Pela parede

ouvir parede
Eu sei que faz um ano porque foi na véspera do natal, mas parece realmente que foi ontem. Eu estava me enrolando para dormir, sentada no sofá, quando os vizinhos do lado começar a brigar. O quebra-pau foi tão grande e durou tantas horas, que o pessoal que mora no lado oposto deve ter ouvido também. Basicamente, a mãe havia fuxicado o celular da filha e descobriu que a adolescente e o namorado tinham conversas picantes. Ela gritava, dizia que tinha vontade de quebrar a cara da menina, que ela tinha de lhe dizer tudo o que fez com o namorado. Eu morri de pena. Minha vontade foi gritar aqui da parede: “olha, já que estou ouvindo tudo, quero dar minha opinião também”. A mãe levou como uma ofensa pessoal a filha estar numa idade cheia de hormônios e sentindo desejo pelo namorado. Conversei com várias pessoas – fiquei muito tensa – e elas foram unanimes em dizer que é pior negar e proibir.

Aí, na véspera do réveillon, teve outro quebra pau. Este não foi tão claro, era um griteiro que incluía, pai, mãe e filho. Parece que a mulher mexeu nas coisas do filho, que já é um homem e ajudava nas contas. Olha, a mulher não é fácil, já falei dela mais de uma vez aqui. Eu sei que pouco tempo depois pai e filho foram embora. Não sei como ela está, eu sei que do meu ponto de vista de vizinha ficou melhor. Se ela fica em casa chorando, é baixinho.

Esta mesma vizinha me lançou o olhar mais maldoso de todos os tempos quando eu me separei. Vocês não fazem ideia, o ar de vitória com que ela me olhou. Entre uma coisa e outra deve ter o quê, quatro anos? Agora que ela se separou, de um casamento que sempre foi péssimo, sempre teve brigas; o meu era silencioso e terminou antes, pacificamente. Não sei se ela se lembra do dia que me encontrou logo depois e estava claro que eu estava sozinha. Claro que lembra, o olhar deve ter sido apenas a ponta de uma iceberg de opiniões e comentários.

Por isso que às vezes eu penso no futuro, me preocupo, depois paro e abandono. Você vai estar isso, você vai estar aquilo, vai ganhar tanto, vai trabalhar não sei quantas horas – são apenas rótulos. Ela se sentia vitoriosa pelo quê, por ter um marido? Hoje ela deve achar que perdeu tempo, que eu que sabia o que estava fazendo e estou quatro anos livre na frente. Não importa a situação e sim você, seu sentimento, dentro dela.

Anúncios

De boas

capivara-com-outros-animais-1

Meu irmão mais novo sempre foi a pior pessoa para se brigar e me pego agora aplicando a mesma técnica que ele. Apenas que ele não brigava. Quando a gente briga com ele, é unilateral. Pra ele está tudo bem; ele não sente necessidade de ter nenhuma conversa séria pra esclarecer, assim como também não muda o comportamento dele. Pode parecer meio óbvio, técnica moralista exortando as pessoas a serem boazinhas, mas eu, que tentei durante muitos anos brigar com ele, posso atestar: é difícil pra caramba. Você não consegue sustentar a hostilidade durante muito tempo sem se sentir um idiota.

Curtas da gengibirra

GENGIBIRRA

… que além de ser o melhor refrigerante do mundo, fica (descobri recentemente) maravilhosa com limão. Se tivesse álcool, já teria que começar a comprar os brindes de Missão Resgate da vida (digam que no resto do país também se pede contribuição no ônibus para tirar as pessoas “do mundo das drogas e do crime”) pra saber onde me internar. E se eu fosse famosa, a Cini mandaria fardos mensais de gengibirra aqui pra casa, porque sou a maior divulgadora do produto deles.

.oOo.

Sempre achei que ter cabelo curto faria com que jamais me confundissem com evangélica. Mas fui. Uma foi sutil: o dono da academia que eu frequentava falava de brincadeira “queima ele, Jesus” e “Jesus, apague a luz”. Eu achava engraçadíssimo e non sense e adotei. Uma amiga próxima, espírita, que me conheceu lá, levou um tempão com medo do que dizia do meu lado. Acho que tinha fama de crente e nem estava sabendo. Não sei até hoje se quem achou que eu era por causa disso tem uma visão estranha de religião ou eu é que sou muito por fora do que os evangélicos falam.

.oOo.

A outra foi recentemente. Acho que por causa da crise, pipocaram os carros que vendem coisas aqui no bairro. Sempre ignoro o carro com ovos, perco todas as vezes o carro que conserta panelas, enquanto estava na dúvida o das tortas se foi, aí quando passou o dos salgados quase me atirei na frente dele. Tem sem carne? Presunto é carne. Não moça, salame também é carne. Aí ela me perguntou se eu era adventista. Que raiva que me deu, não se fala isso pra uma cliente que acabou de ser frustrada no seu desejo de se encher de fritura.

