O vampiro pianista

vampiro no piano

Já tentei me dedicar a diversas modalidades artísticas, chegando a ser mediana ou boazinha em algumas. De tudo o que eu fiz, acho que a que eu consegui alcançar um nível melhor é a escrita. E a escrita comprova a impressão cada vez mais forte que eu tenho de que a arte é muito uma questão de tempo. Hoje consigo nos meus escritos uma fluidez e um humor que não conseguia antes, mas, pensem bem, o antes tem quase quatorze anos! Talento existe, e como existe – você vê a pessoa muito talentosa começar a fazer aula quando você é veterano, no ano seguinte vira seu colega de classe e depois segue adiante. Mas se você é formiguinha, insistente, TOC e/ou sem noção o suficiente para insistir apesar de aprender muito lentamente e ter dificuldade de expressar, acaba conseguindo alguma coisa. Esta sou eu, e minha alcunha exasperante de “esforçada”, porque esforço talvez seja o que me resta. Por isso que eu me pergunto se uma pessoa que não tivesse o problema do tempo, como um vampiro, e insistisse o suficiente para enfrentar as todas as barreiras, se ela pessoa poderia chegar à excelência artística. Uns vampiros poderiam demorar “apenas” cem anos e outros quatrocentos, mas eu acho que a resposta é um sonoro SIM.

(Acho que os diretores de filmes estão do meu lado. Fui procurar foto pra colocar no post e me parece que todo vampiro famoso toca piano)

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Extremo oposto

amigos mais talentosos

Hoje eu me pergunto se sempre foi tão impossível pra mim ter uma mente matemática ou se me falhou algo a mais, como aulas de robótica – um amigo colocou me contou que o filho lhe pediu pra fazer esta aula e achei incrível que exista. Sempre tive pra mim que matemática era a minha pior matéria mas, quando estudava em colégio particular, ela ser minha pior matéria queria dizer que eu precisava tirar 0,5 ou 1,0 para passar no quarto semestre, porque eu já estava passada em tudo no terceiro. Foi quando mudei para escola pública que degringolou, a física me caiu como impossível logo nas primeiras aulas. Mas, ainda assim, era apaixonada por trigonometria e gostava de voltar pra casa fazendo contas hipotéticas de logaritmo na cabeça.

Outra grande inveja minha é músico. Sempre tive pra mim que não os alcanço, que não ouço o que eles ouvem, que vivo num universo menor. Tenho um bom ouvido, sou afinadinha pra cantar, gosto de música clássica, mas não adianta, ninguém me convence de que eles não têm algo que eu não tenho. Minha impressão foi justificada quando li Alucinações Musicais – um livro incrível, principalmente pra quem for da área – e ele confirmou que o cérebro de quem estuda música desde criança se diferencia muito dos cérebros não-musicais.

Minha ideia pra uma encarnação posterior que realizasse o que não pude nessa é sempre foi que eu gostaria de nascer numa família que me colocasse diante de um instrumento desde cedo. De alguns anos pra cá, enfiei a matemática na fantasia. Ainda mais que música e matemática são bastante aparentadas, eno a fantasia ainda é bastante coerente.

Eu vi uma definição muito bonita sobre o auto-conhecimento; veio de um astrólogo, mas vale para tudo. Você nasce com algo na mão, digamos que um lápis. O que você precisa descobrir é o que fazer com ele. Você pode insistir em querer pintar uma parede ou esculpir uma pedra, mas se você usar o lápis para escrever ou desenhar, você vai muito mais longe na sua vida.

A vida é tão curta, então tem lógica que você descubra o melhor e vá atrás dele. Não me parece que a gente consiga fazer mais do que dois caminhos, quando muito. Mas, para além do que é fácil, existe também uma outra possibilidade: recusar o que lhe foi dado, fazer algo radicalmente distante. Por querer, para pisar em lugares desconhecidos de si mesmo. Até onde alguém que foi programado para A e B consegue se fizer Z?

