Vida e obra de Brandon Walsh

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A minha série da adolescência era a Barrados no Baile, que contava os dramas de jovens que já tinham a parte econômica muito bem resolvida porque eram de Beverly Hills. A série começou com os gêmeos Brandon e Brenda, que se mudaram para lá e tiveram que fazer novos amigos. Em breve, a Brenda saiu, porque a atriz teve problemas com o elenco. Ninguém se importou muito. Isso também foi meio inédito na série: nós sabermos das fofocas. Outra fofoca outra que Brandon estava insatisfeito com o papel e pediu pelamordedeus para os produtores fazerem o seu personagem aprontar alguma coisa. Ele era o Sr. Sensato. A coisa mais próxima de maldade que ele fez foi não cortar de vez a paixão que sua colega de jornalzinho de escola Andre Zuckerman sentia por ele. O Brandon foi simplesmente bom filho, bom aluno, ético, sensato, correto, verdadeiro, etc, a série inteira. Ele foi o único que nunca usou drogas, não brigou com os pais, não traiu e foi traído, não colou nas provas, não bateu o carro. Basicamente, ele era o cara legal que podia ouvir e oferecer uma palavra sábia. Adivinhem se alguém sentiria falta de ele sumisse também.

Esses dias falávamos de alguém, e alguém veio me dizer que esse alguém está sendo enganado, vai sofrer, é tudo mentira, etc. Eu não desacredito, existem realmente indícios. Mas eu já aprendi que ninguém quer passar a vida como Brandon Walsh, nem as mais maduras. Acho que todo mundo já conheceu alguém que, depois de uma vida de boas escolhas, surpreende a todos com uma decisão fora da casinha. Deixem-nas. As pessoas não querem ser alertadas e voltar para suas vidas lisas. Em algum lugar dentro delas, elas querem mesmo bater com a cara no muro. Viver também é isso.

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Ideias perigosas e sedutoras

Adolescentes e mini adultos são uma raça difícil de lidar. As mesmas crianças correm na sua direção pra ganhar um abraço, poucos anos depois estão no sofá e desejam que você nem olhe para a cara delas, porque elas não olharão para a tua. Os critérios deles pra gostar de alguém às vezes são tão misteriosos como códigos de erros no Windows. Mas, no entanto, contra tudo o que normalmente estes seres são – implicantes, independentes, resistentes, prevenidos contra qualquer tipo de autoridade -, bastam alguns autores malvados esquerdistas e eles estão seduzidos e dispostos a pegar em armas. Precisam ser protegidos de tão sedutoras palavras, caem direitinho na conversa, aderem rapidamente, se vêem prestando atenção e querendo mais.

Sério mesmo que este tipo de descrição estranha não te faz morrer de vontade pra ver o que diz o tal do Paulo Freire, o tal do Manifesto Comunista? Num mundo que reduz informações a memes, quando muito a um documentário, que canto da sereia é esse capaz de converter justamente os seres humanos na sua fase mais insuportável? Tem que ver isso aí, tem que eliminar os intermediários e provar também. Ou o medo é aderir também?

Obs: minha intenção era postar o Capítulo 2.1, que é tão bonito e profundo. Pretendia com isso quebrar a resistência e dar ao leitor a vontade de conhecer mais. Ao mesmo tempo, entendo que se proteja a sequência da série porque ela é um raciocínio que vai num crescendo. Mas fica minha sugestão.

 

 

Lagoa Azul virtual

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Nos heróicos anos 80, as tardes de domingo da Globo eram apimentadas com um filme chamado A Lagoa Azul. Um senhor com um casal de crianças loiras vai parar numa ilha deserta e o adulto morre em pouco tempo. Adaptados à natureza, eles crescem e descobrem sozinhos o amor, o sexo, fazem um bebê… A internet, quando se olha pro comportamento coletivo nela, me parece um imenso adolescente. Provavelmente é porque grande parte dos usuários é adolescente. Um adolescente na Lagoa Azul, porque houve um buraco. Só agora a geração mais velha entrou, e mesmo assim não muito. A forma deles interagirem aqui é diferente, é mais comportada, sem ler nas entrelinhas. Quem está aqui faz tempo sabe que gostar de quem nunca se encontrou pessoalmente é normal e enjoou de Bom Dia piscando desde o tempo que vinham em arquivos de pps. Só pra citar um exemplo, eu conheço o dono de uma loja de roupas muito boa e que demorou bastante para fazer site. Ele mesmo me disse que não imaginava que as pessoas quisessem comprar roupa pela internet. E, quando fez uma página no Facebook, as postagens são raras e sem o menor “gingado”. Dá pra perceber que ele fez só para constar; ele sabe que é necessário ter, mas não entende o que colocar porque ele mesmo não consome dessa forma.

