De boas

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Meu irmão mais novo sempre foi a pior pessoa para se brigar e me pego agora aplicando a mesma técnica que ele. Apenas que ele não brigava. Quando a gente briga com ele, é unilateral. Pra ele está tudo bem; ele não sente necessidade de ter nenhuma conversa séria pra esclarecer, assim como também não muda o comportamento dele. Pode parecer meio óbvio, técnica moralista exortando as pessoas a serem boazinhas, mas eu, que tentei durante muitos anos brigar com ele, posso atestar: é difícil pra caramba. Você não consegue sustentar a hostilidade durante muito tempo sem se sentir um idiota.

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Ashwinis

ashwini

(Vocês não sabem a dificuldade que tem sido não falar sobre política o tempo todo. Seguimos)

Finalmente consegui baixar um livro que estava a fim de ler faz tempo, sobre nakshatras. Eu tenho uma maneira caótica de estudar, sou obsessiva e consumo tudo, indo e voltando pros assuntos, o que faz com que eu não entenda nada e entenda tudo ao mesmo tempo. Comigo funciona. Algumas coisas que a astrologia védica que eu ao meu respeito são tão dolorosas – e devo reconhecer que acertaram na mosca – que acho que jamais terei coragem de ler um mapa védico pra alguém, caso um dia consiga. Sobre os 27 nakshatras, embora já tenha lido sobre todos, retomo e tento personalizar. É muito mais fácil prestar atenção quando ele fala de você ou de alguém que você conhece. Então o primeiro de todos, o Ashwini, é bastante fácil pra mim porque meu irmão tem a lua em ashwini (o que torna esse nakshatra o seu signo védico, digamos assim) e eu tenho marte e vênus lá.

Um pouco do nakshatra: ele é simbolizado por dois cavalos. A esposa do sol precisava de um tempo, porque o marido dela era literalmente muito quente, e fez uma cópia de si mesma para que ele não notasse sua ausência. Mas ele notou, quando a sua clone tratou mal um dos filhos deles. O sol foi atrás da esposa pela floresta, que se transformou numa égua, e ele se transformou num cavalo, e da união deles nesse estado nasceram os gêmeos Ashwinis. Numa das histórias, para descobrir o néctar da imortalidade, eles substituem a cabeça do sábio que tem a receita, porque um deus disse que cortaria se ele revelasse o segredo. Ele revelou, a cabeça foi cortada, mas era a cabeça de um cavalo e os Ashwinis colocaram a cabeça original no lugar depois. Por causa disso, esse nakshatra tem ligação com medicina, cirurgia, dons de cura. Em outra história, os aswinis quiseram casar com uma princesa que havia estourado sem querer, pensando que eram besouros, os olhos de um sábio, e foi viver com ele na floresta. Os Ashwinis eram fortes, jovens e bonitos, enquanto o marido dela era velho e cego, e mesmo assim ela não aceitou. Eles então ofereceram tornar o marido dela jovem e recuperar a visão, mas a princesa teria que escolher um dos três para se casar e eles estariam muito parecidos. O casal topou e a mulher, muito virtuosa, conseguiu saber qual era o marido dela. Essa história fala dos outros dons dos Ashwinis: restaurar a visão (há outra história com o mesmo tema), beleza, juventude e correção de caráter (por terem cumprido a promessa. No mundo das lendas védicas tem cada uma…). Quando um nakshatra é simbolizado por uma animal, conhecer o comportamento do animal é conhecer a natureza do nakshatra. Por serem representados por cavalos, os ashwinis são rápidos, fortes, inteligentes, dóceis e gostam de espaços amplos.

Eu tinha visto várias referências que diziam que era comum que irmãos gêmeos tenham esse nakshatra. Nunca dei importância, porque não sou. Hoje descobri que é possível que a pessoa tenha como se fosse um falso gêmeo, um outro muito parecido com ela. Aí pensei no meu irmão, e a maneira como nos achavam gêmeos durante boa parte da nossa vida, apesar de termos um ano de diferença. Pensei em nós dois de mãos dadas no recreio do colégio na nova escola e me emocionei. Ele é ashwini, eu também, somos mesmo gêmeos um do outro. Aí fiquei emocionada.

