Sistema cérebro espinhal

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O ideal seria não se importar com nada. Olha para a transitoriedade das coisas e não se magoar. Ser indiferente à solidão ou ao estar acompanhado, abrir e fechar empresa com como se estivesse com a vida ganha. Mas se eu conseguisse tudo isso, seria Buda e o que estaria fazendo na frente deste computador. Não sou feliz o tempo todo, mas já vi que qualquer postagem deprimida me incomoda, como se reforçasse, por isso evito. Mesmo com tudo muito hard, não tomei remédio, não faltei um único compromisso e não estourei nenhuma conta; o que ouvi foram queixas de que não me deixava ser ajudada porque não me abria. É verdade, sou muito mais a que ouve os problemas – não gosto do efeito Panic Button da maioria das pessoas ao ouvir confidências. Já tive que deixar claro pra amiga que não é que esconda coisas dela e sim que não dou importância, deixo pra lá e não permito minha mente ir pro assunto. Sou como o sistema cérebro espinhal: quase todos os assuntos são recuperáveis e negociáveis, menos LÁ. Restringi meu eu a poucas relevâncias, o que na maior parte do tempo é ótimo. Posso dizer que meu estado de espírito preferido é o estável. Mas aí recebi um e-mail, quase por engano, que passou raspando, e entrei em colapso, frágil como um castelo de cartas.

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Cores do mundo

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Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

Curtas de etiqueta

Passei na loja no dia e horário mais agitado, e pretendia comprar meu produto escondida e sair correndo. O dono me viu e achei que ele colaboraria com meu intento, com a justificativa perfeita de que havia muita gente. Mas aí ele me acenou animado, como nos velhos tempos, me perguntou o que eu queria, pegou pessoalmente, terminou de me atender. Acho que lhe desejei Feliz Ano Novo, e ele disse que era muito cedo, eu não voltaria lá em um mês? Disse que provavelmente não, que… Então ele deu a volta no balcão e “então pra não correr o risco me dê agora o abraço” e lhe dei um abraço que me deixou com o perfume dele impregnado na roupa. Tive vontade de perguntar se ele enlouqueceu, se ele se lembrava do quanto foi frio nas últimas muitas vezes que passei lá. Vai ver que ele decidiu que depois de três anos eu não merecia mais ser punida pela separação. Vai ver o ex passou lá com a noiva. Vai ver que queria se mostrar pra alguém. Sei lá.

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Sigo por princípio esta citação de Hamlet:

Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade. (ato II, cena II)

… e tenho confundido as pessoas nesses nossos tempos rudes. Eu gosto de tratar bem, ouvir confidências, tenho uma memória de elefante a respeito do que as pessoas me contam, gosto que minhas interações sejam o mais leves e agradáveis para ambos. Aí quem reserva seu lado agradável apenas para quem ama, interpreta minhas atitudes como declaração de amor. Só se for amor pela humanidade.

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Sou uma fã nova de Bob Dylan, nova e solitária, porque passei a gostar sozinha lendo um livro. Então eu não sei se, como fã, eu tenho que gostar mais dele cantando do que qualquer outra pessoa. Se tenho, jamais serei alçada ao clube. Este desconhecido, por exemplo, que adorável!

Nas nuvens

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De vez em quando me parece que eu, só eu, sinto as nuvens, a elevação espiritual, a vida maior do que o cotidiano mesquinho. Os outros são os outros e não sabem as alturas que alcanço. Mas aí eu lembro que você também se trancam ouvindo música. É, somos todos.

