Uma bola de sorvete

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Eu e o meu pai pegamos um ônibus comum, não o “frescão” que eu pegava quando ia visitá-lo, e fomos longe, até a cidade baixa. Paramos num terminal, quente a beça já de manhã. Andamos por ruas apertadas, lojinhas, comprando miudezas que ele precisava: um fio aqui, uma ampola e seringa ali. Eu adoro andar, e taí uma característica que não dá pra dizer de quem eu puxei, porque até onde eu saiba somos todos muito andarilhos – eu, meu pai, minha mãe, meu irmão. Andamos, andamos, andamos. Paramos num restaurante por quilo pra almoçar. A agenda já estava toda cumprida e ele me disse que me íamos até o Pelourinho, mas por cima, porque ninguém o obrigaria a subir aquela ladeira. Fui incontáveis vezes ao Pelourinho e jamais havia me dado conta que o caminho pra turista ver é sempre subindo. Naquele dia, ao descer, foi tão diferente que eu nem senti direito que estava no Pelourinho, só me senti realmente lá quando chegamos na praça perto da igreja. Talvez por isso tenha parado, pra realizar que estava no Pelourinho. Aí meu pai me perguntou: “Quer sorvete, filha?”. Não sei se é porque o meu pai conhece os meandros de Salvador como ninguém ou se é característico de todas as sorveterias da cidade, mas sempre que me foi oferecido sorvete lá, o “uma bola” correspondia a quase meio quilo de sorvete. Duas bolas, um almoço. Três, nunca arrisquei. Por isso quando ele me perguntou eu olhei pro horizonte com os olhos apertados, repetindo a cabeça pro meu cérebro e pras minhas vísceras – será que eu quero sorvete? Depois de alguns segundos, respondi: “Acho que sim”. Meu pai deu um meio sorriso, daqueles que acompanha um breve movimento de cabeça para os lados e me deu um beijo na testa. Se não fosse esse gesto dele, eu não teria percebido. Um gesto que dizia: típico. Hoje ele não tem dinheiro, mas já teve muito, e era sua filha querida. Sempre tive claro que poderia lhe pedir o céu, meu irmão me disse várias vezes que o pai atenderia a qualquer pedido que eu lhe fizesse, e eu não fiz. Deveria ter feito, acho que ele teria adorado ter a oportunidade de mostrar que me daria o céu. Mas eu era difícil e frustrante – bastava estar lá que andava o dia inteiro de chinelo e camiseta, o boné que me dessem. Ou estava deitada na rede e ou pra praia ali do lado, de camisetão cobrindo o biquíni, só pra visitar o mar. Eu não lhe pedia pra me comprar coisas porque não me ocorria nada pra pedir. Só naquele dia eu percebi que sempre fui assim.

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Tigrada

Se a pessoa, de uma hora pra outra, vê como se fossem mosquinhas, ou luzes, ou perde um quadrante da visão, pode ser descolamento de retina. Neste caso, ela deve ir imediatamente para um hospital de olhos, de onde vai direto pra operação. Imediatamente mesmo, do tipo largar tudo. Se marcar consulta, dormir pra ver no dia seguinte, já era. Muita gente na pesquisa que fiz sobre cegueira perdeu a visão assim, porque marcou consulta, esperou, ou seja, fez o procedimento normal. No descolamento uma membrana no olho se rompe e o líquido invade onde não deveria, então imaginem com que rapidez acontece.

Pois. Fui na super oftalmo para afastar as nóias que de vez em quando me aparecem, apesar de ter um grau de miopia bem baixo. Tudo porque tenho histórico de descolamento de retina na família. E tem que ser ela e não um médico qualquer do plano. Quando eu estava com os olhos dilatados, a médica tirou foto do meu fundo de olho – “só porque eu sei que você está preocupada”. Ela me deu as fotos e me explicou: nenhum fundo de olho é igual ao outro, igual digital. A pessoa albina tem um fundo de olho claro. O fundo do meu olho esquerdo tem um várias linhas, é um “olho tigrado”. Isto quer dizer que lá atrás, de algum lugar que eu não conheço e ninguém nem sabe, eu tenho um ancestral negro.

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Fundo do meu olho esquerdo. Olha que foto mais íntima, muito mais do que foto de biquíni.

Fiquei feliz. Que meu ancestral negro me garanta um olho forte e saudável, que me permita fazer tudo o que eu quiser na minha vida.