A moça que não calculava

homem que calculava

Meu irmão estava com um livro no quarto dele, O Homem que Calculava. Ele me disse que era um livro muito difícil, não tinha conseguido passar do terceiro capítulo. Fiquei curiosa e peguei pra ler.

-Então, gostando do livro?

-Ah, meio chatinho.

-Até onde você foi?

-Humm… capítulo 14.

-Tudo isso!? Eu não consegui passar dos primeiros problemas, são cálculos muito difíceis!

-Ah, mas tem que calcular? Eu estou lendo e olho a resposta no final. Impossível aquilo, nem tentei.

Dentes de leão

dentes de leão

Meu irmão foi me ver num dos primeiros campeonatos que participei. Da arquibancada, ele me viu chegar com as outras sete nadadoras e me aproximar do meu bloco de saída. Da minha parte, posso dizer que estava uma pilha, coração acelerado, touca incomodando porque coloquei com antecedência, óculos muito apertado para não pular pra fora quando eu pulasse na água e, principalmente, nervosa em pensar que exibiria para o mundo a minha terrível barrigada na hora de entrar na piscina. Ele me disse, depois, que sentiu uma pontada de inveja: “eu não sei como é essa experiência, eu nunca participei de um campeonato”. Ele até hoje não sabe qual o sofrimento de se separar, um sofrimento que muda o nosso material, mas acredito que ele viverá uma das mudanças mais fundamentais da vida que é ter filhos. Acredito que nenhum dos dois terá a experiência tão comum de ter carro, porque nunca gostamos. Eu não sei das longas viagens de ônibus por Minas Gerais e o interior da Bahia, as horas tediosas, o vômito do banco da frente aplacado com revistas de Comunicação. Eu não sei o que é ficar solitário em outro país, ele não sabe o que é a solidão de ovelha negra da família. Na época que éramos próximos e parecidos, eu juraria que tudo isso é impossível. Eu vi um astrólogo dizendo que mesmo gêmeos nascem com minutos de diferença que se tornam graus, e com o passar dos anos é como se esses graus se tornam cada vez maiores e definidores, como ângulos que se afastam. É da natureza que seja assim – não é isso que ela busca ao fazer dentes de leão tão leves e sopráveis?

Curtas sobre e com eles

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Meu amigo Alessandro recebeu no Sarahah que é muito mais interessante por escrito do que pessoalmente. O que posso dizer a respeito disso, se fosse pra mim: assim espero.

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Meu irmão era o mestre em não brigar. Eu me aborrecia com ele e ele simplesmente não brigava. Reagia como se estivesse bem, porque se pra ele estava, então estava. Tenta ficar irritado com alguém que está de boas pra você ver, é muito difícil.

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Os problemas que tive com aparelho serem foram na terceira semana. Só que quando tento marcar consulta extra é sempre tão difícil e cai poucos dias antes da manutenção, que desisti e me aguento. Desta vez, o dente entortou, a mola passou por cima do arco, elástico saiu, eu ficava ajeitando com o dedo, feia a coisa.

-Você não faz ideia da surpresa que eu e meu aparelho temos para você esse mês.

-O que você andou fazendo de errado?

-Eu não fiz nada, quem fez foi a natureza.

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Já dei uma nota de vinte para o cobrador pedindo desculpas. Ele foi gentil e olhou para mim com enormes olhos verdes. Pensei em falar do quão grandes e verdes eram aqueles olhos e parei. Juro para vocês que ele praticamente batia as pestanas para que o detalhe não passasse anônimo.