Essa barra que é gostar de você

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Pode não ser verdade, pode ser pura desculpa para nossa incompetência, mas a gente sai de Curitiba e se diverte, fica popular, olhado nas esquinas, nos acham inteligentes e capazes. Aí a gente volta pra cá e o telefone não vibra, todas as nossas iniciativas morrem em nuvens e ninguém dá nada pela gente. Tô falando no coletivo porque conheço alguns casos. Tinha uma colega de faculdade que aqui não era ninguém, e quando foi para Floripa virou quase uma embaixadora informal. “Então vai embora!”, diz o curitibano com raiva cada vez que falam mal da cidade dele. Curitiba também tem uma característica estranha de prender as pessoas aqui, como se fossem tentáculos. Costumo dizer que aqui é meio ilha de Lost. A cidade prende e a gente vai ficando, ficando, meio odiando ficar e meio reconhecendo que as ruas são limpas, as pessoas são educadas, a privacidade é um direito. São detalhes, nada que nos faça escolher um lugar, mas que no conjunto melhoram muito a vida. Dia desses me dei conta que se realmente a cidade me largasse – “vai, te liberto desse carma!” – eu já não saberia pra onde ir, ficaria com medo de não gostar: e se eu não gostar de andar nas ruas e onde compra alho poró, lá tem uma boa biblioteca? O amor por Curitiba brota devagar, sem que você perceba, como quem de repente se dá conta que sente falta do tio e sua piada do pavê.

Um problema de

“Também, você é muito difícil, eu levei meses puxando papo até você começar a falar comigo”. Eu não respondi nada, porque na verdade aquilo não foi porque eu sou difícil. Tá, eu sou difícil, mas não tão difícil. No caso dela, assim como no caso de outras pessoas, eu tinha uma reserva, uma intuição, que me impediam de querer a sua presença. E minhas intuições quase sempre se mostram verdadeiras. Assim como existem os casos contrários, pessoas que não me fizeram nada e que já amei logo no primeiro contato. Tem umas amizades que são construídas, mas tem aquelas que mais parecem um lembrar do que um começar. Para citar uma, apenas um exemplo – porque se eu começar a falar de quem é assim, posso dar a entender quem não é -,  tem a Silvia. Nem eu sei explicar minha afinidade com ela. Mais nova, curte metal, flauta doce, boxe, tatuagem, rochas. Aparece em Curitiba uma vez a cada três anos, me avisa, ficamos algumas horas juntas e é como se fosse minha vizinha. E não é que com ela eu tenha conversas que eu não tenho com ninguém, não somos confidentes nem nada, é normal. Mas, sei lá, vou demais com a cara da Silvia.
Então eu vejo que posso gostar demais da ficha de um sujeito. Posso amar suas ideias, suas camisas, seu avatar, seu Instagram. Os amigos em comum podem falar que ele é ótimo, nosso senso de humor é parecido e temos tanto em comum. Sua escrita pode ser fenomenal e sem erros de português, os seus livros podem ser os meus livros. Vai ver que, como nos filmes, a gente só não tenha começado porque ele costuma sair dos lugares minutos antes de eu entrar. Mas mesmo assim pode não ser. Eu preciso sentar – de pé é mais desconfortável – diante dele e olhar nos seus olhos. Ele pode ter tudo e ao mesmo tempo não. Ou pode não nada e sim.

Dois curtas de plateia

Não é sempre que estou na plateia de um espetáculo de flamenco do início ao fim; geralmente, eu danço um pedaço e depois assisto. Descobri que faz uma diferença imensa. Estar na plateia me fez sentir o que a gente acaba perdendo quando só vai se apresentar: subimos num palco com medo, como quem está na frente de muitos juízes, e quando é o contrário. A plateia, salvo exceções, está lá com a melhor das intenções. As pessoas não saem de casa na torcida pra que o som não funcione, o músico com os dedos machucados e que os bailaores tenham brancos, tremam, saiam chorando. A gente quer que eles estejam na sua melhor disposição, inspirados e que mostrem tudo o que sabem. Porque assim é melhor pra quem assiste. Quando a pessoa estava claramente nervosa, me dava vontade de falar – Ei, calma, não faz assim! Dá cá um abraço, relaxa!

