Viver é levar uma bandeja com água num tobogã

Eu estava conversando com uma amiga dia desses, ela estava tentando mudar seu padrão acumulador. Não sei o quanto a cada dela está abarrotada, não acredito que seja até o teto e com o cadáver de um gato sumido por detrás de revistas, mas ela me pareceu bem culpada. Pelo dinheiro gasto, pelo espaço ocupado, pela inutilidade da coisa, etc. Eu estava no celular e odeio digitar pelo celular, então quem sabe se não fosse isso eu pudesse ter lhe dito que lembrava de outra amiga, que para arranjar o emprego dos sonhos saiu de uma cidade no interior de SC e foi para o Rio de Janeiro e trabalhou com o que amava, mas cercada de muita competição e machismo. Ela passou por um período acumuladora também, gastava uma nota em sapatos. Foram alguns anos de Carrie Bradshaw, que também a chatearam. Eu lhe disse: nova, sozinha, numa cidade estranha, enfrentando tudo o que você enfrentou, queria o que, passar sem nenhuma válvula de escape?

Não sei se isso é vida real para quem vive em país subdesenvolvido econômica e culturalmente, ou se dá pra afirmar universalmente: a vida é dura. É uma crise atrás da outra – ou juntas. Na maior parte da vida, somos aquelas pessoas que descem no tobogã segurando uma bandeja (eu via no programa Silvio Santos, mas o vídeo que eu achei é do Ratinho), com esperança de conseguir manter um tiquinho de líquido ali. Estamos sempre tendo que aguentar alguma coisa, nos compensando de alguma coisa. Alguns fazem isso com sapatos, outras com namoros, sei lá. Quando nova, tinha a ilusão de conhecer meus defeitos e superá-los; hoje sei que quem consegue controlar o mecanismo que dispara um só defeito já fez muito nessa vida. Como disse para as duas: se pra comprar um monte de coisas, você apenas ficou um pouco pobre, ainda está no lucro. O grande desafio na vida é não fazer uma besteira irremediável, a si mesmo e aos outros.

Leão no apartamento

leão

Parece Cortázar mas é Animal Planet. Lembrei e fiquei com vontade de contar.

Era uma série que só falava de casos de pessoas que adotaram grandes felinos (na sua maioria) e acabaram morrendo por isso. Não sei se o recorte do programa dava uma impressão errada, vai ver que fora os casos descritos existem milhares de pessoas com leões, onças e jaguares de estimação e que vivem muito felizes com elas; no programa, todos os retratados tinham uma relação tão apegada com os bichos que era algo doentio, como se o felino o dominasse. Se ter um gatinho doméstico em casa já deixa as pessoas meio servos deles, imagino que um gato de toneladas tenha um poder que enlouqueça um pouco. Essas pessoas ficavam cada dia mais fechadas no mundo delas, faziam tudo em função do bicho e com o tempo ficavam muito imprudentes – se aproximavam de fêmea furiosa no cio, de bichos famintos, etc. Aí um dia o bicho perdia a cabeça e atacava. Era só um rompante, igual memória curta de cachorro, mas como o animal era forte demais, um simples rompante desses era fatal.

O caso mais interessante que eu vi eram de dois irmãos que, não sei como, arranjaram um filhote de leão e levaram pra um apartamento. Se não me falha a memória o apartamento ficava no Bronx, era um lugar bem central. Um dos irmãos ficou com o leãozinho e o outro ajudou a guardar segredo. Claro que o lindo filhotinho foi crescendo, passou a comer muitos quilos de carne crua por dia, a ter uma pata do tamanho de uma cabeça e se sentia meio confinado. Mostraram imagens das paredes arranhadas de cima abaixo. O rapaz passou a viver em função do leão – ele não trabalhava e mal saída de casa, praticamente só saía para comprar comida. Os vizinhos só o viam de vez em quando no elevador. O outro irmão nem ia mais para o apartamento, mandava dinheiro e deixava coisas na porta. Eu fico imaginando a existência estranha de uma pessoa num apartamento submetida, apaixonada e hipnotizada por um leão. O leão esparramado pela sala, enorme, com o peito subindo e descendo suavemente a cada respiração. Passar uma escova na linda juba do leão. O leão deitar a cabeça no seu colo na hora do jornal. Pelos de leão pela casa. Dar banho no leão. Olhar para o leão estraçalhar com facilidade grandes pedaços de carne crua.