A maneira como se ama ou se odeia na internet também me parece adolescente. A forma como se é dono da verdade. As polarizações, o radicalismo. Quando as pessoas querem chamar atenção de alguém, ficou comum não elogiar e sim partir para a discussão inútil, para mostrar que é uma pessoa com personalidade, que tem opinião. A vontade de ser diferente, de contrariar tudo, achar engraçado cultuar o pessimismo e reclamar o tempo todo. Não é tudo tipicamente adolescente? Mas um monte de adolescentes juntos também se modificam: hoje em dia quase não se comenta mais em blogs e até mesmo no twitter está complicado falar abertamente, a não se queira brigar. As opiniões migraram para o Facebook, onde o controle do público é maior, o que fortalece ainda mais as bolhas.

Mas sabe que, apesar de tudo, eu sou otimista? Eu acho que de tanto baterem uns nos outros os comportamentos vão se auto-regular. Essa geração vai crescer e vai acompanhar as próximas, não vai ter mais o buraco geracional que aconteceu com o surgimento da internet. Assim como os pps enjoaram, algumas modinhas de hoje vão enjoar também. Se a internet tivesse passado pelas vias normais dos adultos, ela nunca seria tão democrática como hoje. Teriam dado um jeito de exigir pós-graduação, exigiriam o preenchimento de papeladas, alguma forma de autoridade burocrática ia ser plantada. Adolescência também é caos. Sem essa imensa adolescência, não teríamos a criatividade, o senso de humor e o caos. Não sabemos o que pode vir desse caos, mas já considero melhor do que o que nasce das instituições de sempre.

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

Como fazer amigos, etc.

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Quando eu li o clássico livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, do Dale Carnegie, eu era uma adolescente que passava o recreio na biblioteca. A bibliotecária que já me considerava uma anormal faz tempo, ficou completamente convencida quando me viu lendo aquilo. Eu realmente só podia ter problemas. Haviam me dito também que a imprensa foi no enterro do autor e que haviam lá meia dúzia de gatos pingados, o que punha em xeque o conteúdo do próprio livro. Eu queria entender que fórmula seria aquela e hoje me surpreendo em lembrar que fiquei surpresa. As regras me espantaram pela sua simplicidade: “a palavra mais bonita do idioma pra uma pessoa é o seu próprio nome”. Ele recomendava lembrar do nome das pessoas, sorrir quando apresentado, recordar o que nos falam, etc. Eram regras que evidenciaram pra mim o quanto no fundo todo mundo é igual na sua carência e desimportância, por isso a vontade de ser confirmado a cada contato. Achei que entendi o porquê dele ter tido poucas pessoas no enterro. O livro me fez concluir que as pessoas eram um tédio – e era por isso que eu passava tanto tempo na biblioteca.

Teoricamente a gente sabe que no fundo todo mundo é a mesma criança que sempre foi, mas também se vê surpreso quando vê congressista se estapeando, modelo verificando celular do namorado, advogados dando gritos e subindo na mesa. Ao mesmo tempo que esse lado infantil e mimado nos faz praticar atos enormes de egoísmo, também me parece que é nele que está a chave do perdão e outras qualidades do coração amolecido. Carnegie recomendaria: reconheça o erro e fale “desculpe”. Eu recebi uma mensagem de um rancor antigo, e como não podia ler na hora vi apenas as primeiras palavras. Elas me deram a entender um mea culpa; fantasiei que a tal pessoa tinha lido as coisas que escrevo e ter me acompanhado a fez rever muitas coisas do passado e concluir que sou legal e que foi um erro blablablá. Já estava toda mudando de ideia e reconhecendo os meus erros também quando finalmente abri a mensagem e era apenas uma corrente de internet. E das chatas. Sabe cachorro que mal recebe carinho e já está oferecendo a barriga pra carinho? Me senti assim, facinha. Que raiva.

Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

Essa geração sempre online mimimi

Quando eu fui visitar o Milton, deixei uma excelente impressão no sobrinho dele, que disse que nunca tinha conhecido “uma adulta que sabe quem é Felipe Neto e PC Siqueira”. Dá pra dizer que eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução da internet. Sabe aquelas piadas sobre Graham Bell ter inventado o telefone e não ter para quem ligar? Era mais ou menos assim quando a gente fazia e-mail. Eu conheço muita gente da minha idade que trabalha com internet ou que passa muito tempo online, mas isso é apenas porque eu tenho esse perfil. A grande maioria só usa e-mail e tem conta no facebook “pra achar uns amigos de infância”. Então eu ouço, à sério, as pessoas reclamarem do quanto esses xóvens ficam muito tempo na internet, cada um com seus telefones, sem conversar, sem olhar para os lados, onde é que esse mundo vai parar.

 

Eu acho sim que há um exagero e é preciso estar mais no mundo, mas também não me sinto confortável em condenar ninguém. Se eu já ficava na internet na época que gastava pulso telefônico, imagina no mundo de hoje. Lembro claramente de um sentimento que me perseguiu durante boa parte da minha vida: inadequação. Eu queria estar num outro lugar, num outro mundo, que eu não sabia como era, só sabia que não era o que eu tinha acesso. Eu não queria estar no meio das pessoas que estava. Quando digo isso, não estou apenas falando de família, falo também das pessoas do prédio, da escola, os que tinham a minha idade. Todos me pareciam um bando de idiotas, não dava pra ter uma conversa que prestasse. Depois a gente cresce e coloca essas coisas em perspectiva, mas estou falando aqui de como eu sentia. Então, eu tenho certeza de que ficaria muito feliz em conhecer pessoas de outros lugares, com os mesmos gostos que eu, e me sentiria mais à vontade com elas do que com aquele povo que vive lá em casa. O que me estava acessível era ler, andar no parque, me trancar no quarto, e fiz todas essas coisas intensamente. Podemos dizer que saí ganhando, que os livros que eu li hoje fazem parte da minha cultura e trocar mensagens com meus amigos não me levaria a nada. Mas isso é atribuir um cálculo de futuro que eu não tinha. Eu teria preferido o whatsapp mesmo.

Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.

Segurar a onda

Eu tinha uma amiga que trocava e-mails comigo enquanto trabalhava, então a conversa tanto poderia durar muitas horas como ser bruscamente interrompida. Falávamos de várias coisas quando ela citou um convite que havia me feito para passar um fim de semana. Quando ela me convidou, mais de uma semana atrás, estava dentro do carro, dirigindo, e passaríamos o fim de semana numa casa da família do namorado que ficava perto de não sei que cidade de Santa Catarina. Ou seja, um convite bastante vago. Naquelas alturas, eu já tinha falado com o Luiz e feito outra programação. Respondi pra ela que não ia dar e não recebi mais notícias, o que não me causou nenhum estranheza. Essa conversa foi antes do almoço. Meia noite, quando estava desligando o computador, recebi um e-mail dela, enorme. Nela, ela me xingava de curitibana (ela era carioca) e jogava na cara vários aspectos do nosso convívio e da nossa personalidade que podiam ser atribuídos à minha curitibanidade. Respondi no mesmo tom e como resposta veio um “não quis dizer o que eu disse, alias, ia te convidar pra ir lá no outro fim de semana”. Fiquei sem palavras diante de tanta imaturidade. 
Eu me lembrei do tanto que o meu primeiro namorado reclamava. Ele era doze anos mais velho do que eu e mais brigávamos do que ficávamos bem. Eu fazia igualzinho – me aborrecia, dizia o que me dava na telha e depois pedia sinceras desculpas. O quanto que ele reclamava disso, o quanto dizia que era adolescente! Mas ele suportava porque eu realmente estava na adolescência. Tem quem nunca saia dela, claro. Vejo que o que divide os adolescentes dos adultos não é deixar de sentir as coisas e sim se segurar. Essa minha amiga deveria ter falado mal de mim pro namorado, me xingado de todos os nomes e reclamado o dia inteiro, mas jamais ter feito aquilo. Aquele gesto custou uma amizade que eu sei que ela não tinha a intenção de romper. Depois disso passei a ver com outros olhos o fim do casamento dela e problemas que até aquela data ela me parecia coberta de razão. Todas as grandes qualidades dela não aliviariam o fato de que eu teria como amiga uma bomba-relógio, que diante de qualquer contrariedade viria me xingar e estragar o meu dia. Preferi romper.
Lembrei de tudo isso porque tenho sentido muita vontade de despejar minhas merdas no mundo. Tenho tido vontade de reclamar muito no twitter, tenho sentido inveja, tenho me sentido desprestigiada, tenho sentido um bocado de coisas ruins. Mas tenho segurado tudo isso porque é a melhor coisa a se fazer. Posso ser acusada de muitas coisas, mas ninguém pode dizer que não tenho segurado a minha onda, que tenho sido imatura. Segurar a onda ajuda todo mundo: ajuda os meus problemas a não se tornarem maiores, me ajuda a manter amigos que talvez não merecessem o que eu teria para lhes dizer agora, ajuda as pessoas a não se preocuparem ou se aborrecerem com o que não diz respeito a elas. A adultecêssencia, esse estágio que a gente entra sem querer entrar e de tão poucas vantagens, não é deixar de sentir e sim saber como, quando e o quê expressar. Eu seguro minha onda e espero, apesar de ter o mesmo coração ardente e explosivo de sempre.

