O novo calendário

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A humanidade finalmente consegue explorar o universo e descobre que não apenas não está sozinha como há organizações interplanetárias. Ao fazer parte disso, ela precisa se adaptar a uma padronização básica e o ano deixa de ser solar, com o nosso sol, e passa a ter uma medida que para nós corresponde a dois anos, ou seja, o novo calendário tem 430 dias. No início, as pessoas apenas duplicam o ano, contam o ano novo como se fosse um e outro que mudou mas se diz que é o mesmo, usam calendários com as duas medidas, sentem que trocam de ano no meio do ano. Mas o tempo e o desuso faz com que se confundam, esqueçam, as medidas antigas perdem a importância. As pessoas passam a levar 400 dias para se sentirem cansadas, pelo menos 70 dias a mais, pra só então achar que um novo ciclo se reinicia, cheio de esperança e novas possibilidades. Com o ano mais longo e numa contagem dos anos de vida mais curta, será que a humanidade se tornaria mais intensa?

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Multiversos

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Dizem que há multiversos, realidades paralelas, e nas nossas outras vidas paralelas fizemos de tudo. Cada alternativa possível, a da direita, da esquerda, do meio e para trás, foram todas vivenciadas, ou seja, em algum lugar existem versões nossas que conjugam o verbo na primeira pessoa do plural. Mas essa informação, na prática, não adianta nada, porque se não tenho consciência das outras realidades, elas são tão inexistentes quanto a minha imaginação. O pior, você sabe, que de todas as alternativas possíveis, eu prefiro exatamente a que estou – estamos – agora. Eu a criei, eu a escolhi, muito mais eu do que qualquer outra pessoa. O que eu vislumbrava podia ser tanto um fósforo riscado quanto uma bomba, em todas uma quantidade de dor acima do tolerável. Sou adulta – somos – e como toda adulta já tenho dores e culpas o suficiente na bagagem para aceitar mais dor e culpa como se nada fosse. O desejo que me restou, do alto da minha limpeza de caráter – porque me consolo de tudo isso dizendo a mim mesma que fiz o que havia de mais correto – é muito simples. Muito mais simples do que o teu, tenho certeza. Imagino que um dia a gente se encontre por aí, num corredor, e você estará no meio de amigos que eu sempre disse que não são os meus, eu poderei cumprimentar os presentes, me aproximar de você,  e te abraçar. Um abraço longo, daqueles que suspende o tempo, envolve o corpo e a alma. E com ele te faria sentir que tudo mais é pequeno diante da gratidão e amor imensos que sinto por você.

Borboleta

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A cada ano que passa, a lua se afasta cerca de quatro centímetros da Terra. Os movimentos da maré tem tornado o movimento de rotação alguns milésimos de segundo mais lento a cada ano, o que num efeito acumulativo fará com que no futuro o dia passe a ter um pouco mais do que 24h. A Via Láctea é muito próxima da galáxia de Andrômeda e a lenta aproximação das duas fará com que a gravidade as atraia, misture e forme outra galáxia. Quando a gente começa a ver documentários científicos, percebe que o rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar até mesmo num sentido bem mais amplo e profundo; as medidas do universo são tão vastas que nos fazem pensar que apenas nós mudamos, que o tempo e o espaço que nos cercam continuam sempre o mesmo, o que não é verdade. A gente acha a vida da borboleta, que dura uma semana, um nada, mas nós em relação às estrelas somos ainda mais fugazes. Eu me pergunto se a borboleta no quarto dia sente que as suas asas já não são tão leves quanto no primeiro ou se entre o nascer e o pôr do sol acha que o tempo se arrasta.

Chantagem

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Quando eu acho que as coisas estão ruins pro meu lado, emperradas, complicadas ou por algum motivo estou querendo uma ajudinha da sorte, eu faço alguma caridade. Geralmente, doo sangue ou roupas. Como eu acredito que a gente faz e recebe de volta, desse jeito eu deixo o Universo em dívida comigo e o obrigo a vir em meu socorro.