O sol, a praia e a filha

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Naquela época não se falava de efeito estufa e câncer de pele. As mulheres estendiam as cangas na areia, se besuntavam de bronzeadores e ficavam horas deitadas. Primeiro de um lado, depois de outro, depois volta, deita de bruços e desata o cordãozinho do biquíni. As meninas, ao lado das mães ou com suas próprias cangas e ao lado de outras meninas, faziam a mesma coisa. A areia escaldante da praia era um mar de gente, de mulheres ao sol, homens protegidos por guarda-sóis ou nas barracas, vendedores ambulantes de comida, mais bronzeadores, picolés. Meu pai, que sempre quis ser pai de muitas meninas, só teve a mim, e olha que foram cinco tentativas no total. A praia era o seu quintal, seu ponto turístico, seu restaurante, o local de reunião com os amigos, nunca vi alguém gostar tanto de praia. Sem exagero, meu pai passava tranquilamente dez horas por dia na praia no fim de semana. Aí a filha dele vinha e se recusava a deitar na areia. Eu juro que tentei, mas ficar deitada no sol me dava aflição, ficava entediada em poucos minutos, como alguém podia gostar de sentir tanto calor ao invés de ir pra sombra. Eu ia para a praia porque amava o mar, amava pegar onda e almoçar acarajé. Ele tentou me obrigar ao ritual da areia, apreendia a prancha, me fazia me estender e cronometrava o tempo. Se todas as mulheres se adaptavam e diziam adorar tostar ao sol, por que eu não? Ele via que minha aflição de ficar deitada era verdadeira. Não que eu voltasse das férias branquinha, de jeito nenhum, eu pegava tanto sol que descascava por cima do descascado, não conseguia dormir por causa das queimaduras. Só que eu me bronzeava muito de ficar na água, ficava com a marca camiseta que me protegia quando pegava onda pra lá da arrebentação. Talvez a raiz fosse a falta de vaidade, a maldita falta de vaidade, a mania de me misturar com os moleques pra brincar na rua. Quando ele tentava me fazer ficar amiga das crianças mais frescas da vizinhança, as filhas dos amigos dele, ficava pior, eu as detestava. Mas pelo menos eu ia à praia, ele tinha que reconhecer que eu era a que mais gostava de praia, como nenhum dos outros filhos, tudo por causa do mar. Talvez se o destino tivesse permitido que o meu pai tivesse tido outra filha, qualquer outra filha, ela seria um tiquinho mais vaidosa, teria gostado de pegar sol. A outra voltaria pra casa cedo, pra tomar banho e vestir roupa bonitinha, andar calmamente, orgulhosa do cabelo bonito e da atenção dos meninos. Com outra filha ele não teria brigado tanto, uma guerra que às vezes era aos gritos, mas que na maior parte do tempo era um jogo de forças: ele querendo que eu fosse o que uma mulher devia ser, eu querendo ser quem eu era, independente da concepção dele de mulher. Não foi fácil pra ele ser meu pai, não era nisso que ele pensava quando dizia querer ter filhas. Mas tenho certeza nenhuma outra teria mostrado a ele, com tanta intensidade, que força e teimosia também são características femininas.

Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

Desencontro

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Eu passei todo funeral do meu ex-sogro normal. Algumas vezes eu sentia que as lágrimas vinham e voltavam para dentro dos olhos e deixei. Mas naquela manhã muito chuvosa no cemitério, com o gramado encharcado, olhei para os filhos e a viúva molhados, acompanhando sozinhos o caixão descia, e chorei muito, incontrolavelmente. Por eles, pelo significado tão difícil daquela cena. Eu não sei se foi isto ou se foi no momento que cheguei ao lado da minha sogra, poucas horas antes, sem dizer nada, e lhe abracei, que ela passou a gostar de mim. Ela passou grande parte do casamento me achando uma péssima escolha. Os parentes do interior, que nunca tinham me visto na vida, não cansaram de me dizer “você é uma pessoa tão legal, nós tínhamos uma impressão totalmente oposta de você!”. Depois minha sogra continuou fazendo tudo o que ela fazia antes – me receber, preparar almoços, fazer sala -, só que com um carinho palpável. Eu achava uma pena e não tinha como dizer, não ainda; mais de dez anos haviam se passado e ela nunca se deixava convencer, nunca tinha realmente me olhado. Quando percebeu, o período que tínhamos juntas estava chegando ao fim.

