Sem troco para vinte reais

troco

Eu havia visto a discussão de manhã e passei muito tempo pensando nela. Depois voltei de ônibus e parei no tubo da frente e ainda eram as mesmas cobradoras. Quando eu já estava na rua, elas me pediram pra voltar. Eu achei que iam me pedir pra ser testemunha. A história do antes: uma moça tentou passar com uma nota de vinte reais de manhã cedo e a cobradora disse que não tinha troco. Quando eu fui pegar ônibus, vi uma moça fora do tubo mexendo no celular e paguei minha passagem. Entraram mais dois ou três. A cobradora disse para a moça que agora ela poderia passar, porque tinha troco. Dali a pouco chegou a mãe. A moça histérica, dizendo que “agora ela disse que pode”. A mãe mais grossa ainda, falando que pagava quatrocentos reais pra sei lá onde a moça ia e tinha que chegar 7:30h. Que faria a cobradora pagar. Que era a obrigação dela ter troco. Que a filha traria vinte reais todo dia naquele mesmo horário e ai dela se não tivesse troco. Um dos moços do tubo até gravou a briga e disse que postaria no FB. Quando o ônibus chegou, ouvi a mãe dizer: “eu nem ia falar nada, mas o meu marido é policial”. Ainda foi com um “nem ia falar nada” quando eu saí, mas depois soube que ela completou: “sabe como policial é louco, uma hora você pode levar um tiro na cara”.

De manhã cedinho, por causa de uma adolescente mimada, a cobradora do tubo foi ameaçada de morte.

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As ilusões armadas

elio gaspari

Eu nunca fui do time que achou que não existiu ditadura, eu fui criada numa casa onde se ouvia Chico Buarque e se explicava que eram músicas de uma época que não se podia falar abertamente, que notícias eram substituídas por receitas de bolo, que pessoas sumiam e reapareciam “suicidadas”. Por isso, nunca senti necessidade de ler sobre a ditadura. Mas estou sempre lendo alguma coisa, e passo por períodos maníacos que leio, vejo e pesquiso tudo possível sobre o mesmo assunto. Meus interesses me levaram sem querer à década de 50, e me vi fã de toda aquela época. O Brasil bombava como destino turístico chique, bombava com bossa nova, mandava Carmen Miranda pra fora, descobria o samba da melhor qualidade dentro, construía Brasília, recebia grandes pesquisadores. Era tudo tão legal que eu quis saber porquê deixou de ser tão legal, o contraste entre aquele Brasil de 50 e o Brasil que eu nasci que sempre se odiou era muito grande. Fui pela lógica: se era assim em 50, a resposta está em 60. Foi aí que eu caí no período militar. Escrevi no FB: amigos, o que devo ler para entender o golpe de 64? Foi assim que cheguei ao As Ilusões Armadas, a série de 5 livros de Élio Gáspari. Achei os 4 primeiros na Biblioteca e o último volume teve que esperar pela compra do Kindle.

Os livros são interessantes, bem escritos, consistentes; a série é um clássico, basta ver as críticas. Durante a leitura me aconteceu algo que jamais havia me acontecido na vida: eu passei a ter pesadelos, como se eu visitasse os locais. Lembro do pior deles, logo depois de ter lido sobre o Araguaia. Havia uma pessoa que iam matar, mas saiu uma ordem que cancelava. Acho que ele era enfermeiro. Lembrem-se que na época não existia celular, se a pessoa não estava do lado de um telefone, não tinha como avisar. Era uma questão de tempo – haviam saído atrás dele, outro saiu para tentar avisar que não era mais pra matar. Nos pesadelos, eu sempre chegava no local e não havia ninguém lá, a violência já havia acontecido e as pessoas foram embora. Mas o chão estava cheio de sangue. Poça no lugar onde a pessoa morreu, marcas do corpo que foi arrastado. A dor, os gritos, a violência. As paredes se lembravam e eu sentia tudo mesmo sem ver.

