Megera

evil queen

Infelizmente, eu ouço os meus vizinhos mais do que gostaria. O vizinho dos fundos, então, sempre fala muito alto. Eu acabo ouvindo alguns diálogos. Não sei dizer se ele e a mulher estão se separando ou estão tentando não se separar, mas ela dá patada atrás de patada no que ele diz. Às vezes ele nem disse nada demais, mas dá pra perceber que tudo a tira do sério. Não julgo, de verdade.

Um casamento acaba por muitos motivos e é claro que o meu teve muitos motivos. Ouvindo os dois lá atrás, eu percebo que uma das coisas que me dói sobre o meu casamento era a pessoa que eu era. Não vou saber dizer se eu era assim desde o começo, se foi como a relação se desenvolveu, se tinha jeito, só sei dizer que eu era e não gostaria de ser de novo. Minhas impaciências, minhas injustiças, minhas ingratidões. Será que eu sou uma megera estava uma megera? Algumas coisas nossas só encontram a luz do dia na intimidade extrema – e nem sempre é bonito de ver.

Anúncios

Curtas de objection your honor

objection-your-honor

Digitadores ficam com LER nos pulsos e o elenco de The Good Wife deve desenvolver lesões relativas a levantar abruptamente dizendo: objection, your honor!

.oOo.

Primeiro contato e eu não foi polida – não fui grossa, mas não foi bacana. A resposta foi no mesmo tom. Já tinha decidido nunca mais comentar nada, deixar de ler, aí recebo uma mensagem privada gentil, fazendo referência ao meu comentário e me convidando a ler um outro texto. Fiquei muito sem graça, pedi desculpas, disse que havia me arrependido do meu primeiro comentário, agradeci. Aí lembrei porque tenho a política de ser gentil sempre que possível:

  1. A gentileza desarma.
  2. A gentileza nos faz passar menos vergonha.

 

.oOo.

As pessoas. Elas têm o péssimo hábito de terem defeitos. Alguns nos são insuportáveis e deixamos de falar com elas. Quando não são, a melhor política é escapar, nunca tocar no assunto e fingir que não viu. Por incrível que pareça, o caminho do meio – analisar, jogar na cara, exigir justificativas e pedidos de desculpas – é muito pior.

Só li verdades

Quer coisa mais desagradável do que a verdade? Por isso que digo que falar a verdade é um dos meus mais graves defeitos. Para me conter, procuro adotar como regra não dar a minha opinião a não ser que ela seja pedida. Mas o conceito de pedir é tão relativo… Teve uma semana no começo do ano que eu estava atacada, e disse pelo menos umas três verdades por aí. Gente, foi horrível. Mais uma dessas e as pessoas vão fazer complô pra me esfaquear, igual livro da Agatha Christie. Uma das vítimas foi uma amiga, que há tempos vinha exagerando numa insegurança. Uma pessoa boa e tal, mas era um problema de anos, uma lamentação sem sentido, todo mundo naquela atitude de “adoro Fulana, mas que saco quando ela…”. Aí ela veio com aquele papo num dia que meus pacová estavam pra cima e PLÁ, falei a verdade. Não precisei nem de cinco minutos pra escrever a um amigo, já arrependida.

 

(Vivo contando essa história por aí. Ela sempre vem acompanhada de um “por isso que eu adoro homem”. Uma mulher, como vocês perceberão, jamais diria o que ele me disse.)

 

Expus todo caso e as provas. E que tinha acabado de mandar resposta com isso isso e aquilo. Depois de ouvir tudo, ele apenas me respondeu:

– Se ela deixar de falar com você, vai te fazer falta?
– Hummm… não.
– Então está resolvido.

Essa história, por incrível que pareça, é a minha reflexão de 2015. As coisas não foram da forma como eu planejei, de jeito nenhum como eu pretendia, a truculência foi maior do que eu imaginava. Minhas mudanças não têm batido na porta – elas colocam as portas abaixo e vão entrando com suas botas enlameadas. Nada como eu teria feito, nada sob controle. Mas, sendo bem franca comigo mesma: não me fazem falta.

