Curtas sobre Fal e Karnal

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A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

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O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

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O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

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Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

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Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

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Borboletismo

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Adoro ficção científica. Do Star Wars que todo mundo conhece a Asimov, Arthur Clark. Recentemente comecei a assistir Cosmos; minha geração viu o original do Carl Sagan na TV, mas por algum motivo nunca vimos na minha casa. Acho que nunca calhou de mudarmos a TV naquele horário, não sei. Dizem que o original tem uma beleza e carisma diferentes, mas a versão nova também tem sua graça e os efeitos especiais sem dúvida melhoraram muito. Gosto muito das biografias que o programa apresenta, me emociono bestamente. Tinha ouvido falar e tal, mas até assistir os programas eu nunca tinha entendido direito o quão grande foi Isaac Newton. Li uma frase há poucos dias na revista Caras, que dizia algo como “Não podemos desejar aquilo que não conhecemos” e Newton foi aquele que criou do zero os sonhos que os séculos posteriores se dedicariam a desvendar. Voltei a sentir algo muito antigo, um sentimento que criança expressa com um “quero ser cientista”, que nada mais é do que o desejo de olhar para o mundo com tal encantamento que o aparentemente banal gere em mim uma questão sobre o próprio segredo do universo. Newton e outros cientistas fazem com que eu me sinta pequena de um jeito bom. Só vendo Cosmos eu percebi que o que busco na ficção científica é justamente essa pequeneza. Não temos mais, como o próprio programa disse, a visão do céu estrelado. Num mundo onde a imensidão é apenas o que vemos das janelas dos prédios, a ficção científica nos lembra que existem medidas maiores do que qualquer capacidade de olhar. Existe um mundo maior do que nossa vida, nossa família, nossa cultura, nosso país, tudo o que um dia vimos ou provamos. Nossa tão grande Terra é pequena perto dos planetas vizinhos, que não são nada diante do sol, que dentro da Via Láctea… É tão maior do que o maior, chega um momento que você sabe que aquilo se tornou apenas um número porque a mente humana não consegue fazer tal projeção. O que me leva a pensar: será que existe um tipo de Cosmonismo, considerar o próprio universo como um Deus? Pra mim faria sentido. Gosto de relembrar que a humanidade inteira representa alguns segundos nessa grande história da qual a Terra nem é protagonista. Nós que achamos que a borboleta tem uma vida curta somos nada mais do que outro tipo de borboleta. Desse ponto de vista, a vida humana é tão efêmera, tão sem importância. Ao mesmo tempo, ela é feita de desejos e de uma consciência de si tão aguda, de sonhos que se acreditam enormes, de uma vontade de eternidade. Isso me faz olhar para qualquer atrapalho da minha vida e perceber o seu grau de desimportância. Me dá um amor ainda maior por esse pequeno borboletismo – que meu pouco tempo aqui seja o melhor. Quero ser Isaac Newton e

Não sei como o mundo me vê, mas eu me sinto como um garoto brincando na praia, contente em achar aqui e ali, uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita, mas tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano de verdades.

Opinião

Há alguém cuja opinião nos causa tanto respeito que pesa mais do que um país inteiro. Quando essa pessoa diz sim, nada mais nos detém; quando ela diz não, é porque não se deve. Mas uma pessoa é apenas uma pessoa. Um dia surge um não tão contra o nosso momento que decidimos ignorar e seguimos em frente.

Só que é tão difícil.