Nunca quis ser “especialista” em ditadura, li o livro pra mim, gosto da dura verdade. Existem muitos motivos que levam as pessoas a negar que tenha havido ditadura, ou que foi um preço necessário, ou que não foi tão violenta assim, ou que só foi violenta com uns poucos ou que mereciam. Acho que o que há de pior ao estudar este período é olhar o mal tal como ele é – o mal não precisa de Diabo, ele é humano e pode foi institucionalizado com cartilhas, especialistas e contracheques.

 

Nada será como antes

Old and Broken 1970s Television Set

Amiga conheceu um homem no Tinder. Tudo indo melhor do que a média dos outros encontros. Logo de início, ela se definiu como de esquerda e ele falou vagamente que se desentendia com uma ex de esquerda. Quatro meses depois, quando estão realmente ficando firmes, ele revela que é eleitor Daquele. Amiga fica confusa e decepcionada: se ele sabia desde o começo que ela achava aquilo imperdoável, por que escondeu? O que isso revela sobre os valores dele? Outra amiga. Gay e que detesta política. A postura dela até enchia um pouco, “se está bom pra mim, o resto que se dane”. Ela se recusava a levantar qualquer bandeira, até mesmo a gay. Agora descobriu que muita gente que a aceitava, a considerava ótima companhia e profissional, não se incomoda nem um pouco em votar em alguém que já declarou que “as minorias devem se render à vontade da maioria, ou deixar de existir”. Ela agora se pergunta até que ponto a aceitam mesmo, se ela só é útil agora mas, se acontecesse alguma coisa, ninguém se importaria o suficiente. Isso para falar apenas das coisas domésticas – teve página rackeada, jornalista intimidado, organizadora de evento que apanhou, mentiras deslavadas. Quem não tretou com a família e não rompeu amizade de anos por causa de política, discutiu em grupos de whats e pelo Facebook, tentou converter estranhos e alternou momentos de esperança com desespero, não viveu o 2018 no Brasil. Olha o ridículo que é todo mundo, sem precisar combinar, inventar apelidos porque apenas escrever o Nome atrai violência. Assim como tem gente que não vai na manifestação #elenão por medo.

Por méritos quase que exclusivos da própria campanha, a vitória que era dada como certa parece que não vai se concretizar. Mas depois de tudo, a vitória #elenão será uma vitória sobre terra devastada. Ainda não sabemos o que fazer com o que vimos das pessoas que nos cercam.

Não veremos

muro pichado

As pessoas me chamam de radical às vezes. Eu nasci em 63, um anos antes do Golpe Militar. E na minha juventude não tinha um muro pichado, não tinha essa bagunça que vemos por aí. Hoje eu tive que arrancar as flores que tinha na frente da minha casa porque estavam escondendo droga dentro delas.

A crise que vem com a idade é complicada. Os que passaram a vida inteira lutando para serem ricos e família margarina, podem se descobrir vazios, que lutaram para comprar anúncios na TV e por opiniões que no fundo não interessam. Quem viveu de puro idealismo vê o mundo tão ruim quanto, ou talvez pior, num quarto e sala com as contas atrasadas. A vida é uma só, nunca temos todas as informações necessárias, partimos das condições que nos foram dadas quando nascemos, não conseguimos prever nem a metade da consequências dos nossos atos. É difícil.

O que eu tive vontade de dizer pra funcionária da padaria que me disse a sentença do primeiro parágrafo, antes do cliente seguinte nos interromper, naquele dia que pudemos conversar um pouco mais porque o Brasil estava perdendo pra Bélgica, é que eu nunca vi essa juventude que ela viveu. E, independente do candidato que se eleja – falávamos de eleições -, continuarei sem ver. Mesmo que vença o mais radical deles (desconfio que é quem ela gostaria), que promete descer bala em todo mundo que sair da linha. No fundo, o discurso radical me parece de um tremendo idealismo, alguém na sua explicação de mundo é sempre mais limpo e justo do que os outros – a polícia vai nos proteger, o exército vai acabar com a roubalheira, pessoas realmente éticas vão nos governar. Do mesmo modo que nós temos escolhas de vida e elas nos determinam, um país também tem. Não existe gesto capaz de corrigir décadas de decisões – décadas quando pensamos em biografias pessoais, séculos quando países. Não existe órgão ou pessoa incorruptível capaz de separar o bom e o ruim para nós. O ideal é que o marginal tivesse tido oportunidades o suficiente para não ir para o crime, mas não podemos voltar no tempo e agora temos que lidar com esse ser humano formado e violento. De certa forma, é possível dizer que não há salvação. Existe o possível, e acredito que nossas décadas de erros passam justamente por esse desejo de milagres.

