Está mentindo-tindo-tindoooo!

estatueta

Tem aquelas histórias que se tornam icônicas, pelo menos dentro do seu convívio. Eu li uma do Tio Patinhas em que ele consegue uma pequena estátua que tinha o poder mágico de identificar quando alguém por perto mentia. Ela cantarolava: está mentindo-tindo-tindooo! Lembro de um quadrinho que ele está falando no telefone com alguém e a estátua cantarola, e a pessoa do outro lado fica indignada – “Quem disse isso?”. O “está mentindo-tindo-tindooo!” virou piada interna na minha família há décadas, mas acho que eles nem se lembram mais.

Dia desses, eu estava falando de decisões perfeitamente racionais: não ter outro cachorro ou qualquer animal de estimação depois que a Dúnia morrer. Não é prático, não dá pra viajar, dá uma baita despesa. Sem ela, posso finalmente me mudar e não morar mais em casa. É muito mais o meu perfil um apartamento no centro, quem sabe alugar um mobilizado, postaram uma vez um tão lindo no twitter e eu já estava quase fazendo planos de ir pra lá. Aí, em algum lugar dentro de mim soou o “está mentindo-tindo-tindooo!”. Pior que eu estava falando sério. Mas estava falando, decisão, ego, razão. Acho que o núcleo duro, aquela parte do meu iceberg self que está debaixo d´água, não vai permitir nada disso.

Anúncios

Vida e obra de Brandon Walsh

fox-barrados-no-baile-elenco_fixed_large

A minha série da adolescência era a Barrados no Baile, que contava os dramas de jovens que já tinham a parte econômica muito bem resolvida porque eram de Beverly Hills. A série começou com os gêmeos Brandon e Brenda, que se mudaram para lá e tiveram que fazer novos amigos. Em breve, a Brenda saiu, porque a atriz teve problemas com o elenco. Ninguém se importou muito. Isso também foi meio inédito na série: nós sabermos das fofocas. Outra fofoca outra que Brandon estava insatisfeito com o papel e pediu pelamordedeus para os produtores fazerem o seu personagem aprontar alguma coisa. Ele era o Sr. Sensato. A coisa mais próxima de maldade que ele fez foi não cortar de vez a paixão que sua colega de jornalzinho de escola Andre Zuckerman sentia por ele. O Brandon foi simplesmente bom filho, bom aluno, ético, sensato, correto, verdadeiro, etc, a série inteira. Ele foi o único que nunca usou drogas, não brigou com os pais, não traiu e foi traído, não colou nas provas, não bateu o carro. Basicamente, ele era o cara legal que podia ouvir e oferecer uma palavra sábia. Adivinhem se alguém sentiria falta de ele sumisse também.

Esses dias falávamos de alguém, e alguém veio me dizer que esse alguém está sendo enganado, vai sofrer, é tudo mentira, etc. Eu não desacredito, existem realmente indícios. Mas eu já aprendi que ninguém quer passar a vida como Brandon Walsh, nem as mais maduras. Acho que todo mundo já conheceu alguém que, depois de uma vida de boas escolhas, surpreende a todos com uma decisão fora da casinha. Deixem-nas. As pessoas não querem ser alertadas e voltar para suas vidas lisas. Em algum lugar dentro delas, elas querem mesmo bater com a cara no muro. Viver também é isso.