Ninguém

A vida universitária não é nenhum bicho de sete cabeças, nenhum lugar onde se exija genialidade. Como a maioria das coisas, o mais difícil é passar nas seleções. Uma vez lá dentro, é possível ir levando, ir escorregando, fazer o básico. Claro que quando se está lá dentro, você sabe a diferença entre um profissional e um arrivista, um que trabalha de verdade e o que faz apenas para constar, o realmente talentoso e o na média. Mas quando sai o papel, o certificado, todos ficam iguais, todos se revestem da mesma aura. E a aura universitária, tanto dentro quanto fora, é extremamente poderosa. Então por mais que ser mestre ou doutor não seja um atestado de genialidade, por mais que eu tenha uma visão crítica sobre o assunto, abrir mão disso foi sim abrir mão de um sentimento de importância. Hoje vejo que fui de uma ingenuidade extrema: eu achei que poderia abandonar e voltar, que o simples conhecimento da minha capacidade garantiria a minha vaga. Como tudo o que garante status, na vida universitária é preciso estar dentro, ser político, contar com as boas relações. Eu não fiz nada disso e recebi de troco o que havia plantado – um pé na bunda.

 

Pior de tudo foi o que me levou a perder isso: a dança. De todas as coisas que já fiz na vida, a dança é sem dúvida a mais sem perspectiva. Não é que eu tenha largado a academia para ser bailarina, nada disso, não foi tão consciente. A dança me tirou da vida acadêmica na medida em que me tirou o tesão pela coisa, me fez mudar de foco; ela me mostrou que minha vida de até então era um equívoco. Digamos que eu me descobri, que eu saí do armário. Quem assumiu alguma coisa na vida sabe do que estou falando, do caminho sem volta que é se descobrir de verdade. Eu simplesmente não conseguia mais estar lá, não conseguia mais jogar o jogo. Foi com a dança que eu descobri que estava seguindo apenas a cabeça dos outros, que nunca fui realmente um deles. Ao mesmo tempo, ninguém começa a dançar balé com quase trinta com a ilusão de que se tornará uma bailarina profissional. Mesmo que tente, poucos anos de balé colocarão suas ilusões por terra. O corpo não é mais aquele e o tempo está contra nós. Surgirão meninas melhores, mais magras e mais expressivas o tempo todo, e o mundo pertencerá a elas. Começar tarde é desfavorável em quase todas as áreas; naquelas com exigências são físicas as coisas são ainda mais cruéis. O mundo não tem culpa que eu tenha descoberto muito tarde que tenho aptidão para tudo o que envolva consciência corporal, movimento, corpo. Posso e ganho em prazer, saúde, etc. – só não posso me iludir com a idéia de profissão e reconhecimento.

 

Ou seja, eu troquei a idéia de ser alguém – de ser “dotôra” – por ser ninguém. Na idade que os grandes mestres flamencos são veteranos, estou ainda aprendendo o nome dos ritmos, como é que se bate palmas, tentando fazer o meu calcanhar soar nos sapateados. Eu sei que, no fundo no fundo, ser doutora, ser grande bailaora flamenca, ou qualquer outro título, é sempre uma bobagem. Mas é uma bobagem que nos agasalha, que nos ajuda a falar com os outros, que nos consola nos momentos de solidão. Eu não tenho mais, eu não sei mais o que dizer para mim mesma e para os outros. Ao me dar conta de que nunca serei importante, eu pensei que morreria, que me desintegraria, que nada poderia vir disso. Eu não morri, eu ainda não morri. Mais: descobri o quanto é relaxante a consciência da pequeneza. Cada pessoa é muito pouco nessa vida, importante apenas para uma ou duas pessoas. Mas dizemos para nós mesmos que a terra não gira sem nossa ajuda. A vontade de ser importante é tão grande que vale até ser famoso no twitter. Eu sei de maneira muito profunda (e por vezes dolorosa) que não sou influente. Meu mestrado não vale nada, como bailaora eu não sou nada, meu blog não é famoso, nem na porra do twitter eu sou alguma coisa. Isso quer dizer que minhas ações não modificam o mundo de maneira definitiva, o que é UFA! Ao contrário dos que realmente decidem, eu não preciso ser coerente, eu não preciso ter uma foto séria, eu não preciso me preocupar com as minhas roupas, eu não preciso vigiar o que posto pra que meus chefes/subalternos/alunos/colegas não pensem mal de mim. Eu posso me preocupar apenas em ser eu. Isso ocupa mais tempo do que parece. Ser alguém alimenta o ego; não ser ninguém é pura liberdade.