Ovelhíssima

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Essa é uma da série das “Verdades que eu disse que não sei se fiz bem ou mal em dizer”. Ela se considerava ovelhíssima negra, daquelas que não se mobiliza nem com funeral. Deixou a família pra lá e foi viver bem longe e, como já disse antes, nem morte era capaz de arrancar dela um gesto de conciliação. Um dia ela estava me falando no quanto era um desgosto para seus pais, o quanto era má, o quanto…

– Na verdade você não é tanto assim. Você saiu de casa, teve família, filhos, vive sua vida, não depende deles pra nada. Eles devem olhar pra isso e pensar que, no fundo, não te fizeram tão mal. Filho que realmente faz mal é aquele que fica inútil, que não consegue sair de casa, não tem vida, não casa, não tem profissão, etc. Esse sim, com a sua presença, está sempre jogando na cara dos pais que eles fracassaram com ele.

No sangue

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Tomei coragem e finalmente levei um dos meus sapatos de flamenco para colocar borracha nova no sapateiro. Sapatos de flamenco são caros, especialíssimos, e já ouvi mais de uma história do sapato nunca mais voltar o mesmo depois de tentarem arrumar. É só colocar uma borracha, mas mesmo assim fui com medo. Cheguei na mulher que atendia e expliquei bem, disse que era só naquele pedaço, que era importante, que é mais do que andar, que é de flamenco, que eu danço com ele. Aí ela me disse que conhece bem flamenco, que gosta muito dessa dança, que sempre tinha nas festas de família, que não sei quem da família do ex-marido tocava uma baita castanhola, que eles eram espanhóis. Eu fui concordando, dizendo que lindo, então ela sabia como era, curtia, até me tocar de que ela tinha dito que era ex-marido. “Ou não, pode ser que você não goste mais, é ex-marido”.

“A gente não conhece um homem quando está dormindo com ele, conhece quando se separa”. Fico sempre sem graça quando o papo recai sobre ex-marido, porque o normal é reclamar e não tenho nada contra o meu. “Depois que nós nos separamos, ele resolveu esquecer que temos três filhos juntos”. Ela me contou então que os espanhóis são frios. A terapeuta até tentou argumentar, mas é da natureza deles. Que eles não apenas são como nós, latinos, mas também não são como os italianos. Ela, como descendente de italianos, era muito família, muito calorosa. Ele não, não estava nem aí, que os espanhóis são assim. De novo, fiquei sem palavras, nunca convivi com espanhóis. “Eu casei de novo e tive mais filhos. Meu filho puxou o lado espanhol do pai, me liga só uma vez por mês, e eu desligo na cara. Eu o criei, ele tem obrigação de me ligar e me liga só uma vez por mês”. Minha consciência pesou na hora. Entrou uma cliente, eu e ela hesitamos, ela perguntou no que poderia ajudar, a moça disse que poderíamos terminar o assunto. “Eu estudei história. De todos os povos que conquistaram os outros, seja pra onde for, pra América ou para a África, os únicos que onde quer que iam dizimavam a população local eram os espanhóis”. E arrematou, alisando o antebraço esquerdo no sentido das veias – “Está no sangue”.

Depois eu precisei tomar um pouco de ar.

Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.

Dois exemplos de ofensas que cometi por erro de avaliação

 

Na minha cabeça, eu enquanto nora e cunhada atrapalhava. Legalmente, podia até ter me tornado parente, mas na verdade eu estava ali por causa da escolha de uma pessoa, escolha essa que não tinha nada a ver com o resto. Minha sogra, enquanto mãe, queria encontrar apenas o seu filho. A idade adulta o afastava cada vez mais, e agora havia até uma mulher do lado dele. Mulher essa que ela podia aceitar, gostar, mas que não era e nem nunca seria parente dela. Então me parecia que era muito melhor eu deixar o filho ir lá, sozinho, ser acarinhado, abraçado, dar todo seu tempo livre para a mãe dele. Minha presença era uma tolice, ele sozinho era a volta do núcleo original, as pessoas que realmente se amavam e tinham uma história juntos. Eu achava que reunião familiar sem os in law era melhor para todo mundo. Não, teoricamente todos se amam e eu tinha que estar lá para atestar isso. Minha ausência não era um espaço e sim uma agressão. Não que hoje eu conseguisse fazer diferente, mas agora pelo eu tenho mais noção de quanto os ofendi.