Alan Harper

Numero Uno Accidente Lawyer

Não sei se é feio ou bonito dizer que gosta da primeira fase (Charlie Sheen) de Two and a Half Men. Não sei se eu deveria me irritar com o assumido machismo da série, que me fazia rolar de rir. Acho que na visão americana, Alan é um encostado, um loser sem justificativa;  a nossa realidade subdesenvolvida o tolera mais. (Nunca vi nada a respeito, é só um palpite, tá?) Aqui pra baixo a vida não é tão fácil e nos parece mais do que explicável que algumas pessoas não tem sorte, e quem é que nunca viu ou viveu a situação de um parente se encostar? Digo mais: quem é que aqui pra baixo não se identifica muito mais com o azarado Alan do que o sujeito que trabalha pouco, ganha muito e por mais que faça tudo errado sempre se dá bem? Forever #teamAlan. Um dia eu comecei a analisar os dois à procura das respostas do porque as coisas eram assim com eles. Sim, sou dessas que leva personagens de séries à sério e crê que seus destinos são coerentes com suas atitudes. Aí eu percebi que eu e Alan pecamos/pecávamos pela mesma atitude: Alan toma decisões baseadas no que lhe parece correto, enquanto Charlie vai em busca do próprio prazer. O episódio se desenrola, as variáveis mudam e Alan continua preso à sua decisão. Na hora do desenrolar, Charlie diz o que lhe é mais adequado ao momento, mesmo que seja mentira, enquanto o ansioso do Alan respeita sua antiga decisão, se prende à necessidade de ser correto e se dá mal. É isso que dá quando a gente quer ser correto demais; de um lado é uma qualidade, de outro uma arrogância, uma fixação. Descobri que Charlie “merece” se dar bem, porque ele está dentro da situação, ele age de maneira adequada por estar dentro do momento e não no que imagina que deve ser. Esta que vos escreve sempre teve a tendência de agir igual ao Alan. O que isso me levou? Papel de vilã, coices por todos os lados, verdades que não precisavam ser pronunciadas, desconforto geral. Be more Charlie.

Opinião

Há alguém cuja opinião nos causa tanto respeito que pesa mais do que um país inteiro. Quando essa pessoa diz sim, nada mais nos detém; quando ela diz não, é porque não se deve. Mas uma pessoa é apenas uma pessoa. Um dia surge um não tão contra o nosso momento que decidimos ignorar e seguimos em frente.

Só que é tão difícil.

Notas mentais pra pra lá de julho

* Preciso comprar jeans.
* Preciso comprar partes de cima mais elegantes do que camisetas.
* Preciso superar o tal desapego ou processo depressivo em relação a comprar roupas, antes que passe a ficar vergonhoso. Ou: vergonhoso demais.
* Encontrar mulheres divorciadas que já estão “muito tempo há procura” é tão…
* Investir numa situação meio (nhé) não-é-como-eu-queria porque (nhé) ele-é-legal e (nhé) quem-sabe-com-paciência-e-insistência a coisa fique aceitável (nhé nhé nhé) ou esperar (quanto?) uma situação mais o meu número em todos os sentidos?
* Serei eu ainda capaz de me apaixonar da forma como quero que se apaixonem por mim?
* Permitirá o destino que eu possa me dedicar à escrita ou… ?
* Meu Deus, a árvore continua empurrando o meu portão. Mais um pouco ele não abre. Ou cai.
* Amanhã eu resolvo. Amanhã, amanhã.

Eu quero

Acho que foi na entrevista da Nélida Piñon, no Roda Viva, que questionaram do porquê, para entrar na Academia Brasileira de Letras, é preciso se candidatar. Com tanto escritor bom por aí, que nunca concorreu, e a Academia aceita nomes questionáveis, como do ex-presidente José Sarney. Mais coerente seria a Academia convidar grandes escritores para entrar, ou para concorrer. Aí ela disse (ou teria sido Ubaldo?) que é importante que a pessoa queira e assuma esse desejo. Não sei se ela tem razão no que diz respeito à Academia, mas como é diferente dizer: Sim, eu quero.

Sim, eu quero dançar um solo. Sim, eu quero ser escritora. Sim, eu quero amor.