(Às vezes lágrimas, amigos)

Malditos talentosos

talento

Um amigo meu, professor de faculdade, me disse que sempre entram no curso umas pessoas com muita dificuldade. Como se fosse eu tentando fazer engenharia. Que, para essas pessoas, alguns colegas dele estimulam que a pessoa vá para outro curso. Mais ou menos assim: você está indo tão ruim porque está no lugar errado, repense seus interesses, a sua aptidão é outra. Meu amigo não faz isso porque ele não tem essa fé. Ele diz que nada garante que a pessoa que está indo mal naquele curso vai se destacar em outro, pode ser que ela vá mal em todos os cursos. Porque tem gente que é assim, não tem? Pense bem, todo mundo conhece alguém que desempenha mal várias atividades. De artesanato a cálculo, lavando louça ou em vendas, a pessoa é muito ruim. Não digo que é necessariamente falta de capacidade, pode ser que ela tenha características de personalidade que tornem qualquer atividade muito difícil – não aceita ouvir opiniões, baixa tolerância a erros, falta de concentração, fazer tudo com pressa, péssima coordenação motora, desinteresse, etc.

Do mesmo modo, tem aquele que desempenha bem várias atividades. Se pegarmos aquela lista de características que listei acima e inverter, provavelmente estamos falando que vai desempenhar razoavelmente bem qualquer coisa. E às vezes é duro admitir isso. O mundo não está dividido entre os que se dão bem porque são puxa-sacos e superficiais, enquanto outros são esforçados em silêncio; entre os que projetam uma aparência de competência e os que realmente fazem um bom trabalho que poucos apreciam; ou – agora numa perspectiva bem feminina – aquelas que dão bola para vários homens e não ligam para nenhum e as mulheres realmente de valor que ninguém presta atenção. Tem sim gente que é linda, rica, competente, feliz e que merece o lugar que está. Concordo que são minoria, a minoria que todos desejam estar. E as nossas contingências de algumas áreas podem tornar o funil ainda menor – pense no que é desejar ser escritor num país como o nosso, que a média de livros não chega a cinco por ano. Se, apesar do desejo mais do que sincero, não somos o topo da pirâmide, que pelo menos não sejamos amargos demais por isso. Que a gente note o talento e diga “Oi, talento”, sem sentir a necessidade irresistível de desqualificar.

Jô e os mestres

jo-soares

Eu cresci vendo as entrevistas do Jô e via que não era apenas que umas entrevistas eram boas e outras nem tanto, mas que também para alguns entrevistados ele se derretia e outros não. Eu não entendia. Um era ator global fazendo sucesso na novela e o outro também, qual a diferença? Eu li uma historinha indiana, num dos muitos livros de filosofia oriental que li pela vida, que contava a história de dois mestres iluminados que eram contemporâneos, cada um com seu séquito de discípulos. Os discípulos se conversaram e arranjaram um jeito de fazer os dois se encontrarem numa cidade. Desvia o caminho de um e de outro e o dia finalmente chegou e as duas comitivas se encontraram. Os mestres se cumprimentaram carinhosamente, comeram juntos. Todo mundo reunido pra ver a que alturas chegaria a conversa e ela pairou em cima dos molhos, do quanto o pão era gostoso, essas bobagens. Depois do encontro, os discípulos perguntaram para seu mestre o que aconteceu, e as respostas foram: Ele alcançou o que eu alcancei, não havia para ser dito.

Eu via famoso e famoso e o Jô via talento em contraste com pessoa que está lá sem merecer, seja porque uma onda levou e já seria esquecido ou porque era parente de alguém. Toda área tem dessas; certos sistemas podem fazer os de fora acreditar que só ficam os que tem mérito, mas nunca se consegue manter a pureza de ter apenas os talentosos. Uma professora de faculdade de design me disse que, de todos os alunos do curso, talvez apenas 15% fossem realmente designers, naquela sentido mais puro do termo, da pessoa que tem pleno talento e amor pelo que exerce. “E quando essas pessoas estão no mundo, como encontramos os 15%?” Na maior parte das vezes só quem está na área sabe. Foi a Marielle que me fez perceber isso, que até mesmo reconhecer a grandeza é preciso ter olhar.