O que causou o fim do relacionamento foi quando apareceu um gato – desta vez um normal, doméstico – no corredor do prédio e o rapaz resolveu adotá-lo também. Tadinho do gato. O leão não viu ali um parente. O rapaz notou que desde o primeiro instante o leão olhava estranho para o gato e ele ficou de olho no leão olhando para o gato. Aconteceu o esperado: o leão tentou comer o gato, e quando o rapaz viu o que estava pra acontecer, tentou evitar o bote. O leão amava mesmo o rapaz, porque ele se meteu entre um leão e a sua caça e saiu vivo. O leão apenas o afastou, o que fez o rapaz voar longe e quebrar vários ossos. Ele ligou pro irmão pedindo ajuda. No hospital, com aqueles ferimentos, eles tiveram que se explicar para os médicos. Aí o programa mostrava imagens reais da fachada do prédio, vizinhos consternados, uma multidão acompanhando. Atiradores entraram no apartamento com tranquilizantes. Imagina a sensação de invadir um apartamento com um leão dentro. O leão foi levado para um zoológico e os irmãos foram punidos.

Entrevistas

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Uma vez eu disse pra um novinho (acho esse termo muito engraçado!) que nenhuma entrevista com gente com menos de quarenta anos de idade valia a pena. Quarenta sendo boazinha, nem todo quarenta, melhor ainda se a pessoa tiver pra lá dos sessenta. Ele não gostou, é claro, achou papo de gente velha que se valoriza, porque afinal eu estava mais perto dessa idade interessante do que ele. Estou realmente perto dos quarenta, e mesmo assim ainda acho que uma entrevista minha não vale a pena. Quem sabe daqui há uns vinte anos, se eu de lá pra cá eu conseguir superar esse marasmo.

Uma vez estava passando uma entrevista da Carolina Dickman com o Faustão. Não lembro se estava na casa de alguém ou se estava fazendo outra coisa no momento, só sei que eu não estava prestando atenção e a toda hora ouvia ela dizer “eu acho”. Foram tantos “eu acho” que fiquei com vontade de matar a criatura. Depois me dei conta que a culpa não era dela. Ela era uma novinha. Quando se é novo, tudo o que você pode dizer é o que você acha. Uma pessoa quando jovem não passa de um projeto. Ela tem muitas opiniões, faz generalizações, pretende muita coisa, mas tudo pro futuro – e esse futuro pode nunca se realizar. Interessante é entrevistar que não é projeto e sim quem já é. Essa pessoa vai não te falar o que ela acha, ela vai falar o aconteceu, qual sua participação, o que ficou ou o que mudou, as pessoas que estavam ao lado dela. A fase do “eu acho” é o início da régua e os desafios estão todos nelas: os caminhos disponíveis, que escolhas fará, que exemplos têm, o que consegue fazer no dia a dia. Mas para ouvir, vai por mim, a outra ponta é mais interessante.

Curtas sobre programa de decoração

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Eu sempre me pergunto – quem paga essa reforma? Vocês dirão “o programa, lógico”. Olha, não é tão lógico assim. Uma vez, na minha adolescência, me interessei por uma dessas transformações de revista, era uma sessão tipo Um dia de Nova. Entrei em contato com eles e soube que a mulher transformada pagava tudo, de maquiador ao sapato. A única vantagem era a honra de aparecer na revista.

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Você assiste os programas pra pegar dicas e descobre que a dica mais importante é ter dinheiro para fazer tudo de uma vez e sob encomenda.

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A mudança começa com “arrancamos os rodapés, tiramos o piso, alteramos a parte elétrica”, ou seja…

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E os objetos? Nada sai por menos de quinhentão. Da cadeira assinada à luminária pseudo rústica que desce do ponto de luz do canto da parede (que não existem em casa nenhuma). De vez em quando aparece um objeto simples e barato – só que ele está numa composição com outros 54 idênticas.

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Ainda sobre os objetos, agora sobre os “faça você mesmo”: será que alguém tem coragem de fazer? Pra todos você tem um trabalho do cão e um resultado tão fuén que parece que o objetivo é nos convencer de que vale mais a pena pagar por eles.

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Agora a última sobre os objetos: dá pra ver que o acabamento da decoração é dado por um monte de objetos fofos e inúteis. Um lado meu curte, acha acolhedor, etc. Outro pensa – olha quanto tapete pra bater, como faz quando essa cortina encardir, as folhas ficarem amassadas, imagina pra tirar o pó desse monte de coisa? É o lado dona de casa.