Luzes de natal

Eu estava com o Vitinho no colo, e ambos estávamos na minha rede. Aquela, a minha, o meu lugar preferido da casa desde que eu me entendo por gente. Era dezembro. Eu calculo que tinha vinte e três anos na época, porque estava há meses de conhecer meu futuro marido e ainda não sabia. Vitinho devia ter uns… quantos anos as crianças têm quando já sabem falar e andar mas ainda são muito lindas? Andar não, correr. “Pode reparar” , me mostrou o meu pai, “que qualquer coisa que você peça pro Vitinho ou que ele tenha que fazer, ele vai correndo. Ele não tem paciência pra andar”. Era verdade, ele ia correndo, voltava correndo. Vitinho tinha toda pressa e toda energia. E tinha o corpo moreno magrinho de criança criada à beira da praia sem camiseta, um sorriso que abria à toa e formava uma covinha funda no meio de uma das bochechas. Vou chutar quatro anos, Vitinho tinha quatro anos. Então eu estava na rede com o filho caçula do meu pai, em dezembro, e já havia escurecido. Meu pai acendeu o praticamente único enfeite de natal da casa: um pisca-pisca que descia com uns fios e seguia por toda beirada da varanda. Todas as noites, Vitinho aguardava ansiosamente aquele momento. Aquelas luzes lhe pareciam tão mágicas, e ele ficava na rede comigo olhando pra cima de boca aberta.

– É tão lindo. A gente devia deixar essa luz aí pra sempre.

Aí eu disse que não, que eram luzes de natal. Luzes de natal, assim como outros enfeites de natal, tinham sua graça justamente na sazionalidade. Eles surgiam no final do ano pra demarcar que era natal, e tinham data certa para serem desmontados, que era no dia de reis, que se eu não me enganava era dia dez de… Meu pai intervém, e ignora tudo o que eu havia dito:

 

– Então se você quer a gente deixa essa luz aí pra sempre, filhinho. – e Vitinho sorriu uma covinha profunda.
Meu pai fez muito bem em deixar aquelas luzes ali. Ele já sabia – havia assistido aquele olhar pelo menos quatro vezes – que o pra sempre passa muito rápido.

Uma manhã de dezembro

Eu estava na fila do Mercadorama da Praça Tiradentes. Fui conformada, lá sempre tem fila, sempre demora muito, ainda mais meio dia. O caixa rápido tinha duas caixas e quatro pessoas na minha frente. Eu havia andado a manhã inteira pelo Boqueirão, à procura de agulha para minha overlock. Tem esses imprevistos que não dá pra passar por consumidor, não dá pra reclamar. Como esse retalho que eu comprei, que deixa o maiô belíssimo, mas que destrói agulhas de overlock como nenhum outro. Foram quatro com dois maiôs. O normal é não quebrar nada. Aí fui na rua mais cheia de lojas de máquinas de costura da cidade, já prevendo que teria que passar por muitas. Aproveitei pra passar numa farmácia, porque reza a lenda que tudo no Boqueirão custa a metade. Comprei vermífugo, ainda impressionada com o verme que vi no fundo de uma privada no dia anterior. “A gente que tem cachorro” – me alertou a amiga – “devia tomar pelo menos uma vez por ano”. Comprei duas doses, pra matar bichinho e bichinho grávido que solta filhote ainda morto no organismo. Já que ia promover uma matança interna, o farmacêutico me convenceu a comprar vitaminas. Achei caro, mas levei mesmo assim porque devem ser caras pela metade do preço. Ele me disse que aquela vitamina era desenvolvida especialmente para mulheres, e acredito nele: a embalagem e as pílulas são cor de rosa, e está escrito em letras garrafais que “NÃO ENGORDA”. Quem fez aquilo conhece seu público. A mulher com criança na minha frente sai da fila e avançar um pouco me permite aproveitar a oferta de Wake. Tanto melhor. Fico atrás de um homem alto, magro, e um rosto cheio de marcas de espinhas, um biotipo estranhamente familiar. O dia nem havia começado e eu já estava cansada. Aparentemente eu sou uma das duas ou três pessoas na cidade que tem uma Ultralock da Singer. Não é overlock e nem interlock, é ultralock. Nunca descobri o porquê. Quando uso o termo ultralock me olham como se eu fosse louca, de tão desconhecida que a máquina é. Não foi a minha intenção! Sem dizer que a agulha custa mais caro. Depois de muitos nãos, encontrei uma loja que não tinha lá, mas que tinha na filial. Topo andar até a outra, desde que ele me garantisse que não seria em vão. Dez quadras ensolaradas depois… “Moço, você tem agulha para ultralock da singer?” “Temos, quantas você quer?””TODAS.” 