Blogs

Um blog relevante tem que ter por dia o número de visitantes que eu tenho por mês. Nunca fiz esse blog com a intenção de ser blogueira. Ele era pra mim, pra destravar minha escrita. Quando instalei o Analytics e vi que quinze pessoas tinham me visitado num dia, dei pulos de alegria. Eu jurava que as únicas pessoas que visitavam o blog eram os poucos amigos pra quem havia contado. A minha vida, meus sonhos e minhas perspectivas mudaram, e com tudo isso o blog passou a ocupar outro lugar. Quando fica difícil demais, eu me agarro à obrigação imaginária de vir aqui escrever. Ele me ajuda a colocar as idéias no lugar e não ceder ao desânimo. Estes textos são minhas mensagens em garrafas, largadas por aí. Sei da sua importância para mim, quando os lanço. Para que servem ou para onde vão eu não sei. Pode ter valor para um desconhecido ou jamais encontrar um destino. Angústia sobre ter ou não valor literário são para os que burilam melhor o que escrevem. Eu apenas lanço.

Só que quando vejo blogs piores que o meu muito mais lidos, repercutindo e ganhando até dinheiro, é foda.

Desimportante

Os melhores amigos sempre são os que não dão muita bola pra gente. Aqueles que não reparam quando você passa muito tempo sem ligar, ou se reparam não se importam a ponto de te dar uma bronca e achar que merecem explicações. Eles têm outros amigos, e quem sabe com eles a relação seja mais possessiva. Você, por não ser importante, fica com o bom humor, as histórias engraçadas, o tratamento mais educado. Os sumiços deles, por outro lado, nunca serão interpretados por você como vingança ou inimizade, ou sinal de que eles estão chorando por algo que você fez – será apenas porque eles estão fazendo outras coisas, vivendo. Não são as pessoas importantes que conseguem transferência ou férias nas melhores datas, por mais que mereçam. O funcionário encostado, ou mala sem alça, consegue sair sempre que ele quer, nem que seja apenas para todos se livrarem da sua presença. Já a pessoa importante tem dificuldade para conseguir permissão pra sair um dia e repor, nem que seja pra fazer uma pós. Todo mundo sabe que o anfitrião é quem mesmo curte a festa e que só escreve o que quer quem não recebe pra isso. O importante nunca pode esquecer que tem um nome a zelar. O desimportante pode ser incoerente, politicamente incorreto e largado. Ninguém estará nem aí, nem ele mesmo. Ele pode ir a padaria de crocs e voltar comendo os pedaços de pão quentinho enquanto caminha de volta. Se dentro dele existe um corrupto ou um fraco, jamais saberemos, porque ele não será colocado à prova em grandes questões. O desimportante não aprova orçamentos, não constrói hospitais, não é responsável pelo desemprego de milhares de pessoas. Ele pode ser marcante pra mim ou pra você, jamais para a humanidade. E quase ninguém será, nem os que se acham muito importantes.

Metáfora astrológica

Não deixa de ser irônico que eu tenha estudado tantas coisas místicas e sinta que eu as entendo melhor hoje, quando não vejo importância. Astrologia é uma delas. Eu sabia o significado das casas, dos planetas, dos signos, um pouco da mitologia grega necessária, mas em algum lugar dentro de mim nada disso era muito claro. Eram peças e eu não conseguia juntá-las. Talvez hoje eu consiga porque cresci com essas noções e em algum lugar interno as idéias foram amadurecendo; pode ser apenas porque eu era adolescente quando li e nessa fase a gente entendas as coisas de maneira muito superficial (embora se ache um gênio). Uma questão que sempre me intrigou foram as casas. Bem, terei que dizer umas coisinhas básicas de astrologia.