Decidir

As pessoas não se dão conta, mas um dos maiores prazeres da existência é tomar uma decisão. Ter dúvidas é ruim, precisar decidir é péssimo, colocar uma decisão em prática é um pesadelo, já decidir… Decidir é ótimo. Decidir é uma onipotência, uma felicidade, uma realização. Decidir é olhar o mundo do topo, da montanha, russa ou de pedra, e olhar. Decidir é sentir que tudo foi colocado nos eixos, que sabemos exatamente o que fazer, que caminhamos para um lugar seguro. O momento da decisão é como um orgasmo mental. Decidir aquieta todos os pensamentos e diz para a mente parar de uma vez. Decidir é colocar peso nas coisas de maneira definitiva, é a interrupção de todo fluxo de argumentos. Antes de decidir há sofrimento, depois de decidir provavelmente há mais sofrimento, decidir é o bom. Decidir dá sensação de controle sobre a própria vida, o que talvez seja a mais ilusória das sensações. Talvez por isso que decidir seja tão bom, por ser tão grande a sua ilusão: decidir é controle e nunca controlamos nada. Decidir nos dá a impressão de que existe um rumo, sendo que a vida não tem rumo nenhum. Decidir dá a impressão de que sabemos o que estamos fazendo e que eliminamos o aleatório. Como se a vida pudesse ser um cenário, onde nada, nada do que está lá não tem sua razão de ser. Gostamos de pensar que tudo nos diz respeito e tudo nos dirá respeito. Decidir é a ilusão que nos permitimos porque qualquer ilusão é melhor que o caos.

Tragédia grega

Tenho minhas dúvidas sobre a existência de um Deus, e mesmo que ele exista, tenho certeza que não perde tempo controlando cada folha que cai no chão. Acredito que aqui e acolá temos a chance de mudar de vida – uma decisão minha pode fazer a diferença entre entrar para o circo ou trabalhar num banco, de ter uma vida longa ou morrer numa passeata. Ao mesmo tempo, nenhuma das minhas decisões poderia ter me tornado esposa do George Clooney. As escolhas são feitas dentro de uma esfera limitada de ação, como se fosse um círculo imaginário com pouco mais de um metro de diâmetro. Se eu quiser terminar a minha vida no Afeganistão, terei que ir muitos metros para o Oriente, tomar muitas pequenas decisões na mesma direção, tantas que talvez seja impossível. Já se eu morasse ou nascesse no Tajiquistão, seria muito mais fácil. Acredito que a vida se faz de pequenas decisões pequenas e idiossincráticas, quase sempre previsíveis. Decisões, muitas decisões. Talvez justamente por acreditar em decisões, o sentimento que tive em alguns momentos da vida – o de ser como um personagem de uma Tragédia Grega – me parece assustador.
Há um ditado grego que diz “o destino conduz a quem consente. A quem não consente, ele arrasta”. Por mais que eu não acredite em destino, tenho que reconhecer que em alguns momentos me sinto conduzida. As coisas podem acontecer em momentos exatos, ter uma série de coincidências, sequencias de acontecimentos totalmente improváveis. Pior, acontecer no dia preciso. Se acontecesse um dia antes, ou um dia depois, a sua atitude seria diferente. Quando as coisas acontecem assim, a gente vira à direita, à esquerda, à direita de novo, anda alguns metros para frente, e quando se dá conta está onde nunca pensou que estaria. Ou nunca desejou estar. Como se fôssemos um personagem duma tragédia grega – a quem não consente o destino arrasta, esqueceu? Às vezes o destino da pessoa é comer a própria mãe. O pior de tudo é que, nas tragédias gregas, é quanto mais a gente foge do destino, mais o cumpre.