Sou interrompida nos meus pensamentos pelo homem que está na minha frente: “Moça, não precisa ficar segurando a cestinha assim, pode apoiar ela no chão”. É mesmo. Ela estava pesada, com refri dois litros, leite, capuccino, dois Wakes em promoção, queijo ralado. Agradeço o conselho e ele me diz que é assim mesmo, a gente se distrai. Na noite anterior, inclusive, era pra ele ter morrido. Antes de dormir ele havia colocado uma água no fogo e esquecido ela lá. Aí ele foi dormir, passou pela sala, a irmã estava vendo TV. Inclusive ele não era daqui e sim de Feira de Santana (bem que o biotipo me era familiar) e não fazia muito tempo que estava aqui. Já esteve, e voltou, e nesse meio tempo ele havia hospedado o irmão. Irmão que se envolveu com drogas e disse pra todo mundo em Feira que quem usava drogas era ele, veja só. Logo ele – e me mostra a cestinha, que tinha apenas um pacote de arroz integral – que não usava nem as drogas lícitas, que gostava de se alimentar da forma mais natural o possível. E tinha traficante atrás dele, ninguém acreditou nele. Quatorze anos ajudando esse irmão, inclusive tinha trazido ele pra Curitiba, hospedado em casa. Até quando o irmão engravidou uma moça era ele quem pagava a pensão, porque o irmão estava desempregado. Não era muita coisa, só cento e oitenta reais, mas era ele quem pagava, ele que nem tinha nada a ver com isso. Mas bem que a mãe dele também tinha passado por uma situação dessas, de ajudar e depois ser traída. Uma mulher que ela ajudou mais de vinte anos, que abria o armário da cozinha e dizia pra ela levar o que quisesse, e a mulher saiu por aí dizendo que a mãe dele dava resto. Ele deveria ter visto o exemplo da mãe e se prevenido. Porque as pessoas são assim, há de se ter muito cuidado com as pessoas. Tem coisas que só por Deus mesmo, ele é quem olha pela gente. Igual a panela no fogo no dia anterior. De madrugada ele até havia acordado com uma sensação estranha, mas não levantou da cama. De manhã o fogo estava apagado e ainda tinha gás, uma coisa inexplicável. Foi a intervenção divina mesmo, Deus é que olha por nós. Que eu contasse com Deus e não com as pessoas. As pessoas exploram. Foi um prazer conversar. E feliz natal.

Eu não sou Paul McCartney

Resolvi me dar uma consulta com um astrólogo de presente porque não estava bem. Já li e conheço meu mapa desde que me entendo por gente, só que desta vez eu queria uma outra pessoa falando sobre ele. Alguém que me fizesse ver as coisas que eu não estava vendo, quem me desse alguma luz. Ou seja, a gente sempre procura esse tipo de ajuda quando quer ouvir algo extraordinário. Ninguém vai a uma cartomante, por exemplo, pra ouvir que pode ser que você encontre alguém e pode ser que não. A gente quer o RG do sujeito, que ele venha logo e totalmente apaixonado. Então não foi exatamente o que eu queria ouvir quando o astrólogo falou de sorte e não me inclui no grupo dos que a possuem…
“Algumas pessoas têm muita sorte no campo profissional. Há um aspecto, de Júpiter na Casa Dez, que indica isso. Eu gosto muito dos Beatles, e acabo usando isso como exemplo. O Paul McCartney estava na casa dele quando John Lennon apareceu por lá e disse: “Estou fazendo uma banda de rock, quer tocar com a gente?”. O John Lennon foi até ele, Paul nem precisou procurar. É o típico caso da sorte bater à sua porta. Algumas pessoas têm isso, essa sorte. Esse não é o teu caso, você não tem nenhum aspecto desses. Você não é uma sortuda, não é uma pessoa que vai estar andando na rua e será descoberta, não vai ganhar herança, o John não vai bater na tua porta. Você está mais para uma lavradora. Tudo o que você precisar, você terá que construir. Você vai trabalhar duro, vai arar a terra, vai cuidar, vai esperar. Não conte com a sorte, você é do tipo que conta apenas com o seu próprio esforço”.
Não gostei de ser chamada de lavradora, mas nem precisei pensar muito pra saber que ele tinha razão. Eu convivi lado a lado com uma pessoa sortuda, o meu irmão. De coisas que davam de presente pra ele aos empregos que ele nunca teve que procurar, do lado do meu irmão eu sempre me senti a hiena Hardy.  Claro que ele tem os méritos dele, mas é diferente. É diferente ter essa luz ou não ter.