São 12 signos, que todo mundo já conhece. Cada signo corresponde a uma casa, logo, são 12 casas. Áries é o primeiro signo, e a primeira casa é simbolicamente ligada a ele. É a casa do eu, da personalidade, da maneira como as pessoas nos vêem, do impulso criativo. Touro é o segundo signo e a segunda casa é ligada a ele, e diz respeito às finanças, ao prazer, à terra, às posses. E assim por diante. Só que o signo e a casa mudam de posição conforme a posição do ascendente. É como se girasse uma roda dentro de outra roda. O ascendente é colocado no lugar da primeira casa:

No exemplo de cima, dá pra ver que a casa 1 tem dois signos. Isso porque o ascendente pode não ficar inteiramente encaixado na casa. Tudo depende do horário de nascimento. Nesse exemplo que eu coloquei, o ascendente da pessoa é Câncer. De resto, os signos seguem a ordem de sempre. As casas ficam assim, umas maiores do que as outras, por causa das posições dos planetas:

Agora ficou uma complicação, né? Mas o que eu quero mostrar é bem simples. Vejam que algumas casas estão cheias de risquinhos e outras estão vazias. Não têm planetas lá, não têm nenhum risquinho indo pra lá. Nessa figura que eu coloquei, não têm nada nas casas 4, 5, 6 e 7. Isso quer dizer que o assunto relativo àquelas casas não é relevante na análise astrológica.

Era esse ponto que eu não entendia, essa coisa de não ser relevante. Então se a pessoa não tem nada na casa ligada à carreira (casa 10), isso quer dizer que ela não vai ter carreira, ou que a carreira dela vai ser ruim? Não. Ela pode ser desempregada, pode ter um emprego ruim, pode ter um emprego bom, mas de qualquer maneira a carreira que ela seguir não será um assunto importante na sua vida. Outras coisas absorverão mais a sua energia.

Eu não entendia como isso era possível porque na época eu não tinha notado que as pessoas são monotemáticas. A vida possui aspectos inumeráveis, mas cada um só se preocupa com meia dúzia de coisas. Ou menos. Blogs pessoais mostram isso de uma maneira constrangedoramente clara. Você sabe que não vai ler aventuras sexuais no Caminhante Diurno. Ou dicas de moda no Belos e Malvados. Assim são os blogs e as pessoas: cada um é focado em algumas poucas coisas. Veja o caso da fama: ser famoso pode acontecer por acaso pra uns, muito mais provavel para quem a busca; pode ser motivo de frustração ou completamente indiferente na vida de outros. Já conheci uma que viajava o mundo e que não via nenhum valor nisso, porque o que ela queria era ser mãe. A importância das coisas não está na opinião dos outros, na quantidade de dinheiro que se consegue ou nos traumas de infância, necessariamente. O foco da vida de alguém está onde ela lhe dá mais importância. Para a Astrologia, onde ela tem mais planetas.

Toque de Midas

Pessoas, humanos, gente. Chame do que quiser, até de unidades carbono. Uma coisa é certa: eles sempre estragam tudo.

Não tudo, na verdade. Apenas o que interessa, apenas o que é mais importante. Uma pessoa conhece alguém com idéias parecidas e conversa interessante. Se convence de que este alguém é um amigo muito especial, o melhor de todos os amigos. A partir daí desse dia a amizade perde um pouco o sabor. A pessoa começa a ter ciúmes quando esse amigo não quer estar o tempo todo junto, quando omite alguma informação, quando demonstra outros interesses. Espera do outro um grau de compreensão e desapego maior – ele está proibido de fazer coisas que outros fazem sem causar nenhum transtorno pra relação. O que fazia bem a ambos passa a ser um cabo de guerra, onde um luta para manter uma posição imaginária e o outro tenta manter seu espaço. O mesmo acontece quando surge o emprego dos sonhos, ou a descoberta de um talento; quando uma coisa passa a fazer parte da definição que tem de si. O prazer que ela sentia antes é obscurecido com a preocupação de ser o melhor, com a demora do reconhecimento, com a concorrência. Mais: ela se torna inimiga em potencial de todos que demonstrem as mesmas aspirações que ela. Idem para casamentos sufocantes, relações familiares, colegas de trabalho e até mesmo aquele grupinho que se reúne pra fazer crochê.