Imagens eternas

Não sei quanto a vocês, mas eu sei que certas imagens me perseguirão a vida inteira. Dizer que são imagens é uma maneira simplificada de defini-las – é o que vejo, o que sinto e o que sou. Se volto a elas, sinto a mesma coisa e me sinto a mesma pessoa que era naquele momento. Outra forma de dizer é: tem um pedaço meu registrado ali para sempre, aquele momento está congelado em outra dimensão. Tem as imagens trágicas: eu entrando na UTI do hospital Evangélico à procura do meu irmão, e quase passo por ele, que estava num leito à minha esquerda. Ele estava nu, coberto por um lençol branco e todo entubado. Outras são de pura euforia, como uma que aconteceu quatro anos antes da cena da UTI. Era quase meia noite, eu tinha 21 anos e olhava a cidade de Barcelona toda iluminada, desde o Porto. Estava com amigos portugueses divertidíssimos, o local era todo formado por baladas e eu estava apaixonada. Tudo à minha volta era jovem, alegre e exuberante.
Ser impressionada por essas imagens sempre me pareceu natural, inevitável. Até o dia que li isto:
Em 1991, Madonna dançou completamente nua para Al Pacino durante as filmagens de Dick Tracy. É o que diz a biografia autorizada do ator escrita por Lawrence Grobel. “É uma informação secreta. Ela estava fazendo uma dança nua por baixo de um robe. No final da música, ela ficou inspirada e o abriu. Que corpo extraordinário!”, contou o astro de O Poderoso Chefão em uma das inúmeras entrevistas que a biografia traz. “Um dia, quando eu ficar bem velho, enrugado e ainda estiver sorrindo, será porque lembrei dessa situação”, brincou. (daqui)
Por causa do Al Pacino, agora eu busco imagens em nome da velhinha que serei.

Fase Bob Esponja

Acho que foi depois que eu vi Onde os fracos não têm vez, no cinema, não tenho certeza. A fase Bob Esponja não foi uma decisão consciente, pensada, e sim um desejo. Fui ver Onde os fracos totalmente ignorante sobre o seu tema. Não gosto de spoilers e fujo a todo custo deles. Então sobre esse filme eu só sabia que era bom, que os diretores eram bons e o ator era bom. Cheguei lá e o filme era realmente bom, mas… que paulada. Além da violência do protagonista em si, é um filme que não faz a menor questão de reconfortar quem o assiste. Então eu assisti um filme bom e achei a experiência ruim. Talvez, pro que eu estava vivendo no momento, não era pra ver um filme daqueles. Senti, a partir daí, a necessidade de encaixar o filme bom com o que eu podia ver no momento. O problema é que desde então nunca passou a ser o momento de ver coisas pesadas. O que quer dizer que minha Fase Bob Esponja é também um atestado indiscutível que não sou uma boa assistidora de filmes. É lamentável constatar isso, uma pessoa que foi educada nos melhores filmes franceses e ficava a par de todo circuito de filmes de países sem água potável. Quem ama filmes adora a linguagem do cinema, que ele seja bem feito, que seja bem construído, que fuja do clichê – não que ele se resuma, simplesmente, à obrigação de ter um final feliz. E eu percebi, com Onde os fracos não têm vez, que preciso de finais felizes.
Minha fase Bob Esponja é, nada mais, do que a vontade de ver coisas felizes. Quero me sentir bem depois de um filme, uma série, um programa. Fujo dos me façam triste demais, que me tirem a vontade de viver, que deixem o mundo com um aspecto mais violento. Prefero rir tolamente, do mesmo modo que rio quando vejo Bob Esponja. A vida tem me parecido pesada demais pra pesá-la com a ficção. Não aguento ver pessoas morrendo queimadas no noticiário e depois ver um psicopata queimando uma vítima. Tenho até uma boa justificativa do ponto de vista da psicologia: o nosso inconsciente não sabe o que é verdade e o que é de mentirinha, o que é vida e o que é filme. Pro inconsciente, todos os sofrimentos são iguais, ele sente tudo na pele. Então, me reservo o direito de evitar o sofrimento de mentirinha, já que com o sofrimento da vida real posso muito pouco. Minha fase Bob Esponja tem me deixado tão burra e inculta cinematograficamente que dá até vergonha. Mas não consegui abandoná-la, não consigo mais me obrigar a tensões voluntárias.