Como diz aquele ditado, o que não tem remédio remediado está. Estamos aí, na enxada.

Sanduíche de atum

Meu irmão foi se aventurar na Chapada Diamantina com um amigo. Eles iriam andar por tudo, acampar, dormir em meio à natureza, mochila nas costas. O amigo lhe mostrou o que levar e antes de saírem encheu as mochilas de sanduíches de atum.
– Ah, eu não gosto de sanduíches de atum – chiou o meu irmão.
– Você ainda não gosta de sanduíche de atum – respondeu o amigo.
Não levou muitas horas de passeio para que o sanduíche de atum se tornasse a comida mais gostosa do mundo.
E eu não levei nem metade da minha vida pra descobrir que a vida, amigo, é cheia de sanduíches de atum.

We are the world

O ano era 1985 e Michael Jackson teve a iniciativa (inspirada na Band Aid de 1984) de juntar os maiores nomes da música para ajudar a acabar com a fome na África. Eram tempos heróicos aqueles, uma época que algumas TVs eram preto e branco, quase todo mundo era magro e as pessoas se comunicavam por cartas escritas à mão. Michael Jackson ainda era cor de chocolate, nem sonhava em construir Neverland e era a maior estrela pop do mundo. Imaginem o impacto. Depois disso surgiram tantas campanhas, combatendo de tudo, de fome a frizz capilar nos dias úmidos, que se pode reunir quem quiser que não se liga mais. Na época não se falava de outra coisa – o clipe aparecia em todos os canais, a música tocava em todas as rádios, todos queriam fazer parte e ajudar os africanos. Até a minha mãe comprou o disco.

Eu tinha oito anos e adorava mexer naquela capa de disco. Gostava dela como objeto, era colorida e abria. Evidentemente eu não conhecia os maiores nomes da música pop norte-americana da época. E meu irmão mais velho, na época com doze anos, também não. Eu peguei a capa e lhe perguntei que artistas eram aqueles. Eu conhecia o Michael Jackson, a Cindy Lauper, a Tina Turner, aquele cantor cego, e só. E tinha um monte de negros desconhecidos na capa. Meu irmão, que além de um grande sacana nunca foi de reconhecer quando está errado ou simplesmente ignora um assunto, me disse:
– Você sabe que foi idéia do Michael Jackson, então ele chamou a família dele. Esse daqui é tio do Michael, Jackson, esse daqui é o irmão do meio, essa daqui é irmã, esse daqui é primo do Michael Jackson, esse é o marido da irmã do Michael Jackson…

Até hoje eu olho a capa do disco e vejo toda família Jackson lá.

Educação sentimental

Era uma tarde comum. Estávamos no quarto do meu irmão mais velho, que tem TV. Eu via TV e ele cortava as unhas. Pouco tempo depois, ele estendeu a mão fechada pra mim e disse que tinha algo a me dar, que era um presente.
– Eu não vou abrir, são as suas unhas que eu sei!
– E daí, presente, são partes do seu irmão! 
– Ai, que nojo!
– Estão limpas, você não pode ter nojo do seu irmão!
– Eu não vou pegar nisso!
– Um dia eu fiz igualzinho o que fiz com você pra uma namorada, só que ela não sabia que eram unhas e estendeu a mão. Depois ela jogou tudo fora, ela também não gostou. 
Isso que dá irmãos criados longe de irmãs, ficam toscos. Depois eu cheguei para ele com a minha mão fechada e pedi que ele estendesse, era um presente meu.
– Eu não vou abrir, são as suas unhas que eu sei! 
– Abra a mão, abra!
– Não! Quando é dos outros é nojento, né?