Mais de 10000 saltos horríveis

Não cheguei a comentar sobre isso nos posts que escrevi sobre o livro Outliniers (um post aqui e outro aqui). Não deve ser novidade pra quem é da área de educação. Lá fala que tem um estudo que diz que, por algum motivo, alguma questão estrutural do cérebro, são necessárias pelo menos dez mil horas de prática em qualquer para um ser expert. Aí o livro examina histórias de talentos que nos parecem precoces, como Bill Gates e Mozart, e mostra o que os tornou precoces aos nossos olhos foi o fato de terem juntado dez mil horas mais cedo do que os demais. Sobre Mozart, o autor até mesmo diz que as tais primeiras composições que ele fez quando era criança não passavam de colagens de músicas da época, provavelmente feitas com o auxílio do pai. Que as primeiras composições revelantes de Mozart são quando ele já tinha seus vinte anos, o que o torna até um músico de amadurecimento tardio (!!!).

Essa teoria me estimulou a tentar algo meio inédito: tentar fazer uma saída (aquele salto maledeto pra entrar na água) decente. Quem nada desde criança salta lindamente na água, parecem uns peixinhos voltando pro aquário. Quem começa a nadar depois de adulto dá vergonhosas barrigadas e/ou um salto sem impulsão. Como é frustrante, todo mundo deixa por isso mesmo. Eu me impus o desafio de fazer pelo menos uma saída por aula, geralmente faço mais. Será que um dia, na terceira idade, vou conseguir enganar os olhos mais treinados e parecer que aprendi a saltar desde criança? Aguardemos.

É só posicionar os pés, as mãos, a cabeça e sair. Valeu, Gustavo!

Camille

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Quem é fã de Camille Claudel geralmente detesta Rodin. Do ponto de vista de quem a adora, inclusive pelas acusações da própria, ele foi um monstro que sugou o seu talento. Não consigo ver a coisa dessa forma. Primeiro porque ela tinha esquizofrenia, o que é muito sério. Assim como não dá pra encarar a depressão como tristezinha que basta lavar uma louça, qualquer visão romântica sobre esquizofrenia cai por terra nos primeiros cinco minutos dentro de uma instituição psiquiátrica. Isso, por si só, já é bastante forte. Outro ponto importante é o fato dela ser uma mulher apaixonada. Levanto aqui todas as críticas ao modelo de feminilidade que arduamente construído, incucado na nossa cabeça, tão útil a eles e tão difícil para nós – falo da tendência feminina de largar tudo em prol do seu macho. Noto essa tendência em mim, nas minhas amigas, em todas as mulheres apaixonadas. O sujeito sabe muito bem o que quer, quais são seus desejos, seus objetivos, seu norte. A gente, fêmea pessimamente condicionada, também sabe, ou não sabe, ou sabe marromeno e nesse plano existe uma suíte bem bonita com um neon piscando Amor. Ele tem o dele e não abre mão; como a gente sente que ele vai e vai mesmo, acaba sendo o lado que cede o que for possível para manter a relação. Aí o que nos acontece? Camille.

Imortais

Se eu vivesse eternamente, como os vampiros, o que faria? Na época que gostava do tema – Anne Rice, novela Vamp, Drácula de Bram Socker, Crepúsculo… acho que toda geração tem seu vampiro referência – minha resposta era fácil: aprenderia piano. Tentei aprender piano, amava tanto e era tão ruinzinha. Não tinha nem vinte anos e já estava velha demais, não tinha mais tempo pra sonhar em ser concertista. Para isso, eu precisaria ter começado pelo menos dez anos antes, numa idade que nem seria eu a escolher. Se eu fosse vampira, poderia sanar a educação musical que não tive na infância. Que eu precisasse de vinte, trinta, cem anos pra finalmente conseguir fazer os meus dedos entenderem as teclas, eu o faria. Nessa mesma época eu também achava que até chegar a idade de eu ficar velha, a Ciência teria avançado o suficiente pra evitar isso – evitar que meus cabelos ficassem brancos, que o meu corpo perdesse a vitalidade, que meus hormônios diminuíssem. Não avançou, não avançará.