Porque hoje é sábado – Andrew McCarthy

Eu ainda sinto meu coração acelerar quando vejo uma foto do Andrew McCarthy. Mas tem que ser ele assim, novinho.

Não que ele não tenha envelhecido bem, muito pelo contrário. Pra fazer este post procurei fotos dele pelo Google, e me surpreendi de ver tantas fotos recentes. Pra mim, era um daqueles astros teens que ninguém sabe por onde anda.

Olha como continua lindo! Mas não consigo sentir pelo Andrew de hoje o furor que sinto pelo Andrew adolescente. E não é porque sou papa-anjo.


Olhar as fotos antigas de Andrew McCarthy faz com que eu volte a me sentir uma adolescente. E, quando adolescente, bastava que ele estivesse num filme para ser um filme excelente.

O papel mais marcante pra mim foi o amigo bonzinho da Garota de Rosa Shocking. Ela insistia em gostar do amigo rico e pedante, que desperdício!

Andrew McCarthy nesse e em  vários outros filmes, nunca era o mais bonito, o mais popular. Ele era o melhor amigo, o cara tímido e doce, em quem a mocinha podia confiar e só se descobria apaixonada depois.

Ao contrário de muita gente, nunca me interessei pelos caras populares. Nunca tive um perfil cheerleader e minha insegurança me dizia que o cara mais bonito da turma só tentaria ficar comigo pra exibir minha calcinha depois. Talvez pra me proteger – e o Andrew sem dúvida tem sua responsabilidade nisso- eu sempre me interessei por homens tímidos.

Tal como nos filmes, eu jurava que era a única no mundo que suspirava por Andrew McCarthy. Ele era meio loser, meio bobinho. Não era o tipo que ficava sem camisa nos filmes. Minhas amigas gostavam do Tom Cruise, Rob Lowe, Downey Júnior, e outros que faziam papéis de bad guys.

Esses bad guys apareciam como reportagem na Revista Querida, eram Gato do Mês da Capricho. Andrew McCarthy não entrou pra história, não é lembrando como um dos mais bonitos dos anos 80. Dá pra perceber pelas fotos, é tudo da cintura pra cima, era tudo muito platônico.

Se saisse alguma reportagem sobre ele na época, eu teria lido com afinco. Por outro lado, tudo isso só aumentava a minha impressão de que só eu sabia o quanto seu sorriso era encantador, só eu suspirava por ele nos filmes. Eu tinha uma certa sensação de exclusividade. Como só eu o amava, quem sabe ele não tivesse uma legião de fãs para estragá-lo

e ele se mantivesse para sempre do jeito que eu o via: tímido e sensível, o meu namorado ideal.

Vôlei

Passei boa parte da vida achando que detestava esportes e qualquer tipo de atividade física. Na verdade, o que eu não gostava era de fazer Educação Física. Eu era a típica CDF que ia mal na Educação Física, aquela é que escolhida para a equipe depois que todas as opções boas já se esgotaram e começam a escolher os menos piores. Só muito mais tarde fui entender que meu problema com a Educação Física era que praticamente só nos ofereciam para jogar vôlei, handebol e basquete. E esses três esportes são esportes de equipe. Seja atrás de uma bola, numa reunião ou numa pesquisa, uma das coisas que eu mais odeio na vida é trabalhar em equipe. Me deixem fazendo faxina, me joguem num baile funk, me coloquem nas tarefas mais chatas e burocráticas, só não me obriguem a trabalhar em equipe. Outra coisa que detesto é competição, ter que enfrentar alguém cara a cara pra um sair vitorioso e outro derrotado. As aulas de Educação Física me fizerem crescer achando que todo esporte era assim.