Missão dada, missão cumprida.

Y baja las escaleras como quiere

Se tivessem me perguntando, quando eu tinha vinte anos, se eu gostaria de conhecer a América do Sul com uma mochila nas costas, teria adorado a idéia. Existe um senso comum, ou quem sabe um imaginário, que faz com que todo jovem tenha uma vontade romantica de conhecer o mundo em viagens de baixo orçamento. Normalmente essa vontade vai passando ao longo dos anos. O raro é alguém com quase quarenta anos te dizer que o emprego que tem é só pra conseguir visto, porque ainda não desistiu de conquistar a América. Essa pessoa é o meu irmão mais velho.

Nesse momento ele está em algum lugar no Peru ou na Bolívia. Além do turismo, a intenção dele é aprender a falar castellano pra uma futura estadia como ilegal nos EUA. Sabemos que ele ainda está vivo porque ele tem atualizado o blog que fez para contar da viagem. As postagens estão sempre atrasadas com relação ao que contam, ou seja, ele filtra e procura pintar o quadro mais aventureiro possível. Numa postagem recente, ele fala que a escolha de viajar sozinho às vezes é difícil, mas que ele não estava disposto a negociar destinos com um companheiro de viagem. Porque é o sonho dele e pronto. O blog fala de paisagens incríveis, mas também de ficar dias sem trocar de cueca porque o avião extraviou a mala, chegar num lugar e o taxista tentar lhe passar a perna, chegar no hostel e não ter quarto, aguentar mau cheiro e tudo quanto é tipo de desconforto.

Estava lendo isso domingo. Aqui, na Mansão dos Diurno, fez um lindo dia ensolarado, depois de tantos dias frios. O Luiz levou a Dúnia para passear duas vezes, aproveitando o bom tempo. Eu fiz iogurte e assei uns pães de queijo congelados. No sofá, eu e o Luiz vimos TV comendo nossos pães quentinhos. Nesse instante pensei no meu irmão e o quanto a minha realidade parece sem graça perto do que ele está vivendo. Mas eu não trocaria de lugar com ele por nada.

Cada uno es como es, cada quien es cada cual.

A louça

Eu e meu irmão sempre ajudamos em casa. Uma das nossas atribuições era lavar a louça. Ela a causa de grande parte das nossas brigas. Eu ficava muito impressionada ao almoçar na casa de minha tia, e espontaneamente a minha prima recolher os pratos começar a lavar. Assim, do nada. Ela e a irmã lavavam a louça sem qualquer ordem, sempre precisar de combinação. Quem estivesse mais descansada lavava. Lá em casa era uma guerra, onde quase tínhamos de montar uma planilha. Quando éramos bem crianças, um lavava e outro enxugava. Em comum, o fato de nós dois odiarmos essa tarefa. Eu gostava de lavar tudo depressa, nunca deixava o escorredor vazio. Já o meu irmão gostava de fazer isso enquanto via TV. Era muito estressante – ou ele deixava escorredor cheio de coisa, me impedindo de colocar mais coisas enquanto esperava os comerciais de um programa que nem estava vendo; ou eu brigava com ele, com o pano na mão, porque aquela louça já estava durando horas, por ser lavada aos poucos. Minha filosofia era a de me livrar e a dele era a de tentar tornar divertido. Quando crescemos, na tentativa de diminuirem as brigas, o sistema mudou: cada um lavava a louça alternadamente. Aí o stress era que ele gostava de deixar acumular, naquele ponto em que você passa a usar as xícaras de café pra beber água porque não tem mais copo. E eu era impedida de lavar rápido, porque era acusada de querer lavar pequenas louças e deixar as grandes para ele. “Era só ele lavar pequenas louças também, oras”. Mas não funcionava assim. Pra lavar louça, meu irmão fazia praticamente um ritual, que incluia um CD e se trancar na cozinha pra que ninguém trouxesse mais louça no período.