Já Borges, muito mais inteligente do que eu, imaginou os homens eternos como bárbaros entediados. Depois de experimentar todos os sabores e todas as experiências várias vezes, nenhuma mais teria graça.

A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. (O imortal/ O aleph)

Eu vejo o que o tempo e a prática faz em mim. A gente vai pegando o jeito, os cacoetes, absorve e aprende mesmo sem querer. Só de estar junto e de ouvir falar, de fazer de novo e de novo, vai se tornando outro, aumenta o repertório. Nesse ponto, continuo achando minha teoria corretíssima: com todo tempo do mundo, daria pra ser bom em qualquer coisa.

O talentoso é gente como Liniker, aquele que precisa de pouco tempo. É quem aos dezenove já tem a voz, jeito e projeção que outros levam décadas pra construir. Somos dois gráficos que caminham em direções opostas: uma expressão que cresce, uma vida que decresce. O desafio é o que se consegue fazer no intervalo.

 

Um post bem invejoso

Quem não via a Escolinha original pode ter pensado que o personagem do Zé Bonitinho era um dos principais. Não apenas não era – a rigor, não havia principais – como nem era assim tão engraçado. Eu era muito nova pra entender a ironia do personagem, e ficava meio irritada com ele. Apenas revendo a Escolinha eu me dei conta do quanto eu a assistia, de que conhecia cada um, e um programa que pra mim era puro hábito me deixou saudosista. Delícia rever Ademar Vigário, Rolando Lero e Pedro Pereira – inclusive vivo falando “há controvérsias” e tinha me esquecido da fonte. Aí quando vi Mateus Solano como Zé Bonitinho o personagem me apareceu como algo inédito, incrível. Desde que apareceu na TV, Solano tem se destacado em todos os personagens que faz, mas nunca havia sido tão claro pra mim o quanto ele é talentoso. Eu me senti como um dos atores escalados para a nova versão, com o desafio de imitar algo que já existiu e o sujeito vem e brilha daquele jeito. Esse é um “problema” muito comum no meio artístico: gente que tem tanto talento que nunca passa despercebido, que é capaz de fazer um excelente trabalho com qualquer coisa, que protagonizará mesmo com a menor das brechas. Chamei de problema porque é um problema para todos os que estão ao lado e não são tão bons, ou seja, 98% da população. Não é algo que se treine e nem se force, a pessoa simplesmente é. Eu não sou. Não sou assim no flamenco, na vida, em nada. Sou justamente o contrário: aquela pessoa que apaga nas multidões, que se chama atenção é por ser quieta demais, que leva anos pra mostrar suas qualidades. É o destino dos tímidos. Somos observadores, empáticos, sensatos, adequados, inteligentes, somos muitas coisas, mas brilhar desse jeito não é o nosso. Então quando vi o novo Zé Bonitinho, um lado meu não pode deixar de se render – e o outro ficou com raiva, com despeito, com inveja.

Dois curtas de plateia

Não é sempre que estou na plateia de um espetáculo de flamenco do início ao fim; geralmente, eu danço um pedaço e depois assisto. Descobri que faz uma diferença imensa. Estar na plateia me fez sentir o que a gente acaba perdendo quando só vai se apresentar: subimos num palco com medo, como quem está na frente de muitos juízes, e quando é o contrário. A plateia, salvo exceções, está lá com a melhor das intenções. As pessoas não saem de casa na torcida pra que o som não funcione, o músico com os dedos machucados e que os bailaores tenham brancos, tremam, saiam chorando. A gente quer que eles estejam na sua melhor disposição, inspirados e que mostrem tudo o que sabem. Porque assim é melhor pra quem assiste. Quando a pessoa estava claramente nervosa, me dava vontade de falar – Ei, calma, não faz assim! Dá cá um abraço, relaxa!