 

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O pessoal pessimista de Frankfurt tem suas razões quando diz que há uma emoção no ao vivo que se perde muito na hora da reprodução. Eu senti algo tão interessante que quero contar. Duas apresentações de flamenco, com duas grandes bailaoras e as duas foram ótimas. Só que com a primeira, eu me senti exausta. Virei para as amigas que estavam comigo e disse que no dia seguinte iria me inscrever na aula de dança do ventre, que aquele negócio de flamenco não é comigo. Elas também, disseram que iam dançar outras coisas. Aquela bailaora com seus passos complicados, sua facilidade, seus pés limpos, e até mesmo sua juventude e beleza, deixou muito claro o quando somos pobres mortais, que nunca chegaremos aos pés de tudo o que ela é e faz. Depois entrou outra. Dançou bem, difícil e tudo mais, mas o efeito sobre nós foi oposto. A nossa sensação não era de esmagamento, e sim de estar junto, era como se cada um estivesse naquele palco também. Quando terminou estávamos todas felizes, pra cima, o dia havia recomeçado. Nada foi dito em palavras, nada havia de diferente em termos de domínio de palco ou técnica. Mas arte é assim, ela passa por um lugar diferente e mais poderoso do que a mente.
Adoro La Lupi, acho ela muito figura. Se você fica impaciente com o cante, ela entra em 2:59.

Um certo ar, uma certa cobrança

Uma ou outra dança é feita por alunos, com o objetivo de ter a vivência de tablado, o resto é dos profissionais. É na parte dos alunos que eu me encaixo. Cinco anos e duas escolas depois, eu sou conhecida o suficiente para saber o nome de todos, mas não o suficiente para termos uma história em comum. Fui uma das primeiras a chegar; sentei no chão e me maquiei na frente do espelho enquanto os outros vinham se arrumar também. As pessoas chegavam, se cumprimentavam, perguntavam das novidades. Os meios de dança costumam ter (não encontro o termo preciso. Bourdieu deve saber) uma valorização, um ar de juventude, felicidade e extroversão. No flamenco, claro, menos jovem do que no balé, mas ainda mais de extroversão. Uma coisa de chegar, sorrir, tirar fotos, falar alto. Sou tímida e não bebo, então minha contribuição costuma ser, no máximo, rir do que assisto. Naquela noite apresentação dos meninos, e como se pode esperar, são quase todos gays assumidos. Eu circulo, faço um comentário aqui e outro ali, vou pra fora com os fumantes sem fumar, como um pedaço de bolo, participo de várias conversas e nenhuma. Talvez pareça, pros meus outros amigos, que faço doce quando falo que não danço bem, mas no meio dos bambambans vejo claramente meus limites. Dias desses um cara que fez flamenco comigo deu uma festa e convidou vários “flamencos”. Soube daquela forma chata: “você vai na festa hoje?” “Festa?”. Alguns convidados trocaram menos palavras com ele do que eu, mas todos tinham em comum o fato de serem grandes bailaores. Não sei com que grau de justiça, ele me colocou naquela turma dos “nunca serão”, logo, pra quê puxar meu saco. Sou daquela turma que se não errar tá bom, que se propor a dançar tá bom, que já tem um “parabéns!” engatilhando assim que a gente sai do palco, porque já fez muito em apenas estar lá. Quando já estava quase na hora de entrar, todo mundo arrumado, maquiado e flamenco, fazem uma roda, ligam a câmera, todos somos convocados pra cantar e bater palmas. Não sei a música, não sei o porquê e nem pra quê, mas somos todos amigos, flamencos, nos bastidores, e ninguém pode ficar de fora. A câmera ligada, todos juntos, participativos, e minha colega de palco sussurra: “Estou me sentindo um peixe fora d´água”. Como eu a adorei naquele momento! Só então eu percebi o quanto me sentindo deslocada por não ser tão jovem, feliz e extrovertida quanto deveria.