Lembro dessas coisas quando lavo a louça à noite, porque não gosto de deixar coisas sujas pra manhã seguinte. Ou quando vou à casa dele, e sempre tem mais louça na pia do que nos armários.

Estranhos

Não faz muitos dias. Eram umas 20h e ele estava andando perto da Reitoria, na direção oposta à própria casa. Não sei onde ele estava indo, se pra um dos cursos ou pra visitar o Alessandro. Porque eu sei onde ele mora, sei de algumas coisas que ele faz e só. Coisas distantes, quase como um rumor. Nem parece que ali houve um grande amor, a pessoa que me foi mais cara durante quase toda a minha vida. Nunca pensei que seríamos desses que se tornam adultos com um vago passado em comum, dois estranhos. Eu – só pra variar – sempre estive disposta a usar de todos os meios pra evitar a distância. Já ele nunca tomou a iniciativa de me ligar ou me mandar notícias. Antes eu não ligava, ou não percebia; hoje me pergunto se fui realmente amada. Um dia, há alguns anos, fiz algo que não o agradou. Algo que nem o envolvia. Ingenuamente, achei que ele ia querer me ouvir, conhecer o meu lado da história. Porque se um dia me dissessem “teu irmão matou alguém com requintes de crueldade”, eu diria “esperem, vamos ouvir o lado dele, tenho certeza de que existe uma explicação”. Não faria isso apenas por amor – eu depositava nele uma confiança infinita. Mas só eu depositava.

O sinal abriu e o Luiz disse brincando – “ponha a cabeça pra fora da janela e grite “André!”. Mas eu não o fiz, porque não tenho nada para dizer a ele. Nem seu nome.

F

Minha letra e minha assinatura mudaram muito com os anos, mesmo porquê até uma certa idade os professores viviam me mandando escrever em cadernos de caligrafia. Uma característica constante na minha assinatura é o traço longo no F, cobrindo o resto do nome. Um dia vi uma figura de um livro de Grafologia, que mostrava esse tipo de traço como um grande guarda-chuva protegendo as pessoas embaixo. É sempre complicado fazer essas relações de forma mecânica, mas podemos dizer que meu F é uma característica de pessoas superprotetoras.

Eu só tive clareza do que essa superproteção significava quando meu irmão sofreu acidente de carro. Não gosto de CSIs da vida, não gosto de nada que envolva sangue. Corpo perto de mim só se for bem fechadinho e funcionando. Eu nunca tinha entrado num hospital e não gosto de passar nem na frente deles. O acidente me obrigou não apenas a entrar no hospital, como na UTI, a lidar com médicos (passei a odiá-los desde então), limpar traqueostomia, tirar pus de sonda na barriga e tudo o que aparecia pela frente. As enfermeiras achavam que eu era uma delas. Isso sem falar que estar num hospital público obriga a gente a estar sempre matando algum leão pra ser atendido.

Nada como uma situação de crise pra aumentar nosso auto-conhecimento.

Família

Família é como varicela:
a gente tem quando criança e fica marcado pro resto da vida.
Sartre

Durante quase toda a minha vida, aqueles agradecimentos do tipo – quero agradecer a minha família pelo apoio. Porque sem família a gente não é nada. Meus pais sempre estiveram do meu lado. A família é a base de tudo e eu não teria chegado onde cheguei sem a minha – soavam pra mim como mais um daqueles clichês mentirosos. Propaganda de margarina. Até que um dia eu percebi que talvez, quem sabe, pra algumas pessoas, isso não seja um simples clichê. Pode ser que pra quem fale isso, a família realmente represente esse apoio todo. É engraçado como nossos incômodos falam muito mais a respeito de nós do que a gente admite.

A distância sempre ajudou a me manter longe de certas questões. Nesse feriadão, reencontrei meu irmão que mora na Bahia. O que durante muitos anos foi desconfiança, tornou-se uma certeza: minha família ignora completamente quem eu sou.