 

.oOo.

 

O pessoal pessimista de Frankfurt tem suas razões quando diz que há uma emoção no ao vivo que se perde muito na hora da reprodução. Eu senti algo tão interessante que quero contar. Duas apresentações de flamenco, com duas grandes bailaoras e as duas foram ótimas. Só que com a primeira, eu me senti exausta. Virei para as amigas que estavam comigo e disse que no dia seguinte iria me inscrever na aula de dança do ventre, que aquele negócio de flamenco não é comigo. Elas também, disseram que iam dançar outras coisas. Aquela bailaora com seus passos complicados, sua facilidade, seus pés limpos, e até mesmo sua juventude e beleza, deixou muito claro o quando somos pobres mortais, que nunca chegaremos aos pés de tudo o que ela é e faz. Depois entrou outra. Dançou bem, difícil e tudo mais, mas o efeito sobre nós foi oposto. A nossa sensação não era de esmagamento, e sim de estar junto, era como se cada um estivesse naquele palco também. Quando terminou estávamos todas felizes, pra cima, o dia havia recomeçado. Nada foi dito em palavras, nada havia de diferente em termos de domínio de palco ou técnica. Mas arte é assim, ela passa por um lugar diferente e mais poderoso do que a mente.
Adoro La Lupi, acho ela muito figura. Se você fica impaciente com o cante, ela entra em 2:59.

Expressão

Entre uma coreografia e outra, no Tablao de sábado passado, eu ficava assistindo os outros do fundo da sala, pra não atrapalhar. Lá, perto de mim, estava uma iniciante que dançou sevillanas, com o namorado. Os dois ficavam conversando, se perguntando quem era professor e quem não era e tal. Quando umas meninas estavam dançando lindamente uma coreografia difícil, a moça disse algo como “estou vendo como é que eu vou ficar daqui há alguns anos”. Lembrei de uma pergunta que eu fiz e vi outros fazerem várias vezes – a gente encontra alguém que dança bem e pergunta há quantos anos a pessoa dança. Aí a gente faz o cálculo – “se eu tenho um ano de flamenco e ele seis, então daqui há cinco anos estarei assim”. Hoje sei que é um pensamento bastante iniciante.

 

Pra alguns dá vontade de responder que nunca vão dançar daquele jeito! Mesmo porque a gente gosta, é claro, de se espelhar naqueles que dançam excepcionalmente bem. Existe um problema na curva aprendizagem, e acho que isso acontece com tudo, de que ela pode parar a qualquer momento. Claro, existe o básico, aquilo que com insistência e bons professores, todo mundo pega. Mas nem todo mundo chega a fazer as coisas mais difíceis, assim como nem todo mundo que escreve vira escritor ou todo mundo que faz curso de línguas sai falando igual nativo. E tem a parte da beleza, da expressão, que aí é mais impalpável ainda.

 

Olha, a cada dia que passa, parece que gosto menos de mim dançando, expressivamente falando. Estou fazendo coreografias mais difíceis e uns sapateados que há um ano atrás nem acreditaria que conseguisse. Mas tenho a consciência mais aguda de que o que realmente importa, aquela expressão artística única, não dá pra controlar, não dá pra garantir. Nisso, posso dar uma lista de pessoas que eu gosto mais. O que dá pra trabalhar é a técnica. Dá pra fazer o esforço, decorar a coreografia, contar os tempos, ouvir os conselhos. O nosso trabalho acaba aí. A beleza que puxa o olhar, que faz a gente não conseguir desviar os olhos daquele bailaor e não de outro, é de cada um. Alguns são mais belos e outros menos, e acabou.