Tarde demais pra ser sozinho

“O que você está fazendo comigo?”, eu me queixo. Me queixo das longas caminhadas, do livro na bolsa, dos cafés solitários, da programação esdrúxula dos cinemas, de falar com estranhos. A agenda em branco que aceita qualquer anotação. Ganho as ruas sozinha na ilusão de que ninguém me vê, mas estou mais para um rei que pensa estar nu. Eu não deveria estar lá, em nenhum desses lugares, mas estou. Sou uma desabrigada no meu coração e atraída pra qualquer lugar com calor e luz. Subo a gola do casaco, escondo os braços nas mangas longas para esconder as chagas, sorrio. Alguns homens são tão bonitos e seus carinhos tão distantes. Aperto a minha própria mão e comento comigo mesma o que me agrada. Tudo me emociona e dói e choro de maravilhamento, de medo, de Mônica Salmaso, de surpresa, de agradecimento. Não suporto olhar pro passado, não consigo pensar no futuro. Será que um dia alguém voltará a me amar, com todas essas cicatrizes? Olho para o horizonte e as árvores que já estavam lá quando nasci e continuarão depois que eu morrer. Os dias se tornaram longos e os meus sentimentos imprevisíveis. “Odeio tudo isso: os estranhos, as mudanças, as caminhadas, tudo”. Mas eu continuo, eu preciso.

Portas

Nunca mais somos os mesmos depois que abrimos certas portas. Para algumas, existe limite de idade. Quem não se tornou esquizofrênico depois dos vinte não se torna mais, não existe esquizofrenia mais velha. Os sintomas se desenvolvem muito cedo, no início da idade adulta ela já está lá. Eu não conseguiria mais gostar de bebida alcoólica; me proibi durante a adolescência e hoje poderia até tomar, mas seria sem prazer. Os não-fumantes podem sentir o cheiro de qualquer fumaça sem sentirem nada mais do que incômodo, enquanto ex-fumantes lutarão. Já li que fumar não deixa de ser uma certa yoga, que o prazer do fumante é o prazer do controle sobre a respiração. Depois que li isso, me convenci de que o fumo me conquistaria facilmente se tivesse pelo menos tentado. É muito diferente se abster de fumar do não ter noção do que é fumar. Culpa da porta. Já que citei a yoga, os livros místicos costumam ser bastante duros com relação ao sexo. Ok, tem o kama-sutra, mas não confunda variedade de posição com variedade de parceiros, just for fun. Hoje a leitura que faço do assunto é muito mais relativa às portas do que moralismo. O sexo é uma porta poderosa demais, difícil de ser controlada, até mesmo diminuída. Adultos já enlouquecem com ela; penso no problema que é pra alguém muito novo. A porta do sexo pode ser de tal forma poderosa que impede a descoberta de outras portas. Drogas, idem. Porque, do mesmo modo que algumas portas se abrem facilmente, para outras precisamos nos empenhar: bons livros, meditação, contemplação da natureza, estar em contato com a arte. E a disciplina também é uma porta – os disciplinados entenderão o que quero dizer.

 

Eu não queria ter lembrado, eu não queria ter feito contagem regressiva, eu não queria de certa forma estar revivendo tudo. Mas estou. Sempre achei desnecessário quem relembrava o aniversário de datas trágicas, de ficar guardando o dia que pessoas queridas morreram. Bem. Estou fazendo um ano de divórcio e tenho lembrado e fugido. Nesse meio tempo descobri uma porta imensa de dor e não quero voltar lá.

Dois curtas sobre dois

O Inter 2 (Ligeirinho) funciona que é uma beleza, já a linha Interbairros 2 (Convencional), quando atrasa, atrasa muito. Aquele aviso dos horários de ônibus fica parecendo político em campanha. Você chega lá e diz que o próximo ônibus chega em cinco minutos. Quando passa os cinco minutos, aquele horário sumiu e o próximo chega em quinze. E quinze minutos depois, some e chega em vinte. Os horários vão sumindo tanto que é comum ele pular uns quatro ônibus e a gente ficar lá mais de quarenta minutos esperando. Desculpe se estraguei os sonhos de vocês com relação ao sistema de transporte de primeiro mundo de Curitiba. Já foi.