 

Fiz de novo, agora com outro assunto. Uma grande amiga minha vai casar. Juntou vários nomes numa mensagem privada e estava tentando marcar encontro. Aquele stress: quem pode em que dias da semana e em que horário e local? Porque ela queria uma reuniãozinha, queria dar o convite pessoalmente. Aí, numa resposta cheia muitas voltas, eu digo: convite é pra gente saber dia e horário, coloca os dados aí e entrega quando for mais cômodo. Senti que foi como xingar a mãe. Não, convite não é bobagem, entregar pessoalmente não é bobagem, antecedência não é bobagem. Aí eu vi o quanto nunca ter desejado casar na igreja me torna ignorante nessas convenções – tanto que nunca faço questão e não me ofendo quando não me convidam pra casamentos. Confesso que pra mim é apenas uma festa, e das mais chatas. Na longa justificativa que se seguiu à minha fala, percebi que há um orgulho em sair entregando os convites, o papel de noiva, o estar na lista, toda essa onda de dificultar a própria vida. E eu um dei coice na noiva porque achava, ingenuamente, que convite era só informativo.

Eu sou mesmo um alien.

Luzes de natal

Eu estava com o Vitinho no colo, e ambos estávamos na minha rede. Aquela, a minha, o meu lugar preferido da casa desde que eu me entendo por gente. Era dezembro. Eu calculo que tinha vinte e três anos na época, porque estava há meses de conhecer meu futuro marido e ainda não sabia. Vitinho devia ter uns… quantos anos as crianças têm quando já sabem falar e andar mas ainda são muito lindas? Andar não, correr. “Pode reparar” , me mostrou o meu pai, “que qualquer coisa que você peça pro Vitinho ou que ele tenha que fazer, ele vai correndo. Ele não tem paciência pra andar”. Era verdade, ele ia correndo, voltava correndo. Vitinho tinha toda pressa e toda energia. E tinha o corpo moreno magrinho de criança criada à beira da praia sem camiseta, um sorriso que abria à toa e formava uma covinha funda no meio de uma das bochechas. Vou chutar quatro anos, Vitinho tinha quatro anos. Então eu estava na rede com o filho caçula do meu pai, em dezembro, e já havia escurecido. Meu pai acendeu o praticamente único enfeite de natal da casa: um pisca-pisca que descia com uns fios e seguia por toda beirada da varanda. Todas as noites, Vitinho aguardava ansiosamente aquele momento. Aquelas luzes lhe pareciam tão mágicas, e ele ficava na rede comigo olhando pra cima de boca aberta.

– É tão lindo. A gente devia deixar essa luz aí pra sempre.

Aí eu disse que não, que eram luzes de natal. Luzes de natal, assim como outros enfeites de natal, tinham sua graça justamente na sazionalidade. Eles surgiam no final do ano pra demarcar que era natal, e tinham data certa para serem desmontados, que era no dia de reis, que se eu não me enganava era dia dez de… Meu pai intervém, e ignora tudo o que eu havia dito:

 

– Então se você quer a gente deixa essa luz aí pra sempre, filhinho. – e Vitinho sorriu uma covinha profunda.
Meu pai fez muito bem em deixar aquelas luzes ali. Ele já sabia – havia assistido aquele olhar pelo menos quatro vezes – que o pra sempre passa muito rápido.

Turbilhão

Eu estou quietinha, encolhidinha no meu canto, sem fazer movimento algum. Até porque eu não sei qual movimento faria. E pensei – não vou fazer movimento algum, logo, a vida vai continuar a mesma. Um irmão foi pro Oriente e voltou. Outro irmão partiu pra longe. Um amigo virou paixão, depois grande amigo, depois decepção. Já um nome distante e culto se tornou um amigo, mesmo que ainda distante e culto. Minha grande amiga vai ter de volta um filho em casa, depois de tanto sofrer com a partida, e com a filha reedita coisas que já vi. Vi o que parecia o fim se transformar em uma dádiva para minhas professoras. Uma que já se considerava solteirona vai casar, outra enlouqueceu com um único homem. Virei inimiga pública número um pra algumas pessoas. Mudei de ascendente. Dancei uma patada de flamenco. Ganhei medalhas. Escrevi, corrigi, esqueci, voltei a corrigir. Continuo detestando cozinhar. Vi um show da Salmaso. Como pode tudo isso, se estou aqui, nesse mesmo lugar.

Silêncio compartilhado

Se tem uma pessoa que eu admiro muito é o meu primo, o Quinho. Quando vou a São Paulo e nos encontramos, nossa conversa basicamente é

– Oi, Quinho.
– Oi, Fernanda.