Resposta. Ou melhor, não importa

Tenho me torturado faz tempo com a pergunta sobre ter talento. O que é o talento, o que é esse mistério que torna a mesma coisa diferente de uma maneira definitiva, que faz com que um seja comum e outro, do mesmo tema e material, ser inesquecível? Seria o talento inato, construído, melhorável, conquistável? É possível ter mais de um talento, amar sem ter talento, ter talento naquilo que não é a nossa vocação? Devemos fazer aquilo em que somos bons ou aquilo que amamos – e se o amor não vier acompanhado de talento? Qual a fronteira entre ser apenas bom ou ter talento? Posso formular perguntas desse tipo ad eternum, e é o que tenho feito. Meu cérebro é excelente perguntador, pena que não consegue resolver um décimo. Pessoa insegura que sou, temi muito pela minha falta de talento. Temi pela dança, por ter começado tarde. Há um mundo de ritmos, movimentos e expressões na minha frente. É a sensação de começar uma corrida quando seus companheiros já estão vinte voltas na sua frente. Temi por gostar de escrever e vocês, que me lêem, serem poucos e não me renderem nenhuma grana. Já pensei muitas vezes em postar aqui – “olha, vocês não me pagam e eu vou embora. Se tiver alguém aí que pode me contratar, faça logo senão não tem mais!” E não fiz porque sei que um amigo ou outro viria me pedir para não interromper o blog, que me amam e tal. Mas reconhecimento e dinheiro que é bom, que fazer. Não é assim que se conquista leitores, com base na chantagem emocional.

Aí você fica mal. Os dias de chuva te deprimem, os dias ensolarados são insuficientes e os problemas alheios batem no peito com tanta força como se fossem nossos. O noticiário se torna insuportável, os funerais de novela também, nos filmes repetidos você sai da sala no momento dramático pra só voltar quando tudo ficou bem de novo. Eu clamo – uma boa notícia, por favor, uma boa notícia! e isso tem o mesmo sucesso do sábio que percorria o mundo com uma lanterna à procura de um bom homem. Quando tudo parece uma merda, apenas duas coisas são capazes de impedir que eu me afunde: as aulas de flamenco e escrever. Então, já pouco me importa que eu nunca vá me tornar uma grande bailaora, que o meu tacón direito não soe e eu não consiga bater palmas sincopadas. Já não importa que eu não escreva nada permanente, nada que se destaque, nada que convença alguém a me pagar. Eu simplesmente faço. Minha existência é nula se não o faço. A conta é simples: se faço me sinto bem, se não faço morro. Se me dizem hoje que não tenho o menor talento para ambas as coisas, continuarei igual. Mais triste, mas continuarei. Que se dane. Quem sabe um dia eu acerto, quem sabe um dia eu fique boa, quem sabe um dia me paguem. Senão, continuo pagando eu.

Amargos

Você sabe como são esses velhos amargos. Eles nem precisam ser propriamente velhos, às vezes são apenas mais velhos. Olhando com hostilidade o novo que entra, apenas por ser mais novo, apenas por ter acabado de entrar. Quando mais entusiasmado o jovem, pior a reação. O velho discursará – em palavras ou só com o olhar – sobre já ter vivido e feito tudo aquilo. Ele já foi jovem, já foi bonito, já foi talentoso; ele já foi muito mais jovem, bonito e talentoso e olha só do que é que deu: em na-da. Hoje ele estava lá, um amargurado que nada denuncia sobre o seu passado brilhante. Esse velho torcerá para que o jovem naufrague em todos os seus esforços, porque é apenas isso que o mundo tem a oferecer aos que se esforçam. Talento? Ele já viu maiores. Ao invés de ser a luz que guia os mais jovens, ele será o primeiro a soltar um “eu já sabia”. Se o reconhecimento – esse milagre – acontecer, isso o deixará mais amargurado ainda, porque com ele não aconteceu e isso não é justo.