 

Eu vou psicologicamente preparada. Já saio cedo de casa e com livro. Se o ônibus atrasa, leio no ponto; se adianta, leio antes da aula. Outras vezes opto por não ler nada e sim pensar na vida. Mas por mais que eu me prepare, não esteja cansada, não me atrase com o atraso do ônibus, seja tranquila e ame a minha vida, não consigo ficar imune. O ponto vai enchendo, todo mundo suspirando de raiva, as pessoas olhando para os horários, os relógios. É físico, dá pra sentir a irritação preenchendo o ar. Quando o ônibus chega, já estamos todos fartos, com vontade de matar a mãe do motorista. Isso é apenas a contaminação num ponto de ônibus. Pense nisso em relação à vida.

 

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Não vou contar quem ou em que série, para não ter que colocar um alerta de spoiler aqui. Contando apenas o que interessa, a cena era assim: ela estava no trabalho, esperando um cliente. Um homem surge na porta e ela já vai se apresentando: “Oi, Sr. Fulano, eu sou Fulana, Beltrano está atrasado para a reunião mas podemos começar sem ele, etc”. Aí surge Beltrano, com o verdadeiro cliente, e só aí ela percebe que o Homem que entrou pela porta não é quem ela esperava. Aí começa um diálogo onde ela diz que ele que a enganou, ele lhe responde que não poderia se negar a conversar com uma mulher daquelas e lhe convida para sair, comentários, sorrisos, brincadeiras, saída e amor. Uma graça de cena, um verdadeiro balé: cada um respondeu da maneira que sentia que deveria responder momento, e que foi sem querer a melhor resposta para gerar no outro também sua melhor resposta de aproximação. Aí de um encontro curto, que tinha tudo para não gerar nada, as coisas foram crescendo em progressão geométrica de afeto.

 

Saudades disso, desse balé, dessa naturalidade. O oposto disso é conhecer alguém muito bem e ter sempre a sensação de andar sobre o gelo. Querer muito e não conseguir expressar, ou expressar da maneira inadequada. Os gestos ficam por fazer, o outro lhe diz o que te deixa mais inseguro, e você quando responde parece também gerar o que há de pior. Tudo para dar certo e as coisas não andam. Não andam e nem devem andar.