Deixe-me ir

Tudo bem que eu era craque em relacionamentos à distância, mas eu bati todos os meus recordes quando me propus a manter um amor com alguém que morava em outro continente. É daquelas histórias que a gente imagina que SE um monte de coisas não fossem como eram, poderia ter sido bem diferente – só que na prática esses SEs são sempre tão impossíveis que é o mesmo que dizer que já nasceu condenado. Mesmo condenado, nos propusemos a manter contato e trocávamos e-mails todos os dias, mais de uma vez por dia. E olha que era a época da internet discada e eu acessava pelo computador da universidade. Naquele intervalo maior entre as aulas, tanto de manhã quanto de tarde, eu ia da Santos Andrade à Reitoria pra tentar acessar o computador. E antes de ir embora para casa também. Ficamos seis meses nessa. Ninguém devia fidelidade a ninguém, mas tínhamos o pacto de contar um ao outro caso alguma coisa acontecesse. 
No fim do semestre, ele me disse que estaria muito ocupado terminando sua tese, por isso não teria tempo de me escrever. Ele me mandava apenas um e-mail padrão, dizendo que continuava trabalhando e que me adorava. Naquele mesmo período eu fui dançar com uma amiga, e lá conheci um cara muito simpático, aquela coisa toda. Ele quis ficar comigo e fiquei tentada, mas pesando na balança achei que ele não era bom o suficiente para o e-mail que teria que escrever depois. Não ficamos e nunca mais nos vimos. Dias depois, meu namorado virtual finalmente havia terminado seu trabalho, e me escreveu um longo e-mail falando de uma festa que foi com seu melhor amigo, que havia aproveitado muito e que tinha conhecido uma moça. Não que tivesse acontecido algo, mas estava para acontecer e ele se sentiu na obrigação de me contar. Nem sei dizer o que me magoou mais, a mulher ou a perda de importância por ter recebido uma mensagem padrão por falta de tempo enquanto o outro ia a festas. Aquilo me pegou no último dia de aula, no fim da faculdade. Não apenas isso, na véspera de uma viagem de reconciliação com o meu pai. Tudo era muito doloroso e importante. Minha vida estava começando e eu não sabia onde estava pisando, não sabia onde me segurar. Eu lhe escrevi um longo e-mail e terminei tudo.
Anos depois eu voltei a lhe escrever, não lembro o motivo. Ele disse alguma coisa de eu ter ficado braba com ele e por isso aquele e-mail, e por isso o fim. Não era nada disso, ele não entendeu nada. Eu precisava ir embora, porque era louca o suficiente para persistir ainda mais. Ele, por amor a mim, precisava me deixar viver.

Pedido

A situação era muito simples: formou-se um grupo de amigos que se reuniam. Grupos de amigos são coisas estranhas. Às vezes você está no meio de gente que gosta muito e aquilo não vira uma amizade de grupo. Outras vezes você simpatiza com algumas pessoas e tem sérias restrições com relação às outras, mas quando vê todo mundo entra no mesmo grupo de amigos. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Só que uma dessas pessoas levou a restrição que ela tinha às outras pessoas mais à sério, e resolveu sair do grupo. Surgiu uma outra reuniãozinha e ela disse “Não vou nessa, não vou mais, não adianta insistir”. Eu a conhecia bem, até mesmo compartilhava e concordava com as suas restrições, então respeitei. Mas tem sempre aqueles – acho que os grupos se mantém à custa disso – que acreditam profundamente no grupo, no amor do grupo e querem fazer de tudo para manter o grupo unido. Mesmo sendo a outra teimosa e irredutível, a pessoa decidiu insistir para que ela mudasse de idéia. Foi lá, pediu por favoooor, usou de toda sua influência, argumentos e chantagem emocional. Ela continuou não indo, e nunca mais foi, e a pessoa que pediu ficou com raiva. 