Eu fui olhada com esse amargor várias vezes quando era um jovem talento. Não tive apoio quando era “uma promessa”, o contato que poderia ter mudado minha vida nunca aconteceu. Via os que poderiam ter sido mestres para mim e me perguntava porque eles não me estendiam a mão, como podia alguém de tão alto se sentir ameaçado por alguém que estava apenas começando. Era como se eles não tivessem noção do que eram e onde estavam. Até o que o mundo me deu voltas e fios brancos. Na posição de mais velha e mais sábia, diante de alguns jovens talentos, desejei do fundo do meu coração que eles se ferrassem. Porque a segurança dos que nunca foram magoados me irrita; a certeza de que serão reconhecidos me dá vontade de frustrá-los. Percebi que estou ficando igual os velhos do meu passado, que ser generoso quando nos foram mesquinhos é muito difícil. Não escapei de crescer criando sombras e pontos obscuros. Preciso muito de algumas mudanças, para que a esperança que me resta não se transforme de todo em amargura.

clica que cresce

Ann x Chelsey

Ann ganhou o America´s Next Top Model. Depois de uma longa fase de choradeira, ela ficou determinada a ganhar e se recuperou. Quem disputou a final com ela foi Chelsey, que desde o começo se mostrou uma das mais competitivas. Chelsey era a única que já era modelo. Ela nunca ficava entre as últimas, mas também nunca ficava entre as primeiras. Ao contrário das outras meninas, Chelsey conhecia todos os grandes nomes, quem era cada fotógrafo, cada estilista. Ela sabia desfilar com confiança, – enquanto a Ann parecia um boneco desengonçado e assustado – sabia se dirigir às pessoas, e à medida que a competição se centrava menos em fotos, foi se firmando. Tanto que na final, Chelsey estava extremamente confiante. Tão confiante que ela não aceitou o resultado, porque ela era muito melhor preparada do que a Ann. E era mesmo. Ann ganhou tinha algo a mais.

Chupa Chelsey!

Dias depois, passou a final de novo e eu quis me deliciar revendo a vitória da Ann. Foi aí que aconteceu. Eu vi a vontade imensa da Chelsey. Ela estava sempre dizendo que desejava aquilo mais do que ninguém. Eu vi a sua determinação, a disciplina, o quanto ela estava sempre dentro do que era proposto. O que pedissem, a Chelsey fazia. Enquanto o desempenho da Ann alternava entre momentos brilhantes e péssimos, Chelsey sempre fazia certo, ela era a CDF das modelos. E o retorno disso era pequeno em relação a todos os esforços dela, porque sempre tinha alguém na frente. Aí eu comecei a sofrer pela Chelsey, porque me vi nela. Eu sou aquela que leva à sério, que chega mais cedo, que traz o conteúdo estudado, que faz extras. O que isso tem me rendido? O reconhecimento de que sou esforçada. Sou aquela que seria escolhida Se – sempre tem um Se. O esforçado é aquele que não apenas não tem sorte como sabe ela joga contra ele. Estou cansada desse pessoal que tem algo a mais, que se destaca só porque respira. Será que existe um mundo em que todos nós receberemos em proporção aos nossos desejos, ou as pessoas comuns estão condenadas a serem só esforçadas?
Eu te entendo, Chelsey.

A verdade dos números

Uma vez eu recebi o pedido pra recomendar aqui o blog de uma amiga. Ela achava o blog dela tão pequeno e o meu tão visitado (!?) que não custaria nada. Quando lhe disse que não faria isso assim, por fazer, que cito blogs quando a postagem deles tem a ver com a minha, ela se aborreceu. Deve ter achando egoísmo. Com um certo tempo de blogosfera a gente aprende que certas coisas não se pedem e existem muitos posts falando sobre isso. Eu poderia simplesmente ter copiado um desses links e passado pra ela, mas achei mais gentil explicar nas minhas próprias palavras. Não adiantou.