Algo melhor

Eu estava esperando o segundo ônibus da noite. Eu sabia que ele demoraria porque quando cheguei no terminal, a bordo do primeiro ônibus, vi meu outro saindo. Como quase sempre, tinha ganhado carona até um pedaço e vim conversando. Aí corri e peguei o primeiro ônibus. Quando sentei e me vi sozinha, meu primeiro pensamento foi para macarrão pronto na geladeira e fiquei feliz. Geralmente não tenho sobras e toda volta pra casa é a mesma coisa, de ter que me virar com alguma coisa. Não pude deixar de pensar que isso mostrava o quanto eu estava adaptada à minha vida solitária, ficar feliz por saber que teria uma janta quentinha. À minha esquerda lá no terminal, já à espera do segundo ônibus, um casal de adolescentes arrulhava. Ele brincava com ela, que dizia a todo instante “ah, não faz isso comigo!”, e depois se abraçavam. Nada melhor do que um abraço numa noite fria. Eu não tenho mais abraços disponíveis, mas eu estava bem agasalhada. O que me incomodava era o collant. Nunca visto aquele collant e fui resolver testar justamente no dia que iria emendar duas aulas de flamenco. A pressão do elástico na minha virilha estava me matando. Primeira providência ao chegar em casa: trocar de roupa. Segunda: macarrão. O ônibus surgiu no horizonte e as pessoas se aproximaram. Aí na minha frente surgiu um homem. Ele usava fones de ouvido, barba, umas roupas moderninhas. Devia ter a minha idade ou menos. Meu condicionamento já tende a eliminar esse tipo de homem; desde que me entendo por gente, sempre me relaciono com os mais velhos. Ali, de canto de olho, ele me pareceu bonito. E quando aquele homem bonito, moderninho, mais ou menos da minha idade ficou perto de mim, eu desejei. Não foi um desejo racional, foi algo que surgiu do fundo da minha alma, quase uma prece. Eu desejei algo melhor. Desejei o mesmo arrulhar daquele casal adolescente, porque sinto em mim uma capacidade de amar adolescente. Desejei um homem que estivesse disposto a amar o flamenco porque eu amo o flamenco, que visse a beleza que isso é na minha vida. Desejei que esse homem fosse leve e colorido, tal como aquele na minha frente, que tentasse não se levar tão à sério, porque eu não me levo tão à sério. Que ele não visse tantas coisas que eu conquistei – a capacidade de fazer amigos, o amor à cultura e a arte, o carinho e a solidão – como um empecilho. É tão cansativo lidar com a insegurança dos outros. Eu desejei superar meus padrões e não mais escolher baseada nas minhas inseguranças. Eu desejei amar e ser amada. Sem joguinhos, disputas, gelos, cabos de guerra. Desejei que ele tivesse pressa de estar ao meu lado; achar que as coisas estarão sempre disponíveis é uma ilusão. A vida anda em FF e amanhã pode ser tarde demais. Enfim, eu desejei algo melhor. Mais, muito mais do que me oferecem.

My heart is broken in a million pieces

Ligia,

Naquele dia, quando nos encontramos, eu já estava retomando o fôlego para, mais uma vez, me esquivar do assunto separação. Eu tinha enfrentado duas semanas de fugas, e antes disso enfrentei tantas outras. Meus amigos vinham, pessoalmente e por mensagem, dispostos a ouvir. Que eu reclamasse, que eu chorasse, que dissesse tudo. E eu me recusava. Quando estou triste, minha vontade não é a de falar, e sim de voltar para o meu casulo. Posso te dar várias explicações pra isso, que vão desde não gostar de ser vista como uma pessoa pesada, como achar que falar aumenta ao invés de diminuir as dores, da minha criação…há pouco ouvi até uma explicação astrológica, a de que nós, os geminianos, somos assim. O fato é que eu já não gosto, e para o nosso primeiro encontro, de uma amiga virtual que nem era tão próxima assim, eu estava pronta, para mais uma vez, vestir a máscara da conversa social.

 

Assim que me encontrou, você disse que havia descoberto há pouco tempo que eu havia me separado, porque eu demorei a dizer isso com todas as letras no blog. E antes mesmo que eu tivesse tempo de desviar do assunto, você começou a me contar da tua separação. Uma vez nós quase nos encontramos em Curitiba, nós duas ainda casadas, mas eu estava com viagem marcada para o Festival de Joinville e aquele acabou sendo um mau momento e não nos vimos. Pelos meus cálculos, não foi muito depois do nosso quase-encontro que você se separou. E que foram justamente esses anos de instabilidade e luta pessoal que fizeram com que você às vezes emergisse e submergisse entre os meus contatos, de maneira que a nossa amizade não encontrava meios de se aprofundar.

 

Você me encontrou com distância o suficiente de quem havia superado aquele mesmo inferno, mas não tão longe a ponto de não se lembrar. Eu vestia um casaco que minha tia havia me dado de presente, porque não havia levado roupa o suficiente pra São Paulo. Era uma parca verde escura em estilo militar, uma combinação de três itens – parca, cor verde, estilo militar – que não tem nada a ver comigo. Mas eu a usava sem preconceito nenhum, porque eu apenas carregava as roupas como se fosse um cabide ambulante. E você sabia como era isso. Naquele dia te achei tão linda, e nada parecia denunciar que você também andara por aí feito zumbi. Meu rosto estava chupado, minhas calças despencavam, eu havia emagrecido uns cinco quilos no espaço de alguns dias. Comer não passava de uma obrigação. Você me contou que também havia perdido o sabor dos alimentos no começo. E que quando o prazer de comer voltou, deu até uma engordada.