Solidão

Eu gostaria de dizer alguma coisa, mas não há nada de novo a ser dito. Quando quis começar a usar cremes, para ficar com a pele mais uniforme e jovem, meu irmão me falou: você me vê pesquisando anos pra avançar um tiquinho, acha mesmo que a cada ano a indústria cosmética consegue desenvolver um efeito inédito? Não há nada de novo na pele, nada de novo no processo de envelhecimento. Não há nada de novo na minha forma de ver, nenhum conselho sobre o mundo e as pessoas. Não há um único conselho que não soe antigo. Livros de história, com séculos de conselhos nas entrelinhas. Vontade de colocar Lennon e McCartney cantando de branco. Ou cristianismo, papa Francisco. Apelar para empatia, humanidade. Quem sabe o vídeo do ponto azul, de Carl Sagan, pra soar mais científico. Eu não tenho encontrado o que dizer e as pessoas à minha volta também não têm encontrado o que dizer. Mas saber que há outros tristes dessa mesma tristeza me dá uma luz fraquinha de esperança. Por isso vim aqui dizer isso, que se você que me lê se sente triste agora: eu também.

 

#Mariellepresente

O novo

dicas-para-seu-cachorro-ser-mais-saudavel

Se hoje não tem quase nada perto de onde eu moro, quando eu me mudei tinha menos ainda. Havia dois pequenos comércios aqui perto e já fecharam: um mercadinho (onde eu comprava ovo) e uma sorveteria. Eu passei duas vezes na sorveteria. Era uma casa simples, com um pequeno balcão na garagem. A gente passava pelo jardim e era atendido por uma senhora. O preço era bom, mas o sorvete é de uma marca bastante popular aqui e muito dura, e acho ele tão ruim que prefiro não tomar sorvete a ter que pedi-lo. Quando um dia passei na frente e não tinha mais placa de sorvete, não liguei.

No inverno, tenho que fazer toda uma manobra com a Dúnia. Ela se tornou friorenta com os anos e por causa dos pelos não se pode deixar cachorro com roupinha o tempo todo. Imagine como isso é complicado quando a temperatura está perto de zero graus há dias. Eu acostumei a Dúnia a me deixar tirar a roupa dela pelo menos pra passear e mudo o trajeto para passarmos no sol e ela se expor um pouco ao cálcio. Num desses passeios, encontrei numa esquina a senhora que vendia sorvetes. Ela não lembrava de mim. Ela me contou que fazia um bom dinheiro vendendo sorvete em casa, que tinha um cliente que vinha de carro todo final de semana comprar pelo menos uns dois potes. Um dia ela atendeu dois adolescentes e no dia seguinte eles vieram para assaltá-la. Estavam marmados. Levaram o pouco dinheiro que ela tinha, potes de sorvete e por pura maldade atiraram no vira-latas dela, que era calminho e estava no seu canto. A parte do cachorro foi que realmente acabou com ela. Depois ela até tentou vender sorvete com o portão fechado, mas aí a clientela ficava com vergonha de bater, e ela mesma já tinha perdido toda alegria. Ela caiu em depressão com a morte do cachorro. De vez em quando, pra não ficar doente, ela se obrigava a andar na rua e pegar sol, exatamente como estava fazendo naquele momento.