De certa forma, pedir as coisas assim é uma humilhação. É colocar o outro como muito importante, como quem deve algo para você. Se ele se nega, está dizendo que você não é tão importante assim. Mas, ao mesmo tempo, se ele cede, era sinal de que não estava realmente convicto. Cedeu só porque pediram, só porque pressionaram. Isso também cria um precedente perigoso – não é uma pessoa que vai espontaneamente, de bom grado, e sim uma que precisa de uma deferência toda especial. Nas duas situações dá uma certa raiva. Quando eu lembro desse caso, tento me controlar e aceitar o primeiro não. Porque era isso que deveria ter acontecido, a outra ter dito não e terem deixado pra lá, respeitado o direito. Tento pedir ou convidar apenas enquanto aquilo não me custa. Sei que se eu tiver que fazer esforço, se eu tiver que insistir, as chances de eu sentir que me humilhei são grandes – aí já estragou tudo, seja qual for a resposta. É uma medida difícil de achar.

Sono

Esse negócio de tomar café com coca-cola pra varar a noite estudando nunca deu certo comigo. Quando me dava sono eu tinha que largar as coisas do jeito que estavam e dormir. Eu não conseguia me concentrar, as letras embaralhavam, no dia seguinte eu não tinha guardado nada. Insônia é um dos problemas que eu não tenho. Em compensação, preciso de muitas horas de sono, e posso passar dias a fio sonolenta como punição por uma madrugada acordada. Não precisa ser bom de conta pra saber que se fosse possível viver sem dormir, ou dormindo muito pouco, o dia renderia muito mais. Eu nem ao menos tentei, mas já soube do caso de gente que decidiu que passaria a dormir 4 ou 6 horas por noite. Se eu não me engano, Chico Anysio dormia mais ou menos isso. Ele não sentia necessidade de dormir mais. Aí você começa a ficar com inveja, e achar que o te impede de escrever livro, estrear peça e viajar para Nova York ao mesmo tempo são as horas perdidas inconsciente na cama.

Conheci dois casos de decididos a dormir menos. Eles partiam do mesmo método – a cada noite diminuíam uma hora de sono. Funcionava bem no primeiro dia, ficavam ótimos. No segundo, normal. No terceiro, quem sabe, ainda produtivos. Só que a partir do quarto eles começavam a ter problemas de concentração. As olheiras ficavam profundas, ficavam irritadiços, a cabeça pesava. Os amigos mandavam dormir um pouco e eles insistiam com a idéia de que estavam ótimos. No dois casos, o experimento terminou em uma semana, quando eles sentaram pra fazer alguma coisa e simplesmente apagaram. Só que um deles não estava sozinho – ele estava viajando com outros professores, hospedado num hotel, e num determinado momento pediu pra ir rapidinho até o quarto pegar um casaco, ou um livro. Ele acordou na cadeira mais de doze horas depois, sem ter a menor idéia de como foi parar lá. Os professores, depois de passarem horas esperando e ninguém atender ao telefone no quarto, ficaram convencidos de que aquele foi algum tipo de ofensa e não falaram mais com ele.

Entrevista do Rafinha Bastos

Tenho sentimentos ambiguos com relação ao Rafinha Bastos. Eu vi o stand up dele poucas semanas antes da estréia do CQC. Eu ri tanto que às vezes dava vontade de pedir pra ele dar um tempo, pra poder curtir mais as piadas e até respirar. Depois, com mais visibilidade, discordei de muitas posturas e passei a achá-lo arrogante. Ao mesmo tempo, ele sabe se justificar. Não sou uma fã, mas definitivamente não o odeio. Acho que ele fez muita piada sem graça que não merecia a repercussão que teve, em nenhum sentido. Quem sabe eu me interesse pelo que sai sobre ele justamente pra tentar entender o que ele significa.