Borboletismo

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Adoro ficção científica. Do Star Wars que todo mundo conhece a Asimov, Arthur Clark. Recentemente comecei a assistir Cosmos; minha geração viu o original do Carl Sagan na TV, mas por algum motivo nunca vimos na minha casa. Acho que nunca calhou de mudarmos a TV naquele horário, não sei. Dizem que o original tem uma beleza e carisma diferentes, mas a versão nova também tem sua graça e os efeitos especiais sem dúvida melhoraram muito. Gosto muito das biografias que o programa apresenta, me emociono bestamente. Tinha ouvido falar e tal, mas até assistir os programas eu nunca tinha entendido direito o quão grande foi Isaac Newton. Li uma frase há poucos dias na revista Caras, que dizia algo como “Não podemos desejar aquilo que não conhecemos” e Newton foi aquele que criou do zero os sonhos que os séculos posteriores se dedicariam a desvendar. Voltei a sentir algo muito antigo, um sentimento que criança expressa com um “quero ser cientista”, que nada mais é do que o desejo de olhar para o mundo com tal encantamento que o aparentemente banal gere em mim uma questão sobre o próprio segredo do universo. Newton e outros cientistas fazem com que eu me sinta pequena de um jeito bom. Só vendo Cosmos eu percebi que o que busco na ficção científica é justamente essa pequeneza. Não temos mais, como o próprio programa disse, a visão do céu estrelado. Num mundo onde a imensidão é apenas o que vemos das janelas dos prédios, a ficção científica nos lembra que existem medidas maiores do que qualquer capacidade de olhar. Existe um mundo maior do que nossa vida, nossa família, nossa cultura, nosso país, tudo o que um dia vimos ou provamos. Nossa tão grande Terra é pequena perto dos planetas vizinhos, que não são nada diante do sol, que dentro da Via Láctea… É tão maior do que o maior, chega um momento que você sabe que aquilo se tornou apenas um número porque a mente humana não consegue fazer tal projeção. O que me leva a pensar: será que existe um tipo de Cosmonismo, considerar o próprio universo como um Deus? Pra mim faria sentido. Gosto de relembrar que a humanidade inteira representa alguns segundos nessa grande história da qual a Terra nem é protagonista. Nós que achamos que a borboleta tem uma vida curta somos nada mais do que outro tipo de borboleta. Desse ponto de vista, a vida humana é tão efêmera, tão sem importância. Ao mesmo tempo, ela é feita de desejos e de uma consciência de si tão aguda, de sonhos que se acreditam enormes, de uma vontade de eternidade. Isso me faz olhar para qualquer atrapalho da minha vida e perceber o seu grau de desimportância. Me dá um amor ainda maior por esse pequeno borboletismo – que meu pouco tempo aqui seja o melhor. Quero ser Isaac Newton e

Não sei como o mundo me vê, mas eu me sinto como um garoto brincando na praia, contente em achar aqui e ali, uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita, mas tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano de verdades.

Numa fria

“Eu não acredito que você me meteu nesse tipo de fria, de novo!”, disse eu para mim mesma. No caso, o de novo era estar de sapatilha e meia calça rosa, cercada por adolescentes vestidas da mesma forma. É, a vida da gente tende a girar sempre em torno dos mesmos temas, e tantos anos depois me vi vestida de bailarina de novo. Eu não sei como são as outras pessoas, mas eu discuto comigo mesma e com o Universo – outros chamariam de Deus – o tempo todo. “Cala a boca e presta atenção”, eu teria dito a mim mesma, mas o lado para quem eu reclamo não costuma verbalizar tanto. Ele manda e eu obedeço. “Presta atenção”, porque se de um lado eu me sinto desconfortável, de outro é a disponibilidade de me meter nessas frias que tem me enriquecido. Nelas eu relembro o quanto o mundo, os sonhos e os caminhos são variados. Se o mundo nos parece sempre igual, é única e exclusivamente porque escolhemos o igual.

Todo se transforma

Sou bestona bestona. Tanto que quando fui tentar explicar em palavras, ficou parecendo outra coisa. Em palavras ficou assim: um amigo descobriu agora que me separei, e a ele me escreveu umas palavras de apoio e com isso eu ganhei a noite. Não, não houve nada de sexual no apoio dele ou na minha felicidade. Da minha parte, quem sabe, exista um respeito exagerado, de achar que é uma pessoa que nem deveria me ver como amiga? É que é um desses amigos que a gente encontra uma vez na vida, ele em trânsito, e você leva pra conhecer Curitiba e fala mais do que o homem da cobra. Aí cada um volta pra sua casa, uns têm netos e outros se separam, e vira aquela amizade de Facebook, com uma curtida aqui e outra ali.

O motivo da minha felicidade talvez nem tenha sido tanto pelo amigo, e sim do simbolismo. Vou te dizer que tem aí duas pessoas de quem eu esperava receber apoio, e jamais me disseram nada. Pessoas que na minha visão, me colocando no lugar delas, pelo que vivemos juntas, eu achei que se sentiriam mobilizadas ao saber que eu estava separada. Porque sabem o que é isso. E, de ambas, não recebi uma única mensagem. Aí tem o outro, que conversou comigo há anos, de quem eu jamais esperei nada, que poderia passar batido pelos meus assuntos e eu nem saberia, e sente vontade de me dizer alguma coisa. Fiquei tocada. Eu vejo nisso um bem que eu lancei ao universo sem esperar nada em troca e que voltou. Vejo a volta das minhas boas ações, o universo me amparando. É um baita motivo ganhar a noite.

Estado

Tem aquela felicidade solitária que é quase uma tristeza, que dói num lugar difícil de definir. É uma experiência de beleza, uma reconexão. Queremos falar, compor uma sinfonia, passar a noite olhando as estrelas, demarcar aquele momento. Que pena que não podemos viver assim, cientes, que tais estados nos fujam. Por fora estamos banais e por dentro um universo brilha. Como uma estrela, a vida da gente fica parecendo uma coisa tão pequena, tão fugaz e por isso mesmo tão bonita. Tudo está bem.