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Eu sempre acho que essa história de bater um papinho com a gente, nos expulsar durante alguns dias e entregar tudo pronto nos mínimos detalhes é o sonho de todo decorador. Tratar com o mau gosto alheio deve ser um saco, o que eles querem é fazer o que lhes dá na veneta.

Um post bem invejoso

Quem não via a Escolinha original pode ter pensado que o personagem do Zé Bonitinho era um dos principais. Não apenas não era – a rigor, não havia principais – como nem era assim tão engraçado. Eu era muito nova pra entender a ironia do personagem, e ficava meio irritada com ele. Apenas revendo a Escolinha eu me dei conta do quanto eu a assistia, de que conhecia cada um, e um programa que pra mim era puro hábito me deixou saudosista. Delícia rever Ademar Vigário, Rolando Lero e Pedro Pereira – inclusive vivo falando “há controvérsias” e tinha me esquecido da fonte. Aí quando vi Mateus Solano como Zé Bonitinho o personagem me apareceu como algo inédito, incrível. Desde que apareceu na TV, Solano tem se destacado em todos os personagens que faz, mas nunca havia sido tão claro pra mim o quanto ele é talentoso. Eu me senti como um dos atores escalados para a nova versão, com o desafio de imitar algo que já existiu e o sujeito vem e brilha daquele jeito. Esse é um “problema” muito comum no meio artístico: gente que tem tanto talento que nunca passa despercebido, que é capaz de fazer um excelente trabalho com qualquer coisa, que protagonizará mesmo com a menor das brechas. Chamei de problema porque é um problema para todos os que estão ao lado e não são tão bons, ou seja, 98% da população. Não é algo que se treine e nem se force, a pessoa simplesmente é. Eu não sou. Não sou assim no flamenco, na vida, em nada. Sou justamente o contrário: aquela pessoa que apaga nas multidões, que se chama atenção é por ser quieta demais, que leva anos pra mostrar suas qualidades. É o destino dos tímidos. Somos observadores, empáticos, sensatos, adequados, inteligentes, somos muitas coisas, mas brilhar desse jeito não é o nosso. Então quando vi o novo Zé Bonitinho, um lado meu não pode deixar de se render – e o outro ficou com raiva, com despeito, com inveja.

TV no sertão

Hoje em dia essas reportagens não são comuns, mas eu já li várias que contavam, com grande alegria, da chegada da televisão em cidades onde as casas não tinham nem luz elétrica. Montava-se uma grande estrutura, vários metros de cabo, e colocavam a TV no meio da praça. As famílias iam todas pra lá, à noite, para assistir novela das oito. Essas reportagens não aparecem mais primeiro porque o sertão não é mais aquele, ainda bem. Segundo porque hoje já temos um tiquinho de noção de antropologia, e as pessoas já não acham mais que você está melhorando a vida das pessoas apenas em importar um item da sua sociedade e plantar no meio da delas. Eu ficava imaginando como seria uma sociedade bem tradicional, patriarcal, com acesso à tão pouca coisa, vendo os personagens das novelas. As casas, as roupas, o modo de falar, as relações – tudo acenaria para um mundo tão perto e tão longe, que eles nunca teriam acesso. Imagino os estragos que essas TVs não fizeram. Nesse sentido, eu até entendo (entender não quer dizer concordar, acatar, justificar, etc) o ódio que alguns grupos islâmicos têm da cultura ocidental. É distante demais, agressivo demais.

Não conheço ninguém que, na verdade, não seja mais do que um conjunto de equilíbrios instáveis. Alguns disfarçam melhor e outros pior. Mas mesmo os que disfarçam bem, os que parecem muito seguros, carregam na mochila um bom número de traumas de infância, incompreensões, pés na bunda, portas que não podem nunca ser abertas. Então, que ousadia e responsabilidade imensa é dizer pra alguém: “pode vir que eu te seguro”. Por isso que pra tudo hoje em dia a gente fala: “olha, acho que você devia procurar terapia”. É uma maneira de dizer: “eu vejo que tem uma coisa muito errada aí, mas não quero nem chegar perto com medo do que pode surgir”. Só gente muito louca faz psicologia, é de sair correndo. O buraco pode não ter fundo, ter mais buracos, pode ser que a pessoa nunca mais volte. Pode não ter monstro nenhum debaixo da cama, mas também pode ser que tenha… Acho que uma das características marcantes dos psicopatas (conheci mais de um, infelizmente) é justamente a coragem de dizer: “Pula!”. E que entusiasmo isso gera no outro, finalmente alguém que se compromete, que ama de verdade, que está disposto a ir até o fundo! Porque o normal é sentir medo, sair de fininho, mandar pro psicólogo. Pouca gente tem culhões pra mexer no buraco dos outros. O problema é que o psicopata fala “pula!” justamente porque nunca teve a intenção de mexer, ele sabe que não vai estar lá quando a pessoa pular de verdade. Ele mandou pular porque soava bem no momento, porque era útil. Quando a pessoa pular e se ver sozinha, ele já estará a quilômetros e o problema não será mais dele.