É um toque de Midas, só que ao contrário. Tudo que um humano dá importância se estraga.

Três maneiras de expressar a mesma coisa

Meu irmão chama isso de não desistir quanto tudo está ruim; eu chamo de nunca ir embora quando ninguém sentirá sua falta.

Teve um momento em Joinville que eu pensei em ir embora. Olhava para aquelas bailarinas e me perguntava o que estava fazendo no meio delas. Não ousei comprar nenhuma roupa com estampa de sapatilha de ponta, porque apesar de fazer ballet todos os dias eu me convenci de que não era uma bailarina. Estava longe de casa, deprimida, com sono atrasado, vestindo roupas sujas, comendo e dormindo mal; tudo pra fazer um curso onde eu não conseguia acompanhar o nível da turma. Como disse minha mãe antes de eu viajar, eu estava há apenas duas horas de casa. E se eu desistisse? Em Curitiba, teria que destrancar academia, voltar pro Ballet, explicar pra todo mundo que voltei antes do tempo. Minha mãe diria que já sabia. Em Joinville, minhas colegas de alojamento primeiro tentariam me fazer desistir, depois diriam que sou uma fraca. No curso, só notariam minha ausência quando surgissem alguns buracos – nada que eles não tampassem com facilidade. E foi essa facilidade que me fez ficar.

De maneira semelhante, pensei muitas vezes em largar o ballet. Eu sentia no silêncio dos professores a falta de fé de corrigir e ensinar alguém tão velha. A minha própria falta de fé, a solidão em estar cercada de meninas tão novas, o choque da auto-imagem em parecer tão gorda perto delas, as dificuldades físicas com o en dehors que eu não tenho. Bastava ir embora e voltar a ser socióloga. Ninguém se surpreenderia, ninguém consideraria uma perda.

Agora quando chego em casa exausta e feliz, ensiando, pegando coreografia, ganhando um papel e outro, rindo com as meninas, vejo o quanto é bom não se permitir deixar as coisas no meio. Não pretendo fazer isso agora, mas a terceira maneira de expressar a regra é só ir embora quando o corpo quer ficar.

A importância de ser importante

Sorte daqueles geniais que sabem que ganharam uma página da história. Como será saber que muitos recordarão do seu nome, lerão suas obras, estudarão sua biografia? Ter um nome que perdura é para poucos. Se mortais comuns não conseguem fazer obras marcantes, se conformam em pelo menos em ter uma obra. Feita com suor, tirando dinheiro do próprio bolso, e que terá pouco ou nenhum impacto. Nesse sentido, ter filhos é mais eficiente. Mesmo pais ruins, daqueles povoam pesadelos, podem ter a certeza de serem marcantes na vida de alguém.

Somos sacos sem fundo. Pra sermos importantes compramos coisas inúteis, conquistamos títulos, fazemos plásticas, aturamos reuniões, fazemos caridade. Sim, fazemos caridade. Depositar numa conta corrente não graça. Bom é um coitado de olhos lacrimejantes, agradecido com tamanha bondade. Os famosos cinco minutos? Nunca são suficientes. Melhor seria ter milhares fãs; senão, serve um ou dois admiradores. Que nos admirem pelo nossa bondade, cargo, beleza, conhecimentos, não importa – o importante é ser alguém. Quem pode afirmar com toda a verdade estar livre dessa cadeia? Mesmo aquele que acha que conseguiu se libertar, no fundo, retira da própria abnegação o seu sentimento de importância.

Por isso que o Diabo, em pessoa e Al Pacino, disse que o a vaidade era o seu pecado favorito.