.oOo.

Não comentei aqui pra não dar zica, mas tive um semi-entrevero legal com o meu vizinho, por causa de um muro. Gastei com advogado e tudo, foi tenso. Mas, no fim, deu tudo certo. Aí tive que mandar fazer um teto pra cobrir a lage atrás, que estava vazando, e a obra nem começou e o cara se pendura no muro, indignado, achando que eu ia cobrir a área que até alguns meses estava brigando com ele para manter intacta. Depois, ficou um tempão dando pitaco no trabalho do pedreiro. “Teu vizinho é um chato, né?”, ele me disse no final do primeiro dia de obra. Nem me fale, queridão, nem me fale.

Vitória

Sabe aquela frase do Grande Sertão que todo mundo cita (até a Dilma usou na posse), que diz que o que a vida nos exige é coragem? É o que a elatem exigido de mim. Passei o mês inteiro chateada e atormentada porque tive que comprar uma briga. Como toda briga, existe sempre a opção de não comprar, de tentar se encolher até virar átomo e não não não. Mas eu percebi que me omitir me feriria muito, então fui adiante. Foram dias de dúvidas e gastos; tive crise de bruxismo, andei quilômetros sem destino, surtei no flamenco, enfim, fiquei um mês inteiro num estado insuportável. Mas fui, apesar de ter medo, de ter ouvido que era imprudente, que era arriscado, que eu não deveria. No fim – e só acabou realmente hoje – deu tudo certo. Mas não deu tudo certo apenas porque a questão se resolveu na direção que eu queria, deu tudo certo porque eu estava lá. Foi tão difícil, tão solitário e senti tanto medo. Aos trancos e barrancos, com outros problemas indo e vindo, o dia finalmente chegou. Naquela manhã, abri os olhos e soube que a questão estava ganha. Não que eu intuísse que o resultado me favoreceria, muito pelo contrário. A minha vitória era garantida porque a maior batalha tinha sido interna: eu dei ouvidos a mim e me arrisquei, apesar de todas as minhas inseguranças. Essa é a maior vitória que se pode desejar.

Eu não sei brigar

Acho que existem dois sentimentos meio excludentes com relação aos desafetos: rancor e vingança. Tenho notado que quem é vingativo tende a não ser rancoroso e vice-versa (das pessoas que são rancorosas E vingativas quero muita distância). Eu não me vingo e guardo rancor. Todos os meus desafetos acabam descobrindo isso. Não me dou ao trabalho de prejudicar e nem ao menos de sair falando mal – eu apenas me reservo ao direito de ignorar que a pessoa existe. Quando me perguntam, falo o que aconteceu, e se for o caso até ressalto que o outro tem suas qualidades – “veja bem, foi o que aconteceu comigo, mas profissionalmente ele é muito bom”, etc. Só que o que geralmente acontece é quem é amigo de ambos geralmente não quer perguntar. A pessoa vê, estranha, e eu deixo que estranhe. Resultado: tenho acumulado ao longo dos anos a fama de ser uma pessoa de trato muito difícil, que por qualquer bobagem eu corto as pessoas da minha vida.

Tenho descoberto que o que me falta é uma certa propaganda ou, em outras palavras, que eu sou é burra. Enquanto eu acredito que uma briga minha diz respeito apenas ao que aconteceu comigo e com o outro, alguns fazem disso uma publicidade muito boa para si. Elas escondem os seus erros, já se adiantam e criam uma versão dos fatos, fazem com que as pessoas jamais me perguntem algo que elas acham que já sabem o que foi. Eu, num misto de ingenuidade e orgulho, acho que quem me conhece deve ter senso crítico o suficiente pra não me reconhecer em certas atitudes. Sobre o que me fizeram, apenas eu e o outro saberemos; já os meus erros serão espalhados e aumentados ad infinitum. Se eu esperneasse, levasse a público e me vitimizasse, quem sabe fosse diferente. Agora vejo que não importa como e porque acabou, e sim a maneira como a história é contada. Os que agem como eu sempre são os vilões.

Pregui

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia patanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar, exclamava:

– Ai que preguiça!…
e não dizia mais nada.