Zapeando

Programas do tipo Master Chef me dão uma fome danada. Mas é uma fome frustrante: fico com vontade de comer camarão ao frufrufru com molho de não-sei-oquê e toque de lululu e só tenho iogurte activia pra me saciar.

Programas de decoração ou mudanças de casa me dão uma certa raiva dos americanos. Depoimentos chorosos do quanto a cozinha ou o banheiro são deprimentes, escuros, mal decorados, pequenos. Aí mostra o dito cujo e é igualzinho, ou até melhor do que os nossos. Casal precisa pra ontem se mudar, porque a casa é minúscula pra família. “A gente tem que pedir licença quando anda pela cozinha” ou “não tem sala de jogos para as crianças” ou “só tem 200m quadrados”. Ah, por favor!

Na oitava temporada do The Big Band Theory, Penny está com um cabelo curtíssimo e fiquei com vontade de cortar igual. O mesmo cabelo que Jennifer Lawrence estava usando. O mesmo corte que fiz no início do ano. Eu não aprendo: sempre adoro cabelo curto em loiras, todos os detalhes aparecem. Em mim, claro, não ficou aquele deslumbre. Estou numa fase que não sei mais o que fica bom em mim em váááários aspectos, o cabelo é um deles. Durante toda minha vida achei que eram os cabelos curtíssimos. Adoraria ter uma consultoria neste momento, tipo Esquadrão da Moda.

Por falar em Esquadrão da Moda: total empatia pelo casos “não sei o que vestir e ficar elegante no meu dia a dia que necessita de roupas práticas” e vontade de não dar roupa nenhuma pros “sou assim, sexymente agressiva e quero que vocês se danem”.

Eu via aquele programa de construir uma casa para os outros, o original que inspirou o Luciano Huck. Era quinta à noite. Eles contavam a história triste de como o fulano ficou sem casa. Lembro bem do caso de uma mulher com seis filhos cujo marido morreu quando quis reformar a casa que compraram e ela estava cheia de fungos. Os fungos o mataram, a casa foi interditada e a família não pode tirar nada de lá de dentro. Pra não parar na rua, foram viver na casa da irmã. Só histórias assim, terríveis. Mostravam a pessoa, a comunidade unida reconstruindo tudo, os detalhes de sonho, a reação… Era tudo tão bacana e bem feito que eu me acabava de chorar. Aí comecei a me sentir meio ridícula de todas às quintas, das 23 às 24h, me acabar de chorar. Parei.

Cães felizes

Depois de um dia resolvendo problemas, eu e o Luiz chegamos tão cansados que não bastava se estirar no sofá de frente à TV, nós precisávamos também ver algo relaxante. Colocamos no Animal Planet e vimos dois programas seguidos sobre raças de cães: Border Collie e o Bouvier Suiço. Desde a Dúnia, borders se tornaram a minha raça preferida de cães, porque ela tem uma certa semelhança física com eles. Primeiro mostrava uma corrida de borders, eles praticamente saiam voando sobre os obstáculos. Dava para ver que eles se divertiam muito. Depois mostrava um fazendeiro que tinha dois borders cuidando das suas ovelhas, porque eles são excelentes cães de pastoreio. Os cachorros não paravam de correr pra lá e pra cá, enquanto as ovelhas os evitavam. Eles são rápidos, adaptáveis e muito inteligentes. Aí o dono falava de cada um, de quanto um deles era amoroso e fazia tudo para agradar, o outro era um companheirão e tinha o terceiro que trabalhava o tempo todo. O border era parte importante da organização da fazenda.