E quando eu vou embora

– Tchau, Quinho.
– Tchau, Fernanda.

Não sei se pra mim um dia precisaram me explicar que ele é assim mesmo, acho que não. Se precisaram, foi há muito tempo. Não sei o que as pessoas normalmente pensam do Quinho, se acham antipático, se ficam incomodadas, se tentam arrancar coisas dele. Eu, como grande preenchedora de silêncios, admiro muito sua capacidade de não fazer isso.

Curtas de meia idade

“O seu cabelo está branco assim ou você faz luzes?”. Bem, pelo menos as pessoas ainda ficam na dúvida.

 

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“As pessoas mais velhas que acham que já sabem tudo, que nem ouvem o que você tem a dizer a elas – entrei naquela fase de achar que não apenas achar elas têm toda razão, como super quero exercer esse direito.

 

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Quando a pessoa te fala de princípios morais, autocríticas gigantescas e boas intenções e você só consegue ver, por detrás de tudo aquilo, que ela ainda não passou por nada.

 

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Quando você passa do estágio do perdão e começa a entender os teus pais de uma maneira profunda. Entendê-los como só um adulto pode entender.

 

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Me pego numa atitude de colecionador, de quem gosta de coisas vintage. Objetos que na época eram tão banais, agora para mim viraram símbolos, ficaram caríssimos. Não pode ser qualquer um, tem que ser aquele, pelo simples motivo de que ele estava lá.

 

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Por Deus, como eu sou lenta na hora de digitar uma mensagem no celular. Eu tentei correr atrás, mas a tecnologia cruzou a esquina e eu fiquei presa no sinal.

Amor, amor, amor

Tem um episódio do Seinfield que ele dispensa um cara que queria ser próximo dele com o seguinte argumento: olha, eu já tenho três amigos, não tenho tempo pra mais, desculpe. Eu me identifico com isso porque não sou lá tão popular. Basta dizer que mais de uma vez eu me apresentei sem ter amigos na platéia. Mas é que, com os poucos que tenho, eu já me sinto bastante amada. Sim, me sinto amada. Tão amada que me pego com algumas exigências de pessoa que tem amor demais. Por exemplo: carona. Quero as de boa vontade. Sabe como é carona, tem dias que tem várias opções e tem dias que… bem, tem dias que a pessoa tem dinheiro, um carro enorme, vai passar por quatro lugares diferentes onde poderia te deixar mas não quer. Porque vai atrasar, porque vai desviar do caminho, porque, ai, precisa mesmo? Essa carona eu não quero. Pode me deixar andar na rua escura de noite mesmo, não ligo. Sério. Se é pra se sentir exploraaado porque teve que rodar duas quadras a mais, não quero. Outro mimo: gosto de reuniões alegres. Estou acostumada com grupos piadistas. Estou acostumada com gente que dá importância ao que eu falo, que ri das minhas brincadeiras, que não está muito interessado em curriculum vitae. Então, quando tenho que ir pra uma reunião que não é assim, prefiro nem ir. Se é pra voltar para casa com a expressão dura de quem não deu um sorriso espontâneo, minha casa é muito mais interessante. Às vezes a gente obtém mais carinho e amor de uma mocinha atrás do balcão do que da própria família. Amor é uma maneira de ser, um estado. Tem gente que é amorosa e gente que não é. Se é pra ser duro, controlado, filtrando palavras, prefiro ir em famílias alheias. Conheço pelo menos duas ótimas, e pra qualquer coisa que eles me convidem eu vou correndo. Por fim, como não falar de homens. Porque quando se reivindica amor, amor, amor, parece que estamos falando – quero um homem, um marido. Não é apenas isso, é um Também. O homem tem que fazer parte disso, dessa roda de amor. Tem que ter a boa vontade, o carinho e a espontaneidade do amigo, da carona, da família alheia. Não pode ser outro departamento, outras atitudes. Não tenho paciência para os truques, o fingir-que-não-quero-pra-ele-passar-a-me-querer. Não posso ter que segurar os gestos e as brincadeiras chulas, não posso ter que vestir outras roupas e criar outro mundo só para ele estar lá. O outro mundo, separado do meu, só pode ter menos amor. E o que eu quero é amor, amor, amor, mais amor.