Macunaíma/ Mário de Andrade
Essa sou eu, há algum tempo. Já fui de colocar os pingos nos iis, já fui de não levar desaforo pra casa, já fui vingativa. Hoje me retiro assim que posso. No mundo real, infelizmente, raramente é possível. Muita coisa só funciona no grito e eu grito. Já na internet… ah, minha gente, na internet o papo é outro! Vida virtual pra mim é for fun. Se começa a me aborrecer perde seu propósito. Pouco adianta me chamar de Covarde e dar fama de intolerante, radical e/ou mimada. Me viro para o lado e ajeito melhor o travesseiro. Porque eu já briguei tanto que já sei onde tudo isso vai dar: em nada. Ninguém vai mudar de idéia porque eu argumentei melhor, ninguém vai reconhecer que me ofendeu primeiro. Isso sem falar na máxima de Murphy, na qual acredito plenamente, que diz “nunca discuta com um idiota. As pessoas podem não saber quem é quem”. A única coisa que eu conseguirei é tornar meus dias um pouco mais pesados. Que bom que por aqui existem pessoas que acreditam e defendem as grandes causas – mulheres que protestam contra o machismo, ateístas que não se permitem serem acusados de causar violência, pessoas cultas contra a bundalização da cultura brasileira. Têm meu apoio. Vão lá, estarei aqui nas cobertas torcendo por vocês.

Com o pé esquerdo

É lugar comum, mas também é uma grande verdade dizer que a primeira impressão é praticamente definitiva. O problema é que nem sempre estamos preparados para a importância daquele primeiro momento. Podemos estar mal vestidos, imaturos, mal humorados, preconceituosos. Uma oportunidade de ouro pode ser jogada no lixo se não estamos preparados para ela. Quando nossa vida cruza com a de alguém, fazemos o que é possível fazer naquele momento. Não sou do tipo que maltrata velhinhos e chuta gatos, mas também nem sempre sou uma pessoa super-legal-e-disponível.

Meu irmão tinha um ex-colega de faculdade, da qual eu sempre ouvira falar. Ele escrevia bastante e tendia para a polêmica. Logo que comecei a visitar blogs, fui no dele porque era constantemente atualizado e fazia muito sucesso. Num dos posts, ele falou sobre um artista brasileiro. Eu na época trabalhava num atelier e eu e o artista em questão tínhamos um contato em comum. No blog, esse amigo do meu irmão falou um conjunto de lugares comuns, entendendo erroneamente que esse artista era um outsider, um louco, sendo que na verdade ele é pop e vende muito bem obrigado. Eu desci a lenha no post. O amigo me xingou, de maneira bem pesada e várias vezes. Por pouco não o processei. Sobrou até pro meu irmão, com quem briguei por não ter se posicionado a favor de ninguém.

Hoje eu tenho blog e sei qual é a sensação de ler um comentário ofensivo, do nada. Por mais público que seja, blog é meio como a casa da gente. Ninguém pode entrar xingando e achar que vai ser bem recebido. Eu, como mulher educada que sou, jamais xinguei um leitor. No máximo, excluí o comentário e/ou reclamei. Mesmo assim, entendo melhor a atitude dele. Hoje, ele não apenas ainda é amigo do meu irmão, como temos amigos em comum. Pessoas excelentes o adoram – sinal de que não é uma pessoa tão ruim assim. Quem sabe sem aquele post nós tivessemos nos transformado em amigos.

Política interna

Uma vez eu tive um amigo louco que andava muito grudendo. Aí escrevi sobre isso aqui, ele leu e deu piti nos comentários. Na época não consegui apagar e tive que apagar o post inteiro – o que foi uma pena, porque era um texto bem legal. Apesar do resultado positivo – porque o tempo provou que aquela amizade não valia a pena – desde então adotei a prática de jamais escrever aqui sobre alguém quando a coisa ainda está quente. Não por medo de perder amigos, mas sim porque certas coisas não merecem atenção.

Brigas podem se estender eternamente se os dois insistem em ter a palavra final. E fazer isso virtualmente fica mais ridículo ainda. Eu levo muito à sério lei de Murphy que diz: Nunca discuta com um idiota. As pessoas podem não saber quem é quem. Nas brigas que me meti, reconheço minha parcela de idiotice: se percebo que certos contatos vão dar merda, por que não me afastei antes? Conclusão: se não fui inteligente a ponto de evitar o confronto, posso pelo menos não ser idiota a ponto de publicizar.

Fight!

Antigamente a gente não tinha acesso aos ídolos. Se você escrevia pra alguém famoso, no máximo recebia uma foto com um autógrafo carimbado. Ou seja, o ídolo nem soube da sua carta. Agora com a internet todos ficamos mais próximos – escrever na comunidade do seu ídolo no orkut, mandar um comentário no blog, escrever uma resposta pela twitter. Assim, também ficou mais fácil aborrecer uma celebridade. Vejam como o Rafael Cortez perdeu todo tesão pelo blog depois de ter sido criticado pelo CQTeste do Ronaldinho. Anteontem o mesmo cara que me xingou na final do BBB, recebeu um vai tomar no cu do Danilo Gentilli por ter feito campanha de unfollow (isto é, campanha para deixarem de seguir o Danilo Gentilli). Ontem teve briga de grandes: Diogo Mainardi e Marcelo Tas. Perto do twitter, as brigas no orkut são de trincheiras.

Quem disse que vida de famoso é fácil? Canalizar mais atenção não quer dizer que ela seja boa…