O bouvier é um cachorro massudo, forte, tímido, silencioso. Não é rápido e adaptável como o border, mas é infinitamente paciente e nunca esquece o que aprendeu. Ele era usado por fazendeiros que não tinham dinheiro para ter cavalos como um cachorro de carga – coisa que eu nunca imaginei que existisse. Ele é tão bom nisso que mostrou um concurso de bouviers: eles tinham que carregar carroças, cujo peso aumentava gradualmente com sacos de ração. Algumas ficavam tão pesadas que chegam a ter o peso de um carro popular. Os donos tinham que chamar o cachorro até a linha de chegada. Mostrava os bichos fazendo uma força danada. Quando o cachorro não conseguia a tempo, uma pessoa ajudava dando um empurrãozinho atrás para que o cachorro não saísse de lá sem atravessar a linha, “todos os cachorros tinham que sair de lá se sentindo campeões”.

Não sei se foi o estado preguiçoso que eu estava depois de um dia cheio, mas aquilo me fez pensar. Primeiro a semelhança com o border fez com que eu sentisse dó da Dúnia ter um espaço pequeno sendo ela um cachorro tão inteligente e brincalhão. Passear todo dia não é de longe a utilização de todo potencial que ela tem. Aí cheguei à outra reflexão: nossa forma de amar – aí talvez eu esteja falando mais do que cães – tem a ver com almofadas macias, comida abundante, horas preguiçosas, ausência de esforço, carinhos sem cobranças. E quem disse que é isso que os cachorros querem. E quem disse que é isso que uma pessoa precisa para ser feliz.

Porque hoje é sábado, Jon Hamm

Ao contrário do Milton Ribeiro, não tenho um HD cheio de imagens de beldades, todas à espera de uma aparição no sábado.

Este post excepcional é porque estou tirando meu atrasado da série Mad Men. Ou Mad Man, porque pra mim Don Draper é o único que interessa.

A série, ambientada nos anos 60, mostra o (sub)mundo da publicidade, onde Don Draper é um dos seus maiores expoentes. Como pano de fundo, os costumes e mudanças de uma época que fumar e beber o tempo todo eram normais.

Dá pra entender perfeitamente as muitas mulheres da série, casadas ou não, dispostas a tudo com ele.

(pausa para sonhar acordada)

Ao contrário de outras séries atuais, Don é tudo o que os mocinhos de antigamente eram: charmoso, elegante, misterioso, pai de família, ético

e mulherengo. Porque mocinhos de antigamente não eram pra ficar dentro de casa.

As contradições e mistérios do personagem o tornam cada vez mais interessante. Não é à toa que Mad Men seja campeã em Emmys de Melhor Série Dramática.

Cheguei a pensar que Jon Hamm nem fosse tudo isso, que seu charme se devia exclusivamente ao seu papel de Don Draper.

Ou pelo fato de estar sempre de terno. Corri para o Google.

Respirei (e suspirei) aliviada. Sim, ele é mesmo lindo.

Lindo e másculo, de uma forma que os ídolos teens de hoje nunca chegarão a ser.

E quem se importa com ídolos teen? Eu é que não.

Quero mais é um homem barbudo e de óculos pra chamar de meu.

Animal Planet

Depois de uma fase assistindo Acumuladores, meu mais novo vício é o Animal Planet. Quase toda noite assistimos Cesar Millan, o maravilhoso Encantador de Cães. Bem que já tinham comentado que o Dr. Pet não era pareo para o Encantador de Cães. Enquanto o Dr. Pet chega lá cheio de proteção e deixa disso, o Cesar adora cães furiosos e os acalma só no olhar (e na unha!). Isso sem falar que ele tem sua própria matilha – algumas pessoas ou cães precisam de um tratamento especial e vão no Centro de Psicologia Canina, onde Cesar mantém de vinte a quarenta cães. Dá pra perceber que ele tem toda uma filosofia com os cachorros, de que eles sentem a energia de quem se aproxima deles, de que precisam ver nos donos os seus líderes para se sentirem em paz e que não podem ultrapassar certo limite que perdem a cabeça e a capacidade de aprender. É um tal calma e submissão pra lá, e estado calmo e submisso pra cá, que eu e o Luiz já ficamos repetindo isso pro outro. O problema é decidir quem é o líder da matilha…