Carnaval 2018. Depois de uma segunda chuvosa, terça eu consigo levar a Dúnia para passear. Normalmente passamos ao lado de um grande muro, para não atiçar os cachorros do outro lado da rua. Mas, mesmo assim, eles estão latindo muito. Olho na direção deles e eles estão latindo para alguém passando perto deles. A pessoa vai se aproximando e vejo que está com um cachorro. Se aproxima mais e vejo: um filhote lindo de morrer, branquinho de pelo curto e uma mancha marrom num dos olhos. Ele é agitado e feliz como apenas os filhotes de cachorro podem ser. E quem o leva é a senhora do sorvete, feliz da vida. Ela acena pra mim e diz: “Temos que levar nossos bebês pra passear, né?” Não consigo dizer de outra maneira: Deus abençoe que deu aquele lindo filhote a ela. É a vida que renasce.

Em fuga

É como estar no Eu sou a lenda.  Ver gente que eu achava legal – e diria até que com um esforço consciente pra ser mais legal do que sua posição de classe dispõe – achando que “até que não é má ideia” as diversas violências que tem sido legalizadas nos últimos dias está muito difícil. Conhecer gente nova? Eu não duvidaria nada que o galã bem nascido espancasse o flanelinha com a maior naturalidade na saída do jantar. Porque, pelo menos no discurso, as coisas estão assim.

Tenho tomado doses cavalares de Miguel Araújo.

Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

Trinta

Trinta homens. Uma moça.

trinta

 

Por Marina Ferreira, no Facebook.

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores:http://glo.bo/1TZ6Ej0

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília:http://bit.ly/1NQpoVc

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte:http://bit.ly/1qMl4Lu

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho: http://bit.ly/1P19Wpq

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!”
‘Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia’:http://bbc.in/27UhJvG

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!”
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR:http://glo.bo/1THnB47

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada: http://bit.ly/1Z3LEM4

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo: http://bit.ly/1WnjCgw

Nenhum homem é uma ilha

Um amigo escreveu sobre o suicídio, colocando-o como um direito inalienável. A raiz do seu argumento era bastante simples: a vida é minha e faço dela o que quiser, inclusive terminar. Tão simples quanto limitada, ingênua. Eu não o respondi, assim como não fui numa palestra sobre drogas, donde era quase certo que de algum canto surgiria o argumento: o corpo e a vida são meus, então eu tenho o direito de estragá-los como quiser. Não fui porque nesse momento não resistiria em pegar o microfone e me expor para explicar que Não, que o drogado não tem o direito de encher o seu corpo do que quiser, mesmo que ele nem abusasse – o que me parece impossível – do acesso aos seus parentes quando começasse a bater o desespero. Os acontecimentos políticos mais recentes trouxeram à tona o problema do Golpe de 64 e a tortura – afinal, aquelas pessoas mereceram? “Eles só eram jovens idealistas na aparência, na verdade eram comunistas perigosos“. Minha resposta é um redondo NÃO, sob todos os ângulos. Ressalto aqui apenas um motivo, o mesmo que usaria para falar do suicídio e das drogas: nenhum homem é uma ilha. O que se faz a um indivíduo afeta o seu entorno. No mínimo, o sujeito tem uma mãe. A morte, a subtração ou o sofrimento de uma pessoa nunca é apenas ela e suas escolhas, suas consequências – tudo vai respingar no seu meio, tornar infelizes aqueles que se importam com ela, interromper a trajetória de muita gente. Não é apenas egoísta pensar que tudo bem se eu estiver confortável e feliz, mesmo que sobre bases sangrentas  – é ilusório.