Não vejo essa questão de recomendar links pelo lado da educação e sim pelo fato de que não adianta muita coisa. Fazer alguém entrar no nosso site é fácil, difícil é fazer a pessoa voltar. De certa forma, cada um tem os acessos que merece. Antes de entrar na vida virtual, é possível alimentar algumas ilusões. A pessoa pode se achar um gênio, um grande escritor, alguém que tem muito o que dizer. Ou um stand up ambulante, com tiradas geniais para as situações cotidianas. Tem uns que se acham grandes exemplos de beleza que as agências de modelo não contratam por uma visão tacanha de mercado. Aí se monta um blog com o material do futuro livro, um perfil engraçadinho no twitter, fotos lindas pro orkut ou facebook. O número de acessos vai gradualmente subindo, surge um fã aqui e outro ali… mas a coisa não vai muito longe, ela não consegue milhares de acessos, nunca.

Eu vi várias coisas viralizarem. Eu vi A Banda Mais Bonita da Cidade, eu vi Nair Bello e Hugo Gloss deixarem de serem perfis misteriosos, passei a seguir o blog do Di Vasca porque chorei de rir com o post do gatinho. Por outro lado, quantos links meus não apareceram por aí? Falei da Clara Averbuck e ela mesma me leu. O Alessandro e o Milton sempre me deram a maior força, me recomendam aqui e ali toda hora. Meu número de acessos sobe quando essas coisas acontecem, e alguns leitores que chegam aqui por acaso acabam ficando. Mas o que escrevo nunca despertou tanto interesse a ponto de ser repassado o dia inteiro. O leitor concorda, pode dar um sorriso, mas não é algo “você tem que ler isso!” de centenas de pessoas. Acho bastante improvável que um dia isso aconteça, não é característico do que escrevo.

Acaba que a net nos diz de maneira clara o que somos, qual nosso nível de inovação, de que maneira atingimos o público. Não dá mais pra culpar as grandes corporações, achar que alguém maldosamente te impede de fazer sucesso, te esconde do grande público. Aqui não tem intermediários. O número de visitas, se não é proporcional, é sempre bem próximo da realidade que você representa. A partir dessas disso é possível tomar duas posições: mudar para conquistar mais público ou assumir que esse é o seu limite. Nem tudo nasce para se tornar uma potência e não há nada de errado nisso. O que não dá é se achar gênio incompreendido.

Mais treino, menos talento

Quando a gente olha o fruto final do trabalho, parece impossível chegar lá: um livro interessantíssimo, fouetés limpos, uma escultura tocante, uma ópera bem interpretada. Dizer que tudo isso é dom, não deixa de ser uma injustiça com quem fez: se por um lado é um reconhecimento do talento, por outro a gente desvaloriza as longas horas de dedicação, durante anos a fio, pra chegar àquele resultado.

A questão do talento é um tema recorrente pra mim, algo que me atormenta. Nascido ou adquirido? O fato é que, com raras excessões, tudo começa numa sala de aula. Começa com um professor, com exercícios, treino, decomposição o que no futuro será muito complexo. Existe uma adaptação de físico, de personalidade, de hábitos. Qualquer área é cheia de ritos de iniciação, pequenas batalhas, demarcação de espaços, limitações e disciplinas. Coisas que só se vivendo, no corpo e na alma, no contato com aqueles que passam pela mesma coisa. Com a admiração pelos melhores, a comparação com os medíocres, na luta com os medos internos. E com a passagem dos anos, porque algumas coisas precisam de tempo para decantar – por mais que na nossa época a gente goste de tudo pra ontem.

Depois de já ter vivido intensamente em mais de uma área, creio que na vida é possível aprender de tudo. Não estou dizendo ser famoso ou grandioso – mesmo porque esse tipo de ambição prejudica até mesmo os talentosos. Com bons professores, com dedicação sincera e humildade para pagar o preço, acho possível fazer de tudo um pouco na vida. É uma pena que tanta gente se conforme a uma janela quando existe o céu lá fora.