Outro programa muito interessante é o Atrações Fatais, que mostra pessoas que começam a criar animais grandes e selvagens: tigres, lobos, ursos, etc. Mostrou o caso de um que vivia no Harlem num apartamento de cem metros quadrados com um tigre de duzentos quilos. Era como se fosse um segredo familiar. O sujeito passava o dia inteiro no apartamento com o seu tigre, e dizia que eles tinham uma conexão espiritual forte. A ligação dessas pessoas com animais perigosos desenvolvem é tão forte, tão irracional, tão difícil de compreender que acho que chega a ser um transtorno psiquiátrico específico. Uma estava passeando com seu leopardo, escorregou no gelo e o leopardo a arranhou no pescoço. O que ela fez? Passou a usar gola rolê. Na maior parte desses casos, as pessoas acabam virando comida de seus próprios bichos de estimação. Dá pra perceber que os bichos nem fazem essas coisas por mal, e sim que eles são fortes e instintivos demais. Quando está tudo sob controle, brincam e reconhecem a pessoa que o alimenta. Mas basta um instante de distração ou um movimento brusco pra que eles se distraiam também e vejam a pessoa como presa. Sou mais o Cesar Millan, nada como o bom e velho cachorro…

Eu lembro de um caso que o Luiz ouviu, de um cara que tinha uma panificadora na praia, perto do mato. Como lindos macaquinhos estavam sempre por lá, ele passou a dar a eles algumas sobras. O primeiro macaquinho gostou e apareceu com amigos, e outros amigos… O sujeito achava fofo e continuava alimentando-os. Assim foi indo. Num fim de semana ele teve que se ausentar e deixou o restaurante fechado. Quando ele voltou, a cozinha estava completamente destruída – vidros arrebentados, embalagens pelo chão, geladeira aberta, restos de comida por todos os cantos. Foram os macacos que chegaram lá e resolveram buscar o que já consideravam de direito.

Lições que aprendi vendo Acumuladores

O programa Acumuladores, do Discovery Home & Health (canal 55 da Net) é chocante e fascinante. Saber que é sobre pessoas que levam coisas demais para as suas casas não explica exatamente o que elas fazem. É uma quantidade de coisas muito maior do que o imaginavel, do que o aceitavel, e é difícil não sentir raiva ou nojo assistindo o programa. Ao mesmo tempo, nós nos identificamos com eles. Porque são gostos comuns levados ao extremo: tendência a guardar objetos bonitos, coisas que trazem lembranças ou que parece que serão úteis um dia; amor às promoções que estimula a levar coisas inúteis para casa; alguns têm muitos projetos pessoais, hobbies nunca concluídos, grandes planos sobre um dia que nunca chega. O resultado é:

Ver o programa me fez limpar a casa de uma maneira profunda como nunca tinha feito. E eu nem tinha tanta coisa assim. Ver o programa regularmente, seus exemplos chocantes, os vários tipos de acumuladores, me levou a aprender algumas coisas:


  • Menos é mais
A própria chamada do programa diz: “eles acham que são donos das suas as coisas, mas são as coisas que são donas deles”. Quando um Acumulador enfrenta a idéia de alguém tirar algo de sua casa, por mais simples e barato que seja, enfrenta uma grande angústia. Dá até raiva ver uma pessoa que afastou de si família e amigos, que mal consegue andar pela casa, que vive no meio de um depósito de lixo, e se recusa a abrir mão de uma revista velha, uma caneta.

Quanto menos coisas nós temos, são menos coisas que nos fazem falta, da qual precisaremos cuidar ou que nos farão sofrer. Livre é aquele que tem pouco e que pode substituir facilmente o que tem. Penso num andarilho, alguém que tem tudo o que precisa numa mochila. Ter pouco dá mais liberdade e mais mobilidade. A definição de quem você é não precisa estar fora, no que você tem.


  • Quando mais cedo você assumir o prejuízo, menor ele vai ser
Os Acumuladores costumam ter muitos projetos abandonados. Guardam móveis velhos, porque com uma camada de verniz ficariam novos; têm pilhas de lãs, porque tricotaram uma época e pode ser que um dia retomem; livros de receitas para o dia em que decidirem ter uma vida mais saudável, etc. Só que essas coisas ficam encostadas durantes anos, prejudicam suas vidas por ocupar espaço e por lembrar que aquilo ainda não foi feito.

Logo na primeira semana que vi o programa, me dei conta de que tinha nada menos do que um saco de gesso de 40kg há anos na minha área de serviço. Da época quando eu esculpia. Eu fui parando, meio sem querer parar e com a esperança de voltar. Por ser incapaz de dizer a mim mesma que não iria mais esculpir, aquele saco estava lá fora, sujando e ocupando espaço. Quando somos capazes de assumir que algo acabou, nos tornamos capazes de seguir adiante.