Aí chegou a adolescência, essa época da vida em que nos obrigamos a fazer coisas pra estar em grupo. No meu prédio, o fim de semana era dedicado ao vôlei. Então eu me esforcei pra gostar de jogar vôlei. Descia, corria atrás da bola, sacava, aquela droga toda. Sabe a adrenalina de estar em quadra, de virar o jogo, de mostrar pro outro que somos melhores? Nunca tive. Olhando para trás, acho que só jogávamos tanto vôlei porque os estudantes do CEFET – era quase como ser universitário! – por quem éramos apaixonadinhas gostavam. Mesmo esse período jogando no prédio não melhorou muito meu desempenho no vôlei da Educação Física. Não ajudava, também, o fato de eu ter aula com uma carrasca – a professora Eleonora. Pra vocês terem uma idéia, teve o maior rolo porque ela reprovou uma aluna por meio ponto, uma aluna que havia passado em todas as outras matérias. Imaginem a situação, reprovar de ano porque não foi bem em Educação Física. Não sei como essa história terminou, acho que foi parar na Secretaria de Educação. A prova de vôlei era um jogo onde todos nós começávamos com nota dez. Quando a bola caía, ela descontava um ponto de quem estava perto ou que deveria ter pego a bola, às vezes mais de uma pessoa. E assim ia, até o jogo ou o tempo acabar. Lembro que no último dia de aula de vôlei no segundo grau, quando peguei a bola pra guardar, disse: Essa foi a última vez que eu joguei vôlei na minha vida. E foi mesmo.

De lá pra cá, até mudaram a maneira de contar os pontos, o número de sets, sei lá. Nem na TV eu gosto.

A namorada

Dois adolescentes com o uniforme do Colégio Bom Jesus, dentro do ônibus:
– Cara, que é que você acha da minha namorada?

– Não sei, nunca conversei com ela…

– Então de longe, que é que você acha da minha namorada de longe?

– Não sei, parece ser legal…

– Então fica com ela pra você.

– Hã?

– Fica com ela pra você, eu tô pedindo.

– …? Mas por quê?

– Ela até que é legal, mas é que hoje ela fez uma coisa imperdoável, sem volta. Ela mexeu no meu mp3. Eu sou um músico, um profissional, eu preciso ouvir minhas músicas. Ninguém, ninguém pode tocar no meu IPod Shuffle.

Fica aí o alerta.

Fala na cara

Eu me achava direta e fã de pessoas diretas. Achava que com aquelas muito diplomáticas, a gente nunca sabe direito onde está pisando. Que diplomacia era apenas um eufemismo para falsidade. Aquela pessoa que dissesse que é do tipo que fala na cara conquistava a minha confiança automaticamente. Hoje sou a favor do WD-40, do KY, do Bob Esponja e tudo que torna a vida mais fácil. O falar na cara me soa mais como um prazer sádico. Pra exemplificar o que quero dizer, senta que lá vem a história:

Estudei em colégio estadual da 8º série ao 3º ano. No mesmo ano em que entrei, entrou a Ana. Acho que estudamos 4 anos juntas, conversamos algumas vezes, mas não chegamos a ser amigonas. Mesmo porque, ser muito amiga da Ana teria sido perigoso pra mim. Ela tinha vindo de algum lugar, algum interior. Um dia ela virou comentário por estar com a perna peluda; noutro, porque falou sobre sexo de maneira séria. Era como se ela tivesse vindo de outro planeta; ela era diferente e na adolescência ser diferente é sempre ruim.

No extremo oposto estava a Elaine. Acho que a minha amizade com a Elaine surgiu do simples fato de termos que formar fila por ordem alfabética. Ela tinha o cabelo colorido, batom colorido e era extrovertida. Eu admirava sua espontaneidade. Graças à popularidade da Elaine, eu fiquei sabendo que os meninos do colégio fizeram uma votação secreta pra escolher a Menina Mais Bonita – de cada turma, de cada ano e do colégio inteiro. Como uma coisa leva à outra, pouco tempo depois surgiu outra votação, desta vez da Menina Mais Feia.
Estávamos no recreio, numa turminha. Ana se aproximou e a Elaine disse para ela:
– Ana, você sabia que os meninos fizeram uma votação da Menina Mais Feia do colégio?
– Sabia sim.
– (rindo) Você tirou primeiro lugar!
Ana disse algo e se afastou. Eu sei que isso acabou com ela, porque ela faltou a aula no dia seguinte. Assim como acabou o que eu sentia pela Elaine:
– Por que você disse isso pra ela!?
– Porque é verdade, ela precisava saber.
– Não, ela não precisava!
Minha teoria é que, quem gosta de dizer as coisas na cara, gosta mesmo é de ver a cara dos outros desmanchar.