Na entrevista do Roda Viva falaram muito sobre o episódio da Wanessa, e a grande questão com relação a isso é o porquê dele não ter voltado atrás. Porquê ele não retirou o que disse, porquê ele pediu desculpas ao marido por e-mail mas não em público, porquê ele quis manter algo que provavelmente foi dito impulsivamente. E ele diz que não se arrepende, que achou importante. Danilo Gentilli agora tem talk show, Marco Luque virou garoto propaganda da Claro e ele foi demonizado e demitido. É difícil não achar que ele fez um péssimo negócio. A explicação que Rafinha tem a nos oferecer é: ele achou que era o certo e não conseguiria ficar em paz consigo mesmo se tivesse feito diferente.
Isso eu admiro. Não com relação a essa piada específica, mas com relação à vida. Admiro não agir sempre pelo que é mais conveniente. Penso na professora que pediu demissão pra poder depor a favor da menina que sofreu racismo. Colocar tudo na ponta do lápis, no que é bom para a minha carreira ou no que não me compromete, aponta para soluções tão seguras quanto pobres. De um lado, não dá pra exigir que as pessoas larguem seus empregos em nome do que acreditam; ao mesmo tempo, que coisa mais triste é pensar que manter um emprego justifica tudo. Nem estou falando em ganhar programas de TV ou contratos milionários; na maioria dos casos, nem em perder emprego. Ás vezes o preço é apenas ficar em baixa. O respeito por si e acreditar em algo estão valendo muito pouco hoje. E quando trazem prejuízo material parecem apenas burrice. 

Mantra

Em cada época da vida tem uma frase que a gente acredita ou fala muito, pra si ou pros outros. Muitas vezes mais pra si do que pros outros, com um significado profundo que pode não ser entendido por mais ninguém. É como um mantra pessoal. O do meu irmão é “quer fazer? Então vai fundo“. À primeira vista parece apenas é uma permissão para os outros fazerem o que querem. É mais do que isso: meu irmão não acredita muito em sublimação. Quem não vai atrás dos seus desejos acaba se tornando amargo e tenta boicotar os que não agem como ele. Melhor do que reprimir é conferir. Se tem vontade faça, vá fundo. O ir fundo implica em assumir o que se quer, abraçar vantagens e desvantagens, olhar suas questões de frente.

Durante a adolescência eu dizia muito “agora foi“. Lembro que meu namorado da época ficava enfurecido, dizia que era o cúmulo do fatalismo quando eu dizia isso. Pra mim, era uma maneira de me acalmar. Eu estava sempre preocupada em fazer a coisa certa, em não magoar ninguém, a tomar a melhor atitude diante das circunstâncias. Ser assim é viver culpado, é se torturar por variáveis que ninguém controla. Então quando eu dizia que já foi, estava dizendo pra mim que o controle das consequencias já não estava comigo. Eu tinha feito a minha parte, da maneira mais escrupulosa o possível. Dali em diante, as coisas se encaminhariam por si só e eu não deveria mais pensar no assunto.

Hoje me vejo repetindo “a vida é mais do que isso“, pra me lembrar da essência das coisas. Alguns problemas do dia a dia se tornam grandes demais, fazem perder o sono e na verdade não são tudo isso. Ou às vezes é necessário tomar uma posição, e algumas vantagens não são tão vantajosas assim quando pensadas em termos de vida – é esse tipo de pessoa que eu quero ser, é isso que eu quero pra minha vida? Então digo pra mim que a vida é mais, que tem tanta coisa lá na frente. Se esse mantra me faz recuar em algumas decisões, existe um quase oposto, que me obriga me manter depois que já dei o primeiro passo: se não aguenta, por que veio? Essa expressão é o nome de um blog, que me soou bem a primeira vez que li. Às vezes eu me meto a fazer umas coisas, e quando chego lá acho que não dou conta. Eu fico ansiosa facilmente e perco a perspectiva, o que antes me parecia claro deixa de ser. Quando calma, tenho vontade sair de fininho, mas o meu normal é querer sair gritando com os braços pra cima. Nessas horas eu me obrigo a ficar, porque eu já me comprometi. Entendo que fugir é pior do que ficar e fazer o possível, mesmo que ruim. É um mantra difícil por ser um mantra bem adulto.