  • Deixe o passado para trás
Teve um caso de uma Acumuladora que vivia na casa que pertenceu à sua mãe, e várias coisas que estavam lá eram de parentes que já haviam morrido. Ou muitos casos de mães que faziam questão de guardar todos os brinquedos e roupinhas dos seus filhos. Ou pessoas que se tornaram Acumuladores após uma perda e jamais jogaram as coisas do ente querido fora. Elas tinham medo de jogar fora um objeto e a lembrança ligada a ele se perder.

Ainda tenho lutado para me livrar de um passado ancestral: os objetos chineses da minha família. Por mais bonitos que eles sejam, eles estão há três gerações se impondo sobre nós, ocupando espaços, determinando a maneira como devemos decorar as nossas casas. Guardar o passado impede colocar o presente dentro de casa. O espaço que temos na nossa casa – e na nossa vida – não é ilimitado. Dar valor demais ao passado é a mesma coisa que determinar que os outros digam o que é importante pra você.


  • Promoções, oportunidades e coisas belas sempre existirão
Alguns Acumuladores adoram brechós, outros compram antiguidades, quase todos não resistem às promoções e tem até quem vasculhe o lixo dos outros, em busca de coisas boas que foram jogadas fora. E sempre existe algo imperdível pelo caminho, que causa muito prazer ao ser adquirido. Mas ao chegar em casa…

Desde que comecei a ver esse programa e a limpar a minha casa, minha vontade de comprar diminuiu bastante. Porque tem sido uma luta tão grande jogar coisas fora, que antes de comprar me pergunto se ela não será mais um transtorno no fututo. Como vocês podem imaginar, minhas finanças têm agradecido. Nem tudo que é ótimo, lindo e útil precisa ser meu. Não será um bom negócio se for algo inútil. Hoje, contento-me em saber que as coisas existem, sem querer trazer pra dentro de casa.


  • Nada é valioso quando em excesso/ resolver o problema é lucro
Enquanto alguns Acumuladores têm a casa cheia de lixo, muitos deles exageraram em compras de coisas de valor. Roupas de marca ainda com etiquetas, jóias, objetos de arte. Mas mesmo no menor objeto, alguns deles se queixam de que investiram dinheiro e por isso não podem simplesmente jogar fora. Eles não se conformam com a idéia de terem gastado tanto dinheiro, de ter coisas tão valiosas e não terem o retorno correspondente.

Eu tinha essa atitude com as minhas esculturas e com os objetos chineses. Em comum, são coisas que eu acho que têm valor. O meu trabalho por ser bonito e os objetos chineses por serem raros. O problema é que nunca encontrei quem pagasse o que eles valem. E por não querer ter prejuízo, por não querer ser passada para trás, guardei tudo aqui em casa. Com o programa eu descobri que dentro de casa, cobertas e jogadas, essas coisas eram apenas bagunça. Ao invés de esperar um lucro que nunca chegará, o melhor é abrir mão e me libertar dessa obrigação.


  • Nenhuma decisão é pequena demais
Logo no início da terapia, é comum pedirem aos Acumuladores tomarem as decisões mais fáceis. Pegam papéis antigos, embalagens plásticas em número repetido, folhas secas no chão ou o que para nós é claramente lixo, e perguntam se eles podem jogar fora. Por incrível que pareça, alguns hesitam. Pedem para olhar tudo pra se certificar de que realmente não fará falta. Já com aqueles que se livram facilmente, a raiva é outra – Então por que não fez isso antes?

Quem não protela algumas decisões? Estou procurando ser racional e decidir logo algumas coisas que eu sabia que não ia guardar, mas de certa forma tinha pudor em jogar fora imediatamente: convites bonitos de eventos que já passaram, revistas promocionais, caixas e embalagens de presentes, objetos de decoração que não combinam com nada, roupas que comprei errado ou que por algum motivo eu não me sinto bem usando, etc. Porque se é difícil decidir isoladamente, vai ficar mais difícil ainda decidir isso no meio de uma pilha de coisas. Me poupa trabalho e uma futura bagunça. Também é uma forma de dizer a mim mesma que eu só mereço o melhor.

