Chá

Foi assim: depois de comer pastéis na segunda noite seguida durante a semana, fiquei muito enjoada e mal conseguia comer. Então tomava café. Quando dei por mim, estava há quase dois dias à base de café, praticamente uma Balzac. Aí decidi fazer uma nova tentativa – nem sei quantas foram ao longo da vida – de me tornar uma pessoa que toma chá. Apesar da minha triste história com chá. Pra falar a verdade, há anos tomo chá socialmente, se a pessoa me oferece um daqueles bem especiais. Fui no super e comprei uns chás bons, misturados e especiais. Agora, principalmente à noite, quando me bate aquela sede que não deve ser saciada com café, leite já larguei faz tempo e refrigerante não bom, tomo chá. Todo dia rola chá aqui, tá bonito de se ver, estou quase uma inglesa. Só falta eu gostar. Boto fé que conseguirei, pelo menos não faço mais careta.

 

É por essas e outras coisas que vejo que cinquenta anos, cem anos, não são nada em termos de mudanças sociais. Opa, comassim o assunto foi de chá à mudanças sociais? Me explico: cinquenta anos não é nem uma geração, cem anos não chega a duas. O ser humano é um bicho resistente, determinado praticamente todo na infância, emperrado e burro, que leva a vida inteira pra mudar um hábito simples como aprender a gostar de chá. O que dizer de coisas mais graves, que incluem a necessidade de rever conceitos, aceitar as diferenças, fazer justiça aos acontecimentos? Nascendo de novo ou só nascendo novos.
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