Meninas

Quando o pessoal do twitter começou a comentar que era o fim do mundo Crepúsculo ter levado o MTV-MA de melhor filme, logo pensei que as meninas que fazem ballet comigo estavam vibrando naquele momento. E estavam mesmo. Afinal, foi através delas que eu descobri que a série do Crepúsculo é a nova moda dos adolescentes, e que fala de vampiros românticos. Descobri que os vampiros as deixam atentas aos sites de fofoca, wallpapers no celular e downloads dos livros em inglês – coisas que a gente nem sonhava na minha época. Em compensação, a revista ainda é Capricho.

Eu lembro de ter ouvido na minha adolescência que todas as adolescentes eram lindas. Claro que eu não acreditava em nada disso e me achava horrível. Claro que se eu dissesse isso a elas, elas não acreditariam porque se acham horríveis. Mas elas são todas lindas. A pele, o corpo, o sorriso, o jeito que uma menina tem nessa idade é único. Por mais bonita e conservada que uma mulher seja, ela nunca parece ter voltado aos 15 anos.

Eu tenho idade pra ser mãe delas – e nem precisaria ter engravidado na infância pra isso. Não adianta tentar disfarçar, não adianta tentar me comparar. Fora o ballet, as únicas coisas que posso dividir com elas são lembranças. Pra uma época em que cada ano faz toda diferença, eu sou da distante vida adulta. Elas ainda não sabem que insegurança não tem idade. Perto delas eu sinto cada um dos meus 32 anos de experiência.

Conviver com meninas gera um sentimento estranho: me sinto velha com elas e menina com a minha geração.

Amor Juvenil

Fulaninho e Fulaninha ainda são adolescentes. Podemos dizer que nenhum dos dois é inexperiente, mas ficar não é a mesma coisa que namorar. E nessas diferenças, existem coisas a administrar, maneiras de conversar. Ontem, eles estavam com mais um casal amigo e discutiram. Ela ficou magoada, foi para longe chorar. Ele quis ir atrás, não queria que ela ficasse assim. O casal de amigos, observava tudo de longe e esperava o problema se resolver.

Qual teria sido o motivo da briga? Não sei, não quero saber e tenho ódio. Seja lá o que era, não justificava essa ceninha toda se passando na frente da minha casa, de madrugada, despertando a ira dos cachorros de três quadras e acordando a vizinhança inteira.

Medidas

Hoje era pra ser somente um dia de folga. Ao invés de aula, íamos tirar as nossas medidas pra confecção dos nossos figurinos. Eu fui de macacão, meia calça e uma blusa de algodão de gola alta. Quando cheguei na frente da costureira, tirei a parte de cima do macacão e achei que ela ergueria a minha blusa. Ao invés disso, ela passou a fita métrica em cima da blusa e soltou – cintura 76.

Como assim, 76? Tive vontade de perguntar se ela não se enganou na ordem dos números. Afinal, na adolescência minha cintura era 65 e estou malhando como maluca, sempre de dieta, magérrima e tudo mais! Mas não falei nada, voltei pra casa de péssimo humor, peguei a fita métrica e descobri que realmente não tenho menos de 70 de cintura. “Mas você tem cintura, você está magra, todos dizem que você emagreceu, suas calças estão folgadas, ela tirou a medida por cima da roupa e com folga!”, disse o marido. Eu, aos prantos: “Mas como você explica que as outras, também de roupa e com folga, tem 61, 63 de cintura!?”. Ele “Quantos anos elas têm mesmo, 15, 16?”

Conclusão 1: Eu odeio envelhecer.
Conclusão 2: Eu odeios os #@$%@ que dizem que a dança moderna não tem o mesmo padrão de magreza que o ballet.
Conclusão 3: Um dia a pessoa fica com anorexia e ninguém sabe o motivo.
Conclusão 4: Se aquele figurino não ficar folgado, eu me afogo no lago do Parque Barigüi.