Um imóvel não é um lar

Hoje assisti um daqueles programas de vendas que eu adoro, o Imóveis na TV. Adoro ficar babando com os apartamentos de 260 mil reais, que tem até sensor de impressões digitais pra fazer o elevador sair do lugar; por outro lado, é bom ver que argumentos eles usam pra convencer a gente a comprar terrenos lá na pqp ou de metragem minúscula. Eu já passei pela experiência de procurar aquele lugar pra morar. Gamar nos imóveis caros é facílimo e dá a impressão que tudo custa, no mínimo, 10 mil reais a mais do que a gente pode. O sonho vai ficando menor à medida em que da gente conhece os imóveis e fica menor ainda quando descobre de quantos detalhes é feita uma casa. Logo no meu primeiro dia na minha casa, eu percebi que tapetinhos de banheiro são itens essenciais. Assim como um kit básico de costura.

Tirando aquele topo da piramide que se muda pra um lugar pré-decorado, tudo é feito muito aos poucos. Até hoje tenho na minha sala de jantar uma mesa de plástico que pertencia aos meus sogros. A gente acha que cada mês vai fazer uma coisa, mas aí um troço estraga, um cano arrebenta e um vazamento surge: pronto, lá se foi o plano de fazer aquela super compra linda. Como fazer? A gente empilha uns livros no canto e coloca uns quadros no chão e finge que tudo está no seu lugar.

Tem casas que são mais bonitas incompletas, porque elas parecem com seus donos – e não aquela mesa de vidro com espelho e aparador que todo mundo têm. Que bom se toda casa conseguisse refletir aquele ar de casa nova, onde tudo é essencial e personalíssimo. Não gosto daqueles lugares que você pode tirar a pessoa que mora ali e substituir por outra que está tudo bem. Assim como na vida, eu acho que as regras foram feitas para serem quebradas. Num imóvel, isso pode ser a derrubada de uma parede, fazer da sala de estar uma grande lan house ou até mesmo não ter sala de estar. Um lar, pra mim, deve ser um pedaço de seu dono, refletir quem ele é. E nem todo dono precisa de uma grande mesa de vidro com espelho e aparador.

Intelectualoidísmo

Acabei de ouvir a entrada de uma reportagem no Fantástico que começou assim:

Surgiram as cidades. Com o tempo, o que era um lugar tranqüilo de se viver começou a sofrer conflitos. E desses conflitos surgiu a necessidade de fazer aquilo que hoje chamamos de leis.

Correto? Erradíssimo. O que hoje entendemos como cidade surgiu com a Revolução Industrial. Ou seja, era fruto de um processo intenso de migração em busca de empregos nas fábricas. As cidades nunca foram lugares tranqüilos, elas nasceram sob a pobreza. Assim como é errado dizer que as leis surgiram com as cidades. As leis existem em qualquer lugar, em qualquer conjunto de pessoas. Onde há sociedade há leis.

Pseudo-intelectuais me cansam e o jornalismo parece estar cheio deles. Reportagens feitas de ouvir falar e de pesquisas no Google. Pessoas que revestem o seu senso-comum de alguma leitura e saem por aí dando de dedo nos outros – acham que ter opiniões polêmicas é sinônimo de ser crítico. Muito jornalismo é feito dessa maneira extremamente irresponsável. Por causa dessa tendência de repetir senso comum os sociólogos são muito críticos em relação ao jornalismo.

Saber quem foi Balzac e ler Machado de Assis apenas quer dizer que a pessoa leu bons romances. Isso não torna ninguém apto a discutir política ou genética. Citar meia dúzia de livros faz com que alguns se vejam como melhores do que os outros. Gente que atribui à cultura da classe média o valor da mais alta cultura – e aí desprezam tudo o que há de diferente, regional ou “primitivo”. Você realmente entende ou tem alguma vivência sobre o assunto? Então é melhor calar a boca e escutar um pouco.

O pequeno príncipe e eu I

Quando passou o filme O Pequeno Príncipe na TV, eu só passei na sala pra ver algumas cenas. Sei lá, nunca fui muito chegada em TV. Eu era criança, e meu irmão mais velho ficou assistindo. Lembro da rosa, do planeta, do menino loiro procurando ajuda pra voltar para o planetinha. Ele vai falar com uma cobra, que maldosamente diz que pode levá-lo até lá. Depois disso, saí da sala e fui brincar.

Mais tarde, perguntei para o meu irmão se o pequeno príncipe conseguiu voltar. Ele me contou essa versão, na qual acreditei durante muitos anos:

– Ele aceita a proposta da cobra, ela o pica e ele morre.