 

Eu já te agradeci por essa conversa, lembra? Eu já te falei o quanto ela foi importante para mim. Você me contou das tuas muitas paixões pós-separação, todas enlouquecidas, todas frustrantes, todas desproporcionais. Que você sofria pelo fim delas e também pelo fim do casamento, que ao invés de curar as dores, os novos relacionamentos cavavam buracos maiores. E no meio a tanta coisa, tantas idas e vindas, tantos choros, homens complicados, falta de esperança e não saber onde colocar o amor, foram uns dois anos para finalmente conseguir um equilíbrio, um relacionamento bacana. Coincidência ou não, minha terapeuta me deu um prazo semelhante: dois anos. Dois anos pra realmente estar recuperada e conseguir ser inteira antes de me relacionar com alguém.

 

Retomo agora nossa conversa porque me vejo, novamente, como você descreveu. Decidi por um fim a um relacionamento que vem me sugando há semanas. Nem vou te falar dele; ele é um homem sem rosto, tal como o marido do Lanternas Vermelhas. Ele é alguém em quem projetei coisas. Ele é um homem que apesar de me conhecer bem, e de ter todos os elementos pra me achar uma mulher maravilhosa, não acha. E eu estava tentando provar que sim. Consegue imaginar coisa mais triste? Ainda não tenho clareza o suficiente para descrever onde começa a loucura de quem, o fato é que estava doendo. Antes dessa história, eu vinha me sentindo tão ótima, tão recuperada, tão pronta pra tudo – até mesmo para coisas de que nunca fui capaz, como me envolver sem me envolver. Aí vem essa história e me diz: lembre-se da Ligia.
Hoje penso novamente em você e novamente me sinto grata. Lembro de você tão linda e tão bem, me falando do teu longo caminho, que também seria um pouco do meu caminho. Você me deu perspectiva. Me falou das feridas e da cura pela homeopatia do tempo. Essa minha recentíssima ex-relação era algo que eu precisava viver para aflorar alguns medos que, graças à você, tenho certeza de que são normais e que vão passar. “Não faz nem um ano que eu me separei!”, digo a mim mesma, “está tudo bem”. Há menos de um ano, meu coração estava partido em um milhão de pedaços. Como um soldado levando os companheiros nos ombros, eu consegui juntar os caquinhos e passar por coisas quem olha não adivinha. Mas ainda tenho mais trabalho pela frente. Ainda tem mais o que limpar, ainda tem mais o que aprender, ainda tem mais o que acolher.

 

Catástrofe

Não consigo nem expressar o que sinto com o filme Mad Max – além da cúpula do trovão. Ele passava na Sessão da Tarde quando eu era pequena e me deixava apavorada. O argumento de um mundo onde ter gasolina fosse essencial me parecia totalmente convincente; então, eu comprava todo o resto. Eu tinha medo de, na minha vida adulta, ter que estar sempre suja, em auto estradas e quem sabe até ter que lutar numa arena. Tina Turner vestida daquele jeito me marcou para sempre, aquela pra mim era ela. Nunca vi e nem nunca vou ver esse filme inteiro, não é algo racional. Ele traz à tona um medo infantil muito básico.

 

Talvez seja por Mad Max o medo que eu tive durante muitos anos do problema do petróleo. Aprendi que o petróleo é formado ao longo de tanto tempo que nem dá pra medir, assim como não dá pra esperar que a terra produza mais. Então, um dia nosso petróleo acabará e com ele todos os seus derivados, dentre eles a gasolina. Como faremos sem gasolina, como sairemos do lugar, o que fazer com tantos carros? Digito isso e já sinto minha respiração se alterar um pouco. Um dia, acho que no final do ano passado – vejam, recentemente – eu vi um longo documentário sobre combustíveis alternativos. Tem até carro movido a ar. Minha preocupação com a humanidade sem petróleo, alimentada durante tantos anos, deu lugar à indignação: dá pra ficar perfeitamente bem sem petróleo, a indústria automobilística é que não tem interesse nisso.

