. O normal é não quebrar nada. Aí fui na rua mais cheia de lojas de máquinas de costura da cidade, já prevendo que teria que passar por muitas. Aproveitei pra passar numa farmácia, porque reza a lenda que tudo no Boqueirão custa a metade. Comprei vermífugo, ainda impressionada com o verme que vi no fundo de uma privada no dia anterior. “A gente que tem cachorro” – me alertou a amiga – “devia tomar pelo menos uma vez por ano”. Comprei duas doses, pra matar bichinho e bichinho grávido que solta filhote ainda morto no organismo. Já que ia promover uma matança interna, o farmacêutico me convenceu a comprar vitaminas. Achei caro, mas levei mesmo assim porque devem ser caras pela metade do preço. Ele me disse que aquela vitamina era desenvolvida especialmente para mulheres, e acredito nele: a embalagem e as pílulas são cor de rosa, e está escrito em letras garrafais que “NÃO ENGORDA”. Quem fez aquilo conhece seu público. A mulher com criança na minha frente sai da fila e avançar um pouco me permite aproveitar a oferta de Wake. Tanto melhor. Fico atrás de um homem alto, magro, e um rosto cheio de marcas de espinhas, um biotipo estranhamente familiar. O dia nem havia começado e eu já estava cansada. Aparentemente eu sou uma das duas ou três pessoas na cidade que tem uma Ultralock da Singer. Não é overlock e nem interlock, é ultralock. Nunca descobri o porquê. Quando uso o termo ultralock me olham como se eu fosse louca, de tão desconhecida que a máquina é. Não foi a minha intenção! Sem dizer que a agulha custa mais caro. Depois de muitos nãos, encontrei uma loja que não tinha lá, mas que tinha na filial. Topo andar até a outra, desde que ele me garantisse que não seria em vão. Dez quadras ensolaradas depois… “Moço, você tem agulha para ultralock da singer?” “Temos, quantas você quer?””TODAS.” 

Sou interrompida nos meus pensamentos pelo homem que está na minha frente: “Moça, não precisa ficar segurando a cestinha assim, pode apoiar ela no chão”. É mesmo. Ela estava pesada, com refri dois litros, leite, capuccino, dois Wakes em promoção, queijo ralado. Agradeço o conselho e ele me diz que é assim mesmo, a gente se distrai. Na noite anterior, inclusive, era pra ele ter morrido. Antes de dormir ele havia colocado uma água no fogo e esquecido ela lá. Aí ele foi dormir, passou pela sala, a irmã estava vendo TV. Inclusive ele não era daqui e sim de Feira de Santana (bem que o biotipo me era familiar) e não fazia muito tempo que estava aqui. Já esteve, e voltou, e nesse meio tempo ele havia hospedado o irmão. Irmão que se envolveu com drogas e disse pra todo mundo em Feira que quem usava drogas era ele, veja só. Logo ele – e me mostra a cestinha, que tinha apenas um pacote de arroz integral – que não usava nem as drogas lícitas, que gostava de se alimentar da forma mais natural o possível. E tinha traficante atrás dele, ninguém acreditou nele. Quatorze anos ajudando esse irmão, inclusive tinha trazido ele pra Curitiba, hospedado em casa. Até quando o irmão engravidou uma moça era ele quem pagava a pensão, porque o irmão estava desempregado. Não era muita coisa, só cento e oitenta reais, mas era ele quem pagava, ele que nem tinha nada a ver com isso. Mas bem que a mãe dele também tinha passado por uma situação dessas, de ajudar e depois ser traída. Uma mulher que ela ajudou mais de vinte anos, que abria o armário da cozinha e dizia pra ela levar o que quisesse, e a mulher saiu por aí dizendo que a mãe dele dava resto. Ele deveria ter visto o exemplo da mãe e se prevenido. Porque as pessoas são assim, há de se ter muito cuidado com as pessoas. Tem coisas que só por Deus mesmo, ele é quem olha pela gente. Igual a panela no fogo no dia anterior. De madrugada ele até havia acordado com uma sensação estranha, mas não levantou da cama. De manhã o fogo estava apagado e ainda tinha gás, uma coisa inexplicável. Foi a intervenção divina mesmo, Deus é que olha por nós. Que eu contasse com Deus e não com as pessoas. As pessoas exploram. Foi um prazer conversar. E feliz natal.

As duas caixas

Eu estava sendo atendida por uma caixa muito velha, de cabelo todo branco, preso, o rosto muito enrugado. Sábado, quatro da tarde e uma mulher daquelas não está em casa vendo TV. Embalando as compras estava um velho, que também deveria poder estar em casa vendo TV. No caixa atrás dela, uma mulher com uns quarenta anos. Esta caixa, a de quarenta anos, estava passando compras de um cliente e já havia puxado a portinha que indicava que o caixa estava fechado. Aí surge do nada uma moça, também com o uniforme do supermercado, abre a portinha e passa correndo. Enquanto a moça está atravessando a portinha, a mulher de quarenta solta uma expressão de indignação. Depois, começa a reclamar pra caixa velhinha e pra mim (quem mandou fazer contato visual): aquela mocinha era sempre assim, vivia fazendo dessas, passava voando, não pedia licença, se achava melhor do que os outros e outra apenas outra caixa, de onde ela tinha tirado que podia fazer dessas coisas, etc. Eu pensei, cá com os meus botões, em quantas vezes passei desabaladamente também, sem pedir licença apenas pela ingenuidade de achar que não precisa pedir licença e por ser naturalmente agitada quando mocinha. Quantas antipatias gratuitas no meu passado, quem sabe, podem ser explicadas por isso.
A minha caixa, a velhinha, não ligou pras queixas. Não falou mal da moça, desconversou, sorriu, falou de que sorte a colega já estar de saída. Olhou para as minhas compras e do seguinte na fila e calculou que só nós dois e chegaria quatro e meia, hora dela ir embora. Que bom, ela estava quase indo embora. A outra, não encontrando uma colega pra reclamar junto, ficou quieta.
Às vezes me parece que reclamar virou esporte olímpico e só eu não estou sabendo. Qualquer unha quebrada e o universo que aguente o mau humor. Quando a gente quer dar um feedback pra pessoa, nunca consegue, ninguém nunca sabe o que ela está passando. Você pode ter passado pela mesma situação um dia, pode estar passando por um período foda hoje, mas o outro sempre terá desculpas – “o meu caso é pior”, “pra você é fácil dizer”, “mas é que você é (insira aqui um adjetivo) e eu não”. A verdade verdadeira, como no caso dessas duas caixas, é que há uma margem de escolha sobre ao que dar importância.