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Somos muitos

“Eu acho que quando você me deixar no terminal vou a pé pra casa ao invés de pegar ônibus. A noite está muito agradável”. Foi o que bastou pra deixar a minha carona preocupada. Eu já havia feito isso antes, com a carona dela e outras, só nunca havia falado. É que das outras vezes a decisão de andar havia sido meio impulsiva; desta vez eu contei porque me pareceu meio ridículo acenar como se fosse entrar no terminal e sair andando escondida. “Numa hora dessas, tem certeza? É perigoso, pense bem. Qualquer coisa, me liga. Ou entra no ônibus. Melhor não, pense bem”. Já na sexta-feira à noite seguinte preferi fazer aquele mesmo percurso de ônibus. Estava sentada perto da porta 4, coisa que evito, especialmente quando escurece. Dito e feito: num determinado período do trajeto, a cada parada entra um por detrás – um catador de latinhas, um casal estranho, um mendigo, outro mendigo. Meu desejo, nessas horas, é apenas que alguém com cheiro ruim não fique perto de mim. Já li que pessoas que não comem carne têm olfato mais apurado, e nessas horas sou inclinada acreditar que é verdade. Fedidas ou não, as figuras estranhas foram para seus lugares, desceram nos seus pontos, seguiram suas vidas. E eu, a pé ou de ônibus, voltei tranquila para minha casa.

 

Eu sei que deixo as pessoas que me querem bem preocupadas. Por elas eu estaria sempre dentro de um carro, nem que esse carro fosse um táxi. Se tento argumentar, pareço ingênua perto da violência está nas ruas, nos jornais, nas estatísticas, nas armas de fogo, no uso do crack, no machismo. Porque o que eu posso falar é disso, da caminhada, da noite, dos ônibus. Nunca estou sozinha nesses lugares, somos muitos. Estamos nas ruas, nos ônibus, nos parques, de dia e de noite, nos lugares bonitos e feios, seguros e perigosos. Alguns estão belamente vestidos enquanto outros fedem, mas ninguém ouve falar de nós. Eu e essas pessoas nunca quebramos as janelas dos ônibus, não arrancamos cadeados, não batemos nos outros. Às vezes fazemos de conta que não vemos a velhinha, porque naquele dia não estamos muito a fim de dar o lugar, ou não recolhemos o cocô do cachorro, mas nem por isso estar ao nosso lado é perigoso. Olhamos meio torto, é verdade, aquele bêbado fazendo escândalo ou o louco falando alto, mas também acolhemos e tentamos ajudar quando alguém está passando mal ou precisando de uma palavrinha. Quem já precisou contar com a solidariedade de estranhos sabe que isso é verdade. Existe sim aquele que sai no jornal, que vandaliza e faz mal aos outros, que sozinho é capaz de estragar o dia e a vida de um monte de gente. Ninguém sai pela rua querendo encontrar com ele e esse encontro pode nunca acontecer, mas mesmo assim somos todos contaminados, parece que é sempre. Para quem só frequenta “os melhores”, o mundo parece um lugar bipartido e quem não tem carro pra se isolar necessariamente não é “de bem”. E como diz aquela tirinha dos Malvados… Quem anda pelas ruas e pelos ônibus quase nunca o faz por opção, mas acaba tendo o privilégio de desmistificar algumas coisas. O terrível medo do outro é uma delas.

Cobrador-amigo

Assim que assumiu um horário no tubo em frente à favela, o traficante local já foi falar com ele, dizer que ali era o seu ponto, que os seus protegidos deveriam passar sem pagar. O cobrador disse que também não era assim, que não podia ser tudo liberado porque ele é um empregado que tem que responder a uma empresa. E pra qualquer coisa que acontecia no tubo sempre tinha um olheiro, fosse um pessoal que fica lá rondando ou até mesmo dentro das casas da favela. Eles queriam que todo mundo que entrasse no tubo com mercadoria já fosse automaticamente considerado um “cliente”, ou seja, roubado. O cobrador foi contra, disse que com os amigos dele não podia. Aí quando chegava alguém – “Também esses burros compram ventilador, TV grande, aquecedor e vai pro tubo na frente da favela. Por que não pegam um taxi?” – e o cobrador sabia que os olheiros já se agitavam todos. Ele falava discretamente pra pessoa: “Oi, chega aqui perto de mim, vamos bater um papo” e trazia a mercadoria para junto de si, só liberando quando o ônibus chegava. Os que entravam na onda eram poupados – o olheiro passava, dava uma olhada e ia embora. Com os antipáticos a coisa era muito rápida: um entrava pela porta aberta ou pulava a roleta do tubo, pegava a mercadoria e jogava para outro esperando do lado de fora e ambos saiam correndo.