 

Porque tem dias que

Porque tem dias que as fotos recentes da festa não me satisfazem, os sorrisos parecem posados, a alegria apenas criada para Facebook. Dias que os convites não são suficientes, sejam eles masculinos ou femininos, que não sou amada de verdade por ninguém ninguém ninguém. Dias que as famílias que os outros construíram me fazem lamentar nunca ter me dado ao trabalho. Que estar irremediavelmente longe da minha é um tapa na cara. Dias que o tempo livre me aprisiona, que os livros ficam por ler, jogados no sofá confortável que também não é nada demais. O flamenco é um desafio na qual eu não sou boa e nunca serei boa, que não tenho Aire e bulerías não são pra mim. A dança é um amor de malandro que me suga tempo e dinheiro. Tudo à minha volta é tão triste e tão só. Verifico a geladeira, ando até o supermercado, guardo os produtos nos armários e coisas que nada importam. Dias que as mocinhas me agridem com sua beleza de mocinhas e as pessoas andam ocupadas até as suas pós-graduações. Já eu não vou a lugar nenhum. Nada me aguarda, nenhum homem me aguarda. Estou atrás do vidro, e lá dentro os casais estão dançando. Depois do banho, faço cachinhos que ninguém verá. Tem dias que é tudo mentira e nada vale a pena, nada resiste à acusação da mediocridade e da solidão. Nada, à exceção delas. Elas, as palavras. Que olham pra mim enquanto sofro e enquanto não sofro. Que são meu mestre e meu escravo; meu amante, minha filha, meu pai, meu protetor, minha droga. Não escrevo porque tenho talento, e sim por sentir que é a única coisa que realmente tenho.

Testemunha

Quem teve esse insight foi o Alessandro, em uma de suas cartas. Que um dos grandes motivos de se ter um longo relacionamento é a necessidade de ter uma testemunha. Quando a pessoa perde os pais e os irmãos, ela deixa de ter testemunhas importantes. No meu caso, não haveria mais ninguém no mundo que se lembre como eram as lagartixas no muro da vizinha, brincar de “é meu” na hora de folhear uma revista, imitar os médiuns pintando quadros, o imposto sobre a letra A dos chocolates Lacta. Eu já havia percebido que há uma relação eterna entre ex-esposos, mesmo aqueles que se odeiam, quando meu irmão sofreu acidente e meus pais se preocuparam um com o outro, apesar de não se falarem há anos. E agora eu vivo isso, com meu ex, que continua sendo (e quem sabe o será para sempre) a pessoa que mais me conhece, a que presenciou minhas maiores mudanças. Só ele entende umas atitudes que parecem ilógicas e intempestivas pros outros. No dia que eu caí da escada, com a separação ainda muito recente, foi pro Luiz que eu liguei – meu melhor amigo, meu porto seguro há anos. Que sofrimento imenso deve ser quando um casal precisa (ou sente que precisa) renegar a importância do outro. Ele se preocupou, quis saber se eu tinha quebrado alguma coisa, se ofereceu para vir. Não, não precisava de nada. Eu só queria que ele soubesse. Sempre achei que a vontade de ser famoso e as notas estúpidas que as celebridades plantam por aí – Fulano bebeu com os amigos, Beltrana foi ao shopping, Cicrano usou bermuda azul – fosse esse prazer, que antes do Alessandro eu não sabia que nome tinha. Meu blog é meu pedacinho de vida de celebridade. Por mais que pro mundo eu fosse apenas mais uma mulher solitária e separada, sem destaque em qualquer campo da vida, vivendo um sofrimento tão igual e menor do que existe por aí, há quem venha aqui me ler. Um ou dois pra saber como eu estava e se importar comigo. Eu estava fisicamente só, mas tinha testemunhas. Este blog, minha mensagem na garrafa jogada em alto mar. Pensei neste post porque estou constrangidíssima, sem ter como me desmentir, porque por duas vezes comentei com um amigo problemas muito domésticos e ficou parecendo que era para ele intervir. Tanto não era que ele não teve que fazer nada. Mas ficou parecendo. É que estávamos conversando justo quando os problemas aconteceram e falei. A necessidade de ter testemunha. Quanto não chorei, esperneei e ameacei desistir e o Luiz ouvia tudo tranquilamente. Porque ele sabia que depois de calma eu fazia o que precisava. Penso nos muitos namoros virtuais que tive, verdadeiros fantasmas pros outros e muito presentes pra mim. A gente só quer testemunhas. Pra abrir a porta, enfrentar o mundo, matar os leões e voltar. Tão sozinhos como sempre fomos e seremos. Mas o olhar, a ciência do outro, faz uma diferença imensa.