Filhos

Inspirado nela
Não sei se vivo meio fora da realidade, ou se tenho um temperamento tão claramente alheio a conselhos que ninguém mais perde tempo comigo. Provavelmente as duas coisas. O fato é que há anos as pessoas não me perguntam mais sobre filhos. Senti uma pressão muito grande quando casei, tão grande que cheguei a pensar com sinceridade no assunto. Me surpreendi um dia vendo posts antigos e está lá, por escrito, que eu via a possibilidade de ser mãe. Todo mundo me dizia tanto pra ser mãe que eu tentei voltar atrás, tentei olhar para crianças e achar fofo, pensei em como eu os criaria, pensei no meu futuro. E a decisão de não ser mãe deixou de ser um sentimento vago pra se tornar uma certeza. Num futuro distante, é provável que eu seja uma viuva solitária, que não receberá um único telefonema no seu aniversário. Eu sei e aceito.

 

Sempre que leio posts sobre o assunto, por mais racionais que eles sejam, os comentários dos pró-filhos beiram à intolerância. O que me chama atenção é que os que mais defendem o instinto de procriar são os homens. Vi uma entrevista do Keith Richards dizendo que não é preciso estar sempre presente pra ser um bom pai. É verdade. Imagino ele chegando em casa, após meses de tourneé, com a bolsa cheia de presentes. Os filhos contando os dias até ele chegar, orgulhosos porque o pai é rockeiro. Isso só foi possível porque havia uma mãe muito presente. Foi ela quem corrigiu as lições das crianças e se preocupou com o horário delas dormirem. Ela estava lá cuidando dos detalhes, todos os dias, enquanto ele curtia a carreira (nos dois sentidos). É possível ser um bom pai ausente, ficar apenas com a parte divertida, mas uma mãe não. Pensando assim, eu acho que seria um excelente pai; pena que esse papel não está disponível pra mim.

 

Eu não tento argumentar com essas pessoas. Percebi que o raciocínio delas é muito semelhante ao dos crentes que saem por aí tentando converter os outros. Existe aí uma boa vontade, um idealismo. Eles fizeram uma escolha, e a partir daí sua vida adquiriu um sentido e uma qualidade grandiosos, algo inédito. Foi uma das melhores decisões que já tomaram, eles não podem mais imaginar a vida deles de outra maneira. Como isso os tornou melhores, imaginam que o efeito vai ser o mesmo se os outros escolherem igual. Para eles, não se converter – assim como optar por não ter filhos – é como ganhar uma viagem para Paris com tudo pago e decidir ficar em casa. É como abrir mão de um paraíso particular em troca de nada. Um tipo de doença, de cegueira, de incapacidade de perceber o que é melhor. Eles não aceitam, eles não entendem. Não passa pela cabeça dessa gente que algo que foi maravilhoso para os outros não será necessariamente maravilhoso para mim.

 

É raro alguém simplesmente aceitar quando eu digo que não quero ser mãe. O que mais ouvi até hoje foi:

 

-Eu pensava como você. Eu era do tipo que não queria ter filhos de jeito nenhum. Um dia começou a surgir um desejo tão grande, uma coisa, uma vontade muito grande de ser mãe. Eu olhava as crianças, eu queria, não podia viver sem aquilo. Aí eu engravidei.

 

Minha resposta, gentil – porque entendo que ela quer o meu bem – e conciliadora -porque acho cansativo brigar por uma questão dessas- é:

– No dia em que surgir um desejo assim, eu engravidarei. Até hoje não aconteceu.