Grandes defeitos

Uma vez li uma entrevista do Flávio Gikovate, que dentre tantas perguntas sobre o trabalho dele, novo livro e sabedoria acumulada por anos de divã, queria saber se era verdade que ele era um homem muito vaidoso. Eu cresci lendo suas colunas, vendo um retrato meio de lado num belo rosto barbudo, e achei que faz todo sentido imaginar que ele seja vaidoso. Sempre o achei bonito e me parece que ele envelheceu bem. Só que perguntar isso a ele, em meio a tantas coisas, parecia quase um demérito, como se a repórter estivesse falando – Ok, você diz coisas muito interessantes sobre pessoas e relacionamentos, mas quem é você para apontar certos erros se você também é vítima da vaidade. Ele respondeu que era sim vaidoso, como tantas pessoas o são e dentre muitos outros defeitos. Ele só questionou porquê a vaidade dele deveria chamar mais atenção e ser digna de nota, qual a necessidade que querer confirmar que ele é sim, vaidoso e humano.

Em termos de humanidade, também penso no meu amigo e editor do blog Livros e Afins, o Alessandro. Não posso falar sobre o seu passado e sobre suas decisões, o que sei é que hoje ele deixa muito claras algumas de suas escolhas. Ele defende formas de amor mais livres, curte mulheres de botas e se encanta com a estética latex sado-masô. De um lado, poderíamos dizer: desnecessário deixar isso tão evidente, eu não tenho nada a ver com a vida sexual dele. Por outro, ele está sendo sincero, consigo e com os outros. Ele assume seus gostos e não se envergonha, mostra desde o início o que se pode ou não esperar dele. Acho provável que isso faça com que os que pensam igual se sintam ainda mais livres perto do Ale. Ninguém pode alegar que iniciou um relacionamento com ele sendo iludido ou enganado. Quem achar chocante, feio ou doentio, faz um grande favor em se afastar logo. Eu não compartilho os gostos do Alessandro, mas reconheço a honestidade do gesto.

Também tenho os meus defeitos. Tenho muitos anos de blog, o que torna fácil notá-los, tanto pelo que disse quanto pelo que omiti. Mesmo que não enumere, mesmo que alegue coisas que eu não sou, dá pra entender muitas coisas a meu respeito nas entrelinhas. Aqui estão registradas minhas ambições, meus problemas de relacionamento, minha dificuldade em negociar, minha total inconstância profissional. Tenho sido também acusada de narcisismo, de não suportar críticas, de imaturidade e de superficialidade. O que posso dizer é que abraço todas essas críticas. Pior: não apenas sou tudo isso como nem ao menos tento mudar. O que somos muda muito pouco durante os anos – ou quem sabe nem mude. Eu conquistei um certo equilíbrio. O que eu não entendo, tal como Gikovate, é o porquê de uma preocupação tão grande com os meus defeitos. São meus, meus, interferem na minha vida. Eu nem ao menos opino sobre a vida dos outros. Quem não suporta meus defeitos pode simplesmente se afastar, pra quê mais do que isso? Não preciso ser mais do que sou, menos ainda o que outros querem. Viva e deixe viver.

Os lindos

As pessoas mais inábeis na vida em sociedade, que eu conheço, sempre foram os lindos. Algumas vezes nem são tão lindos quando os conhecemos, são apenas muito bonitos. Ou seja, um resquício da beleza original, da época que foram indiscutivelmente lindos. Quando eu digo indiscutivelmente, falo daquela lindeza unânime, sem esforços, que atrai olhares em todos os ambientes, que mesmo quando nos desagrada não conseguimos negar. Geralmente são pessoas de olhos claros, porque nesse país onde quase todo mundo têm olhos castanhos ou pretos, ter olhos claros já é meio caminho pra ser considerado lindo. As mulheres, de preferência, são loiras – e para valorizar ainda mais seus atributos, deixarão o seu cabelo sempre longo. Você vê mulheres de cabelos crespos, castanhos, ondulados, pretos, ruins ou lisos fazerem todo tipo de experiência e cortes radicais, menos as loiras. Porque para elas o seu cabelo é como um patrimônio tombado, algo intocável, parte fundamental de uma lindeza que elas não pode abdicar nem por alguns meses. Os lindos, sejam eles homens ou mulheres, crescem em meio a elogios, pais orgulhosos, pessoas que se atiram aos seus pés e sempre lhe dizem Sim. As roupas lhe caem bem, os óculos lhe caem bem, os aparelhos não atrapalham em nada, até o desleixo os deixa charmosos. Eles não precisam se esforçar pra agradar, aprender a contar piadas, ser o confidente da turma, tirar as melhores notas ou qualquer um desses recursos que as pessoas menos favorecidas pelos deuses da estética fazem. Para eles, basta estar e sorrir.