 

O que me faz lembrar de uma pesquisa que um sujeito fez no século dezenove, preocupado com a quantidade enorme de fezes que os cavalos gerariam no futuro. Ele fazia uma projeção das pessoas andando cada vez mais de cavalo, e o quanto cada um deles geraria de cocô e… vocês já entenderam o ponto.

 

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Numa escala muito pessoal, tenho dito continuamente a mim mesma: respira, está tudo bem. Às vezes eu me apavoro, outras vezes tudo está da melhor forma. Surgiu na minha mão um surto alérgico que eu não tinha desde que morava com a minha mãe, antes de casar…

Algo

Não sei se a Dúnia gostava de ficar em caixa de papelão ou embaixo do armário da cozinha porque ela ficou numa caixa antes de ser adotada. Ela foi abandonada numa caixa em frente à uma pet shop, e pra ela não estranhar, nos primeiros dias aqui ficou numa caixa também. À medida que ela ia crescendo, as caixas “cresciam” junto, e desconfio que ela se adaptou muito rapidamente à casinha por causa desse hábito. Quando ela vivia dentro de casa, na parte debaixo, seu lugar preferido, o lugar onde ela buscava privacidade, digamos assim, era embaixo do armário da cozinha. 
Quando a Dúnia foi castrada, a veterinária avisou que ela passaria alguns dias “chatinha”. Eu não fazia ideia do que seria esse chatinha. Eu lembro de estar em cima, vendo TV, e ouvir uma choradeira da Dúnia embaixo. Eu descia as escadas e ela estava escondida na cozinha. Eu a chamava, ela vinha de cabecinha baixa e rabo abanando. Só que logo depois de receber carinho, ela se afastava e latia pra mim. Aí eu entendia que ela queria ficar sozinha, subia, e dali há poucos minutos ela começava a chorar de novo. A cena se repetia muitas vezes.
Neste instante, eu me sinto igualzinha.

Disputar atenção

Alguns adultos têm efeitos mágicos sobre as crianças. Lembro de uma ou duas professoras no primário, coincidência ou não, a magia era maior quando eram professoras substitutas. Elas iam embora e nos deixavam com gosto de quero mais. Outro era o tio da minha vizinha, a quem todas as crianças chamavam também de tio. São adultos que não apenas gostam de crianças, sabem lidar com elas com o carinho e a autoridade necessária, mas também conseguem se fazer parte da turma, conseguem deixar sua presença tão especial que lembramos deles pelos restos das nossas vidas. Como todas as crianças, eu os amava, os admirava, tinha vontade de estar com eles. Aí acabava a aula ou o tio da amiga ia embora, e o roteiro se repetia: todas as crianças os cercavam, querendo colher o último minuto de atenção, arrancar a última promessa, cobrar o último pedido, garantir que seu nome era significativo. E enquanto eu olhava todas as outras crianças disputarem atenção, eu me afastava. A disputa por atenção gerava em mim dois sentimentos antagônicos e muito fortes. De um lado, eu sentia uma imensa insegurança. Olhava aquelas crianças e me convencia de que era mais uma, apenas mais uma. Tinha certeza de que seria atendida de forma burocrática, que arrancaria conversas vazias, de que ele se esqueceria de mim mal eu virasse as costas. Então eu nem ia. Minha outra certeza é de que eu não era todo mundo, que eu não disputaria atenção. Ou eu era realmente amada e marcante ou não era. Eu é que não iria mendigar atenção de ninguém.

A gente roda, roda, roda, e não muda.