Só que todos esses recursos que a gente aprende para compensar a falta de lindeza servem de alguma coisa. É raro encontrar um lindo que saiba ouvir, puxar um bom papo ou descontrair um ambiente. Muitos deles são – não tem como definir melhor – completos idiotas. Burros, incultos, sem noção, desagradáveis. Só sabem falar si mesmos, só sabem agir em proveito próprio. Quando o tempo passa e o lindo deixa de ser a criança fofinha, a pessoa mais popular da turma ou o gostoso do ambiente de trabalho, o estar e sorrir pára de fazer efeito e resta apenas o egocentrismo.

O defeito

Não é todo mundo que sabe disso, mas os lados direito e esquerdo do nosso corpo não são completamente simétricos. Nem poderiam ser, se levarmos em conta que fazemos a maioria das coisas com um lado só. Reparando bem, é sempre o mesmo pé que se incomoda com sapato, sempre o mesmo lado do soutien que precisa ter a alça ajustada. Eu sei de longa data que minha panturrilha esquerda é maior do que a direita até mesmo pelo uso – sempre tive mais equilíbrio do lado esquerdo do corpo, enquanto o direito é mais ágil. No ballet, dava para perceber claramente que eu ficava muito mais tempo em equilíbrio em ponta ou meia ponta sobre a perna esquerda do que sobre a direita. E de certa forma, dançar acentuou ainda mais essa diferença.

Foi justamente na época que eu fazia ballet que começou a moda de galochas, ou “rainning boots”. Eu ficava o dia inteiro andando com uma mochila nas costas e quando chovia era um horror. Eu era obrigada a levar umas três meias, porque meus tênis sempre molhavam. Eu não conseguia usar a única bota que tinha no armário, porque ela tinha salto e me cansava muito. Por isso eu tinha tudo para querer uma dessas galochas, que além de tudo eram lindas e coloridas. Mas o meu lado do contra detesta seguir modinhas, e eu resisti tanto que quando resolvi comprar não consegui mais. Primeiro porque meu número tinha acabado, depois porque passou a estação e depois porque passou a moda. Rodei a cidade inteira e não achei. Passei meses olhando tristemente as vitrines à procura de uma galocha perdida.

Até que um dia encontrei. Era uma loja pequena e toda estilosa. Na vitrine, três galochas lindas: uma de quadrinhos, outra de borboletas e não lembro da terceira. Elas estavam caras mas eu já tinha o dinheiro separado, ia pagar à vista e levar. Entrei confiante. A vendedora me ofereceu a do mostruário, um pé direito 36. Não lembro se ficou certinho ou se ficou um pouco folgado, o que sei é que pedi pra ver dos outros dois modelos. Ela me trouxe uma, que ficou boa no pé, mas ficou apertada na panturrilha. Depois aconteceu o mesmo com a outra bota. Pedi uma numeração maior, que ficou enorme em todos os sentidos. Não dava pra entender porque só o primeiro modelo tinha dado certo. Estava quase levando a primeira bota, até que me dei conta de que com aquela eu havia experimentando a perna direita e com as outras a perna esquerda. Quando finalmente experimentei os dois pés, percebi que todas ficavam confortáveis na paturrilha direita e apertadas na panturrilha esquerda. Tudo por causa daquele um ou dois centímetros de diferença entre uma panturrilha e outra. Elas eram lindas, eu tinha dinheiro, tinha o meu número e eu não pude comprar. A vendedora, ciente de que havia trazido várias botas à toa e perdido sua comissão, me falou:
– O ruim é que você nunca vai conseguir comprar uma bota de cano alto por causa desse defeito na perna que você tem.

Pior que eu estava tão chateada que nem tive forças pra dizer que defeito na perna é a mãe.